e os clipes nacionais não param de ser lançados. rolando um
boom daqueles. e nessa terça, 24 de julho, saíram três ao mesmo tempo. “pra
sonhar” é do disco de estreia de marcelo
jeneci, de 2010 portanto, mas só veio à tona agora em forma colaborativa
com um chamado na internet por imagens de casamento. o resultado é emocionante,
música e clipe feitos na medida para fazer qualquer ouvinte-espectador beijar a
lona diante de tamanha fofice.
daí vem felipe cordeiro
com seu “legal e ilegal”, música de seu disco de estreia, kitsch pop cult (ná music), que foi lançado de forma independente
no ano passado, mas tá ganhando mais divulgação por agora mesmo. a música é
divertidíssima, tem uma letra tremendamente atual, e o clipe dirigido por
brunno regis e carolina matos – com produção executiva de priscilla
brasil – ficou a altura. sem falar nas participações de dona onete, manoel
cordeiro (guitarrista pai de felipe), keila gentil (gang do eletro) e andré
abujamra, o produtor do disco.
finalizando esse post, uma música-clipe novinho em folha. “alteração
(éa!)” é do discaço sintoniza lá (coqueiro
verde), o segundo e muy esperado disco de bnegão & os seletores de
frequência, e ganhou esse clipe com cara de curta esperto dirigido por
emílio domingos.
eles estão de volta por ali, por aqui, em todo lugar (só você que não tá vendo?)... saca só essa instrumental novinha em folha com pitadinhas do "bolero" de ravel aqui, do "carinhoso" do pixinguinha acolá...
não consegui acabar esse texto para o dia do aniversário de são paulo (25 de janeiro) e saiu um dia depois, mas não acho que foi por isso que teve tão pouca repercussão. não importa, achei que ficou legal e tem umas coisas aí que venho pensando faz tempo. enfim, o show não pode parar e já está no ar "o país da internet moleque", sobre a bem humorada relação dos brasileiros com o tumblr. simbora.
de vez em quando chamo são paulo de gotham city (não é exclusividade minha, claro) e foi sensacional ver esse foto com batman como motorista de busão. ainda mais porque é em fortaleza, minha terra natal. tudo em casa.
SÃO PAULO, VELHA E LOUCA
Tudo em São Paulo é um pouco torto. Cheio de ramificações e
um pouco torto, fora do lugar. Com a música não seria diferente. Talvez sejam
misturas demais, ou uma combinação peculiar de seriedade com humor
autodepreciativo, mas o fato é que poucos artistas (nativos ou não) da cidade se
tornaram conhecidos em todo o país (cidade que, aliás, fez ontem 458 anos). Lembro
agora de cabeça, e claro que tem mais gente, da Inezita Barroso na década de
1950, d’Os Mutantes no fim dos anos 1960, de Adoniran Barbosa e Os Demônios da
Garoa, tardiamente, nos 70, das bandas Titãs, Ira!, Ultraje a Rigor e RPM na década
de 80, do rap dos Racionais MCs e do pagode de Exaltasamba, Art Popular e Raça
Negra nos 90. Cada uma dessas histórias é diferente da outra, mas todas são
profundamente paulistanas. De qualquer forma é pouco perto da enorme quantidade
de sucessos musicais brasileiros.
Procurar entender isso, sacar que intensa não-identidade
musical é essa que o país às vezes compra e muitas vezes não, acabou virando interesse
pessoal desde que comecei a viver aqui em 1994. Mas quando passei de ouvinte
amador a profissional – em 2001 fundei com um grupo de amigos o site Gafieiras, com grandes
entrevistas musicais, no qual fiquei por uma década –, o que era obsessão leve
ficou preocupação aguda.
Então fui acionando túneis do tempo e viajando pelos sambas
de Paulo Vanzolini, Geraldo Filme, Eduardo
Gudin e Germano
Mathias, pelo balanço do Trio Mocotó, Skowa e Branca di Neve, pelas
experimentações de Arrigo Barnabé e Rumo (a turma de Ná
Ozzetti e Luiz Tatit), pelo rock de Fellini, Akira S e Violeta de Outono, e
muito muito rap (Thaide & DJ Hum, Athalyba e a Firma, etc). Até punk.
Nessa época já conhecia bem a dupla Mauricio
Pereira e André
Abujamra (Os
Mulheres Negras) e Itamar
Assumpção, outras caras cruciais de São Paulo. Quer dizer, só esse pouco
mencionado dá uma boa ideia de que é impossível fazer um retrato-falado da
música negra, branca, atonal, pop, caipira e o diabo a quatro dessa cidade.
Por isso falei de “não-identidade” e também por causa de um
dos textos que mais me fez entender o que é a música popular de São Paulo, e
que foi publicado pela Folha
de S. Paulo em julho de 2001 (olha o ano do astronauta libertado de Tom Zé,
o baiano paulistano, e Mutantes de novo). Nele, o professor e compositor Zé
Miguel Wisnik disse que “com exceção da música caipira, guardada
tradicionalmente na voz encorpada e reta de Inezita
Barroso, em São Paulo não se criaram os gêneros. Aqui eles se encontram, se
misturam, se desmancham, são processados e reprocessados e tratados muitas
vezes com aquela distância relativizante de que se investem as coisas quando
elas são sabidamente de empréstimo”. Tudo é aqui, nada é daqui (nem falarei da
grande quantidade de músicos de fora de São Paulo que fizeram seu trabalho na
cidade; isso é um grande capítulo à parte).
A impressão que tenho é que em cidades como Salvador, Rio de
Janeiro, Recife, Porto Alegre e Belém, os sons e o ritmo vem antes de tudo, muito
antes do verbo. Um exemplo singelo: poucas coisas são tão cariocas quanto um
mineiro radicado no Rio. Em São Paulo não. Tudo existe fora, antes, e é nela
que tudo se mistura. Não é um rosto fácil de identificar. Nem de gostar também.
Daí talvez nasça certa dificuldade do Brasil com a música de São Paulo e, ao
mesmo tempo, um fascínio de artistas de tudo que é canto com essa enorme
variedade de possibilidades. Em alguns lugares isso se chama liberdade, n’outros
é caos mesmo.
Todo esse acúmulo de histórias, desenraizamentos,
experiências, paixões, horrores e vivências gerou nos anos 2000 uma das
gerações de músicos mais interessantes e (ainda mais) diversas da história de
São Paulo. É a terra que continua quebrando o samba no trabalho de artistas
como Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Romulo Fróes e Douglas Germano. É onde o rap
ganhou corpo e força com gente como Criolo, Emicida, Lurdez da Luz, Rodrigo
Ogi, Flora Matos e CaGeBe. É nela que a música instrumental perdeu o medo de
ser, de alguma forma, pop e experimental (vide Hurtmold, MarginalS, Bixiga 70 e
Guizado). É por onde escoam as novas vozes femininas de Tulipa Ruiz, Anelis
Assumpção, Céu, Andreia Dias, Mariana Aydar, Iara Rennó, Luisa Maita e Mallu
Magalhães. Falei do balanço moderno de Curumin ou do lirismo de um dos maiores descendentes
de Roberto Carlos, o cantor e compositor Marcelo Jeneci? Ora pois, estou
falando agora e só arranhando a pontinha desse Minhocão.
Não dá para prever quem deles(as) serão os novos Mutantes,
as novas Inezitas, direto da Terra da Garoa para o Brasil (será que é preciso?).
Por outro lado, o sucesso de hoje também não é o mesmo do tempo das gravadoras
e discos de ouro. Enquanto isso, São Paulo continuará sendo...
p.s. 1: pouco antes de começar a escrever esse texto vi o
clipe mais recente de Mallu Magalhães (“Velha e Louca”) e, de repente, a letra
da música, tão confessional do atual estado de espírito da cantora, me pareceu
uma ótima descrição de São Paulo. Acabou inspirando o título da coluna. “Pode
falar que eu não ligo, / Agora, amigo, / Eu tô em outra, / Eu tô ficando velha,
/ Eu tô ficando louca / (...) / Pode falar, não importa / O que eu tenho de
torta, / Eu tenho de feliz, / Eu vou cambaleando / De perna bamba e solta”, canta
a ex-menina.
p.s. 2: dias após publicar o texto no Yahoo veio a notícia da morte súbita do diretor desse clipe da Mallu. Paulo Gandra tinha 28 anos e estava em Londres.
p.s. 3: também após a publicação do texto fiquei sabendo da existência desse vídeo com Criolo cantando Itamar Assumpção e lamentei não ter colocado lá no Yahoo. Depois vi que não ia ter jeito mesmo. Precisava de uma música/video que mostrasse bem claramente o humor paulistano (nada melhor que Mulheres Negras) e não podia ficar sem o clipe da Mallu (afinal, foi a música que deu o título à coluna). Mas aqui a história pode ser reescrita, então escutem só Criolo cantando "O tempo todo", que surgiu na Caixa Preta em interpretação de Seu Jorge.
dia de folga tem dessas coisas... pelo twitter do ritchie vi essa entrevista ótima d'os mulheres negras pro jô soares em 1988, um pouco antes do lançamento do primeiro disco (música e ciência) da dupla formado por mauricio pereira e andré abujamra. imagine só, penteados malucos, roupas idem, luma de oliveira na platéia, fita k-7, um jô quase simpático e os mulheres anarquizando daquele jeito deles (impagável o momento em que o pereira diz que o fanzine oficial do grupo, o 20908, pode ser pirateado a vontade, muito antes do creative commons). segue a entrevista em três partes.
ah, os mulheres negras. como gosto desses caras. não lembro como os conheci, mas morava em ribeirão preto na época, final da década de 1980, começos dos 90. lembro também de uma minissérie doidona feita pela globo (sampa) que teve trilha assinada por eles. com certeza foram muito importantes pr'uma imagem de são paulo, a cidade, que estava sendo criada na minha cachola, junto com titãs, ira!, ultraje a rigor e novelas da globo como vereda tropical. acho que nessa época não fazia ideia que são paulo seria o meu futuro, a minha cidade. agora, para minha surpresa, e um pouco antes deles anunciarem o fim da dupla, os mulheres negras aportaram em ribeirão preto, acho que em 1991. e lá se fui eu com o mano fernando. puta show. até pouco tempo atrás ainda guardava o ingresso. e tenho, claro, os dois discos: música e ciência (1988) e música serve para isso (1990).
continuei acompanhando a carreira de ambos, e ainda mais de perto depois que vim pra são em 1994. vieram os primeiros discos solo do mauricio pereira e o karnak do andré abujamra, fui em shows e acabei os conhecendo pessoalmente via gafieiras. dois caras muito bacanas, engraçados, francos e nada "artistas", mas confesso que meu interesse pelo pereira se manteve firme e forte, enquanto pelo abujamra foi diminuindo já no finalzinho do karnak (as letras do abujamra, que é um grande músico, começaram a me constranger de alguma forma, principalmente pela ingenuidade de suas mensagens).
agora, com vocês, "sub", uma versão genial e paulistaníssima de "yellow submarine".