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domingo, 31 de maio de 2015

plataforma brasileira de política de drogas

aconteceu nesta semana, no salão nobre do largo são francisco em são paulo, o lançamento da plataforma brasileira de política de drogas, mais um importante passo na luta contra o estúpido proibicionismo que vem, entre outros danos, matando e encarcerando a juventude pobre e negra do brasil, dos estados unidos e de tantos outros países. esse é um tema muito caro a mim e fui acompanhar o lançamento por também ter amigos envolvidos - um salve aí pro bróder maurício fiore. foi uma noite com vários discursos fortes, urgentes, necessários, mas o de abertura, proferido pelo advogado cristiano maronna, secretário executivo da plataforma, resume muito bem toda violência ignorante do proibicionismo e a necessidade urgente por mais reflexões, alternativas e liberdades. saca só.


"É com muito orgulho que lançamos nossa Plataforma Brasileira de Política de Drogas. E não haveria lugar mais apropriado para isso do que a quase bicentenária Faculdade de Direito do Largo São Francisco, alma mater das liberdades, morada da amizade e da alegria.

São diversos os caminhos que nos trouxeram a este momento histórico. Muitos caminhamos juntos há tempos. Com outros, ainda estamos acertando o passo para seguirmos juntos ao mesmo destino. E ainda queremos encontrar outros para fortalecer nossa caminhada, porque temos certeza de que já não é possível ignorar a situação trágica que vivemos. Todos. Os que usam e também os que não usam drogas.

Somos moradores e moradoras de favelas e das periferias que convivem com a morte de familiares e amigos em uma guerra cujo sentido não se pode compreender. Somos médicos e médicas que querem tratar pacientes com o remédio adequado para suas enfermidades. Somos militantes de movimentos sociais na luta contra o genocídio da juventude, principalmente da juventude negra, nas cidades brasileiras. Somos cientistas cujas pesquisas com substâncias ilegais estão interditadas pela guerra ás drogas e que percebem que os males causados pela proibição são muito maiores do que aqueles que as drogas podem causar. Somos usuários e usuárias de drogas ilícitas que não aceitam a tutela autoritária e hipócrita do estado sobre corpos e mentes, que não aceitam a exposição a um mercado clandestino de drogas sem nenhum controle sanitário, que não aceitam os abusos policiais. Somos profissionais de saúde e ativistas antimanicomiais que percebem que os usuários problemáticos de drogas são alvo de tratamentos desumanos e cruéis, centrados no encarceramento e no interesse mercantil. Somos cientistas sociais que identificam na guerra às drogas uma guerra contra os mais pobres e os grupos historicamente discriminados. Somos os growers que rompem os vínculos com o crime organizado por intermédio do autocultivo e que sofrem implacável perseguição por parte dos agentes da repressão estatal. Somos os negros e negras que moram nas periferias e que ao serem flagrados com drogas são enquadrados como traficantes, a despeito da pequena quantidade da substância apreendida. Somos as mulheres que carregam drogas em seus corpos nas visitas a parentes e amigos presos e que acabam presas também. Somos aqueles chamados de “zumbis” nos lugares degradados das cidades, cujas vidas de sofrimento e privação são esquecidas para que simplisticamente nos vejam como vítimas de uma substância. Enfim, somos todos os cidadãos e cidadãs que sofrem com o crime e com a corrupção e que vêem policiais matarem e morrerem sem alterar em nada o mercado de drogas ilícitas.

Queremos conviver pacificamente com substâncias capazes de alterar a consciência ordinária. Queremos um cenário de regulação responsável para as substâncias capazes de causar prejuízo à saúde. Queremos informações verdadeiras e cientificamente embasadas, aptas a educar a população respeito do consumo de drogas. Queremos que o usuário de drogas seja visto não como um doente, mas como um sujeito de direitos.

Uma política de drogas deve garantir e promover direitos, não excluí-los. Por isso combatemos a massificação da internação forçada para usuários problemáticos e repudiamos o repasse de recursos públicos a comunidades terapêuticas e religiosas. Basta de uma política de drogas bipolar, que demoniza uma substância com comprovadas propriedades terapêuticas, como a cannabis, e negligencia os danos causados pelas bebidas alcoólicas, cuja propaganda é, ainda hoje e inacreditavelmente, permitida, estimulando o consumo desta substância extremamente perigosa e que pode inclusive levar à morte por overdose.

A Plataforma Brasileira de Política de Drogas surge como construção essencialmente coletiva em função desta realidade que precisa ser transformada. Temos a missão de fortalecer todos os atores que se percebem afetados pela política de drogas atual e que lutam por mudanças. Resultado de uma articulação que vem sendo feita nos últimos anos, reunimos organizações de todo o país e que atuam em diferentes áreas, saúde, justiça, direitos humanos, redução de danos, combate ao racismo, ao machismo, à homofobia. Ajudamos a organizar o Congresso Internacional de Drogas, em 2013 e percebemos a importância de articular uma ação conjunta  que potencialize a atuação de nossos membros. Percebemos também que o Brasil precisa ser parte do movimento global de questionamento do paradigma proibicionista e da insana guerra às drogas e que temos uma chance importante na reunião exclusiva da Assembleia da ONU sobre o tema que acontecerá no ano que vem, a UNGASS 2016. Contamos, para isso, com a parceria de membros da Plataforma, como a Conectas, a Reduc, a ABGLT e o Instituto Igarapé. Também fazem parte da Plataforma: Centro de Referência Sobre Drogas e Vulnerabilidades Associadas (CRR/FCE/UNB); Instituto Terra, Trabalho e Cidadania (ITTC); Associação Brasileira de Estudos Sociais do Uso de Psicoativos (ABESUP); Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Travestis e Transexuais (ABGLT); Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos Sobre Drogas (ABRAMD); Associação Brasileira de Redução de Danos (ABORDA); Associação Brasileira de Saúde Mental (ABRASME); Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO); Associação Juízes para a Democracia (AJD); Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (CEBES); Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID-UNIFESP); Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESEC) da Universidade Cândido Mendes; Conectas Direitos Humanos; Centro de Direitos Humanos e Educação Popular (CDHEP); Growroom; Grupo de Pesquisas em Política de Drogas e Direitos Humanos da UFRJ; Grupo de Trabalho do Programa Álcool, Crack e Outras Drogas da Fundação Oswaldo Cruz; Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM); Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD); Instituto Igarapé; Instituto Sou da Paz; Rede Pense Livre; Laboratório de Estudos Interdisciplinares Sobre Psicoativos da Unicamp (LEIPSI); Núcleo de Estudos Interdisciplinares Sobre Psicoativos (NEIP); Observatório Baiano Sobre Substâncias Psicoativas (CETAD); Plantando Consciência; Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo (PROAD-UNIFESP); Rede Brasileira de Redução de Danos e Direitos Humanos (REDUC); Rede Cidade Fala; Rede Latinoamericana de Pessoas que Usam Drogas (LANPUD). Fazem parte do Conselho Consultivo da Plataforma: Antonio Lancetti; Antonio Nery; Aldo Zaiden; Beatriz Vargas; Bia Labate; Dartiu Xavier da Silveira; Denis Russo Burgierman; Edward Macrae; Elisaldo Carlini; Henrique Carneiro; Ilona Szabó; José Henrique Torres; Julita Lemgruber; Luciana Boiteux; Luiz Eduardo Soares; Maurides Ribeiro; Maria Rita Kehl; Paulo Amarante; Salo de Carvalho; Sidarta Ribeiro; Sueli Carneiro; Sérgio Salomão Shecaira.

E hoje temos também o lançamento em São Paulo da campanha “Daproibição nasce o tráfico”, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), da Universidade Cândido Mendes, sob a liderança de Julita Lemgruber. A campanha, realizada por meio de cartuns dos mais importantes cartunistas brasileiros, chama à atenção para a irracionalidade da guerra às drogas. No Rio de Janeiro, os cartuns foram exibidos nos ônibus por aproximadamente um mês. Em São Paulo, os ônibus começaram a circular com os cartuns no dia de ontem, mas hoje Julita recebeu uma ligação da empresa que comercializa propaganda em ônibus intermunicipais, informando que os cartuns serão retirados dos ônibus porque fazem apologia às drogas. Parece piada, mas não é. É censura gerada pela ignorância que se alimenta da intolerância proibicionista. Alguém já disse que no Brasil o realismo fantástico não pegou porque a realidade faz concorrência desleal.


Outro exemplo clássico: em São Paulo, a Marcha da Maconha, realizada todos os anos em mais de quinhentas cidades ao redor do globo, foi sistematicamente proibida, mercê de decisões judiciais proferidas pelo Tribunal de Justiça, sempre em atendimento a pedidos formulados pelo Ministério Público, sob o pífio argumento de que postular a reforma da política de drogas se confunde com a apologia ao crime e o estímulo ao consumo de drogas. Foi necessário que a Suprema Corte se manifestasse para dizer o óbvio: liberdade de manifestação inclui o direito de pedir mudanças na lei de drogas.


Por aí se percebe a dificuldade de debater política de drogas em bases racionais, dada a tradição autoritária da nossa sociedade e o fundamentalismo que permeia o paradigma proibicionista.  


Estamos todas e todos aqui reunidos, membros e parceiros da Plataforma, porque cada um de nós, em algum momento, individualmente ou em nome das organizações-membro, decidimos assumir a responsabilidade pelos diversos problemas que a guerra às drogas causa à nossa sociedade.

É com o peso dessa responsabilidade e com a pressa para salvar cada uma dessas vidas que iniciamos os trabalhos da Plataforma. E, por isso, nos dispomos a dialogar com os diversos meios de comunicação para ajudar a qualificar o debate e a informar sobre os reais danos causados pelas drogas e pela política de drogas. Vamos impulsionar e articular pesquisadores para que tenhamos mais conhecimento sobre o tema. Vamos aos gabinetes de parlamentares, autoridades e suas assessorias apresentar dados e argumentos que embasem propostas de mudança na política de drogas do Brasil. Vamos dialogar com diversos movimentos sociais e organizações políticas para fortalecer nossa capacidade de mudança. Temos um compromisso com o resultado da nossa ação política, pois ela deve ser capaz de responder aos problemas identificados. Ao mesmo tempo, temos a responsabilidade de potencializar ações já iniciadas pelas organizações que compõem a Plataforma, identificando oportunidades de parcerias e apoios. A dificuldade da tarefa não nos desanima, antes o contrário: estamos mais motivados do que nunca, porque sabemos que estamos combatendo o bom combate. O tabu moral que tornou possível o surgimento da proibição tem a ver com uma mentalidade medievalesca, a qual, em pleno século XXI, não tem mais lugar. Passou da hora de varrer a proibição para o limbo da história.

Precisamos botar um fim nessa guerra. Há um antigo brocardo latino que diz:  si vis paccem, parabellum, que significa “se queres a paz, prepara-te para a guerra”. É tempo de subverter essa lógica: não queremos mais guerra, queremos paz. A paz que existia na relação ancestral entre seres humanos e substâncias psicoativas e que foi rompida há aproximadamente cem anos deve ser restaurada. Basta! Não se constrói paz com guerra. A paz armada é apenas uma contradictio in adjecto. Paz significa ausência de guerra. Paz significa respeito a estilos de vida contramajoritários. Paz significa diversidade. Paz significa mais tolerância e menos ordem. É isso que nós queremos."   

p.s. 1: agradeço ao guilherme werneck, coordenador de comunicação da plataforma, por ter me enviado o discurso de maronna.

p.s. 2: aqui tem a cobertura fotográfica do evento.

sábado, 3 de novembro de 2012

yahoo #51

nesse primeiro texto yahoozístico pós-campanha escolhi um assunto que queria tratar há tempos: quadrinhos. os últimos anos tem sido sensacionais em termos de lançamentos aqui no brasil e posso falar com conhecimento de causa porque compro e leio quadrinhos nacionais e internacionais desde meados dos anos 1980. na primeira parte, o texto é um apanhado pessoal, enquanto na segunda é um vôo panorâmico sobre os livros em quadrinhos (as tais 'graphic novels') de 2012. quem conhece quadrinhos tá careca de saber de tudo isso, mas é que foi feito como uma apresentação desse mundo pros leitores do yahoo.




CADA UM NO SEU QUADRINHO

Tem gente que até hoje acha que quadrinho é coisa de moleque, criança ou adolescente. Eu descobri criança, ali em meados dos anos 1980, que o buraco era mais embaixo, ou ainda, que os melhores quadrinhos eram aqueles que usavam essa linguagem tão popular para tratar de temas tremendamente adultos. E eles existiam aos montes! Na verdade desde sua origem, na virada do século 19 para o 20, com o extraordinário Little Nemo (1905-14/1924-27), de Winsor McCay. Claro que só fui saber disso muito depois.

No começo eram os super-heróis: Batman, X-Men, Homem Aranha, Hulk, DC Comics e Marvel, aquela coisa toda. Mas aí dentro desse universo comecei a ver coisas diferentes, densas, como Batman – O Cavaleiro das Trevas (Frank Miller, 1986), Elektra Assassina (Miller e Bill Sienkiewicz, 1986-87), Batman: Ano Um (Miller e David Mazzucchelli, 1987), Batman – A Piada Mortal (Alan Moore e Brian Bolland, 1988), Asilo Arkham (Grant Morrison e Dave McKean, 1989) e o Monstro do Pântano de Alan Moore.

E as portas definitivamente se abriram com V de Vingança (Alan Moore e David Lloyd, 1982-85), Watchmen (Alan Moore e Dave Gibbons, 1986-87), Maus (Art Spiegelman, 1986/91), a Mafalda do argentino Quino, a Valentina do italiano Guido Crepax, as moças do também italiano Milo Manara, as aventuras do francês Moebius e o pioneirismo de Will Eisner. No Brasil eram os tempos de Chiclete com Banana (Angeli), dos Piratas do Tietê (Laerte), da revista Circo (editada por Luiz Gê e Laerte) e da saudosa Animal, revista que me fez conhecer um mundo inteiro de artistas de primeira como Tanino Liberatore, Daniel Torres, Fábio Zimbres, Andrea Sapienza, os irmãos Jaime e Gilbert Hernandez, e Lourenço Mutarelli.

Tudo isso que foi citado tinha (e tem) uma coisa em comum: linguagem pop, impacto visual e dedo na ferida (nas mais diversas feridas).


Acredito que nos últimos anos os quadrinhos se cristalizaram como uma das mais relevantes artes populares. E que o mercado editorial brasileiro vem conseguindo dar conta de lançar grandes álbuns estrangeiros e estimular a produção nacional (graças às editoras guerreiras Conrad, Devir e Zarabatana Books, e ao atual poderio da Quadrinhos na Cia.). Não é o ideal, poder ser mais, e ainda é um pouco caro, mas estamos muito melhores do que já estivemos. Basta dar uma olhada nos lançamentos deste ano para se ter pistas disso.

Entre os gringos é possível entender um pouco sobre as relações entre o Oriente Médio e os Estados Unidos em Os Melhores Inimigos (Jean-Pierre Filiu e David B.) ou da história chinesa em Adeus Tristeza – A História dos Meus Ancestrais (Belle Yang). Acompanhar leituras particulares das vidas de grandes personalidades como J. Edgar Hoover (Rick Geary) e Freud (Anne Simon e Corinne Maier) ou de zés-ninguéns como Wilson (Daniel Clowes). E o subgênero ‘confessional’? Está lá em Pagando por Sexo (Chester Brown). Porém, nada melhor que fábulas barra pesada como Pinóquio (Vincent ‘Winshluss’ Paronnaud) e Habibi (Craig Thompson).

Já no Brasil tem o confessionalismo moleque de Momentos Brilhantes da Minha Vida Ridícula (Adão Iturrusgarai), a fantasia Monstros! (Gustavo Duarte), a crônica sexual-racial de Deus Essa Gostosa (Rafael Campos Rocha) e a deliciosa aventura de A Máquina de Goldberg (Vanessa Barbara e Fido Nesti). Destaque especial para os relançamentos luxuosos de Avenida Paulista (Luiz Gê), Diomedes (Lourenço Mutarelli) e Toda Rê Bordosa (Angeli).

Histórias diversas, traços ainda mais, tudo unido em nome de obras que se mostram atualmente mais adultas que o cinema, mais impactantes que a literatura e mais humanas que o noticiário.

p.s.: Até o final do ano deve sair Crônicas de Jerusalém, do sempre excelente Guy Delisle, enquanto não chegam por essas bandas Building Stories (Chris Ware, o mesmo de Jimmy Corrigan) e Journalism (Joe Sacco, de Notícias de Gaza). Sem falar em mais Rafael Coutinho, Rafael Grampá, Dash Shaw, Charles Burns, Marjane Satrapi, Caeto Melo, Alison Bechdel, muita gente boa pra dedéu...

segunda-feira, 23 de maio de 2011

arrebatamento na paulista

nos estados unidos anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar neste 21 de maio de 2011, mas ninguém parecia se importar com o apocalipse no início dessa história. sábado, sol, avenida paulista cheia, céu azul outonal. desço do ônibus em frente ao parque trianon, verde compacto raro na cidade de são paulo, e logo dou de cara com uma grande quantidade policial de carros, motos e soldados. mais do que eu imaginava, bem mais que na marcha da maconha do ano passado.

olho pro outro lado da avenida, no vão do masp, e ouço batuques e gritos. atravesso a rua e a primeira manifestação que vejo é de um grupo de 20 skinheads/neonazis malucos (um pleonasmo, eu sei) cantando o hino nacional e segurando cartazes com escritos do tipo "diga não as drogas / drogas destroem famílias". duas fileiras de policiais os protegiam de, naquela hora, cerca de 500 pessoas que nem ligavam, estavam de costas, nem aí, cantando "ei polícia, maconha é uma delícia". ok, estou oficialmente na marcha.


o grupelho de neonazis, os maiores fãs da polícia militar

de fora parece uma micareta hippie, de dentro também, mas o pessoal que organiza a marcha, acho que quase todos ligados ao coletivo dar (desentorpecendo a razão), é bastante sério e corajoso. o que não adiantou em nada na hora que constataram que o megafone estava de farol baixo, pilha fraca ou algo assim, e não conseguia dar conta a todos do que seria feito e de que jeito. por volta das 14h30, e já ao lado dos bróders mauricio fiore e giovanni cirino (pouco depois apareceria cristiano bromberg), comecei a ouvir os gritos de "vamos para paulista".

todos rumaram para a avenida e pararam na calçada para saber o que aconteceria em seguida. sem comunicação entre organizadores e batuque, demorou um pouco até todos perceberam que precisavam sentar para ouvir. e o batuque calou (nessa hora os neonazis aproveitaram para novas provocações, devidamente e rapidamente soterrados por gritos, xingamentos e palavras de ordem como “onha, onha, onha, plínio salgado fumava maconha”).


foto recorte transversal do início da marcha;
tinha mais gente na frente e atrás

o que se seguiu foi um daqueles momentos mágicos, piegas para alguns. centenas e centenas de pessoas sentadas no vão do masp ouvindo e repassando em voz alta a mensagem da organização da marcha, da primeira fileira até a última, um jogral em forma de onda.

por decisão judicial, a marcha da maconha foi considerada mais uma vez ilegal em são paulo, e mais uma vez a decisão saiu no começo da noite da sexta, sem dar chance para apelação. o honorabilíssimo desembargador teodoro cerilo mendez fernandez, espanhol gente fina condenado por espancamento em campos do jordão na década de 1990, declarou que a marcha era pretexto para fumarem em público fazendo apologia da droga ilegal. claro que não atentou para o fato, coitado, que discutir um assunto não é o mesmo que cometê-lo (ou falar sobre hitler é defender o nazismo?).

e, igualzinho a marcha 2010, o que era para ser uma chamada pública para colocar a questão da maconha no debate (alternativas ao proibicionismo, cultivo caseiro, etc.) teve que se transformar em uma manifestação pela, veja só, liberdade de expressão. quer dizer, uma democracia não é bem uma democracia quando um assunto não pode ser discutido, né não? porque essa história não é uma luta para que os maconheiros possam fumar o seu em paz, é muito mais do que isso, é uma tentativa de pensar em soluções para a violência urbana, o fim do tráfico de drogas, questões de saúde pública e também, obviamente, liberdade de expressão. as leis não são imutáveis, as sociedades também não, portanto viver numa sociedade democrática requer eterno diálogo, é casamento de todos com todos pra vida toda.

enfim, consequência prática dessa ilegalidade judiciária? entre os manifestantes não poderia haver nenhuma menção a maconha, nem nos cartazes nem em camisetas, e só assim a caravana poderia seguir. houve um acordo ali na hora entre o comando da polícia estadual (na figura do capitão benedito del vecchio) e a organização, e alguns jornalistas como ricardo galhardo (ig) foram testemunhas (video aqui). não haveria nenhuma menção visual a “erva maldita”, mas não teria como evitar palavras de ordem e coisa e tal. tudo certo e marcha seguiria por uma faixa pela paulista no sentido da avenida consolação até o centro da cidade. o relógio girava ali pelas 15h. pé na avenida, sol forte e bonito na cara.


o início da marcha na paulista, tudo ainda corria bem

achei estranho não ter nenhum policial nas laterais da marcha, mas tudo bem, melhor assim. outros também acharam e começaram a acender baseados. chegamos a convencer um grupo de jovens restarts a apagar o seu porque poderia ser pretexto para a polícia entrar. poucos passos na frente outros foram acesos e já não deu para controlar. foram também uma parca minoria e tenho certeza que isso não foi, e nem poderia ou deveria, ser motivo para o que aconteceu em seguida. certo mesmo é que depois de apenas dois quarteirões o comando da polícia militar do estado de são paulo decidiu que não queriam mais honrar o acordo e que, naquele momento, aquelas mil pessoas deveriam desobstruir a avenida por mal ou por mal.


a parte da frente da marcha, pouco antes
das primeiras bombas estourarem

estava na rabeira da marcha e vi quando começou. não houve provocação de nenhum tipo. houve apenas a decisão unilateral de acabar com aquilo do pior jeito possível. uma “bomba de efeito moral” estourou e a surpresa foi geral. como assim? jura? antes da próxima bomba explodir uma cena insólita e muito reveladora acontece: os neonazis aplaudem a brutalidade da polícia. não corro, fico meio em estado de choque, acreditando que foi só um “efeito moral”. mas novas bombas estouraram no cruzamento com a augusta junto com o bom e velho gás lacrimogêneo. logo depois foi a hora das balas de borracha, sempre na altura do peito ou do rosto, mas principalmente nas costas. e a confusão começou assim, democraticamente, com a polícia atirando pelas costas (nas costas!) de uma manifestação popular e pacífica.



não tô acreditando nisso! não deveria ser surpresa, claro, principalmente em se tratando de uma polícia que anualmente bate em professores, espanca estudantes, etc. só que ali, perplexo e no meio da ação, eu não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo. era tudo muito gratuito. então, no cruzamento com a rua haddock lobo, próximo a igreja são luis, uma nova leva de bombas e gás fez com que eu me perdesse do mauricio, do giovanni e do cris (e o estilhaço de uma delas me acertou no peito, perto do pescoço, e soube depois que o giovanni também foi atingido). o choque estava apertando o passo, quase correndo, e chegando mais perto da marcha que, a essa altura, já tinha virado na consolação.

pouco antes dessas bombas estourarem vi um casal de adolescentes, estudantes do colégio são luis, na esquina da haddock lobo com a paulista. ela olhava meio fascinada para a tropa que avançava. não era admiração, era algo como “nossa, que real”. passei correndo por eles e segundos depois... estouros, ondas de choque se espalhando pelo ar, bem entre a gente. não vi mais nada depois. não sei se a realidade atingiu aquela moça como um meteoro, mas fiquei sabendo que muita gente que não tinha relação com nenhum dos lados da história recebeu sua dose de gás, susto e grosseria (motoristas parados, pedestres, famílias, crianças, fotojornalistas sempre no fogo cruzado, etc.)


souvenir de sábado

nessas também perdi a marcha. a polícia me ultrapassou no pique e rumou para o centro, pela consolação, atirando sempre, de tempos em tempos, aboiando a multidão para dispersá-la. pedro alexandre sanches cruzou o caminho com a marcha, agora marcha atlética, no começo da consolação e escreveu seu relato no texto “augusta, angélica e consolação”. e eu reencontrei mauricio ali pelo falecido cinema belas artes. continuamos descendo, junto com muitas outras pessoas que também ficaram para trás, para ver se alcançávamos o que sobrou daquela tarde.

tudo parecia mais rápido e ao longe a tropa seguia atirando, todos correndo. meio sem fôlego, boca seca, olhos ardendo, ficamos tentando entender o que podia ter dado errado, mas na maioria das vezes só falamos mesmo do quão canalha pode ser uma polícia como a de são paulo e o estado que permite que esse tipo de coisa aconteça. bruno torturra, da revista trip, que esteve na marcha de cabo a rabo e escreveu seu relato em “não somos conduzidos, conduzimos”, deu uma dica para esse clima repressivo na cidade: 25 das 31 subprefeituras são comandadas por coronéis da reserva (texto aqui do deputado estadual adriano diogo). ah, mas a polícia militar é do estado! pois é, mas a guarda civil metropolitana entrou na bagunça, como veremos adiante.

na altura do cemitério da consolação uma correria do nada fez com que eu me perdesse novamente do mauricio. alguns policiais estavam de moto empurrando, com a própria máquina e singelos chutões, os manifestantes para a calçada. dei uma corrida para ver se alcançava alguma coisa, mas acabei atravessando a avenida para comprar uma água no posto de gasolina. desanimado, perdido, com o peito ardendo e um pouco de sangue sujando a gola da camiseta, pensei se talvez não fosse hora de voltar para a casa. derrotado. como em 2010, só que pior.

não. vamos lá. desço agora pelo canteiro central da consolação e testemunho um outro motoqueiro policial chutando as pessoas para a calçada. pouco depois reencontro mauricio pela segunda vez. nada de giovanni e nem cris. chegamos a praça roosevelt toda cercada de tapumes e nem um sinal da manifestação, mas dezenas de motos, carros e soldados da polícia (alguns felizes, eufóricos mesmo), inclusive o tal motoqueiro chutador que acertou uns jornalistas e, para eles, deu a desculpa que estava sem freio.


cartum do francês wolinski, lembrado por @arnaldobranco

para onde todos foram? a dispersão deu tão certo assim? passamos pela biblioteca mário de andrade e chegamos na praça ramos, no teatro municipal. nada. nem sinal. não dava mais, cansado e frustrado decidi ir embora. mauricio também, ia resgatar o carro que tinha ficado no metrô vila madalena e do futuro imediato não sabia (um colega seu pesquisador, henrique carneiro, foi machucado na cabeça e ele conhecia vários dos organizadores da marcha, sendo que alguns tinham sido presos por distribuir o anti-proibicionista). o ônibus subiu a consolação e não era possível ver nenhum vestígio do que tinha acontecido por ali uma hora antes. a higienização repressiva comandada pela prefeitura e o estado de são paulo funciona como uma máquina bem azeitada. a rua pode estar um lixo, os pontos de ônibus em frangalhos, o asfalto cheio de buracos, o metrô insuficiente, não importa, o que interessa mesmo é que manifestações não existam ou não atrapalhem o trânsito do contribuinte (não somos todos?).

pra mim, por volta das 17h, tudo parecia perdido. “eles” conseguiram, mais uma vez. quando cheguei em casa descobri que o núcleo principal da marcha não tinha se dispersado, deu a volta no centro e subiu pela rua augusta rumo a delegacia de polícia nos jardins para onde tinham sido levados alguns detidos. aí a coisa ficou mais feia porque todos estavam mais próximos e a polícia militar decidiu usar cassetetes, chutes e spray de pimenta (e, o melhor, dando ordens para a guarda civil metropolitana ajudar na selvageria). o vídeo abaixo, feito pelo pessoal da folha, é o que melhor mostra o grau de selvageria gratuita da polícia do psdb. aliás, um parênteses para você que acha que é falta de maturidade política (ou coisa de petista) falar de psdb/dem/psd/tucanos numa hora dessas: você está redondamente enganado! só partidos isolacionistas e sabidamente arrogantes como o psdb - na mesma hora da bagunça na paulista, josé serra, em seu mundo parelo e bonito, puxava pra si a sardinha da beatificação da irmã dulce, veja só -, e que sofrem daquelas eternas dificuldades de diálogo com a sociedade civil e movimentos sociais, poderiam estimular e acobertar violências assim.



o pessoal que tomou porrada na rua augusta conseguiu chegar na delegacia de polícia dos jardins e, consequentemente, fechar a rua estados unidos. lá foram recebidos por policiais sem identificação, tática comum na ditadura, pois não? e por lá todos ficaram até que os detidos fossem liberados (foram recebidos por um coro de “maladragem dá um tempo”, e é importante que o bom humor sobreviva). pois é, anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar. não foi bem um apocalipse o que aconteceu em são paulo no sábado, 21 de maio. ninguém foi arrebatado. pelo menos não rumo ao juízo final.

acredito que quem esteve lá e não pode se manifestar ficou com um travo amargo na boca, uma vontade de ir à forra – tanto que foi marcado para o próximo sábado (dia 28, no mesmo masp, 14h) uma manifestação contra a violência policial. e quem não foi viu, ou deveria perceber logo, que seu cômodo baseadinho ilegal fumado em casa é assunto muito mais importante que as voltas do universo umbigo. é preciso discutir, é preciso tomar a rua (as marchas aconteceram muito bem em porto alegre, recife e rio de janeiro), porque fim do mundo mesmo é essa violenta falta de maturidade de nossas instituições – os cidadãos podem ser imaturos, como muitos de fato são, mas o estado e o judiciário não podem continuar cegos a demandas democráticas e legítimas da sociedade civil.


p.s.: fora os textos linkados no decorrer do relato, vale destacar ainda os ótimos trabalhos de camilo rocha, fausto salvadori e leonardo sakamoto, bem como análises sobre a proibição da marcha escrita por walter hupsel e sobre a violência policial assinada por paula miraglia.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

para o brasil seguir mudando...

segue a íntegra do primeiro discurso de dilma roussef, nossa primeira presidentA. foi um tanto longo, um tanto técnico e a emoção só apareceu quando citou o lula, mas achei uma ótima e importante carta de intenções. afinal, dilma não é lula, e isso é bom.

Minhas amigas e meus amigos de todo o Brasil,

É imensa a minha alegria de estar aqui. Recebi hoje de milhões de brasileiras e brasileiros a missão mais importante de minha vida. Este fato, para além de minha pessoa, é uma demonstração do avanço democrático do nosso país: pela primeira vez uma mulher presidirá o Brasil. Já registro portanto aqui meu primeiro compromisso após a eleição: honrar as mulheres brasileiras, para que este fato, até hoje inédito, se transforme num evento natural. E que ele possa se repetir e se ampliar nas empresas, nas instituições civis, nas entidades representativas de toda nossa sociedade.

A igualdade de oportunidades para homens e mulheres é um principio essencial da democracia. Gostaria muito que os pais e mães de meninas olhassem hoje nos olhos delas, e lhes dissessem: SIM, a mulher pode!

Minha alegria é ainda maior pelo fato de que a presença de uma mulher na presidência da República se dá pelo caminho sagrado do voto, da decisão democrática do eleitor, do exercício mais elevado da cidadania. Por isso, registro aqui outro compromisso com meu país:

- Valorizar a democracia em toda sua dimensão, desde o direito de opinião e expressão até os direitos essenciais da alimentação, do emprego e da renda, da moradia digna e da paz social.

- Zelarei pela mais ampla e irrestrita liberdade de imprensa.

- Zelarei pela mais ampla liberdade religiosa e de culto.

- Zelarei pela observação criteriosa e permanente dos direitos humanos tão claramente consagrados em nossa constituição.

- Zelarei, enfim, pela nossa Constituição, dever maior da presidência da República.

Nesta longa jornada que me trouxe aqui pude falar e visitar todas as nossas regiões. O que mais me deu esperanças foi a capacidade imensa do nosso povo, de agarrar uma oportunidade, por mais singela que seja, e com ela construir um mundo melhor para sua família. É simplesmente incrível a capacidade de criar e empreender do nosso povo. Por isso, reforço aqui meu compromisso fundamental: a erradicação da miséria e a criação de oportunidades para todos os brasileiros e brasileiras.

Ressalto, entretanto, que esta ambiciosa meta não será realizada pela vontade do governo. Ela é um chamado à nação, aos empresários, às igrejas, às entidades civis, às universidades, à imprensa, aos governadores, aos prefeitos e a todas as pessoas de bem.

Não podemos descansar enquanto houver brasileiros com fome, enquanto houver famílias morando nas ruas, enquanto crianças pobres estiverem abandonadas à própria sorte. A erradicação da miséria nos próximos anos é, assim, uma meta que assumo, mas para a qual peço humildemente o apoio de todos que possam ajudar o país no trabalho de superar esse abismo que ainda nos separa de ser uma nação desenvolvida.

O Brasil é uma terra generosa e sempre devolverá em dobro cada semente que for plantada com mão amorosa e olhar para o futuro. Minha convicção de assumir a meta de erradicar a miséria vem, não de uma certeza teórica, mas da experiência viva do nosso governo, no qual uma imensa mobilidade social se realizou, tornando hoje possível um sonho que sempre pareceu impossível.

Reconheço que teremos um duro trabalho para qualificar o nosso desenvolvimento econômico. Essa nova era de prosperidade criada pela genialidade do presidente Lula e pela força do povo e de nossos empreendedores encontra seu momento de maior potencial numa época em que a economia das grandes nações se encontra abalada.

No curto prazo, não contaremos com a pujança das economias desenvolvidas para impulsionar nosso crescimento. Por isso, se tornam ainda mais importantes nossas próprias políticas, nosso próprio mercado, nossa própria poupança e nossas próprias decisões econômicas.

Longe de dizer, com isso, que pretendamos fechar o país ao mundo. Muito ao contrário, continuaremos propugnando pela ampla abertura das relações comerciais e pelo fim do protecionismo dos países ricos, que impede as nações pobres de realizar plenamente suas vocações.

Mas é preciso reconhecer que teremos grandes responsabilidades num mundo que enfrenta ainda os efeitos de uma crise financeira de grandes proporções e que se socorre de mecanismos nem sempre adequados, nem sempre equilibrados, para a retomada do crescimento.

É preciso, no plano multilateral, estabelecer regras mais claras e mais cuidadosas para a retomada dos mercados de financiamento, limitando a alavancagem e a especulação desmedida, que aumentam a volatilidade dos capitais e das moedas. Atuaremos firmemente nos fóruns internacionais com este objetivo.

Cuidaremos de nossa economia com toda responsabilidade. O povo brasileiro não aceita mais a inflação como solução irresponsável para eventuais desequilíbrios. O povo brasileiro não aceita que governos gastem acima do que seja sustentável.

Por isso, faremos todos os esforços pela melhoria da qualidade do gasto público, pela simplificação e atenuação da tributação e pela qualificação dos serviços públicos. Mas recusamos as visões de ajustes que recaem sobre os programas sociais, os serviços essenciais à população e os necessários investimentos.

Sim, buscaremos o desenvolvimento de longo prazo, a taxas elevadas, social e ambientalmente sustentáveis. Para isso zelaremos pela poupança pública.

Zelaremos pela meritocracia no funcionalismo e pela excelência do serviço público. Zelarei pelo aperfeiçoamento de todos os mecanismos que liberem a capacidade empreendedora de nosso empresariado e de nosso povo. Valorizarei o Micro Empreendedor Individual, para formalizar milhões de negócios individuais ou familiares, ampliarei os limites do Supersimples e construirei modernos mecanismos de aperfeiçoamento econômico, como fez nosso governo na construção civil, no setor elétrico, na lei de recuperação de empresas, entre outros.

As agências reguladoras terão todo respaldo para atuar com determinação e autonomia, voltadas para a promoção da inovação, da saudável concorrência e da efetividade dos setores regulados.

Apresentaremos sempre com clareza nossos planos de ação governamental. Levaremos ao debate público as grandes questões nacionais. Trataremos sempre com transparência nossas metas, nossos resultados, nossas dificuldades.

Mas acima de tudo quero reafirmar nosso compromisso com a estabilidade da economia e das regras econômicas, dos contratos firmados e das conquistas estabelecidas.

Trataremos os recursos provenientes de nossas riquezas sempre com pensamento de longo prazo. Por isso trabalharei no Congresso pela aprovação do Fundo Social do Pré-Sal. Por meio dele queremos realizar muitos de nossos objetivos sociais.

Recusaremos o gasto efêmero que deixa para as futuras gerações apenas as dívidas e a desesperança.

O Fundo Social é mecanismo de poupança de longo prazo, para apoiar as atuais e futuras gerações. Ele é o mais importante fruto do novo modelo que propusemos para a exploração do pré-sal, que reserva à Nação e ao povo a parcela mais importante dessas riquezas.

Definitivamente, não alienaremos nossas riquezas para deixar ao povo só migalhas. Me comprometi nesta campanha com a qualificação da Educação e dos Serviços de Saúde. Me comprometi também com a melhoria da segurança pública. Com o combate às drogas que infelicitam nossas famílias.

Reafirmo aqui estes compromissos. Nomearei ministros e equipes de primeira qualidade para realizar esses objetivos. Mas acompanharei pessoalmente estas áreas capitais para o desenvolvimento de nosso povo.

A visão moderna do desenvolvimento econômico é aquela que valoriza o trabalhador e sua família, o cidadão e sua comunidade, oferecendo acesso a educação e saúde de qualidade. É aquela que convive com o meio ambiente sem agredí-lo e sem criar passivos maiores que as conquistas do próprio desenvolvimento.

Não pretendo me estender aqui, neste primeiro pronunciamento ao país, mas quero registrar que todos os compromissos que assumi, perseguirei de forma dedicada e carinhosa. Disse na campanha que os mais necessitados, as crianças, os jovens, as pessoas com deficiência, o trabalhador desempregado, o idoso teriam toda minha atenção. Reafirmo aqui este compromisso.

Fui eleita com uma coligação de dez partidos e com apoio de lideranças de vários outros partidos. Vou com eles construir um governo onde a capacidade profissional, a liderança e a disposição de servir ao país será o critério fundamental.

Vou valorizar os quadros profissionais da administração pública, independente de filiação partidária.

Dirijo-me também aos partidos de oposição e aos setores da sociedade que não estiveram conosco nesta caminhada. Estendo minha mão a eles. De minha parte não haverá discriminação, privilégios ou compadrio.

A partir de minha posse serei presidenta de todos os brasileiros e brasileiras, respeitando as diferenças de opinião, de crença e de orientação política.

Nosso país precisa ainda melhorar a conduta e a qualidade da política. Quero empenhar-me, junto com todos os partidos, numa reforma política que eleve os valores republicanos, avançando em nossa jovem democracia.

Ao mesmo tempo, afirmo com clareza que valorizarei a transparência na administração pública. Não haverá compromisso com o erro, o desvio e o malfeito. Serei rígida na defesa do interesse público em todos os níveis de meu governo. Os órgãos de controle e de fiscalização trabalharão com meu respaldo, sem jamais perseguir adversários ou proteger amigos.

Deixei para o final os meus agradecimentos, pois quero destacá-los. Primeiro, ao povo que me dedicou seu apoio. Serei eternamente grata pela oportunidade única de servir ao meu país no seu mais alto posto. Prometo devolver em dobro todo o carinho recebido, em todos os lugares que passei.

Mas agradeço respeitosamente também aqueles que votaram no primeiro e no segundo turno em outros candidatos ou candidatas. Eles também fizeram valer a festa da democracia.

Agradeço as lideranças partidárias que me apoiaram e comandaram esta jornada, meus assessores, minhas equipes de trabalho e todos os que dedicaram meses inteiros a esse árduo trabalho. Agradeço a imprensa brasileira e estrangeira que aqui atua e cada um de seus profissionais pela cobertura do processo eleitoral.

Não nego a vocês que, por vezes, algumas das coisas difundidas me deixaram triste. Mas quem, como eu, lutou pela democracia e pelo direito de livre opinião arriscando a vida; quem, como eu e tantos outros que não estão mais entre nós, dedicamos toda nossa juventude ao direito de expressão, nós somos naturalmente amantes da liberdade. Por isso, não carregarei nenhum ressentimento.

Disse e repito que prefiro o barulho da imprensa livre ao silencio das ditaduras. As criticas do jornalismo livre ajudam ao pais e são essenciais aos governos democráticos, apontando erros e trazendo o necessário contraditório.


foto da FSP

Agradeço muito especialmente ao presidente Lula. Ter a honra de seu apoio, ter o privilégio de sua convivência, ter aprendido com sua imensa sabedoria, são coisas que se guarda para a vida toda. Conviver durante todos estes anos com ele me deu a exata dimensão do governante justo e do líder apaixonado por seu pais e por sua gente. A alegria que sinto pela minha vitória se mistura com a emoção da sua despedida.

Sei que um líder como Lula nunca estará longe de seu povo e de cada um de nós. Baterei muito a sua porta e, tenho certeza, que a encontrarei sempre aberta. Sei que a distância de um cargo nada significa para um homem de tamanha grandeza e generosidade. A tarefa de sucedê-lo é difícil e desafiadora. Mas saberei honrar seu legado. Saberei consolidar e avançar sua obra.

Aprendi com ele que quando se governa pensando no interesse público e nos mais necessitados uma imensa força brota do nosso povo. Uma força que leva o país para frente e ajuda a vencer os maiores desafios.

Passada a eleição agora é hora de trabalho. Passado o debate de projetos agora é hora de união. União pela educação, união pelo desenvolvimento, união pelo país. Junto comigo foram eleitos novos governadores, deputados, senadores. Ao parabenizá-los, convido a todos, independente de cor partidária, para uma ação determinada pelo futuro de nosso país.

Sempre com a convicção de que a Nação Brasileira será exatamente do tamanho daquilo que, juntos, fizermos por ela.

Muito obrigada

p.s.: e o angeli, genial e sacana como sempre, fez esta charge sobre troca de papéis (com direito a citação ao amigo laerte).


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

laerte da semana #19

ok, estou um pouco obcecado pelo laerte, confesso. vira-e-mexe o sujeito aparece aqui. mas não dá pra fugir de tanta coisa ao mesmo tempo: é um livro novo ali (muchacha), um video acolá e a atual produção incessante & revolucionária de tirinhas. isso sem falar na sua transformação crossdresser (o armando antenore tirou algumas preciosas informações do laerte em ótima entrevista na edição de setembro da bravo). seguem aqui duas recentes tiras quadradas sobre temas quentes do momento: a eleição do tiririca X elites e a falsa questã do aborto.

e aí, nesse final de semana, fuçando nos meus arquivos achei essa foto que tirei do laerte na praça benedito calixto em outubro de 1998. estava assistindo algum show ali na pracinha, olho para trás e vejo DEUS! hehehehe. mas acho que naquela época eu não sabia (ou acreditava) que Ele era Ele. detalhe curioso para o balão amarelo onde se lê covas, que então concorria a governador de são paulo (venceu maluf no segundo turno).

e pra encerrar essa compilação "laertal" um documentário curto que conheci hoje (tudo bem, ele só está no ar a três dias). foi feito por alunos de jornalismo do mackenzie, segundo érika aí nos comentários, e tem participações de angeli, allan sieber e andré dahmer (nem um pio do laerte, claro).

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

malditos sejam...

trailer do documentário malditos cartunistas (2010), da dupla daniel garcia e daniel paiva, que traça um panorama da profissão da ditadura até os dias de hoje. certeza que vai ser divertido, ainda mais com depoimentos potencialmente impagáveis de gente como angeli, allan sieber, lourenço mutarelli, arnaldo branco, laerte e o saudoso glauco.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

rê bordosa, a morta viva

eu ainda não tinha assistido dossiê rê bordosa (2008), de césar cabral, até domingo passado quando passou antes do longa reflexões de um liquidificador (2010), de andré klotzel. foi surpresa boa porque tem sido coisa rara ir ao cinema - e ainda fui acompanhado de meu pai, em passagem relâmpago por são paulo. bem divertido, o curta é um falso documentário em forma de animação que tenta entender porque angeli matou sua memorável personagem lá em 1987, com direito a depoimentos impagáveis do próprio, de ex-mulher e amigos como laerte e toninho mendes (fora uma narração no melhor estilo o bandido da luz vermelha, paulo césar pereio como bibelô e los pirata na trilha). só hoje vi que está no youtube há quase um ano (em duas partes). é isso, camarão que dorme a onda leva. segura.





mais um ótimo making of.



o pessoal do dossiê rê bordosa está pra lançar uma nova animação, tempestade. já tem um trailer e é bem bonito. só esse mar...



p.s.: e reflexões de um liquidificador? klotzel é um cineasta que gostaria de ver mais. pensar que em três décadas ele dirigiu apenas quatro longas é de doer. seu a marvada carne (1985) é uma comédia das mais críticas e dramáticas do cinema brasileiro. de capitalismo selvagem (1993) não lembro muita coisa, além de josé mayer achando que é índio e uma certa (e compreensível) estranheza. memórias póstumas (2001) é uma das melhores adaptações de machado de assis (e o diretor fez ainda um curtas genial, brevíssima história das gentes de santos, de 1996). e aí vem esse despretensioso, e absolutamente paulistano, liquidificador. comédia de humor negro, ligeiramente melancólica, o filme é daqueles que bate diferente. vai crescendo na memória, surpreendendo a cada lembrança. e tem um elenco forte com ana lúcia torre, aramis trindade, selton mello (a voz do liquidificador), fabíula nascimento e o saudoso marcos cesana. se pintar uma chance, assista, afinal não deve durar muito nos cinemas.