lançado em 2011 em poucos cinemas, depois em DVD e, mais recentemente, encartado no livro cadernos inéditos de itamar assumpção (itaú cultural/editora terceiro nome), daquele instante em diante é documentário sensível e essencial sobre um dos maiores e mais inquietos artistas da música popular brasileira dos últimos anos. e o longa dirigido por rogério velloso agora está todo disponível no youtube em HD para que mais pessoas conheçam o nego dito, cantor da pesada, poeta raivoso e apaixonado, moderno e tradicional, e que foi embora cedo demais (10 anos, porra, em 12 de junho serão 10 anos sem ele!). pra ver, rever e ouvir muito.
aproveitando a deixa, acabei não falando de tudo esclarecido (warner music, 2012), disco de zélia duncan que saiu bem no fim do ano e somente com músicas de itamar assumpção. a cantora, como era de se esperar, aplaina o que itamar tem de mais ousado em suas interpretações. por outro lado mostra como ele pode ser pop e acessível (acompanhada de músicos como kassin e marcelo jeneci, e em duetos com martinho da vila e ney matogrosso, outro dos intérpretes mais assíduos de itamar). o resultado é irregular, algumas versões não descem ("tua boca", por exemplo) e outras surpreendem lindamente como essa "noite torta".
atualização: rogério velloso, diretor de daquele instante em diante, também disponibilizou o documentário para download gratuito.
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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
daquele itamar em diante
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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
yahoo #20
olha, esse "custe o que custar, uma ova!", meu vigésimo texto pra coluna ultrapop, foi um dos que mais gostei de fazer. um tanto pelo assunto - a derrocada moralista do cqc me intriga tem muito tempo -, mas ainda mais pela forma que encontrei de escrevê-lo (como uma carta de despedida). enfim, foi divertido de fazer e teve um retorno bem legal, tantos nos comentários (surpreendentemente muitas pessoas concordando comigo, coisa rara) quantos nos 'likes'. agora por lá é a vez de "o nada incrível huck", pro pessoal que comenta no yahoo não sair por aí dizendo que não se fala mal da tv globo, como aconteceu nesse texto do cqc. resultado? outro tanto de gente falando que meu mal é inveja. vai entender...

CUSTE O QUE CUSTAR, UMA OVA!
Lembro como se fosse ontem: 17 de março de 2008. Já passava das 22h quando nossos olhos se cruzaram pela primeira vez. Foi amor à primeira vista, pode acreditar. Eu vinha de uma série de relações breves, não conseguia me deixar levar por ninguém, e quando você apareceu... nossa, era o programa de humor, na televisão aberta, que estava esperando por toda minha vida (mentira, vivi um lance muito forte com a TV Pirata, mas sabe como são essas coisas do coração, né?).
Um humor corrosivo e de cara limpa, sem o apoio de bordões, de olho na pompa ridícula de políticos e celebridades, além de um pé no jornalismo no quadro sobre os desperdícios e desmandos do poder público. Ah, CQC, como eu te amei! Tanto sua bancada de três cabeças-línguas quanto seus comediantes-repórteres, cada um a seu jeito.
Foi um ano lindo, lua-de-mel e amendoim todas às segundas, e era gostoso a gente se encontrar, a risada rolava fácil, assunto não faltava. Então encontrei, exatamente nessa época, sua cabeça mais brilhante e fiquei encantado. Na entrevista que deu origem a matéria “Entende o mundo quem ri melhor”, Tas me disse coisas como: “Nós não podemos fazer o que estamos criticando, ou seja, denúncias vazias, explorar fatos de uma maneira exagerada, fazer perguntas que não são pertinentes. (...) Não queremos virar os justiceiros ou a patrulha da moral e dos bons costumes”. Eu, cego de paixão, acreditei.
O primeiro ano se passou, a segunda temporada entrou no ar e segui fiel. Algumas coisinhas começaram a me incomodar, mas achei que era implicância, imaturidade minha. Qual o problema de cada matéria vir precedida por um comercial interminável e engraçadinho com os próprios integrantes do programa? Que mal há em cortar a resposta do entrevistado deixando na edição final apenas a pergunta-polêmica do repórter? De qualquer forma, comecei a perder um episódio ou outro. Vejo depois na internet, dizia para os meus botões, sem querer aceitar que a gente estava se distanciando.
Aí, na terceira temporada em 2010, a coisa desandou de vez. Não adiantou colocar uma mulher entre os repórteres, quadros novos também não resolveram. A gente deixou de falar a mesma língua, simples assim, só que de vez em quando contemporizava: afirmando que o problema era comigo, não com você. Bobagem, o problema era com você sim.
Desacreditar políticos com piadas é a coisa mais fácil do mundo e garante repercussão entre cidadãos preguiçosos que acham que esse pessoal de Brasília é tudo igual. Bancar o machão com um assistente de subsecretário de cidade interior é sopinha no mel. Quero ver fazer piadas com empresas que patrocinam o programa (isso acontece com muita frequência nos Estados Unidos), quero ver um Proteste Já com o setor privado.
Para onde foi aquele acidez de tempos passados que puxava o tapete das celebridades, globais ou não? Quando todos ficaram famosos demais a ponto de tudo virar uma suruba de rasgações de seda?
Na época da eleição então a coisa piorou ainda mais. Marcelo Tas, o saudoso e espirituoso Ernesto Varela, foi mostrando facetas autoritárias, preconceituosas e parciais, tanto na TV quanto no twitter (‘para os meus amigos, babações de ovo ou o silêncio cúmplice; para os inimigos, a piadinha rasteira e a polêmica fogo de palha’). Só sei que meu coração se quebrou em mil pedacinhos e que minha mulher não quis recolhê-los porque disse que já tinha me avisado inúmeras vezes.
Segunda agora, anteontem, resolvi dar uma olhada no que estava acontecendo. Fazia um bom tempo que não assistia um programa inteiro. Às vezes fugia de propósito, mas noutras esquecia completa e sinceramente. Sabia que as coisas por aí não andavam bem - audiência caindo, brigas internas, expulsão de um dos integrantes -, mas procurei assistir com amor no coração, respeitando a nossa história, saca? Não adiantou. Tudo estava diferente, sem graça, arrastado e moralmente flácido. Pensei que ficaria triste, tantos talentos se queimando desperdiçados, mas não senti nada. Nadinha. Um pouquinho de felicidade talvez, afinal agora poderia partir para outra de coração leve. E que o último que sair por aí apague a luz.

CUSTE O QUE CUSTAR, UMA OVA!
Lembro como se fosse ontem: 17 de março de 2008. Já passava das 22h quando nossos olhos se cruzaram pela primeira vez. Foi amor à primeira vista, pode acreditar. Eu vinha de uma série de relações breves, não conseguia me deixar levar por ninguém, e quando você apareceu... nossa, era o programa de humor, na televisão aberta, que estava esperando por toda minha vida (mentira, vivi um lance muito forte com a TV Pirata, mas sabe como são essas coisas do coração, né?).
Um humor corrosivo e de cara limpa, sem o apoio de bordões, de olho na pompa ridícula de políticos e celebridades, além de um pé no jornalismo no quadro sobre os desperdícios e desmandos do poder público. Ah, CQC, como eu te amei! Tanto sua bancada de três cabeças-línguas quanto seus comediantes-repórteres, cada um a seu jeito.
Foi um ano lindo, lua-de-mel e amendoim todas às segundas, e era gostoso a gente se encontrar, a risada rolava fácil, assunto não faltava. Então encontrei, exatamente nessa época, sua cabeça mais brilhante e fiquei encantado. Na entrevista que deu origem a matéria “Entende o mundo quem ri melhor”, Tas me disse coisas como: “Nós não podemos fazer o que estamos criticando, ou seja, denúncias vazias, explorar fatos de uma maneira exagerada, fazer perguntas que não são pertinentes. (...) Não queremos virar os justiceiros ou a patrulha da moral e dos bons costumes”. Eu, cego de paixão, acreditei.
O primeiro ano se passou, a segunda temporada entrou no ar e segui fiel. Algumas coisinhas começaram a me incomodar, mas achei que era implicância, imaturidade minha. Qual o problema de cada matéria vir precedida por um comercial interminável e engraçadinho com os próprios integrantes do programa? Que mal há em cortar a resposta do entrevistado deixando na edição final apenas a pergunta-polêmica do repórter? De qualquer forma, comecei a perder um episódio ou outro. Vejo depois na internet, dizia para os meus botões, sem querer aceitar que a gente estava se distanciando.
Aí, na terceira temporada em 2010, a coisa desandou de vez. Não adiantou colocar uma mulher entre os repórteres, quadros novos também não resolveram. A gente deixou de falar a mesma língua, simples assim, só que de vez em quando contemporizava: afirmando que o problema era comigo, não com você. Bobagem, o problema era com você sim.
Desacreditar políticos com piadas é a coisa mais fácil do mundo e garante repercussão entre cidadãos preguiçosos que acham que esse pessoal de Brasília é tudo igual. Bancar o machão com um assistente de subsecretário de cidade interior é sopinha no mel. Quero ver fazer piadas com empresas que patrocinam o programa (isso acontece com muita frequência nos Estados Unidos), quero ver um Proteste Já com o setor privado.
Para onde foi aquele acidez de tempos passados que puxava o tapete das celebridades, globais ou não? Quando todos ficaram famosos demais a ponto de tudo virar uma suruba de rasgações de seda?
Na época da eleição então a coisa piorou ainda mais. Marcelo Tas, o saudoso e espirituoso Ernesto Varela, foi mostrando facetas autoritárias, preconceituosas e parciais, tanto na TV quanto no twitter (‘para os meus amigos, babações de ovo ou o silêncio cúmplice; para os inimigos, a piadinha rasteira e a polêmica fogo de palha’). Só sei que meu coração se quebrou em mil pedacinhos e que minha mulher não quis recolhê-los porque disse que já tinha me avisado inúmeras vezes.
Segunda agora, anteontem, resolvi dar uma olhada no que estava acontecendo. Fazia um bom tempo que não assistia um programa inteiro. Às vezes fugia de propósito, mas noutras esquecia completa e sinceramente. Sabia que as coisas por aí não andavam bem - audiência caindo, brigas internas, expulsão de um dos integrantes -, mas procurei assistir com amor no coração, respeitando a nossa história, saca? Não adiantou. Tudo estava diferente, sem graça, arrastado e moralmente flácido. Pensei que ficaria triste, tantos talentos se queimando desperdiçados, mas não senti nada. Nadinha. Um pouquinho de felicidade talvez, afinal agora poderia partir para outra de coração leve. E que o último que sair por aí apague a luz.
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segunda-feira, 18 de outubro de 2010
nego dito forévis!
ou transversão #37
ou letra/música #19
essa é caixa preta, senhoras e senhores, a ansiosamente aguardada caixa preta de itamar assumpção (selo sesc sp, 2010). pra mim é o lançamento do ano, sem sombra de dúvida. não só porque reúne em nova edição todos os discos de itamar assumpção como solta ao mundo o desfecho da trilogia pretobrás (volumes 2 e 3). nascido em 1949 e morto precocemente em 2003, o paulista-paulistano ainda não teve sua obra devidamente reconhecida dentro do tal cânone da música popular brasileira. itamar ainda é prazer de poucos, ainda é "maldito", o que é coisa das mais injustas levando-se em conta o humor, a invenção e seu afiado e surpreendente sentido pop. essa caixa precisa se espalhar - talvez não fisicamente porque o preço pode assustar (150 paus, mas são 12 discos, e no site do sesc sai por 120 reais) -, porque a música do nego dito serve pra tudo, é como a vida. saudade.quem ganha mais é quem ouve, porque itamar já é, pode acreditar. e na caixa preta estão beleléu leléu eu (1980), às próprias custas s.a. (1982, o único disco ao vivo de itamar e que vem com uma faixa inédita, uma versão de "não vou ficar" do tim maia), sampa midnight - isso não vai ficar assim (1983), intercontinental - quem diria? era só o que faltava!!! (1988), bicho de sete cabeças vols. 1, 2 e 3 (1993), ataulfo alves por itamar assumpção - pra sempre agora (1996), pretobrás - porque que eu não pensei nisso antes? (1998) e o já póstumo vasconcelos e assumpção - isso vai dar repercussão (2004). tudo lindo. mas são discos que já ouvi de trás para frente, inúmeras e inúmeras vezes. agora, os inéditos pretobrás II - maldito, vírgula (2010) e pretobrás III - devia ser proibido (2010) trazem uma porrada de novidades e convidados em suas 29 faixas, além do próprio itamar em registros caseiros de voz e violão posteriormente arranjados pelos produtores beto villares (pretobrás II) e paulinho lepetit (pretobrás III). separei aqui alguns destaques desses dois discos e já começo com um transversão.
"todo esse tempo" é o nome dessa música e depois de ouví-la com itamar agora é a vez da versão acelerada e totalmente atual de bnegão. as duas estão no volume dois do pretobrás.
ainda em pretobrás II aparecem outros convidados. seu jorge canta "o tempo todo" e tenho certeza que itamar ficaria orgulhoso da versão desse outro grande artista da música negra brasileira.
e para encerrar os destaques desse volume, elza soares cantando "elza soares", música feita por itamar em sua homenagem. de arrepiar versos como "desde que me entendo por gente / eu sambo, eu faço o que gosto / my soul is black, meu sangue é quente / eu quando gosto, me enrosco", ainda mais com a emoção de elza no final.
já no pretobrás III ouvi algumas músicas que achei que nunca iria possuir registro em disco (já tinha ouvido e vibrado em shows). a divertida "pirex", por exemplo, ótimo exemplo das brincadeiras de itamar com a nossa língua (e que nessa versão traz participação de naná vasconcelos).
outra que já tinha ouvido em shows é "devia ser proibido" (itamar assumpção e alice ruiz). música de rachar o coração feita em homenagem ao poeta paulo leminski (marido de alice e amigo/parceiro de itamar). a letra acabou caindo como uma luva para a ausência de itamar porque "devia ser proibido / uma saudade tão má / de uma pessoa tão boa". participação de zélia duncan, uma das mais aguerridas divulgadoras do nego dito.
e pra encerrar, letra e música de "que tal o impossível", doce, amorosa e lírica, que me lembrou carolina de cara (ela é muito fã de itamar, o que me dá um baita orgulho, porque fui eu que apresentei). cante junto e tente não se emocionar. tente não pensar nela/nele.
que tal o impossível
(itamar assumpção)
que tal se nós dois vivêssemos
do jeito que nós quiséssemos
sem nada que aborrecesse-nos
que tal se tudo tivéssemos
que tal se realizássemos
aquilo que nós sonhássemos
maçãs macias comêssemos
que tal se nós nos beijássemos
que tal se nós dois dormíssemos
olho no olho acordássemos
que tal se nós felicíssimos
que tal se nós dois voássemos
que tal se nós dois pudéssemos
aquilo que desejássemos
que tal se nós dois cantássemos
tocassemos e nós dois mesmos dançássemos
que tal se nós dois partíssemos
que tal se a sós ficássemos
que tal se ao máximo amássemos
que tal se no céu morássemos
que tal
que tal o impossível
que tal
que tal o impossível
foto de 1998, em casa de alzira espíndola, época da gravação do pretobrás; foi durante a única entrevista que fiz dele e que está lá no gafieiras
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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
aê gurizada
o projeto guri é uma daquelas ações acima de qualquer suspeita. desde 1995, o pessoal "oferece continuamente, nos períodos de contraturno escolar, cursos de iniciação e teoria musical, coral e instrumentos de cordas, madeiras, sopro e percussão. atualmente o projeto guri atende cerca de 40 mil alunos em 301 municípios do estado de são paulo". quer dizer, ducaralho. aí, agora, eles lançaram um disco comemorativo chamado projeto guri convida (mcd, 2010) que, para surpresa de todos, reuniu a molecada (instrumentos e coros) a um selecionado de primeira com alguns dos artistas independentes mais interessantes da atualidade. todos fazendo "música infantil" naquela mesma onda adulta das mixtapes que postei aqui. imagina só, tem fernando catatau (cidadão instigado), thalma de freitas, rappin hood, max b.o., fernanda takai, curumin, mauricio pereira, andré abujamra, antônio pinto, sonantes e, em faixas separadas, as vozes do grupo donazica: anelis assumpção, iara rennó e andreia dias. tudo sob produção afinadíssima de beto villares e missionário josé. olha só um breve making of.
e agora uma sequência de três animações, feitas sob desenhos de valentina fraiz, com músicas do disco (e que foram produzidas para o show de lançamento em dezembro passado, por isso esse caráter meio estático). a primeira é "robotito", do coletivo sonantes, formado por céu, gui amabis, rica amabis, dengue e pupillo.
agora é a vez de "caim", com andreia dias.
e pra encerrar, "a voz do meu instrumento", com zélia duncan.
e agora uma sequência de três animações, feitas sob desenhos de valentina fraiz, com músicas do disco (e que foram produzidas para o show de lançamento em dezembro passado, por isso esse caráter meio estático). a primeira é "robotito", do coletivo sonantes, formado por céu, gui amabis, rica amabis, dengue e pupillo.
agora é a vez de "caim", com andreia dias.
e pra encerrar, "a voz do meu instrumento", com zélia duncan.
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sábado, 1 de agosto de 2009
alzira nunca está sozinha
fazia tempo que não postava nenhum texto então fui ao baú, mais especificamente ao das minhas colaborações para a editora spring, e catei esse sobre a cantora alzira espíndola (ou alzira e), que foi publicado, junto com o perfil do saudoso otto stupakoff, em dezembro de 2007 na tam magazine (última edição dessa revista na casa).
sou fã de alzira, de sua voz diferente, de seu jeito tímido, de sua amizade intensa com itamar assumpção (foi nos fundos de sua casa de pinheiros que entrevistei, em 1998, o nego dito; entrevista publicada originalmente na revista a nível D e depois no gafieiras). poucos artistas brasileiros possuem discos tão belos e autorais quanto amme (baratos afins, 1992), peçamme (baratos afins, 1996), ninguém pode calar (dabliú, 2000), paralelas (duncan discos, 2005) e alzira e (duncan discos, 2007). e olha que ela só tem mais outros dois solo! bem, de lá pra cá, além de shows e projetos, alzira só lançou um compacto com a canção "chega disso", outra parceria com o poeta arrudA, mas que tinha sido lançada anteriormente pela amiga zélia duncan (dá pra ouvir no myspace). enfim, não deixe de conhecer alzira espíndola. ouça e ame.
DE INTIMIDADE SE FAZ MÚSICA
Ser independente não é das coisas mais fáceis na vida, principalmente no Brasil. Muita bateção de cabeça, portas fechadas, grana curta e todo um calvário de problemas grandes, médios e pequenos. Existem compensações, claro, e a liberdade é uma delas. Perto de completar 50 anos, a cantora e compositora Alzira Espíndola sabe dos caminhos que chegam e dos que se afastam; e agora comemora uma outra fase de sua independência fortalecida por uma nova geração de ouvintes e pela rapidez de comunicação proporcionada pela internet. Mas não é porque Alzira Espíndola agora assina Alzira E (“além de abreviar o Espíndola confirma que nunca estou só”, e dá uma risadinha) que seu principal motor criativo mudou de foco. Afinal, é da intimidade com amigos como Itamar Assumpção, arrudA, Alice Ruiz e Zélia Duncan, com a cidade de São Paulo e com as raízes sulmatogrossenses que nasceu e nasce sua música.
“Não sei cantar sem viver. Ter certeza disso me deu uma nova segurança. Não me sinto perdida na minha carreira e nem com as minhas músicas. Quer dizer, nunca toquei no rádio, nunca fui à Globo, não tenho gravadora, mas estou feliz, cara! Não adianta ter tudo isso e não ter o que tenho. Eu me achei. A lição é essa”. Descobrir isto levou tempo e essa história começa em Campo Grande (MS) com a pequena Alzira fazendo vocais e tocando violão junto com os irmãos Geraldo e Celito e a irmã Tetê Espíndola em shows caseiros e no circo que de vez em quando apeava em frente de casa. Alzira, a mais nova, era a mascote da família musical e foi chamada pelos irmãos para formar o Luz Azul.
O grupo durou pouco porque as irmãs decidiram sair de casa, ambas para São Paulo, mas por razões diferentes. Tetê veio em busca de horizontes para o seu trabalho, mas Alzira veio mesmo para ter um bebê e formar família. Tetê saiu na frente e através de um novo amigo, o compositor Arrigo Barnabé, conseguiu um contato para gravar seu primeiro LP. Nasceu assim, em 1978, o disco Tetê & O Lírio Selvagem, sendo que os tais lírios eram os irmãos Sérgio, Celito e Alzira. “Só fui cantar, ter coragem de cantar sozinha em público, aos 21 porque achava que não era cantora. Só fazia uns vocalzinhos. Mas na verdade fazia as vozes mais difíceis, as quartas. Então fui desenvolvendo um vocal diferente e me aperfeiçoando nesse negócio. Fui onde tinha uma beirinha pra mim”. O Lírio Selvagem também não durou, mas desde então os Espíndola mantém uma saudável combinação: eventualmente participam uns dos trabalhos dos outros, mas cada um mantém sua carreira.
Entre o final da década de 1970 e o início dos anos 80, Alzira conheceu toda a turma da Vanguarda Paulistana, mas ainda tímida optou por se dedicar à família e logo vieram outras três crianças no auto-exílio em Ubatuba (SP). O violão nunca lhe deixou, muito menos os amigos e as parcerias, só que tudo tem seu tempo e Alzira voltou de vez a São Paulo, em 1987, para dar início a sua carreira solo. “Eu me identifiquei mais com o pessoal de São Paulo porque nunca consegui compor essas músicas regionais como fazem até hoje Almir Sater, Paulo Simões e até a própria Tetê; trabalhos que exaltam a natureza, os animais. Sempre quis fazer uma coisa mais urbana”. Para seguir em frente, no entanto, Alzira sentiu a necessidade de fazer de sua estréia discográfica um acerto de contas com o seu passado de toadas, guarânias e outras bossas do Centro-Oeste. Feito o disco, estava livre para ser o que bem quisesse.
Seu grande mentor nestes novos tempos de liberdade foi, sem dúvida, o amigo Itamar Assumpção que depois de muita insistência (por parte dela) se tornou seu diretor musical e principal parceiro, além de amigo até debaixo d’água durante boa parte da década de 1990. “[Foi uma relação] intensa e complexa, mas com muito amor. A gente teve muito amor para segurar a nossa convivência e um dos frutos disso é que as nossas filhas ficaram muito amigas [Iara Rennó e Anelis Assumpção, integrantes da banda DonaZica]. Não tem nenhum momento da minha carreira que eu não fale o nome dele”, afirmou, olhos levemente marejados, sobre o artista que deixou a todos orfão em 2003. Os outros frutos dessa amizade foram os belos discos Amme (1992) e Peçamme (1996), além de uma série de canções que já foram gravadas por artistas como Ney Matogrosso, Zélia Duncan e Carlos Navas.
A partir deste encontro com Itamar, Alzira se sentiu segura para encarar o que viesse pela frente, desde um disco em que interpretou composições de Maysa (Ninguém Pode Calar, 2000) até uma reunião de música e poesia com a amiga Alice Ruiz (Paralelas, 2005). Agora, vinte anos depois de sua estréia em disco, a cantora e compositora lança um novo disco, Alzira E, feito em parceria com o jovem poeta arrudA, autor do blog Saudade do Papel. “Tudo o que o Arruda escreveu é como se também fizesse parte de mim. Tem que rolar essa história íntima. Não sou um artista que tenha técnica e por isso entro em um trabalho sem saber pra onde vou, mas sempre parto da minha vida cotidiana. Vivi as músicas regionais pantaneiras, vivi Maysa, vivi Itamar Assumpção, vivi Alice Ruiz e agora o arrudA. Tá bem claro que pra mim é assim. Ah, e outra coisa que é bom falar, não acho que o pop não possa ter poesia”. Independente, popular, mãe, urbana, compositora, autoral, pantaneira e internauta (“É o fim das barreiras que rotulavam artistas como marginais ou malditos”), tanto faz. Alzira E não está sozinha.
e aqui, o video da música "existem coisas na vida" (alzira e itamar). música originalmente gravada por ney matogrosso no disco inclassificáveis (emi, 2008).
sou fã de alzira, de sua voz diferente, de seu jeito tímido, de sua amizade intensa com itamar assumpção (foi nos fundos de sua casa de pinheiros que entrevistei, em 1998, o nego dito; entrevista publicada originalmente na revista a nível D e depois no gafieiras). poucos artistas brasileiros possuem discos tão belos e autorais quanto amme (baratos afins, 1992), peçamme (baratos afins, 1996), ninguém pode calar (dabliú, 2000), paralelas (duncan discos, 2005) e alzira e (duncan discos, 2007). e olha que ela só tem mais outros dois solo! bem, de lá pra cá, além de shows e projetos, alzira só lançou um compacto com a canção "chega disso", outra parceria com o poeta arrudA, mas que tinha sido lançada anteriormente pela amiga zélia duncan (dá pra ouvir no myspace). enfim, não deixe de conhecer alzira espíndola. ouça e ame.
DE INTIMIDADE SE FAZ MÚSICA
Ser independente não é das coisas mais fáceis na vida, principalmente no Brasil. Muita bateção de cabeça, portas fechadas, grana curta e todo um calvário de problemas grandes, médios e pequenos. Existem compensações, claro, e a liberdade é uma delas. Perto de completar 50 anos, a cantora e compositora Alzira Espíndola sabe dos caminhos que chegam e dos que se afastam; e agora comemora uma outra fase de sua independência fortalecida por uma nova geração de ouvintes e pela rapidez de comunicação proporcionada pela internet. Mas não é porque Alzira Espíndola agora assina Alzira E (“além de abreviar o Espíndola confirma que nunca estou só”, e dá uma risadinha) que seu principal motor criativo mudou de foco. Afinal, é da intimidade com amigos como Itamar Assumpção, arrudA, Alice Ruiz e Zélia Duncan, com a cidade de São Paulo e com as raízes sulmatogrossenses que nasceu e nasce sua música.
“Não sei cantar sem viver. Ter certeza disso me deu uma nova segurança. Não me sinto perdida na minha carreira e nem com as minhas músicas. Quer dizer, nunca toquei no rádio, nunca fui à Globo, não tenho gravadora, mas estou feliz, cara! Não adianta ter tudo isso e não ter o que tenho. Eu me achei. A lição é essa”. Descobrir isto levou tempo e essa história começa em Campo Grande (MS) com a pequena Alzira fazendo vocais e tocando violão junto com os irmãos Geraldo e Celito e a irmã Tetê Espíndola em shows caseiros e no circo que de vez em quando apeava em frente de casa. Alzira, a mais nova, era a mascote da família musical e foi chamada pelos irmãos para formar o Luz Azul.
O grupo durou pouco porque as irmãs decidiram sair de casa, ambas para São Paulo, mas por razões diferentes. Tetê veio em busca de horizontes para o seu trabalho, mas Alzira veio mesmo para ter um bebê e formar família. Tetê saiu na frente e através de um novo amigo, o compositor Arrigo Barnabé, conseguiu um contato para gravar seu primeiro LP. Nasceu assim, em 1978, o disco Tetê & O Lírio Selvagem, sendo que os tais lírios eram os irmãos Sérgio, Celito e Alzira. “Só fui cantar, ter coragem de cantar sozinha em público, aos 21 porque achava que não era cantora. Só fazia uns vocalzinhos. Mas na verdade fazia as vozes mais difíceis, as quartas. Então fui desenvolvendo um vocal diferente e me aperfeiçoando nesse negócio. Fui onde tinha uma beirinha pra mim”. O Lírio Selvagem também não durou, mas desde então os Espíndola mantém uma saudável combinação: eventualmente participam uns dos trabalhos dos outros, mas cada um mantém sua carreira.
Entre o final da década de 1970 e o início dos anos 80, Alzira conheceu toda a turma da Vanguarda Paulistana, mas ainda tímida optou por se dedicar à família e logo vieram outras três crianças no auto-exílio em Ubatuba (SP). O violão nunca lhe deixou, muito menos os amigos e as parcerias, só que tudo tem seu tempo e Alzira voltou de vez a São Paulo, em 1987, para dar início a sua carreira solo. “Eu me identifiquei mais com o pessoal de São Paulo porque nunca consegui compor essas músicas regionais como fazem até hoje Almir Sater, Paulo Simões e até a própria Tetê; trabalhos que exaltam a natureza, os animais. Sempre quis fazer uma coisa mais urbana”. Para seguir em frente, no entanto, Alzira sentiu a necessidade de fazer de sua estréia discográfica um acerto de contas com o seu passado de toadas, guarânias e outras bossas do Centro-Oeste. Feito o disco, estava livre para ser o que bem quisesse.
Seu grande mentor nestes novos tempos de liberdade foi, sem dúvida, o amigo Itamar Assumpção que depois de muita insistência (por parte dela) se tornou seu diretor musical e principal parceiro, além de amigo até debaixo d’água durante boa parte da década de 1990. “[Foi uma relação] intensa e complexa, mas com muito amor. A gente teve muito amor para segurar a nossa convivência e um dos frutos disso é que as nossas filhas ficaram muito amigas [Iara Rennó e Anelis Assumpção, integrantes da banda DonaZica]. Não tem nenhum momento da minha carreira que eu não fale o nome dele”, afirmou, olhos levemente marejados, sobre o artista que deixou a todos orfão em 2003. Os outros frutos dessa amizade foram os belos discos Amme (1992) e Peçamme (1996), além de uma série de canções que já foram gravadas por artistas como Ney Matogrosso, Zélia Duncan e Carlos Navas.
A partir deste encontro com Itamar, Alzira se sentiu segura para encarar o que viesse pela frente, desde um disco em que interpretou composições de Maysa (Ninguém Pode Calar, 2000) até uma reunião de música e poesia com a amiga Alice Ruiz (Paralelas, 2005). Agora, vinte anos depois de sua estréia em disco, a cantora e compositora lança um novo disco, Alzira E, feito em parceria com o jovem poeta arrudA, autor do blog Saudade do Papel. “Tudo o que o Arruda escreveu é como se também fizesse parte de mim. Tem que rolar essa história íntima. Não sou um artista que tenha técnica e por isso entro em um trabalho sem saber pra onde vou, mas sempre parto da minha vida cotidiana. Vivi as músicas regionais pantaneiras, vivi Maysa, vivi Itamar Assumpção, vivi Alice Ruiz e agora o arrudA. Tá bem claro que pra mim é assim. Ah, e outra coisa que é bom falar, não acho que o pop não possa ter poesia”. Independente, popular, mãe, urbana, compositora, autoral, pantaneira e internauta (“É o fim das barreiras que rotulavam artistas como marginais ou malditos”), tanto faz. Alzira E não está sozinha.
e aqui, o video da música "existem coisas na vida" (alzira e itamar). música originalmente gravada por ney matogrosso no disco inclassificáveis (emi, 2008).
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