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sábado, 28 de março de 2026

voar voar subir subir

a história desse texto começa no início de 2018, pouco antes da minha filha nascer em 3 de fevereiro. já havia escrito algumas 'esquinas' pra Piauí quando, do nada, o editor Armando Antenore me encomendou uma reportagem. isso nunca tinha acontecido antes (afinal, as 'esquinas' sempre partem dos repórteres) e o espaço na revista também era inédito (a seção 'chegada'). fiquei animadíssimo com a pauta sobre um projeto de reintrodução de ararajubas na natureza e logo marquei uma entrevista com o zoólogo Luís Fábio Silveira, responsável técnico pela iniciativa.

combinamos um almoço perto de seu lugar de trabalho, o Museu de Zoologia da USP, ali no Ipiranga, e a conversa sobre ararujubas seguiu até seu escritório (ele até me deu um presentinho para minha filha que estava prestes a nascer). tudo ótimo, tudo certinho, e terminei o texto para ser publicado na edição de abril. mas então veio a tragédia do assassinato da vereadora Marielle Franco no Rio de Janeiro e o texto sobre as ararajubas caiu. ainda tentamos adaptar o texto para 'esquinas', mas não tinha a pegada da seção. a vida seguiu, Tereza nasceu e esqueci desse texto até meu computador morrer anos depois. foi aí que descobri que não tinha backup dele (entre outras coisas), não achei nos emails, etc. mas a vida seguiu mais uma vez e só agora voltei a procurá-lo (e não é que Armando tinha ele guardado em algum arquivo!).

como é um texto do início de 2018 e certamente muita coisa aconteceu no projeto nestes oito anos voltei a falar com o professor Luís Fábio para atualizá-lo. não o texto, pois não tinha condições de reescrevê-lo, mas em forma de depoimento que seguirá aqui, após a reportagem original, tão logo o receba.

QUATORZE ARARAJUBAS E UM DESTINO

Após 70 anos, as ararajubas voltaram à cidade das mangueiras

No início de agosto de 2017, um grupo de quatorze ararajubas partiu rumo ao desconhecido. Nascidos em cativeiro e criados por mãos humanas, esses psitacídeos de plumagem amarelo-ouro com detalhes em verde deixaram o conforto da Fundação Lymington, em Juquitiba, interior de São Paulo, e voaram longe – mas ainda não com as próprias asas – para a terra de alguns de seus antepassados, Belém do Pará. Tudo isso como parte de um projeto pioneiro de reintrodução dessas aves em um de seus ecossistemas naturais. 

“A gente tinha vários níveis de receio quando estávamos indo para Belém: receio dos bichos não saírem do viveiro, receio de voarem sem rumo e não conseguirem voltar, receio de morrerem nos primeiros dias das formas mais variadas. Mas a verdade é que o bicho deu um baile na gente”, explicou Luís Fábio Silveira, curador das Coleções Ornitológicas do Museu de Zoologia, professor colaborador no Departamento de Zoologia da USP e coordenador científico do projeto de reintrodução das ararajubas. “No dia que saíram foi lindo, deram vários voos circulares em cima da gente, não demonstraram nenhum receio, voaram super bem. Foi um espetáculo. Fazia tempo que não me emocionava com bicho tanto assim. Parecia que Dona Linda estava lá empurrando cada uma pra fora do viveiro”. 

A Dona Linda a quem Luis Fábio se refere é Linda Wittkoff, norte-americana que veio ao Brasil com o marido William Wittkoff no início da década de 1960. Após anos de trabalho dele como executivo da Ford no ABC, o casal comprou um terreno rodeado pela Serra do Mar, em Juquitiba, e criaram a Fundação Lymington, uma instituição sem fins lucrativos que visa preservar e reproduzir em cativeiro espécies de aves ameaçadas de extinção, principalmente araras azuis e ararajubas. 

“Infelizmente, um ano atrás, a Dona Linda morreu. Um câncer fulminante a levou. Ela preparou tudo, conhecia todas as aves, todas, mas não chegou a ver o projeto acontecer. Então, para homenageá-la, batizamos a iniciativa de Belém Mais Linda”. Afinal, também foi Linda que estabeleceu a proposta inicial de parceria com o Ideflor-bio [Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará] para a reintrodução das ararajubas. 

Já a sugestão de soltá-las no Parque Estadual de Utinga, na região metropolitana de Belém, veio do Ideflor-bio. Uma das explicações é que o último registro de uma ararajuba na capital paraense tem cerca de 70 anos. “E eles também acharam interessante porque Utinga tem relação com os mananciais de água da cidade. É uma região muito bem preservada, tem matas muito boas, e por ser na região metropolitana poderia gerar uma empatia com a população, o que é algo importante em um projeto assim”, e de empatia com aves, Luis Fábio entende. Quando adolescente, muito antes de prestar Biologia, o mineiro de Belo Horizonte chegou a ter 400 papagaios em casa. 

“Ararajuba é um bicho muito especial e muito inteligente. É de uma linhagem evolutiva endêmica da Amazônia brasileira, portanto só tem no Brasil. Quer dizer, é algo que apareceu no decurso da evolução das espécies e só sobrou a ararajuba dentro desse gênero. Ela já é algo singular por isso. No mais, ela é um papagaio e o Brasil é o país com o maior número de espécies de psitacídeos do mundo. Além de tudo isso, é um bicho muito doce, muito carinhoso”. Essa doçura toda, aliada ao agressivo desmatamento nas regiões nordeste e sudeste da Amazônia e ao tráfico ilegal de animais, fez com que a espécie caísse para cerca dos atuais 5 mil indivíduos na natureza. 

Para dificultar ainda mais a retomada do crescimento das ararajubas, as populações são muito isoladas uma das outras. Estão, basicamente, em quatro regiões: nas paraenses Tailândia, Caxuanã e às margens do Rio Tapajós, no Parque Nacional da Amazônia, e na maranhense Reserva Biológica do Gurupi. “Não existe chance nenhuma dessas populações se encontrarem. É um bicho florestal que não se arriscaria em longas distâncias, não saberia atravessar pastagens, por exemplo. Por isso o nosso projeto é reintroduzir onde o animal não vive mais e assim criar uma nova população”. 

Ararajubas livres no Parque Estadual de Utinga, no Pará (foto Marcelo Vilarta)

Voltamos então às 14 ararajubas que partiram rumo a Belém em agosto de 2017. Tudo começou antes, com uma preparação sanitária das aves para que estivessem bem de saúde e não levassem nada estranho para o novo ecossistema. Depois, uma preparação física, afinal elas precisam voar bem, com autonomia e direção. “Essas ararajubas são netas de indivíduos que já nasceram em cativeiro. São bichos que nunca viram um pé de açaí na vida e que tiveram que aprender no cativeiro o que é uma comida do mato. No segundo dia em Belém a gente pendurou um cacho de açaí e você não tem ideia do pânico delas ao ver a fruta. Mas como o bicho é curioso e existe uma memória genética, uma semana depois elas já estavam sabendo manipular o açaí sem nunca ter visto na ponta do galho”. 

No entanto, duas ararajubas do grupo não se mostraram aptas a voar com a eficiência necessária – e voltaram para a Fundação Lymington para fins de reprodução – e outras duas foram definidas como satélites no viveiro para que as outras saibam para onde voltar em caso de fome. Sobraram dez para a soltura que foi marcada para 31 de janeiro deste ano [2018]. “Antes do grupo inteiro, soltamos dois machos com 20 dias de diferença entre os dois. A gente achou que se soltássemos um casal, eles podiam ir embora. Escolhemos então dois casais muito apaixonados e separamos os dois machos. Como são bichos gregários, eles sempre voltavam por causa das fêmeas. E assim foram aprendendo a ir e voltar, e isso seria repassado para os outros. A gente poderia ter tentado com duas fêmeas, acho que daria certo, mas não quisemos arriscar porque apostamos nessa territorialidade dos machos”. 

Em seis meses nos viveiros de ambientação no Utinga, as ararajubas aprenderam, ou reaprenderam, a serem amazônicas. Mas como o diabo mora nos detalhes, duas aves morreram comidas por jibóias. Sobraram oito, cinco fêmeas e três machos. “Reintrodução não é o que se vê na TV, que são órgãos ambientais abrindo gaiolas de traficantes e soltando os bichos de qualquer jeito. Isso é muito bonito, sai no Jornal Nacional, todo mundo chora, mas na verdade você está condenando esses bichos à fome e sede nos dois primeiros dias. Libertar o animal e ir embora pra casa é não fazer a parte mais importante do processo que é o monitoramento, o que acontece depois. Essa é, justamente, a maior parte do nosso trabalho”. 

Ararajuba e o açaí (foto Marcelo Vilarta)

Após o espetáculo da soltura, as oito ararajubas que ganharam os céus do Utinga se arriscaram inúmeras vezes no mundo real de seus antepassados. Algumas ficaram até uma semana sem voltar ao viveiro. O plano agora é soltar um segundo grupo em abril [de 2018]. Dez ararajubas já estão prontas, mas Luis Fábio e seu parceiro, o biólogo Marcelo Vilarta, querem levar doze. 

“Quero introduzir, no mínimo, umas trinta aves no Utinga. Mas como sempre tem alguma perda, e isso é natural, é preciso suplementar esses animais até chegar a uma população que consiga se sustentar sozinha. Até o fim do ano [de 2018] quero estar com todo mundo lá. E tenho uma esperança, que diria definitivamente que o estudo deu certo, que alguns indivíduos se reproduzam no fim do ano, ali por novembro”. 

O sonho maior é transformar Utinga em um polo para estudos em Biologia da Restauração. “A gente quer contribuir de forma mais importante pra recomposição de ecossistemas naturais. Porque reintrodução é um processo contínuo. Não é um capricho, não é um oba-oba de soltar passarinho. Reintrodução é restaurar um componente da biodiversidade que por algum motivo foi perdido naquela região. E lá em Belém a gente quer soltar também araras vermelhas, periquitos cara-suja e mutuns”. E ararajubas, muitas ararajubas. 

“A gente quer adaptá-las pra viver na natureza e pra morrer também. Afinal, morrer faz parte do jogo. O importante não é quantas morreram e sim quantas conseguiram se manter e sobreviver na natureza”. Nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, pois assim vai se aprendendo a restaurar e preservar.

ei Seu IA, faz uma imagem de uma ararajuba musculosa lutando contra tratores; daí o Gemini entrega isso

ATUALIZAÇÃO DO PROJETO (em breve)

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

rolimã na penha

minha história de colaborações com a revista piauí começou em 2009, sempre ali na seção 'esquinas'. não foram muitos textos, mais por culpa minha mesmo, pois nas idas e vindas dos trabalhos mais fixos demorava pra achar uma pauta com a cara da seção. foram 5 textos publicados, sendo que o último em 2018, pouco antes do nascimento da minha filha. teve também um sexto, lá em 2012, que acabou caindo aos 47 do segundo tempo (acho que é o meu preferido, o do bingo erótico em santos). 

ano passado voltei a mandar pautas e depois de algumas tentativas falhas finalmente emplaquei mais uma. era a história de uma lendária descida de carrinhos de rolimã na Penha, em São Paulo (fiquei sabendo dessa história via um grande amigo, Daniel Almeida, que falou sobre rolimãs em programete que fazia para a Rádio Eldorado). fui lá ver os carrinhos em um domingo de abril e depois mandei o texto. passou um mês, passou outro e mais outro, e acabou caindo (mas também foi pago como o outro não publicado). 

segue então o texto em sua íntegra e sem edição extra.

 
VELOZES & FAISCANTES

Um grupo de garotões de meia idade procura manter viva a tradição dos carrinhos de rolimã

Domingo parado na esquina das ruas Conceição Pereira com Mirandinha, no bairro paulistano da Penha. De um lado, um mercadinho de doces abre as portas pós almoço. O relógio passou um pouco das 14h. Do outro, a Padaria e Confeitaria Mirandinha só tem mesas vazias como espectadoras da programação dominical na TV. Mas o silêncio de cidade do interior é quebrado por batidas de martelo. “Tá quase pronto aqui”, grita Aurélio pregando mais um pouquinho uma das rodas de seu carrinho de rolimã.
 
Trabalhador na construção civil, 38 anos, Aurélio Nascimento é um dos participantes mais frequentes da descida da Rua Conceição Pereira, um lugar de encontros, velocidade e faíscas de rolamentos desde o final da década de 1970. “Pronto!”, grita Aurélio para ninguém. “Não esqueço nunca da primeira vez que desci de carrinho de rolimã. Foi em 1995, por ali. Você se sente livre, não tem como explicar a adrenalina. Só descendo, só descendo. É muito bom sentir aquele vento batendo no rosto. Parece que você tá voando”, e vai se dirigindo para reunir o seu aos outros carrinhos desse domingo.
 
“Acho que vão ser uns dez hoje. Essa tem sido a média ultimamente. Mas no passado, no auge da Conceição Pereira, que foi ali de 1995 a 1998, chegavam a ter uns quarenta ou cinquenta. E muita gente assistindo nas calçadas”, diz Thiago Mendes, 37 anos, gasista industrial e um dos organizadores do evento que sempre fez questão de ser informal. Nove carrinhos se reuniram naquela tarde nublada e ligeiramente fria de abril - o que seria o quinto encontro desde o início de 2023.
 
Então, ao lado da padaria, encosta um Onix prata e seu dono, William, desce e abre o porta malas. William já desceu muito a Conceição Pereira, mas machucou joelho jogando bola e agora anda receoso. Ultimamente se contenta em ajudar os amigos levando os carrinhos até o alto da rua. Mas quem entra no porta malas é Parmalat, nascido Leandro, vistoriador de seguradora, 38 anos. É ele quem fica de pernas para fora e puxa de três em três carrinhos, um em cima do outro.

 
Enquanto os carrinhos vão subindo, cada um a seu tempo, quatro olheiros se posicionam em pontos estratégicos da descida. Um fica na Rua Caracol e outro na Rua Maria das Dores, atentos a carros que possam querer entrar na Conceição Pereira, e outros dois ficam na Rua Mirandinha, onde os carrinhos chegam girando e faiscando para conseguir parar. Tudo quase pronto. Ainda faltam alguns subirem.
 
“Minha primeira vez foi aqui mesmo, acho que em 2005. Moro pertinho e vim com um amigo fazer uma filmagem de uma descida. Eu pilotava a moto e ela fazia a câmera. Meu pai, Seu Mário, já descia, ele é da primeira geração. Ele é que fornecia rolimã pra todo mundo na época dele e fazia carrinhos também. Quando fui crescendo passei a ajuda-lo. Nunca desci com ele, a única coisa que ele me falava é que era perigoso, mas a primeira vez foi com um carrinho dele”, diz Thiago com o pé em cima de um dos cinquenta que ele próprio fez. A maioria foi doada pra molecada do bairro, mas o último foi feito especialmente para o seu filho mais novo, Wilson, de 7 anos.

Thiago chegando na Mirandinha

“Nesse dia da filmagem criei coragem e subi a ladeira. O carrinho que peguei do meu pai era pesado pra caramba, acho que a madeira era cambará. Aí eu desci. O coração veio na boca, a boca ficou seca, aí já era e você quer descer de novo e de novo e de novo. No mesmo dia comecei a fazer meu próprio carrinho, mais leve né. Fiz com madeira de cedrinho, faço até hoje assim, como é até hoje a sensação de adrenalina, não muda”, completa Thiago que tem sua atenção desviada para alguém acenando. O grid da primeira descida está completo.
 
A descida em si tem cerca de 400 metros e os carrinhos chegam de 50 a 70 km/h, velocidade aferida por motos que, vez ou outra, descem em paralelo para filmar. As rodinhas de rolamento, ou rolimãs, são um pouco mais lentas e barulhentas, enquanto as de skate são mais rápidas e silenciosas. Descem um, dois, três, quatro, nove carrinhos, com todos os participantes deitados de barriga pra baixo. Essa é a tradição da Conceição Pereira, mas pela história não escrita e muito menos documentada do rolimã no Brasil, o mais comum sempre foi descer sentado. Existem relatos de carrinhos desde a década de 1940 descendo pelas calçadas de São Paulo, mas a popularização aconteceu mesmo a partir da década de 1950 com mais ruas asfaltadas e carros mais acessíveis (os rolamentos vinham das caixas de câmbio).
 
Mas um pedacinho da história do rolimã no Brasil segue acontecendo aos trancos e barrancos nesse cantinho da Penha. Aurélio, Thiago e Parmalat já apareceram por aqui. Faltam o jovem empresário Danilo, 30 anos, acompanhado da namorada e amigos; o comerciante Nani, 42, o único de óculos escuros; o também comerciante Anderson, 45, que fez questão de soletrar o sobrenome Braun para não escreverem errado; o representante comercial Paulo, 49, e seu carrinho de três eixos com rodas de silicone que já desceu parte da Rodovia Imigrantes a 120 km/h; Zé Luiz, 60, que vende roupas femininas na Feirinha da Madrugada; e, por último, Dema, 62, que gosta de participar de eventos de rolimã para família promovidos pela Mulek de Rua, marca de street wear do bairro do Ipiranga. A idade média nesse domingo na Conceição Pereira é 44,5 anos e tem se mantido assim nos últimos tempos.

Aurélio e Zé Luiz
 
“Pois é, hoje tenho meus 60 anos e desço desde 1978. É que o esporte me rejuvenesce, e no rolimã continuo sentindo essa adrenalina só que com a cara a 5 cm do chão. É um barato”, diz Zé Luiz Ojuara, que também pratica BMX e skate long board. Mas poucos o veem descer naquela tarde de domingo, talvez umas vinte pessoas distribuídas pelas calçadas e portões de casas.
 
“Tinha muito mais gente assistindo quando o asfalto era uma porcaria, cheio de buracos. E mais carrinhos também”, lamenta Thiago. “Depois dessa lombada, que a subprefeitura colocou aqui no final do ano passado, desanimou geral. Ficou um pouco mais perigoso porque o carrinho joga mais para o lado quando passa por ela, dá um tranco maior. E aí como todo mundo é um pouco mais velho, a gente fica com medo de se machucar. A recuperação agora demora”.

 
A lombada da discórdia foi colocada no final do percurso da Conceição Pereira, entre as ruas Maria das Dores e a Mirandinha. “Alguns moradores daqui avisam a subprefeitura. Sempre teve isso, essa falta de diálogo. Aqui já teve valeta rebaixada, paralelepípedo, já teve de tudo nessa rua, tudo pra impedir o carrinho. Antes dessa lombada a gente chegava mais rápido, mas com mais controle”, e, logo após terminar a frase, Thiago vê o jovem Danilo chegar mais rápido que o normal e quase atropelar umas cadeiras de plástico da casa de espetinhos que está prestes a abrir. Tudo certo, segue o jogo.
 
Mas quando o relógio bate 16h, as descidas começam, pouco a pouco, a perder corredores. Era dia do primeiro dos dois jogos da final do Campeonato Paulista: Palmeiras, time predominante no bairro, e Água Santa. Ao total, em quase duas horas, foram sete descidas e nenhum acidente, eixo quebrado ou roda solta. “Antes fazia 3, 4, até 5 carrinhos no sábado pra molecada correr no domingo. Hoje quase não faço mais. A criançada não liga mais, só querem saber de celular e videogame. Você não vê mais brincadeira na rua. A tecnologia veio e acabou com tudo e acho que isso é um caminho sem volta. Acho que somos a última geração de rolimã, pelo menos aqui na Conceição Pereira”, diz Thiago sem parecer triste. É fato.
 
Às 17h o domingo está oficialmente encerrado para os carrinhos. Não com uma explosão de premiações, e mais como um suspiro mesmo. Na Rua Mirandinha, onde pouco tempo atrás os rolimãs faiscavam o chão para parar, algumas famílias e casais se dividiam pelas mesas de plástico de dois bares de espetinhos concorrentes para assistir ao jogo. O Água Santa, que é de Diadema, ganhou de 2 a 1 do Palmeiras. O tempo continuou nublado e uma leve onda de frio baixou naquele fim de tarde na Penha de França.

 
EPÍLOGO
 
De abril a novembro deste ano de 2023, a descida de rolimãs na Conceição Pereira só aconteceu mais duas vezes. “O pessoal desanimou por conta da lombada. Já não querem mais ficar arrumando a rua toda vez pra descer. Eles [a subprefeitura da Penha, os vizinhos] ganharam”, atualiza Thiago, que segue a vida entre o trabalho e a família.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

bauru, mico leão de cara dourada & diabética

está na edição de janeiro da revista piauí minha sexta contribuição pra seção 'esquinas'. é sobre o tratamento de um mico leão diabético no zoológico de são paulo. essa pauta surgiu de uma conversa com uma amiga querida, bia abramo, que ficou sabendo de uma farmácia de manipulação na rua líbero badaró, centro da cidade, que fornecia medicamentos pro zoo. dores crônicas, antidepressivos, reposições de cálcio, problemas tão humanos, tão animais.

em tempo, minha colaboração com a revista começou com um jogo de futebol americano em são bernardo do campo ['touchdowns no abc'], depois veio um cemitério de animais em itapevi ['o paraíso é aqui do lado'], uma festa cigana na extrema zona leste de são paulo ['e o lenço levou'], um bingo erótico em santos ['um 69 e eu levo a pintola!', este acabou não sendo publicado] e uma flanelinha cinéfila ['a rosa púrpura da fradique'].

segue então uma versão maior do texto, pré-edição do bernardo esteves.

METFORMINA OU MORTE

A luta de um mico-leão diabético por sua independência metabólica


ilustração de Andrés Sandoval

Bauru estava diferente. Parecia eletricamente irritado com qualquer coisa, mas, sobretudo, com quem ousava se aproximar de sua comida. Chegou a brigar, sair na mão de verdade. E sempre com muita fome, muita mesmo, mais que o normal. Muita sede também e, por consequência, uma quantidade assombrosa de xixi. Bauru não era assim.

Então alguns pelos começaram a cair e com a pele mais exposta surgiram feridas que, por sua vez, demoravam a cicatrizar. Definitivamente era muita coisa estranha acontecendo ao mesmo tempo e, em fevereiro de 2016, Bauru deu entrada na creche do Zoológico de São Paulo, lugar que serve tanto para cuidar de filhotes abandonados pelas mães quanto para tratar de algumas enfermidades em espécies menores, como é o caso de Bauru, um dos 51 micos-leões-de-cara-dourada da instituição. 

“Logo depois que ele chegou aqui conseguimos rapidamente diagnosticar a diabetes pela dosagem da glicose sanguínea e também pelos sinais clínicos, porque ele estava com polidipsia [bebendo muita água], polifagia [comendo muito e vorazmente] e poliuria [muito xixi]”, explicou Suzana Hirata, veterinária que tem acompanhado o animal, enquanto caminha pelo corredor do seu principal local de trabalho. A edificação térrea fica entre a creche e a diretoria da Fundação que administra a vida de pouco mais de 3000 animais [eram 400 quando o zoo foi inaugurado em 1958, ao redor das nascentes do Riacho do Ipiranga, pelo então governador Jânio Quadros]. 

É nesse lugar cercado pela Mata Atlântica que cobre os 824.529 m² do zoológico – e que tem centro cirúrgico, sala de incubação para ovos de aves e répteis e almoxarifado, entre outros – que a veterinária e seus colegas preparam os remédios que serão administrados pelos tratadores nas mais diversas formas para as mais diversas espécies. Todo santo dia, várias vezes ao dia.



Agora é a vez de Bauru. Hirata pega um pouco de ração, mistura com banana amassada, acrescenta 3 gotas de metformina, um antidiabético também usado por humanos, e faz um bolinho. Esse é o tratamento diário para a diabetes do mico prestes a completar 17 anos [2 anos a mais que a média esperada para a espécie]. No entanto, o problema de saúde de Bauru é um pouco mais complexo. 

“A doença base não está diagnosticada ainda e ela é a causadora da diabetes que, no caso, é uma doença secundária. É sempre um desafio fechar diagnósticos em animais selvagens porque a gente não tem parâmetros de laboratório. Não temos referências de normalidades para todas as espécies, então trabalhamos com dosagens por alometria, que são fórmulas baseadas em metabolismos como o do cão, e vamos adequando conforme a espécie”, diz Hirata, enquanto prepara mais um bolinho.

Na parede ao lado é possível ver um painel com a organização de todos os tratamentos, dosagens, horários e seus respectivos “pacientes”. Tem, por exemplo, homeopatia e acupuntura para um urso-pardo idoso que sofre de osteoartrose, e só acupuntura para uma cobra-cipó que está passando por um processo degenerativo ósseo, ou então suplementos alimentares para animais como o leão-marinho e os pelicanos, pois eles comem peixes que chegam congelados ao zoo e que, nesse processo, perdem nutrientes.



Caminhando rumo à creche, já com os bolinhos batizados com metformina em mãos, Hirata fala mais sobre a doença base de Bauru: “A gente acha que pode ser hiperadrenocorticismo porque tem isso da alopecia [queda de pelos] e a diabetes pode ser secundária a ela. Em humanos essa doença está muito associada a tratamentos prolongados com corticoides. Em primatas não humanos não existem trabalhos publicados e, no caso dele, certamente não foi por causa de corticoides. Ainda não sabemos como isso aconteceu com ele. Mudamos dosagens, alteramos dieta, nada de frutas ou legumes, e esperamos ter alguma resposta nos próximos meses”.

Só que Bauru terá que esperar mais um pouco pelo bolinho porque o portão da creche está fechado e Hirata precisa voltar ao escritório para pegar a chave. Enquanto isso, é bom esclarecer para fins biográficos que, segundo sua ficha, Bauru não nasceu em Bauru. Sua procedência é o Centro de Primatologia do Rio de Janeiro, sua data de nascimento é 15 de dezembro de 2000, e o pequeno primata chegou ao micário do Zoológico de São Paulo em 14 de fevereiro de 2008 “para compor o plantel e integrar as ações de conservação da espécie”.

Mesmo com os portões fechados é possível ver, pelo lado de fora, grande parte dos cerca de 70 m² da creche. Habitado majoritariamente por pequenos primatas e aves, o espaço ao ar livre possui uma série de ambientes com casinhas, troncos, cordas, chão de cimento, teto e, quando necessário, aquecimento. Mas cada um no seu gradeado. “O caso do Bauru é difícil, mas ele melhorou com o tratamento para controlar a glicemia. Melhoraram os sinais clínicos e o comportamento. Mas é como acontece com as pessoas, pois melhorar a glicemia não significa, necessariamente, voltar pra normalidade”.



Nem é preciso quatro passos dentro da creche para ouvir – “Esse é o Bauru” – e ver sua cara dourada grudada na grade. Ágil, ansioso e com uma juba vistosa, Bauru parece bem, mas tão logo se vira para voltar à casinha, o dorso se revela ainda sem pelos e com algumas feridas. “O Bauru é um animal idoso, o que dificulta o tratamento e uma eventual cura. Nem tudo se resolve, nem tudo a gente consegue tratar. Nem a medicina humana consegue, né? Às vezes dá uma certa frustração, mas a gente continua mesmo assim. A ideia é que ele se sinta bem, com qualidade de vida, sem dor, sem mal estar”, e Bauru sai da casinha novamente, dessa vez acompanhado por Cláudia.

Parceira de Bauru em seu retiro, Cláudia é fruto do programa de conservação do Zoológico de São Paulo, nasceu na instituição em 21 de janeiro de 2009 e tem uma saúde de ferro. “Estar acompanhado é uma decisão de bem estar. Micos leões são animais gregários, então o ideal é que sempre tenha pelo menos uma companheira ou companheiro”, e Cláudia, a mica, foi a escolhida. 

Enquanto o casal de micos se agita na expectativa por comida, Hirata coloca suas luvas, pega dois bolinhos – o batizado com metformina para um lado, o de Cláudia para o outro –, tira pequenos pedaços e os oferece. “Bauru já era de um grupo de micos que fazem parte do programa de conservação, então já não estava em exposição para o público do zoológico. Pra ele tanto faz estar aqui na creche, ou no micário. Pra gente, o que importa é ele estar bem”.

Bauru é o primeiro a acabar seu bolinho e quando chega a vez de Cláudia dar a última mordiscada, ele pula à frente, pega o pedaço e sai correndo. Hirata, a veterinária, balança a cabeça e diz entredentes, “Ai, Bauru”. 

p.s.: abaixo seguem os discos que fizeram a trilha da produção desse texto.

Brooklyn Raga Massive - Terry Riley in C 
Trent Reznor & Atticus Ross - The Vietnam War [Original Score] 
Sébastien Tellier - A Girl Is a Gun [Music from the Original Series]
Incredible Bongo Band - The Return of the Incredible Bongo Band 
Nicole Willis & UMO Jazz Orchestra - My Name Is Nicole Willis
Ghostpoet - Dark Days and Canapes
Hermeto Pascoal & Big Band - Natureza Universal

terça-feira, 12 de setembro de 2017

flanelinha porque preciso, cinéfila porque te amo

acabou de sair, agora em setembro, meu quinto texto pra seção 'esquinas' da piauí. minha colaboração com a revista começou com um jogo de futebol americano em são bernardo do campo ['touchdowns no abc'], depois veio um cemitério de animais em itapevi ['o paraíso é aqui do lado'], uma festa cigana na extrema zona leste de são paulo ['e o lenço levou'] e um bingo erótico em santos ['um 69 e eu levo a pintola!', este acabou não sendo publicado]. 

dessa vez a história foi mais próxima, aqui mesmo no bairro onde moro, pinheiros, e a protagonista é rosa, flanelinha de um quarteirão na rua fradique coutinho. é que frequentando o cinema da rua, o cinesala, ou indo na casa de amigos que moram por ali cruzei caminho algumas vezes com rosa e me diverti com as observações dela sobre os filmes em cartaz. mandei a pauta pra revista, recebi sinal verde e passei um domingo com rosa pra conhecer seu cotidiano de trabalho e histórias de sua vida.

aqui, como sempre, vai o versão original do texto. mas dá pra ler também a que saiu na piauí, um pouco menor [ah, a limitação do espaço no impresso], revisada e com alguns toques de edição. no mais, aquele abraço agradecido a rafael cariello e bernardo esteves.


ilustra que andrés sandoval fez pro texto na piauí

A ROSA PÚRPURA DA FRADIQUE

Rosa não estava se sentindo bem naquela semana e, pela primeira vez em 4 anos, faltou ao trabalho. Foram alguns dias nos quais os carros de um quarteirão da Rua Fradique Coutinho – em Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo – contaram apenas com a própria sorte. “Esse tempo mais frio né. E o cigarro. Aí a sinusite atacou de novo”. Já é domingo e ela está melhor e de volta ao batente. “Peraí, chegou um carro”.

O quarteirão que Rosa toma conta fica entre as ruas Teodoro Sampaio e Artur de Azevedo, e apesar de possuir estabelecimentos como um banco, uma casa de chás chineses, a sede do Greenpeace, uma padaria e um restaurante capixaba, seu foco de atenção está em quem frequenta o CineSala, um dos poucos cinemas de rua sobreviventes da cidade. 

Inaugurado em 1962 como Cine Fiammeta, “o Cinema Elegante de São Paulo”, o atual CineSala já foi chamado de Studio ABC, Sala Cinemateca, Sala UOL de Cinema, iG Cine, Cinema da Vila, Cine Sabesp e Cinesala Sabesp. Apenas dois anos mais nova que a sala de cinema, Rosa nem lembra a última vez que foi chamada pelo seu nome de batismo, Rosalia. Rosalia Beserra Neta, natural do vilarejo piauiense de Campestre, município de Itainópolis, perto de Picos.

Ainda com alguma tosse decorrente da sinusite, Rosa perdeu a primeira sessão, às 14h. “Mas pelo que estou vendo aqui foi meio fraco. Geralmente é assim no domingo, pode ser o filme que for: a primeira e a última sessão são mais ou menos, enquanto a segunda e terceira são ótimas. Olha, outro carro”. Meros dois passos após avistá-lo, Rosa já está na rua com sua abordagem habitual para desconhecidos: “Boa tarde. Tá precisando de vaga? Vai no cinema? Comprou ingresso? Bom filme”. 

Já são quatro carros encaminhados para a segunda sessão e ela se dá o direito de acender um cigarro. “Aqui não tem filmes de ação, de efeitos especiais. É uma outra categoria, uns filmes mais culturais, dramas. Mas gosto de drama, tenho paciência pra assistir. Gosto de uma história bem contada”. Então estica um pouco o pescoço ao ver um carro se aproximando devagar. “Esse vai pro estacionamento”, e relaxa novamente.



“Na época do Cine Sabesp, quando comecei a trabalhar aqui na rua, não me sentia confortável pra ver os filmes, mas depois que mudou para o CineSala passei a conhecer todo mundo. Às vezes pago ingresso, às vezes me dão cortesia e também já vi filme pago por gente que vem assistir”. Contabiliza uns 25 filmes em pouco mais de 2 anos. Não lembra o nome de todos, mas não esquece a empregada de ‘Que Horas Ela Volta?’, a péssima cantora de ópera de ‘Marguerite’ e o amor proibido de ‘Carol’. Ficou bastante impressionada com ‘O Regresso’, um tanto pela atuação de Leonardo DiCaprio, mas principalmente por descobrir que é possível sobreviver a uma tempestade de neve abrindo a barriga de um cavalo morto e se aquecendo dentro dela.

“Lembro também que vi ‘As Sufragistas’, aquele filme que passa lá atrás quando as mulheres não tinham direito a nada e eram escravizadas no trabalho”. Rosa diz que nunca se sentiu “escravizada” por nada, mas está na lida diária desde antes da maioridade, afinal perdeu os pais aos 10 anos e veio para São Paulo morar com os irmãos. Trabalhar era mais que preciso.

Seu primeiro emprego foi numa metalúrgica no Alto da Mooca, mas logo casou e passou a trabalhar com o marido em feiras-livres. Não demorou muito e recebeu uma licença da Prefeitura de São Paulo pra trabalhar como camelô na região Santana/Tucuruvi, Zona Norte da cidade. Foram 30 anos assim, vendendo todo tipo de coisa, desde guarda chuvas até, mais recentemente, capinhas de celular.

No entanto, 8 anos atrás, durante a gestão de Gilberto Kassab, a Prefeitura cassou todas as licenças da região e Rosa virou clandestina. Em um determinado mês chegou a ter seus produtos apreendidos 8 vezes pelo “rapa”, a Guarda Civil Metropolitana. Resultado: perdeu todo dinheiro que tinha guardado, cerca de R$ 18 mil, e chegou a ser despejada. O momento só não foi pior porque ela já estava separada – sobre o ex-marido não gosta nem de falar – e seus dois filhos, Marcela e Eduardo, já estavam grandinhos, formados. “Agora preciso trabalhar”, e volta para a rua, afinal a segunda sessão de domingo está prestes a começar e sempre aparecem uns carros retardatários.

Rosa ainda insistiu um tempo na clandestinidade, mas a idade e a falta de dinheiro deram um fim à essa correria. Após um período de bicos variados ela decidiu tentar a sorte em uma região que não conhecia. Começou pela Vila Madalena e, apesar de não beber, ficou encantada com a quantidade de barzinhos. Mas nada de trabalho. Então foi descendo pela Rua Fradique Coutinho, chegou ao bairro de Pinheiros e numa conversa casual foi abordada por Raimundo, um flanelinha da área. Foi ele que, quatro anos atrás, “ofereceu” o quarteirão do CineSala, pois não estava dando conta de tantas ruas. Rosa topou na hora e foi ficando, ficando. “Esse quarteirão me acolheu”, confessa.



A segunda e a terceira sessões foram realmente boas, conforme previsto por Rosa, e ela ficou de olho em nove e doze carros, respectivamente. “Quando estreia filme novo a primeira coisa que faço é ler a sinopse. Depois pergunto pra um dos gerentes do cinema se ele acha que vai dar público ou não. Eles até brincam que pareço um dos donos, porque pergunto tudo. Mas é que preciso estar informada porque sempre tem gente que pergunta como é o filme que está passando ou se está lotado”. Falta meia hora para começar a última sessão de domingo, apenas três carros apareceram e quando um quarto surge na esquina ela nem pestaneja. “É Uber”.

“Tem filme que sei que não é bom, ou me falam que não é bom, mas só comento depois que o filme sai. Ou então se tiver intimidade com a pessoa. É o meu ganha pão, não vou falar mal. Meses atrás teve um que entravam umas 50 pessoas e saíam umas 120 antes do filme acabar”, e solta uma gargalhada. “Nunca tinho visto isso. O filme chamava muita gente, é de um diretor conhecido [‘Os Belos Dias de Aranjuez’, de Wim Wenders], mas quando acabava a sessão não tinha mais ninguém”. 

Apaixonada por cinema desde que viu, ainda garotinha, filmes de Bruce Lee no centro de São Paulo, Rosa ficou um bom tempo longe das pipocas. Fase de muito trabalho e crianças pequenas em casa. Mas bastou crescerem um pouco e os levou para assistir ‘O Rei Leão’ e ‘A Bela e a Fera’ e se divertiu tanto quanto eles. “E também gosto muito do Woody Allen, por exemplo. Quando aparece um filme dele tem que ver. Mas esse último, o ‘Café Society’, vi aqui e foi um dos mais fracos dele. Achei uma Sessão da Tarde melhorada”. E dá uma risada.

Um dos que mais gostou no ano foi ‘Capitão Fantástico’. “Fiquei encantada com esse filme. Achei que o pai [interpretado por Viggo Mortensen], mesmo vivendo no mato, conseguiu educar os filhos muito bem. Criei meus filhos da mesma forma, dando liberdade prumas coisas, segurando outras. Me identifiquei muito”. 

É que Rosa criou seus dois filhos com o dinheiro que ganhou em seus tempos de camelô. “Dinheiro da rua, da selva de pedra”, diz com orgulho. Marcela, a mais velha, é formada em Administração, trabalha numa grande empresa, mora em Guarulhos e está prestes a lhe dar o primeiro neto. Eduardo, o mais novo, é formado em Psicologia, fala cinco línguas e há dois anos mora em Tóquio. Os dois não precisaram abandonar os estudos na metade do ensino fundamental, nem trabalhar desde cedo, porque Rosa fez questão que sua história não se repetisse. “Chegou o último carro do domingo”, e sai apressada. 

É sinal de que só tem mais umas duas horas de trabalho. Tempo do filme acabar, as pessoas e seus carros saírem, a luz da marquise apagar e as portas descerem. Aí ela também voltará para casa, cinco quarteirões dali. Queria jantar alguma coisa e ver ‘Velozes e Furiosos 8’, mas o controle remoto do DVD está com defeito e ela terá que se contentar com o Domingo Maior. 



“Olha, sempre adorei trabalhar na rua. Não tem rotina, todo dia tem gente diferente, cada um com sua ideia. Mas gosto mais de lidar com gente de idade porque são pessoas que já viveram o bastante para não desejarem o mal de ninguém. Acho que é porque fui criada sem pai nem mãe, então dou corda, gosto. E gosto que gostem de mim. Acho que sou meio doida, né?”. Enquanto sua pergunta fica no ar, passa uma cadelinha. “Oi, Sofia!”, e a cadelinha se aproxima. “Olha, ela já tá até me cheirando”, diz para o dono. Sofia sai balançado o rabo. Rosa conquistou mais um.

p.s.: no final de outubro encontrei Rosa mais uma vez no quarteirão do Cinesala e, coisa rara, ela tava toda emocionada. é que pouco minutos antes um casal de clientes-amigos de longa data passou por ali com um presente: o perfil dela que fiz pra Piauí numa moldura.

terça-feira, 3 de julho de 2012

um bingo erótico em santos

o texto que segue abaixo foi feito originalmente para a revista piauí. seria minha quarta contribuição para a seção "esquinas". acho que seria publicado em maio, ficou pra junho, mas aí alguém decidiu que "ficaria velho" e o texto, já pronto, caiu de vez. ainda tentei vendê-lo para outras duas revistas, mas o estilo era tão "piauí" que acabou não colando. só posso dizer, modéstia às favas, que todas as publicações envolvidas saíram perdendo. tem muitas informações, histórias, realidades e diversões nessa reportagem, uma das que mais gostei de fazer. segue aqui a versão original do texto para o deleite (espero) de quem aparece aqui pelo esforçado.


“UM 69 E EU LEVO A PINTOLA!”

Todos os calores femininos em um bingo erótico na Baixada Santista

O início da tarde de domingo se arrasta nublado na altura do número 700 da rua Carvalho de Mendonça, em Santos: um senhor barrigudo de sunga azul faz alongamento apoiado em uma lixeira, uma criança volta da padaria com dois refrigerantes nada dietéticos, um sem teto dorme embaixo da mesa de sinuca do fechado (aos domingos) Familia’s Bar. Tudo normal. Mas em um salão de festas, ao lado do tal bar familiar, seis pênis infláveis de cores diversas jazem pendurados na parede e lingeries sensuais disputam espaço com vibradores numa mesa desmontável.

Olga é a responsável por isso. 38 anos, casada, a mãe de dois meninos corre para cima e para baixo no salão. É o 3º Bingo Erótico Só para Mulheres que ela organiza em menos de um ano, mas o nervosismo continua o mesmo. Mal dormiu a noite anterior de tão ansiosa. “Comecei a trabalhar com produtos eróticos um pouco antes do primeiro bingo e logo vi que era complicado de vender. Você não bate na porta de ninguém oferecendo. Mas tinha que existir um jeito de expor isso pra mulherada e explicar qual a finalidade. Porque, por exemplo, muitas nunca viram um vibrador. Não sabe como funciona, o que faz... só sabe onde entra, né? Então vi que tinha que reuni-las e achei o bingo uma boa ideia”, disse enquanto atende o celular e passa coordenadas para uma prima e uma tia que vieram de Bertioga lhe ajudar. Caio, seu marido, não gosta muito dessa história de sex shop e bingo erótico, mas prefere vê-la ocupada e ganhando o próprio dinheiro, então o que lhe resta é perguntar o menos possível.

As cervejas, águas e refrigerantes chegam quentes apenas uma hora antes do evento e Olga precisa comprar gelo. Mas antes de sair explica que o convite é 25 reais e dá direito a cinco cartelas, uma Espanhola (coquetel feito de vinho doce, leite condensado e abacaxi), um prato de salgados e outro de doces. Cartelas extras e as outras bebidas são pagas por fora. Pouco mais de 100 mulheres fizeram reserva e, segundo Olga, “elas cobram cada centavo do que pagam, querem tudo que tem direito”. Se todas vierem os custos da festa se pagam. A experiência dos outros dois bingos mostrou que essa é a matemática simples do evento e que lucro mesmo acontece nos dias seguintes quando os “brinquedinhos” são levados nas casas das clientes em horário apropriado (sem filhos e marido).


“Tá vendo aquela lua que brilha lá no céu? / Se você me pedir, eu vou buscar só pra te dar / Se bem que o brilho dela nem se compara ao seu”, derrama-se Thiaguinho, uma das vozes do Exaltasamba, nos alto falantes enquanto a força-tarefa de Olga dá os toques finais na decoração. Balões amarelos e brancos estão espalhados pelo salão principal, palco do bingo, das apresentações dos seis gogo boys contratados e do soundsystem caseiro que fará a trilha sonora da tarde. Tudo pronto também na entrada com mesas e araras cheia de roupas, calcinhas, lingeries e biquínis, produtos mais comportados que acabaram se tornando o lado B do catálogo da organizadora. Nessa edição, o bingo ainda conta com a presença de uma mesa de cosméticos populares com direito a maquiagens gratuitas. No mais, entre a entrada e o salão principal está a mesa com os brinquedos eróticos, agora adornada com um boneco inflável quase em tamanho natural.

As primeiras mulheres chegam por volta das 14h30. “Vou ali ver as coisas... peraí, deixa eu pegar os óculos ou não enxergo nada”, diz uma delas, acompanhada de filha e mãe. “Vem Neuza! Já tá aberto! Tem um monte de coisa pra ver”, diz outra, míope de lentes muito grossas. E vão chegando outras, idades e tipos dos mais variados.


Com meia hora de atraso, exatamente às 15h45, o 3º Bingo Erótico Só para Mulheres tem início e pouco mais de 100 senhoritas e senhoras de idades e tipos mais variados conversam animadamente. Nem imaginam que a Striperboys Eventos, a empresa dos gogo boys, lhes preparou uma surpresa: os petiscos (sinônimo para jovens iniciantes) Paolo e Daniel farão “um esquenta para a mulherada”.

De sunga amarela e botas, a dupla entra no recinto ao som de alguns gritinhos e uma dance music genérica. Passam pelas mesas agarrando uma, levantando outra, tendo suas bundas apertadas, tirando fotos. A música parece durar eternamente e de vez em quando eles não sabem mais o que fazer e ficam mexendo nas laterais da sunga olhando para o infinito. Algumas poucas não parecem se importar muito com os petiscos e uma delas até sai no meio da apresentação para fazer uma maquiagem na entrada.

A música chega ao fim e Olga pega o microfone para falar de alguns dos brinquedinhos antes de começar o bingo erótico propriamente dito. Um tesômetro e um pênis de borracha são levados de mesa em mesa pelos petiscos e novos gritinhos e risadas são ouvidos pelo salão. É o coquetel já fazendo efeito. “Vamos começar, gente?”, diz a organizadora quando o relógio marca redondas 16h.


Enquanto os primeiros números começam a sair, e os brindes para as vencedoras são kits com produtos do sex shop, o petisco Paolo combina um cinema para mais tarde. “Demorô! Já estou com a roupa aqui”, diz, ainda de sunga, ao celular. “Desde pequeno queria ter um corpo igual de gogo boys, porque eles têm o corpo mais evoluído. Aí ano passado vi na internet um rapaz e comecei a ver as fotos e ele dançava... ao mesmo tempo conheci uma pessoa que fazia o evento aqui em Santos e que me chamou. Sempre tive vontade de dançar pra todo mundo ver... ser olhado, né?”, confessa o jovem de 18 anos que trabalha como montador de móveis planejados. Paolo começou a “dançar” em novembro do ano passado e já é chamado para dois eventos por semana, tanto para mulheres quanto para o público GLS.

“A gente tem que se encaixar em todos os lugares, não pode ter preconceito nenhum. A diferença é que as mulheres ficam todas loucas e o homossexual fica mais na dele. Às vezes eles machucam um pouco porque sabem que você tem aquilo que eles têm. Então tentam pegar, mas a gente não deixa, porque quando pegam dá aquela dor. Já as mulheres são mais carinhosas com a gente porque vêm pra se divertir, pra brincar”, conclui enquanto arruma, nada discretamente, o pênis na sunga.

No salão principal, as mulheres já nem lembram mais dos petiscos. Só tem olhos e ouvidos para as cartelas do bingo e o chamamento dos números. “Essa é a única hora que vejo mulher calada”, diz uma. Até que na terceira cartela, quando o prêmio é um pênis de borracha de 20 cm, o silêncio é quebrado meio que sem querer. “Um 69 e eu levo a pintola!”, torce alguém no fundo. Todas riem e, como em um jogral, gritam “Uiiii!”. Mas o 69 não sai e sim um 47. A felizarda da vez é uma moça baixinha que se assusta um pouco ao colocar as mãos em seu prêmio cor da pele.


“Eu e minhas amigas frequentamos eventos assim há dois anos. A gente procura se divertir pra sair da mesmice que é o domingo: sofá, macarrão, frango, filho, neto, Silvio Santos”, explica Naná, 63 anos, em uma pausa para o cigarro do lado de fora do salão. Ela veio acompanhada das amigas e vizinhas Nenê (68) e 51 (60), todas casadas. “Íamos mais em clubes, é melhor, porque esses salões viraram moda, banalizaram. Parece loja de material de limpeza que em cada esquina tem uma... e esses meninos então... chegam esfregando o negócio e ficam andando por aí com essa sunga encardida. Não admito”. As amigas concordam e 51 completa que “os profissionais mesmo chegam arrumados, com roupas limpas e decentes, e conforme o show acontece tiram a roupa, afinal a gente vai lá pra ver eles pelados. Quase pelados, na verdade. Tudo pra fazer aquela farra, aquela algazarra. Nossos maridos sabem que a gente não vem aqui pra agarrar os homens. Porque se a gente quisesse fazer algo de errado não vinha em lugar público com filhas e netas, né?”

Nova gritaria no salão. Quem fechar a quinta cartela terá um minuto com um dos seis profissionais que irão se apresentar ao final do bingo. “Balanga o saco!”, gritam em coro. Ganha uma senhora que estava tirando fotos do evento com seu celular do Palmeiras, mas que, tomada por algum pudor, desiste da prenda. E, pela segunda vez nessa tarde, uma jovem instrutora da academia que Olga frequenta é premiada. “Aêêê Pocahontas!”, comemoram suas amigas.


“Nunca ganho nada, não sei o que aconteceu. É a primeira vez que venho em um evento desses e tô adorando, só mulherada, tudo livre, podendo falar besteira a hora que quiser. Eu, pra ser sincera, acho bem engraçado esses gogo boys. Acho que vale mais pra despertar o fogo da mulherada, fazer bagunça, mas não me atrai não, tanto que na hora que cheguei e vi, pensei ‘nossa, que gay isso!’. Nem queria ter ganho o minuto com o boy, acho que vou rir da cara dele ou então perguntar porque ele faz isso. O que me chama mais atenção mesmo são os brinquedinhos”, diz Camila, 23 anos, formada em Educação Física. Seu outro prêmio foi uma taça de champanhe com um pênis brilhando no meio que ela não faz ideia de como desligar.

O bingo erótico acaba por volta das 18h30 e quem ganhou, ganhou. A partir de agora a felicidade é geral com a apresentação dos profissionais. Olga pede à reportagem que acompanhe apenas o primeiro show e depois deixe as mulheres à vontade. Também dá um aviso: “Por favor, não coloquem as fotos no Facebook”. Então, a luz é apagada e o salão fica iluminado apenas por alguns raios de laser dançantes.

Vestido de toureiro, o primeiro boy a surgir é Danyllo Mack e a reação da “mulherada” é instantânea e explosiva. Logo tira uma para dançar, pega outra na cadeira e joga ainda uma outra no chão. Elas, por sua vez, passam as mãos por seu corpo, apertam a bunda, gritam “Vem! Vem! Vem!”. Antes do gran finale, no qual o toureiro tira a sunga (sem jamais mostrar a genitália, esse é o combinado), Danyllo ruma até o grupo das amigas da melhor idade. Naná e 51 se atracam com o boy, Nenê fica só olhando e batendo palmas.


A euforia é geral e ainda se apresentarão um cowboy, um Don Juan, um marinheiro, um gladiador e um policial da SWAT. Mas é preciso uma pausa entre um e outro para as damas se recomporem. Em um canto externo do salão, Naná, com o rosto suado, dá o seu veredicto para o primeiro show. “Foi bom, mas faltou um pouquinho. O meu marido me chama de ‘a crítica do mundo’, mas não é verdade. É que eu acho que tudo pode melhorar”, confessa enquanto traga longamente seu cigarro de filtro branco. Uma nova música começa a tocar, talvez seja a hora do cowboy que ela conhece de outros clubes das mulheres e sabe que tem pegada. Silvio Santos? Só domingo que vem.

domingo, 8 de janeiro de 2012

cigano igor não mora mais aqui

meus dois primeiros textos para a revista piauí foram publicados em 2008 ("touchdowns no abc" e "o paraíso é aqui do lado"). depois fiquei um tempo afastado após ser efetivado como editor da revista monet. mas o comichão de escrever sobre outros assuntos e em outros veículos voltou a me pegar ali pelo final de 2010 e fui tentando emplacar outras pautas que não foram pra frente por um motivo ou outro (a ex-liga das senhoras católicas foi uma delas, roberto leal na festa de aniversário da portuguesa de desportos foi outra). até que em outubro do ano passado apareceu, via o grande amigo pitris claudino, a história de uma festa cigana nas profundezas da zona leste paulistana e a revista topou (na figura de bernardo esteves, atual editor da seção "esquinas").

a festa aconteceu na noite de 11 de novembro (11.11.11), poucas horas depois d'eu ter chegado de las vegas (onde nasceu "penhores e delírios em las vegas" pra monet), e eu estava absolutamente no fim das minhas forças. ainda mais depois de mais de duas horas de trânsito para chegar até o polo cultural da zona leste. no entanto, chegando lá, fui recobrando as energias com a versão brasileira dessa cultura que me interessa muito e há tanto tempo (desde o começo dos anos 1990 quando assisti a filmes de emir kusturica como vida cigana e underground).

logo que comecei a escrever decidi que não iria me ater ao tamanho que me foi pedido (6 mil toques) e depois cortaria. mas quando coloquei o ponto final, o texto estava com 12 mil e uns quebrados. fui cortando parágrafos inteiros até chegar a 7800 e vi que não conseguiria mais, então soltei a bomba nas mãos do bernardo esteves que, muy gentilmente, a desarmou e a editou como o novo título de "lenços ao vento" (que está na edição de janeiro da revista). segue aqui então a versão original da reportagem com espaço para todo tipo de digressão. 


desenho de andrés sandoval para o texto na revista

E O LENÇO LEVOU

Rodrigo Valenzuela não parou um minuto naquela sexta chuvosa em São Paulo e quando a noite caiu o trabalho estava apenas começando. Foi então que precisou se desdobrar em anfitrião, mestre de cerimônias, produtor, chefe de família, marido, pai e dançarino, além de porta-voz da cultura cigana. Nada podia dar errado na 3ª Festa da Abertura dos Portais, uma responsabilidade familiar dentro da comunidade e, ao mesmo tempo, homenagem a avó Maria Gomes Valenzuela Fernandez. Pelo menos a chuva foi embora. Ficou apenas o vento.

E às 20h30 tinha mais vento que gente no Polo Cultural da Zona Leste, altura do número 3300 da Avenida Águia de Haia, Ponte Rasa. A fogueira não tinha sido acesa, as barracas dos oráculos estavam vazias e a grande quadra – que em outras noites recebeu shows de Arlindo Cruz a Racionais MCs, de Belo a Clube do Balanço – nem suspeitava que pouco mais de mil pessoas passariam por ali nas próximas 10 horas (estimativa do próprio Valenzuela). De resto, tudo positivo e operante, com cerca de 20 expositores prontos para vender bijouterias, pinturas com motivos ciganos, bonecas, roupas, espadas, punhais, uma bebida a base de vinho chamada Sangue de Dragão, almofadas com a bandeira cigana (metade de cima é azul/céu/liberdade, metade de baixo é verde/terra, com uma roda de carroça no meio, a vida nômade) e até cocares vendidos por um trio de índios. Como Valenzuela deixaria mais claro posteriormente este não seria o primeiro sincretismo da noite cigana.

“Eu e minha esposa Jovanka sempre soubemos que tínhamos raízes ciganas, mas foi só a partir do nosso casamento, cinco anos atrás, que a gente partiu pro resgate da nossa cultura”, explicou Valenzuela, hoje com 33 anos e fabricante de perfumes ciganos. “Minha família veio da Espanha, sempre tive isso comigo. Cresci falando espanhol, só que não sei escrever, mas quando fui ficando mais velho descobri que algumas palavras que eles diziam, umas 20, eram diferentes. Eles só me diziam que era língua da família. Depois descobri que era romani”.

Enquanto as pessoas vão chegando, o espaço é dominado por música, uma mistureba de sons do mundo cigano, ora mais pops, ora folclóricos, e em várias línguas. Mulheres de todas as idades dançam sozinhas, mas homens nunca o fazem desacompanhados. Quando casais se formam, o homem protege a dança da mulher como um porta-bandeira e essa proteção às vezes ganha o reforço simbólico e muito real de um punhal.

Próximo aos dançarinos, uma das três barracas de comida presentes ao evento solta cheiros dos mais diversos, mas apesar do cartaz “culinária cigana”, seu dono, Wildão, não trouxe nada muito típico para a noite. “Resolvi não arriscar porque em festas com muitos gadjés (ou gadjôs, isto é, não-ciganos) a comida cigana não tem muita saída”, confessa. Nada de carneiro (bacrô) ou charuto (sarmá), por exemplo. Conversando com todos os clientes que encostam a barriga no balcão, o próprio Wildão comanda a chapa, de onde saem lanches de pernil (balô) e linguiça (boí), enquanto seus assistentes fazem pastéis, tempurás e yakisobas. Wildão, aliás, usa uma bandana com ideogramas orientais que evita de cabelos caírem na comida, mas não impede de uma gota ou outra de suor pingar na chapa quente.


wildão, de camiseta azul e bandana, com bandeira cigana em destaque 

“Gosto de cozinhar, sempre gostei e faz muito tempo que vivo trabalhando assim em festas, feiras e rodeios. Só que quase morri uma vez na estrada e desisti dessa vida. Agora tenho uns pontos fixos em Santo André, que chamo de Rancho do Wildão, e de uns 15 anos pra cá comecei a trabalhar em festas ciganas”, e segue misturando pernil e linguiça com vinagrete em altas temperaturas. “É que minha avó espanhola era cigana e encontrou com meu avô, que era italiano, aqui no Brasil, em Garibaldi, Rio Grande do Sul. Mas tem índio bugre na minha família também. Quer dizer, tenho sangue cigano, mas não me considero cigano. Sou curioso”, diz o homem grande de braços lotados de pelos já brancos. 

Por volta das 21h, com quase 300 pessoas presentes, começa a primeira atividade da noite, uma missa ecumênica comandada pelo Bispo Edivaldo dos Santos, da Igreja Católica Apostólica da Redenção, direto de Brasília. “Sabe o que está diluindo a tradição? A criminalidade, a falta de compreensão, a falta de humanidade entre nós”, conclama o bispo do alto do palco para uma minoria atenciosa, majoritariamente do sexo feminino, tanto de cabelo solto (solteiras) quanto de cabelo preso (casadas), todas descalças e sem jamais mostrar as pernas.

No entanto, mesmo que a maioria dos estimados 800 mil ciganos que vivem no Brasil tenha uma ligação mais próxima com a Igreja Católica, existem famílias evangélicas, muçulmanas, espíritas, missa em romani, ciganos que não praticam mais a vidência e por aí vai. Valenzuela foi descobrindo isso durante esses cinco anos de resgate pessoal e viu que “os gadjé confundem raça e religião. Somos uma etnia, estamos livres para todas as religiões. Eu, por exemplo, amo a umbanda. O que quero dizer é que religião e cultura mudam muito de clã pra clã, de subclã pra subclã, de família pra família”. 

Só que numa ocasião especial como essa, Valenzuela optou por abrir os festejos com uma missa cristã (não é comum). Era um jeito de agradar o máximo possível de convidados e também de estreitar laços com as famílias ciganas de Brasília que vem, no centro do poder federal, conseguindo benefícios para a comunidade como a possibilidade de ser atendidos pelo SUS sem precisar comprovar residência e o Centro Calon de Desenvolvimento Integral (CCDI), primeiro centro de referência cigana do Brasil, inaugurado em 2009 na cidade de Sousa, semiárido paraibano (um dos 291 municípios brasileiros que possuem acampamentos ciganos segundo censo do IBGE do ano passado).

Para um gadjé de primeira viagem é impossível distinguir entre os grupos de ciganos. Quem são Caló (ou Calon, ou Calon), provenientes da Península Ibérica e invariavelmente de acampamento? Quem são Romani (ou Rom), os que vieram do Leste Europeu e fixaram residência? Quem são os Kalderash, que vieram da Rússia? Quem são Matchuaya, ortodoxos, menos propensos a absorverem as culturas locais como os outros? Ainda mais na festa, quando as roupas os unem com suas cores berrantes, lenços, acessórios, brilhos e miçangas. A cantilena do bispo interrompe o raciocínio.


o bispo edivaldo dos santos em ação

“Geralmente o bispo aqui é acompanhado por um grupo de fiéis cantando, mas seria muito dispendioso trazer todos até aqui, por isso só vim acompanhado da minha secretária, que está muito cansadinha da viagem. Então me ajudem na cantoria”, pede o bispo durante a missa que se estende por uma hora, interminável para os casais que querem voltar dançar. A maioria nem liga e permanece conversando, comendo pastéis e tempurás, ocasionalmente gritando quando reencontram velhos amigos.

Para a alegria de alguns, a missa acaba e pouco depois, quando o relógio marca 22h20, começa o cortejo de Santa Sara Kali, padroeira dos ciganos. Só mulheres de cabeças cobertas são permitidas e apenas virgens podem levar as imagens. Portanto, duas meninas, rindo orgulhosas para os flashes, são colocadas à frente das mulheres. Exibem Santa Sara e sua equivalente católica, Nossa Senhora Aparecida, que são postas em um pequeno altar cercado por frutas e pães no meio da quadra, de cara para o palco. As frutas, dentre elas melancias, uvas, ameixas e melões, não demoram muito a serem comidas. De vez em quando uma voz surge ao microfone falando de um lenço perdido, uma cena que se repete algumas vezes durante a noite. 

Então, com as santas devidamente entronadas chega a hora de acender a fogueira que acompanhará todo o resto da festa. Um homem mais velho é escolhido para ser seu guardião, ele não pode nem sonhar em deixá-la apagar, e a partir dele se forma um círculo de outros subguardiões com tochas. Passando por eles, a primeira-dama da festa Jovanka Valenzuela acende a fogueira com muito custo, afinal o vento continua passeando solto pela quadra, e uma cigana do Rio de Janeiro, Lumiar, amiga da família e oraculista respeitada na comunidade, abençoa a fogueira aos gritos de “optchá!”. 


o guardião do fogo de olho no lance

Também oraculista, Silvana acompanha de longe o cortejo e o acendimento da fogueira. Ela é uma matchuaya e em outros tempos nem estaria ali. “Eu não poderia nem falar com você sem baixar os olhos, mas cinco anos atrás me separei, não aguentava mais traição. Os homens matchuaya não fazem nada, são como os leões, só gritam e batem nas mulheres. Virei vagabunda por causa da separação, mas recentemente acabei voltando para que não acontecesse o mesmo com minha fllha. Ela agora tem 16 anos e queria casá-la”. Silvana sabe que é impossível fugir desse assunto, é questão de vida ou morte para os ciganos, mas não demonstra nenhum maior interesse quando é anunciado o casamento da noite. “Sabia que existem versões romani para ‘Morango do Nordeste’ e algumas músicas do Roberto Carlos?”, desconversa.

O relógio passa das 23 horas e, na verdade, uma das ideias originais era que às 23h11 desse dia 11 do mês 11 do ano de 2011, os autofalantes tocassem o hit “La Bamba” a plenos pulmões. É que seu autor, Ritchie Valens  (1941-1959), nasceu Ricardo Esteban Valenzuela Reyes a partir de um ramo da família que foi para o México e Estados Unidos, e sua música acabou virando hino informal de todos os Valenzuelas. Porém, com o atropelar dos eventos, o “sim” dos noivos pareceu mais adequado para coroar o momento. Ritchie Valens compreenderia.

De qualquer forma foi preciso correr para o “sim” cair exatamente às 23h11. Giovana, toda vestida de vermelho (o que para algumas famílias significaria que ela não era mais virgem), desceu de uma escada na lateral do palco e agarrou o braço do pai. O noivo Arthur já a esperava no palco junto com os padrinhos, madrinhas e o Bispo Edivaldo. E os poucos metros que os separavam foram preenchidos por uma explosão de papéis laminados. Deu tudo certo.


rodrigo valenzuela, o pai da noiva e a noiva giovana

Na segunda parte do casamento, Arthur e Giovana foram levados para próximo da fogueira e a cigana Lumiar também os abençoou, mas de uma forma mais requintada: com um punhal fez um corte no pulso esquerdo de ambos e os uniu com uma fita vermelha. Vinho tinto foi bebido, taças foram quebradas na fogueira e a partir dali nada mais seria o mesmo para o casal. “Arriba, minha gente”, gritou e dançou Lumiar. A essa altura mais de 600 pessoas circulavam pelo Polo Cultural, grande parte na quadra, que também já recebia um dos quatro grupos musicais da noite, além de uma das muitas companhias de dança.

Numa cultura que sempre foi mais de defesa, de “consumo interno”, que de afirmação, principalmente por não ter versão escrita, Valenzuela transformou uma festa familiar numa arriscada e pública carta de intenções. “Palavra qualquer papagaio aprende. Cigano é muito mais que isso, é atitude, por isso reconheço a ciganidade de cada um chamando de primos esses ciganos de coração. Quem sou eu para tirar isso deles? Só que por causa disso muita gente de dentro da comunidade me critica”.

Mas onde entra a “abertura dos portais” nessa história? “São portais para o nosso resgate cultural. Queríamos que essa festa fosse um resumão de tudo o que a gente tem de melhor. Porque eu já nem me preocupo mais com os preconceitos, essa coisa de roubar criança. Claro que tem cigano que não presta, mas também existem portugueses que não prestam, japoneses que não prestam. Hoje em dia o nosso maior problema, fora a educação para as crianças, é interno: de um querer ser mais cigano que o outro. Maldito seja o cigano que quer ser mais que o outro porque vai morrer sozinho”. 

Meia-noite passou faz tempo quando Rodrigo e Jovanka Valenzuela pegam o microfone para agradecer emocionadamente os presentes, ciganos e gadjés de todos os cantos do país. Citam nominalmente uns e outras. Mas ele, de repente, parte para uma linha mais confessional. “Sou um brasileiro que começou a resgatar a sua própria tradição. Já fui da umbanda, hoje sou de Deus. Somos de tudo e não somos de nada. Vivemos no meio da roda, somos ciganos. Um salve para minha mãe Oxum! Oraiêiê Oxum!”. Jovanka o olha, sorri, pega o microfone e arremata pragmaticamente: “Agora sim vai começar a festa!”.


e a festa cigana pega fogo

p.s. 1: esse texto foi escrito sob o efeito de uma trilha sonora formada por bambara mystic soul – the raw sound of burkina faso; erkin koray (meçhul: singles & rarities); hypnotic brass ensemble (bulletproof brass); bad bad not good (bbng/the odd future sessions); chocolate milk (action speaks louder than words); e são paulo undergound (três cabeças loucuras).

p.s. 2: o polo cultural da zona leste é também conhecido como espaço cultural chico mourão. quando comecei a escrever o texto procurei me informar sobre ele e achei pouquíssima coisa e nada que pudesse entrar no texto. mas segue aqui o pouco que achei... chico mourão (1950-1998), paulistano de são miguel paulista (das redondezas, portanto), foi cantor, compositor e produtor. trabalhou com figuras como tim maia, leandro & leonardo, déo lopes, agnaldo timóteo e cida moreira, entre outros e outras. lançou apenas um disco solo, baião absurdo (cactus discos, 1980), com oito canções próprias e destaque para a ótima "eu chupo um drops".

p.s. 3: agradecimentos públicos a pitris claudino que não só me deu a deixa para essa pauta (te devo essa, picles!) como foi meu guia durante toda a noite. 

p.s. 4: o título desse post ("cigano igor não mora mais aqui") foi minha primeira ideia para o titulo do texto, mas não consegui encaixar o personagem de jeito maneira na reportagem e guardei a piadinha para quando a publicasse no blog. para quem não lembra, cigano igor foi o personagem interpretado pelo ator ricardo macchi na novela explode coração (1995-95), de gloria perez.