a história desse texto começa no início de 2018, pouco antes da minha filha nascer em 3 de fevereiro. já havia escrito algumas 'esquinas' pra Piauí quando, do nada, o editor Armando Antenore me encomendou uma reportagem. isso nunca tinha acontecido antes (afinal, as 'esquinas' sempre partem dos repórteres) e o espaço na revista também era inédito (a seção 'chegada'). fiquei animadíssimo com a pauta sobre um projeto de reintrodução de ararajubas na natureza e logo marquei uma entrevista com o zoólogo Luís Fábio Silveira, responsável técnico pela iniciativa.
combinamos um almoço perto de seu lugar de trabalho, o Museu de Zoologia da USP, ali no Ipiranga, e a conversa sobre ararujubas seguiu até seu escritório (ele até me deu um presentinho para minha filha que estava prestes a nascer). tudo ótimo, tudo certinho, e terminei o texto para ser publicado na edição de abril. mas então veio a tragédia do assassinato da vereadora Marielle Franco no Rio de Janeiro e o texto sobre as ararajubas caiu. ainda tentamos adaptar o texto para 'esquinas', mas não tinha a pegada da seção. a vida seguiu, Tereza nasceu e esqueci desse texto até meu computador morrer anos depois. foi aí que descobri que não tinha backup dele (entre outras coisas), não achei nos emails, etc. mas a vida seguiu mais uma vez e só agora voltei a procurá-lo (e não é que Armando tinha ele guardado em algum arquivo!).
como é um texto do início de 2018 e certamente muita coisa aconteceu no projeto nestes oito anos voltei a falar com o professor Luís Fábio para atualizá-lo. não o texto, pois não tinha condições de reescrevê-lo, mas em forma de depoimento que seguirá aqui, após a reportagem original, tão logo o receba.
QUATORZE ARARAJUBAS E
UM DESTINO
Após 70 anos, as ararajubas voltaram à cidade das mangueiras
No início de agosto de 2017, um grupo de quatorze ararajubas partiu rumo ao desconhecido. Nascidos em cativeiro e criados por mãos humanas, esses psitacídeos de plumagem amarelo-ouro com detalhes em verde deixaram o conforto da Fundação Lymington, em Juquitiba, interior de São Paulo, e voaram longe – mas ainda não com as próprias asas – para a terra de alguns de seus antepassados, Belém do Pará. Tudo isso como parte de um projeto pioneiro de reintrodução dessas aves em um de seus ecossistemas naturais.
“A gente tinha vários níveis de receio quando estávamos indo para Belém: receio dos bichos não saírem do viveiro, receio de voarem sem rumo e não conseguirem voltar, receio de morrerem nos primeiros dias das formas mais variadas. Mas a verdade é que o bicho deu um baile na gente”, explicou Luís Fábio Silveira, curador das Coleções Ornitológicas do Museu de Zoologia, professor colaborador no Departamento de Zoologia da USP e coordenador científico do projeto de reintrodução das ararajubas. “No dia que saíram foi lindo, deram vários voos circulares em cima da gente, não demonstraram nenhum receio, voaram super bem. Foi um espetáculo. Fazia tempo que não me emocionava com bicho tanto assim. Parecia que Dona Linda estava lá empurrando cada uma pra fora do viveiro”.
A Dona Linda a quem Luis Fábio se refere é Linda Wittkoff, norte-americana que veio ao Brasil com o marido William Wittkoff no início da década de 1960. Após anos de trabalho dele como executivo da Ford no ABC, o casal comprou um terreno rodeado pela Serra do Mar, em Juquitiba, e criaram a Fundação Lymington, uma instituição sem fins lucrativos que visa preservar e reproduzir em cativeiro espécies de aves ameaçadas de extinção, principalmente araras azuis e ararajubas.
“Infelizmente, um ano atrás, a Dona Linda morreu. Um câncer fulminante a levou. Ela preparou tudo, conhecia todas as aves, todas, mas não chegou a ver o projeto acontecer. Então, para homenageá-la, batizamos a iniciativa de Belém Mais Linda”. Afinal, também foi Linda que estabeleceu a proposta inicial de parceria com o Ideflor-bio [Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará] para a reintrodução das ararajubas.
Já a sugestão de soltá-las no Parque Estadual de Utinga, na região metropolitana de Belém, veio do Ideflor-bio. Uma das explicações é que o último registro de uma ararajuba na capital paraense tem cerca de 70 anos. “E eles também acharam interessante porque Utinga tem relação com os mananciais de água da cidade. É uma região muito bem preservada, tem matas muito boas, e por ser na região metropolitana poderia gerar uma empatia com a população, o que é algo importante em um projeto assim”, e de empatia com aves, Luis Fábio entende. Quando adolescente, muito antes de prestar Biologia, o mineiro de Belo Horizonte chegou a ter 400 papagaios em casa.
“Ararajuba é um bicho muito especial e muito inteligente. É de uma linhagem evolutiva endêmica da Amazônia brasileira, portanto só tem no Brasil. Quer dizer, é algo que apareceu no decurso da evolução das espécies e só sobrou a ararajuba dentro desse gênero. Ela já é algo singular por isso. No mais, ela é um papagaio e o Brasil é o país com o maior número de espécies de psitacídeos do mundo. Além de tudo isso, é um bicho muito doce, muito carinhoso”. Essa doçura toda, aliada ao agressivo desmatamento nas regiões nordeste e sudeste da Amazônia e ao tráfico ilegal de animais, fez com que a espécie caísse para cerca dos atuais 5 mil indivíduos na natureza.
Para dificultar ainda mais a retomada do crescimento das ararajubas, as populações são muito isoladas uma das outras. Estão, basicamente, em quatro regiões: nas paraenses Tailândia, Caxuanã e às margens do Rio Tapajós, no Parque Nacional da Amazônia, e na maranhense Reserva Biológica do Gurupi. “Não existe chance nenhuma dessas populações se encontrarem. É um bicho florestal que não se arriscaria em longas distâncias, não saberia atravessar pastagens, por exemplo. Por isso o nosso projeto é reintroduzir onde o animal não vive mais e assim criar uma nova população”.
Voltamos então às 14 ararajubas que partiram rumo a Belém em agosto de 2017. Tudo começou antes, com uma preparação sanitária das aves para que estivessem bem de saúde e não levassem nada estranho para o novo ecossistema. Depois, uma preparação física, afinal elas precisam voar bem, com autonomia e direção. “Essas ararajubas são netas de indivíduos que já nasceram em cativeiro. São bichos que nunca viram um pé de açaí na vida e que tiveram que aprender no cativeiro o que é uma comida do mato. No segundo dia em Belém a gente pendurou um cacho de açaí e você não tem ideia do pânico delas ao ver a fruta. Mas como o bicho é curioso e existe uma memória genética, uma semana depois elas já estavam sabendo manipular o açaí sem nunca ter visto na ponta do galho”.
No entanto, duas ararajubas do grupo não se mostraram aptas a voar com a eficiência necessária – e voltaram para a Fundação Lymington para fins de reprodução – e outras duas foram definidas como satélites no viveiro para que as outras saibam para onde voltar em caso de fome. Sobraram dez para a soltura que foi marcada para 31 de janeiro deste ano [2018]. “Antes do grupo inteiro, soltamos dois machos com 20 dias de diferença entre os dois. A gente achou que se soltássemos um casal, eles podiam ir embora. Escolhemos então dois casais muito apaixonados e separamos os dois machos. Como são bichos gregários, eles sempre voltavam por causa das fêmeas. E assim foram aprendendo a ir e voltar, e isso seria repassado para os outros. A gente poderia ter tentado com duas fêmeas, acho que daria certo, mas não quisemos arriscar porque apostamos nessa territorialidade dos machos”.
Em seis meses nos viveiros de ambientação no Utinga, as
ararajubas aprenderam, ou reaprenderam, a serem amazônicas. Mas como o diabo
mora nos detalhes, duas aves morreram comidas por jibóias. Sobraram oito, cinco
fêmeas e três machos. “Reintrodução não é o que se vê na TV, que são órgãos
ambientais abrindo gaiolas de traficantes e soltando os bichos de qualquer
jeito. Isso é muito bonito, sai no Jornal Nacional, todo mundo chora, mas na
verdade você está condenando esses bichos à fome e sede nos dois primeiros
dias. Libertar o animal e ir embora pra casa é não fazer a parte mais
importante do processo que é o monitoramento, o que acontece depois. Essa é,
justamente, a maior parte do nosso trabalho”.
Após o espetáculo da soltura, as oito ararajubas que ganharam os céus do Utinga se arriscaram inúmeras vezes no mundo real de seus antepassados. Algumas ficaram até uma semana sem voltar ao viveiro. O plano agora é soltar um segundo grupo em abril [de 2018]. Dez ararajubas já estão prontas, mas Luis Fábio e seu parceiro, o biólogo Marcelo Vilarta, querem levar doze.
“Quero introduzir, no mínimo, umas trinta aves no Utinga. Mas como sempre tem alguma perda, e isso é natural, é preciso suplementar esses animais até chegar a uma população que consiga se sustentar sozinha. Até o fim do ano [de 2018] quero estar com todo mundo lá. E tenho uma esperança, que diria definitivamente que o estudo deu certo, que alguns indivíduos se reproduzam no fim do ano, ali por novembro”.
O sonho maior é transformar Utinga em um polo para estudos em Biologia da Restauração. “A gente quer contribuir de forma mais importante pra recomposição de ecossistemas naturais. Porque reintrodução é um processo contínuo. Não é um capricho, não é um oba-oba de soltar passarinho. Reintrodução é restaurar um componente da biodiversidade que por algum motivo foi perdido naquela região. E lá em Belém a gente quer soltar também araras vermelhas, periquitos cara-suja e mutuns”. E ararajubas, muitas ararajubas.
“A gente quer adaptá-las pra viver na natureza e pra morrer também. Afinal, morrer faz parte do jogo. O importante não é quantas morreram e sim quantas conseguiram se manter e sobreviver na natureza”. Nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, pois assim vai se aprendendo a restaurar e preservar.
ATUALIZAÇÃO DO PROJETO (em breve)





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