NÃO TEM PAPO, NÃO TEM ALÔ
Tinha umas coisas na mente, um plano Ultra Pop. Comecei pela TV (carnavalesca), pulei para o mercado fonográfico (neo sertanejo), e daí iria rumo ao cinema, a rádio e a internet. Refletindo sempre sobre manifestações culturais populares nos mais diversos veículos de comunicação e em tempos diferentes. Só que a música é um assunto que acaba atravessando tudo, não consigo escapar, e as centenas de comentários gerados pela coluna anterior – a do Luan Santana – me chamaram atenção para um gênero que parece personificar para muitos o mais baixo que a humanidade pode chegar. Estou falando do funk carioca, amiguinhas e amiguinhos.
Como aceitar que versos como “Dako é bom / Dako é bom / Calma, minha gente , é só a marca do fogão” possam ser música? E que isso possa ser bom? Pois é, acontece que é isso mesmo. E nem vou falar da importância de Tati Quebra-Barraco ser uma pioneira voz feminina, orgulhosa e ativa em um cenário masculino e machista. O lance aqui é mais fundo, pois Tati é apenas uma das muitas pontas desse jovem gênero musical (cerca de 25 anos, por aí) que ainda segue se batendo com preconceitos internos enquanto é considerado, no exterior e também por aqui, a legítima música eletrônica popular brasileira.
Aí o pessoal começa a espumar de ódio. “Como assim?! Esses funks cariocas só falam de putaria e incitam violência!!! Que cultura é essa?” Antes de entrar no mérito da questão, um aviso: o pessoal costuma confundir as bolas achando que o seu (bom?) gosto é o mais importante, o verdadeiro, o fino. Mas gostar de Cartola ou Adriana Calcanhotto não vai te fazer uma pessoa melhor daqueles que gostam de Mr. Catra ou Bonde da Madrugada (não faltam exemplos de ditadores sanguinários muito chegados a música clássica, e aí?). O que importa mesmo é que, para além dos gostos pessoais, o funk carioca é uma intensa e dinâmica fábrica de alegria, sexo, humor, prazer, dinheiro, críticas sociais, amor e brasilidade a muitos beats por minuto.
“De algum jeito o nosso povo faz das festas uma arte. Com pouco ensino tradicional mesmo pra quem teve escola, é nas festas que a gente inventa um jeito de estudar a vida, uns com os outros”, disse certa vez o carioca Sany Pitbull, um dos DJs mais disputados da recente cena de funk carioca e que transita entre boates de classe média alta de São Paulo e clubes europeus. Essa singela declaração de Sany diz muito sobre a riqueza sem preconceitos de um gênero que pretende então, sem muita elaboração e no calor dos momentos, estudar a vida através da arte da festa. Afinal, é de encontro em encontro que a gente vive e cresce. A única diferença é que no funk os encontros são muito mais suados.
p.s.: o título dessa coluna faz parte do refrão de uma das montagens mais clássicas do funk carioca do final dos anos 1990 e que diz mais ou menos assim “Se trepidar / Se enfraquecer os irmão / E se conspirar / E armar vacilação / E se caguetar / Não tem papo, não tem papo, não tem alô”.
