música brasileira é aquela coisa bonita, cada vez mais diversa e territorialmente vasta. e todo ano aparece gente nova, tem povo amadurecendo e veteranos inquietos. mas foi em 2023 que teve Barbara Eugênia cantando Wando, Céu cantando Pitty, DJ Múlu remixando Tetê Espíndola, Martinho da Vila e Chico César cantando Zé Ketti, Valério tocando Luiz Gonzaga e Xande de Pilares cantando Caetano.
também foi em 2023 que finalmente gostei de Ava Rocha e fui surpreendido pelo improvável (a ex-atriz Cleo e Johnny Hooker, a ex-skatista Karen Jonz e o Cansei de Ser Sexy). falando em primeiras vezes, surgiram por aqui a potiguar Sarah Oliver, a mineira Sara Não Tem Nome, os gaúchos Ian Ramil e Duda Brack, o paraibano VictoRAMA, o cearense Mateus Fazeno Rock, o pernambucano Luiz Lins, o carioca Jonathan Ferr e o paulista MC Pedrinho.
também foi em 2023 que precisei quebrar mais uma vez a regra de não colocar mais de uma música por artista. Aleatoriamente de Rodrigo Ogi é tão porrada pulsante de um rapper cronista cada vez mais afiado que foi difícil fechar em apenas uma música (teria colocado mais que duas, aliás), e assim entraram “Chegou sua vez” e “Valha-me” (uma com Juçara Marçal, a outra com Siba, ambas produzidas por Kiko Dinucci). também não fui capaz de escolher entre “Madrugada maldita” e “Estante de livros” (essa com participação certeira de Don L), os dois pontos altos do excelente disco O Amor, o Perdão e a Tecnologia Irão Nos Levar Para Outro Planeta do FBC.
dessas 70 músicas vieram, obviamente, trampos novos & massa de gente já querida pela casa. gente que já sai com uns corpos de vantagem. é o caso de Aíla, Alice Caymmi, Jaloo, Ju Dorotea, Lurdez da Luz, Lucas Santtana, MC Tha, Síntese, Vitor Ramil, Baiana System, Duda Beat, Marcelo D2, Tatá Aeroplano, Xis e sempre sempre a filha Iara Rennó e a mãe Alzira E. mas já tá bom de blábli né. segue a playlist com 70 músicas brasileiras de 2023 segundo os ouvidos da casa.
70 MÚSICAS BRASILEIRAS DE 2023
A Espetacular Charanga do França - “Chevette azul” Academia da Berlinda - “Bandoleiro” Afrocidade - “Tá fod*” Aíla & Jáder - “Me beija” Alaíde Costa - “Ata-me” Aldo Sena - “Meu vovô” [part. Saulo Duarte] Alice Caymmi - “Las brujas” Alzira E - “Filha da mãe” [part. Ney Matogrosso] Ana Frango Elétrico - “Insista em mim” Arquétipo Rafa - “Feito ladeira” [part. Alessandra Leão] ÀTTØØXXÁ - “Dejavú” [part. Liniker] Ava Rocha - “Longe longe de mim” BaianaSystem & Duda Beat - “Borogodó” BaianaSystem, Gilsons & Tropkillaz - “Presente” Bárbara Eugênia - “Gosto de maçã” Bixiga 70 - “Na quarta-feira” Céu - “Emboscada” Clarice Falcão - “Chorar na boate” Cleo - “Seu fim” [part. Johnny Hooker] Coruja BC1, MC Luanna & Febem - “Versão brasileira” Djonga - “Coração gelado” [part. Tz da Coronel] Domenico Lancellotti - “Quem samba” [part. Ricardo Dias Gomes e
Marcia] Don L - “Tudo é pra sempre agora” [part. Luiza de Alexandre] Duda Brack - “Víbora ligeira” Eddie - “Máscara negra” [part. Karina Buhr e Isaar] FBC - “Estante de livros” [part. Don L] FBC - “Madrugada maldita” Felipe Cordeiro, Illy & Barro - “Todo céu azul” Giovani Cidreira - “Dois lados” [part. Russo Passapusso e Melly] Ian Ramil - “Macho-Rey” Iara Rennó - “Orí axé” Iza & MC Carol - “Fé nas maluca” Jaloo - “Tudo passa” Jards Macalé - “A foto do amor” Jonathan Ferr - “Correnteza” Ju Dorotea - “Raven” Juliano Gauche - “Nos cânticos de lá” Karen Jonz - “Coocoocrazy” [part. CSS] Karol Conká, Tasha & Tracie - “Negona” Letrux & Lulu Santos - “Zebra” Lucas Santtana - “What's Life” Luiz Lins - “Midas” Luisa e os Alquimistas & Getulio Abelha - “Caninga” Luiza Lian - “Homenagem” Lurdez da Luz - “Devastada” Marcelo D2 - “Povo de fé” Marina Sena - “Me ganhar” Martinho da Vila & Chico César - “Acender as velas” Mateus Fazeno Rock - “Melô de Aparecida” MC Pedrinho - “Gol bolinha, Gol quadrado 2” MC Tha & MahalPita - “Coisas bonitas” Moreno Veloso - “Mundo paralelo” Mulú - “Escrito nas estrelas” [remix] niLL - “3.0” [part. Amiri] Paulo Ohana & Bruna Alimonda - “Um pedido de desculpas” Rico Dalasam - “Tarde d+” Rodrigo Campos - “Japonego” [part. Juçara Marçal] Rodrigo Ogi - “Chegou sua vez” [part. Juçara Marçal] Rodrigo Ogi - “Valha-me” [part. Siba] Sara Não Tem Nome - “Nós” Sarah Oliver - “Redinha” Síntese - “Éter, dom & maldição” Tatá Aeroplano - “Canto mistério” Valério - “Asa Branca” VictoRAMA - “AfroRobot” Vitor Ramil - “Acordei sonhando” [part. Alunas e Alunos da Escola
Projeto] Xande de Pilares - “Muito romântico” Xis - “Cutuco di bituca” [part. Elena Diz, Kami Cruz e Chico
Chagas] YMA & Jadsa - “Meredith Monk”/ “Mete Dance” Zudizilla - “Groove ou caos” [part. Tuyo]
João Gilberto por Speto (próximo ao Mercadão de São Paulo)
55 DISCOS BRASILEIROS DE 2023
como já disse lá em cima, Aleatoriamente do Rodrigo Ogi e O Amor, o Perdão e a Tecnologia Irão Nos Levar Para Outro Planeta do FBC são dos maiores frutos do ano. discos que são tanto 2023 quanto o futuro. tem balanço e sujeira, esperança e desigualdade, cidade e amor.
outros grandes discos deste ano são o Coração Bifurcado de Jards Macalé, Iboru de Marcelo D2, a Negra Ópera de Martinho da Vila, O Paraíso de Lucas Santtana, a volta de Xis em Invisível Azul, a revelação de Mateus Fazeno Rock em Jesus Ñ Voltará, a delicadeza de Xande de Pilares ao cantar Caetano Veloso e a dobradinha de Rodrigo Campos (com o próprio Pagode Novo e a parceria com Romulo Fróes em Elefante), além do absurdo talento de mãe (a Mata Grossa de Alzira E) e filha (o Orí Okán de Iara Rennó).
seguem os 55 discos brasileiros do ano com link pra ouvir os respectivos na íntegra.
ano difícil da porra esse 2021. ano que fez 2020 parecer uma viagem de
cruzeiro. certamente ouvi menos música e muito certamente ouvi menos discos
inteiros de cabo a rabo e com atenção. tempos atrás eram quatro listas (músicas e
discos brasileiros, músicas e discos gringos), ano passado caiu pra duas
(músicas brasileiras e gringas) e agora fiz apenas uma juntando brasileiras e
gringas tudo misturado (mas em ordem alfabética rsrsrs).
e como tá tudo diferente mesmo, este ano abri uma exceção que nunca
havia feito desde o começo das minhas listas em 2009: coloquei mais de uma
música do mesmo disco; afinal, os trabalhos absolutamente fantásticos de três
mulheres – Gaby Amarantos, Juçara Marçal e Little Simz – não me deram opção (e
mesmo assim foi difícil fechar em duas). outras minas conhecidas da casa também
botaram pra quebrar, tais como Aíla, Alessandra Leão, Alice Caymmi, Céu, Duda
Beat, Flora Matos, Iara Rennó, Jorja Smith, Larissa Luz, Luana Carvalho, Mallu Magalhães, Nneka, Rosalía, St. Vincent, Tássia Reis, Xenia
Rubinos e Yendry (e as estreantes Ana Flor de Carvalho, Duda Brack, Jadsa, Kimberose, La Dame Blanche e o fenômeno Marina
Sena). como já venho repetindo nos últimos anos, as minas tem sido responsáveis pelas músicas mais interessantes e invariavelmente também são compositoras e produtoras.
dos manos preciso destacar algumas que foram muito trilha do meu ano: a espetacular "Cotidiano" do Rincon Sapiência; "Calling England Home" do Anthony Joseph (combinação foda de ethio jazz com spoken poetry); "Linda" d'Os Amantes (encontro de Jaloo com a dupla Strobo); a porrada de "Cleane" do Criolo; "Fim de festa" do saudoso Itamar Assumpção via Arnaldo Antunes e Vitor Araújo; "Me espera", o hit veraneio ijexá oitentista de Múlu (ex-DJ Omulu) com vocais de Letrux; as doçuras de "O tempo e o vento" de Roger W. Lima, "I Can't Wait" de Rodrigo Amarante, "Estrangeiro" de Rico Dalasan; os balanços poderosos de "Hustle" do Sons of Kemet, "Reza forte" do Baiana System & BNegão, "Santé" do Stromae, "Poke it Out" de Wale & J. Cole e "Brasa" do Saulo Duarte (com participação de Thalma de Freitas); e por último, o brega e o piseiro e vice versa de "Aquelas coisas" de João Gomes, "Amante de aluguel" de Johnny Hooker e "Unha de gel" d'Os Barões da Pisadinha.
taí playlist com as 110 músicas. só o fino, né por nada não.
João Gomes & Tarcísio do Acordeon - Aquelas Coisas
Johnny Hooker - Amante de Aluguel
Jorja Smith - Bussdown (feat. Shaybo)
Juçara Marçal - Crash
Juçara Marçal - Vi de Relance a Coroa
Kaytranada - $payforhaiti (feat. Mach-Hommy)
Kimberose - Pull Me Down
La Dame Blanche – Veneno
Larissa Luz - Afrodate (Dreadlov)
Lex Amor - Ruckus
Little Simz - I Love You, I Hate You
Little Simz - Point and Kill (feat. Obongjayar)
Lizzo - Rumors (feat. Cardi B)
L'Orange & Namir Blade - Corner Store Scandal
Los Yesterdays - Nobody's Clown
Luana Carvalho - Mainha
Luísa e os Alquimistas - I Love You Lulu (feat MC Tchelinho)
Major Lazer & Ludmilla - Pra te Machucar (feat. ÀTTØØXXÁ & Suku
Ward)
Mallu Magalhães - América Latina
Marcelo Jeneci - Vem Vem (feat. Muse Maya)
Marina Sena - Me Toca
Masego - Mystery Lady (Sego’s Remix)
Menahan Street Band - The Duke
Meridian Brothers & Conjunto Media Luna - En Teusaquillo te Pueden
Partir la Cara
Mick Jenkins - Contacts
Moonchild Sanelly - Undumpable
Mulú & Letrux - Me Espera
Mundo Livre S/A - Baile Infectado
Muzi - Interblaktic
niLL - Control (feat. DijahSB)
Nneka - With You
Onda Vaga - Deja
OQuadro - Asas (feat. Jorge Du Peixe)
Os Amantes (Jaloo & Strobo) - Linda
Os Barões da Pisadinha - Unha de Gel (Remix com Grave)
Owiny Sigoma Band - Changamooka
Pongo - Bruxos
Princess Nokia - Boys Are From Mars (feat. Yung Baby Tate)
Rico Dalasam - Estrangeiro
Rincon Sapiência - Cotidiano
Rodrigo Amarante - I Can't Wait
Roger W. Lima - O Tempo & O Vento (feat. Apollo 9)
Rosalía - La Fama (feat. The Weeknd)
Saulo Duarte - Brasa (feat. Thalma de Freitas)
serpentwithfeet - Amir
Sombra & Valério - Onde Orbitamos
Sons Of Kemet - Hustle (feat. Kojey Radical)
Sopico - Nuage
St. Vincent - Down
Stromae - Santé
Tamara Franklin - Fugio
Tank And The Bangas - Big (feat. Big Freedia)
Tássia Reis & Djonga - Ostentação da Cultura
The Brkn Record - Assimilation (feat. Dylema)
Tierra Whack - Stand Up
Tobe Nwigwe - Fye Fye (feat. Fat Nwigwe)
Wale - Poke It Out (feat. J. Cole)
Wayne Snow - Figurine
Xenia Rubinos - Don't Put Me In Red
Yendry - Ya
Zé Cafofinho - Bacuri (feat. Bárbara Eugênia)
ATUALIZAÇÃO: acabei não aguentando e fiz uma lista secundária com mais 40 músicas. algumas não entraram por pouco na primeira, outras eu esqueci e outras ouvi só agora aos 47 do segundo tempo. segue abaixo a lista e na sequência a playlist.
Agnes Nunes - Vish
Aminé - Charmander
Arlo Parks - Portra 400
BADBADNOTGOOD - Love Proceeding
Botika - Carnívora (feat. Alice Caymmi)
Caetano Veloso - Pardo
César Lacerda - Parece Pouco (feat. Xênia França)
Common - When We Move (feat. Black Thought & Seun Kuti)
Damon Albarn - The Cormorant
Emicida - São Pixinguinha
Erika de Casier - Make My Day
Esty - 7heaven
Flo Milli - Ice Baby
Greentea Peng - Nah It Ain't The Same
Hiatus Kaiyote - And We Go Gentle
Jazmine Sullivan - Pick Up Your Feelings
Jorge Du Peixe - Sanfona Sentida
Khruangbin & Leon Bridges - B-Side
Laís de Assis - Terra Vermelha
Los Retros - Amtrak
Lulina & Hurso - Uma Tela do Bob Ross
Marlowe (L'Orange & Solemn Brigham) - Small Business
MC Carol - Mulher do Borogodó
Meia Banda - Ipê (feat. Moreno Veloso & Iba Sales Huni Kuin)
Nas - Nobody (feat. Ms. Lauryn Hill)
Nightmares On Wax - Breathe In (feat. OSHUN)
Noname - Rainforest
Nova Malandragem - Moanin
Pabllo Vittar - Triste com T
Pat Kalla & Le Super Mojo - Cumbia de Paris
Rejjie Snow - Arigato
Rockers Control - Nine Out Of Ten
Rodrigo Campos - Deixa a Noite (feat. Verônica Ferriani)
Santa Salut - Un Altre Peto
Skepta - Nirvana (feat. J Balvin)
Thiago França - O Futuro Um Dia Volta
Tommy Guerrero - By the Sea at the End of the World
Tony Allen - Stumbling Down (feat. Sampa The Great)
Vince Staples - Are You With That?
Yebba - Far Away (feat. A$AP Rocky)
muita música, muita gente, muitas línguas e sons né. mas não custa
deixar o registro de alguns discos do ano. uns emplacaram músicas na lista
acima, outros não, e nada disso importa porque são todos discos fundamentais
pra se entender um pouco do que aconteceu musical e humanamente no mundo em
2021 (em caps locko os meus preferidos pessoais.
estamos aí no segundo capítulo da retrospectiva musical
deste ano. já publiquei aqui a lista com 50
músicas brasileiras e agora é a vez dos discos. são 50 com uma lista bônus de
outros 25. coisa pra diabo, eu sei, mas é só um pedacinho dos sons que chegaram
a mim. dessa ruma alguns merecem destaque, pois me pegaram mais de um jeito ou
outro. é mais ou menos assim...
pedra de sal - EP
que é o primeiro de uma trilogia -
chegou agora no final e me derrubou rapidamente. é trabalho de várias belezas e
muitas inquietações, alguma dramáticas, e mais um encontro forte de pernambuco
[alessandra leão e rodrigo caçapa] e são paulo [kiko dinucci e guilherme
kastrup]. e alessandra detona muito [“pedra de sal”, porra, o que é “pedra de
sal”?!]. já o que vim fazer aqui é
disco novo da alzira, o que me ganha de cara porque ela é uma das minhas
cantoras/intérpretes/autoras preferidas de todos os tempos. daí que nesse disco
ela canta só itamar assumpção, algumas inéditas, e com uma banda ótima. não é
só impossível dar errado como ainda por cima dá muito certo. falando em itamar,
o segundo disco de sua filha anelis assumpção, anelis e os amigos imaginários, é diversão do começo ao fim, é
adulto e pop, é urbano e leve. anelis tá fazendo um carreira muito massa.
convoque seu buda,
o disco de criolo após nó na orelha,
corria muitos riscos comparativos e saiu-se muito bem. não tem o ineditismo da
reinvenção do rapper e do encontro com Daniel ganjaman, mas tem alguns novos
caminhos próprios e justas coerências, além de várias grandes canções. ainda na
seara do rap, cruz do elo da
corrente é mais uma prova da maturidade do gênero. ousado musicalmente,
brasileiro e paulistano na medula, extremamente bem produzido, cruz é uma bela duma pancada. igualmente
impactante, goma-laca é o disco do
projeto de biancamaria binazzi e ronaldo evangelista com músicas
afro-brasileiras gravadas entre as décadas de 1920 e 1950 e rearranjadas por
letieres leite. e tudo fica ainda melhor com a escolha acertadíssima dos(as)
intérpretes que, não coincidentemente, estão nessa lista também com seus
excelentes trabalhos solo [juçara marçal, russo passapusso e lucas santtana – e
tem ainda karina buhr, mas que não lançou disco novo esse ano].
chegamos então a juçara marçal e seu encarnado. uma das mais discretas e poderosas cantoras brasileiras,
juçara fez de sua estreia solo um aperfeiçoamento natural do trabalho quem tem
feito no metá metá: tradições afro-brasileiras sendo rasgadas por guitarras, por
uma interpretação segura e pelo presente musical brasileiro. disco
impressionante de uma artista idem. coisa
boa é também a estreia solo oficial de moreno veloso, após a trilogia que
fez com os amigos domenico e kassin, e é seu trabalho mais doce, mais bonito.
já o novo nação zumbi pode não ter a
pancadaria de outrora, mas os pernambucanos seguem criando músicas ótimas,
honrando e muito as duas décadas do mangue beat/bit.
e o racionais mcs? após mais de uma década sem um cd de
inéditas, o quarteto lançou cores e
valores, um disco-conceito lotado de referências e histórias, um tantinho
frustrante pela curta duração, mas as vozes e posturas dos caras continua muito
impressionante. com 25 anos de estrada, o racionais é, sem sombra de dúvida,
uma das coisas mais importantes da história da música popular brasileira.
finalizando os destaques, dois baianos. russo passapusso,
vocalista do baiana system, lançou seu primeiro solo, o lindo paraíso da miragem, que tem reggae, ragga,
balanço e muito o que falar e mostrar. o veterano na inquietude tom zé veio com
vira lata na via láctea, seu melhor
disco em tempos, principalmente porque seus arranjos diferentes, formações
instrumentais variadas , e muitas participações interessantes [de criolo a
filarmônica de pasárgada, de milton nascimento a kiko dinucci, de caetano
veloso a o terno]. e, claro, um leque e tanto de ótimas músicas.
peraí, peraí... últimos destaques. juro! como disse na lista de músicas, continua rolando muito rap bom pra cacete. racionais, criolo e elo da corrente não me deixam mentir. mas vale ressaltar que tem ainda, nessa lista de 50, amiri, rincon sapiência, lurdez da luz, haikaiss e zulumbi aqui de são paulo, o pessoal do r93 de volta redonda e os gaúchos tuty e orquestra celestial do livre arbítrio.
bom também quando somos pegos no contrapé. foi muito bom ser surpreendido pelos excelentes discos de adriano cintra [animal], alice caymmi [rainha dos raios], celso sim [tremor essencial], ian ramil [ian] e márcia castro [das coisas que surgem], além da descoberta do niteroiense salgueirinho e seu animalia, um disco eletrônico-instrumental bacaníssimo.
segue então, finalmente, a lista com 50 discos brasileiros deste ano segundo o gosto da casa, tudo devidamente linkado para ouví-los na íntegra [e ocasionalmente baixá-los]:
virou rotina pessoal reclamar de mim mesmo pela cada vez
maior dificuldade de fechar listas certeiras com as melhores músicas [ou
discos] do ano. uma das razões é que é, de longe, o “produto” que mais consumo em qualidade e quantidade, e como tem muita música boa sendo lançada, vou fazer o
quê?! quero mais é mostrar a variedade do que é produzido e do que ouço. então, sem mais desculpas, começo a retrospectiva musical de 2014 com as 50 melhores músicas
brasileiras conforme o gosto e os limites da casa [tem, por exemplo, discos que não emplacaram música e vice-versa].
nesse ano resolvi agrupar em “gêneros”, ou em blocos, como
preferirem [e aí sim as músicas estarão em ordem alfabética]. e começo com o
rap, que é o que mais tenho ouvido nos últimos anos e o que mais tem empurrado
a música popular brasileira pra frente. neste bloco estão duas das melhores
músicas do ano, “plano de vôo” e “sobre o infinito e outras coisas”.
mais atentos(as) notarão a ausência dos racionais mcs, mas é
que, pra mim pelo menos, o poderoso disco deles é mais um conceito que um conjunto de canções [e, portanto, estará na lista dos melhores
discos]. quase todo rap da lista é de são paulo, mas tem porto alegre ali,
curitiba acolá, são josé dos campos também, e por aí vai. ah, os blocos estão
agrupados em playlists e quando tiver link na música é porque não achei no
youtube.
“sobre o infinito e outras coisas”, elo da corrente
e tome mais periferia com pancadões e rasteirinhas. nada de
funk ostentação, que isso é coisa do passado e tava na cara que o fôlego era
curto. mas tem sacanagem e duplo sentido sim, e tem usos muito novos e
divertidos da música eletrônica. “patrão”, “passinho do romano” e “perereca
suicida” são os destaques.
“patrão”, omulu
“dom dom dom”, mc pedrinho & mc livinho
“na casa do seu zé”, mc britney
“nega bass”, joão brasil
“passinho do romano”, mc dadinho
“perereca suicida”, mc japa
e a mpb? o que fazer com a mpb? ela ainda existe? essa coisa
faz sentido? os dois próximos blocos foram divididos por mera formalidade e não
existem medalhões da “chamada mpb” em nenhum. quer dizer, nesse tem tom zé, mas
tom zé é sempre inquieto e seu cânone é muito pessoal e sempre foge do esperado.
seu disco, aliás, é um daqueles difíceis de escolher apenas uma música [mesmo
caso de juçara marçal, russo passapusso, anelis assumpção e moreno veloso].
desse bloco, os destaques são “pedra de sal” e “queimando a língua”, coisas
lindas e fortes. ah, essa lista mpbística acabou gerando uma mixtape a pedido do hominis canidae/altnewspaper.
o último bloco é mais rock, mais pop, mais um lance mpb
esquema novo, ou não, já que tem carlinhos brown, guilherme arantes, uma
instrumental eletrônica e canção com letra em inglês... enfim, tudo uma grande e
brasileiríssima confusão. destaques desse bloco vão para “não vai dominar”, “descompasso”
e “mais ninguém”.
foi uma grande e longa noite no teatro municipal. a terceira edição do 'casa de francisco em concerto' pareceu uma peça do teatro oficina: cinco horas, dois intervalos, um monte de artistas no palco; só faltou gente pelada. dividido em 3 partes, o show começou com um bloco levado por benjamin taubkin. foi o mais longo e, pra mim, o único com momentos chatos. ótimas participações de felipe cordeiro com o pai manoel cordeiro, marcelo pretto, pau brasil e mani padmé trio. teve também renato braz, que é um sujeito que me dá vontade de morrer, e alaíde costa que fez uma versão muito falha e só no gogó de villa-lobos. o segundo bloco, capitaneado por arrigo barnabé, teve uma cara de vanguarda paulistana. rolaram grandes momentos com cida moreira, zé miguel wisnik, cacá machado, ná ozzetti, celso sim, isca de polícia e maurício pereira com daniel szafran [que lindo foi ouvir "um dia útil" no teatro municipal]. o terceiro, mais atual e interessante, veio com kiko dinucci. e lá vieram os amigos romulo froés, rodrigo campos e marcelo cabral [passo torto], thiago frança e juçara marçal [metá metá], a juçara detonando solo, etc. e ainda teve alessandra leão cantando a música mais bonita da noite ["pedra de sal"] junto com rodrigo caçapa e manu maltez. o encerramento épico veio com o trio emicida, rodrigo campos e thiago frança [do espetacular show que já falei aqui] e então o metá metá se juntou.
emicida + metá metá
lá pelo final, antes do metá metá se reunir a emicida, kiko dinucci fez um breve discurso pra casa de francisca e agradeceu a presença do prefeito fernando haddad, que foi muito ovacionado. ao fim & ao cabo, a noite foi ótima, apesar do cansaço de cinco horas, da confusão de algumas passagens de um artista pro outro, do roteiro também ocasionalmente confuso e da falta de um mestre de cerimônias que apresentasse os músicos e preenchesse os vazios.
uma parte do elenco do show agradecendo ao final
de qualquer forma, vida longa a casa de francisca! que venham novos, grandes e pequenos shows.