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domingo, 22 de abril de 2018

ao mestre, com carinho

quando fiquei sabendo da morte do grande nelson pereira do santos, aos bem vividos 89 anos, fui procurar o registro do meu único encontro com ele: uma entrevista para a revista monet em algum momento de 2007 com a deixa da estreia do bastante irregular brasília 18% no canal brasil. estranhamente ainda não tinha colocado aqui no blog, então agora segue o registro da minha conversa com essa pessoa simples, revolucionária, doce e atenta [e autor de clássicos como rio zona norte, rio 40 graus, vidas secas e boca de ouro].

brasília 18% acabaria sendo seu último filme ficcional e de lá pra cá dirigiu apenas três documentários: português, a língua do brasil [2009], a música segundo tom jobim [2012] e a luz do tom [2012], todos citados nessa entrevista.


nelson. pereira. dos santos.

MESTRE É MESTRE

Era um dia da semana como outro qualquer e o Centro do Rio de Janeiro fervilhava sob um céu azul de cartão postal. No labirinto de suas ruas estreitas um cineasta de espírito jovem, mas que no ano que vem completa 80 anos, trabalha sem parar. Nelson Pereira dos Santos é seu nome. Presente no cinema brasileiro desde o final da década de 1940, o paulistano de alma carioca traz em sua bagagem filmes inesquecíveis como Rio Zona Norte, Vidas Secas e Memórias do Cárcere, além de um olhar ao mesmo tempo doce e crítico em relação à realidade nacional. Em 2006, o diretor e roteirista lançou Brasília 18% nos cinemas após uma década produzindo exclusivamente documentários. Sua volta à ficção, uma das estreias do mês no Canal Brasil, é um misto de drama político e história de amor torta ambientada nos labirintos de Brasília com direito a congressistas envolvidos em tramóias, orgias e assassinatos. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência e o cineasta sabe disso há tempos. Leia a seguir a entrevista com Nelson Pereira dos Santos, que além de mestre da sétima arte é, desde 2006, um imortal da Academia Brasileira de Letras [ocupa a cadeira 7 que originalmente foi de um de seus maiores ídolos, Castro Alves].


Carlos Alberto Ricceli e Malu Mader em cena de Brasília 18%


O que é Brasília pra você? Você lembra da primeira vez que foi lá?
Lembro, claro. Eu trabalhava pro Jornal do Brasil na época e fui numa excursão com jornalistas. Vi Brasília, a Esplanada dos Ministérios, aquela terra vermelha e os edifícios todos ainda no esqueleto. Sempre fui fã de tudo que é novidade, então quando surgiu essa história de fazer uma nova capital achei ótimo. Era jovem e acreditei, como muita gente. Depois fui pra Brasília em 1965 trabalhar na UnB e ajudei a montar a primeira faculdade de cinema em uma universidade pública no Brasil. Mas essa história não durou muito e no mesmo ano alguns professores foram demitidos pelos militares e o restante pediu demissão em solidariedade, inclusive eu. Voltei à cidade em 1991 quando foi criado o Polo de Cinema de Brasília, eu era um dos conselheiros, e também por lá, mais ou menos na mesma época, filmei algumas partes de A Terceira Margem do Rio. Tenho uma relação com Brasília desde o começo.

Imagino então que você tenha acumulado um monte de histórias de bastidores da cidade durante todo esse tempo.
Pois é, quem conhece a vida política de Brasília vai lembrar de acontecimentos reais e que no filme parecem ficção. Mas tem outra coisa que é bom lembrar. Essa Brasília do filme é a Brasília da cúpula, do plano piloto, dos que têm acesso ao poder. Não é a Brasília do cidadão comum. É outra cultura.

Como surgiu a ideia de dar nomes de escritores aos personagens do filme?
Na hora de fazer o roteiro, de escrever a história, a gente precisa dar algum nome aos personagens. Aí eu coloco o que primeiro vier na cabeça, depois mudo. Ou então coloco o primeiro nome do ator. Na época, não sei por que, tinha um Olavo Bilac na minha escrivaninha. Depois veio o Gonçalves Dias. E assim foi. Quando acabei o roteiro mandei para alguns amigos. O que foi comum a todas as observações foi essa história dos nomes. Achavam que o público não ia entender. Mas tinha certeza que isso poderia ser interessante, afinal são nomes de pessoas que deram contribuições importantes no plano da arte, da literatura, e esses nomes estão agora em um terreno de absoluta decadência. São grandes nomes em pessoas mesquinhas.

Antes do Brasília 18% você ficou durante dez anos fazendo exclusivamente documentários. Foi uma opção tua? É mais tranquilo fazer documentários do que ficção?
Eu tinha um projeto de ficção muito ambicioso. Era uma reconstituição do Brasil Império e da vida do escritor Castro Alves. Comecei a captação, mas o projeto estava muito caro. Então fui convidado a fazer um documentário sobre o centenário do Gilberto Freyre e joguei tudo que tinha sido investido no Castro Alves para Casa Grande & Senzala, que acabou virando uma série em quatro episódios de uma hora cada. Trabalhei pra dedéu nisso entre 1999 e 2003. Depois apareceu o centenário do Sérgio Buarque de Hollanda [Raízes do Brasil, de 2004]. Mas esta sua observação é válida porque, realmente, em um documentário, você trabalha em cima de fatos históricos comprovados e com uma equipe menor. É mais íntimo e mais barato.

Mas você estava com saudades de fazer ficção?
Ah, sim. Mas houve estranhamentos. Que depois superei, claro. O número de técnicos na equipe aumentou [risos]. É uma subdivisão muito grande, um monte de assistentes. Facilita por um lado, ainda mais com a alta qualidade dos profissionais de hoje. É que não tinha ideia de como pilotar um bonde deste tamanho [risos]. Mas a gente vai aprendendo, né?

E como estão os novos projetos?
Acabei de fazer um filme na Academia Brasileira de Letras intitulado Português, a Língua do Brasil, no qual os acadêmicos falam sobre o português falado no Brasil. E já tenho esquematizada a produção de um documentário sobre o Tom Jobim que será feito no mesmo esquema do Sérgio Buarque de Hollanda. Um filme será um retrato afetivo e o outro será sobre a obra. Quero ver se consigo começar a filmar em setembro para lançar no ano que vem.

Algo mudou em teu prazer de filmar nestes mais de 50 anos de carreira?
Olha, sempre me sinto à vontade quando estou em um set e o momento de filmar é como estivesse de férias. Estou fazendo o que quero fazer. Por exemplo, esse filme que fiz na Academia Brasileira de Letras não tinha roteiro. Tive a ideia e fui filmando. Mas é uma sorte contar com um elenco como esse porque os acadêmicos falam super bem e as opiniões são brilhantes. Tem momentos maravilhosos. Olha aí eu vendendo o peixe de outro filme [risos]. Mas imagine o Sérgio Paulo Rouanet falando sobre o uso da língua ou então o Ariano Suassuna recitando um sermão do Padre Antônio Vieira. E o João Ubaldo Ribeiro, a Nelida Piñon... olha, não percam este filme [risos]! E tudo pelo prazer de filmar. Mas preciso começar a pensar na hora de me aposentar, principalmente agora que tenho um bom lugar para ficar que é a Academia. Tem muita coisa para fazer lá, muito livro para ler. E é preciso de saúde para fazer cinema. Mas também, pensando no Manoel de Oliveira que está com 98 anos e continua filmando, tenho ainda alguma esperança [risos].

quinta-feira, 21 de maio de 2015

diz aí letterman o que cê vai fazer

ontem foi ao ar o último dos 6028 programas – em 33 anos – apresentados por david letterman. é, sem sombra de dúvida, o fim de uma era, mas certeza que ele nunca aceitaria uma afirmação tão categórica e muito menos o fato de que é uma das figuras mais influentes da cultura popular mundial do final do século 20, mais até que o comediante mentor de sua geração, johnny carson.

e não é por [falsa] humildade ou discrição. é que tudo parece natural na sua ocasional rabugice, no humor auto depreciativo, na absoluta gratuidade nonsense de alguns quadros ou intervenções, no interesse genuíno por boas e engraçadas histórias de outras pessoas, na aversão pelo show business, etc. tudo isso era e continua moderno mesmo que já tenha sido assimilado por gerações mais novas.

não lembro quando comecei a acompanhar letterman. deve ter sido em algum lugar do final dos anos 1990. mas imediatamente me identifiquei com seu tipo de entrevistas, mais pra conversas sobre assuntos aparentemente triviais [e que mudaram de estilo, ficaram mais leves, após a cirurgia cardíaca no início dos anos 2000], e com seu humor ácido.

seu último top 10 – uma das marcas mais duradouras do programa e que começou em 1985 com “top 10 things that almost rhyme with peas” – é um belo resumo das melhores qualidades de letterman, de seus roteiristas e do programa [que será comandado, a partir de setembro, pelo genial stephen colbert, uma das melhores substituições da história da tv]. com vocês, dez coisas que que sempre quis falar pro dave que, no caso, são alec baldwin, barbara walters, steve martin, jerry seinfeld, jim carrey, cris rock, julia louis dreyfuss, peyton manning, tina fey e bill murray.


mas o último programa começou assim, cheio de moral, com a presença de três ex-presidentes americanos [bush pai, clinton e bush filho] e obama.


no canal do late show no youtube tem um monte de coisas recentes e do passado. vale muito a pena passar horas e horas nele e se divertir com excelentes e/ou históricos números musicais [aqui o rap], algumas pegadinhas sensacionais, coisas sendo arremessadas do alto do prédio do ed sullivan theatre e top 10 maravilhosos como esse estrelado por barry white.  


torço muito para que letterman não se aposente totalmente e que ainda apronte coisas simples e geniais como seinfeld tem feito com a série comedians in cars getting coffee [foi demais o encontro deles, aqui]. seu humor e sua inteligência são necessários demais, ainda mais neste ano que jon stewart também deixará o daily show. de qualquer forma, muito muito obrigado, dave. 


sábado, 2 de agosto de 2014

indiscotíveis: 'sobrevivendo no inferno'

uma dessas surpresas sensacionais da vida. itaici brunetti, colega jornalista com quem trabalhei na revista monet, me convidou em maio do ano passado para fazer parte de um livro ainda sem título sobre grandes discos da música brasileira a ser lançado pela jovem e independente editora lote 42. eu disse que sim claro com certeza. ele me passou uma lista gigante de discos e de cara escolhi sobrevivendo no inferno do racionais mcs. há tempos queria escrever sobre o disco, sobre os shows que vi do grupo na virada cultural, sobre rap, etc. mandei o texto no início de setembro e a vida seguiu.

achei desde o início que seria um livro bacana, mas quando vi indiscotíveis, o prazer foi maior porque ficou muito mais interessante e bonito do que esperava: o projeto gráfico de luciana martins, a ilustração de luciano salles para sobrevivendo, os textos de emicida, rael, arthur de faria, tatá aeroplano, marcelo costa, etc.

indiscotíveis foi lançado no início de julho e teve uma excelente cobertura da imprensa [até dei entrevista ao vivo pra rádio estadão] e ótimas resenhas, o que me deixou ainda mais orgulhoso de fazer parte do projeto.

além de itaici, meus sinceros agradecimentos a joão varella e cecília arbolave da lote 42, e a bia abramo, que leu o texto quando este ainda estava no berço. provavelmente a versão que segue aqui está um pouquinho diferente da impressa, já nem lembro mais. o que importa mesmo é que tem texto aqui e também no livro, que está a venda na loja virtual da lote 42. leia aqui, compre lá e divirta-se.



SOBREVINDO NO INFERNO, 1997
Racionais MCs

Ogunhê! Jorge sentou praça na Cavalaria... Deus fez o mar, as árvore, as criança, o amor; o Homem me deu as favelas, o crack, a trairagem, as arma, as bebida, as puta... Minha intenção é ruim, esvazia o lugar... Tô ouvindo alguém gritar meu nome... Parece que alguém está me carregando perto do chão... Aqui estou, mais um dia, sob o olhar sanguinário do vigia... Este lugar é um pesadelo periférico... Eu me formei suspeito profissional, Bacharel pós-graduado em tomar geral... Aquele moleque sobrevive como manda o dia-a-dia; tá na correria, como vive a maioria... Essa porra é um campo minado; quantas vezes eu pensei em me jogar daqui... As grades nunca vão prender nosso pensamento.



Não lembro onde, nem como, nem quando escutei Sobrevivendo no Inferno pela primeira vez. Sei que foi no comecinho de 1998 – o lançamento oficial aconteceu no final de 1997 -, e que passei semanas e semanas ouvindo o disco de todas as formas possíveis: na ordem original das faixas, aleatoriamente, umas ou outras no repeat, só trechos, etc. Já gostava do Racionais na época, mas os conhecia superficialmente [as básicas “Fim de semana no parque”, “Pânico na Zona Sul” e “Homem na estrada”], bem como o resto do rap brasileiro até então, quase exclusivamente paulistano. 

Quer dizer, Racionais não era novidade [musical] pra mim e eu já conhecia um pouco de São Paulo e da história do rap na cidade, mas nada disso tinha me preparado para Sobrevivendo. Claro, burrice minha, coisa de moleque achar que sabe mais do que realmente sabe.

Uma coisa era o impacto sonoro promovido por KL Jay, outra eram as vozes ásperas de Mano Brown, Ice Blue e Edi Rock, mas foi o discurso desses rapazes latino-americanos apoiados por mais de 50 mil manos que me derrubou. Nunca tinha ouvido, e poucas vezes ouvi posteriormente, tanta raiva na música popular brasileira [que me desculpem os punks] e um olhar tão aguçado e complexo – mesmo que ocasionalmente moralista, sexista e autoritário – diante das raízes e problemas das periferias brasileiras, da nossa eterna casa grande & senzala, da luta diária na periferia. Por causa de tudo disso lembro muito bem da sensação de medo e euforia que tive após as primeiras audições do disco.

Medo do tipo “a casa caiu!”. Essa “mistura de ódio, frustração e dor” por séculos de opressão e violência um dia iria transbordar e chegar às ruas. Aí quero ver branquinho aplaudir. 

Euforia do tipo “que foda!”. A democracia racial e cordial brasileira é uma farsa igualmente secular e somente a raiva e o embate, coisas raras no país, podem desmascará-la. Franco atirador se for necessário.

Orgulho e humilhação, amor e morte, soco na cara. Tudo junto.

Só que raiva pela raiva pode até gerar fagulhas, mas não necessariamente uma explosão. Daí que o mais impressionante no discurso do quarteto é, na verdade, essa energia aliada a uma gigantesca quantidade de imagens criadas em suas rimas, a sofisticação na construção das cenas, as mudanças ágeis e não lineares entre passado, presente e futuro. Cada música de Sobrevivendo no Inferno podia ser um conto ou um filme. O disco todo é um épico das quebradas, um tanto de Shaft, outro tanto de Ben Hur. Mas eu ainda precisava ouvir aquilo tudo ao vivo.


ilustração de luciano salles para sobrevivendo no inferno

Isso só foi acontecer uns nove anos depois, em 6 de maio de 2007, um domingo, 4 e meia da manhã. Nesse meio tempo, o grupo lançou mais um disco, o duplo Nada Como um Dia Após o Outro Dia [2002], e o DVD Mil Tretas, Mil Trutas [2006]. E músicas do Sobrevivendo, tais como “Capítulo 4, Versículo 3” e “Diário de um detento”, já tinham se tornado hinos populares. Tudo parecia pronto para uma noite histórica na Praça da Sé como parte da programação da Virada Cultural, mas não foi bem o que aconteceu.

Era meu primeiro show do Racionais e quando cheguei na Praça da Sé não demorou muito para sentir que algo ruim aconteceria. De um lado, um bando de moleques nervosos, ansiosos e acordados à base de álcool. Do outro, a boa, velha, violenta e despreparada Polícia Militar do Estado de São Paulo. No meio, um show com uma hora e meia de atraso.

Praça enchendo, enchendo, e eu ali na esquina com a Rua Benjamin Constant, o mais perto que consegui ficar do palco. Então uns moleques sobem na banca de jornal na esquina de cima para verem melhor o show que tinha acabado de começar. Dois, três, sete, dez sobem, e mais querem subir. Alguns decidem pular para a sacada de um prédio comercial e abrem portas e se acotovelam por espaço. Nesse momento um grupo de policiais sai de uma base móvel, passam por mim e se dirigem a banca/prédio para acabar com aquela bagunça. Uns dez, talvez.

Poucos minutos depois o grupo volta carregando um deles aparentemente ferido, atingido por uma pedra ou algo semelhante. Era o sinal que o Choque esperava [queria?] para entrar em ação. Formam então uma parede de escudos e cassetetes batendo, batendo, tum, tum, tum, tum, como a base fatídica de “Tô ouvindo alguém me chamar”. Logo atrás dos escudos alguns policiais começam a atirar bombas de gás e tiros de borracha. Enquanto sobem pela rua do lado da Praça da Sé são recebidos com garrafas de vinho barato voando por todos os lados. 

Paralisei no meio do fogo cruzado e fiquei tentando entender o que acontecia enquanto, atrás de uma árvore, desviava de projéteis de ambos os lados. Lá no palco, show interrompido após 20 minutos, Mano Brown buscava acalmar os ânimos. “Todo mundo tem revolta, eu também tenho. Mas temos que pensar com inteligência”. De nada adiantou e o grupo decidiu encerrar o show de vez, o que acabou deixando o campo ainda mais aberto para confrontos, quebra quebra, carro queimado, gente presa, machucados e gás lacrimogêneo tomando tudo, chegando até as profundezas do metrô.

A profecia se fez como previsto? 

Não. Sempre achei, continuo achando, que as questões religiosas, as citações bíblicas, de Sobrevivendo no Inferno são lidas de forma muito literal. Deus não serve de conforto para quem sabe que Ele tem déficit de atenção seletivo e que a periferia não está entre suas prioridades. Não, não vai rolar Mundo Mágico de Oz e ninguém virá ajudar. 

Mas na periferia a Bíblia é um dos principais e mais acessíveis fornecedores de metáforas, lições, moralidades e imagens. E tem a palavra que, através do coração pragmático do rapper, se transforma em rima. É um jeito diferente de cantar sua própria honra e de colocar em versos que Deus pode até ser a vida, mas o resto é com a gente. Não é fácil, mas é o que é. Pro mal e pro bem.

O show de 2007 não foi o Apocalipse, mas certamente foi o auge da tensão entre, de um lado, a Polícia Militar e o Estado branco que ela defende, e do outro, o Racionais e os muito, muito, muito mais de 50 mil manos e minas. Uma luta que já estava toda dissecada em Sobrevivendo no Inferno.

Resultado prático? Todo mundo seguiu suas vidas, mas o Racionais ficou de fora da Virada Cultura por anos e o rap foi jogado para escanteio na programação.


Mano Brown, 2012

Salto no tempo para outro domingo, meu segundo show do Racionais. Em 19 de maio de 2013, precisamente às 14h40 [20 minutos antes do horário oficial], o quarteto encheu o palco da Júlio Prestes com um bando de parceiros, crianças e o diabo a quatro. Em tudo, por todos os cantos, o clima estava muito diferente daquele show de 6 anos atrás, e olha que a praça estava lotada, 100 mil pessoas, com gente subindo em postes e árvores, janelas de prédios como camarotes. É que a Polícia Militar não estava lá para estragar a festa.

Maduros e relaxados, mas sem ter perdido um miligrama de força no processo, Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay fizeram um show poderoso e conciso [40 minutos, tinha jogo do Santos às 16h, final do Paulistão]. Algumas músicas do Sobrevivendo no Inferno estavam lá com novos clássicos já consolidados no imaginário periférico [“Negro drama” e as duas partes de “Vida loka”) e a composições recentes como “Mil faces de um homem leal [Marighella]”. Tudo cantado a plenos pulmões por uma multidão de punhos cerrados e orgulhosa de se ver cantada de forma tão real. 

Sempre atento, Mano Brown arrumou um tempo para dizer o seguinte: “Todo mundo fala da polícia, do sistema, mas vi vários manos se desrespeitando, se roubando, se saqueando […] O rap precisa de gente de caráter, não de malandragem”. Respeito é pra quem tem, como diria o saudoso Sabotage, e é a palavra, a palavra certa, direta e reta que diferencia os homens dos meninos. 


ao longe, Racionais na Virada de 2013

A fúria negra de Sobrevivendo no Inferno continua tão intensa e necessária quanto antes, e parte dela ainda não se resolveu. Mas esse show da Júlio Prestes foi um sinal cristalino de que aquela raiva de tempos atrás não sumiu e nem pode sumir – afinal, tem muita desigualdade por aí e muita gente que lucra com essa desigualdade –, mas que agora ela convive com a leveza da sabedoria. 

É que a criação desse quarteto paulistano se entranhou profundamente no imaginário/vocabulário de grande parte dos brasileiros, e hoje em dia é tão domínio popular quanto Adoniran Barbosa, Roberto Carlos, Dorival Caymmi e assim por diante. Por outro lado, a violenta grandeza da dobradinha Sobrevivendo no Inferno e Nada Como um Dia Após o Outro Dia na virada do século fez uma sombra muito grande sobre muita gente. Foi preciso tempo e novos MCs e DJs, manos e minas, e de todos os lugares do país, para dissipar tamanha angústia da influência.

Nos últimos anos, por causa desse desprendimento estético e do crescimento econômico, o rap ganhou por aqui mais qualidade, quantidade e variedade [de temas, batidas, tudo]. Ganhou também mais mercado e é, hoje em dia, o gênero musical que dialoga com ferocidade e balanço com o maior número de pessoas dos mais diferentes estratos sócio-econômicos. 

Nesse novo cenário, Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay são os pioneiros, os irmãos mais velhos, os caras mais fodas da música popular brasileira [negra, branca, índia, etc.]. São fundadores, porta vozes, inventores e estão absolutamente tranquilos quanto ao próprio legado e a força que ainda possuem. E mesmo que saibam que o rap brasileiro está amadurecendo em ótimas mãos, eles tem uma missão. Não vão parar. 

Já eu... bem, não faço ideia do tanto que já ouvi Sobrevivendo no Inferno e também perdi a conta de quantas novas audições acompanharam este texto. Mas em todas aprendi mais sobre São Paulo e o Brasil do que jamais pude imaginar. E toda vez que Mano Brown se despede...

“Aí ladrão, tô saindo fora. Paz.”

... eu respondo: “‘té a próxima!”



EPÍLOGO FICCIONAL 

Entre 2003 e 2005 tive uma coluna no Gafieiras chamada “Disco do mês de sempre”, no qual escrevi ficções inspiradas em alguns dos meus discos preferidos; Sobrevivendo no Inferno foi o décimo de um total de quinze e foi publicado originalmente em algum lugar de 2004.

O carro vai rápido pela Marginal e não pára de balançar. Nunca vi um asfalto tão ruim, tanto remendos. Mas agora é noite e o carro voa, o som no talo. Passo por uma ponte. Tem alguém lá em cima segurando uma lança e acho que está de armadura. Brilha de tão prateada. Quase fico cego. Foi rápido, passei, mas ele estava olhando para mim, certeza, de roupas e armas. Queria me acertar, o Jorge... nada vai me fazer parar, nem ele, ninguém. 

Passa outra ponte, ali a última saída, e lá no alto um avião fazendo barulho. Tá descendo. Retorno proibido. Tudo em obras. Perto daqui tinham uns prédios cinzas, janelas pequenas, e muitos homens dentro. Mataram 111. Explodiram os prédios. O rio não quer nem saber, tá morto também, esticado. De vez em quando incha e transborda, mas não é vida, é espasmo.

Aumento o som, queria fugir, só que o piano entra cortando, muito sangue. Uma faca. Queria esquecer. Peguei a Marginal pra isso. Eu sou bem pior do que você tá lendo... todo mundo pro chão, pro chão, tira a mão daí, vai filha da puta, pega o malote, filha da puta, solta, o seguro vai cobrir, solta... se eu sair daqui eu vou mudar. Tô ouvindo alguém me chamar. Era outro carro? Uma moto? Só ouvi o meu nome. Corro demais.

Chega desse rio parado, essa piscina de sangue. Quero a estrada, uma voz de mulher, eu quero mudar, vento na cara, então piso fundo e deixo a última ponte para trás. Mas não resisto e olho pelo retrovisor. Ah, tá lá de novo, o cara da armadura. Seguro a cruz em meu peito e começo a gritar... foda-se seu filha da puta, vem com a lança, vem, eu tenho coração, isso é meu, ninguém tira... ele fica lá, paradão como o rio, e cada vez menor. Estou vivo.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

abro a porta e deixo entrar

não foi bem uma falha, teve mais cara de vacilo. ouvi no final do ano passado o disco giramundo, a estreia solo de daniel groove (cearense, ex-o sonso, e desde 2009 morando em são paulo). gostei muito e rapidamente, e tratei de colocá-lo entre os 35 discos brasileiros do ano. mas na bagunça da lista das músicas acabei esquecendo de colocar, por exemplo, "giramundo" (poderia ainda ser "nada", "tudo", "deixa", "novo brega", "eu vou correr" ou "canção de amor", uma porrada de canções boas e lindas). daí que nesses primeiros meses de 2014 ouvi outras vezes o disco e ele foi só melhorando e melhorando, o que me fez sentir uma certa culpa por não ter sido mais enfático. pra resumir, giramundo é disco foda e elétrico e romântico e muito bem tocado.



o musicoteca e daniel disponibilizaram em novembro passado o disco para download gratuito, e dois meses antes o cantor e compositor lançou o clipe de "canção de amor".



antes ainda, em agosto - pra provar como mosquei nessa, e olha que já tinha ouvido seu nome em shows por são paulo -, daniel groove participou de uma edição inteirinha do cultura livre da roberta martinelli. 





no disco, daniel é acompanhado por músicos como o amigo e parceiro saulo duarte, joão eduardo vasconcelos, joão leão e beto gibbs, e conta ainda com participações de marcelo callado (do amor), rian batista (cidadão instigado), nevilton, danislau também (porcas borboletas), bruno souto (volver), david dafré e reginaldo lincoln (vanguart), guilherme almeida (pública) e diego soares (los porongas).



não menos importante: a ilustração que embrulha/sintetiza este disco lindo da porra é do também cearense diego maia.

atualização em 27 de fevereiro: saiu o clipe da muy linda "você sabe muito bem o que me resta".

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

não é tempo para tratar de poéticas agora

capicua são números palíndromos, tipo um 1455665541 ou um 474. números que são lidos da mesma forma em um sentido e no seu reverso. capicua também é o pseudônimo de ana matos fernandes, a comandante da guerrilha cor de rosa, uma rapper portuguesa de 31 anos (portuguesa do porto, claro esteja) que tem um trabalho interessantíssimo e bastante engajado politicamente. saca só essa trinca. 







o título da postagem é o verso final de "não, não, não subscrevo...", do poeta jorge de sena (1919-1978), que capicua usa no final de "jugular". o intelectual português, que também foi crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor e professor universitário, morou no brasil, nas cidades paulistas de assis e araraquara, entre 1959 e 1965.

conheci capicua através de uma tuitada de priscilla scurupa, que disse que a rapper seria uma mistura de lurdez da luz e anelis assumpção. é possível, é uma interessante mistura. e a música que priscilla citou, "casa no campo", tem citação e sampler de elis regina. quer dizer, realmente tem um tanto bom de brasil nas rimas e sonoridades dessa mc portuguesa.



ah, todos os trabalhos de capicua estão para download gratuito em seu site oficial: os dois EPs coletivos que participou em 2006 e 2007 e seus trabalhos solos, a mixtape capicua goes preemo (2008), capicua (2012) e a mixtape capicua goes west (2013), que ela fez rimas sobre beats do kanye west. os dois primeiros clipes são do disco de 2012 e "jugular" é da mixtape deste ano.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

mexidão #33

nunca me identifiquei direito com o humor cearense, talvez porque só tenha vivido lá até os 9 anos. mas quando vi o trailer de cine holliúdy, longa fenômeno de bilheteria dirigido por haldon halder gomes, parece que fiz as pazes, rolou um reencontro. o sotaque, a velocidade da fala, o deboche, as gírias, tudo é familiar e foi uma delícia ver isso retratado em um filme. não assisti ainda, claro, pois a estratégia de lançamento privilegiou o ceará e a partir dessa sexta, 30 de agosto, o resto do norte e nordeste. sul e sudeste, atrasadões, ficaram para depois. enquanto isso, só posso ficar rindo de rachar com o moleque falando "ô cego ignorante" pro personagem do falcão. posso também, como fiz no yahoo, bater um papinho com o diretor desse filme profundamente cearense.



O CINEMA PARADISO DA FULERAGEM

Por essa pouca gente esperava. Uma comédia independente, sem atores famosos, cearense e com legendas (isso mesmo, legendas pra entender melhor o “cearensês”), pode ser o grande sucesso nacional de 2013, desbancando o atual hit do ano, Minha Mãe é uma Peça. Mesmo que fique em segundo lugar, o longa Cine Holliúdy já é um grande vencedor, afinal estreou na semana passada em alguns cinemas de Fortaleza, Sobral, Maracanaú e Limoeiro do Norte e vendeu 43 mil ingressos em apenas 6 dias (45% do total da bilheteria do Estado). São números impressionantes e que prometem aumentar quando o filme de Haldon Halder Gomes estrear, em 30 de agosto, em outras cidades e capitais do Norte e Nordeste (Sul, Sudeste e Centro Oeste ficarão mais pra frente numa interessante e regionalizada nova estratégia de lançamento).

Rodado em seis semanas e com um orçamento de R$ 1 milhão, Cine Holliúdy é a história de Francisgleydisson (Edmilson Filho), um homem apaixonado por cinema que organiza, junto com a mulher e o filho, exibições improvisadas de filmes em uma cidade no interior do Ceará, na década de 1970. A divertida fauna humana da cidade e as confusões geradas por um projetor quebrado completam o quadro dessa comédia escrachada e profundamente cearense. E as legendas servem para outros Estados entenderem palavras como “catrevagem”, “espilicute”, “bonequeiro”, “cangapé” ou expressões como “tenha nervo”, “do tempo que o King Kong era soim” e “chiba nos possuídos”.

Diretor de filmes de ação (Sunland Heat), terror (The Morgue) e drama espírita (As Mães de Chico Xavier), Haldon Halder Gomes batalhou durantes anos para transformar um curta que fez em 2004 (Cine Holiúdy - O Astista Contra o Cabra do Mal) em um longa que homenageasse as coisas que mais ama na vida: o cinema, o humor e sua terra. E agora está feliz “que só uma porra”. Falaí, macho réi.


Como foram as exibições em Fortaleza?
Sensacionais! Todas as sessões esgotadas horas e dias antes, em todos os cinemas e em todos os horários. As pessoas não saem simplesmente satisfeitas - o que já seria excelente -, mas, sim, militantes do filme. Tenho visitado e aberto sessões diariamente nos cinemas da cidade pra agradecer este carinho.

E sua expectativa pra recepção do filme em outras regiões do Brasil, especialmente Sul e Sudeste?
Também espero uma ótima recepção. O filme já esteve em vários lugares do mundo, e andou pelo Brasil, em festivais, e tem encantado por onde passa. É uma história de amor universal, acima de tudo. Muitos críticos o chamaram de Cinema Paradiso Brasileiro.

Em seus filmes anteriores você trabalhou em gêneros (ação, comédia, terror) e temas (espirituosidade) bastante populares. Que cineastas ou artistas são referências no seu trabalho? Que outros tipos de gêneros você gostaria de trabalhar?
Minha vida sempre foi muito intensa e eclética de universos: luta, surf, futebol, artes plásticas, etc. Quero contar histórias com que me identifico, por isso esta pluralidade. Não tenho tantas referências, sou mais de fazer reverências a muita gente e coisas que gosto, como pintura, músicas, filmes, futebol, etc. Isto sempre está presente nos meus filmes. No momento, quero fazer mais comédias de ação, em parceria com a Downtown Filmes,  e, em seguida, um filme autoral, sobre um pintor no fim da vida, Vermelho Monet.

Haldon Halder Gomes no set de Cine Holliúdy; peguei a foto aqui

Ouvi você falando em outras entrevistas que existe uma procura consciente da sua parte pelo público, pela comunicação com a plateia. O que você acha que os brasileiros querem ver na tela? E como lutar contra Hollywood?
Sim, faço minhas pesquisas empíricas de mercado. Procuro nichos latentes e seus anseios. O cinema nacional precisa saber se posicionar e compreender sua diversidade cultural e regionalização em virtude de suas dimensões continentais e populacionais. Cine Holliúdy está aí pra mostrar ao cinema nacional independente como enfrentar Hollywood.

O que você aprendeu nos seus anos de Estados Unidos em termos de produção e comunicação?
Uni meus conhecimentos em administração de empresas e especialização em marketing a aplicação no cinema, como produção e lançamento. Pude aprender o que eles fazem de melhor e aplicar à nossa realidade, com precisão e cadeia produtiva, sem perder a autoralidade.

O Ceará é muito conhecido por seu humor e seus humoristas. Como você descreveria o humor cearense?
O humor cearense é diferenciado devido a nossa capacidade de saber rir de si, de não ter barreiras para a piada sem medo de perder o amigo. Este exercício diário de humor aguçado nos deixa mais criativos e com timing perfeito pro humor. Tanto é que no Ceará não existe bullying. Nós temos o anti-bullying, que é uma expressão local que diz “Aí dentu!”. Assim, todo mundo tira onda com todo mundo, e assim vivemos um show de humor no cotidiano.

com vocês, o curta cine holiúdy - o astista contra o cabra do mal.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

diversão é solução sim

"nós estamos aqui no mappin pra curtir aquele som, pra achar aquele som que nós queremos curtir. todo mundo. não só os negro, como os branco, os mulato. nós queremos curtir o jazz, queremos curtir o pop, o samba, o rock. todo mundo quer curtir aquele som, vc entende? nós viemos aqui pra achar aquele meio social que nós queremos curtir, aquele salão. um determinado lugar que você se sente bem, que você se sente gente... não que você vegeta! você quer sentir, você quer sentir gente", depoimento dessa moça da imagem abaixo e que tá no documentário feito por mano brown para o dvd 1000 trutas, 1000 tretas (2006).



era no calçadão do falecido mappin, em frente ao teatro municipal de são paulo, que no início dos anos 1970 a moçada fazia a divulgação das festas black da cidade.

domingo, 14 de julho de 2013

rafael coutinho, a entrevista

acabei de publicar aqui no esforçado o perfil que fiz de rafael pra azul magazine ("retrato de um artista com ideias de sobra"). o que segue agora é a entrevista, praticamente na íntegra. conversa boa da porra, cheia de informações, bom humor, reflexões, tem de tudo. e coloquei no estilo fernando faro porque quem importa é o entrevistado.



INFÂNCIA, PRIMEIROS DESENHOS

A primeira lembrança... tenho fragmentos de quando era bem jovem desenhando coisas na escola... eu usava o desenho como ferramenta pra impressionar as professoras e os amigos... e já tinha uma facilidade... minhas memórias mais antigas já me trazem isso, que eu tinha uma facilidade pra desenhar, com o assunto... e desenhando com o meu pai, pedindo pra ele desenhar coisas pra mim... super heróis, personagens de séries japonesas dos anos 1980, personagens de vídeo games, Bart Simpson, Snoopy, robôs, umas caricaturas, personagens mais cômicos...

Sempre fui extrovertido, desenhar era mais uma facilidade mesmo, não era por timidez... mas a gente se mudou muito de cidade quando eu era criança... agora em retrospecto vejo que usei muito o desenho para fazer amigos e conquistar pessoas com mais facilidade, era o meu cartão de apresentação... sempre desenhei muito na escola. Em matéria que eu não ia bem eu desenhava ao redor da prova e a professora achava bonitinho e me dava mais nota [risos]... usei bastante esse artifício [risos]...

Eu acho que ele [Laerte] se divertia com a gente, com o assunto... nunca direcionou, pressionou ou incentivou pra que eu seguisse esse caminho... ele gostava de ver as coisas que eu fazia e sempre participou dessa forma... queria que a gente mostrasse as coisas que a gente tava fazendo, e não era só desenho... sempre foi um pai estimulante, criativamente... na verdade sou muito grato por ele não ter direcionado nada e nem que eu seguisse por um caminho que ele já tinha previamente feito... e ia nos jogos de basquete, nos ensaios de dança... dancei durante muitos anos, até a fase adulta, b-boy, e também fiz um pouco de dança contemporânea, street dance, dancei mesmo... enfim, ele participou das coisas que eu fiz... no teatro... então nunca foi uma coisa direcionada pro desenho... e minha mãe também me estimulou muito, do jeito dela... sempre teve muita arte em casa, quadros... era um casal comunista nos anos 80, né? Então tinham máscaras sul-americanas, reproduções de Picasso...

ESCOLHAS, TRABALHO

Foi na época do vestibular, nessa época de escolher a carreira, naquela confusão angustiante que o jovem tem na hora de escolher do alto dos seus 17 anos... me pareceu ali que era a única opção possível... mas não era uma coisa voltada para os quadrinhos... era Arte. Achei que tinha que fazer algo com Artes Gráficas e acabei fazendo Artes Plásticas... prestei pra Arquitetura e não passei, Desenho Industrial também não, e acabei fazendo Artes. Demorei muitos anos pra entender o que era arte... entrei muito cru, não sabia de nada, e acho que até metade da faculdade eu ainda tinha muita dúvida se de fato queria ser artista... lutei contra isso.

Comecei a trabalhar muito cedo. Aos 16 eu já trabalhava... fui garçom em restaurante, vendi CD em banquinha de standcenter, locadora... e aí, em um segundo momento, entrei em um estúdio de animação ligado a uma editora e comecei a me acalmar. Foi ali que vi que algum resultado estava saindo... fazia charges animadas e foi lá que fiz meu primeiro videoclipe [“Chapa o côco”, Xis]... a gente ganhou prêmio na MTV [melhor clipe de rap no VMB 2002, indicado em outras duas categorias]... fiquei muito excitado ali... acho que também descobri cedo que trabalhos longos rendiam louros mais significativos na minha vida... acho que foi daí que nasceu o prazer de fazer histórias longas, projetos mais extensos...


Trabalhei com animação durante muitos anos e montei um estúdio próprio de design com alguns amigos de faculdade... durou três anos... chamava Base V... aí experimentei street art, murais, silk, serigrafia, era um tipo de arte experimental que a gente acreditava que podia existir entre a rua e as galerias, que a gente tinha muito preconceito... o grupo continua até hoje e eu me afastei em 2008... foi nesse período que comecei a publicar minhas primeiras histórias em quadrinhos numa publicação chamada Sociedade Radioativa, participei também de algumas coletâneas e já me sentia com mais autonomia, mais certeza e que tinha material para apresentar...

MULTIPLATAFORMAS

Sempre tive esse interesse em trabalhar em diversas plataformas. Em algum momento me foi passada a informação de que esse meu desejo de trabalhar em inúmeras mídias não só não era um problema como poderia ser a minha salvação em momentos de crise ou dificuldade, e que eu não precisava me preocupar tanto em me fechar em uma só mídia... entendi em minha fase adulta que profissionalmente era preciso também focar em alguma dessas mídias pra que eu também pudesse ser reconhecido. Vi que esse espírito bon vivant poderia prejudicar, mas nunca me fechei porque gosto mais das ideias do que das mídias. Então se a ideia me excita vamos fazer um filme... acabei me envolvendo recentemente com cinema, gostei muito, aprendi muito com amigos do cinema e quero continuar fazendo... fiz agora como ator uma peça com meu pai [“As Jóias”], achei que não fosse mais acontecer e aconteceu... tô aberto...


Eu me defino como me convém. Se tô numa roda com quadrinistas eu sou um quadrinista. Se me veem como um pintor eu sou um pintor. Não vejo necessidade em me definir tanto assim. Acho que a essa altura do campeonato, aos 33, o trabalho me define. É um trabalho que aparece e que estou desenvolvendo... acho que desde 2008 não fiquei nem um período sem trabalho. Não é porque sou excepcional... é porque me sobra ideia mesmo. Então, quando não tem trabalho encomendado eu tô tocando as coisas que eu quero fazer e realizar. É isso, acho que tem muita coisa pra ser testada e eu também me empolgo com facilidade com a ideia dos outros. É fácil me seduzir [risos]. Gosto de trocar informações com as pessoas. Acho que um tanto do Rafael da escola persiste até hoje, esse sujeito que quer impressionar, conseguir amigos, entrar nas turmas pra ajudar na forma que puder. E, claro, conquistei um tanto de maturidade artística nessa minha curta jornada que me dá algumas certezas que preciso pra continuar.

Tenho projetos longos, médios e curtos. Claro que entram umas coisas no meio, mas basicamente o ano já se desenha logo de cara. Aprendi a me organizar, a me disciplinar, porque é uma profissão que exige muita disciplina... gosto de realizar coisas então não fico vacilando não...

VIRADAS PESSOAIS, ORGANIZAÇÃO

2008, saída da Base V... amigos muito queridos... mas quando saí vi que tinha que decidir as coisas por conta própria... comecei a trabalhar em parceria com a galeria Choque Cultural, fazendo meus próprios quadros e exposições... então essa minha autoralidade foi infligida também... você tem que ser você... coincidentemente foi também quando surgiu a parceria com o Daniel Galera, que foi uma parceria muito diferente das minhas anteriores, porque me obrigou a ser autêntico e a escolher entre as várias gamas de possibilidades qual era o meu traço, qual era o meu ritmo de trabalho, quais eram as minhas soluções de roteiro, o que eu queria... tive muita sorte de encontrar um cara que estava no mesmo momento autoral, o Galera, que já tinha alguns livros publicados e tinha uma voz autoral já muito forte... foi um momento de virada pra mim.

Em 2004 foi a primeira vez que vi meu traço mudar... fazia um curso com desenhos de modelos vivos e fiquei muito feliz, empolgado... em 2008 com a Cachalote também ... agora eu tô vendo alguma coisa acontecer também e acho que é o volume de trabalho... nunca fui um sujeito de qualidade sobre quantidade, sempre fui de quantidade sobre qualidade... a quantidade de trabalho geralmente me jogou em um lugar no qual o resultado saiu diferente... que eu obrigatoriamente tive que aprender e solucionar coisas em função de projetos extensos ou entregas contínuas... nada melhor pra quem tá no meio que o trabalho contínuo... porque é um troço de repetição... é uma musculatura cerebral e espiritual que precisa ser exercida diariamente, tanto é que artistas gráficos que ficam muito tempo sem desenhar enferrujam... isso não é um mito, acontece mesmo. No fim do dia seu desenho tá melhor... se você desenhou o dia inteiro os últimos 10 minutos são excelentes... se for a semana inteira, o último dia da semana é excepcional... e é cruel porque é exatamente quando você precisa parar, que seu corpo tá doendo, sua cabeça tá exausta... então tem muito isso... somos alimentados pelo correr dos dias, pela demanda, pelo exercício diário... é maçante, mas também muito recompensador... se você aguenta e se organiza pra que os resultados saiam eles podem te surpreender.

É preciso deixar que a vida alimente a produção continuamente. Acho que existe um problema crônico nessa nova geração de artistas gráficos e plásticos que já chegam com muita violência e ambição no mercado antes de desenvolver essa relação entre a vida e o trabalho. Não existe uma retroalimentação aí, ela é só fruto de uma ambição, um desejo que é exterior a tua vida, exterior a tudo.  Gosto muito dessa angústia de trabalhar lentamente, disciplinadamente, rotineiramente sobre algo que só vai acontecer daqui há dois anos (histórias longas em quadrinhos, pinturas, exposições – Fogo Fácil, filme que alimenta foto que alimenta pintura).

FOGO FÁCIL from Peppe Siffredi on Vimeo

Conversei uma vez com o Zélio [Alves Pinto], irmão do Ziraldo. Tava super angustiado e fui conversar com ele. Depois descobri que ele teve a mesma conversa com meu pai quando meu pai era jovem. Ele é mais velho que nós dois [tem 75 anos] e ele falou a mesma coisa pra mim que falou pro meu pai: organize seu cronograma porque você é artista e também um empreendedor da marca de si mesmo e tem que organizar seu tempo para produzir algo curto, algo médio e algo longo. Aquilo me deu uma calma muito grande porque não dizia respeito às minhas angústias mais subjetivas, mas resolvia matematicamente algo que eu, nos meus 24 anos, precisava. Ali entendi como deveria organizar a minha vida e que cabia a mim decidir quais projetos curtos, médios e longos eles seriam.

O AUTOR, O AUTOR

Nesse jogo todo tem essa história da autoralidade que a gente discute muito nos mundos dos quadrinhos e das artes plásticas. A voz autoral... em que momento ela aparece? Quais são as demandas que ela te pede? Quase como uma voz de fora que chega te exigindo coisas, te tirando o sono... não tenho a sabedoria do Zélio, mas o conselho que posso dar é “ouça a sua voz autoral” e isso é uma coisa muito pessoal, muito de cada um, e não acho que sou maior ou melhor que ninguém porque produzo meu próprio trabalho. Eu sei o preço que pago por essas escolhas. Minha mulher sabe mais que ninguém [risos]. Tem que escutar essa voz, esse latido do cachorro [referência ao filme Verão de Sam]... se ele tá dizendo que você tem que matar, você tem que matar [risos]...

O quanto de espaço eu tenho... o quanto posso ser autoral pra aquela demanda... me procuram mais pra ser autoral, já me dando bastante espaço... e sei que não funciono tão bem quando me dão muitas diretrizes, sei que vou brochar... Falavam que meu trabalho já era muito autoral, não adiantava fazer outra coisa, não ia dar certo me pedir um infográfico ou algo assim... mas isso, durante um período, foi muito frustrante, achei que não fosse me encaixar... a duras penas vi que isso era uma coisa boa e que me salvou. Mas também me salva porque faço várias coisas ao mesmo tempo. Se tivesse ficado só em pintura estaria em apuros ou se fosse só quadrinista... essa coisa que me disseram lá atrás... se não me engano foi uma terapeuta... a questão dessa minha autoralidade vem dessa inquietação de fazer várias coisas ao mesmo tempo, trabalhar com mídias diferentes... se fosse uma só talvez não fosse tão autoral assim porque teria que abrir mão disso pra sobreviver... os latidos seriam mais baixos... seriam latidos de poodle [risos]...

Canal IdeaFixa - Laerte e Rafa Coutinho - FiznaMTV #PAI from IdeaFixa on Vimeo

E O PAI DO RAFAEL?

Nunca perdi o foco do trabalho dele, sempre acompanhei, e só aceitei essas curadorias [FIQ em novembro, Balada Literária em dezembro e uma outra num espaço cultural na Vila Leopoldina] porque não teria que fazer um trabalho angustiante de leitura das coisas antigas pra pensar numa exposição... até porque ele mesmo não queria uma coisa de retrospectiva... então a gente tá criando um jogo do zero, um gráfico, uma coisa que envolva as pessoas... não é nada do tipo “veja esse quadro”... então a gente tá bolando outra coisa... mas nunca deixei de acompanhar o trabalho dele... me estimula, me instiga, me deixa pasmo... e ele tá agora tentando se reciclar, se reentender como artista... é um cara que admiro muito, somos muito amigos, nos falamos continuamente, trocamos informações e acompanhamos o trabalho um do outro... a opinião dele é muito importante pra mim em tudo que faço. Tenho muita sorte de ter um pai assim, na real, independente de ser o Laerte que as pessoas idolatram e admiram, o meu pai é um sujeito muito parceiro e um grande amigo. Tenho sorte. É um artista ducaralho, impressionante, sensível, generoso, tenho sorte.

sábado, 13 de julho de 2013

é fácil seduzir rafael coutinho

ano de várias matérias cortando os ares do brasil. já rolaram umas cinco pra revista da gol (naldo e marcelo D2, por exemplo), uma pra tam nas nuvens e agora essa pra azul magazine. rafael coutinho foi sugestão minha e a conversa foi muito melhor do que imaginava. como sempre deixei a entrevista para depois das fotos - que ficaram a cargo de victor affaro -, o que deixa tudo mais relaxado, e fiz questão de falar pouco do pai laerte, pois rafael tem voz autoral muito forte para ser um mero "filho de...". agradecimentos a alexandre maron que me indicou e, acima de tudo, a patrick moraes, editor da azul magazine (sempre bom encontrar bons editores). ah, já publiquei aqui no esforçado a íntegra da entrevista.


RETRATO DE UM ARTISTA COM IDEIAS DE SOBRA

No alto da escada uma vira lata balança o rabo. Seu nome é Mexerica e ela é a responsável pelas boas vindas ao ateliê que Rafael Coutinho, 33, divide com outros amigos-artistas no bairro da Pompéia, Zona Oeste de São Paulo. Após receber as devidas carícias, Mexerica retorna à companhia do igualmente vira lata Pancho numa almofada ao lado da prancheta de Rafael. “Eles já eram namorados antes d’eu adotá-los”, relembra e logo pede para ninguém chegar perto da almofada. Pancho é muito protetor de seu território.

Filho de Laerte Coutinho, criador dos Piratas do Tietê e um dos maiores nomes do quadrinho nacional, Rafael tornou-se, em pouco mais de três anos, uma das grandes revelações do meio. Alguns já o conheciam de animações (trabalhou no premiado clipe “Chapa o côco”, do rapper Xis, e assinou curtas como “Aquele Cara”), outros de seu trabalho no coletivo de arte urbana Base V, e outros ainda de suas primeiras histórias em quadrinhos em coletâneas e revistas independentes como a Sociedade Radioativa. Mas a virada na sua carreira foi mesmo com o elogiado Cachalote (2010), livro em quadrinhos feito em parceria com o escritor Daniel Galera.

Não foi da noite para o dia que Rafael chegou ao ponto de Cachalote, e nem por um caminho só. “Na infância usava o desenho como ferramenta para impressionar professoras e amigos. Não era por timidez, sempre fui extrovertido, era mais porque já tinha uma facilidade. Era meu cartão de apresentação. Em matéria que não ia bem desenhava ao redor da prova e a professora achava bonitinho e me dava mais nota [risos]. Usei bastante esse artifício [risos].”

Na época do vestibular viu que aquela sua facilidade, estimulada discretamente pelo pai-amigo já conhecido, era a única opção possível. Optou por Artes Plásticas sem saber direito o que lhe esperava e muito menos se realmente queria ser artista. “Durante a faculdade entrei em um estúdio de animação ligado a uma editora e comecei a me acalmar. Foi ali que vi que algum resultado estava saindo”. Trabalhou em charges, no primeiro videoclipe (“Chapa o côco”) e em muitas outras animações até montar um estúdio de design e arte urbana experimental com amigos, o Base V.

“Sempre tive esse interesse em trabalhar em diversas plataformas. Em algum momento me foi passada a informação de que esse meu desejo não só não era um problema como poderia ser a minha salvação em momentos de crise. Mas entendi também que profissionalmente era preciso focar em alguma dessas mídias pra ser reconhecido. Só que nunca me fechei porque gosto mais das ideias que das mídias”. E as ideias de Rafael seguiam ganhando formas nas animações, em pinturas e, cada vez mais, em quadrinhos. “Eu me defino como me convém. Se estou numa roda com quadrinistas, sou um quadrinista. Se me veem como um pintor, sou um pintor. Não vejo necessidade em me definir tanto assim. Acho que a essa altura do campeonato, o trabalho me define. Acho que tem muita coisa pra ser testada e também me empolgo com facilidade com a ideia dos outros. É fácil me seduzir [risos]”.



Empolgado sempre, Rafael decidiu em 2008 sair do conforto do coletivo Base V em busca de sua própria voz autoral. Coincidentemente foi também quando conheceu Daniel Galera e nasceu o projeto de Cachalote. “É preciso deixar que a vida alimente a produção continuamente. Acho que existe um problema crônico nessa nova geração que já chega com muita violência no mercado antes de desenvolver essa relação entre a vida e o trabalho. O conselho que posso dar é ‘ouça sua voz autoral’ e isso é uma coisa muito pessoal. Não acho que sou maior ou melhor que ninguém porque produzo meu próprio trabalho. Sei o preço que pago por essas escolhas. Minha mulher sabe mais que ninguém [risos]. Mas é preciso escutar essa voz, esse latido do cachorro... se ele tá dizendo que você tem que matar, você tem que matar [risos]”.

Atualmente, Rafael Coutinho está ouvindo mais latidos que nunca. Após lançar o segundo volume de Beijo Adolescente, uma série de histórias curtas, ele está finalizando para o final do ano o ousado Mensur, sua primeira longa história em quadrinhos 100% autoral. Enquanto isso vai tocando a loja virtual e selo Narval Comix, procura uma nova galeria para lhe representar e prepara, como curador, três exposições que homenagearão o pai Laerte no segundo semestre. E pretende retomar Fogo Fácil, projeto que reúne cinema, fotos e pinturas. “Acho que desde 2008 não fiquei nem um período sem trabalho, e não é porque sou excepcional, é porque me sobra ideia mesmo”. Pancho e Mexerica não o deixam mentir.





SAIBA MAIS

No batente: Rafael Coutinho trabalha desde os 16 anos e antes de se tornar quadrinista, pintor, etc. assumiu funções como garçom em restaurante, vendedor de CDs em banquinhas de stand center e atendente de locadora de vídeos.

Ídolos nos quadrinhos: O norte-americano Jaime Hernandez (Love & Rockets), o espanhol Miguelanxo Prado (Mundo Cão), o japonês Taiyo Matsumoto (Tekkonkinkreet), o francês Cyril Pedrosa (Três Sombras) e, claro, o pai (“O trabalho dele me estimula e me deixa pasmo. É um artista impressionante, sensível, generoso”).

Ídolos no cinema: Os franceses Bruno Dumont (A Humanidade) e Jacques Audiard (O Profeta), a argentina Lucrecia Martel (O Pântano) e o norte-americano Paul Thomas Anderson (Sangue Negro).

Ídolos na pintura: O inglês David Hockney, o alemão naturalizado inglês Lucien Freud, o alemão Neo Rauch e o brasileiro Wesly Duke Lee.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

alma do brasil, instantâneos

décio galina me chama, eu vou. nessa segunda colaboração para a audi magazine a pauta era pedir para cinco renomados fotógrafos brasileiros escolherem uma foto que julgavam sintetizar o brasil. cinco fotografias, cinco regiões, um só país. e aí rolar uma conversa sobre a tal região e a foto, brasilidades e coisa e tal. todas as entrevistas rolaram por telefone e só tenho agradecer a disponibilidade e a simpatia dos envolvidos (sei bem que 'dar entrevista' não é o forte da profissão), mas a conversa com o mestre bóris kossoy foi particularmente deliciosa. ah, não custa repetir que a versão aqui no esforçado é sempre ligeiramente diferente da impressa.


EM BUSCA DA ESSÊNCIA

À pedido da Audi Magazine, cinco renomados fotógrafos brasileiros escolheram registros que resumem a grande experiência que é o Brasil



“Olha a tempestade caindo sobre o Rio Tapajós... tirei essa foto em 2008 durante uma expedição de pouco mais de um mês cruzando a Transamazônica. O Tapajós é um rio belíssimo com praias de areia branquinha na época da seca (julho a novembro). Nessa região existe a deliciosa tradição do Piracaia, que é comer peixe feito na areia da praia. Imagine a cena: o sol se pondo, o rio banhado por uma luz vermelha, a areia menos quente, umas estaquinhas de madeira seca com peixe frito. É uma coisa linda de se ver (e comer). Já andei tanto na Amazônia quanto os irmãos Villas-Boas, fiz quatro livros, conheci lugares maravilhosos como o Pico da Neblina, os lagos de Mamirauá, o Cabo Orange e o Parque Nacional de Anavilhanas, então, definitivamente, a região é a minha matriz criativa. Conheço o caboclo, o caráter dele, sua educação, beleza, simplicidade e força. Ele é o guardião de uma floresta que precisa cada vez mais buscar a sustentabilidade.”



“Essa foto foi tirada em 1972 em um dos períodos mais sombrios da história brasileira. Estava em Brasília pela segunda vez dentro de um projeto no qual fui a todas as capitais do país. Fotografava o que tinha de ser fotografado, mas também fazia imagens pra mim, como esta onde olho para o poder central, para uma justiça cega que só vê o que quer, tudo sob um contexto de deformação. É uma metáfora ao pé da letra daqueles anos de chumbo, o outro lado de uma balança desequilibrada no plano social e econômico. Como sou formado em Arquitetura também existe meu interesse estético pelas formas e espaços da cidade, mas lembro que na época parecia que estava andando em uma maquete, uma assepsia total. Não se via gente, tudo parecia mais ameaçador e isolado. Hoje a cidade está mais humanizada, mais plena de histórias e dúvidas. Sou formado em Arquitetura e a questão das formas, dos espaços, sempre esteve em minha cabeça. Brasília é tudo isso, mas quando você anda pela Esplanada hoje em dia vê que essa utopia moderna feita no coração do Brasil por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa finalmente é um lugar que quer ser cidade.”


“As Serras Gaúchas não são uma coisa só como muitos pensam com aquela coisa de italianos e alemães. A cultura do pampa, por exemplo, tomou conta dessa região de cânions, que vai de Cambará do Sul até Santa Catarina por uns 250 km. Tirei essa foto do Cânion Montenegro, no município de São José dos Ausentes, em 2011 para o meu livro Brasil Invisível, que foi uma tentativa minha de mostrar a população afastada dos grandes centros. Foi em um das minhas 30 viagens para a região e nessa vez fiquei em uma ex-estância de gado que virou pousada. Tive o prazer de compartilhar o dia-a-dia com o gaúcho tomando chimarrão, comendo churrasco no fogo de chão e fazendo passeios a cavalo que saem da praia e sobem esses paredões vencendo um desnível de 1000 metros. Esses cânions profundos possuem algumas das paisagens mais lindas que já fotografei, mas faço questão de não só registrar a natureza. A cultura do local tem que estar junto.”




“Nasci no Rio de Janeiro, mas fui bem cedo para São Paulo, onde fui criado. Depois morei por 20 anos em Nova York e quando retornei fiquei me questionando quem eu era, o que era ser brasileiro, porque mesmo sem querer perdemos as referências quando moramos longe. Então, no primeiro grande trabalho autoral após a minha volta decidi ir ao Rio de Janeiro para tentar me encontrar. Usei uma câmera grande, de médio formato, porque ela muda a relação com o que você fotografa (é junto com ela e não através dela). Ela é difícil, complexa, mas também te ensina a enxergar além do retângulo. E era isso que eu queria no Rio de Janeiro, ir além. Usando filme preto & branco, mexendo com foco e desfoque, paradoxos. Afinal, o Rio é um dos lugares mais contraditórios e extraordinários do Brasil, com praia e montanha, morro e asfalto, tudo muito próximo, muito junto. Essa foto é da praia do Leblom com o Morro Dois Irmãos ao fundo, e eu fiquei esperando o sujeito passar dentro do retângulo do gol.”


“Acho que a Bahia é o único estado brasileiro onde é possível ver a cultura tradicional nas ruas. Tem as baianas com trajes típicos vendendo acarajé e vatapá, o pessoal jogando capoeira, o candomblé, gente olhando o mar como se fosse numa foto dos anos 1930, os pescadores. E é uma cultura muito forte, basta olhar o tanto de excelentes músicos, pintores e escritores baianos. Existe esse clichê de falar que baiano é preguiçoso, mas discordo. Acho que eles tem um outro ritmo, que é muito mais ditado pelas forças da natureza, principalmente as marés. Eles sabem que não adianta perder tempo, muito menos se estressar, quando é a natureza que rege todas as coisas. Falando em natureza, essa foto eu tirei na Praia do Espelho, um lugar maravilhoso perto de Trancoso. Típica praia onde se pode desfrutar o que é essencial na Bahia: céu, sol e mar, tudo sem pressa.”