domingo, 30 de março de 2014

coleção grandes cagadas da folha

a tal marcha da família 2 que falhou miseravelmente (ufa) na semana passada  - e que descrevi no texto "menor que um rolezinho" - é um dos acontecimentos ligados a efeméride dos 50 anos do GOLPE MILITAR DE 1964. é o importante assunto do momento, com direito a alguns avanços significativos da comissão da verdade, e muitas matérias, reportagens, e novas luzes sobre esse triste (e ainda presente no nosso dia-a-dia) momento da história brasileira (vale muito ver o especial feito no site da ebc). na edição deste domingo da folha rolou um editorial sobre 1964 e... bem... o texto é tão absurdo (política, histórica e moralmente) e tão mal escrito que resolvi comentâ-lo em voz alta. 


ontem e hoje, o pensamento vivo da folha

"O regime militar (1964-1985) tem sido alvo de merecido e generalizado repúdio. A consolidação da democracia, nas últimas três décadas, torna ainda mais notória a violência que a ditadura representou [OLHA SÓ QUE LEGAL].

Violência contra a população, privada do direito elementar ao autogoverno. E violência contra os opositores, perseguidos por mero delito de opinião, quando não presos ilegalmente e torturados, sobretudo no período de combate à guerrilha, entre 1969 e 1974 [É ISSO AÍ, FOLHA. PARABÉNS POR TER CHEGADO A ESSA CONCLUSÃO EM 2014. ANTES TARDE DO QUE NUNCA, NÉ].

Aquela foi uma era de feroz confronto entre dois modelos de sociedade --o socialismo revolucionário e a economia de mercado [SÓ TINHAM DOIS?]. Polarizadas, as forças engajadas em cada lado sabotavam as fórmulas intermediárias e a própria confiança na solução pacífica das divergências, essencial à democracia representativa [NÃO SEI VOCÊS, MAS JUSCELINO E JANGO NÃO ME PARECIAM, E NEM TINHAM INTERESSE, EM POLARIZAÇÃO E NEM DITADURA COMUNISTA. MAS PODE SER IMPRESSÃO MINHA, NÉ?].

A direita e parte dos liberais violaram a ordem constitucional em 1964 e impuseram um governo ilegítimo [MUITO BEM, QUASE UM NOME AOS BOIS, QUE MADURO]. Alegavam fazer uma contrarrevolução, destinada a impedir seus adversários de implantar ditadura ainda pior [“AINDA PIOR”, E A FOLHA COMPROU ISSO, COMPRA ATÉ HOJE PELO JEITO], mas com isso detiveram todo um impulso de mudança e participação social.

Parte da esquerda forçou os limites da legalidade na urgência de realizar, no começo dos anos 60, reformas que tinham muito de demagógico [AO OLHOS DE QUEM CARA PÁLIDA?]. Logo após 1964, quando a ditadura ainda se continha em certas balizas [OLHA A DITABRANDA AÍ, MINHA GENTE, ELA APARECEU], grupos militarizados desencadearam uma luta armada dedicada a instalar, precisamente como eram acusados pelos adversários, uma ditadura comunista no país [É COMPREENSÍVEL QUE OS LIBERAIS DA ÉPOCA TIVESSEM ESSE MEDINHO, MAS HOJE EM DIA ACHAR QUE IRIA ROLAR UMA DITADURA COMUNISTA OU SE É BURRO OU MAL INTENCIONADO].

As responsabilidades pela espiral de violência se distribuem, assim, pelos dois extremos, mas não igualmente: a maior parcela de culpa cabe ao lado que impôs a lei do mais forte, e o pior crime foi cometido por aqueles que fizeram da tortura uma política clandestina de Estado [AH JURA?].

Isso não significa que todas as críticas à ditadura tenham fundamento [AÊ, A DITADURA TEVE UM LADO BOM, SENÃO VEJAMOS...]. Realizações de cunho econômico e estrutural desmentem a noção de um período de estagnação ou retrocesso.

Em 20 anos, a economia cresceu três vezes e meia. O produto nacional per capita mais que dobrou. A infraestrutura de transportes e comunicações se ampliou e se modernizou. A inflação, na maior parte do tempo, manteve-se baixa [O LADO POSITIVO QUE A FOLHA VÊ NA DITADURA FOI UM CRESCIMENTO ECONÔMICO QUE PODERIA TER SIDO MAIOR OU MELHOR DISTRIBUÍDO NUM GOVERNO DEMOCRÁTICO E QUE DO JEITO QUE ACONTECEU, CHEIO DE MAQUIAGENS, SÓ SERVIU PARA ENDIVIDAR O BRASIL POR DÉCADAS. ENTENDI.].

Todas as camadas sociais progrediram, embora de forma desigual, o que acentuou a iniquidade [OPA, NÃO SERÁ PORQUE ESSE CRESCIMENTO ECONÔMICO FOI PARA POUCOS?]. Mesmo assim, um dado social revelador como a taxa de mortalidade infantil a cada mil nascimentos, que era 116 em 1965, caiu a 63 em 1985 (e melhorou cada vez mais até chegar a 15,3 em 2011).

No atendimento às demandas de saúde e educação, contudo, a ditadura ficou aquém de seu desempenho econômico [AH PUXA VIDA, VACILARAM NISSO, FOI? PORQUE SERÁ?].

Sob um aspecto importante, 1964 não marca uma ruptura, mas o prosseguimento de um rumo anterior. Os governos militares consolidaram a política de substituição de importações, via proteção tarifária, que vinha sendo a principal alavanca da industrialização induzida pelo Estado e que permitiu, nos anos 70, instalar a indústria pesada no país [PERAÍ, ENTÃO A FOLHA TÁ COLOCANDO NA CONTA POSITIVA DA DITADURA ALGO QUE JÁ ESTAVA ROLANDO DESDE, POR EXEMPLO, GETÚLIO E JUSCELINO?].

A economia se diversificou e a sociedade não apenas se urbanizou (metade dos brasileiros vivia em cidades em 1964; duas décadas depois, eram mais de 70%) mas também se tornou mais dinâmica e complexa [SEI NÃO, MAS PARECE QUE A FOLHA TÁ QUERENDO DIZER QUE FOI A DITADURA, E SÓ A DITADURA, QUE O FEZ O BRASIL SE URBANIZAR] . Metrópoles cresceram de modo desordenado, ensejando problemas agudos de circulação e segurança.

O regime passou por fases diferentes, desde o surto repressivo do primeiro ano e o interregno moderado [OLHA DITABRANDA, OBA!] que precedeu a ditadura desabrida, brutal, da passagem da década, até uma demorada abertura política, iniciada dez anos antes de sua extinção formal, em 1985.

As crises do petróleo e da dívida externa desencadearam desarranjos na economia, logo traduzidos em perda de apoio, inclusive eleitoral [DÍVIDA EXTERNA? MAS A ECONOMIA NÃO TAVA MÓ BOA? E COMO ASSIM EM PERDA DE APOIO ELEITORAL?! QUE ELEIÇÃO?]. O regime se tornara estreito para uma sociedade que não cabia mais em seus limites [FILHINHO, TODA SOCIEDADE, EM QUALQUER MOMENTO HISTÓRICO, É MAIOR QUE UMA DITADURA. SÓ EM REGIMES DEMOCRÁTICOS SE PODE CHEGAR MAIS OU MENOS PRÓXIMO À COMPLEXIDADE DE UMA SOCIEDADE, AFINAL SOMENTE NUMA DEMOCRACIA TODOS PODEM SER ATORES POLÍTICOS]. Dissolveu-se numa transição negociada da qual a anistia recíproca foi o alicerce [NEGOCIADA ENTRE AS PARTES QUE TINHAM INTERESSE EM QUE NADA FOSSE JULGADO, CLARO ESTEJA].

Às vezes se cobra, desta Folha, ter apoiado a ditadura durante a primeira metade de sua vigência, tornando-se um dos veículos mais críticos na metade seguinte. Não há dúvida de que, aos olhos de hoje, aquele apoio foi um erro [PERAÍ, VAI ROLAR A DESCULPA AGORA, ME ABRAÇA].

Este jornal deveria ter rechaçado toda violência, de ambos os lados, mantendo-se um defensor intransigente da democracia e das liberdades individuais [ISSO, É ISSO AÍ!].

É fácil [OI?], até pusilânime [AH NÃO, LÁ SE FOI A DESCULPA MORRO ABAIXO], porém, condenar agora os responsáveis pelas opções daqueles tempos, exercidas em condições tão mais adversas e angustiosas que as atuais [TAVA PUXADO PRO SEU FRIAS, NÉ?]. Agiram como lhes pareceu melhor ou inevitável naquelas circunstâncias [ACHO QUE O MAIS FÁCIL É FALAR QUE O PESSOAL AGIU DO JEITO QUE DEU PRO MOMENTO. PENSANDO BEM FOLHA, ASSIM DÁ PRA DESCULPAR O NAZISMO, A GUERRA DO VIETNÃ, O KHMER VERMELHO, AS LOUCURAS ASSASSINAS DE STALIN E MAO TESÉ TUNG, ETC.]

Visto em perspectiva, o período foi um longo e doloroso aprendizado para todos os que atuam no espaço público, até atingirem a atual maturidade no respeito comum às regras e na renúncia à violência como forma de lutar por ideias [MAS PERAÍ, SE NÃO ME FALHA A MEMÓRIA NO ANO PASSADO A FOLHA, ESTADÃO, E OUTROS ORGÃOS DE IMPRENSA, DEFENDERAM REPRESSÃO DO GOVERNO – ATRAVÉS DA PM – ÀS MANIFESTAÇÕES DE JUNHO. SERÁ QUE APRENDERAM? SERÁ QUE APRENDEMOS?]. Que continue sendo assim."

aiaiai

quarta-feira, 26 de março de 2014

reiOpixo, o fim

tinha separado mais alguns versos de músicas do roberto carlos e o #reiOpixo poderia seguir tranquilamente por mais umas 20 ou 30 intervenções, mas a verdade é perdi o pique. deu o tempo. e, pensei, poderia muito bem finalizar no 100. mas qual música? tinha que ser alguma muito relevante, sei lá. então passei quase dois meses para achar a resposta – os #reiOpixo 98 e 99 foram feitos em 26 de janeiro, um domingo –, e nem lembro como a ideia surgiu. mas era isso, o que tinha de mais atual relacionado ao roberto era a patacoada da publicidade da friboi que ele protagonizou com a história de voltar a comer carne [e dá-lhe a escolha óbvia, e já utilizada em outras propagandas, de “o portão”]. taí ó...


o #reiOpixo acabou e foi muito bom enquanto durou [sete meses, por aí, com direito a matérias na folha de s. paulo e na revista vida simples]. foi bem divertido escrever na rua, conseguir criar novos diálogos do texto com o espaço, isso sem se repetir nem uma vez [e ainda finalizar na zuera com o grande, falho e sinceramente amado ídolo]. mas os rolezinhos não param... faltam mais alguns vocêpraça [22, para ser mais exato], posso voltar com o “menos mimimi, mais cariri” e o existencialismo leminski, e comecei o “menos mais, mais menos”. e o que mais vier. cidade também serve pra isso.


p.s. 1: muitas pessoas me ajudaram nesse projeto, principalmente dando sugestões de músicas [algumas que não conhecia], e estão devidamente creditadas nas respectivas canções-intervenções lá no tumblr. a todas e todos, agradeço mais uma vez. foram muitas emoções. 

p.s. 2: dois dias depois passei lá novamente [faria lima com pedroso de moraes] e deu uma vontade de "assinar". então tasquei um #reiOpixo. ficou assim.


segunda-feira, 24 de março de 2014

menor que um rolezinho

faz assim. você desce no metrô da praça da república e pega a saída caetano de campos. aí é só virar à esquerda, escada rolante, o edifício itália e o céu do centro de são paulo sobre sua cabeça e... tá lá um busão preto, meio velho, meio bye bye brasil, estacionado no calçadão da praça. o relógio marca 14h20 e alguns dos organizadores da marcha da família com blábláblá e contra blábláblá 2 já estão soltando algumas palavras de ordem pedindo intervenção militar já em pleno ano da graça de 2014.

não fui com nenhuma pauta específica e muito menos em nome de algum veículo de imprensa – coincidência ou não, meu último texto para o yahoo foi justamente sobre o espírito dos organizadores dessa marcha comemorativa dos 50 anos da primeira marcha etc. então, o que me levou a essa festa estranha com gente esquisita foi uma mistura de curiosidade e masoquismo, o mesmo combustível que me faz ler comentários de grandes portais.

cheguei decidido a não falar com ninguém, afinal, após três anos escrevendo regularmente para o yahoo, conheço de cor e salteado todo o mimimi reacionário. não queria ficar irritado com o papo furado, não queria ter que confrontar pessoas que não sabem dialogar e que pensam em um sentido apenas, em bloco e aos gritos de capslock. mas queria vê-los, saber quem são e quantos conseguiriam reunir.


ali no início eram pouco mais de 100 pessoas entre as barraquinhas da feira hippie que acontece na praça sempre aos sábados. muito mais imprensa e policiais militares que manifestantes. no alto do busão-micareta-caveirão [tinha outro caminhão de som em outro lado da praça que mais tarde se juntaria à marcha] os discursantes esperneavam genericamente coisas como “quero meu brasil de volta”, “pago meus imposto pra vagabundo”, “nenhum partido representa o povo brasileiro”, “porque vocês não vão para cuba ou coreia do norte?!” e “todos aqui somos pessoas direitas”.

e quem seriam essas pessoas direitas nessa altura do campeonato? uns cinco maçons, dois seminaristas, uma camiseta do olavo de carvalho, outra do slayer, uma do ac/dc, umas dez testemunhas oculares da primeira marcha, uma camiseta ‘aborto não’, uma nossa senhora aparecida, uns militares da reserva & famílias, um anão, umas três bandeiras de são paulo, uma nossa senhora de fátima, uma atriz do ‘terça insana’ interpretando uma senadora biônica e um grupo de talvez vinte integralistas, neonazis, carecas, sei lá que porra que eles se denominavam, mas que certamente eram os seguranças de uma marcha que teve a liberdade democrática de, contrassenso dos contrassensos, pedir o fim da liberdade democrática [mas só por um tempinho, seis meses no máximo, de boa].


sob o comando silencioso de um senhor de bengala, broche do exército, cabelo com gel e bigodinho à la brad pitt em ‘bastardos inglórios’, esses raivosos jovens linha de frente recebiam fitas no braço esquerdo de um rapaz de terno verde oliva e óculos ray ban. um deles afirmou que a fita era um sinal combinado de reconhecimento com os parceiros da polícia militar. e eram eles os primeiros a avançar caso houvesse alguma voz contrária. aconteceu uma vez em frente à saída do metrô quando uma mulher gritou “vergonha, vergonha” e n’outra quando um aposentado que comungava de toda patacoada foi confundido com um comunista por trajar bermuda vermelha. um fotógrafo freelancer do diário de são paulo acabou sendo agredido nessa segunda confusão.

então, do alto do busão-hospício-caveirão, saíam pensamentos aleatórios dessa gente nada bronzeada. “se for necessário eu solto uma bomba no palácio do planalto. terrorista não pode representar uma nação de bem, assaltante de banco não pode representar a família brasileira. o lula é um dos caras mais ricos do mundo, tá mais rico que o eike batista. nós estamos muito chateados com o que está acontecendo no país.o que eu defendo é uma intervenção, formação de um governo provisório... com certeza tem que dar um jeito, uma arrumada na nossa casa. justiça não há e a mídia está amordaçada”. e é estranho isso, o mundo bizarro onde vivem essas pessoas, porque os “mensaleiros”, os grandes vilões dessa nova idade média, foram condenados recentemente e vários jornais e tvs estavam cobrindo a marcha.

acima, o silencioso e sinistro comandante dos integralistas neonazi 
e abaixo uma parte da tropa de choque da marcha

os discursos seguiam tão desconexos da realidade que nenhum curioso se aventurava em parar por ali. era um tal de passa-microfone para qualquer maluco que subisse no busão-palco-caveirão e cada um tinha sua própria agenda, seus próprios minutos para aparecer em fotos e vídeo. todos falavam [gritavam, na verdade] sozinhos. por isso pautas tão genéricas. bastava arranhar um pouco a superfície para ver que aqueles grupos podiam muito bem se odiar em outra circunstância.

só que naquele momento todos estavam carne & unha mostrando o quanto amavam o brasil, o da cabeça deles, porque o brasil real dos sem teto, pedintes e bêbados espalhados a poucos metros era solenemente ignorado. era uma questão de escolha, como bem dizia um dos mais reveladores cartazes de toda a marcha, “sou reaça contra o que não presta”.

maçonaria online, pois não?

de repente se ouve um “grupo 1! agrupar!”. são os neonazis carecas de integralismo preparando a saída. enquanto batem coturnos, a gritaria freestyle come solta. “eu acho que tortura está havendo hoje em dia, dos militantes de esquerda. polícia militar não é para fazer carinho. agora tem apologia ao gayzismo. não sei se o governo militar foi bom ou ruim, foi necessário. marco civil é sinal de comunismo. eu vivi no governo militar que todo mundo fala mal, eu tive educação, tive saúde. isso que está aí eu não quero. ninguém mais tem moral, todo mundo faz o que bem entende, isso não é democracia, isso não liberdade, é libertinagem”. e tome hino nacional com mão no peito. uma, duas, três, o hino deve ter sido tocado algumas dezenas de vezes durante todo o evento. parecia proposital essa encheção de linguiça. era um jeito de juntar mais gente porque a essa altura, 16h15, estavam reunidas cerca de 500 pessoas.


mas não tinha mais como esperar e marcha saiu pouco depois pela avenida são luís, sempre muito bem acompanhada [em termos afetivos e numéricos] pela polícia militar. só que uma coisa se esfacelou logo no começo: a força simbólica de um grito coeso. separados entre si, uns diziam “fora pt! fora dilma!”, outros “ deus, pátria e família” e outros ainda surrupiaram um dos bordões das manifestações de junho de 2013, o “vem pra rua, vem”. para piorar, quando a marcha chegou na praça dom josé gaspar, o som do pagodão-feijoada de todo santo sábado abafou qualquer tentativa de golpismo. o jeito foi apertar o passo e virar, à esquerda, na rua coronel xavier de toledo.

foi então, pouco depois da biblioteca mário de andrade, que aconteceu o primeiro momento de microtensão da marchadireita. alguns jovens punks abriram uma faixa com o seguinte escrito: “esta imagem está invertida”. escrita em branco num pano preto, a frase estava também [e genialmente] invertida, o que deu um nó na cabeça da família e gerou gritos, empurra-empurra e  a consequente expulsão dos punks. em frente ao metrô anhangabaú, a burrice sólida dos marcheiros se fez mais uma vez presente ao chamarem de “lixo! lixo!” um grupo de dez garotos e garotas que estavam indo para o show do metallica. estavam de preto, né, só podiam ser black blocs.

praça ramos e teatro municipal logo à frente e voltam a gritar “vem pra rua, vem”. todos os prédios comerciais da região, vazios naquela hora vespertina de sábado, olharam incrédulos para o chamado e, obviamente, ninguém atendeu. mas claro que essa coisa de baixa adesão não preocupou a família-marcha, afinal o que importava mesmo era tirar fotos com a bandeira nacional para postar no facebook acompanhado de alguma legenda como “fiz minha parte, acorda brasil”.

quando a marcha virou a direita e entrou no viaduto do chá seu tamanho ficou evidente. máximo de 600 pessoas, nem 1/3 do viaduto ocupado, e uma faixa etária elevada. fora o anacronismo e o espírito delirante da coisa toda, o que realmente me confortou é que daqui há dez anos boa parte desses marcheiros estarão com o deus deles. o autoritarismo que eles – e os 20 anos de ditadura militar – geraram ainda durará algumas gerações, mas certamente com uma adesão cada vez mais baixa. “aposto que não tem nenhum trabalhador aí”, disse um senhor meio irritado com a manifestação.

relógio marcando 17h20, barriga vazia, bateria do celular [tuitei toda a marcha no @dafnesampaio] e paciência acabando. estava pronto para sair de banda quando encontro, em frente à prefeitura, @pedromoraes e @joaoninguem que, a partir de ideia de @tiagomarconi, apareceram vestidos de empregada com cartazes de uma “marcha praticamente da família”. a crítica irreverente e corajosa deles não durou muito, pois foram vítimas de chutes e tiveram seus cartazes rasgados um pouco mais à frente, no largo de são francisco. mas rolaram muitas fotos e guerra memética é isso aí.


em meu último impulso para acompanhar a marcha decidi cortar caminho pelo calçadão da, ó ironia, rua direita. comércio e pessoas seguiam suas vidas alheias aos delírios de alguns quarteirões acima. então, quando cheguei na parte de baixo da praça da sé, tudo estava absolutamente normal:  forró ao vivo com bêbados e sóbrios xaxando muito, um pastor evangélico batendo na bíblia e decretando o apocalipse, craqueiros derrubados, bolivianos tirando fotos da catedral, nigerianos conversando animadamente, etc.

nos últimos suspiros do celular consegui ver que outras marchas brasil afora tinham sido realmente pífias. pelas minhas contas, em dez das maiores cidades do país – são paulo, rio de janeiro, belo horizonte, porto alegre, belém, recife, fortaleza, curitiba, natal e florianópolis – os extremistas conseguiram reunir algo em torno de 1200 pessoas. para se ter uma ideia, o  primeiro rolezinho, em dezembro do ano passado no shopping tatuapé, reuniu 6000, e a marcha da maconha de 2013 juntou 3000 somente em são paulo. soube também que a marcha antifascista que estava na sé algumas horas antes teve mais gente que a da família-marchista [cerca de 1000].

aliviado, parei no centro da praça e fiquei esperando a marchadireita vir pela rua benjamin constant. daí que o hino nacional parecia cansado de ser repetido no busão-túmulo-caveirão e o som começou a falhar comicamente. era minha deixa para ir embora.

no caminho para o metrô sé fiquei pensando como finalizaria esse texto já que não fiquei efetivamente até o final. mas então, logo após passar a catraca, vejo duas amigas de idade conversando, ambas negras. a mais velha pergunta “que protesto é esse que tá na praça?” e a mais nova, só um pouco mais nova, responde que “parece que é um pessoal querendo a volta da ditadura”. sem combinar, e como num jogral, ambas fazem o sinal da cruz e dizem “credo”. relógio marca 17h49. metrô chegou.

p.s. 1: vale ler ainda o texto da laura capriglione pra carta capital, a reportagem fartamente ilustrada da vice (“eles não são brasileiros”), o relato de mauro donato para o diário do centro do mundo, uma conversa no cabeleireiro da kátia abreu e até o texto meio egotrip quase mártir do leonardo sakamoto.

p.s. 2: texto feito com trilha de m. takara (“mundo tigre”), roy porter sound machine '94 (“generation”), stan hunter & sonny fortune (“ trip on the strip”), freddie gibbs & madlib (“piñata”), projetonave & cesrv (“mixtape”) e zulumbi (“zulumbi”).

sexta-feira, 21 de março de 2014

raps, pontes e overdrives

as amigas e colegas de trabalho laíssa barros e renata assumpção tem um site chamado 'era segunda e não tinha sorvete' e pouco tempo atrás me chamaram pra colaborar com uma seleção musical. acabei fazendo uma seleta de raps contemporâneos, de clipes de rap pra ser mais exato, que segue agora também aqui no esforçado.


lurdez da luz em show na casa do mancha

raps, pontes e overdrives

não é de hoje e não é novidade, mas também não custa repetir: o rap é a música mais forte, política, variada, pulsante, inclusiva e com mais cores de todos os gêneros dos últimos tempos (no brasil e no mundo). aqui vai uma uma amostra grátis exclusivamente brasileira – tem gente de são paulo, claro, mas também de fortaleza, rio de janeiro e são josé dos campos – e muito atual.

“doce dose”, don l & leo grijó
“equação”, síntese
“ela é favela”, aláfia & lurdez da luz
“beijo de judas”, kayuá
“caminho”, rael
“quartinho obscuro”, flow mc

quinta-feira, 6 de março de 2014

pra vó dedé,

semana passada, na manhã de 26 de fevereiro, partiu minha querida, muito querida, vó dedé, mãe de meu pai. em 2008 foi a vez de seu marido, o vô zé júlio. entre um e outro partiram meus avós maternos, josias e neném. sem mais avós e avôs, portanto. numa troca de emails entre toda a família muitas de suas histórias e falas impagáveis foram sendo relembradas pra produção de uma espécie de libreto a ser lido e distribuído na missa de sétimo dia. minha contribuição foi o texto que segue abaixo.


tem umas coisas especiais que acontecem na vida da gente. dona dedé aconteceu na minha. que delícia de pessoa, que figura, que coisinha linda. discreta e ácida, carinhosa e determinada, bem humorada e direta, religiosa e nada besta. pequenina também. e minha avó, que baita sorte da porra! [ai, desculpa o palavrão, vó, foi uma ênfase necessária pro tanto de amor].

a vó que planejou me sequestrar pr'eu ser batizado, mas preferiu entregar o pagãozinho pra deus. acho que porque a fazia rir com meus mungangos [caretas]. a vó que me fazia rir e lamber os beiços com uma galinha a cabindela [molho pardo] inesquecível. a vó e seu quintal, o quintal de toda minha infância com suas mangas, goiabas, abacates, brincadeiras, siriguelas, flores de jambo cobrindo o chão, frutas do conde, romãs, limões, cocos ralados, etc.

a vó que me dava capitão que, segundo o dicionário aurélio, é um "bocado de comida que tenha molho [feijão, por exemplo], amassado com farinha, entre os dedos, à moda de bolo, e levado com a mão até a boca". segundo eu mesmo, era o momento sensacional & índio & passarinho no qual ficava em um círculo [junto com prima(os), irmã e irmão] sendo alimentado assim, aos ótimos bocados.

minha vó, coisinha mais linda.

não faz muito tempo percebi que tinha sido ela que, silenciosamente, moldou o humor de toda a família que gerou [6 filhos, 11 netos, 6 bisnetos]. já sabia disso inconscientemente porque tinha certeza que aquela coisinha pequena tava dentro de mim, mas foi ao vê-la já doente, lutando pra manter seu afiado senso de vida e ao mesmo tempo cansada dos 6 anos de viuvez [ô seu zé júlio, saudades viu] e dos muito bem vividos 88 anos, que percebi como uma parte do melhor da gente veio dela.

claro que vai fazer falta. muita. mas ela fez tanta tanta diferença por onde passou, nas pessoas que a conheceram, que não tem essa coisa de fim pra dona maria, dona dedé, dona maria de dedé. ela é pra sempre, né?