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quarta-feira, 29 de abril de 2026

um papinho com nath finanças

participei deste ano da segunda edição do especial Top Creators para a revista Forbes Brasil e escrevi três dos dez perfis. fiz sobre o comediante Fausto Carvalho, o fisiculturista Toguro e a empreendedora Nath Finanças. mas o da Nath foi particularmente especial porque ela é uma personagem muito interessante com uma trajetória incrível e a entrevista foi muito completa (mesmo que por email). daí deu uma dó porque ficou tanta coisa de fora por causa do tamanho do texto que resolvi colocar tudo aqui.

para quem gosta de jornalismo vale também para entender as escolhas, o que entra como aspas, infos da entrevista que entram direto no texto, adaptações  e edições necessárias para uma fala ou outra. é toda uma ginástica para fazer caber.


Nath por Victor Affaro

ECONOMIA DE VERDADE

Nath Finanças criou um pequeno império injetando educação financeira para pessoas de baixa renda no vocabulário digital brasileiro 

Durante muitos anos, Nathália Rodrigues de Oliveira viveu um dia a dia exaustivo como o de milhões de brasileiras e brasileiros. Acordava por volta das 5 da manhã em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, e depois de duas ou três conduções chegava ao centro do Rio de Janeiro, fazia estágio até final da tarde e então corria para a faculdade (onde cursava Administração) e por lá ficava até às 23h. Só chegava em casa aproximadamente meia-noite. Detalhe: o que ganhava no estágio nem pagava o transporte diário. Mas um conselho de um professor lhe deu o primeiro estalo do que seria seu futuro. 

“Ele disse que não adianta querer empreender ou administrar um negócio se você não tem educação financeira. Pensei, ganho pouco e preciso aprender a administrar isso porque também ajudava em casa. Quando fui pesquisar na internet para montar um canal no YouTube só encontrava conteúdos tipo ‘como fiz meu primeiro milhão’. Isso era impossível pra mim e me gerava uma frustração enorme porque parecia que o problema era comigo. Na realidade, o problema é que ninguém estava falando de finanças para quem ganhava pouco de verdade. Foi aí que veio o segundo estalo e decidi focar em educação financeira para pessoas de baixa renda como eu”, explicou Nathália sobre o momento, em 2019, que deu início ao canal Finanças com Nath (mais tarde alterado para Nath Finanças). 

Nath viu que muitas pessoas, como ela, precisavam se organizar financeiramente. Para não depender do cartão de crédito e seus juros abusivos, para não exagerar no iFood ou Uber, para fazer render o máximo com o pouco que se ganha ou tem. “Então, no início do canal, falava muito sobre dívida. Como sair da Serasa, como sair do SPC, como se organizar ganhando um salário mínimo. Falava muito sobre organização financeira básica. Depois de sete anos com o grupo Nath Finanças, essas perguntas continuam existindo. A diferença é que o público ficou mais diverso e ampliou. Hoje tem empreendedorismo, casa própria, fluxo de caixa. Mas continuo falando de finanças reais para pessoas reais”. 

As redes sociais da Nath Finanças – que hoje somam cerca de 2,5 milhões de seguidores, com destaque para Instagram, YouTube e TikTok –, foram responsáveis por criarem uma comunidade que a fez seguir em frente, enquanto ela própria construía credibilidade a partir de uma ética de trabalho rigorosa. “As pessoas continuam comigo todos esses anos, acreditando no meu trabalho e, principalmente, transformando a própria vida financeira. Isso é o que mais me emociona”. 

No que depender dela, muitas novas transformações ainda acontecerão, pois o futuro do grupo já está bem definido. A ideia é, basicamente, reforçar ainda mais a presença da marca, não só no digital, mas também no presencial, com eventos, palestras e projetos educacionais em escolas e universidades públicas (o Educadin, pensado para crianças, adolescentes e jovens adultos). Outro foco é tecnologia com o Nath Play, uma plataforma de educação financeira que funciona como um hub financeiro que dá acesso a conteúdos em formato de streaming, planilhas, aplicativos, ferramentas de organização financeira, tanto pessoais quanto de negócios, e também mentorias pagas. 

E em meio a isso, a iguaçuana de 27 anos ainda arruma tempo para podcast (‘Fofocas financeiras’), livros (dois deles ilustrados por Ziraldo) e investimentos em negócios, cuidando de uma empresa que começou com ela e um celular Moto G e hoje conta com cerca de 30 funcionários. “Independentemente da idade, seja começando jovem ou mais tarde, o mais importante é começar e acreditar que o seu trabalho pode gerar impacto na vida de alguém”.

making of da sessão de fotos para a Forbes Brasil

A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA

O que te fez criar um canal no YouTube para falar de economia lá em 2019? E por que falar de educação financeira para pessoas de baixa renda?

Bom, quando eu decidi criar o canal em 2019, tudo começou um pouco antes, em 2018. Eu tive uma aula de matemática financeira com o meu professor, José Trigo, e ele falou uma coisa que eu nunca esqueci. Ele disse que não adianta querer empreender ou administrar um negócio se você não tem educação financeira.

Naquele momento eu não entendi muito bem, porque, para mim, educação financeira era só anotar gastos. Era o máximo que eu tinha aprendido vendo meu pai fazer. Eu não fazia ideia de como essa ferramenta podia realmente transformar a vida das pessoas. Depois dessa aula, eu fiquei muito curiosa e comecei a estudar mais sobre o assunto. Nessa época eu trabalhava no Centro do Rio de Janeiro. 

Eu nasci na periferia de Nova Iguaçu e a minha rotina era acordar às 4h30/ 5h da manhã, pegar duas ou três conduções, trem ou ônibus, dependia do dia, para ir trabalhar. Depois do trabalho eu ia direto para a faculdade e chegava lá por volta de 18h ou 18h30. Mesmo saindo direto do trabalho e pegando duas ou três conduções, às vezes eu ainda chegava atrasada na faculdade. As aulas iam de 18h até 22h e, muitas vezes, eu ficava até 22h30 ou 23h para tirar dúvidas e aprender mais. Chegava em casa 23h30/ meia-noite.  Tudo isso porque eu queria entender de verdade o que era educação financeira.

Eu também perguntei para o professor sobre cursos e sobre ensinar isso para pessoas de baixa renda. Porque eu era, e fui por muito tempo, uma pessoa de baixa renda. No meu estágio, antes de ser estágio formal, eu ganhava algo entre R$ 500 e R$ 600 por mês. E ainda tinha um detalhe: parte do transporte eu pagava do meu próprio bolso, porque não cobria tudo. Então, na prática, eu ainda tirava dinheiro do meu salário para conseguir trabalhar. Naquele momento eu pensei: caramba, eu ganho pouco e preciso aprender a administrar isso aqui, porque eu ajudava em casa e tinha minhas responsabilidades. Foi aí que veio o estalo.

Quando eu fui pesquisar na internet para montar o projeto do canal, eu só encontrava conteúdos tipo “como fiz meu primeiro milhão”, “como juntar dinheiro para sua aposentadoria”, “como viver de renda”. E quando você ia ver o vídeo até o final, a dica era sempre a mesma: junte 500 reais por mês, junte 300 reais, junte 1.000 reais. Só que aquilo ali era praticamente o valor do meu salário inteiro. Eu simplesmente não conseguia juntar esse dinheiro. E isso me gerava uma frustração enorme, porque parecia que o problema era comigo, que eu não estava fazendo direito. Mas, na realidade, o meu salário nem era um salário mínimo na época. Então eu percebi que o problema não era falta de esforço. O problema é que ninguém estava falando de finanças para quem ganhava pouco de verdade. 

Foi por isso que eu decidi focar em baixa renda. Porque eu era a Nathália Rodrigues, da periferia de Nova Iguaçu, ganhando entre 500 e 600 reais, usando parte do salário para pagar passagem, pegando duas ou três conduções por dia e gastando cerca de cinco horas do meu dia só em transporte público para conseguir trabalhar e estudar. 

Essa era a minha realidade. Foi nesse momento que eu escrevi no Twitter, eu tinha uns 200 seguidores, que estava pensando em falar sobre educação financeira para quem ganha pouco. Umas cinco pessoas responderam animadas. 

E eu pensei: já é o suficiente para começar. Porque eu tinha uma certeza: se eu vivia essa rotina, existiam milhares de outras pessoas vivendo exatamente a mesma coisa. E essa, na verdade, é a realidade de muita gente no Brasil. 

Quais eram as principais questões que você tratava no início? E que dúvidas mais te enviavam? Isso mudou nesses sete anos de atividade, tanto as questões que você levanta quanto as dúvidas que recebe? 

Mudou um pouco, porque o público também cresceu, mas a essência continua a mesma. Teve uma época em que eu trabalhei fazendo cartão de loja. Eu era a menina que ficava oferecendo 10% de desconto para quem fizesse o cartão na hora da compra, em uma loja de calçados no centro de Nova Iguaçu. Grande parte das pessoas que faziam cartão ali eram pessoas de baixa renda. E o mais interessante é que elas acabavam me contando as histórias delas. Muitas vezes estavam fazendo o cartão para comprar um tênis para o filho ir para a escola, porque a criança não tinha um tênis bom ou simplesmente não tinha. Eu comecei a ouvir muito essas histórias no dia a dia. 

Foi ali que eu passei a sentir de verdade a realidade das pessoas. E eu pensava: nossa, essas pessoas precisam se organizar financeiramente para não depender sempre de cartão. Só que, ao mesmo tempo, eu tinha meta para bater de cartão. Mesmo assim, muitas vezes eu falava para a pessoa: você não precisa fazer mais um cartão agora. Mesmo sabendo que isso podia atrapalhar a minha meta. 

Então, no início do canal, eu falava muito sobre dívida. Como sair da Serasa, como sair do SPC, como se organizar ganhando um salário mínimo. Falava muito sobre organização financeira básica. Também trazia coisas do dia a dia, porque eu vivia essa realidade. Falava sobre como economizar no trabalho, como evitar gastar demais com iFood, como não exagerar no Uber ou nos aplicativos de transporte. Eu mostrava a visão de alguém que pegava trem, ônibus, metrô e que precisava fazer o dinheiro render. 

As principais dúvidas eram justamente essas: como sair das dívidas, como se organizar financeiramente, quais são os primeiros passos para cuidar do dinheiro, e quais são os erros mais comuns que a gente comete. 

Depois de sete anos com o grupo Nath Finanças, essas perguntas continuam existindo. A diferença é que o público ficou mais diverso. Hoje tem gente que me acompanha ganhando um salário mínimo, mas também tem gente que ganha R$ 5 mil por mês e quer aprender a investir, quer comprar a casa própria ou quer se organizar melhor. Até mesmo quem tem 500 mil reais e quer aprender a investir. 

Então o público não mudou, ele ampliou. A essência continua sendo a mesma. Inclusive teve um seguidor que me falou uma coisa que acabou virando quase um slogan para mim. Ele disse: “Nat, eu ganho mais do que um salário mínimo e acompanho você. Eu ganho bem, mas a sua comunicação simples e prática me ajudou muito a me organizar financeiramente.” E ele completou dizendo: “Você não fala só de finanças para pessoas de baixa renda. Você fala de finanças reais para pessoas reais.” Quando eu ouvi isso, virou uma chave na minha cabeça. Porque é exatamente isso que eu faço. Eu falo com o empreendedor que está começando, com quem já está um pouco mais estável e quer aprender a investir, com quem está endividado e também com quem está com medo de se endividar. 

O nosso foco sempre foi trazer acessibilidade para o conteúdo. Porque quando muita gente fala de finanças, parece sempre algo complicado, distante ou até culpando a pessoa pela situação. E eu não acredito nisso. A gente pega na mão e mostra o caminho para que a pessoa consiga, de verdade, alcançar os objetivos financeiros dela. 

Você acha que falar sobre economia para pessoas de baixa renda mudou nesse período? As pessoas ganharam mais consciência ou ainda é um tema complexo?

Eu vejo que, nesses anos, falar de economia para pessoas de baixa renda não é que mudou completamente, mas as pessoas passaram a ter muito mais acesso à informação, e isso já faz uma grande diferença. 

Principalmente depois da pandemia, as pessoas começaram a consumir muito mais redes sociais. E o TikTok teve um papel muito grande nisso. Foi ali que muita gente começou a se abrir mais, a falar sobre salário. Um CLT falando quanto ganha, uma pessoa PJ falando quanto ganha. Coisas que antes eram um tabu. 

Eu cresci muito nas redes por conta do YouTube e do Twitter, mas o TikTok ajudou a ampliar essa conversa. As pessoas começaram a mostrar suas realidades, compartilhar experiências, falar de organização financeira, oferecer planilhas, vender planilhas, ensinar métodos. 

Então hoje eu vejo que a gente tem muito mais acesso a diferentes realidades. A realidade de quem ganha um salário mínimo, de quem ganha dois ou três salários mínimos, de quem está começando a investir. As pessoas, sim, ganharam mais consciência. E com mais consciência também veio mais acesso, mais consumo de conteúdo e mais interesse em aprender. Eu não acho que o tema seja tão complexo quanto antes. Ele está muito mais difundido hoje. 

O desafio agora é outro: filtrar informação. Porque tem muita gente falando sobre finanças, muito conteúdo disponível. Então a pessoa precisa escolher quem ela quer ouvir, qual tipo de conteúdo faz sentido para a realidade dela e qual caminho ela quer seguir. 

Como você definiria o seu crescimento em termos de influência, alcance e relevância após sua entrada de cabeça nas redes sociais?

Eu definiria o meu crescimento com duas palavras: comunidade e credibilidade. Eu construí uma comunidade muito forte. E foi essa comunidade, junto com a credibilidade que eu construí ao longo dos anos, que fez com que eu conseguisse crescer e viver do meu trabalho, tanto na internet quanto fora dela. Sempre tive muito cuidado de não me vender, de manter meus valores, de trazer informação correta e de lembrar da realidade de quem está do outro lado. De quem pega três conduções por dia para trabalhar, porque eu já fui essa pessoa por muitos anos. 

O primeiro grande crescimento veio quando eu viralizei por conta de uma matéria da BBC Brasil, que contou a história de uma estudante que falava de educação financeira para pessoas de baixa renda. Depois disso, o crescimento continuou, mas de uma forma mais gradual. Não foi uma montanha-russa o tempo todo. Foi um crescimento constante de influência, alcance, relevância e credibilidade. 

Os dois primeiros anos foram muito intensos. Mas depois eu percebi que crescer de forma gradual era melhor, porque me permitia acompanhar os momentos da vida das pessoas. 

Tem gente que chega quando quer comprar a casa própria. Tem gente que chega quando quer aprender a investir. Tem gente que chega quando quer sair das dívidas.

E eu também organizo meu conteúdo por fases. Eu gosto de pensar quase como um artista que lança álbuns. Cada ano eu escolho um tema que quero aprofundar mais.

Por exemplo, em 2026 estou falando mais sobre empreendedorismo, porque sou formada em Administração de Empresas. Então estou trazendo conteúdos sobre fluxo de caixa, organização financeira do negócio e como começar a empreender.

Também voltei a falar sobre casa própria, depois de dois anos, e estou trazendo conteúdos sobre carro, como financiamento e decisões financeiras do dia a dia. 

Você tem uma rede social preferida do coração? E qual você acha melhor em termos de comunicação com o seu público?

Hoje em dia, as redes que eu mais gosto de consumir são Instagram e TikTok. Se eu tivesse que escolher uma favorita, talvez fosse o Instagram. Mas quando penso em comunicação com o público, depende muito da plataforma e do tipo de conteúdo. O antigo Twitter era muito bom para comunicação rápida. Era onde a conversa acontecia muito em tempo real. Hoje já não uso com tanta frequência. O LinkedIn tem um público mais voltado para empreendedorismo e negócios. Mas, no geral, as redes em que eu consigo me comunicar melhor com o meu público hoje são YouTube e Instagram, porque ali consigo explicar melhor os conteúdos e criar uma conexão mais direta. 

Do que você tem mais orgulho entre as coisas que conseguiu nesses anos de Nath Finanças?

Acho que o maior orgulho que eu tenho nesses anos de Nath Finanças são as pessoas. As pessoas que me acompanham e conseguiram comprar a casa própria. As que conseguiram comprar um carro. As que saíram das dívidas. As que montaram uma reserva de emergência de forma realista. As que fizeram o primeiro investimento. Saber que, de alguma forma, eu consegui chegar na casa dessas pessoas e ajudar na transformação da vida financeira delas é o que mais me emociona. Porque tudo começou sem estrutura nenhuma. Eu gravava com um Moto G, com um sonho e muita vontade de ajudar. Hoje tenho câmera, microfone, equipe, empresa. Mas o que mais me orgulha é que as pessoas continuam comigo todos esses anos, acreditando no meu trabalho e, principalmente, transformando a própria vida financeira. 

Nath e Ziraldo

Quais são os próximos passos do grupo Nath Finanças? Como você descreveria o seu futuro? 

Os próximos passos do grupo Nath Finanças são reforçar ainda mais a presença da marca, não só no digital, mas também no presencial. Durante muitos anos a educação financeira que eu levei foi principalmente pelas redes sociais. Agora a ideia é fortalecer também o trabalho presencial, com eventos, palestras e projetos educacionais que levem educação financeira para mais pessoas. 

Um dos caminhos é ampliar projetos em escolas públicas e universidades públicas, levando educação financeira de forma transversal. A ideia é falar com crianças, adolescentes e jovens adultos que muitas vezes nunca tiveram acesso a esse tipo de conhecimento em casa. Não porque os pais não quiseram ensinar, mas porque muitas vezes os próprios pais também nunca tiveram acesso à educação financeira.

Então poder fechar projetos com escolas e universidades e levar esse conteúdo é algo muito importante para mim. Inspirar essas crianças e jovens a entenderem como lidar com dinheiro desde cedo. 

Dentro disso também entra o Educadin, que é um projeto criado aqui dentro do grupo Nath Finanças para levar educação financeira para crianças e jovens. Esse projeto nasceu justamente com a ideia de tornar o tema mais acessível desde cedo, de uma forma simples, didática e próxima da realidade das famílias brasileiras.

Eu também tenho dois livros de educação financeira infantil feitos junto com Ziraldo, além de outros conteúdos desenvolvidos por mim e revisados por pedagogos. A ideia é ajudar a construir uma geração que tenha acesso a essas ferramentas desde cedo. 

Porque quando a gente fala de educação financeira para crianças, a gente está falando do presente e do futuro. Quanto mais cedo elas tiverem contato com esse conhecimento, menores são as chances de crescerem sem entender como lidar com dinheiro. 

Outro ponto muito importante para o futuro do grupo Nath Finanças é a tecnologia. Hoje a gente tem a Nath Play, que é a nossa plataforma de educação financeira. Ela funciona como um hub financeiro, onde as pessoas têm acesso a conteúdos em formato de streaming, planilhas, aplicativos, ferramentas de organização financeira, além de conteúdos tanto de finanças pessoais quanto de finanças para negócios. Também temos mentorias a cada 15 dias dentro da plataforma, tudo com um valor acessível, a partir de R$ 12,90 por mês. A Nath Play é uma EdTech, ou seja, uma empresa de tecnologia voltada para educação. Então um dos nossos focos para os próximos anos é fortalecer ainda mais essa área de tecnologia. 

Além disso, eu também tenho investido em negócios nos quais acredito. Hoje já sou sócia de algumas empresas e quero continuar investindo em projetos e companhias que tenham propósito e que possam gerar impacto. 

Então quando a gente fala de futuro do grupo Nath Finanças, estamos falando de várias frentes: educação financeira, tecnologia com a Nath Play, consultorias, investimentos e novos projetos. 

E se eu fosse descrever o meu futuro, eu sempre gosto de lembrar uma coisa: eu ainda sou muito jovem. E eu gosto de falar isso porque inspira outras pessoas a entenderem que, mesmo sendo jovem, você pode construir algo grande, algo que realmente transforme a vida das pessoas. Independente da idade seja começando jovem ou mais tarde, o mais importante é começar e acreditar que o seu trabalho pode gerar impacto na vida de alguém.

sábado, 28 de março de 2026

voar voar subir subir

a história desse texto começa no início de 2018, pouco antes da minha filha nascer em 3 de fevereiro. já havia escrito algumas 'esquinas' pra Piauí quando, do nada, o editor Armando Antenore me encomendou uma reportagem. isso nunca tinha acontecido antes (afinal, as 'esquinas' sempre partem dos repórteres) e o espaço na revista também era inédito (a seção 'chegada'). fiquei animadíssimo com a pauta sobre um projeto de reintrodução de ararajubas na natureza e logo marquei uma entrevista com o zoólogo Luís Fábio Silveira, responsável técnico pela iniciativa.

combinamos um almoço perto de seu lugar de trabalho, o Museu de Zoologia da USP, ali no Ipiranga, e a conversa sobre ararujubas seguiu até seu escritório (ele até me deu um presentinho para minha filha que estava prestes a nascer). tudo ótimo, tudo certinho, e terminei o texto para ser publicado na edição de abril. mas então veio a tragédia do assassinato da vereadora Marielle Franco no Rio de Janeiro e o texto sobre as ararajubas caiu. ainda tentamos adaptar o texto para 'esquinas', mas não tinha a pegada da seção. a vida seguiu, Tereza nasceu e esqueci desse texto até meu computador morrer anos depois. foi aí que descobri que não tinha backup dele (entre outras coisas), não achei nos emails, etc. mas a vida seguiu mais uma vez e só agora voltei a procurá-lo (e não é que Armando tinha ele guardado em algum arquivo!).

como é um texto do início de 2018 e certamente muita coisa aconteceu no projeto nestes oito anos voltei a falar com o professor Luís Fábio para atualizá-lo. não o texto, pois não tinha condições de reescrevê-lo, mas em forma de depoimento que seguirá aqui, após a reportagem original, tão logo o receba.

QUATORZE ARARAJUBAS E UM DESTINO

Após 70 anos, as ararajubas voltaram à cidade das mangueiras

No início de agosto de 2017, um grupo de quatorze ararajubas partiu rumo ao desconhecido. Nascidos em cativeiro e criados por mãos humanas, esses psitacídeos de plumagem amarelo-ouro com detalhes em verde deixaram o conforto da Fundação Lymington, em Juquitiba, interior de São Paulo, e voaram longe – mas ainda não com as próprias asas – para a terra de alguns de seus antepassados, Belém do Pará. Tudo isso como parte de um projeto pioneiro de reintrodução dessas aves em um de seus ecossistemas naturais. 

“A gente tinha vários níveis de receio quando estávamos indo para Belém: receio dos bichos não saírem do viveiro, receio de voarem sem rumo e não conseguirem voltar, receio de morrerem nos primeiros dias das formas mais variadas. Mas a verdade é que o bicho deu um baile na gente”, explicou Luís Fábio Silveira, curador das Coleções Ornitológicas do Museu de Zoologia, professor colaborador no Departamento de Zoologia da USP e coordenador científico do projeto de reintrodução das ararajubas. “No dia que saíram foi lindo, deram vários voos circulares em cima da gente, não demonstraram nenhum receio, voaram super bem. Foi um espetáculo. Fazia tempo que não me emocionava com bicho tanto assim. Parecia que Dona Linda estava lá empurrando cada uma pra fora do viveiro”. 

A Dona Linda a quem Luis Fábio se refere é Linda Wittkoff, norte-americana que veio ao Brasil com o marido William Wittkoff no início da década de 1960. Após anos de trabalho dele como executivo da Ford no ABC, o casal comprou um terreno rodeado pela Serra do Mar, em Juquitiba, e criaram a Fundação Lymington, uma instituição sem fins lucrativos que visa preservar e reproduzir em cativeiro espécies de aves ameaçadas de extinção, principalmente araras azuis e ararajubas. 

“Infelizmente, um ano atrás, a Dona Linda morreu. Um câncer fulminante a levou. Ela preparou tudo, conhecia todas as aves, todas, mas não chegou a ver o projeto acontecer. Então, para homenageá-la, batizamos a iniciativa de Belém Mais Linda”. Afinal, também foi Linda que estabeleceu a proposta inicial de parceria com o Ideflor-bio [Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará] para a reintrodução das ararajubas. 

Já a sugestão de soltá-las no Parque Estadual de Utinga, na região metropolitana de Belém, veio do Ideflor-bio. Uma das explicações é que o último registro de uma ararajuba na capital paraense tem cerca de 70 anos. “E eles também acharam interessante porque Utinga tem relação com os mananciais de água da cidade. É uma região muito bem preservada, tem matas muito boas, e por ser na região metropolitana poderia gerar uma empatia com a população, o que é algo importante em um projeto assim”, e de empatia com aves, Luis Fábio entende. Quando adolescente, muito antes de prestar Biologia, o mineiro de Belo Horizonte chegou a ter 400 papagaios em casa. 

“Ararajuba é um bicho muito especial e muito inteligente. É de uma linhagem evolutiva endêmica da Amazônia brasileira, portanto só tem no Brasil. Quer dizer, é algo que apareceu no decurso da evolução das espécies e só sobrou a ararajuba dentro desse gênero. Ela já é algo singular por isso. No mais, ela é um papagaio e o Brasil é o país com o maior número de espécies de psitacídeos do mundo. Além de tudo isso, é um bicho muito doce, muito carinhoso”. Essa doçura toda, aliada ao agressivo desmatamento nas regiões nordeste e sudeste da Amazônia e ao tráfico ilegal de animais, fez com que a espécie caísse para cerca dos atuais 5 mil indivíduos na natureza. 

Para dificultar ainda mais a retomada do crescimento das ararajubas, as populações são muito isoladas uma das outras. Estão, basicamente, em quatro regiões: nas paraenses Tailândia, Caxuanã e às margens do Rio Tapajós, no Parque Nacional da Amazônia, e na maranhense Reserva Biológica do Gurupi. “Não existe chance nenhuma dessas populações se encontrarem. É um bicho florestal que não se arriscaria em longas distâncias, não saberia atravessar pastagens, por exemplo. Por isso o nosso projeto é reintroduzir onde o animal não vive mais e assim criar uma nova população”. 

Ararajubas livres no Parque Estadual de Utinga, no Pará (foto Marcelo Vilarta)

Voltamos então às 14 ararajubas que partiram rumo a Belém em agosto de 2017. Tudo começou antes, com uma preparação sanitária das aves para que estivessem bem de saúde e não levassem nada estranho para o novo ecossistema. Depois, uma preparação física, afinal elas precisam voar bem, com autonomia e direção. “Essas ararajubas são netas de indivíduos que já nasceram em cativeiro. São bichos que nunca viram um pé de açaí na vida e que tiveram que aprender no cativeiro o que é uma comida do mato. No segundo dia em Belém a gente pendurou um cacho de açaí e você não tem ideia do pânico delas ao ver a fruta. Mas como o bicho é curioso e existe uma memória genética, uma semana depois elas já estavam sabendo manipular o açaí sem nunca ter visto na ponta do galho”. 

No entanto, duas ararajubas do grupo não se mostraram aptas a voar com a eficiência necessária – e voltaram para a Fundação Lymington para fins de reprodução – e outras duas foram definidas como satélites no viveiro para que as outras saibam para onde voltar em caso de fome. Sobraram dez para a soltura que foi marcada para 31 de janeiro deste ano [2018]. “Antes do grupo inteiro, soltamos dois machos com 20 dias de diferença entre os dois. A gente achou que se soltássemos um casal, eles podiam ir embora. Escolhemos então dois casais muito apaixonados e separamos os dois machos. Como são bichos gregários, eles sempre voltavam por causa das fêmeas. E assim foram aprendendo a ir e voltar, e isso seria repassado para os outros. A gente poderia ter tentado com duas fêmeas, acho que daria certo, mas não quisemos arriscar porque apostamos nessa territorialidade dos machos”. 

Em seis meses nos viveiros de ambientação no Utinga, as ararajubas aprenderam, ou reaprenderam, a serem amazônicas. Mas como o diabo mora nos detalhes, duas aves morreram comidas por jibóias. Sobraram oito, cinco fêmeas e três machos. “Reintrodução não é o que se vê na TV, que são órgãos ambientais abrindo gaiolas de traficantes e soltando os bichos de qualquer jeito. Isso é muito bonito, sai no Jornal Nacional, todo mundo chora, mas na verdade você está condenando esses bichos à fome e sede nos dois primeiros dias. Libertar o animal e ir embora pra casa é não fazer a parte mais importante do processo que é o monitoramento, o que acontece depois. Essa é, justamente, a maior parte do nosso trabalho”. 

Ararajuba e o açaí (foto Marcelo Vilarta)

Após o espetáculo da soltura, as oito ararajubas que ganharam os céus do Utinga se arriscaram inúmeras vezes no mundo real de seus antepassados. Algumas ficaram até uma semana sem voltar ao viveiro. O plano agora é soltar um segundo grupo em abril [de 2018]. Dez ararajubas já estão prontas, mas Luis Fábio e seu parceiro, o biólogo Marcelo Vilarta, querem levar doze. 

“Quero introduzir, no mínimo, umas trinta aves no Utinga. Mas como sempre tem alguma perda, e isso é natural, é preciso suplementar esses animais até chegar a uma população que consiga se sustentar sozinha. Até o fim do ano [de 2018] quero estar com todo mundo lá. E tenho uma esperança, que diria definitivamente que o estudo deu certo, que alguns indivíduos se reproduzam no fim do ano, ali por novembro”. 

O sonho maior é transformar Utinga em um polo para estudos em Biologia da Restauração. “A gente quer contribuir de forma mais importante pra recomposição de ecossistemas naturais. Porque reintrodução é um processo contínuo. Não é um capricho, não é um oba-oba de soltar passarinho. Reintrodução é restaurar um componente da biodiversidade que por algum motivo foi perdido naquela região. E lá em Belém a gente quer soltar também araras vermelhas, periquitos cara-suja e mutuns”. E ararajubas, muitas ararajubas. 

“A gente quer adaptá-las pra viver na natureza e pra morrer também. Afinal, morrer faz parte do jogo. O importante não é quantas morreram e sim quantas conseguiram se manter e sobreviver na natureza”. Nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, pois assim vai se aprendendo a restaurar e preservar.

ei Seu IA, faz uma imagem de uma ararajuba musculosa lutando contra tratores; daí o Gemini entrega isso

ATUALIZAÇÃO DO PROJETO (em breve)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

por isso correm demais

outra reportagem que fiz pra Forbes Brasil saiu em outubro ou novembro do ano passado e tratou de um empreendimento no interior de São Paulo que une natureza, hotelaria e a paixão pelo automobilismo. é o Raceville, em Brotas. saca só. 

VELOCIDADE EM FAMÍLIA

O primeiro clube exclusivo para amantes de automobilismo foi inaugurado em 2024 em Brotas, interior de São Paulo, com um cardápio recheados de atrações e uma pista maior que Interlagos

Existe uma cidade no centro do Estado de São Paulo, a cerca de 250 km da capital, que é conhecida por suas cachoeiras, trilhas, arvorismo, areias que cantam e o rafting no Rio Jacaré Pepira. É a Estância Turística de Brotas, a “Capital da Aventura”. Mas de um ano pra cá, a região ganhou um novo e inédito (no Brasil) item de aventuras em seu cardápio: o Raceville Speed Club, um clube exclusivo para amantes de automobilismo. 

Tudo começou na cabeça de um paulistano apaixonado por carros e corridas. Carlos Guilherme “Cacá” Clauset, 55 anos, foi jornalista da área (trabalhou nas revistas Carro e Quatro Rodas), mas sua paixão mesmo sempre foi a de estar atrás do volante, pilotando. Bicampeão brasileiro de rali, bicampeão do Rally dos Sertões, duas vezes sobrevivente do famoso Rali Paris-Dakar, e recordista mundial na travessia Pan-Americana (fez os 24 mil km que ligam Alasca ao Ushuaia em 18 dias, 1 hora e 11 minutos), Clauset largou o jornalismo, no início dos anos 2000, para se aventurar como empresário ao fundar a TSO Brasil, uma empresa de eventos automotivos. 

O tempo passou e o negócio deu certo, mas veio a pandemia e Clauset passou a refletir sobre o planeta, o futuro e o que poderia ser feito. Sentiu que lhe faltava algo, um propósito. E foi então que um velho sonho voltou à tona: construir um autódromo. 

“Tiveram nos últimos dez anos pelo menos umas oito tentativas de construírem autódromos no Brasil, a maioria via iniciativa privada, mas algumas do Estado também. E nenhuma delas aconteceu. Fiquei intrigado para entender porque nenhuma dessas iniciativas deu certo e acabei achando uma coisa que unia esses projetos: tudo sempre girava em torno do empreendimento imobiliário”, explica Clauset sobre como autódromos, piscinas de ondas, campos de golfe ou campos de polo podem ser apenas pano de fundo para a construção de condomínios. O paulistano pensou então em um empreendimento que fosse o oposto, no qual a paixão viesse em primeiro lugar, e não a venda de terrenos. O Raceville foi nascendo assim. 

“Gostei desse formato, achei que poderia encaixar, mas não em São Paulo, obviamente. Comecei a formatar um pouco mais a ideia e fui atrás de ajuda. Não conseguiria fazer sozinho. Então a primeira pessoa que chamei foi o Marcelo Chanoft, um amigo fiz em um encontro de empresários no Jalapão, porque achei que ele ia entender o que estava querendo propor porque ele também vem da área de eventos”, e Clauset começou a montar uma equipe de especialistas em áreas como construção civil e tecnologia, entre outras. Mas faltavam duas questões muito importantes: a localização e o plano de negócios. 

O piloto-empresário lembrou então de Brotas, das pousadas de lá, e de como seria interessante construir um autódromo em um lugar tão improvável. “É um pouco longe de São Paulo, é no topo do morro, e é um lugar onde em teoria a cidade turística vive em função das suas atratividades naturais. Então por isso falo que era um lugar improvável”. Foi assim que encontraram nas terras de Alice Moreira Ferreira o local perfeito para viabilizar o projeto, afinal de contas, entre as inúmeras instalações já existentes, a propriedade já contava com a Pousada Primavera da Serra. 

O que foi uma centenária fazenda de café e depois uma monocultura de cana-de-açúcar, foi se transformando, de agosto de 2023 a novembro de 2024, em um complexo composto por um autódromo de 4.5 km (maior que Interlagos), um kartódromo, pistas de UTV e off road, uma trilha para mountain bike, quadras de tênis e beach tennis, restaurante, piscina, spa, além de cachoeiras e lagos já existentes. “A gente não derrubou nenhuma árvore para fazer o Raceville. Era um canavial, então a gente tirou tudo e fez o autódromo que não ocupa nem 5% da área. E fizemos replantio de milhares de árvores, fazendo cinturões, unindo cordões de mata. Hoje são 80 alqueires no total do clube, e diria que 70% desse espaço é mata, é floresta, é muito legal. Muitas árvores, rios, cachoeiras, tudo isso. Tudo muito integrado”. 

Todo esse projeto teve um custo estimado de R$ 100 milhões e, rapidamente, Clauset, Chanoft & Cia. perceberam que não tinham bala na agulha para fazê-lo primeiro e depois ver o que acontecia. “A gente tem um business plan que é saudável, que é bom. Pegamos esse valor enorme e fatiamos por várias pessoas que têm o mesmo interesse de ter um autódromo para andar quando quiser. É que nem um clube normal: você chega lá, tem a carteirinha, passa na entrada, vai até o autódromo e anda com o seu carro. Dividimos o clube, a princípio, em 500 títulos – custando R$ 552 mil cada – e conseguimos construir tudo com a venda de títulos e alguns pequenos aportes. A gente não inventou a roda criando esse formato. A gente só adaptou o formato à nossa roda, que é o autódromo”. 

Para conseguir tamanha façanha comercial, o Raceville Speed Club contou, acima de tudo, com sócios tão apaixonados pelo projeto quanto seus criadores. Gente que acreditou que aquele canavial era, na verdade, uma grande pista de corrida e um clube. “Nosso maior ativo são essas pessoas que botaram R$ 500 mil sem ter nada lá. Isso a gente só consegue por causa da paixão. Você não consegue convencer um cara de banco a pôr dinheiro nisso. Tanto que a gente foi sondado e visitamos diversas instituições financeiras, bancos de investimento e nunca deu certo. Porque a visão deles era puramente comercial. E o Raceville é coisa de paixão mesmo”. 

Nesse processo de apresentação, convencimento e vendas, Clauset confirmou uma hipótese lá do início do projeto: eles/elas vêm pela pista, claro, mas ficam pela família. “O Raceville tirou uma dor muito grande do apaixonado por carros, que é aquela do cara ir para o autódromo, fazer um track day e deixar a família em casa. Aqui você pode fazer o seu hobby, ter o seu carro esportivo na pista, sem abrir mão da família, muito pelo contrário. Tem recreadores para crianças, enquanto as esposas, ou os maridos, porque tem mulheres que aceleram na pista também, estão lá curtindo piscina, beach tennis, spa, restaurante, conversando, cachoeira, caminhando, cuidando da horta”. 

Essa integração de lazeres foi o que, de cara, atraiu Eduardo Peres, 44 anos, consultor do setor elétrico, casado e pai de três filhos. De um lado, o casarão da pousada, o fogão a lenha; do outro, as trilhas, a natureza, a pista off road para as crianças. “Outra coisa que gostei no Raceville foi a atenção das pessoas com a gente, sabe? Eu cheguei lá, o pessoal me chamou pelo nome, já sabia quem eu era, perguntaram da minha família. Quando meus filhos foram para lá pela primeira vez, tinha a turma da recreação que já sabia quem era quem. Então, a gente se sente num ambiente familiar e muito acolhido”. 

Já André Luiz Puccia, 35 anos, assessor de investimentos, casado, sem filhos ainda, se divide entre a natureza, o clube e o traçado da pista. “Aquela cachoeira que tem dentro dele é muito especial, mas sou fã incondicional do traçado da pista. É um traçado incrível, maravilhoso, e uma homenagem a uma série de curvas mitológicas de autódromos famosos. Ficou muito bacana. E o clube é encantador, com gente bacana. Todo mundo se diverte”. 

E, em breve, mais gente poderá se divertir. É que após a inauguração do Raceville, Clauset começou a receber uma demanda inesperada de gente que queria morar no clube (ou próximo). Por outro lado, os 24 chalés da pousada também não dão conta dos pedidos de hospedagem aos fins de semana. Então os sócios resolveram enfrentar essas questões das seguintes formas: estudos e conversas com grupos imobiliários para a construção de condomínios no entorno para os que querem morar; e um hotel dentro das dependências do clube para mais associados se hospedarem. 

Então, para coroar essa iniciativa inédita, o Raceville Speed Club recebeu recentemente o selo de membro integrante do Motorsport Club of Clubs, um grupo fechado de clubes automobilísticos privados ao redor do mundo capitaneado pelo alemão Hermann Tilke, maior projetista de pistas do mundo. “E isso é muito legal, porque você vai poder trabalhar o intercâmbio, né? Então quem for sócio do Raceville vai poder desfrutar de outros clubes ao redor do mundo, como o impressionante Magarigawa, no Japão”, explica Clauset. “Mas nenhum desse clubes tem uma cachoeira de 50, 60 metros, que cai numa encosta com o autódromo logo acima. Então é como se essa água toda estivesse passando por baixo do autódromo e caindo na cachoeira. É uma vista impressionante”.

"É uma vista impressionante", Cacá Clauset

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

questão de educação

do segundo semestre de 2023 até o início deste ano de 2026 já colaborei com a Forbes Brasil umas 18 vezes. a primeira foi uma grande reportagem sobre consultorias financeiras e depois se seguiram muitas participações escrevendo perfis em especiais da revista como Under 30, Top Creators, etc. e teve essa ótima entrevista que fiz com Denise Aguiar Alvarez, presidente da Fundação Bradesco, e que foi publicada em abril de 2025 (segue atual, como quase toda entrevista que faço). segue a conversa na íntegra.

Denise Aguiar Alvarez em sua casa [fotos de Marcus Steinmeyer]

O CONSTANTE DESAFIO DA EDUCAÇÃO

Há quase 40 anos liderando a Fundação Bradesco, Denise Aguiar Alvarez quer ampliar o sonho de seu avô de transformar vidas

Uma das primeiras lembranças de Denise Aguiar Alvarez, 67, são passeios de mãos dadas com seu avô, Amador Aguiar, pela Cidade de Deus, bairro de Osasco, Grande São Paulo. Ela tinha por volta de 3 anos e era a primeira neta do fundador do Bradesco (1943) e da Fundação Bradesco (1956), cujas sedes ficam até hoje na Cidade de Deus paulista. Mas o que era extensão da sua casa, um playground diferente, virou trabalho e jeito de ver o mundo depois de tanta insistência do avô. “Ele falava pra todos que iam visitá-lo: essa aqui é a minha neta, ela vai tomar conta da Fundação”, afirmou Denise em entrevista para a Forbes Brasil.

Desde 1986, quando se tornou diretora da Fundação Bradesco aos 28 anos, ela é responsável por levar o sonho de seu avô adiante, capitaneando o maior projeto de investimento social privado do Brasil. Para ser ter uma dimensão do feito, nos últimos dez anos, a Fundação Bradesco investiu R$ 9,5 bilhões em educação – sendo que R$ 894,5 milhões apenas em 2023 e cerca de R$ 1,4 bilhão em 2024. É um orçamento gigantesco espalhado por 40 unidades escolares, presentes em todos os estados brasileiros, e beneficiando mais de 42 mil alunos nos 13 anos da educação básica (sem falar na Educação de Jovens e Adultos e nos cursos de Formação Inicial Continuada). É um sonho grande que Denise faz crescer um pouco mais a cada ano que passa.

 

Antes de chegarmos à Fundação Bradesco, queria saber se você se lembra o que queria ser quando crescer?

Se eu falar você não vai acreditar. 

Pode falar.

Queria ser dona de casa. Eu me lembro falando isso no colégio. Estudei em um colégio de freiras e até elas ficavam olhando e achando um absurdo. 

O que era aspiracional em ser dona de casa?

Acho que era fazer tudo muito bem feito, cuidar muito bem da casa, dos filhos, essas coisas. Mas isso eu era muito menina. Depois, quando já estava no ensino médio, lembro que as professoras pediram para algumas meninas, eu inclusive, irem ao nono ano explicar o que era o ensino médio. Fiquei muito impactada com aquilo, porque a gente chegou lá, e as meninas não deixavam a gente falar. Aquilo ficou muito na minha cabeça, não conseguia parar de imaginar no que aquelas meninas estavam pensando. E isso meio que permeou um pouco a minha vida, porque quando fui fazer pedagogia, o que mais queria estudar era como a criança pensava, como o adolescente pensava. 

Então chega o temido momento da faculdade onde você tem que decidir o que vai ser para o resto da vida...

Foi um horror porque estudei minha vida toda em um colégio só de meninas. E, pasme você, entrei em Ciências Sociais na PUC em 1977, o ano que a universidade foi invadida pelos militares. Era um outro mundo pra mim, concorda? Teve toda essa violência, mas o curso também foi exatamente o contrário do que imaginava. Era professora de sociologia falando que metade da classe não ia aguentar até o meio do ano. Era texto obrigatório em espanhol que ninguém dominava. Era aluno que não deixava professor entrar. Pensava comigo que não ia conseguir sobreviver àquilo. Não tinha ideia do que estava fazendo ali. Então encontrei uma colega da escola e fui com ela ver uma aula do curso de pedagogia. E gostei. Era um curso muito bom. Foi assim, meio aleatoriamente, que cheguei à pedagogia. 

Nessa sua experiência cursando pedagogia, fazendo faculdade, teve alguma coisa que você carrega até hoje? Alguma coisa que te ajudou na sua trajetória?

Não muito, porque era um curso muito teórico, entendeu? Quando me formei decidi que queria muito aprender inglês. Aí, o que fiz? Fui morar em Nova York, morei lá um ano fazendo curso de inglês. Depois fui na Universidade de Nova York, a NYU, procurando algum curso em educação. O cara disse que só tinha mestrado. Eu falei, mestrado? Meu Deus, nunca pensei em fazer mestrado. Na NYU, foi diferente porque era um curso muito mais pé no chão, muito mais da realidade do ensino, da aprendizagem, dos professores. 

Como foi a escolha do que você ia falar no mestrado?

Escolhi exatamente sobre o que mais gosto: infância e ensino básico. Tinha que fazer um trabalho muito grande de pesquisa e fiquei indo, por quase seis meses, a um espaço embaixo de uma igreja perto da NYU. Era um espaço bem amplo, como se fosse uma brinquedoteca, cheio de colchões, e onde as mães iam com suas crianças. Crianças de um ano ou dois. Ia lá e não podia falar, tinha que apenas observar. Juntei essa observação a uma outra pesquisa que estava fazendo sobre a [primatologista e antropóloga] Jane Goodall e foi muito interessante ver as similaridades entre humanos e chimpanzés. E também uma grande diferença: os chimpanzés não batem nos seus filhotes. Esse período da NYU durou quase três dos cinco anos que morei em Nova York. 

Nessa época da NYU, nessa volta, ou mesmo antes, você já estava fazendo alguma coisa no Bradesco?

Sou a neta mais velha, e a vida inteira minha mãe morou vizinha ao meu avô. Então, a gente tinha um contato muito próximo, muito grande. Via meu avô diariamente, e sempre frequentei muito o banco. O banco era uma extensão da minha casa. Então, quando estava no Brasil, meu avô me chamava para vir almoçar aqui e conversar. Se ele tivesse visita, de amigos a ministros de Estado, ele falava, essa aqui é a minha neta, ela vai tomar conta da Fundação. Ele falava isso pra todo mundo. Só respondia: não sei se quero isso, não sei se gosto dessa Fundação. Queria continuar estudando, queria fazer um doutorado na França. E ele insistia, você tem que vir, você tem que vir. Ele insistiu tanto que falei tudo bem, vou ficar um ano aqui na escola, mas com uma condição, não é para ninguém saber que sou sua neta. Realmente ninguém ficou sabendo, só a diretora da escola e a orientadora com quem trabalhava direto. Fiquei um ano e gostei. 

O que você fazia?

Fiquei na pré-escola e educação infantil. É uma escola muito grande. Pra você ter uma ideia, na educação infantil tem 420 crianças. E eu fazia de tudo. Cheguei a levar criança em ambulatório porque tinha se machucado, ajudava na cozinha, arrumei um dia o gás, ajudava ou substituía professoras. E aí um dia cheguei para a orientadora, que é minha amiga até hoje, falei, escuta, eu podia fazer um trabalho com as crianças que estão um pouco mais atrasadas? Ah, pode fazer o que você quiser. Então reunia essas crianças, ficava com elas, conversando, acompanhando, e em um mês elas já estavam iguais a todo mundo. Tinha que prestar muita atenção em cada criança, e procurar entender qual era a questão com cada uma. E daí, depois que fiquei um ano, meu avô virou para mim e falou, então você vai ficar né. E já me deu o cargo que tenho até hoje. 

Você entrou oficialmente na Fundação Bradesco em 1986. Tinha por volta de 28 anos. Como foi, de repente, estar com um cargo importante numa fundação que já tinha três décadas de existência. Como foi esse começo?

Ninguém precisou me falar, mas tinha total noção que ia ser muito difícil, porque era neta do fundador e porque era mulher. Agora, em educação, tem uma questão que é mais difícil ainda. Quando a pessoa é nova, eles acham que você não sabe nada, porque, em educação, conta muito a experiência que a pessoa tem, entendeu? Então, você imagine que na década de 1980, eu com essa idade, tomando conta disso tudo, ninguém dava a bola. A pessoa já entrava na minha sala falando que a idade que eu tinha era o tempo que ela trabalhava na Fundação. 

Teve algum momento nesse início que te deu certeza do que estava fazendo?

Olha, não sei se teve um momento porque demorou, sem brincadeira, uns 20 anos. Todo mundo via que eu tinha mais conhecimento, mas para entenderem ou acreditarem que ia dar certo o que estava propondo, isso foi demorado. Mas olha, vou falar para você, nunca fiquei batendo de frente, nunca. Digamos que tenho bastante paciência. 

Mas 20 anos é bastante tempo mesmo com tanta paciência...

Sabe em quem pensava? Nos alunos. Penso neles sempre, até hoje. E sempre tive muita noção da importância do meu avô nessa instituição e no porquê ele tinha me colocado nela. Isso meio que me norteou a permanecer na Fundação até hoje. 

E porque você acha que seu avô te colocou na Fundação Bradesco?

Acho que ele me conhecia melhor do que eu mesma. 

O que pessoalmente te dava a certeza de que, uma hora, você seria compreendida e respeitada?

Olha, eu me comprometi com meu avô a assumir isso, entendeu? Isso ficou comigo e não voltaria atrás. Pode vir todo mundo aqui fazer o que for que não iria desistir. Sou muito focada e tenho muito compromisso com o que falo. Tudo isso me dava essa certeza. 

Como você acha que, em seu início dos anos 1950, a Fundação Bradesco via a educação? E como via nos anos 1980, quando você entrou? E agora? Houve alguma transformação nesse entendimento sobre educação?

Porque meu avô teve essa ideia da Fundação? Porque era um momento onde não tinha escola pública para todas as crianças no país. Por isso que ele começou com essa coisa de colocar escola onde não tinha, tipo no interior do Pará, em Tocantins, uma escola fazenda no meio do Mato Grosso do Sul. E escolas de qualidade, de alto padrão. Depois veio a universalização da escola, da educação para todas as crianças brasileiras, mais ou menos na década de 1980. Em termos curriculares não mudou muito não porque o maior desafio foi sempre manter a qualidade educacional e a infraestrutura das nossas escolas que, invariavelmente, ficam em lugares distantes. Atualmente temos 40 escolas espalhadas em todos os estados brasileiros e continuamos mantendo o foco em educação de qualidade.

No ano que vem [2026], a Fundação Bradesco completa 70 anos, então é uma instituição sólida, uma máquina bem azeitada. Você consegue ver alguma coisa no futuro que seja um desafio para essa estrutura educacional de vocês?

Olha, vou falar para você que acho que o grande desafio não é para a Fundação, é para o país todo, e é sobre a qualidade desses profissionais que estão na linha de frente nas escolas, entendeu? E a qualidade desse profissional, ao longo desses muitos anos que estou na Fundação, acho que não melhorou muito. Esse é um grande desafio para o Brasil: investir na formação do professor. Sem falar que em um país tão grande é preciso saber lidar com inúmeras diferenças culturais. A verdade é que trabalhar em escola é um desafio. Porque vai muito além de ensinar língua portuguesa e matemática. Implica nas relações interpessoais e pessoais dos alunos entre si. E o professor, o orientador, todo mundo que está na escola, tem que estar muito alerta para isso. Com o tipo de aluno que a gente atende, muita coisa vem à tona na escola, sabe? É incrível como tudo o que acontece de abuso, de agressão, de tudo na casa, o aluno leva para a escola e conta. Ele pede socorro. Então, eles veem a escola da Fundação Bradesco como um lugar seguro.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

o mundo é um bordel

mais três textos pra edição de fevereiro da Revista Monet. os que fiz sobre Amanda Seyfried e Sydney Sweeney, a dupla protagonista do thriller A Empregada, mas acho que não vou colocar por aqui não. prefiro o que fiz pra Dona Beja, nova novela brasileira da HBO, que tem entrevistas com um dos roteiristas (António Barreira) e um dos amores de Beja (David Júnior). não consegui falar com Grazi Massafera porque ela está trabalhando sem parar na novela global das 9 que está no ar agora (As Três Graças).

SENHORA DE TANTOS AMORES

Grazi Massafera é a nova encarnação da sensualidade e dos dramas de Dona Beja, figura lendária e real do Brasil Império, em novela na HBO Max

Ana Jacinta de São José não veio ao mundo a passeio. Ela amou e foi desprezada, enriqueceu e sofreu abusos de todo tipo, foi temida e desejada, criou uma família aos trancos e barrancos e comandou a política de sua cidade diretamente de um bordel. Tudo isso nas Minas Gerais do Brasil Império. Ana Jacinta, mais conhecida como Dona Beja (1800-1873), é até hoje uma lenda muito viva em Araxá (MG). Então, quarenta anos após sua primeira encarnação na TV, interpretada por Maitê Proença na extinta TV Manchete, Dona Beja renasce e ganha novo corpo em Grazi Massafera na segunda novela brasileira da HBO Max. 

Escrita por Daniel Berlinsky e António Barreira, Dona Beja terá 40 capítulos e tem como base os livros Dona Beja: A Feiticeira do Araxá de Thomas Othon Leonardos e A Vida em Flor de Dona Beja de Agripa Vasconcelos. Além, claro, da novela Dona Beija, um grande sucesso em 1986 que transformou Maitê Proença em sex symbol nacional. A atriz, aliás, foi uma das que melhor definiu a trajetória da personagem que interpretou. 

“Antes de completar 15 anos, Beja já era vista como uma ameaça para as damas da sociedade por conta da beleza extraordinária. Não conseguiram enxergar a menina, mas sim uma mulher feita e perigosa. O ouvidor do rei, Dom Joaquim Inácio, ‘apaixonado’, a sequestra e a mantém como sua amante por dois anos. A família, humilde, se viu impotente para recuperá-la das garras de um homem tão poderoso. E ela só volta para casa quando o ouvidor retorna a Portugal. Em Araxá, em vez de vítima, a menina foi tratada como uma sedutora, depravada. Machucada, a Beja vira a mesa e passa a dormir cada noite com o homem de sua escolha. Toma-lhes joias e muito dinheiro, tem filhos com eles. E assim, graças à inveja e ao desejo dos tortos, ela constrói fama, família e fortuna. Tanto fizeram que ela virou mulher rapidinho e soube se vingar”, disse Proença em vídeo de uma série chamada ‘Mulher de Fibra’ que fez para suas redes sociais alguns anos atrás. 

POR ELA SONHAM OS HOMENS

Barreira, um dos roteiristas da nova Dona Beja, é português e destrinchar a história brasileira, e suas relações íntimas e conflitantes com Portugal, foi um desafio à parte. “Isso me obrigou a realizar a maior imersão cultural da minha vida. Precisei entender profundamente o Brasil contemporâneo para, então, compreender o Brasil de duzentos anos atrás. E não apenas a história ensinada oficialmente nas escolas, mas também em narrativas menos difundidas, documentadas, que oferecem outras perspectivas sobre o mesmo período histórico. Esse mergulho cultural me transformou profundamente”, explicou. 

Mas a princípio, o maior desafio dos roteiristas era o de colocar uma história ambientada no século 19 em diálogo com a sociedade contemporânea deste século 21. Barreira viu que, infelizmente, essa expressiva distância temporal não era um abismo tão grande assim, afinal de contas, “ao olhar para o passado, percebemos que muitos conflitos permanecem presentes no cotidiano atual. Bastou, portanto, enfatizar determinados elementos já existentes na trama original para que ganhassem contemporaneidade. Por exemplo, Dona Beja apresenta uma forte jornada de empoderamento feminino. Em uma sociedade que ainda carrega traços machistas e patriarcais, Beja pode ser vista por muitos como uma transgressora. No entanto, ela é, sobretudo, uma mulher que se tornou dona de si, que seguiu seus desejos e não se curvou às imposições masculinas. Sua história revela a hipocrisia da sociedade em que estava inserida — uma hipocrisia que, em muitos aspectos, ainda persiste. O passado, portanto, segue presente”.


QUEM A BEJA, BEIJARÁ?

Os principais interesses românticos da personagem de Grazi Massafera em Dona Beja são Antônio Sampaio e João Carneiro de Mendonça. Interpretados por Gracindo Júnior e Marcelo Picchi na novela dos anos 1980, agora estão sob a responsabilidade de David Júnior e André Luiz Miranda, respectivamente. Mas o fato de ambos serem negros e não escravizados, e isso muito antes da abolição da escravatura em 1888, gerou uma série de questionamentos na época do lançamento do primeiro teaser da novela. 

Já preparado para tais perguntas, Barreira tem a resposta na ponta da língua. “É que grande parte dos brasileiros aprende que a liberdade dos negros só se deu com a Lei Áurea. No entanto, obras como Escritos de Liberdade, da historiadora Ana Flávia Magalhães Pinto, revelam a presença significativa de homens negros livres e influentes na sociedade brasileira da primeira metade do século 19. Censos da época também apontam uma estrutura social diversa em Minas Gerais, onde se passa a novela, com negros livres atuando como advogados, comerciantes, intelectuais e líderes comunitários”, afirma o roteirista. 

Essa particularidade de Minas Gerais pode ser explicada pela exploração do ouro, pois foi desta forma que muitos negros conseguiram comprar sua própria alforria e a de outros, estabelecendo assim comunidades negras livres ainda no Brasil Império. Dona Beja quer, segundo seus autores, convidar o público a ampliar seu olhar sobre o passado só que com fundamento histórico. “Mas a novela também aborda o racismo dentro das próprias famílias, as hierarquias sociais e as violências sutis sofridas por negros livres que ousavam ocupar espaços reservados à elite branca”, diz Barreira.

Com essa premissa instigante, David Júnior, que interpreta Antônio Sampaio, ficou entre o surpreso e o empolgado com o convite. “Dar vida a um corpo preto numa novela de época, montando a cavalo ao invés de puxá-lo, e ocupando lugares de poder, o que nas novelas dos anos 1980 só eram lugares de subserviência, alimentou minha paixão pelo nosso ofício de uma maneira única”, relembrou Júnior. 

Detalhe: o ator, que foi par romântico de Grazi Massafera na novela Bom Sucesso (2019), já filmou cenas tórridas com Maitê Proença na novela Liberdade, Liberdade (2016). Dizem que de Dona Beja ele entende. Quem há de discordar?

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

tem brasileiro no k-pop

acho que teria assistido Guerreiras do K-Pop de qualquer forma porque gosto muito de animação, mas o fato de ter uma filha que amou e ficou obcecada pelo filme, pelas personagens e pela música, acrescentou uma dose extra de interesse e carinho por tudo. nem lembro mais quantas vezes assisti o longa e ouvi as músicas. e adorei todas as vezes. 

lá pelas tantas decidi que teria que monetizar isso de alguma forma e tentei emplacar algumas pautas relacionadas que mandei pra BBC Brasil. primeiro pensei em falar com as dubladoras brasileiras, mas não houve interesse. depois lembrei que o compositor da trilha sonora (não das canções) é uma brasileiro radicado nos EUA, o paulistano Marcelo Zarvos. recebi sinal verde e marquei as entrevistas. foram duas via zoom porque tinha muito assunto pra falar, tanto sobre o fenômeno das Guerreiras, mas também sobre sua carreira, o início ao lado de Supla e os filmes que fez com gente das mais alta qualidade como Todd Haynes, Antoine Fuqua, Denzel Washington, Barry Levinson, Susan Seidelman, Robert De Niro, Jodie Foster, Bruno Barreto, etc.

só que logo percebi que a BBC Brasil perderia o interesse quando soubesse que Zarvos chegou no final do processo e sem participação nos hits (aliás, quem não ouviu "Golden" em 2025 não estava vivo). dito e feito. ainda tentei emplacar em outros veículos, mas a pauta tinha ficado "velha". então editei por conta e publico aqui no Esforçado porque ninguém falou com o Zarvos aqui no Brasil e a conversa foi muito boa.

Marcelo Zarvos em seu estúdio em Nova York

GUERREIRAS DO K-POP

Como surgiu pra você o projeto do Guerreiras do K-Pop?

Foi, na verdade, o convite veio pelo estúdio que estava produzindo, a Sony. E eu estava há anos querendo fazer uma animação. Já fiz muitas trilhas, mas nunca tinha conseguido fazer uma animação. E apareceu o Guerreiras do K-Pop. Eles me ligaram, estavam precisando de uma pessoa meio que urgente pra entrar e fazer o projeto. Por uma razão ou por outra eles não conseguiram o que queriam dramaticamente na trilha, então me chamaram. Mas não tive nada a ver com as canções, elas já estavam prontas. Fiz a trilha sonora, a trilha dramática, digamos assim, onde acabei incorporando um pouco das canções. Mas foi uma coisa muito rápida. Assim, animações geralmente demoram anos, né? Eles estavam desenvolvendo esse projeto há mais de sete anos. E eu entrei, conheci eles todos em dezembro, já no final, quer dizer, foi muito, muito rápido. Trabalhei durante seis semanas em Londres, gravando, foi uma coisa louca... acontece isso de receber as coisas de trilha sonora meio que na última hora. Foi uma pauleira, mas uma daquelas que valeram muito mais que a pena. Porque fiquei muito atraído pela história. Realmente é uma história de super-heróis, mas o grande poder delas é a música. E contada pelo ponto de vista feminino, de verdade, não aquela coisa oportunista de que poderia ser um homem e nada mudaria. É um filme de super-herói feminino, assim, profundamente. 

E quando te chegaram com a proposta do filme, qual era o briefing?

A grande estrela do filme é a música K-Pop, que é um gênero que conheço razoavelmente. Não é que seja uma pessoa que ouço K-Pop minha vida inteira, mas é uma indústria muito grande no mundo inteiro, inclusive no Brasil. É um fenômeno musical muito interessante, muito específico, mas que obviamente tem uma grande influência do pop americano. Mas o briefing era explorar o poder do K-Pop, o poder artístico, emocional, dramático do K-Pop. E, como sempre faço nas histórias que trabalho, tento sempre pensar da maneira mais universal possível. Embora, obviamente, K-Pop seja uma coisa coreana, sempre também procuro ver, ao mesmo tempo, o que é universal no projeto. E eu tento entrar dramaticamente por isso. Acho que a música, e, nesse caso, a trilha sonora, que não são as canções, às vezes está usando elementos do K-Pop, mas, muitas vezes, é uma trilha mais tradicional, de uma certa maneira, uma trilha orquestral, com coisas dramáticas, emocionais ou comédia. Busco ir para esse lado de como você vai atrair pessoas que talvez não conheçam o K-Pop. Acho que o poder da história está na música, mas também está no poder dramático das personagens, como elas são construídas e como elas estão falando para a gente como seres humanos. 

Então as canções já estavam prontas quando você entrou...

Totalmente prontas, sim. Todas prontas. Porque a animação, especialmente quando o pessoal está cantando, a animação demora muito tempo. Quando comecei, a animação estava, vamos dizer, 80% lá. É um processo muito, muito demorado e mesmo uma animação que tem um estúdio por trás e toda a infraestrutura e o orçamento que tem um filme desses, demora muito. Foi incrível ver como até o final, quando a gente gravou a minha música, ainda tinha uns 20% para terminar da animação. Mas as canções já estavam prontas porque os animadores precisavam delas pra fazer a sincronia com as bocas, os movimentos. 

Bom, você entregou seu trabalho, seis semanas na batalha, entregou... E aí você só foi saber do filme quando lançou? Ou você chegou a ver alguma coisa antes?

Quando a gente termina a música, tem ainda a mixagem do filme inteiro, que é onde os últimos ajustes são feitos no som e na música. Mas mesmo ali a animação ainda não estava pronta. Assisti pela primeira vez o filme pronto, acho que em maio, junto com amigos e familiares. Não era ainda alguma coisa aberta. O filme só foi sair no final de junho. Mas logo ali percebi que a reação das pessoas estava muito forte. Pessoas que nunca tinham visto esse filme ficavam muito empolgadas... e não só crianças. Isso foi interessante. Por outro lado, minha esposa sempre fala que quando trabalho em um filme eu visto a camisa, digamos assim, de uma maneira bem forte. Mas achei mesmo que as pessoas iam curtir. 

Então você já tinha uma expectativa...

Sim, mas a Netflix não fez um marketing tão grande para o filme. Eles fizeram um marketing ok, e acho que a princípio todo mundo fichou achando que era só mais uma animação da Netflix. As crianças vão ver, os pais vão ver. Legal. E aí semana que vem tem um próximo. Só que foi crescendo. Foi um negócio muito interessante, porque foi realmente viral. Tenho filhos de 13 e 15 anos, e eles começaram a ver muita coisa no TikTok. Realmente foi uma daquelas surpresas que cada vez vai subindo mais. Não para de aumentar, né? [500 milhões de visualizações de junho de 2025 a janeiro de 2026]

 

Sim, ainda não parou. Teve um boca a boca viral que o transformou no filme mais visto da história da Netflix e suas músicas todas entre as mais tocadas da Billboard. Como você acha que aconteceu esse crescimento?

O que está acontecendo é que o filme se tornou um disco que as pessoas tocam e fica rodando. E realmente, uma das coisas que me atraiu muito no filme, quando vi, foram as canções. Especialmente “Golden”. Lembro que quando ouvi “Golden”, pensei que ela ia muito além do K-Pop, porque juntaram com uma coisa de musical mesmo. E a melodia de “Golden” é dificílima de cantar. As músicas são muito difíceis e isso também me atraiu no começo. Quando comecei a trabalhar fiz de uma maneira um pouquinho diferente do que costumo fazer. Escrevi a trilha inteira sem usar as canções e daí, quando a trilha estava emocionalmente certa e os diretores, pô, legal, a gente começou daí a incorporar as canções, as melodias, em certos lugares bem estratégicos, dentro da trilha, e virou uma coisa quase meio operática, de uma certa maneira, porque dentro dessa trilha incidental você tem o DNA e certos pedacinhos da melodia que vão aparecendo aqui e ali. Pensei, pô, legal, a gente está fazendo isso, ninguém nunca vai reparar, mas os fãs reparam em tudo. 

Marcelo Zarvos (centro da foto, ao lado de Supla) na formação original da banda Tokyo dos hits "Humanos" e "Garota de Berlim"

O INÍCIO EM SP, O REEINÍCIO NOS EUA

Queria voltar um pouco para a tua origem. Você foi estudar música nos Estados Unidos bem jovem. Você está aí há muito tempo, né?

Vim com 18 anos para estudar música. Mas comecei profissionalmente na música antes, em São Paulo mesmo, no grupo Tokyo do Supla. Já tocava piano desde os 11 anos, mas rapidamente entrei no negócio de rock. Fazia parte do grupo, escrevia uma grande parte das músicas junto e gravei os dois primeiros e únicos discos do Tokyo [Humanos de 1986 e O Outro Lado de 1987]. No primeiro disco, a gente saiu em turnê, fez aquele negócio com a Nina Hagen [“Garota de Berlim”, 1986], ia no Chacrinha e foi uma experiência incrível. Quando terminei o segundo disco estava com 17 anos e falei logo que não queria sair em turnê. Percebi muito cedo que adorava compor, adorava gravar, mas detestava os shows, as viagens, tocar a mesma coisa todo dia. Então sempre pensei em sair do Brasil para estudar música. Pensando agora que tem uma parte da minha música que tem muito a ver com sintetizadores e música eletrônica, e vem desse negócio dos anos 1980 com o Tokyo. A gente nunca esquece nosso começo, nossas primeiras influências.

E como foi esse começo nos Estados Unidos?

Antes de vir pra cá, saí do grupo e estudei um ano bem forte para conseguir entrar em alguma das faculdades que queria. Fui primeiro pra Berklee, em Boston, e depois pra CalArts, na Califórnia, onde realmente fiz minha graduação. Minha ideia foi sempre estudar trilha sonora, mas quando cheguei achei que era muito cedo, que precisava de mais comida musical, sabe? Precisava me alimentar de mais coisas. Fui, oficialmente, como pianista clássico, mas sempre compus e tocava também jazz e música brasileira. Então fui estudando e tocando, estudando e tocando, porque achei que chegaria naturalmente no caminho da trilha sonora. Acabei fazendo minha primeira trilha praticamente 10 anos depois que vim para os Estados Unidos, e foi com um filme brasileiro, o Uma História de Futebol, do Paulo Machline, um grande amigo meu. É um curta, foi lançado em 1998, e foi um sucesso enorme, foi para o Festival de Brasília, e até ganhei um prêmio. Na verdade, acho que até hoje é o meu único prêmio de música [risos]. Tenho o Calango até hoje no meu estúdio. O filme chegou a ser indicado ao Oscar de curta, foi uma coisa incrível. Dali começou minha carreira no cinema. 

Pensando que desde o início sempre foi um objetivo seu o de fazer trilha sonora... qual era seu interesse?

Antes de qualquer coisa, eu realmente amo cinema e amo cinema desde antes de amar música. Fui um mini cinéfilo, literalmente, e gostava de ficar falando, conversando com as pessoas. Minha família ficava até preocupada. Aquele negócio de você sentar e ver um filme, aquele ritual e aquela experiência, é uma coisa muito visceral para mim. Depois me apaixonei por música e foram dois os principais motivos: número um, Beatles; e número dois, as trilhas sonoras da minha infância, especialmente dos anos 1980. Tinha a do Blade Runner, porque adorava aquelas coisas do Vangelis, e obviamente as trilhas que o John Williams fazia para os filmes do Steven Spielberg. Mas o que mais gostava eram as coisas mais eletrônicas, me apaixonei por isso, tipo Jean-Michel Jarre, Tangerine Dream, Kraftwerk... adorava aquela coisa mecânica, mas com aquela estética bem eletrônica e, ao mesmo tempo, muito emocional. Fui percebendo então que as trilhas sonoras permitiam uma mistura de estilos muito grande. Então você ouvia, de repente, uma trilha com orquestra, mas tinha uma coisa de rock no meio e, de repente, uma coisa eletrônica e, de repente, virava uma coisa africana e isso me atraía muito e fazia muito sentido na minha cabeça. 

AS PRIMEIRAS TRILHAS SONORAS 

Mas você não tentou fazer algo antes de Uma História de Futebol?

Ah, sempre brinco que a primeira trilha sonora que fiz foi uma introdução para os shows do Tokyo. Ficava tudo escuro e fiz uma introdução de teclado, sintetizadores, que era uma coisa dramática, e foi a primeira vez que senti o poder da música instrumental. Porque a trilha sonora é, com poucas exceções, uma coisa instrumental, sem palavras, sem canções, mas que mexe com as pessoas de uma certa maneira. Lembro dessa experiência muito bem porque a primeira vez que fiz essa música em particular, a gente estava abrindo para um show da Nina Hagen no Ibirapuera. Depois fui falar com os músicos da banda dela, eles gostaram do clima, gostaram dessa coisa meio assim dramática, um pouquinho “scary” e tal. Foi aí que percebi que o que queria realmente era fazer era criar essas camas dramáticas, esses climas, né? Nesses anos antes de começar realmente com as trilhas, fiz muita música para companhias de dança em Nova York. Já era uma coisa mais próxima à trilha de cinema. Então veio a oportunidade de Uma História de Futebol e realmente consigo traçar tudo o que fiz em cinema a partir daquele primeiro curta que fiz com Paulo Machline. 

Olhando sua filmografia, Uma História de Futebol é do final dos 1990, né? Mas seu primeiro longa é Beijando Jessica Stein?

Não foi o primeiro, mas foi o primeiro que fez sucesso. Sim, está. O primeiro longa que fiz saiu em 2000 e se chama Tully. Foi também como conheci o meu maior colaborador, e um cara que é um gênio. Acho que no Brasil as pessoas estão começando a se ligar quem é Affonso Gonçalves, também brasileiro que mora aqui, mas ele é montador. Ele editou Ainda Estou Aqui do Walter Salles e o filme do Jim Jarmusch que ganhou Leão de Ouro em Veneza, Father Mother Sister Brother, também foi ele que montou. Ele trabalha bastante com o Jarmusch e com o Todd Haynes. No início de 2000, o Affonso estava montando um filme chamado Tully, um filme independente americano, e ele me viu tocando, naquela época ainda tocava bastante jazz, e ele me viu tocando num programa que teve nos anos 1990, do João Marcello Bôscoli, que chamava Companhia da Música. Era um programa na TV Cultura e eu conhecia o João de garoto, a gente tocou de brincadeira em umas bandas antes do Tokyo surgir pra mim. João me chamou para tocar uma música minha, mencionou no programa que morava em Nova York, e o Affonso viu. Ele estava trabalhando nesse filme e passou meu nome para a diretora [Hilary Birmingham], que me mandou um e-mail do nada. Na mensagem ela nem mencionou que o Affonso tinha falado de mim, que também era brasileiro. Bem, eu nem conhecia ele. Aí trabalhamos em Tully; The Mudge Boy [O Despertar da Adolescência, 2003, de Michael Burke], que foi para o Festival de Sundance; The Door in the Floor [Provocação, 2004, de Tod Williams]; que foi meu primeiro filme de estúdio, tinha Jeff Bridges e Kim Basinger no elenco, pude usar orquestra; e, mais tarde, ele me levou para trabalhar com Todd Haynes e fizemos juntos Dark Waters [O Preço da Verdade, 2019] e May December [Segredos de um Escândalo, 2023]. O Affonso foi meio que um anjo da guarda, colaborador e chapa amigo do peito. Devo minha carreira a ele a ao Paulinho [Machline]. Eles me abriram portas, não é? Muitas portas. O cinema depende muito disso. 

Mas, voltando à sua filmografia, fiquei muito impressionado com o tanto de coisa que você fez nesses 25 anos desde Tully. Tem ano com quatro ou cinco filmes lançados com trilha sua. É possível ver tanto um crescimento em quantidade de trabalho quanto em qualidade, já que você começou a trabalhar com gente bastante conhecida como Denzel Washington, Antoine Fuqua e Todd Haynes. Como você foi, com o perdão do trocadilho, trilhando esse caminho?

Acho que não tem muito como planejar esse caminho. Você quer trabalhar, você quer fazer o que gosta de fazer, mas não dá para direcionar. As coisas vão acontecendo. 

MAIS TRILHAS, NOVAS COLABORAÇÕES

Então, o que geralmente te chama para cada projeto?

Minha filosofia é que, quando você entra para fazer a trilha de um filme você faz parte do elenco, mas você é um ator invisível, e você pode, às vezes, estar fazendo coisas super sutis lá atrás, ou, de repente, você está na frente, aparecendo muito, como foi o caso de Segredos de um Escândalo, do Todd Haynes. Tem sempre uma influência, que pode ser desde muito mínima, efêmera e super delicada, até uma coisa muito na sua cara, muito dramática. Mas, para mim, o desafio é sempre entender o que é o projeto em si. Um dos grandes diretores com que trabalhei muito cedo na minha carreira, e foi uma sorte grande, foi o Barry Levinson [de Rain Man e Bom Dia, Vietnã – Zarvos fez a trilha de cinco filmes do diretor: Fora de Controle, You Don’t Know Jack, Incidente em Claridge, O Último Ato e Rock em Cabul]. E o Barry sempre falava assim, ‘você precisa ouvir o que o filme está te dizendo, porque o filme vai cuspir todas as músicas que não quer’. Com o Barry realmente aprendi muito essa coisa de você não ter medo de experimentar e tentar coisas malucas, e tentar coisas diferentes, porque no final é uma sinergia, não é só a música, não é só o filme. Você pode ter uma cena fantástica que, com a música certa, vai ficar melhor ainda. Você pode ter uma música fraca que com a cena certa vira uma superpotência. E o que eu sempre procuro é isso, é como trazer essa experiência emocional, e pode ser emocional, não só triste, que é o que as pessoas às vezes pensam, mas pode ser uma coisa de comédia, pode ser uma coisa de medo, uma coisa de fantasia, como o Guerreiras do K-Pop, mas é sempre procurando aquela fórmula, e não é uma fórmula, porque cada filme é diferente, mas aquela alquimia, digamos, que vai acontecer. Mesmo hoje em dia, tendo trabalhado com vários diretores, não fica mais fácil. Toda vez a gente começa do zero. Mas tive sorte também de não fazer só um estilo. Tully é um filme dramático, indie, bem triste, daí o Beijando Jessica Stein é uma comédia romântica, então gosto desse desafio. Agora, com mais 25 anos de carreira fui fazer minha primeira animação, que era uma coisa que queria muito fazer. Ainda tem várias outras coisas que adoraria fazer. 

Tiveram alguns cineastas que você trabalhou mais de uma vez, né? O Antoine Fuqua, o Todd Hayes, o Barry Levinson. Imagino que cada trabalho tenha um ponto de partida diferente, tem uma demanda diferente, cada diretor tem um estilo diferente de lidar com a trilha e de falar com você sobre a trilha. Como você definiria essas suas colaborações mais recorrentes?

Tem uma coisa muito boa de você trabalhar com uma pessoa várias vezes é que você já conhece o estilo e tem aquela linguagem que você vai desenvolvendo. Mas, ao mesmo tempo, acho que como o diretor sente a pressão neles próprios de, pô, eu tenho que fazer uma coisa diferente, não dá para ser a mesma coisa, tenho que estar me renovando, então você tem que ir nessa também com a música. Eu tento sempre pensar nos projetos como, assim, estamos começando de novo mesmo. Mas a ideia é sempre você tentar entrar na verdade dramática do projeto específico. Então, por exemplo, com o Antoine Fuqua tem dois tipos de projetos diferentes. Tem os dramas policiais como O Protetor: Capítulo Final e também documentários, alguns sobre esportes. Então a gente desenvolveu uma linguagem de esportes bem diferente do que a gente fez para os dramas policiais. Mas agora, por exemplo, estou trabalhando com ele num documentário sobre o Mandela, que é um documentário histórico, uma coisa que, na verdade, de uma certa maneira, é mais próximo do que a gente fez no Emancipação. É importante acentuar uma coisa ou outra, mas os grandes diretores com quem trabalhei eles estão interessados no que está por trás. O que eles têm em comum é que eles não querem que a música simplesmente fale, olha, aqui o cara está chorando, então vamos fazer uma coisa triste. O Todd Haynes, por exemplo, é um cara extremamente sofisticado e num projeto como o Segredos de um Escândalo, a música é uma coisa super chocante, mas mesmo assim ela está lidando com o que está por trás das cenas. Tem uma cena do filme que a Julianne Moore abre a geladeira e tem aquela música super dramática. Ela não vê nada demais na geladeira, mas com a música super dramática ele quer dizer que a personagem é muito mais instável do que aparenta, e a música está lembrando a gente o tempo inteiro que o que você está vendo ali não é exatamente o que a história é. Mas o grande desafio, pra responder à sua pergunta, é entrar na realidade específica do projeto. Quero que as pessoas lembrem da música que faço para os filmes não só pela melodia, ou o tema, mas também o que a música estava fazendo e como a música funcionava. E a gente está sempre repensando esse relacionamento. 

Tem outra coisa que percebi na sua filmografia, e isso obviamente pode ser apenas uma coincidência, é que você trabalhou com mas tem vários atores/atrizes diretores(as). Robert De Niro, Jodie Foster, Denzel Washington, Eva Longoria...

Interessante você falar isso. Sempre quis que alguém me fizesse essa pergunta e você é a primeira pessoa que fez... porque, realmente, isso foi uma coisa muito, muito marcante pra mim. Eu adicionaria outra pessoa, que não costuma ser lembrada, e que foi uma das pessoas com quem comecei, que é a Jennifer Westfeldt. Ela escreveu e protagonizou Beijando Jessica Stein e depois fiz o primeiro filme dela como diretora [Solteiros com Filhos, de 2011]. Mas, obviamente, começando com De Niro. Foi ele que me ensinou como a música pode afetar a performance de um ator porque ele sabe o poder da música. A diferença entre uma coisa virar melodramática ou uma dramática boa é a música. Muitas vezes o ator está fazendo a mesma coisa. Então, realmente, a gente passou muito tempo esculpindo. O Bom Pastor [lançado em 2006, foi o segundo longa dirigido por De Niro] é, até hoje, um dos maiores filmes que trabalhei em termos de orçamento. Tive uma orquestra enorme, muito tempo nas mãos, e o De Niro ficava tirando coisas. Ah, não, tira isso, tira aquilo, tira aquilo. E eu, às vezes, assim, falando, pô, mas o que vai sobrar? Será que vai sobrar alguma coisa? No final vi como ele estava realmente vendo como um todo, e ele, como ator, sabia que, pô, se essa música for muito pesada ela vai sugerir uma interpretação para o espectador que talvez não esteja na atuação. Aprendi muito, mas não tive coragem de falar que me tornei compositor por causa de três filmes que ele atuou: Taxi Driver [trilha de Bernard Herrmann], O Poderoso Chefão 2 [trilha de Nino Rota] e A Missão [trilha de Ennio Morricone]. 

Com Denzel Washigton já são dois filmes, né? Um Limite Entre Nós, de 2016, e Um Diário para Jordan, de 2021...

Quando trabalhei com o Denzel a primeira vez foi em Fences [Um Limite Entre Nós], filme baseado em uma peça de teatro muito famosa do August Wilson, que é uma espécie de Shakespeare americano. O Denzel dirigiu e era protagonista junto com a Viola Davis. E eram basicamente os dois, então ele criou uma coisa muito mínima. A primeira música da trilha só aparece já com uns 30 minutos do filme. Eu, obviamente, já tinha mais experiência, mas ele me trouxe mais para dentro do processo. Via na sala de edição ele estava cortando e como ele via a própria interpretação dele. Isso foi uma coisa fascinante. Ver um mestre ator refinando sua própria performance, e que já era uma performance perfeita... não, a gente vai ficar mais cinco frames aqui, daí não sei o quê, e a música... E como era sutil, e como fazia a coisa ficar mais forte com menos. O grande negócio do Denzel, e que diria também do De Niro, era que eles têm maneiras diferentes de falar que menos é mais. O De Niro chama isso de “restrain intensity”, uma intensidade contida. Sempre penso muito no De Niro e no Denzel, em tudo que faço. O que eles achariam disso que estou fazendo? [risos] 

O seu primeiro trabalho com trilha foi lá atrás com o Paulo Machline. E depois você só teve mais duas colaborações com um cineasta brasileiro, o Bruno Barreto... enfim, até agora você fez pouca coisa aqui no Brasil. O que acha disso?

Posso dizer que isso é uma das minhas grandes frustrações. Gostaria muito, tem muitos diretores brasileiros que admiro como o Walter Salles, o Fernando Meirelles e o Beto Brant e, sei lá, ainda não aconteceu. Sempre estou aberto, sempre estou curioso do que está acontecendo. Acho que tem coisas fantásticas acontecendo, tanto no cinema como na TV. Acho que a TV brasileira deu um pulo muito grande quando entraram os streamings. Tem muitas séries bacanas e diretores geniais. Mas, enfim, passei quase 25 anos querendo fazer animação e acabei finalmente fazendo, então, se Deus quiser, vou ter uma chance de trabalhar com diretores brasileiros. Vai chegar a hora. Quanto ao Bruno Barreto, eu o conheci pela primeira vez quando fui chamado para trabalhar de assistente do Eumir Deodato no filme Bossa Nova [2000]. Acabei escrevendo umas três músicas do filme, nem tive crédito, mas era uma coisa normal porque, às vezes, como assistente você escreve uma coisinha ou outra. Foi bem legal. Anos depois ele me chamou para fazer a trilha de Última Parada 174 [2008] e depois Flores Raras [2013]. Admiro muito o Bruno, ele fez coisas incríveis e tem um controle do cinema muito grande. 

TRABALHO AUTORAL 

Falando um pouquinho do seu trabalho autoral. Como se dão essas composições mais eruditas, com formações pequenas, de câmara, em meio às funções todas da vida e das encomendas e trabalhos? Como ele vai surgindo para você e como você compararia, se é possível comparar, o seu trabalho autoral com o seu trabalho de trilha sonora?

Olha, para mim é tudo uma coisa só e uma informa muito a outra. Comecei a fazer música de olho em histórias, sempre fui interessado nisso. Logo que me mudei para Nova Iorque gravei três discos, mas a gravadora tem uma coisa com alta resolução e eles se recusam a colocar os discos em streamings, então, infelizmente, essas gravações só existem em CD, o que é uma pena porque essas gravações foram meu laboratório de pesquisa. É uma coisa meio música de câmara brasileira com jazz. Um deles se chama Labyrinths [1999] e foi inspirado na obra do escritor Jorge Luiz Borges. Aliás, muito da minha música autoral vem da literatura, como por exemplo “Nepomuk’s Dances”, que fiz para um espetáculo de dança, e é inspirada em um personagem do livro Dr. Fausto de Thomas Mann, e “Olga Benário”, que fiz depois de ler Olga, o livro maravilhoso de Fernando Moraes. Então, quer dizer, história e música sempre foram uma coisa só pra mim. Falando em dança, também considero o trabalho que fiz para a dança tão autoral quanto o que fiz para música de câmara e os discos de jazz, porque na dança você, a partir de uma ideia ou um briefing, faz a música primeiro. Quero muito registrar essas músicas que fiz para espetáculos de dança. 

Tem muitas maneiras de mostrar sua voz, né?

É porque tento levar minha voz pra tudo o que faço. Uma vez jantei com o Philip Glass, cara super legal, super generoso e, obviamente, um dos meus ídolos. E ele falou que tudo que ele fazia, de um jingle a uma ópera, de uma sinfonia a uma trilha sonora, ele via tudo da mesma maneira. Que é a música dele, e que ele vai dar o melhor de si. Isso ficou muito na minha cabeça, de jogar com tudo em tudo que estiver fazendo. Porque uma das coisas interessantes das trilhas é que sua música pode existir fora dos filmes, então justamente por isso tento sempre fazer a coisa mais expressiva, mais emocional e mais musical, porque talvez vai ter uma pessoa do outro lado do mundo que vai ouvir isso daqui a 15 anos, e quero poder continuar transmitindo o que estava sentindo para essa pessoa. 

PRÓXIMOS TRABALHOS 

Para a gente encerrar, Marcelo, você mencionou esse documentário que você está fazendo com o Fuqua sobre o Mandela. O que mais você tem pela frente de trabalhos em cinema?

São dois documentários com o Antoine Fuqua, esse sobre o Mandela e outro sobre a Death Row, a lendária gravadora que lançou Snoop Dogg, Tupac e Dr Dre nos anos 1990. Também vou trabalhar novamente com o Todd Haynes em um drama com Pedro Pascal que se passa nos anos 1930 e será filmado no México. O título provisório é De Noche. Outro projeto é o novo filme do Stephen Chbosky, com quem trabalhei em Extraordinário, que antes de Guerreiras do K-Pop foi o filme de maior sucesso que fiz e tinha Julia Roberts, Owen Wilson e Sonia Braga no elenco. Esse novo do Chbosky se chama Weekend Warriors e terá o Mark Wahlberg protagonizando. Nos streamings, a Netflix deu sinal verde pra quarta temporada da série A Diplomata e continuarei trabalhando, enquanto FX e Hulu vão lançar a minissérie Cry Wolf, com Olivia Colman e Brie Larson, que foi criada por Sarah Treem, com quem trabalhei na série The Affair [2014-19]. Essas são as coisas que estão no horizonte.