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quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

50 músicas brasileiras de 2019

a grande maioria das músicas brasileiras dessa lista veio, como quase sempre acontece por aqui, da lista de discos. então pode acreditar que tem Aláfia, Alice Caymmi, Amiri, Baiana System, Bárbara Eugênia, Black Alien, Céu, Djonga, Dona Onete, Douglas Germano, Drik Barbosa, Elza Soares, Emicida, Felipe Cordeiro, Guilherme Kafé, Héloa, Jaloo, Jards Macalé, Keila, Larissa Luz, Lucas Santtana, Lúcio Maia, Luísa e Os Alquimistas, Lulina, Marcelo Jeneci, MC Tha, Momo, Nego Gallo, Pélico, Pitty, Rincon Sapiência, Siba e Tássia Reis. em alguns casos foi muito difícil definir apenas uma música, mas a vida é feita de escolhas né não.

então vou destacar aqui músicas de artistas/músicas que não apareceram na lista de discos. é o caso de jovens gigantes pop como Pabllo Vittar e a maravilhosa "Amor de Que", Ludmilla e a deliciosa "Verdinha", e novamente Ludmilla junto de Anitta na poderosa "Onda Diferente", além de Gloria Groove e outra canção maconhística ["Sedanapo"] e Iza e a jamaicana "Brisa".

seguindo com as minas: a paraibana Agnes Nunes vem construindo delicada e vagarosamente uma bela carreira [apoiada recentemente pelo pessoal da Baguá Records do rapper carioca Xamã] e o sambinha "Sônia" é um de seus pontos altos; a pernambucana Duda Beat largou um pouco do brega fossa do seu disco de estreia e neste ano participou de músicas de artistas muito variados como Lucas Santtana e Rashid e lançou a divertida "Chega" com Matheus Carrilho [Banda Uó] e Jaloo; as também pernambucanas MC Loma e As Gêmeas Lacração conseguiram mais uma vez criar um hit bregafunk; e a baiana Luedji Luna é outra voz poderosa atual e sua "Tô Te Querendo", parceria com os produtores Omulu e ÀTTØØXXÁ, é uma coisa doce demais. sem falar nas paulistas Linn da Quebrada, Luiza Lian, Tulipa Ruiz [numa parceria linda com o mestre João Donato] e YMA.

pra encerrar os destaques entre as músicas de 2019, o engraçadíssimo trap de MC Caverinha, o funk hit de verão de Thiaguinho MT ["Tudo OK" é demais], e as doçuras transcendentais de Eduardo Gudin e Rogerman.

segue abaixo a lista completa das músicas seguida de uma playlist no YouTube.

Agnes Nunes & Xamã - "Sônia"
Aláfia - "Canção Pra Nós"
Alice Caymmi - "Areia Fina"
Amiri - "Êta Porra! 2.0(19) Da Bomboclat"
Anitta, Ludmilla & Snoop Dogg - "Onda Diferente" [part. Papatinho]
Baiana System - "Salve" [part. BNegão, Antônio Carlos & Jocafi]
Bárbara Eugênia - "Perdi"
Black Alien - "Área 51"
Céu - "Coreto"
Djonga - "Hat-Trick"
Dona Onete & BNegão - "Musa da Babilônia"
Douglas Germano - "Valhacouto"
Drik Barbosa - "Quem Tem Joga" [part. Gloria Groove & Karol Conká]
Duda Beat, Matheus Carrilho & Jaloo - "Chega"
Eduardo Gudin & Léla Simões - "Alma"
Elza Soares & BaianaSystem - "Libertação" [part. Virginia Rodrigues]
Emicida - "AmarElo" [part. Majur & Pabllo Vittar]
Felipe Cordeiro - "Onde é Que Vou Parar" [part. Dona Onete]
Gloria Groove - "Sedanapo"
Guilherme Kafé - "Muitas Casas" [part. Mauricio Pereira]
Iza - "Brisa"
Héloa - "Silêncio"
Jaloo - "Dói d+" [part. Nave]
Jards Macalé - "Pacto de Sangue"
Keila - "Brega Doido"
Larissa Luz - "Gira"
Linn da Quebrada - "Oração" [part. Liniker]
Lucas Santtana - "Ninguém Solta a Mão de Ninguém" [part. Jaloo, Juçara Marçal & Linn da Quebrada]
Lúcio Maia - "Palomar"
Ludmilla - "Verdinha"
Luísa e Os Alquimistas - "Garota Ligeira" [part. Luê]
Luiza Lian & Bixiga 70 - "Alumiô"
Lulina - "O Que é o Quê" [part. Mauricio Pereira]
Marcelo Jeneci - "Aí Sim"
MC Caverinha - "Flash"
MC Loma e As Gêmeas Lacração - "Xonadão"
MC Tha - "Onda" [part. Jaloo & Felipe Cordeiro]
Momo - "Diz a Verdade"
Nego Gallo - "Onde Há Fogo Há Fumaça"
Omulu, Luedji Luna & ÀTTØØXXÁ - "Tô Te Querendo"
Pabllo Vittar - "Amor de Que"
Pélico - "Descaradamente"
Pitty - "Noite Inteira" [part. Lazzo Matumbi]
Rincon Sapiência - "Meu Ritmo"
Rogerman - "Tarde"
Siba - "Só é Gente Quem se Diz"
Tássia Reis - "Dollar Euro" [part. Monna Brutal]
Thiaguinho MT - "Tudo OK" [part. Mila & JS O Mão de Ouro]
Tulipa Ruiz & João Donato - "Gravidade Zero"
YMA - "Par de Olhos"

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

65 discos brasileiros de 2015

já rolaram os discos e músicas gringas de 2015, então agora é a vez de falar daqui, de listar o que mais gostei do que ouvi aqui: artistas novos se firmando, iniciantes cheios de gás e voz, medalhões inquietos, um pouco mais da nossa costumeira efervescência musical. acabei fechando a minha lista [sempre e cada vez mais] inclusiva com 65 discos, mas destacarei 17 que estiveram mais muito mais próximos. pra facilitar minha vida separei esses 17 em 3 blocos: os raps, as mina e os mano.

ogi, emicida, instituto, black alien, bnegão, síntese & cia

os rap – tal e qual a gringolândia, o rap também é no brasil o gênero que tem mostrado mais originalidade, mais vontade de falar de assuntos diversos e urgentes, e de se misturar sem medos. isso, claro, não é de hoje, mas seis discos lançados este ano são prova clara que o rap brasileiro cresceu de uma forma absolutamente inequívoca. por exemplo rá!, o segundo disco do grande cronista paulistano rodrigo ogi, que é um passeio veloz e afiado pelos humores da cidade. e tem ainda samba e muita vida, e ocasionalmente sangue, em suas rimas. já sobre crianças, quadris, pesadelos e lições de casa, de emicida, a grande jovem estrela do gênero, é uma maravilha de diversa atualidade: é família, pop, pesado e ativista, tudo ao mesmo tempo, e com uma delicadeza e equilíbrio de dar inveja a muito veterano. 

transmutação e babylon by gus vol. II, dos contemporâneos, cariocas e ex-companheiros de planet hemp, bnegão e black alien, são produções extremamente bem acabadas, divertidas e com pegada [e como é bom ver e ouvir black alien de novo].

a volta do instituto, após 14 anos de sua estreia, com violar é outra prova de como o rap se tornou predominante e incontornável. até as músicas instrumentais do disco parecem rap, mas como se isso não bastasse, tem criolo, bnegão, karol conká, sombra e uma linda pérola póstuma de sabotage.

então, pra finalizar esse bloco de rap, um trabalho que entrou aos 48 do segundo tempo, síntese, akilez, kiko dinucci e thiago frança. encontro poderoso e ofegante esse do rapper de são josé dos campos com o produtor curitibano, o guitarrista guarulhense e o saxofonista mineiro [nada mais paulistano que isso]. síntese continua firme com um dos rappers mais originais da atualidade, apesar dos arroubos religiosos [ou devido a eles?].

elza, gal, alessandra, karina, letuce e tulipa

as mina – duas veteranas abrem esse bloco com discos absurdos de lindos. a mulher do fim do mundo é o encontro de elza soares com composições e músicos muito atuais e de são paulo. é trabalho poderoso, negro, rasgado, torto, sexual, melancólico e surpreendente. estratosférica é gal costa tinindo em delicadezas e com repertório também todo de inéditas. duas grandes mulheres artistas inquietas e atentas.

a jovem guarda feminina tem um tanto de pernambuco via são paulo com selvática, o mais regular e bonito disco de karina buhr, e os fortes e carnais eps aço e língua de alessandra leão [karina e alessandra foram companheiras de comadre fulozinha]. tem também rio de janeiro com estilhaça, o terceiro disco de letuce e que traz a cantora e compositora letícia novaes ainda à flor da pele, mas também conseguindo ser menos estritamente confessional e mais universal. pra encerrar o bloco, dancê, o mais recente, alegre e solto trabalho de tulipa ruiz.

jaloo, siba, lira, cidadão instigado e rodrigo campos

os mano – a grande surpresa deste ano, entre os manos, foi o #1 de jaloo. conhecido por seus remixes tecnobregas, o paraense fez um belíssimo, doce e dançante disco autoral. gosto de jaloo tem tempo, mas realmente não esperava um disco com tantas músicas tão bonitas. no mais, os feras de sempre aprontando mil e uma confusões: fortaleza, o quarto disco do cidadão instigado, é o que existe de melhor e mais pulsante no rock nacional; de baile solto do siba tem pernambuco, áfrica, guitarra e muitas outras coisas tão boas quanto; o igualmente pernambucano lira lançou seu segundo disco solo, o labirinto e o desmantelo, e sua poesia está cada vez mais apurada e dolorida; por último e não menos importante, o delicado conversas com toshiro, terceiro e mais maduro disco de rodrigo campos.

aqui, a lista completa com os 65 discos:

aláfia - corpura
alessandra leão – aço/língua EPs
amplexos - sendeiro
andreia dias - prisioneira do amor
as bahias e a cozinha mineira - mulher
barbara eugênia - frou frou
bixiga 70 - III
bnegão & seletores de frequência - transmutação
boogarins - manual
cícero - a praia
cidadão instigado - fortaleza
daniel groove - romance pra depois
diogo strausz - spectrum vol. 1
eddie - morte e vida
fabio góes - zonzo
frito sampler - aladins bakunins
gal costa - estratosférica
gui amabis - ruivo em sangue
hélio flanders - uma temporada fora de mim
iconili - piacó
instituto - violar
jaloo - #1
juçara marçal e cadu tenório - anganga
karina buhr - selvática
karine alexandrino - mulher tombada
letuce - estilhaça
liniker - cru EP
mariana aydar - pedaço duma asa
metá metá - metá metá EP
ná ozzetti e zé miguel wisnik - ná e zé
ná ozzetti & passo torto - thiago frança
odair josé - dia 16
orquestra brasileira de música jamaicana - obmj ataca!
orquestra raiz - as américas
pélico - euforia
qinho - ímpar
rafael castro - um chopp e um sundae
raphão alaafin - eu gosto
rodrigo campos - conversas com toshiro
rodrigo ogi - rá!
romulo froés - por elas sem elas
silva - júpiter
space charanga - r.a.n. (rhythm and noise)
thiago ramil - leve embora
trupe chá de boldo - presente
tulipa ruiz - dancê
vicente barreto - cambaco
vitrola sintética - sintético
wado - 1977
zé manoel - canção e silêncio
zé pi - rizar
síntese, akilez, kiko dinucci & thiago frança

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

yahoo #57

desdobramento estratégico da lista de melhores músicas brasileiras do ano publicada aqui, a coluna da semana passada no yahoo foi uma selecta de dez canções que imaginei serem interessantes para mostrar pro leitor de lá. qual não foi minha surpresa quando começaram a rolar vários comentários detonando o gosto dessa "estagiária ridícula"!? o yahoo é isso, um pescotapa no ego.



10 MÚSICAS QUE VOCÊ DEVERIA TER OUVIDO EM 2012

Fim de ano é tempo de listas, só que dessa vez resolvi fazer algo diferente. Separei 10 músicas brasileiras da lista de 50 que publiquei no meu blog pessoal, o Esforçado. Não porque sejam melhores que as outras 40, mas por serem ótimos exemplos para os comentaristas apocalípticos aqui do Yahoo! que a música brasileira anda muito bem, obrigado. Quem só consome música através de TV e rádio pode até achar que o país anda “perdido”, na mesma. Não existe muita oferta mesmo. É que as coisas do mundo estão na internet, minha nega. Basta ter um pouco de curiosidade. Escuta só.

Lado A – O coração

1) “Se assim quiser” (Mahmundi)


Mahmundi é pseudônimo do trio liderado pela cantora e compositora Marcela Vale, carioca de 25 anos. “Se assim quiser” está em seu trabalho de estreia, o EP Efeito das Cores. Tecladinhos saídos diretamente dos anos 1980 se juntam docemente com programações eletrônicas em clima de fim de tarde. E Marcela só cantando coisa boa de fazer. Autoajuda deveria ser assim.

2) “Alegria da gente” (Alvinho Lancellotti)


Filho do compositor Ivor Lancellotti, parceiro de bambas como João Nogueira, Paulo César Pinheiro e Leci Brandão, Alvinho começou a cantar e mostrar suas músicas no grupo Fino Coletivo e só agora estreou solo em O Tempo Faz a Gente Ter Esses Encantos. O título do disco, aliás, é um dos versos de “Alegria da gente”, sambinha espertíssimo, moderno e tradicional, que só poderia ter sido feito sob o efeito da alegria solar do Rio de Janeiro.

3) “Areia fina” (Letuce)


Em quase todas as músicas do Letuce quem canta lindamente é Letícia Novaes, mas esta, especialmente, traz os vocais do guitarrista Lucas Vasconcellos, parceiro de Letícia de música, vida e vice-versa. Música de Manja Perene, segundo disco do casal carioca, “Areia fina” é um rock cheio de climas sobre as descobertas, algumas doloridas, do amor.

4) “A carta de amor” (A Banda dos Corações Partidos)


Marchinha dramática sobre amores perdidos, “A carta de amor” é também uma ótima porta de entrada para o som desse grupo de Aracaju, Sergipe. Tem também brega na mistura, fator recorrente na nova música feita no Norte-Nordeste, e a ótima voz de Diane Velôso.

5) “Poder da sedução” (Dona Onete)


Do alto seus 73 anos, a cantora paraense costuma ser comparada a Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus e Omara Portuondo, mas em seu disco de estreia (Feitiço Caboclo) é possível ouvir todo seu brilho próprio. Dona Onete passeia por carimbós maliciosos como “Jamburana” e lindas baladas bregas como essa “Poder da sedução”, que é também tango com pitadas eletrônicas em meio a lamentos de cabaré amazônico.

Lado B – Os quadris

1) “Pode para” (Flow MC)


Uma das revelações do jovem rap paulistano, Flow MC é também um dos organizadores da tradicional Batalha de MCs do Santa Cruz e “Pode para” está em sua terceira mixtape, SensaFLOWnal. Os samples de “Abrigo de vagabundos” (Adoniran Barbosa), em gravação do Demônios da Garoa, são apenas o começo de um surpreendente e novo cruzamento de rap com samba (paulista). E o sujeito ainda possui humor e um fraseado afiadíssimo.

2) “O mundo (Panela de pressão)” (BNegão & Os Seletores de Frequência)



Nove anos separam a estreia solo de BNegão em Enxugando Gelo deste recente e igualmente ótimo disco Sintoniza Lá. Entre muitas canções cheias de suingue e politização destaque para “O mundo (Panela de pressão)”, uma mistura de funk, rap, rock e afoxé sobre as encruzilhadas desse mundão grande sem porteira.

3) “Afoxoque” (Curumin, com participação de Russo Passapusso)


Música de Arrocha, um dos melhores discos do ano e o terceiro trabalho solo do multiinstrumentista, cantor e compositor paulistano. Influências africanas misturadas com programações eletrônicas dão o tom de uma poética e poderosa canção de protesto feita em parceria com Russo Passapusso, vocalista do Baiana System.


4) “Exu parade” (Otto)


Otto talvez seja o mais conhecido dessa lista, afinal começou no Mundo Livre S/A nos anos 1990 e depois construiu sólida carreira solo (dois anos atrás emplacou “Crua” em trilha de novela global). “Exu parade” está em seu quinto disco, The Moon 1111, e é uma pedrada das mais dançantes do cancioneiro do pernambucano. Pop, batuque, música eletrônica e celebração em alta velocidade.

5) “Piloto de fuga” (Maga Bo, com participações de Funkero e BNegão)


Disco de estreia do produtor americano que vive desde 1999 no Rio de Janeiro, Quilombo do Futuro é uma impressionante mistura de ritmos nordestinos, música eletrônica, africanidades e pancadões. Entre as muitas e ótimas faixas destaque para “Piloto de fuga”, uma prova da relevância e do poder sonoro do funk carioca. Sem falar na vontade louca que dá de sair dirigindo pela cidade (qualquer cidade, estrada).

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

os 30 discos brasileiros de 2012 e algo mais

bem, a lista de melhores músicas brasileiras do ano já trazia indicações de quais discos ficariam entre os bonzões: as estreias de gaby amarantos, los sebosos postizos, maga bo, oquadro e alvinho lancelotti, e ainda curumin, tulipa ruiz, lucas santtana, letuce, gui amabis, siba e bnegão & os seletores de frequência. discos fortes, variados, alegres, melancólicos e, acima de tudo, repletos de ótimas músicas. mas acho que dois discos resumiriam o ano pra mim: arrocha, o terceiro do paulistano curumin, e treme, a estreia de gaby amarantos.


   
arrocha por seus cruzamentos surpreendentes e orgânicos do batuque afro-brasileiro com música eletrônica, e sem jamais esquecer a necessidade por canções, refrões, pegada, balanço, amor, experiências. e por músicas como “afoxoque”, “selvage”, “passarinho”, “treme terra”, “paris vila matilde”, “doce” e “pra nunca mais”, além da regravação linda de “vestida de prata” (paulinho boca de cantor, 1981) e da parceria com russo passapusso (baiana system).



treme por suas gigantescas possibilidades pop. gaby amarantos conseguiu um feito raro no brasil, pois é, ao mesmo tempo, hype e popularíssima (claro que isso não dura muito). seu disco de estreia, que começou a ser lançado no final de 2011 com o clipe de “xirley”, reúne fernanda takai e dona onete, thalma de freitas e zezé di camargo & luciano, zé cafofinho e veloso dias, kraftwerk e gang do eletro, todo um tsunami de altas e baixas culturas. ah, se um pedacinho da música pop mundial tivesse tanta informação como nas músicas cantadas por gaby... exemplos não faltam, vide “merengue latino”, “eira”, “gemendo”, “pimenta com sal”, “mestiça”, “coração está em pedaços”, “ex mai love”, “galera da laje” e “chuva”.

no mais, segue a lista completa:

alvinho lancelotti (o tempo faz a gente ter esses encantos)
caetano veloso (abraçaço)
café preto (café preto)
céu (caravana sereia bloom)
curumin (arrocha)
dona onete (feitiço caboclo)
dudu tsuda (le son par lui même)
gui amabis (trabalhos carnívoros)
hurtmold (mils crianças)
improvisado trio (interferências)
letuce (manja perene)
los sebosos postizos (interpretam jorge ben jor)
lucas santtana (o deus que devasta mas também cura)
maga bo (quilombo do futuro)
nina becker & marcelo callado (gambito budapeste)
oquadro (oquadro)
otto (the moon 1111)
paulo carvalho (o amor é uma religião)
rodrigo campos (bahia fantástica)
sambanzo (etiópia)
shaw (orquestra simbólica)
siba (avante)
silva (claridão)
síntese (sem cortesia)
thiago pethit (estrela decadente)
tom zé (tropicalismo lixo lógico)
tulipa ruiz (tudo tanto)

dessa lista gostaria de destacar ainda os excelentes e densos discos de rap do carioca-paulistano mc shaw (orquestra simbólica) e dos paulistas do síntese (sem cortesia, e ah, paulistas de são josé dos campos), bem como os novos trabalhos de uma turma muito produtiva de são paulo, bahia fantástica de rodrigo campos e metal metal, do trio juçara marçal, kiko dinucci e thiago frança. este último, saxofonista da banda do criolo, também lançou o belo instrumental etiópia sob o pseudônimo sambanzo (dinucci incluso). falando em instrumental, uma ótima surpresa foi interferências, disco de estreia do improvisado trio (marcelo castilha, meno del picchia e pedro ito). e pra finalizar, outras três estreias muito felizes, café preto (projeto adubado de cannibal do devotos do ódio), claridão (do capixaba indie silva) e le son par lui même (o multifacetado primeiro solo de dudu tsuda, que foi jumbo elektro, cérebro eletrônico, trash pour 4, etc). detalhe: os últimos discos a entrar na lista, tipo 43 do segundo tempo, foram abraçaço de caetano veloso e o extraordinário mils crianças do hurtmold.



MENÇÃO HONROSA - não tem como não falar de alguns ótimos tributos/coletâneas lançados no ano, destacando primeiro os que foram produzidos de forma independente, tais como o duplo re-trato los hermanos (com bárbara eugênia, cícero, dan nakagawa, hidrocor, lula queiroga, érika machado, nevilton, do amor, velhas virgens, tibério azul, banda gentileza, nervoso & os calmantes, etc.), o variadão brasileiros (com pélico cantando cartola, mahmundi de rita lee, bazar pamplona de dorival caymmi, etc.) e o muito excelente jeito felindie (tributo ao raça negra com lulina, amplexos, letuce, vivian benford, harmada, minha pequena soundsystem, etc.). menções honrosas também para o multinacional a tribute do caetano veloso (com beck, chrissie hynde, seu jorge, marcelo camelo, jorge drexler, céu, qinho, momo, tulipa ruiz, mariana aydar, etc.) e o projeto transglobal paraense terruá pará vols. 1 e 2 (com gang do eletro, gaby amarantos, mestres da guitarrada, lia sophia, dona onete, pio lobato, metaleiras da amazônia, etc.)

TEM MAIS SAMBA – nem preciso dizer que rolou muito mais coisa, portanto não custa nada mencionar outros discos interessantes/divertidos/desafiadores lançados neste ano e que passaram pelos ouvidos da casa. alguns emplacaram músicas entre as melhores do ano, mas acabaram não entrando na lista principal de discos. então, se não ouviu, ouça a banda dos corações partidos (a banda dos corações partidos EP), abayomy afrobeat orquestra (abayomy afrobeat orquestra), afroelectro (afroelectro), aíla (trelelê), amplexos (a música da alma), arnaldo antunes, edgard scandurra & toumani diabaté (a curva da cintura), banda uó (motel), beto mejía (abraço), bonde do rolê (tropical/bacanal), caio bosco (caio bosco), domenico & joão brasil (taksi EP), doo doo doo (casa das macacas), filarmônica de pasárgada (o hábito da força), flow mc (sensaflownal), fóssil (mocumentário), holger (ilhabela), jair naves (e você se sente numa cela escura…), kamau (... entre), laura wrona (r.h. volcano), madrid (madrid), mahmundi (efeito das cores EP), mão de oito (um dia que já vem), márcia castro (de pés no chão), marginals (marginals 2), marina de la riva (idílio), mr. catra (com todo respeito ao samba), o terno (66), orquestra contemporânea de olinda (pra ficar), orquestra imperial (fazendo as pazes com o swing), pentágono (manhã), psilosamples (mental surf), qinho (o tempo soa), rafael castro (lembra?), rogerman (o caminho do lobo), sasquat (alfazema), ska maria pastora (as margens do rio doce), sobre a máquina (sobre a máquina), sonic junior (inspire), strobo (quando se perde a inocência), tatá aeroplano (tatá aeroplano), trupe chá de boldo (nave manha), vítor araújo (a/b), volver (próxima estação) e zélia duncan (tudo esclarecido – músicas de itamar assumpção).

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

as 30 + 20 músicas brasileiras de 2012

começo a temporada de retrospectivas aqui no esforçado com as melhores músicas brasileiras do ano segundo a humilde opinião da casa. ainda rolarão por aqui os melhores discos e clipes nacionais, e discos e músicas da gringolândia (também conhecida como resto do mundo). a categoria ‘clipes nacionais’ é a novidade dessa retrospectiva porque achei um ano excepcional na produção audiovisual, muita coisa boa mesmo e nos gêneros mais variados. de resto, a única diferença é que aumentaram um pouco mais o tanto de escolhidos. na retrospectiva de 2009 foram 10, já em 2010 e 2011 o número aumentou para 25. agora são 30.

de alguns discos – que, não coincidentemente, estão entre os melhores do ano – foi particularmente difícil escolher apenas uma música. isso aconteceu nos discos de alvinho lancellotti (o tempo faz a gente ter esses encantos), bnegão & os seletores de frequência (sintoniza lá), céu (caravana sereia bloom), curumin (arrocha), gaby amarantos (treme), gui amabis (trabalhos carnívoros), letuce (manja perene), los sebosos postizos (interpretam jorge ben jor), lucas santtana (o deus que devasta mas também cura), maga bo (quilombo do futuro), oquadro (oquadro), siba (avante) e tulipa ruiz (tudo tanto). nessa horas a gente precisa ser forte, engole o choro moleque. afinal de contas, a vida é ‘escolhas’ e listas são fotografias de um instante. bola pra frente.

como é de praxe aqui não tem essa coisa de primeiro, segundo, terceiro lugar. assino embaixo do pessoal do hominis canidae que, em um email pedindo listas pessoais de seus colaboradores/amigos/colegas, afirmaram que eram “discipulos do satanique samba trio e achamos que ordenar é apenas mais uma pratica cristã ultrapassada”. segue a lista.

a banda dos corações partidos - “a carta de amor”
afroelectro - “pra sonhar”
alvinho lancellotti - “alegria da gente”
beto mejia - “vermelho”
bnegão & os seletores de frequência - “o mundo (panela de pressão)”
caetano veloso - “um abraçaço”
céu - “baile de ilusão”
curumin & russo passapusso - “afoxoque”
don l & flora matos - “enquanto acaba”
dona onete - “poder da sedução”
edi rock & seu jorge - “that’s my way”
flow mc - “pode para”
gaby amarantos - “merengue latino”
gui amabis - “tiro”
letuce - “areia fina”
los sebosos postizos - “toda colorida”
lucas santtana - “músico”
maga bo, funkero & bnegão - “piloto de fuga”
mahmundi - “se assim quiser”
mão de oito & marcela bellas - “acorda”
nina becker & marcelo callado - “armei a rede”
oquadro - “balançuquadro”
otto - “exu parade”
paulo carvalho - “sóis”
siba - “preparando o salto”
silva - “a visita”
tulipa ruiz - “cada voz”
volver - “mangue beatle”

mas tem muita coisa, muitos sons bons. e naquela linha inclusiva do blog fiz ainda um segunda lista com outras 20 músicas.

amplexos - “making love”
banda uó & luiz caldas - “beija flor”
bonde do rolê - “kilo”
café preto - “nem se, nem dó”
caio bosco - “mendigos de amor”
doo doo doo - “carnaval no fogo”
filarmônica de pasárgada - “o seu tipo”
lurdez da luz - “levante”
márcia castro - “de pés no chão”
negro leo - “jovem tirano príncipe besta”
o terno - “66”
orquestra contemporânea de olinda - “mar azul”
qinho - “o tempo soa”
rafael castro & pélico - “marítima”
roberta sá - “no arrebol”
rodrigo campos & criolo - “ribeirão”
sasquat - “homem guaracheiro”
shaw - “coração”
síntese - “se escute”
tatá aeroplano - “par de tapas que doeu em mim” 

quarta-feira, 25 de julho de 2012

sonhos legais e ilegais

e os clipes nacionais não param de ser lançados. rolando um boom daqueles. e nessa terça, 24 de julho, saíram três ao mesmo tempo. “pra sonhar” é do disco de estreia de marcelo jeneci, de 2010 portanto, mas só veio à tona agora em forma colaborativa com um chamado na internet por imagens de casamento. o resultado é emocionante, música e clipe feitos na medida para fazer qualquer ouvinte-espectador beijar a lona diante de tamanha fofice.


daí vem felipe cordeiro com seu “legal e ilegal”, música de seu disco de estreia, kitsch pop cult (ná music), que foi lançado de forma independente no ano passado, mas tá ganhando mais divulgação por agora mesmo. a música é divertidíssima, tem uma letra tremendamente atual, e o clipe dirigido por brunno regis e carolina matos – com produção executiva de priscilla brasil – ficou a altura. sem falar nas participações de dona onete, manoel cordeiro (guitarrista pai de felipe), keila gentil (gang do eletro) e andré abujamra, o produtor do disco.


finalizando esse post, uma música-clipe novinho em folha. “alteração (éa!)” é do discaço sintoniza lá (coqueiro verde), o segundo e muy esperado disco de bnegão & os seletores de frequência, e ganhou esse clipe com cara de curta esperto dirigido por emílio domingos.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

yahoo #21

engraçado como são as coisas e curioso como nada como uma semana após a outra. digo isso porque após ter gostado tanto de ter feito o texto "custe o que custar, uma ova!" escrevi esse "o nada incrível huck", que considero o mais fraco de todos que fiz até agora para o ultrapop. no entanto, por causa das críticas ao personagem top-coxinha, o texto acabou sendo minha segunda melhor marca no yahoo (algo em torno de 280 mil views, ainda perdendo do recordista "meu fraco é subcelebridade" com seus 350 mil). mas porque não gostei do texto? porque ele é apenas um vômito contra luciano huck, é vazio, e olha que o assunto renderia bastante. em minha autodefesa posso dizer que a semana tinha sido ruim, ainda estava sofrendo o baque da demissão, sem nenhum assunto palpitante à vista, estava na metade de um outro texto que acabei largando mão (consequentemente atrasado na entrega) e ainda por cima com o rosto todo dolorido após tirar meus últimos dois sisos. quer dizer, uma bagunça completa. mas nada como uma coluna após a outra e a que está no ar agora, "o de cima sobe, o de baixo desce", uma espécie de mini-retrospectiva de 2011, ficou a gosto da gerência. 


O NADA INCRÍVEL HUCK

Desde que me entendo como gente ouço críticas a TV Globo, mas com o passar do tempo fui peneirando o que era verdade e o que não passava de teoria conspiratória. Fui também fazendo as minhas. No entanto, é sempre engraçado ver o pessoal dos comentários, principalmente na última coluna que era sobre o CQC da TV Bandeirantes, dizer coisas como: “ah, mas da Globo ninguém fala mal, apostos que vocês do Yahoo são pagos”. Então vamos lá, cambada, para agradar vocês a Globo será o alvo da vez. Façam suas rimas e apertem seus cintos!

Como toda grande empresa de comunicação, a Globo é boa e má (para usar esses termos gastos) em iguais proporções. Nos tempos do pai-fundador Roberto Marinho foi tanto amiga dos militares quanto abrigo de muitos profissionais de esquerda, que acabaram assim escapando de prisões, tortura, exílio. Enquanto se calava no Jornal Nacional dava liberdade a realizadores como Paulo Gil Soares, Eduardo Coutinho, Walter Lima Jr. e Maurice Capovilla para falar de coisas inéditas do Brasil nos áureos tempos do Globo Repórter, final da década de 1970 (sim, houve um tempo que o programa não falava só de bichos, alimentação e sexualidade na terceira idade).

É também a mesma que vem estimulando grandes artistas como Luiz Fernando Carvalho (Hoje é Dia de Maria, Capitu, etc.), comunicadores como Regina Casé e ousadias cômicas como Macho Man ao mesmo tempo dá moral a figuras como Luciano Huck. E o Huck... bem, não sou uma pessoa de desprezar ninguém, muito menos de ter ódios, mas não fui com a cara dele desde que o vi pela primeira vez. Também acredito que ele é uma das piores coisas que aconteceu na TV aberta nacional com seu “orgulho coxinha”, seu assistencialismo barato, seu mal gosto galopante, seu humor playboy de Atlética de faculdade, etc.



O seu “estilo” não mudou muito desde aquelas outras tardes de sábado, tempos do Programa H, Tiazinha e Feiticeira: gostosas no palco, platéia jovem, bandas ruins, “reportagens”, convidados e “entrevistas”. Eu olhava pr’aquele sujeito, eternamente o irmão gêmeo de Rogério Ceni, e pra mim ele representava algumas das coisas mais detestáveis da classe alta paulistana, apesar do seu jeitinho inofensivo. Quando, em 2000, foi anunciada sua mudança para a Globo fiquei pensando se o sucesso se repetiria. Sim, o sucesso sorriu novamente para Huck, só que dessa vez maior e acompanhado de um “casamento dos sonhos” com Angélica (dos sonhos para a Globo e para a publicidade).

Nunca entendi isso. O Caldeirão do Huck é repleto de quadros copiados de programas americanos, o jeito amigão como o apresentador trata as pessoas que vão lá em busca de um tapa no carango ou arrumar a casa caindo aos pedaços é nitidamente forçado, não vejo carisma nenhum em sua pessoa, mas ele é um cara inteligente, principalmente nos negócios, e sabe conversar com todo tipo de gente. Por outro lado, ninguém acha estranho, ou talvez nem saibam, que o bom moço foi multado por crime ambiental em Angra dos Reis (RJ) e que então contratou o escritório de advocacia da mulher do governador Sérgio Cabral. Poucos dias depois, como em um passe de mágica, o governo do Estado abriu brechas na lei e Huck não precisou nem paga a multa.

Enquanto vou despejando esse tanto de críticas sobre o rapaz já prevejo alguns comentaristas dizendo coisas como “quem é você para criticar o Luciano Huck, seu paspalhão?!?!” ou “você tem é inveja do sucesso dele”. Não trabalhamos com inveja aqui, amiguinhos e amiguinhas, e tão somente com senso crítico (que pode até estar errado, mas é meu). Tenho é saudade daquelas tardes de sábado, no qual o Velho Guerreiro jogava pedaços de bacalhau em sua platéia (escrevi sobre ele na minha sexta coluna por aqui, “Chacrinha continua balançando a pança”), ou de mais pessoas como a semi-xará Thafne Souza que colocou Huck no seu devido lugar em um episódio daquele quadro “Soletrando”. E nunca se esqueçam: lugar de coxinha é no boteco ou na padaria.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

novinhas em folha

passeando pelo soundcloud encontrei alguns sons muito bacanas e recém-postados. por exemplo, a volta de bnegão com sua banda seletores de frequência na jamaicaníssima "reação (panela 2)", via seletores. tomara que saia disco novo esse ano porque mesmo que bnegão não pare nunca - rolou o projeto turbo trio e inúmeras participações em discos de figuras como iara rennó, baiana system, itamar assumpção, etc. -, seu disco de estreia, o excelente enxugando gelo, é de 2003.

Reação (Panela II) by seletores

e tem também música nova do trio das racist ("mira mira"), via some kind of awesome. na verdade não é deles e sim de um rapper chamado albe, mas era para fazer parte da mixtape
shut up, dude e acabou ficando de fora.

Das Racist - Mira Mira by dasracist

semana começando bem. simbora.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

12 músicas e um segredo

o rodrigo salem fez o convite na semana passada com uma ideia simples e ótima: uma mixtape, ou coletânea, com 12 das melhores canções de 2010 (nacional e internacional) e uma faixa-bônus-segredo. como estava preparando uma lista para a rolling stone brasil as músicas já estavam meio que certas e entreguei rápido, mas só quando o salem subiu o projeto na segunda fui ver quem mais tinha sido chamado. gentes finas como @carolnogueira, @stefaniegaspar, @babee, @diegomaia, @pablomiyazawa e @flaviadurante, tudo boa companhia.

de resto, o ano foi muito bom, como todos os últimos, e muita coisa legal ficou de fora da minha 12 músicas e um segredo, mas nos próximos dias postarei listas mais inclusivas de discos e canções nacionais e internacionais. por enquanto, escuta só...

01. “oxe, como era doce”, baiana system
02. “felicidade”, marcelo jeneci [part. laura lavieri]
03. “voices”, blundetto [part. hindi zahra]
04. “tudo cabe num beijo”, seu jorge & almaz
05. “fm tan sexy”, el guincho
06. “ziriguidum”, lurdez da luz [part. rodrigo brandão]
07. “tightrope”, janelle monáe [part. big boi]
08. “brocal dourado”, tulipa ruiz
09. “miss fortune”, aloe blacc
10. “todo esse tempo”, bnegão
11. “ek shaneesh”, das racist
12. “monster”, kanye west [part. jay-z, rick ross e nicki minaj]
13. o segredo

download AQUI.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

nego dito forévis!
ou transversão #37
ou letra/música #19

essa é caixa preta, senhoras e senhores, a ansiosamente aguardada caixa preta de itamar assumpção (selo sesc sp, 2010). pra mim é o lançamento do ano, sem sombra de dúvida. não só porque reúne em nova edição todos os discos de itamar assumpção como solta ao mundo o desfecho da trilogia pretobrás (volumes 2 e 3). nascido em 1949 e morto precocemente em 2003, o paulista-paulistano ainda não teve sua obra devidamente reconhecida dentro do tal cânone da música popular brasileira. itamar ainda é prazer de poucos, ainda é "maldito", o que é coisa das mais injustas levando-se em conta o humor, a invenção e seu afiado e surpreendente sentido pop. essa caixa precisa se espalhar - talvez não fisicamente porque o preço pode assustar (150 paus, mas são 12 discos, e no site do sesc sai por 120 reais) -, porque a música do nego dito serve pra tudo, é como a vida. saudade.

quem ganha mais é quem ouve, porque itamar já é, pode acreditar. e na caixa preta estão
beleléu leléu eu (1980), às próprias custas s.a. (1982, o único disco ao vivo de itamar e que vem com uma faixa inédita, uma versão de "não vou ficar" do tim maia), sampa midnight - isso não vai ficar assim (1983), intercontinental - quem diria? era só o que faltava!!! (1988), bicho de sete cabeças vols. 1, 2 e 3 (1993), ataulfo alves por itamar assumpção - pra sempre agora (1996), pretobrás - porque que eu não pensei nisso antes? (1998) e o já póstumo vasconcelos e assumpção - isso vai dar repercussão (2004). tudo lindo. mas são discos que já ouvi de trás para frente, inúmeras e inúmeras vezes. agora, os inéditos pretobrás II - maldito, vírgula (2010) e pretobrás III - devia ser proibido (2010) trazem uma porrada de novidades e convidados em suas 29 faixas, além do próprio itamar em registros caseiros de voz e violão posteriormente arranjados pelos produtores beto villares (pretobrás II) e paulinho lepetit (pretobrás III). separei aqui alguns destaques desses dois discos e já começo com um transversão.



"todo esse tempo" é o nome dessa música e depois de ouví-la com itamar agora é a vez da versão acelerada e totalmente atual de bnegão. as duas estão no volume dois do pretobrás.



ainda em pretobrás II aparecem outros convidados. seu jorge canta "o tempo todo" e tenho certeza que itamar ficaria orgulhoso da versão desse outro grande artista da música negra brasileira.



e para encerrar os destaques desse volume, elza soares cantando "elza soares", música feita por itamar em sua homenagem. de arrepiar versos como "desde que me entendo por gente / eu sambo, eu faço o que gosto / my soul is black, meu sangue é quente / eu quando gosto, me enrosco", ainda mais com a emoção de elza no final.




já no pretobrás III ouvi algumas músicas que achei que nunca iria possuir registro em disco (já tinha ouvido e vibrado em shows). a divertida "pirex", por exemplo, ótimo exemplo das brincadeiras de itamar com a nossa língua (e que nessa versão traz participação de naná vasconcelos).



outra que já tinha ouvido em shows é "devia ser proibido" (itamar assumpção e alice ruiz). música de rachar o coração feita em homenagem ao poeta paulo leminski (marido de alice e amigo/parceiro de itamar). a letra acabou caindo como uma luva para a ausência de itamar porque "devia ser proibido / uma saudade tão má / de uma pessoa tão boa". participação de zélia duncan, uma das mais aguerridas divulgadoras do nego dito.




e pra encerrar, letra e música de "que tal o impossível", doce, amorosa e lírica, que me lembrou carolina de cara (ela é muito fã de itamar, o que me dá um baita orgulho, porque fui eu que apresentei). cante junto e tente não se emocionar. tente não pensar nela/nele.

que tal o impossível
(itamar assumpção)

que tal se nós dois vivêssemos
do jeito que nós quiséssemos
sem nada que aborrecesse-nos
que tal se tudo tivéssemos

que tal se realizássemos
aquilo que nós sonhássemos
maçãs macias comêssemos
que tal se nós nos beijássemos

que tal se nós dois dormíssemos
olho no olho acordássemos
que tal se nós felicíssimos
que tal se nós dois voássemos

que tal se nós dois pudéssemos
aquilo que desejássemos
que tal se nós dois cantássemos
tocassemos e nós dois mesmos dançássemos

que tal se nós dois partíssemos
que tal se a sós ficássemos
que tal se ao máximo amássemos
que tal se no céu morássemos
que tal
que tal o impossível
que tal
que tal o impossível



foto de 1998, em casa de alzira espíndola, época da gravação do pretobrás; foi durante a única entrevista que fiz dele e que está lá no gafieiras