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domingo, 23 de novembro de 2025

as 82 vidas de jards macalé

tinha acabado um trabalho e estava prestes a sair pra pegar filha na escola quando dei uma espiada no Instagram. foi então que pulou na minha cara a notícia da morte do Jards Macalé no perfil do próprio Jards. tinha acabado de ser publicada. 1 minuto atrás. lembro bem disso também. 17 de novembro de 2025, a tarde de uma segunda-feira. achei que que iria lamentar. cara foda. um dos maiores. ídolo. viveu bons 82 anos, com vários anos não bons, mas 82, então era de se esperar. ao mesmo tempo tava produzindo bastante, coisas inéditas, numa longa fase ótima. porra, mesmo assim.

só que senti mais do que esperava. chorei uma, duas, três vezes. era por ele, o romântico debochado, o sambista abolerado, o inquieto zen, um artista tão original no que criava quanto no que recriava (afinal ele 'jardsificou' Ismael Silva, Zé Keti, Noel Rosa, Tom Jobim, Geraldo Pereira, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola, Lupicínio Rodrigues, etc). mas chorei por mim também, provavelmente, porque a sensação foi a de perder um tio muito querido, aquele tipo de tio (ou tia) que transforma sua vida de alguma forma, mostra coisas, tem um humor mais livre. já perdi um tio assim (salve Flores!) e é uma ausência que nunca passa.

passei a noite e a manhã seguinte com esse baque, um vazio. mas também feliz de ouvir tantas histórias de tanta gente, de tanto amor e aprendizado e piada. de lembrar da vez que o entrevistei nos tempos do Gafieiras (e fotografei e escrevi o texto de abre) e vi e fotografei um show dele no pequenino e saudoso Villaggio Café, tudo no mesmo 1º de abril de 2006. e feliz de ver como ele, a música dele, o jeito, o humor, fazem parte do que sou (como Itamar Assumpção, Buster Keaton, Laerte, etc etc etc). oras bolas, é de uma música dele o nome desse blog e um resumo de mim: meu segredo é que sou um rapaz esforçado.

tudo ok no Villaggio Café, em 2006

nos dias e noites que se seguiram desta semana, enquanto trabalhava, ouvi pela primeira vez a discografia de Jards em ordem cronológica, participações em outros discos, pra fazer a minha playlist dele, um resumão musical de 60 anos de carreira. olha só. escuta isso. que cara foda esse Jards Macalé.


acima, a playlist, e abaixo, a lista das 82 músicas pros 82 anos de vida de Jards Macalé, um dos maiores da história mundial de gentes e artistas. é tanto uma homenagem a ele quanto um registro da minha jornada pela música dele, em discos próprios, participações, tributos, ao vivos e em estúdio. mantive a ordem cronológica (só uma que não consegui info) e não estabeleci cotas por disco. o tanto que a música, a voz e o humor de Jards fizeram trilha da minha vida é uma coisa que não tá no gibi.

"Sem essa" (1969)
"Soluços" (1969)
"Farinha do desprezo" (1972)
"Vinheta Vapor Barato/Revendo amigos" (1972)
"Mal secreto" (1972)
"Movimento dos barcos" (1972)
"Meu amor me agarra e geme e treme e chora e mata" (1972)
"Rua Real Grandeza" (1974)
"Imagens" (1974)
"Anjo exterminado" (1974)
"Dona de castelo" (1974)
"Mambo da Cantareira" (1974)
"Mora na filosofia/E daí?" (1974)
"Boneca semiótica" (1974)
"Choro do Archanjo" (1976)
"Conto do pintor" (1976)
"Sim ou não" (1976)
"Black and blue" (1976)
"Contrastes" (1976)
"Pai e mãe" (1977)
"Vela no breu" (1977)
"Tio Barnabé", com Marlui Miranda (1977)
"Cabritada mal sucedida" (1981)
"Olha o Padilha" (1981)
"Chega de saudade" (1981)
"Let's Play That", com Naná Vasconcelos (1983-1994)
"Pano pra manga", com Naná Vasconcelos (1983-1994)
"Luz", com Naná Vasconcelos (1983-1994)
"Quero viver sem grilo" (?)
"Crotalus Terrificus" (1985)
"Para ver as meninas" (1987)
"Luz negra" (1987)
"Exemplo" (1987)
"Acertei no milhar" (1987)
"Cor de cinza" (1991)
"Falta um zero no meu ordenado" (1994)
"Estrupício", com Itamar Assumpção (1994)
"Laranja madura", com Itamar Assumpção (1995)
"Dindi" (1996)
"Rei de Janeiro" (1998)
"Favela" (1998)
"Cidade Lagoa" (1998)
"Mais uma luz" (1998)
"Coração do Brasil", com Monarco (1998)
"O Rei do gatilho" (2001)
"Choro esdrúxulo" (2001)
"Tira os óculos e recolhe o homem" (2001)
"Roendo as unhas" (2003)
"Positivismo" (2003)
"Berceuse Crioulle", com Maria Bethânia (2005)
"Senhor dos sábados" (2005)
"Vapor barato", com Jr. Tolstoi (2005)
"Olhos de lince", com Waly Salomão (2005)
"Pontos de luz", com As Gatas (2005)
"Ne me quitte pas" (2008)
"Ronda" (2008)
"Só assumo só" (2008)
"Juízo final", com Elton Medeiros (2011)
"Negra melodia", com Luiz Melodia (2011)
"Faisão dourado (Tendência e cor)", com Dorgas (2012)
"Cogito", com Rogério Skylab (2014)
"Volta", com Samba Noir (2015)
"Gotham City" (2015)
"Canalha" (2015)
"A saudade mata a gente", com Guinga, Moacyr Luz e Zé Renato (2016)
"Vampiro de Copacabana" (2019)
"Trevas" (2019)
"Buraco da Consolação", com Tim Bernardes (2019)
"Pacto de sangue" (2019)
"Meu amor meu cansaço" (2019)
"Tempo e contratempo" (2019)
"Peixe", com Juçara Marçal (2019)
"Ontem e hoje", com João Donato (2021)
"Síntese do lance", com João Donato (2021)
"Um abraço do João", com João Donato (2021)
"Sem samba não dá", com Criolo e Ana Frango Elétrico (2023)
"Amor inatura" (2023)
"Coração bifurcado" (2023)
"Grãos de açucar" (2023)
"A foto do amor" (2023)
"Para um novo amor chegar" (2023)
"Acender as velas", com Sergio Krakowski Trio (2024)

Jards, durante a entrevista para o Gafieiras, em 2006
[foto minha]

sábado, 2 de agosto de 2014

indiscotíveis: 'sobrevivendo no inferno'

uma dessas surpresas sensacionais da vida. itaici brunetti, colega jornalista com quem trabalhei na revista monet, me convidou em maio do ano passado para fazer parte de um livro ainda sem título sobre grandes discos da música brasileira a ser lançado pela jovem e independente editora lote 42. eu disse que sim claro com certeza. ele me passou uma lista gigante de discos e de cara escolhi sobrevivendo no inferno do racionais mcs. há tempos queria escrever sobre o disco, sobre os shows que vi do grupo na virada cultural, sobre rap, etc. mandei o texto no início de setembro e a vida seguiu.

achei desde o início que seria um livro bacana, mas quando vi indiscotíveis, o prazer foi maior porque ficou muito mais interessante e bonito do que esperava: o projeto gráfico de luciana martins, a ilustração de luciano salles para sobrevivendo, os textos de emicida, rael, arthur de faria, tatá aeroplano, marcelo costa, etc.

indiscotíveis foi lançado no início de julho e teve uma excelente cobertura da imprensa [até dei entrevista ao vivo pra rádio estadão] e ótimas resenhas, o que me deixou ainda mais orgulhoso de fazer parte do projeto.

além de itaici, meus sinceros agradecimentos a joão varella e cecília arbolave da lote 42, e a bia abramo, que leu o texto quando este ainda estava no berço. provavelmente a versão que segue aqui está um pouquinho diferente da impressa, já nem lembro mais. o que importa mesmo é que tem texto aqui e também no livro, que está a venda na loja virtual da lote 42. leia aqui, compre lá e divirta-se.



SOBREVINDO NO INFERNO, 1997
Racionais MCs

Ogunhê! Jorge sentou praça na Cavalaria... Deus fez o mar, as árvore, as criança, o amor; o Homem me deu as favelas, o crack, a trairagem, as arma, as bebida, as puta... Minha intenção é ruim, esvazia o lugar... Tô ouvindo alguém gritar meu nome... Parece que alguém está me carregando perto do chão... Aqui estou, mais um dia, sob o olhar sanguinário do vigia... Este lugar é um pesadelo periférico... Eu me formei suspeito profissional, Bacharel pós-graduado em tomar geral... Aquele moleque sobrevive como manda o dia-a-dia; tá na correria, como vive a maioria... Essa porra é um campo minado; quantas vezes eu pensei em me jogar daqui... As grades nunca vão prender nosso pensamento.



Não lembro onde, nem como, nem quando escutei Sobrevivendo no Inferno pela primeira vez. Sei que foi no comecinho de 1998 – o lançamento oficial aconteceu no final de 1997 -, e que passei semanas e semanas ouvindo o disco de todas as formas possíveis: na ordem original das faixas, aleatoriamente, umas ou outras no repeat, só trechos, etc. Já gostava do Racionais na época, mas os conhecia superficialmente [as básicas “Fim de semana no parque”, “Pânico na Zona Sul” e “Homem na estrada”], bem como o resto do rap brasileiro até então, quase exclusivamente paulistano. 

Quer dizer, Racionais não era novidade [musical] pra mim e eu já conhecia um pouco de São Paulo e da história do rap na cidade, mas nada disso tinha me preparado para Sobrevivendo. Claro, burrice minha, coisa de moleque achar que sabe mais do que realmente sabe.

Uma coisa era o impacto sonoro promovido por KL Jay, outra eram as vozes ásperas de Mano Brown, Ice Blue e Edi Rock, mas foi o discurso desses rapazes latino-americanos apoiados por mais de 50 mil manos que me derrubou. Nunca tinha ouvido, e poucas vezes ouvi posteriormente, tanta raiva na música popular brasileira [que me desculpem os punks] e um olhar tão aguçado e complexo – mesmo que ocasionalmente moralista, sexista e autoritário – diante das raízes e problemas das periferias brasileiras, da nossa eterna casa grande & senzala, da luta diária na periferia. Por causa de tudo disso lembro muito bem da sensação de medo e euforia que tive após as primeiras audições do disco.

Medo do tipo “a casa caiu!”. Essa “mistura de ódio, frustração e dor” por séculos de opressão e violência um dia iria transbordar e chegar às ruas. Aí quero ver branquinho aplaudir. 

Euforia do tipo “que foda!”. A democracia racial e cordial brasileira é uma farsa igualmente secular e somente a raiva e o embate, coisas raras no país, podem desmascará-la. Franco atirador se for necessário.

Orgulho e humilhação, amor e morte, soco na cara. Tudo junto.

Só que raiva pela raiva pode até gerar fagulhas, mas não necessariamente uma explosão. Daí que o mais impressionante no discurso do quarteto é, na verdade, essa energia aliada a uma gigantesca quantidade de imagens criadas em suas rimas, a sofisticação na construção das cenas, as mudanças ágeis e não lineares entre passado, presente e futuro. Cada música de Sobrevivendo no Inferno podia ser um conto ou um filme. O disco todo é um épico das quebradas, um tanto de Shaft, outro tanto de Ben Hur. Mas eu ainda precisava ouvir aquilo tudo ao vivo.


ilustração de luciano salles para sobrevivendo no inferno

Isso só foi acontecer uns nove anos depois, em 6 de maio de 2007, um domingo, 4 e meia da manhã. Nesse meio tempo, o grupo lançou mais um disco, o duplo Nada Como um Dia Após o Outro Dia [2002], e o DVD Mil Tretas, Mil Trutas [2006]. E músicas do Sobrevivendo, tais como “Capítulo 4, Versículo 3” e “Diário de um detento”, já tinham se tornado hinos populares. Tudo parecia pronto para uma noite histórica na Praça da Sé como parte da programação da Virada Cultural, mas não foi bem o que aconteceu.

Era meu primeiro show do Racionais e quando cheguei na Praça da Sé não demorou muito para sentir que algo ruim aconteceria. De um lado, um bando de moleques nervosos, ansiosos e acordados à base de álcool. Do outro, a boa, velha, violenta e despreparada Polícia Militar do Estado de São Paulo. No meio, um show com uma hora e meia de atraso.

Praça enchendo, enchendo, e eu ali na esquina com a Rua Benjamin Constant, o mais perto que consegui ficar do palco. Então uns moleques sobem na banca de jornal na esquina de cima para verem melhor o show que tinha acabado de começar. Dois, três, sete, dez sobem, e mais querem subir. Alguns decidem pular para a sacada de um prédio comercial e abrem portas e se acotovelam por espaço. Nesse momento um grupo de policiais sai de uma base móvel, passam por mim e se dirigem a banca/prédio para acabar com aquela bagunça. Uns dez, talvez.

Poucos minutos depois o grupo volta carregando um deles aparentemente ferido, atingido por uma pedra ou algo semelhante. Era o sinal que o Choque esperava [queria?] para entrar em ação. Formam então uma parede de escudos e cassetetes batendo, batendo, tum, tum, tum, tum, como a base fatídica de “Tô ouvindo alguém me chamar”. Logo atrás dos escudos alguns policiais começam a atirar bombas de gás e tiros de borracha. Enquanto sobem pela rua do lado da Praça da Sé são recebidos com garrafas de vinho barato voando por todos os lados. 

Paralisei no meio do fogo cruzado e fiquei tentando entender o que acontecia enquanto, atrás de uma árvore, desviava de projéteis de ambos os lados. Lá no palco, show interrompido após 20 minutos, Mano Brown buscava acalmar os ânimos. “Todo mundo tem revolta, eu também tenho. Mas temos que pensar com inteligência”. De nada adiantou e o grupo decidiu encerrar o show de vez, o que acabou deixando o campo ainda mais aberto para confrontos, quebra quebra, carro queimado, gente presa, machucados e gás lacrimogêneo tomando tudo, chegando até as profundezas do metrô.

A profecia se fez como previsto? 

Não. Sempre achei, continuo achando, que as questões religiosas, as citações bíblicas, de Sobrevivendo no Inferno são lidas de forma muito literal. Deus não serve de conforto para quem sabe que Ele tem déficit de atenção seletivo e que a periferia não está entre suas prioridades. Não, não vai rolar Mundo Mágico de Oz e ninguém virá ajudar. 

Mas na periferia a Bíblia é um dos principais e mais acessíveis fornecedores de metáforas, lições, moralidades e imagens. E tem a palavra que, através do coração pragmático do rapper, se transforma em rima. É um jeito diferente de cantar sua própria honra e de colocar em versos que Deus pode até ser a vida, mas o resto é com a gente. Não é fácil, mas é o que é. Pro mal e pro bem.

O show de 2007 não foi o Apocalipse, mas certamente foi o auge da tensão entre, de um lado, a Polícia Militar e o Estado branco que ela defende, e do outro, o Racionais e os muito, muito, muito mais de 50 mil manos e minas. Uma luta que já estava toda dissecada em Sobrevivendo no Inferno.

Resultado prático? Todo mundo seguiu suas vidas, mas o Racionais ficou de fora da Virada Cultura por anos e o rap foi jogado para escanteio na programação.


Mano Brown, 2012

Salto no tempo para outro domingo, meu segundo show do Racionais. Em 19 de maio de 2013, precisamente às 14h40 [20 minutos antes do horário oficial], o quarteto encheu o palco da Júlio Prestes com um bando de parceiros, crianças e o diabo a quatro. Em tudo, por todos os cantos, o clima estava muito diferente daquele show de 6 anos atrás, e olha que a praça estava lotada, 100 mil pessoas, com gente subindo em postes e árvores, janelas de prédios como camarotes. É que a Polícia Militar não estava lá para estragar a festa.

Maduros e relaxados, mas sem ter perdido um miligrama de força no processo, Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay fizeram um show poderoso e conciso [40 minutos, tinha jogo do Santos às 16h, final do Paulistão]. Algumas músicas do Sobrevivendo no Inferno estavam lá com novos clássicos já consolidados no imaginário periférico [“Negro drama” e as duas partes de “Vida loka”) e a composições recentes como “Mil faces de um homem leal [Marighella]”. Tudo cantado a plenos pulmões por uma multidão de punhos cerrados e orgulhosa de se ver cantada de forma tão real. 

Sempre atento, Mano Brown arrumou um tempo para dizer o seguinte: “Todo mundo fala da polícia, do sistema, mas vi vários manos se desrespeitando, se roubando, se saqueando […] O rap precisa de gente de caráter, não de malandragem”. Respeito é pra quem tem, como diria o saudoso Sabotage, e é a palavra, a palavra certa, direta e reta que diferencia os homens dos meninos. 


ao longe, Racionais na Virada de 2013

A fúria negra de Sobrevivendo no Inferno continua tão intensa e necessária quanto antes, e parte dela ainda não se resolveu. Mas esse show da Júlio Prestes foi um sinal cristalino de que aquela raiva de tempos atrás não sumiu e nem pode sumir – afinal, tem muita desigualdade por aí e muita gente que lucra com essa desigualdade –, mas que agora ela convive com a leveza da sabedoria. 

É que a criação desse quarteto paulistano se entranhou profundamente no imaginário/vocabulário de grande parte dos brasileiros, e hoje em dia é tão domínio popular quanto Adoniran Barbosa, Roberto Carlos, Dorival Caymmi e assim por diante. Por outro lado, a violenta grandeza da dobradinha Sobrevivendo no Inferno e Nada Como um Dia Após o Outro Dia na virada do século fez uma sombra muito grande sobre muita gente. Foi preciso tempo e novos MCs e DJs, manos e minas, e de todos os lugares do país, para dissipar tamanha angústia da influência.

Nos últimos anos, por causa desse desprendimento estético e do crescimento econômico, o rap ganhou por aqui mais qualidade, quantidade e variedade [de temas, batidas, tudo]. Ganhou também mais mercado e é, hoje em dia, o gênero musical que dialoga com ferocidade e balanço com o maior número de pessoas dos mais diferentes estratos sócio-econômicos. 

Nesse novo cenário, Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay são os pioneiros, os irmãos mais velhos, os caras mais fodas da música popular brasileira [negra, branca, índia, etc.]. São fundadores, porta vozes, inventores e estão absolutamente tranquilos quanto ao próprio legado e a força que ainda possuem. E mesmo que saibam que o rap brasileiro está amadurecendo em ótimas mãos, eles tem uma missão. Não vão parar. 

Já eu... bem, não faço ideia do tanto que já ouvi Sobrevivendo no Inferno e também perdi a conta de quantas novas audições acompanharam este texto. Mas em todas aprendi mais sobre São Paulo e o Brasil do que jamais pude imaginar. E toda vez que Mano Brown se despede...

“Aí ladrão, tô saindo fora. Paz.”

... eu respondo: “‘té a próxima!”



EPÍLOGO FICCIONAL 

Entre 2003 e 2005 tive uma coluna no Gafieiras chamada “Disco do mês de sempre”, no qual escrevi ficções inspiradas em alguns dos meus discos preferidos; Sobrevivendo no Inferno foi o décimo de um total de quinze e foi publicado originalmente em algum lugar de 2004.

O carro vai rápido pela Marginal e não pára de balançar. Nunca vi um asfalto tão ruim, tanto remendos. Mas agora é noite e o carro voa, o som no talo. Passo por uma ponte. Tem alguém lá em cima segurando uma lança e acho que está de armadura. Brilha de tão prateada. Quase fico cego. Foi rápido, passei, mas ele estava olhando para mim, certeza, de roupas e armas. Queria me acertar, o Jorge... nada vai me fazer parar, nem ele, ninguém. 

Passa outra ponte, ali a última saída, e lá no alto um avião fazendo barulho. Tá descendo. Retorno proibido. Tudo em obras. Perto daqui tinham uns prédios cinzas, janelas pequenas, e muitos homens dentro. Mataram 111. Explodiram os prédios. O rio não quer nem saber, tá morto também, esticado. De vez em quando incha e transborda, mas não é vida, é espasmo.

Aumento o som, queria fugir, só que o piano entra cortando, muito sangue. Uma faca. Queria esquecer. Peguei a Marginal pra isso. Eu sou bem pior do que você tá lendo... todo mundo pro chão, pro chão, tira a mão daí, vai filha da puta, pega o malote, filha da puta, solta, o seguro vai cobrir, solta... se eu sair daqui eu vou mudar. Tô ouvindo alguém me chamar. Era outro carro? Uma moto? Só ouvi o meu nome. Corro demais.

Chega desse rio parado, essa piscina de sangue. Quero a estrada, uma voz de mulher, eu quero mudar, vento na cara, então piso fundo e deixo a última ponte para trás. Mas não resisto e olho pelo retrovisor. Ah, tá lá de novo, o cara da armadura. Seguro a cruz em meu peito e começo a gritar... foda-se seu filha da puta, vem com a lança, vem, eu tenho coração, isso é meu, ninguém tira... ele fica lá, paradão como o rio, e cada vez menor. Estou vivo.

sábado, 20 de outubro de 2012

mulheres, sangue e champanhe

já tem uns dias que o belíssimo clipe de "sangue é champanhe" está rolando pela rede. queria ter comentado antes, mas a correria anda braba. conheci o rapper don l em 2008, quando o entrevistei para o gafieiras. na época ele era integrante do grupo costa a costa, um das mais instigantes revelações do rap nacional dos últimos tempos (acho a mixtape dinheiro, sexo, drogas e violência de costa a costa, de 2007, uma das grandes obras musicais dos anos 2000). daí que don l começou a fazer seus próprios sons e novidades não tardaram a aparecer. mais eletrônico, pesado e diverso, o rap do cearense também ganhou novos temas, menos periféricos, o que já se rascunhava nas rimas do costa a costa. agora ele está prestes a lançar, numa batelada só, duas mixtapes solo: caro vapor e vida premium beta. mas vou parar com o blábláblá... com vocês, "sangue é champanhe", com participação de flora matos.

Sangue é Champanhe_Don L. feat. Flora Matos from LuckyBastardsInc on Vimeo

pra quem espera o clima chavão de rap (quebradas, crime, cidade cinza, etc.), "sangue é champanhe" é uma surpresa e tanto. mulheres lindas, nuas, paisagens deslumbrantes ao redor do brasil e mundo, diversão, prazer, brincadeira, bebidas, comidas, tudo em clima tranquilo de hedonismo (enquanto don rima suavemente sobre a volatilidade da vida e dos afetos). a direção é da dupla erica gonsales e autumn sonnichsen (que pouco antes tinham feito o igualmente belo vídeo "one day"). ah, e tem uma entrevista boa com o cearense no portal da mtv.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

yahoo #26

não consegui acabar esse texto para o dia do aniversário de são paulo (25 de janeiro) e saiu um dia depois, mas não acho que foi por isso que teve tão pouca repercussão. não importa, achei que ficou legal e tem umas coisas aí que venho pensando faz tempo. enfim, o show não pode parar e já está no ar "o país da internet moleque", sobre a bem humorada relação dos brasileiros com o tumblr. simbora.

de vez em quando chamo são paulo de gotham city (não é exclusividade minha, claro) e foi sensacional ver esse foto com batman como motorista de busão. ainda mais porque é em fortaleza, minha terra natal. tudo em casa.


SÃO PAULO, VELHA E LOUCA

Tudo em São Paulo é um pouco torto. Cheio de ramificações e um pouco torto, fora do lugar. Com a música não seria diferente. Talvez sejam misturas demais, ou uma combinação peculiar de seriedade com humor autodepreciativo, mas o fato é que poucos artistas (nativos ou não) da cidade se tornaram conhecidos em todo o país (cidade que, aliás, fez ontem 458 anos). Lembro agora de cabeça, e claro que tem mais gente, da Inezita Barroso na década de 1950, d’Os Mutantes no fim dos anos 1960, de Adoniran Barbosa e Os Demônios da Garoa, tardiamente, nos 70, das bandas Titãs, Ira!, Ultraje a Rigor e RPM na década de 80, do rap dos Racionais MCs e do pagode de Exaltasamba, Art Popular e Raça Negra nos 90. Cada uma dessas histórias é diferente da outra, mas todas são profundamente paulistanas. De qualquer forma é pouco perto da enorme quantidade de sucessos musicais brasileiros.

Procurar entender isso, sacar que intensa não-identidade musical é essa que o país às vezes compra e muitas vezes não, acabou virando interesse pessoal desde que comecei a viver aqui em 1994. Mas quando passei de ouvinte amador a profissional – em 2001 fundei com um grupo de amigos o site Gafieiras, com grandes entrevistas musicais, no qual fiquei por uma década –, o que era obsessão leve ficou preocupação aguda.

Então fui acionando túneis do tempo e viajando pelos sambas de Paulo Vanzolini, Geraldo Filme, Eduardo Gudin e Germano Mathias, pelo balanço do Trio Mocotó, Skowa e Branca di Neve, pelas experimentações de Arrigo Barnabé e Rumo (a turma de Ná Ozzetti e Luiz Tatit), pelo rock de Fellini, Akira S e Violeta de Outono, e muito muito rap (Thaide & DJ Hum, Athalyba e a Firma, etc). Até punk. Nessa época já conhecia bem a dupla Mauricio Pereira e André Abujamra (Os Mulheres Negras) e Itamar Assumpção, outras caras cruciais de São Paulo. Quer dizer, só esse pouco mencionado dá uma boa ideia de que é impossível fazer um retrato-falado da música negra, branca, atonal, pop, caipira e o diabo a quatro dessa cidade.


Por isso falei de “não-identidade” e também por causa de um dos textos que mais me fez entender o que é a música popular de São Paulo, e que foi publicado pela Folha de S. Paulo em julho de 2001 (olha o ano do astronauta libertado de Tom Zé, o baiano paulistano, e Mutantes de novo). Nele, o professor e compositor Zé Miguel Wisnik disse que “com exceção da música caipira, guardada tradicionalmente na voz encorpada e reta de Inezita Barroso, em São Paulo não se criaram os gêneros. Aqui eles se encontram, se misturam, se desmancham, são processados e reprocessados e tratados muitas vezes com aquela distância relativizante de que se investem as coisas quando elas são sabidamente de empréstimo”. Tudo é aqui, nada é daqui (nem falarei da grande quantidade de músicos de fora de São Paulo que fizeram seu trabalho na cidade; isso é um grande capítulo à parte).

A impressão que tenho é que em cidades como Salvador, Rio de Janeiro, Recife, Porto Alegre e Belém, os sons e o ritmo vem antes de tudo, muito antes do verbo. Um exemplo singelo: poucas coisas são tão cariocas quanto um mineiro radicado no Rio. Em São Paulo não. Tudo existe fora, antes, e é nela que tudo se mistura. Não é um rosto fácil de identificar. Nem de gostar também. Daí talvez nasça certa dificuldade do Brasil com a música de São Paulo e, ao mesmo tempo, um fascínio de artistas de tudo que é canto com essa enorme variedade de possibilidades. Em alguns lugares isso se chama liberdade, n’outros é caos mesmo.

Todo esse acúmulo de histórias, desenraizamentos, experiências, paixões, horrores e vivências gerou nos anos 2000 uma das gerações de músicos mais interessantes e (ainda mais) diversas da história de São Paulo. É a terra que continua quebrando o samba no trabalho de artistas como Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Romulo Fróes e Douglas Germano. É onde o rap ganhou corpo e força com gente como Criolo, Emicida, Lurdez da Luz, Rodrigo Ogi, Flora Matos e CaGeBe. É nela que a música instrumental perdeu o medo de ser, de alguma forma, pop e experimental (vide Hurtmold, MarginalS, Bixiga 70 e Guizado). É por onde escoam as novas vozes femininas de Tulipa Ruiz, Anelis Assumpção, Céu, Andreia Dias, Mariana Aydar, Iara Rennó, Luisa Maita e Mallu Magalhães. Falei do balanço moderno de Curumin ou do lirismo de um dos maiores descendentes de Roberto Carlos, o cantor e compositor Marcelo Jeneci? Ora pois, estou falando agora e só arranhando a pontinha desse Minhocão.

Não dá para prever quem deles(as) serão os novos Mutantes, as novas Inezitas, direto da Terra da Garoa para o Brasil (será que é preciso?). Por outro lado, o sucesso de hoje também não é o mesmo do tempo das gravadoras e discos de ouro. Enquanto isso, São Paulo continuará sendo...


p.s. 1: pouco antes de começar a escrever esse texto vi o clipe mais recente de Mallu Magalhães (“Velha e Louca”) e, de repente, a letra da música, tão confessional do atual estado de espírito da cantora, me pareceu uma ótima descrição de São Paulo. Acabou inspirando o título da coluna. “Pode falar que eu não ligo, / Agora, amigo, / Eu tô em outra, / Eu tô ficando velha, / Eu tô ficando louca / (...) / Pode falar, não importa / O que eu tenho de torta, / Eu tenho de feliz, / Eu vou cambaleando / De perna bamba e solta”, canta a ex-menina.

p.s. 2: dias após publicar o texto no Yahoo veio a notícia da morte súbita do diretor desse clipe da Mallu. Paulo Gandra tinha 28 anos e estava em Londres. 

p.s. 3: também após a publicação do texto fiquei sabendo da existência desse vídeo com Criolo cantando Itamar Assumpção e lamentei não ter colocado lá no Yahoo. Depois vi que não ia ter jeito mesmo. Precisava de uma música/video que mostrasse bem claramente o humor paulistano (nada melhor que Mulheres Negras) e não podia ficar sem o clipe da Mallu (afinal, foi a música que deu o título à coluna). Mas aqui a história pode ser reescrita, então escutem só Criolo cantando "O tempo todo", que surgiu na Caixa Preta em interpretação de Seu Jorge.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

gafieiras ao vivo

quarta-feira, dia 14 de setembro de 2011, o gafieiras fez sua primeira entrevista com transmissão via twitcam. o protagonista da vez foi o grande violonista heraldo do monte que no dia seguinte declarou em seu facebook: "nunca me desnudei tanto numa entrevista como a de ontem". foi a primeira ação comemorativa dos dez anos de existência do site e até o fim do ano sobe o sítio de cara totalmente nova. e fora as muitas entrevistas de arquivo, quatro inéditas estão na fila para chegar ao público. tem sérgio ricardo, nasi, luiz tatit e gaby amarantos. a quinta é essa do heraldo, que já está na íntegra em video logo abaixo, mas que ganhará sua versão transcrita no site novo



som, imagem e transmissão rolaram muito bem. e a entrevista foi excelente, como de costume. assisti metade das poucos mais de duas horas de conversa boa por motivos de força maior (trabalho, trânsito), mas o que vi honrou a tradição.

bateu também uma tristezinha, afinal fazem uns três meses que me desliguei oficialmente do gafieiras após quase dez anos de serviços prestados, e acompanhar a entrevista de longe (via twitcam, oras) dava um aperto no coração. mas fiquei muito feliz em ver como as coisas deram certo. e felicidade é o que importa, né não? vida longa ao gafieiras.

ah, e se você não faz ideia quem é o velhinho falante da janela acima - mais informações sobre sua longa, discreta e sensacional carreira no dicionário cravo albin - saiba que ele integrou um dos grupos instrumentais mais interessantes, e de vida mais breve, da história da música brasileira, o quarteto novo. eram heraldo (viola e guitarra), théo de barros (violão e contrabaixo), hermeto pascoal (flauta) e airto moreira (bateria e percussão) e um disco saiu desse encontro, quarteto novo (odeon, 1967). clique na imagem e divirta-se.

fica mal com deus? como pode?

domingo, 12 de setembro de 2010

uma vida não é nada sem amor

olha, não sabia desse encontro de dom salvador (e a banda abolição) com a elis regina. descobri porque atualizando o @gafieiras vi que hoje é aniversário de 72 anos de salvador da silva filho. aí fui no youtube dar uma procurada e achei esse registro simplesmente genial do final do ano de 1971. essa canção se chama "uma vida" (dom salvador e arnoldo medeiros) e abre um dos melhores discos da música popular brasileira, som, sangue e raça (cbs, 1971). parabéns, dom salvador! a gente só tem a agradecer.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

ela toca campainha e sai correndo

encontrei com maria rita em um café chique na rua oscar freire, em são paulo, acho que em outubro de 2005. nossa conversa estampou a capa da tam magazine (spring) de novembro do mesmo ano, com fotos dos bróders da cia. de foto e coisa e tal. mas antes da entrevista acontecer houve uma certa tensão no ar, principalmente por causa dos assessores da cantora, completamente neuróticos pela recente polêmica criada, com aquela leviandade de sempre, pela revista veja (o caso dos ipods distribuidos pela gravadora warner para algumas figuras da imprensa - aqui, "o mensalinho de maria rita", é comentado por luis antônio giron). nada de fazer perguntas sobre o caso, nada de perguntas sobre a vida pessoal, etc. como se eu me interessasse por fofocas, vejam só vocês. só que quando maria rita chegou e o gravador foi ligado tudo isso desapareceu e a conversa rolou muito bem, e ela sempre muito simpática, muito acessível.

nesse tempo, maria rita estava lançado
segundo (warner, 2005), um disco agradável e sonoramente próximo a sua ótima estreia em maria rita (warner, 2003). depois desse nosso encontro fulgaz, a cantora se mudou para o rio de janeiro e caiu no samba. achei o terceiro disco da moça, samba meu (warner, 2007), um tanto chato, talvez pelo excesso de composições de arlindo cruz - eu realmente não gosto da escola cacique de ramos, não tem jeito - e por respeitar muito o cânone carioca do samba (fiz resenhas dos três discos para o gafieiras e os link estão em maria rita, segundo e samba meu). no mais, maria rita, que ontem completou 33 anos, continua uma das melhores cantoras da atualidade. e a vida continua.

A CERTEZA DE SER MARIA RITA

Quando, há dois anos, a cantora Maria Rita surgiu para o grande público foi com a força de um fenômeno natural, um furacão, um terremoto, um vendaval, e em seu rastro brotaram todo tipo de comentários: produto de gravadora, linda, filha da Elis, produto de marketing, maravilhosa, revelação, filha de César Camargo Mariano, um novo sopro de vida da MPB e assim por diante, para todos os gostos. Muita coisa mudou desde então e Maria Rita tanto ganhou quanto perdeu. Ganhou um filho, Antônio. Ganhou uma legião de fãs de todas as idades, e em mais de 30 países, que levaram as vendas de seu disco de estréia a ultrapassarem as 800 mil cópias. Perdeu o amigo e produtor do primeiro CD, Tom Capone, morto em um acidente nos EUA na noite da entrega do Grammy Latino 2004 (onde Maria Rita, que estava lá, levou três prêmios).

O mundo deu muitas voltas e recentemente deu mais uma paradinha para ver a cantora lançar seu esperado segundo disco, e por isso mesmo intitulado de
Segundo (Warner Music). A Maria Rita que se vê hoje não é a estrela distante que se espera, é apenas uma jovem mulher que sofre quando o filho fica doente, cola frases em sua agenda, brinca, grita, fala palavrão e sente uma força inexplicável quando sobe ao palco e enfrenta platéias com desejos e expectativas tão diversas. “Quem sou eu para julgar as interpretações dos outros. também sou uma intérprete”, disse durante a entrevista exclusiva.

O certo é que Maria Rita faz suas escolhas ouvindo a intuição. Foi assim que manteve a sonoridade ao vivo com piano, baixo e bateria dos amigos Tiago Costa, Sylvinho Mazzuca e Cuca Teixeira: “Se eu mudasse falariam que não tenho personalidade e se eu repetisse diriam que estou seguindo uma fórmula”, brincou. Foi assim que voltou a gravar composições de Marcelo Camelo, da banda carioca Los Hermanos, que no primeiro disco emplacou três e agora volta com duas, “Casa pré-fabricada” e a inédita “Despedida”. Foi assim que apostou suas fichas em compositores pouco conhecidos como Rodrigo Maranhão, Edu Tedeschi e Edino Krieger, além de encarar interpretações pessoais dos clássicos “Sobre todas as coisas” (Chico Buarque e Edu Lobo) e “Minha alma (A paz que eu não quero)” (Marcelo Yuka e O Rappa). Foi assim que chamou o ídolo Lenine para co-produzir o disco a seu lado. E foi assim por diante, feliz e certa de suas escolhas, que chegou ao final das gravações de
Segundo.

mãe elis, filha maria rita

Vendo você nos shows, ouvindo você falar, dá para notar uma postura pessoal bastante discreta. Como é ser assim e ter que lidar com um grande esquema de divulgação que exige superexposição?
É difícil, é algo que gera conflitos mesmo, porque eu realmente sou uma pessoa mais envergonhada, mais caseira. Não gosto muito de falar. E toda essa exposição gera muitos incômodos no dia-a-dia... gente tocando a campainha ou telefonando... mas é claro que é uma escolha. Sou uma artista e quero que as pessoas conheçam meu trabalho, mas é preciso colocar limites. Isso é muito importante.
E onde colocar esse limite?
Também é difícil saber porque uma hora tudo bem e outra hora não. A resposta é vaga... porque sim! Mas a gente também tem que pensar que para a pessoa levantar de onde ela está, respirar fundo... porque, enfim, é um ídolo dela ou é alguém que ela admira... e vir falar exige também uma coragem. Mas ao mesmo tempo vejo palavras minhas numa revista e não disse nada daquilo ou... quem tirou esse foto do meu filho? Quem deu autorização? Eu só trabalho com quem me cobra. Não sou preferencial, preferenciável ou prereferenciada. Não quero isso. Quero que respeitem meu trabalho, e as pessoas com quem trabalho, como respeito o trabalho de todo mundo.
E como foi esse aprendizado de lidar com todas essas questões?
Como tudo aconteceu muito rápido no primeiro disco, foi uma coisa meio no susto, não tive muito tempo para digerir. É assim? Então tá! Mas é um aprendizado diário. Chegou um momento na turnê do primeiro disco que não conseguia dormir, não conseguia sair com os amigos, namorar, tava fazendo mal a minha saúde. Foi muito delicado. E ao mesmo tempo você tá no meio disso tudo e não dá pra parar porque tem gente que tá comprando, gente que tá vendendo, gente que tá segurando a onda.


Maria Rita - Cara Valente
Enviado por azvix_1
Mas você esperava que fosse assim? Qual era tua expectativa?
Eu achei, claro, que fosse ter uma procura porque sou filha de dois grandes ídolos da música brasileira e minha mãe tem muitos fãs até hoje. Achei que houvesse uma curiosidade normal. Mas não achei que fosse tanto e que fosse tão rápido. De repente começou a encher o Supremo Musical
[onde Maria Rita começou a cantar ao lado de Chico Pinheiro e Luciana Alves logo que voltou dos Estados Unidos], que tinha 70 lugares. Tivemos que fazer shows extras. Aí mudamos para um outro lugar um pouco maior, o Crowne Plaza. E começou a lotar também. Recebi até uma carta de uma fã dizendo que apanhou na fila porque queria comprar quatro ingressos e a gente tinha limitado em dois por pessoa. Uma loucura. Essa rapidez com que as coisas aconteceram me impressionou. E tenho que entender meu lugar nisso tudo.
Você já fez os shows de lançamento do disco novo em São Paulo e no Rio de Janeiro. Notou alguma diferença no público deste disco para o público da sua estréia?
A gente já notou uma diferença durante a turnê do primeiro disco. O público foi ficando mais jovem. No começo apareceram os fãs da minha mãe, fãs de todas as idades, mas rapidamente isso foi mudando, foram aparecendo jovens, adolescentes e até crianças. As pessoas cantavam as minhas músicas e, juro, nunca ninguém pediu nenhuma música da minha mãe nos shows. Acho que todos logo perceberam que quem estava ali no palco era a Maria Rita.
E como surgiu a idéia do Lenine produzir o disco?
Quando o Tom Capone morreu eu fiquei muito insegura. Foi um baque muito forte porque a gente se entendeu muito rápido e era uma coisa que não precisava de palavras. No olhar a gente se entendia. Tinha muita verdade, muita entrega. E ele virou logo uma referência musical pra mim porque produziu de tudo, MPB, rock, tudo. Foi difícil pensar em um produtor novo. Aí, um dia, o Álvaro [Alencar], que é amigo de infância do Tom e foi engenheiro de som do primeiro disco, disse: “E o Lenine?”. O Lenine? E foi o primeiro nome com quem me senti confortável. Já tinha gravado uma música dele no primeiro disco (“Lavadeira do rio”) e o admiro muito. Senti que esse era o caminho e que tava tudo bem.


Você manteve a mesma sonoridade do primeiro disco no segundo com piano, baixo e bateria. Ao vivo. Foi uma escolha natural?
Pois é, se eu mudasse falariam que não tenho personalidade e se eu repetisse diriam que estou seguindo uma fórmula [risos]. Um dia eu tava folheando uma revista e vi uma propaganda, tinha uma mulher toda poderosa, um fundo branco ao lado, e uma frase que dizia assim: “A intuição é a arma mais poderosa da mulher. Use-a!”. Achei aquilo o máximo, colei na agenda e tudo. Decidi usar minha intuição, meu coração e pensei... porque mudar? Estou com esses músicos há anos, são meus amigos. Eles entendem minha linguagem corporal no palco. A gente se entende muito bem. Segui então minha intuição.
Mas você tem vontade de se envolver com outras sonoridades, outros tipos de formação?
Tenho sim. Gosto muito de metais e uma paixão pelo trompete. Gosto de cordas. Tenho vontade de fazer uns projetos especiais, mas não sei se esse é um nome adequado. Gosto de rock, tenho isso dentro de mim. Quero colocar isso pra fora. Não sou uma bonequinha! Não mesmo. Fico indignada com muitas coisas, com todas essas injustiças sociais, crianças abandonadas na rua, e acho que tem sonoridades que cabem melhor a esse tipo de indignação. O rock, por exemplo.
E você toca algum instrumento?
Campainha [risos]. Adorava tocar campainha e sair correndo [risos]. Mas tenho vontade de aprender algum instrumento sim, mais até do que compor. Tem esse lance de menininha... papai é meu herói... então tenho um lance com piano. Acho piano tão bonito!

domingo, 5 de setembro de 2010

domingueira

"amplidão", climática que só ela, é a faixa que dá início ao excelente segundo disco de guizado, calavera (trama, 2010). o trompetista e compositor paulistano já tinha acertado muito na estreia com o instrumental punx (diginóis/urban jungle, 2008 - resenha minha lá no gafieiras) e calavera chega para mostrar novos caminhos para o seu som, inclusive cantados pelo próprio (isso provavelmente se deve pelo fato de ser um dos músicos mais requisitados por vozes como karina buhr, lurdez da luz e tulipa ruiz). mas voltando a "amplidão", música para esse primeiro domingo de setembro... ela ganhou um ótimo clipe-colagem feita por daniel bernardinelli. reconheci cenas de metropolis (fritz lang, 1927), o processo (orson welles, 1962), alphaville (jean-luc godard, 1965) e repulsa ao sexo (roman polanski, 1965). todos sombrios, com realidades opressoras.


amplidão | GUIZADO from daniel bernardinelli on Vimeo

p.s.: sempre gosto de ver quem são os músicos que acompanham os artistas principais e nesse caso do guizado fica até engraçado (já que ele também é acompanhante em muitos casos). enfim, o sujeito formou uma banda fixa & da pesada desde o punx, com os cearenses régis damasceno (cidadão instigado e mr. spaceman, seu trabalho solo) e rian batista (cidadão instigado), além do paulistano curumin. participação nessa faixa de tiquinho (trombone) e amilcar rodrigues (trompete). mas o disco ainda tem céu, karina buhr, dustan gallas, etc.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

mais uma do beco

taí música e clipe novos do ca.ge.be. (sigla de 'cada gênio do beco'), um dos melhores grupos de rap a surgir em são paulo nos últimos tempos. "oba! clareou" é a primeira faixa a sair de o vilarejo (equilíbrio discos, 2010), segundo disco de césar sotaque, shirley casa verde & cia. falei do excelente trabalho de estreia, lado beco (equilíbrio discos, 2007) lá no gafieiras.



fiquei sabendo via portal rap nacional.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

1974

foi o ano que nasci, e que meus pais não tiraram férias. foi o mesmo que jards macalé lançou o disco aprender a nadar (philips), seu segundo solo, com uma das músicas mais lindas da história mundial do mundo: "rua real grandeza" (jards macalé e waly salomão).

jards macalé - rua real grandeza by dafne47

lá no gafieiras tive uma coluna chamada disco do mês de sempre, no qual escrevi textos curtos e ficcionais inspirados em discos clássicos (alguns bem no esquema colagem como esse aqui). teve discos de figuras como jorge ben, racionais mcs, batatinha, egberto gismonti, chico buarque, roberto carlos, paulinho da viola, paulo vanzolini, elis regina e romulo fróes (15 ao total). mas começou, coincidentemente, com esse disco do jards, justo do ano que nasci. já faz muito tempo que não escrevo e nem me interesso por ficção (na literatura), então segue o texto, sem nenhuma revisão espaço-temporal e com um pouquinho de vergonha.

...

Estava nascendo e ouvia uma voz batendo suavemente na barriga da minha mãe - "vale, vale a pena ser poeta!" -, mas relutava em sair. Só o calor e aquela escuridão úmida, fruto de dois corações que se amavam de verdade, importavam. Posso ficar mais um pouco? E ouvir meu pequeno coração descompassando em jatos de sangue?

Mas então meu pai encostou a boca na barriga de minha mãe e sussurrou, "tudo é alegria". Parecia um aviso. O médico veio da sala ao lado com um instrumento de ferro que parecia poder agarrar um pouco mais de seis cabeças ao mesmo tempo. Seus olhos cansados de uma longa madrugada escoavam um só lamento, "tudo é ilusão". Vi muito claramente que não poderia mais ficar ali e que para ser poeta precisava antes nascer. Só mesmo vendo. Doeu... e o mundo ficou de cabeça para baixo.

A luz fria da sala me cegou, o frio me fez chorar e não conseguia deixar de ouvir música por todo o lado. Não eram violinos, nem trombetas, pareciam mais violões dobrados e caixas de fósforo. Gemi entre sete cordas e soltei um silencioso "e daí?"

Mãos emborrachadas me levantaram ao céu do quarto e logo depois fui descendo até o peito de minha mãe que entre um choro e outro me segredou, "não pode haver no mundo maior felicidade". Mas vai continuar assim? pensei. E se eu saltar de banda? E se eu saltar de lado? Meu pai não tardou a emendar, "meu querido, samba é sempre a mesma história". Uma tesoura veio correndo prateada e jogou fora o cordão. Aliviada, a enfermeira cantou "vou aprender a nadar... eu não quero me afogar". Silêncio, olha o vexame, o ambiente exige respeito.

Fui retirado para o berçário, minha mãe foi para o quarto descansar e meu pai saiu para comer alguma coisa. Nada de café, estraga o estômago, são quatro e meia da manhã. A sala de cirurgia ficou assim vazia. Paisagem de fim de festa. Meu olhos pareciam grudados de tanta música, mas não estava com medo, já havia nascido com a alma em sinuca. Todo o resto seria mais fácil.

p.s.: achei um myspace em homenagem ao jards - o site dele que existiu sumiu no éter - e a imagem de fundo da página é uma foto tirada para a entrevista que ele deu ao gafieiras.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

encontros: ceumar & dante ozzetti

mais um encontro musical do fundo do baú. outro texto feito para a tam magazine, em tempos de editora spring, lá em setembro de 2006. a entrevista com ceumar e dante ozzetti aconteceu na casa de dante numa tarde bonita e foi tão deliciosa quanto a audição do disco que a dupla produziu naquele ano (achou!). de lá pra cá, ceumar se mudou para amsterdã - acho que casou com um gringo - e ano passado lançou o seu terceiro disco solo, meu nome. já dante segue acompanhando a irmã ná ozzetti e em outros projetos especiais, mas não lançou nenhum outro disco autoral.

a colorida capa de achou! (assinada por jaime prades)

PARCERIA É INVESTIMENTO, AMOR TAMBÉM


É fácil ver quando uma música pega em um show. Os pés das pessoas começam a bater ritmadamente, a cintura balança, tudo se espalha por cabeças e braços, sorrisos despontam e dá pra ver a vontade, estampada na cara, de cantar junto. Foi bem assim que o público do Festival de Música Brasileira da TV Cultura, realizado no segundo semestre de 2005 em São Paulo, recebeu a música “Achou!”, parceria de Dante Ozzetti e Luiz Tatit defendida pela cantora Ceumar. A canção ficou com o segundo lugar em uma polêmica decisão dos jurados, mas Ceumar e Dante, que esteve no palco tocando violão ao lado da cantora mineira, preferiram comemorar a alegria de terem tocado juntos uma música cuja recepção foi pra lá de calorosa. Assim mesmo, sem traumas nem esconjuros, como deixaram bem claro em conversa de fim de tarde.


“As músicas concorrentes tinham torcida e ‘Achou!’ acabou sendo incorporada por todas no decorrer do festival porque ela tem uma coisa que contagia todo mundo”, é Dante procurando explicações. Já Ceumar acredita que “a letra fala do amor de um jeito atual e as pessoas estão ligadas nesse jeito novo de falar, nesse jeito novo de amar. Com a recepção do público a gente ficou com uma sensação de ‘e aí?’”. A resposta veio em forma de um convite da gravadora MCD para gravar um disco e o resultado é Achou!, CD com doze faixas, sendo que oito delas compostas especialmente para o projeto por Dante em parcerias com Zeca Baleiro, Zélia Duncan, Chico César, Kléber Albuquerque e Luiz Tatit. “Fui compondo pensando no meu universo e no universo dela e dos músicos pra construir uma coisa da gente. Tudo deu certo desde o começo”, relembra Dante sobre o processo de composição que atravessou todo o mês de janeiro [de 2006]. Ceumar completa que “uma referência pra gente em termos de parceria foi o Elis & Tom, um disco clássico e básico. Não com a pretensão de ser um outro Elis & Tom, claro, mas buscando aquele primor, aquele cuidado”.
Ceumar e Dante já se conheciam por amigos em comum, mas somente no ano passado começaram a trabalhar juntos. Primeiro, quando o violonista convidou a cantora para participar em uma temporada que fez no paulistano Café Piu Piu. Depois, a cantora convidou o violonista para escrever arranjos para uma apresentação sua com a Orquestra de Cordas de Curitiba. A empatia entre os dois foi rápida e desaguou no festival. “A Ceumar tem uma baita presença de palco. É impressionante. Ao final do show todo mundo quer levar ela pra casa”, derrete-se Dante. Após um breve sorriso, entre orgulhoso e tímido sobre o reconhecimento, Ceumar admitiu que “há tempos adoro as composições e o violão do Dante. Foi legal ver outros lados da minha voz, e muito desafiador também porque tive que estudar para encontrar estas músicas. E elas são lindas e muito sofisticadas nas melodias”.

Samba rasgado, frevo, xote, rock e balada estão no cardápio deste primeiro registro da dupla, e da banda, também creditada como co-responsável pela sonoridade afiada e a alegria coletiva transmitidas pelo CD. “Minha função no grupo era de desestabilizar”, diverte-se a única mulher do bando. Com dois discos solo na bagagem,
Dindinha (MCD, 2000) e sempreviva! (MCD, 2002), Ceumar vem de uma carreira independente e sólida onde é conhecida tanto como compositora quanto como violonista, além de também interpretar canções de Itamar Assumpção, Arnaldo Antunes, Zé Ramalho e Zeca Baleiro (autor de “Dindinha”, música que a lançou no final da década de 1990), entre outros. Dante Ozzetti, por sua vez, é mais conhecido por seus trabalhos como músico, arranjador e produtor para a irmã Ná Ozzetti. Ganhou, em 2000, o Prêmio Visa – Compositores o que lhe possibilitou gravar seu disco de estréia solo, o belíssimo e pouco conhecido Ultrapássaro (Eldorado, 2001).

Com o disco nas lojas e shows de lançamento planejados
, Ceumar e Dante concordam em uma coisa: “ninguém sabe o que vai acontecer”. Mas como bem diz a cantora, “o que me interessa é atingir a pessoa que tá ouvindo e fazer ela sorrir ou chorar. Acho que é assim, pelo coração, que a gente consegue atingir mais pessoas. Afinal, não temos nenhuma obrigação, somos independentes, e sabemos que existe um espaço para a curiosidade”. E ambos saem para fazer as fotos que ilustram esta matéria, Dante com seu violão e Ceumar acompanhada de uma sombrinha roxa, felizes porque sabem que investir é isso, é cultivar o amor.

p.s.: segue abaixo o video de uma das apoteóticas apresentações de "achou!" no festival de música brasileira da tv cultura em 2005. e aqui nota que fiz sobre o disco para o gafieiras.


domingo, 25 de abril de 2010

from south africa with love

grande cantora sulafricana, miriam makeba (1932-2008) foi acompanhada durante muitos anos pelo violão do mestre sivuca (1930-2006). ele também assinou arranjos de muitos dos seus sucessos, entre eles "pata pata". mas nada disso tinha me preparado para esse video lindo com makeba, sivuca ao fundo e "chove chuva" (jorge ben), em algum lugar da segunda metade da década de 1960. dica de andré leão (@alpn00).



separei abaixo dois trechos da entrevista que sivuca deu ao gafieiras em 2004 e que tratam do encontro com makeba (eles trabalharam de 1965 a 1969 e depois se reencontraram algumas vezes como no show zaire 1974, aquele do documentário soul power (2009), mencionado aqui em um post sobre bill withers, outro artista no show):

Miriam Makeba foi em 1965, no final do ano. Ela precisava de um violonista, um contrabaixista e um percussionista. Aí eu fui lá fazer um teste de violão na mão. Quando me mostravam como era o ritmo que ela cantava, era a mesma coisa que um ritmo nordestino, que nós chamamos de balaio. Fui tocar o balaio pra ela cantando. Ela olhou pra mim... A filha dela falava francês e eu não falava nada de inglês. Nessa altura eu já falava francês. “Sivuca, minha mãe quer saber onde é que o senhor aprendeu o ritmo sul-africano tão bem?” Eu disse: “Diga a ela que foi por assimilação. Estou fazendo um ritmo nordestino chamado balaio que é igual ao que ela chama de upacanga, da África do Sul”. Aí fui logo contratado por ela.

Mas aí essa audição que começou às três da tarde, terminou às duas da manhã com todo mundo de fogo. Miriam era muito amiga de Jorge Ben, Jorge Benjor, e começou a cantar “Mas que nada” e eu comecei a acompanhá-la. Ela vibrou! Aí fiquei quatro anos e meio trabalhando com a Miriam.

p.s.: aliás, falando em soul power, o documentário acabou de sair em dvd aqui no brasil pela sony e com alguns extras, tais como ótimas cenas excluídas e uma faixa de aúdio com os comentários do diretor do filme e do produtor do show. tem que ter (ou ver).

quarta-feira, 17 de março de 2010

encontros: ná ozzetti & andré mehmari

de volta ao baú. essa minha reportagem sobre o encontro da voz de ná ozzetti e o piano de andré mehmari saiu na tam magazine de setembro de 2005. a entrevista com os dois rolou na bela casa-estúdio que o pianista mantém na serra da cantareira, na parte mais verde da zona norte paulistana, e veio à reboque do lançamento do disco piano e voz (mcd, 2005). esse disco ganhou uma versão ao vivo (em cd e dvd) no ano de 2006 e depois disso ná e mehmari voltaram a centrar fogo em suas próprias carreiras. no início de 2009, e após uma bem sucedida série de shows, ná entrou em estúdio para gravar balangandãs (mcd, 2009), sua homenagem a arte de carmen miranda. já o elétrico mehmari gravou dois discos de piano solo pra série mpbaby (beatles em 2005 e clube da esquina em 2008), uma parceria com hamilton de holanda (contínua amizade, 2007), uma com gabriele mirabassi (miramari, 2009) e o autoral ...de árvores e valsas (monteverdi, 2008).

a voz de uma e o piano do outro

DE COMO AFINAR MÚSICAS E AFETOS

Tudo aconteceu muito rápido. Primeiro veio um convite do Rio Grande do Sul ao pianista André Mehmari para uma série de recitais de piano e voz com vários artistas no final de 2004. Mehmari chamou então Ná Ozzetti e sua voz. Nos ensaios ficou claro que a química entre os dois era forte demais para apenas um show e após a bem sucedida apresentação em Porto Alegre decidiram registrar o encontro. Gravado em dezembro na casa-estúdio do pianista e lançado em maio, o disco
Piano e Voz (MCD, 2005) lotou os shows de lançamento em São Paulo e surpreendentemente alcançou o primeiro lugar de vendas em lojas como a Fnac.

“Estamos apenas no começo”, ameaçou entre risos Ná Ozzetti em entrevista exclusiva. Em julho houve uma pausa no lançamento porque ambos estavam com outros compromissos. Mehmari foi ao Japão ao lado de Joyce e Dori Caymmi. Ná esteve na França pelo Projeto Pixinguinha com Jards Macalé, Dona Selma do Coco e o grupo instrumental Nó em Pingo d’Água. O segundo semestre promete shows em outras partes do país como Rio de Janeiro, Porto Alegre e Belo Horizonte. “Acho que tanto pra mim quanto para o André esse trabalho era apenas um projeto paralelo. Só que o envolvimento acabou sendo tão grande que não encaro mais o disco assim. É um trabalho meu, tem a minha cara nele e é um trabalho do André também”, e os olhos claros da cantora paulistana faíscam de orgulho.

Mehmari não deixa a bola cair e emenda: “Temos gravados todos os ensaios que fizemos e dá para ver bem a evolução natural até chegar ao disco. Não tivemos nenhuma reunião de pré-produção, simplesmente saímos tocando e aí, numa pausa logo nos primeiros ensaios, a Ná disse que a gente precisava gravar um disco”. Em perfeita sintonia, como uma dupla afiada, Ná completa que “era uma judiação tocar apenas um dia e depois nunca mais se ver, ainda mais quando o trabalho estava ficando tão bacana”.

Um dos pontos que mais aproximaram os dois artistas foi o processo de escolha de repertório até o ponto em que, atualmente, nem se lembram direito, ou não se importam, em saber quem sugeriu o quê. “O disco tem uma coisa muito essencial... sei que sou suspeita pra falar... mas o que me agrada no disco, como ouvinte mesmo, é a sinceridade do repertório. Foram músicas que escolhemos como pérolas mesmo e acho que elas representam muita coisa pra muita gente também”, afirma Ná. Basta lembrar então que o disco traz Chico Buarque (“A ostra e o vento”), Caetano Veloso (“O ciúme”), Pixinguinha (“Rosa”), Milton Nascimento (“Os povos”), Beatles (“Because”), Ernesto Nazareth (“Bambino”, com letra de Zé Miguel Wisnik) e Lupicínio Rodrigues (“Felicidade”, misturada a duas músicas de Egberto Gismonti). Para Mehmari “este disco salta como uma obra de arte livre de clichês e convenções mercadológicas onde o encontro de afinidades de duas vozes é o tema principal”. Ambos concordam que o encontro sincero de dois afetos musicais é o motivo para o sucesso do CD e dos shows.

“No disco colocamos “Luz negra” do Nelson Cavaquinho e “Pérolas aos poucos” do Zé Miguel Wisnik, porque não conseguimos ensaiar a tempo do show. Entrou também uma inédita do André, “O vôo da bailarina”. A gente fazia no show três do Jobim e decidiu não colocar no disco porque já ia sair em um livro. Acabou que ficou só uma versão diferente de “Gabriela” porque o André fez questão. Hoje é uma das que eu mais gosto”, relembra Ná. O livro em questão é
Três canções de Tom Jobim (Cosac Naify) onde os ensaístas Lorenzo Mammì, Arthur Nestrovski e Luiz Tatit analisam três clássicos do cancioneiro de Jobim (“Sabiá”, “Águas de março” e “Gabriela”). O livro traz CD encartado com as interpretações de Ná e Mehmari.

E como entender essa química? “Temos posturas parecidas perante a música e disponibilidade de trocar idéias musicais. Muitas vezes os músicos não se permitem fazer essas interfaces musicais com outros músicos. Gosto muito desse diálogo, por isso tenho vários duos, trios, acho muito rica essa experiência. Eu e a Ná somos assim, nos preocupamos com a música”, responde Mehmari enquanto dedilha algumas notas em seu piano. Ná também possui uma resposta para tal pergunta: “Eu me identifico muito com a sensibilidade dele, com o tipo de arranjo que ele faz, o modo como ele conduz a música, tudo isso casa direitinho com o jeito como sinto a música também. Tenho universos musicais em que transito e ele não. Ele tem outros universos musicais em que não transito. Mas naquele lugar que a gente se encontrou tem muita coisa em comum e de uma forma muito forte”.

Ná Ozzetti e André Mehmari divertem-se nesse parêntese musical que a vida lhes pregou, mas não descuidam de suas próprias carreiras. Ná, que surgiu na década de 1980 no cultuado grupo Rumo e seguiu em carreira solo com discos elogiados como
Love Lee Rita (1995), Estopim (1999) e Show (2001), prepara um disco de inéditas. Já Mehmari, vencedor em 1998 ao lado do baixista Célio Barros do 1º Prêmio Visa de MPB e um dos arranjadores brasileiros mais elogiados da atualidade, termina disco com versões instrumentais para canções dos Beatles enquanto ainda colhe os louros pelo disco Lachrimae (2004). Os dois não param, nem poderiam, afiados que são.

pra encerrar o post, o video de ná e mehmari aprontando das suas em "a outra e o vento" (chico buarque), música que estava no shows, entrou no disco original e, obviamente, emplacou no dvd ao vivo. uma das melhores músicas a sair do cancioneiro mais recente de chico numa interpretação de chorar.



p.s.: lá no gafieiras tem resenhas do cd piano e voz, do dvd piano e voz e do mpbaby beatles. isso sem falar na ótima entrevista que fizemos com ná ozzetti em 2008.