quinta-feira, 20 de maio de 2010

1974

foi o ano que nasci, e que meus pais não tiraram férias. foi o mesmo que jards macalé lançou o disco aprender a nadar (philips), seu segundo solo, com uma das músicas mais lindas da história mundial do mundo: "rua real grandeza" (jards macalé e waly salomão).

jards macalé - rua real grandeza by dafne47

lá no gafieiras tive uma coluna chamada disco do mês de sempre, no qual escrevi textos curtos e ficcionais inspirados em discos clássicos (alguns bem no esquema colagem como esse aqui). teve discos de figuras como jorge ben, racionais mcs, batatinha, egberto gismonti, chico buarque, roberto carlos, paulinho da viola, paulo vanzolini, elis regina e romulo fróes (15 ao total). mas começou, coincidentemente, com esse disco do jards, justo do ano que nasci. já faz muito tempo que não escrevo e nem me interesso por ficção (na literatura), então segue o texto, sem nenhuma revisão espaço-temporal e com um pouquinho de vergonha.

...

Estava nascendo e ouvia uma voz batendo suavemente na barriga da minha mãe - "vale, vale a pena ser poeta!" -, mas relutava em sair. Só o calor e aquela escuridão úmida, fruto de dois corações que se amavam de verdade, importavam. Posso ficar mais um pouco? E ouvir meu pequeno coração descompassando em jatos de sangue?

Mas então meu pai encostou a boca na barriga de minha mãe e sussurrou, "tudo é alegria". Parecia um aviso. O médico veio da sala ao lado com um instrumento de ferro que parecia poder agarrar um pouco mais de seis cabeças ao mesmo tempo. Seus olhos cansados de uma longa madrugada escoavam um só lamento, "tudo é ilusão". Vi muito claramente que não poderia mais ficar ali e que para ser poeta precisava antes nascer. Só mesmo vendo. Doeu... e o mundo ficou de cabeça para baixo.

A luz fria da sala me cegou, o frio me fez chorar e não conseguia deixar de ouvir música por todo o lado. Não eram violinos, nem trombetas, pareciam mais violões dobrados e caixas de fósforo. Gemi entre sete cordas e soltei um silencioso "e daí?"

Mãos emborrachadas me levantaram ao céu do quarto e logo depois fui descendo até o peito de minha mãe que entre um choro e outro me segredou, "não pode haver no mundo maior felicidade". Mas vai continuar assim? pensei. E se eu saltar de banda? E se eu saltar de lado? Meu pai não tardou a emendar, "meu querido, samba é sempre a mesma história". Uma tesoura veio correndo prateada e jogou fora o cordão. Aliviada, a enfermeira cantou "vou aprender a nadar... eu não quero me afogar". Silêncio, olha o vexame, o ambiente exige respeito.

Fui retirado para o berçário, minha mãe foi para o quarto descansar e meu pai saiu para comer alguma coisa. Nada de café, estraga o estômago, são quatro e meia da manhã. A sala de cirurgia ficou assim vazia. Paisagem de fim de festa. Meu olhos pareciam grudados de tanta música, mas não estava com medo, já havia nascido com a alma em sinuca. Todo o resto seria mais fácil.

p.s.: achei um myspace em homenagem ao jards - o site dele que existiu sumiu no éter - e a imagem de fundo da página é uma foto tirada para a entrevista que ele deu ao gafieiras.

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