semana passada, na manhã de 26 de fevereiro, partiu minha querida, muito querida, vó dedé, mãe de meu pai. em 2008 foi a vez de seu marido, o vô zé júlio. entre um e outro partiram meus avós maternos, josias e neném. sem mais avós e avôs, portanto. numa troca de emails entre toda a família muitas de suas histórias e falas impagáveis foram sendo relembradas pra produção de uma espécie de libreto a ser lido e distribuído na missa de sétimo dia. minha contribuição foi o texto que segue abaixo.
tem umas coisas especiais que acontecem na vida da gente.
dona dedé aconteceu na minha. que delícia de pessoa, que figura, que coisinha
linda. discreta e ácida, carinhosa e determinada, bem humorada e direta,
religiosa e nada besta. pequenina também. e minha avó, que baita sorte da
porra! [ai, desculpa o palavrão, vó, foi uma ênfase necessária pro tanto de
amor].
a vó que planejou me sequestrar pr'eu ser batizado, mas
preferiu entregar o pagãozinho pra deus. acho que porque a fazia rir com meus
mungangos [caretas]. a vó que me fazia rir e lamber os beiços com uma galinha a
cabindela [molho pardo] inesquecível. a vó e seu quintal, o quintal de toda
minha infância com suas mangas, goiabas, abacates, brincadeiras, siriguelas,
flores de jambo cobrindo o chão, frutas do conde, romãs, limões, cocos ralados,
etc.
a vó que me dava capitão que, segundo o dicionário aurélio,
é um "bocado de comida que tenha molho [feijão, por exemplo], amassado com
farinha, entre os dedos, à moda de bolo, e levado com a mão até a boca".
segundo eu mesmo, era o momento sensacional & índio & passarinho no
qual ficava em um círculo [junto com prima(os), irmã e irmão] sendo alimentado
assim, aos ótimos bocados.
minha vó, coisinha mais linda.
não faz muito tempo percebi que tinha sido ela que,
silenciosamente, moldou o humor de toda a família que gerou [6 filhos, 11
netos, 6 bisnetos]. já sabia disso inconscientemente porque tinha certeza que
aquela coisinha pequena tava dentro de mim, mas foi ao vê-la já doente, lutando
pra manter seu afiado senso de vida e ao mesmo tempo cansada dos 6 anos de
viuvez [ô seu zé júlio, saudades viu] e dos muito bem vividos 88 anos, que
percebi como uma parte do melhor da gente veio dela.
claro que vai fazer falta. muita. mas ela fez tanta tanta
diferença por onde passou, nas pessoas que a conheceram, que não tem essa coisa
de fim pra dona maria, dona dedé, dona maria de dedé. ela é pra sempre, né?
não foi bem uma falha, teve mais cara de vacilo. ouvi no final do ano passado o disco giramundo, a estreia solo de daniel groove (cearense, ex-o sonso, e desde 2009 morando em são paulo). gostei muito e rapidamente, e tratei de colocá-lo entre os 35 discos brasileiros do ano. mas na bagunça da lista das músicas acabei esquecendo de colocar, por exemplo, "giramundo" (poderia ainda ser "nada", "tudo", "deixa", "novo brega", "eu vou correr" ou "canção de amor", uma porrada de canções boas e lindas). daí que nesses primeiros meses de 2014 ouvi outras vezes o disco e ele foi só melhorando e melhorando, o que me fez sentir uma certa culpa por não ter sido mais enfático. pra resumir, giramundo é disco foda e elétrico e romântico e muito bem tocado.
o musicoteca e daniel disponibilizaram em novembro passado o disco para download gratuito, e dois meses antes o cantor e compositor lançou o clipe de "canção de amor".
antes ainda, em agosto - pra provar como mosquei nessa, e olha que já tinha ouvido seu nome em shows por são paulo -, daniel groove participou de uma edição inteirinha do cultura livre da roberta martinelli.
no disco, daniel é acompanhado por músicos como o amigo e parceiro saulo duarte, joão eduardo vasconcelos, joão leão e beto gibbs, e conta ainda com participações de marcelo callado (do amor), rian batista (cidadão instigado), nevilton, danislau também (porcas borboletas), bruno souto (volver), david dafré e reginaldo lincoln (vanguart), guilherme almeida (pública) e diego soares (los porongas).
não menos importante: a ilustração que embrulha/sintetiza este disco lindo da porra é do também cearense diego maia. atualização em 27 de fevereiro: saiu o clipe da muy linda "você sabe muito bem o que me resta".
nunca me identifiquei direito com o humor cearense, talvez porque só tenha vivido lá até os 9 anos. mas quando vi o trailer de cine holliúdy, longa fenômeno de bilheteria dirigido por haldon halder gomes, parece que fiz as pazes, rolou um reencontro. o sotaque, a velocidade da fala, o deboche, as gírias, tudo é familiar e foi uma delícia ver isso retratado em um filme. não assisti ainda, claro, pois a estratégia de lançamento privilegiou o ceará e a partir dessa sexta, 30 de agosto, o resto do norte e nordeste. sul e sudeste, atrasadões, ficaram para depois. enquanto isso, só posso ficar rindo de rachar com o moleque falando "ô cego ignorante" pro personagem do falcão. posso também, como fiz no yahoo, bater um papinho com o diretor desse filme profundamente cearense.
O CINEMA PARADISO DA FULERAGEM
Por essa pouca gente esperava. Uma comédia independente, sem
atores famosos, cearense e com legendas (isso mesmo, legendas pra entender
melhor o “cearensês”), pode ser o grande sucesso nacional de 2013, desbancando
o atual hit do ano, Minha Mãe é uma Peça.
Mesmo que fique em segundo lugar, o longa Cine
Holliúdy já é um grande vencedor, afinal estreou na semana passada em
alguns cinemas de Fortaleza, Sobral, Maracanaú e Limoeiro do Norte e vendeu 43 mil
ingressos em apenas 6 dias (45% do total da bilheteria do Estado). São números
impressionantes e que prometem aumentar quando o filme de Haldon Halder Gomes estrear,
em 30 de agosto, em outras cidades e capitais do Norte e Nordeste (Sul, Sudeste e Centro
Oeste ficarão mais pra frente numa interessante e regionalizada nova estratégia
de lançamento).
Rodado em seis semanas e com um orçamento de R$ 1 milhão, Cine Holliúdy é a história de Francisgleydisson
(Edmilson Filho), um homem apaixonado por cinema que organiza, junto com a
mulher e o filho, exibições improvisadas de filmes em uma cidade no interior do
Ceará, na década de 1970. A divertida fauna humana da cidade e as confusões
geradas por um projetor quebrado completam o quadro dessa comédia escrachada e
profundamente cearense. E as legendas servem para outros Estados entenderem
palavras como “catrevagem”, “espilicute”, “bonequeiro”, “cangapé” ou expressões
como “tenha nervo”, “do tempo que o King Kong era soim” e “chiba nos possuídos”.
Diretor de filmes de ação (Sunland
Heat), terror (The Morgue) e drama espírita (As Mães de Chico Xavier), Haldon Halder Gomes batalhou durantes anos
para transformar um curta que fez em 2004 (Cine
Holiúdy - O Astista Contra o Cabra do Mal) em um longa que homenageasse as
coisas que mais ama na vida: o cinema, o humor e sua terra. E agora está feliz
“que só uma porra”. Falaí, macho réi.
Como foram as exibições em Fortaleza?
Sensacionais! Todas as sessões esgotadas horas e dias antes,
em todos os cinemas e em todos os horários. As pessoas não saem simplesmente
satisfeitas - o que já seria excelente -, mas, sim, militantes do filme. Tenho
visitado e aberto sessões diariamente nos cinemas da cidade pra agradecer este
carinho.
E sua expectativa pra
recepção do filme em outras regiões do Brasil, especialmente Sul e Sudeste?
Também espero uma ótima recepção. O filme já esteve em
vários lugares do mundo, e andou pelo Brasil, em festivais, e tem encantado por
onde passa. É uma história de amor universal, acima de tudo. Muitos críticos o
chamaram de Cinema Paradiso Brasileiro.
Em seus filmes
anteriores você trabalhou em gêneros (ação, comédia, terror) e temas
(espirituosidade) bastante populares. Que cineastas ou artistas são referências
no seu trabalho? Que outros tipos de gêneros você gostaria de trabalhar?
Minha vida sempre foi muito intensa e eclética de universos:
luta, surf, futebol, artes plásticas, etc. Quero contar histórias com que me
identifico, por isso esta pluralidade. Não tenho tantas referências, sou mais
de fazer reverências a muita gente e coisas que gosto, como pintura, músicas,
filmes, futebol, etc. Isto sempre está presente nos meus filmes. No momento,
quero fazer mais comédias de ação, em parceria com a Downtown Filmes, e, em seguida, um filme autoral, sobre um
pintor no fim da vida, Vermelho Monet.
Haldon Halder Gomes no set de Cine Holliúdy; peguei a foto aqui
Ouvi você falando em
outras entrevistas que existe uma procura consciente da sua parte pelo público,
pela comunicação com a plateia. O que você acha que os brasileiros querem ver
na tela? E como lutar contra Hollywood?
Sim, faço minhas pesquisas empíricas de mercado. Procuro
nichos latentes e seus anseios. O cinema nacional precisa saber se posicionar e
compreender sua diversidade cultural e regionalização em virtude de suas
dimensões continentais e populacionais. Cine
Holliúdy está aí pra mostrar ao cinema nacional independente como enfrentar
Hollywood.
O que você aprendeu
nos seus anos de Estados Unidos em termos de produção e comunicação?
Uni meus conhecimentos em administração de empresas e
especialização em marketing a aplicação no cinema, como produção e lançamento.
Pude aprender o que eles fazem de melhor e aplicar à nossa realidade, com
precisão e cadeia produtiva, sem perder a autoralidade.
O Ceará é muito
conhecido por seu humor e seus humoristas. Como você descreveria o humor
cearense?
O humor cearense é diferenciado devido a nossa capacidade de
saber rir de si, de não ter barreiras para a piada sem medo de perder o amigo.
Este exercício diário de humor aguçado nos deixa mais criativos e com timing
perfeito pro humor. Tanto é que no Ceará não existe bullying. Nós temos o
anti-bullying, que é uma expressão local que diz “Aí dentu!”. Assim, todo
mundo tira onda com todo mundo, e assim vivemos um show de humor no cotidiano.
com vocês, o curta cine holiúdy - o astista contra o cabra do mal.
o primeiro parágrafo desse texto foi escrito na noite do dia 31 de dezembro do ano passado (nem faz tanto tempo assim, 2012) e o resto já nesse ano nas minhas "férias" no ceará (depois aconteceu belém, mas aí é outra história). quis fazer algo diferente, mais reflexivo, pessoal, aquele tipo de texto para se reler no final do ano e avaliar o que foi feito. tomara que eu seja melhor em 2013 e que 2013 seja bonzinho comigo. simbora. enquanto isso, já no yahoo, o texto "nem todos estão surdos" sobre o excelente filme o som ao redor, de kleber mendonça filho.
DO TIPO QUE SORRI PARA FOGOS DE ARTIFÍCIO
No último dia do ano fiquei horas e horas olhando um rio em
busca de uma metáfora. Para o sentido da vida, a virada de ano, coisas assim,
só que não encontrei nada e acabei dando um mergulho. Quando saí da água me
desequilibrei e abri um talho acima do joelho. Sangrou um tanto bom na hora...
que tudo se realize... mas não doeu, nem inchou... no ano que vai nascer... e o
ano novo nasceu, como sempre. Só que pra mim com uns cortes na perna, o que,
obviamente, não é fato nada metafórico.
Então fiquei pensando nisso de “que tudo se realize”
enquanto minha irmã borrifava um sanativo e meus sobrinhos olhavam
hipnotizados. Porque desde que me entendo como gente, os telejornais do dia 31
de dezembro e 1º de janeiro fazem as mesmas perguntas mundo afora e as
respostas sobre os sonhos para o ano novo são invariavelmente aquelas de sempre.
Homens falam de dinheiro, enquanto mulheres, mais cuidadosas, mencionam genericamente
saúde e paz. Tudo vago para agradar o bom mocismo da boca pra fora proporcionado
pela TV ou que dependa de forças externas extraordinárias como sorte ou Deus.
"só pra me exibir / só pra te impressionar"
Mas antes que tudo se realize é preciso passar de ano. E lá
vem o frenesi e a obrigatoriedade de ser feliz, muito feliz, durante o
reveillon. Entre engarrafamentos na estrada, na praia e nas filas de banheiro,
e na falta de água e luz com tanta gente amontoada em cidades e vilas que no
resto do ano carecem de atenção. Alheio a tudo, o Rio Mal Cozinhado (cerca de
70 km de Fortaleza, o tal rio do início do texto) segue no fluxo de marés
baixas e altas do seu encontro com o mar. Não existe ano novo no seu leito,
muito menos siris espaçosos dirigindo Hilux. E quando a meia-noite se aproxima
o rio continua lá impávido e em constante movimento.
Então decido jogar o relógio para escanteio na espera que os
gritos e fogos anunciem que 2012
é passado e 2013 é presente e futuro. Mas e aí? O que falaria na TV sobre o
que desejo para o ano? Dinheiro? Paz? Não. Saúde, talvez. “Saúde é o que
interessa, o resto não tem pressa!”, grita o sempre elétrico Paulo
Cintura dentro da minha cabeça, enquanto os primeiros fogos estouram ao
longe (alguém adiantado).
Mas coisas assim não dependem da gente. Nada disso é busca
pessoal. Mais fogos, devem faltar uns cinco minutos. Já desencanei de procurar
respostas no rio, não tem escapatória, é comigo mesmo, tá tudo no meu nome.
Quero continuamente ser uma pessoa melhor (pra mim, para os que me cercam) do
tipo que julga menos, ama e ouve mais. Do tipo que transforma medo em reflexão,
curiosidade em ação, encantamento em paixão, músicas em amor, segundas chances
em belezas totais. Bem na hora dos fogos. Fogos. 2013. Fogos. Fogos. E eu
sorri. Quem sabe?
p.s.: “Brisa tropicana” é faixa de Pelos Trópicos, terceiro disco da
cantora paulistana Andreia Dias, e está disponível para download gratuito.
já tem uns dias que o belíssimo clipe de "sangue é champanhe" está rolando pela rede. queria ter comentado antes, mas a correria anda braba. conheci o rapper don l em 2008, quando o entrevistei para o gafieiras. na época ele era integrante do grupo costa a costa, um das mais instigantes revelações do rap nacional dos últimos tempos (acho a mixtape dinheiro, sexo, drogas e violência de costa a costa, de 2007, uma das grandes obras musicais dos anos 2000). daí que don l começou a fazer seus próprios sons e novidades não tardaram a aparecer. mais eletrônico, pesado e diverso, o rap do cearense também ganhou novos temas, menos periféricos, o que já se rascunhava nas rimas do costa a costa. agora ele está prestes a lançar, numa batelada só, duas mixtapes solo: caro vapor e vida premium beta. mas vou parar com o blábláblá... com vocês, "sangue é champanhe", com participação de flora matos. Sangue é Champanhe_Don L. feat. Flora Matos from LuckyBastardsInc on Vimeo pra quem espera o clima chavão de rap (quebradas, crime, cidade cinza, etc.), "sangue é champanhe" é uma surpresa e tanto. mulheres lindas, nuas, paisagens deslumbrantes ao redor do brasil e mundo, diversão, prazer, brincadeira, bebidas, comidas, tudo em clima tranquilo de hedonismo (enquanto don rima suavemente sobre a volatilidade da vida e dos afetos). a direção é da dupla erica gonsales e autumn sonnichsen (que pouco antes tinham feito o igualmente belo vídeo "one day"). ah, e tem uma entrevista boa com o cearense no portal da mtv.
coincidência boa que na semana que estive em fortaleza por motivos familiares saíram sons novos do meu conterrâneo don l, vocalista do grupo costa a costa, e o disco de estreia dos baianos d'oquadro. era o nordeste me chamando atenção mais uma vez e saiu esse "a hora e a vez do rap nordestino". já o texto mais recente no yahoo, "fã, essa coisa louca", trata do quebra-pau virtual envolvendo o tributo à legião urbana com o ator wagner moura fazendo os vocais.
A HORA E A VEZ DO RAP NORDESTINO
Uma das muitas coisas boas da democracia digital é que
produção de qualidade (se é boa ou ruim de fato é outra história) não é mais
sinônimo de ter que se mudar de mala e cuia para o Eixo Rio-São Paulo. Daí que
mais gente, vozes e sotaques são ouvidos, principalmente em um país tão grande
e diverso como o nosso, e todo mundo sai ganhando, pode acreditar. Mas por
exemplo, o rap é um dos gêneros musicais que vem amadurecendo mais rapidamente
no Brasil e na última década uma nova geração apareceu com força (Emicida,
Lurdez da Luz, Criolo, Kamau, Ogi, Savave, Karol Konká, tanta gente). E é
interessante de ver e ouvir que o Nordeste também vem contribuindo para esse
amadurecimento.
Lembro agora de memória dos pernambucanos Zé Brown e Inquilinus (mas acho que o grupo
acabou), dos cearenses RAPadura Xique-Chico (ver e ouvir video abaixo) e Costa a Costa e dos baianos Risco
88 e OQuadro, mas tem gente
da Paraíba,
do Rio Grande do Norte, etc. No
entanto, a deixa para essa coluna foram os lançamentos do disco de estreia
d’OQuadro e das primeiras músicas do trabalho solo de Don L, o
principal vocalista do Costa
a Costa.
Comecemos com Don L, que já no Costa a Costa se mostrava um
rimador diferente com jeitão de produtor e atento para sonoridades não usuais
no rap nacional. Vida Premium é o
nome de seu disco solo e dele saíram “Enquanto acaba” (com base de piano jazz,
citação a Chico Buarque e participação da brasiliense Flora Matos) e “Cafetina
seu mundo” (mais pesada, pop e com letra bastante atual).
“Perguntar o que tem do Ceará na minha música é perguntar o
que tem do Ceará em mim. Tenho certeza de que encontrarão a alma de um cearense
na minha música e acho mais interessante do que um chapéu de palha. No Criolo,
por exemplo, que é filho de cearenses, percebo uma melancolia tipicamente
cearense nas letras, uma coisa que você pode ver nos primeiros discos do
Belchior por exemplo. Não sei se tenho isso. Talvez sejam outras
características cearenses, as minhas. Não sei dizer. Sei que não forço. Não me
importo. Me interesso por coisas do mundo todo, tanto quanto, ou até mais do
que me interesso por coisas do Ceará. Por que motivo não poderia? Sou um
cidadão do mundo. Agora uma coisa que não posso deixar de ser é cearense. Isso
eu sempre serei, com todo prazer e orgulho”, disse Don L em conversa por email.
Já quando questionado sobre o que existe de Bahia no rap
d’OQuadro, o baixista Ricardo Santana, ou Ricô, falou que “olhamos pro mundo a
partir daqui, afinal é o lugar onde moramos. É a maior concentração de negros
do mundo depois da África. É um estado onde a cultura pulsa numa diversidade
infinita de ritmos, passando pela literatura, teatro, cinema e etc. Somado a
isso temos grandes problemas sociais que se refletem nas desigualdades, na
violência, nos lamentos e nas formas de celebrar desse povo. E tudo isso nos
influencia direta ou indiretamente. Seria impossível afirmar que não sofremos
influências de nomes como Os Tincoãs, Edgar Navarro, Adonias Filho, dentre
outros tantos. As influências são muitas, mas não nos limitamos a elas. Na
verdade não há fronteiras pra arte e hoje em dia grandes artistas podem surgir
dos lugares mais improváveis, surpreendendo a todos e quebrando estereótipos.
Mas cada estado, cada cidade, tem o seu contexto. Eles versam sobre as verdades
deles, nós cantamos as nossas.”
Em ambos os casos, as raízes são importantes, mas não podem
e nem devem prender. E o excelente disco OQuadro tem seus pés firmes no rap (tem participação de Lurdez da Luz, por exemplo), mas com rimas que ganham novos sentidos ao som de
dub, samba, ijexá, afrobeat, jazz, afrosamba e o diabo a quatro. Essa
multiplicidade (liberdade) de sonoridades, misturas, diálogos e sotaques de
grupos ou artistas estão fazendo do Nordeste um dos lugares mais férteis para o
rap brasileiro. Afinal, em se rimando, tudo dá.
p.s. 1: OQuadro é formado pelas vozes de Rans, Freeza e Jef,
o guitarrista Rodrigo Dalua, o baixista Ricô, o baterista Victor Santana e o
percussionista Jahgga.
p.s. 2: toquei no assunto da democracia digital em outro
texto do Yahoo, “Faça você
mesmo”.
esses papos com don l e ricô aconteceram no facebook e por email. seguem abaixo outras perguntas e respostas que não entraram no texto do yahoo.
DON L
qual a diferença do rap do don l? existe essa preocupação
(em soar diferente)? e qual a diferença entre teu trabalho solo e no costa a
costa?
não existe essa preocupação porque não existe esse problema.
eu faço música pensando num conceito de álbum, em termos de produção e em
termos de ideias sobre as quais quero falar. na verdade faço as músicas
muito no instinto, só depois que tenho algumas prontas cai a ficha do álbum, do
conjunto da obra. daí pra frente as coisas ficam mais claras, e as músicas vêm
mais ainda dentro do conceito que começa a se desenvolver pro disco na minha
cabeça. mas é muito natural porque a música é só uma forma de expressar
minha busca e minhas experiências com o mundo, comigo mesmo, e a relação entre
as duas coisas. minhas aspirações, meus amores, meu ódio. minha versão da vida em
2012. na mixtape do costa a costa, em 2007, o momento era completamente
diferente. mesmo musicalmente, se em 5 anos você não vier completamente
diferente, não é verdadeiro, você parou no tempo, ou tá tentando repetir uma
fórmula. eu não uso livros de receita.
o que você acha do rap feito fora do eixo rio-sp? como você
se encaixa nele? o que tem de mais interessante?
acho que não existe mais
uma característica de escola de acordo com o local de onde vem a música. as
diferenças que você pode classificar por cidade, são muito mais mercadológicas.
mas se a música que você faz tem o que ela precisa ter pra estar entre o que é
considerado relevante e influente nacionalmente ou até internacionalmente, mais
cedo ou mais tarde ela vai chegar a esse ponto. acho que nesse momento sou um
artista relevante e influente pro rap brasileiro. mas isso não quer dizer
retorno financeiro.quer dizer que você
conseguiu alguma visibilidade por mérito do seu trabalho. hoje você pode chegar
a esse ponto sem ir pro eixo. a partir daqui, a partir desse ponto, já é outra
história. gosto muito de flora matos que é de brasília, e karol konká que é de
curitiba, mas estão no sudeste agora. alguns que considero promessas são
gasper, de goiânia, zudzilla, de pelotas, e risco 88 de salvador. mas tem
muitos outros, não sou o cara mais bem informado, tô muito concentrado no meu
próprio disco a um bom tempo.
RICÔ (OQUADRO)
qual a diferença do rap d'oquadro? existe essa preocupação
(em soar diferente)?
o rap é um gênero musical onde cada artista, cada grupo, faz de seu jeito, de acordo com suas experiências de vida, com suas influências
e referências culturais. isso torna o rap rico e diversificado. com oquadro,
ainda podemos somar o fato de ser feito com instrumentos convencionais, o que
torna, naturalmente, o nosso rap mais orgânico. mas nada disso foi premeditado
ou programado para soar diferente. nossa música é resultado dos recursos e dos
acessos que tínhamos até então. hoje, depois da obra pronta, podemos perceber
nessa estética que criamos uma série de conceitos interessantes. mas tudo isso
vem acontecendo espontaneamente.
o que você acha do rap feito fora do eixo rio-sp? como vocês
se encaixam nele? o que tem de mais interessante?
quando começamos a nossa caminhada, ainda enquanto
adolescentes, lá pelos meados dá década de 90, os únicos grupos que faziam rap
e que tínhamos acesso no brasil, eram do rio, são paulo e de brasília. agora
estamos no século 21, onde as informações estão aí pra quem busca. grandes
artistas podem surgir dos lugares mais improváveis, surpreendendo a todos e
quebrando estereótipos. agradecemos a mrn, câmbio negro, athalyba e a firma e
etc., por nos influenciarem. a identificação foi e sempre será muito grande.
mas, cada estado, cada cidade tem o seu contexto.
rádio, esse bicho estranho (pra mim). tentei inúmeras vezes gostar de alguma, desde minha adolescência quando gravava fitas k-7, mas a verdade é que minha curiosidade, a minha demanda pessoal, sempre foi maior que a oferta da grande maiorias das estações brasil afora (no meu caso, rio de janeiro, ribeirão preto e são paulo, porque era muito criança em fortaleza). a rádio no brasil dos dias de hoje foi o assunto da ultra pop #08 (agora, por lá, a mais recente, "jesus não tem dentes no país dos banguelas", tem uma pegada mais polêmica com religiosos intolerantes na mira).
netinho é ouvinte de rádio e não desiste nunca
RÁDIO: ENTRE O AMOR E O JABÁ
Já estava mais que na hora de falar de rádio, esse veículo de comunicação tão potente quanto subestimado (nas últimas décadas) no Brasil. Outros assuntos acabaram tomando à frente aqui na Ultra Pop, mas um texto no site Farofafá!, serviu de estímulo para a frequência modulada finalmente ecoar por essas bandas. Nele, o jornalista Eduardo Nunomura compilou as cinco músicas mais pedidas nas rádios mais populares de 9 grandes cidades brasileiras: Belém (Rádio Liberal), Fortaleza (Jangadeiro FM), Recife (Clube FM), Salvador (Itapoan FM), Belo Horizonte (BH FM), Rio de Janeiro (FM O Dia), São Paulo (Tupi FM), Curitiba (98 FM) e Porto Alegre (Cidade FM). Resolvi acrescentar Goiânia (Rádio Terra 104,3) porque senti falta de um representante do Centro-Oeste.
Mais um estímulo para análises e discussões, o texto de Nunomura é também o retrato de um momento no qual podemos ver que nossas rádios comerciais permanecem latifúndios para poucos gêneros e artistas.
Sertanejo e pagode dominam, terra devastada, sedimentando um caminho construído com altas granas pelas grandes gravadoras na década de 1990. O jovem Luan Santana – tema da coluna “Eu queria gostar Luan Santana” – simplesmente massacra, emplacando três músicas (“Amar não é pecado”, “Um beijo” e “A bússola”) em 9 das 10 cidades (apenas Salvador ficou de fora). Os veteranos do Exaltasamba - que, recentemente, anunciaram um recesso em 2012 após 25 anos de existência – colocaram três músicas em 6 cidades, incluindo uma inusitada parceria com o funkeiro Mr. Catra (o carioca esteve presente na coluna “Não tem papo, não tem alô”). Ainda na categoria destaque nacional pode anotar a presença incontornável da bela Paula Fernandes, enquanto o dueto de Joelma, da Banda Calypso, com Reginaldo Rossi é raio, estrela e luar nas capitais do Nordeste.
Agora, imagine... uma música muito tocada em uma rádio líder de audiência se espalha como fogo em mato seco pelo dial. E não adianta fugir. Você pode navegar por várias rádios o dia todo e só ouvirá cerca de 30 músicas, mudando apenas a ordem de sua execução. Mas será o gosto popular a razão desse monopólio? Ou o bom, velho e misterioso jabá que segue fazendo agrados em donos de rádios, programadores e DJs? Ou, mais provavelmente, um pouco dos dois?
Bem, sobre o gosto popular é preciso admitir que o amor, o romance e a dor-de-cotovelo são preferência nacional e não é de hoje (para quem não sabe, a primeira transmissão radiofônica no Brasil aconteceu em 7 de abril de 1922). Esse coração na ponta das chuteiras define muito bem a alma brasileira, mais até do que o humor, e não é a toa que Roberto Carlos é o Rei e suas canções são a nossa cara. E lá se vão artistas novos e velhos correndo atrás cantando suas próprias paixões, que são as mesmas de seu público. Assim o mundo gira.
Mas é o jabá, fenômeno mais falado que investigado, que explica melhor essa concentração absurda de poucos artistas no dial (e olha que nem toquei no assunto espinhoso que é o fato das rádios serem concessões públicas). É isso, é a velha ganância conhecida de todos: poucos querem ganhar muito e no máximo de tempo possível. Claro que artistas desejam chegar a seu público e, consequentemente, expandí-lo, porém toda essa relação viciada entre gravadoras, empresários, rádios e TVs colocou a música popular brasileira em um beco sem saída. Essa falta de diversidade vem criando uma desconfiança numa boa faixa do público, gente que acredita que não se faz mais música boa no país como antigamente, gente que confunde o que é veiculado em rádios e TVs com o que é produzido (e nem se dá o trabalho de ver/ouvir como existe coisa boa e atual na internet, a um clique de distância).
A sabedoria popular diz que a variedade é o tempero da vida. E eu acrescentaria, parafraseando o saudoso Itamar Assumpção, que tal se a gente sonhasse com o impossível? Uma rádio variada e para todos.
p.s.: e segue aqui, como material extra, a lista completa das 5 músicas mais tocadas nas rádios mais populares dessas dez praças.
Belém – Rádio Liberal
Luan Santana - Amar não é Pecado
AR 15 - Largo tudo
Jorge e Matheus - Chove, chove
Banda Calypso - Perdoa
Luan Santana - Um Beijo
Fortaleza - Jangadeiro FM
Paula Fernandes - Pássaro de fogo
Calypso & Reginaldo Rossi - Não posso negar que te amo
Regis Danese - Família
Luan Santana - Amar não é pecado
Ricky Valen - Sei lá
Recife - Clube FM
Ivete & Seu Jorge - Pensando em nós
Calypso & Reginaldo Rossi - Não posso negar que te amo
Luan Santana - A bússola
Luan Santana - Amar não é pecado
Exaltasamba & Mariana Rios - Viver sem ti
Salvador - Itapoan FM
Paula Fernandes - Pra você
Sorriso Maroto - Clichê
Exaltasamba & Mariana Rios - Viver sem ti
Calypso & Reginaldo Rossi - Não posso negar que te amo
só se você esteve fora do ar na semana. só assim pode não ter cruzado com alguma coisa-notícia-dica relacionada ao paulistano criolo e seu segundo disco, nó na orelha, que foi liberado para download gratuito pelo próprio (agora em maio saem as versões em cd e vinil). se você não ouviu nada a respeito fique atento porque logo vai ter gente aí do seu lado falando que é o disco do ano, que o cara detona, numa corrente daquelas que vira onda grande, unanimidade surpreendente e nada burra. fique atento!
alguns meses atrás um dos produtores do disco, daniel ganjaman colocou em seu soundcloud três aperitivos do disco: o rap forte "grajauex", a balançante e malandra "subirusdoistiozin" e a soul "não existe amor em sp". aí já deu pra sacar que um dos comandantes da lendária rinha dos mcs de são paulo, e que em 2006 estreou com o convencional ainda há tempo, tinha mudado. o rap continuava ali nas suas músicas, mas de repente aquele rap era uma canção! com cara de clássico, "não existe amor em sp" é um bom exemplo de que o tema da cidade, tão caro ao rap, está ali, mas sob violinos, batidas e sentimentos soul. quando as outras sete faixas de nó na orelha caíram oficialmente na rede no início da semana, a variedade de caras e sons de criolo se mostrou ainda maior e melhor (com ajuda de ganjaman e marcelo cabral, do trio marginals, o outro produtor). escuta só o disco todo aí embaixo e me diz se estou mentindo.
o disco começa com "bogotá" em ritmo de afrobeat, mas tem afrosamba em "mariô" (parceria com kiko dinucci), reggae adubado em "samba sambei", bolerão setentista em "freguês da meia noite", mais rap em "sucrilhos", orientalidades em "lion man" e o sambão divertido "linha de frente", com direito a uma turma da mônica do asfalto. sem parecer esquizofrênico, e muito menos oportunista, a variedade de vozes e ritmos de criolo é toda natural, absolutamente autêntica, fazendo de nó na orelha um microcosmos de achados e possibilidades para o rap e a canção brasileira. são as coisas que se ouve saindo do jeito que se sente. e sem as amarras de um gênero. afinal, quem disse que um rapper não pode fazer um bolero?
mas essas dez faixas são apenas um pedacinho de sua produção. parece que o sujeito está compondo como quem respira. então separei aqui videos de outras músicas. começando com uma homenagem a "cálice", aquela mesmo cantada por chico buarque e milton nascimento.
ou então "pra quê cerol?", numa versão ao vivo, rap meio punk e meio jazz com participações de lurdez da luz e os marginals.
e encerrando com a nordestina "lantejoula", dedicada aos seus pais cearenses (e como meus pais, como eu, também são cearenses, aproveito e dedico também a eles).
e o sujeito tem uma presença de palco que vou te falar...
foi ontem, lá no urbe, que vi o trailerzão do documentário piranha, o carimbó no ceará e já deu aquele comichão. carimbó, guitarrada, pará e ceará, tanta coisa boa junta e ao mesmo tempo, além dessa história do carimbó no ceará que não sabia e as participações de mestre vieira, aldo sena e pinduca (e mano chao!). a direção é do meu conterrâneo tibico brasil, tem participação do dj guga de castro na produção e deve sair em algum momento de 2011, pois segundo matéria n'o povo o filme está em fase de captação de recursos.
e o tibico ainda colocou outro pedacinho precioso do documentário. aldo sena fazendo uma versão veloz da sua "lambada complicada".
a fábrica de loucuras musicais do ceará não tem fim, não tem limites, não vê fronteiras. ontem fiquei sabendo via @chicobarney da banda amor real. eles acabaram de colocar na rede o clipe de "mamãe passou açucar em mim" (não, não é uma regravação daquele clássico do wilson simonal), uma superprodução com tomadas aéreas feitas por um helicóptero e a participação de duas panicats (?), juju e babi, em compreensíveis trajes sumários. vejaí que depois tomo fôlego e faço alguns comentários...
quer dizer, as loiras juju e babi, mais essa morena que deve ser da banda, com poucas roupas e salto alto em um terreno pedregoso que deve ser de uma futura represa ou mineradora ou sei lá o quê. é muita informação, isso é fato. quem canta é janaína alves e o rapaz que não teve a sorte da mãe passar açucar nele se chama léo cássio. todo mundo nesse terreno que fica nos arredores da cidade de araçariguama, "o portal do interior" (distante 45 km de são paulo). mas o que mais me impressiona não é o fato da música só ocupar metade do video - o resto serve para créditos de abertura e encerramento -, e nem do conceito com moças com pouca roupa dançando em um terrenão com tomadas aéreas, muito menos que o diretor do video se chame comandante hamilton. o que mais gosto nisso tudo - fora a música, que achei boa de verdade, divertida - é uma frase que aparece nos créditos finais e acho que resume bem a empreitada: "não adianta ter ideias super criativas se elas não estiverem alinhadas com os objetivos e gerarem resultados". taí uma verdade.
p.s.: ah, vale dar uma olhada nos bastidores da gravação do clipe feitas com o habitual espírito investigativo do tv fama.
tá começando hoje lá em fortaleza a 9ª bienal internacional do livro do ceará - vai até o dia 18 de abril no centro de convenções e dá pra baixar aqui toda a programação do evento em pdf -, e mais uma vez a livraria da família estará presente. a feira do livro existe desde 1958 e começou com um irmão de minha avó, o manoel raposo, e depois cresceu e se diversificou através das mãos do meu avô zé júlio, pai de meu pai. crises familiares na década de 1990 e uma consequente crise financeira, junto com a saúde cada vez mais debilitada de meu avô, quebraram as pernas da livraria (que saiu de sua unidade no centro de fortaleza para ficar apenas no bairro do montese). sorte que minhas tias seguraram o rojão, principalmente a mileide - que é maria do socorro mesmo e ganhou esse apelido nos tempos da faculdade de geologia -, e mais recentemente minha irmã ariadne entrou na parada. todas juntas e cheias de ideias reerguendo a feira do livro. é um trabalho bonito e admirável o delas que, infelizmente, acompanho de longe, com algumas ajudas ocasionais. por exemplo, fiz a pedido da mileide e em toque de caixa, esse convite virtual da livraria para a bienal. dêem uma olhada e um pulo lá pra conhecer essas mulheres lindas e fortes que moram no meu coração (e, claro, comprem uns livros bacanas que tem por lá também). ah, o convite...
e pra finalizar, o trecho de um texto que fiz pro livro de ouro da feira do livro (é como elas chamaram o livro de memórias e depoimentos sobre a livraria): "lá na feira do livro do centro... lembro da escada em espiral, os livros no mezanino de teto baixo, o cheiro de material escolar, e lá no andar de cima seu zé júlio esperando os netos para comer pastel e tomar refrigerante. livro pra mim é isso: refrescante, alimento, diversão, mistério e família. livro vive pra sempre. é história de todos e para todos."
documentário extremamente necessário que vi lá no URBe. dirigido por josé huerta, uma semana em parajuru trata do conflito cheio de arestas entre os moradores/pescadores de uma vila no ceará com empreendedores estrangeiros que desejam construir um complexo hoteleiro e vem angariando apoiadores locais em troca de promessas de cursos profissionalizantes e trabalho. claro que nada é assim tão fácil e a história envolve ainda questões ambientais, afirmação cultural local e até, após o filme ser produzido, ameaças e processos contra josé huerta.
já passei algumas (poucas) vezes em parajuru, que fica a uns 100 km sentido leste de fortaleza, e que é uma das muitas praias do município de beberibe, terra da família de minha mãe. outra praia famosa de lá é morro branco, a tal praia das garrafas de areia colorida. claro que essa história de parajuru é só mais uma entre todos os absurdos que vem acontecendo na costa brasileira, de norte a sul. ocupação indevida é pouco, meus caros.
e o bruno natal, lá no URBe (link direto para o post) entrevistou josé huerta - que é espanhol, mora na frança, e é casado com um brasileira - e conseguiu mais informações sobre o início do projeto e os desdobramentos atuais. sobre o início, huerta diz que "a idéia do filme surgiu em 2007, após um estada de um mês em parajuru. achei interessante fazer um retrato do vilarejo, que estava vivendo uma mutação econômica, social e cultural. não tinha a menor idéia do que descobri depois com a fala dos entrevistados. foi durante as rodagem, as pesquisa e as entrevistas do povo de parajuru que percebi que tinha alguma coisa de errada ali". o empreendimento gringo (austríaco, para ser mais exato) se chama paraiso do sol beach resort, mas achei também um tal de sozialprojekt parajuru, que não sei se é o tal desdobramento social do resort. no mais, a vagalume productions, produtora de huerta, criou um site para uma campanha de apoio ao filme uma semana em parajuru. dêem um pulo lá, olhos abertos.
mais uma seção fixa pro blog e uma espécie de exercício pessoal. faz um tempo, não sei bem quanto, que deixei de prestar atenção nas letras das músicas (brasileiras, mais precisamente). pra mim, o vocal virou um outro instrumento e a letra deixou de ser um fator decisivo pruma música ser boa ou não (se a letra for boa, tanto melhor, é um plus a mais, tá ligado). mas é claro que letras boas continuam existindo, persistindo, e quando uma me chamar atenção - independente de sua idade ou procedência - colocarei aqui. só não esperem aqueles clássicos de sempre. todo mundo tá careca de saber que paulinho, tom, vinicius, caetano, tom zé, chico, noel, caymmi e outros quetais são fodões para toda eternidade. seguirei pelos lados b, c, d... e começo com uma jovem conterrânea, karine alexandrino, e uma música passional de seu segundo disco (querem acabar comigo, roberto, 2004).tenho febre, mas vou buscar nosso dinheiro (karine alexandrino e dustan gallas)
voce diz: vai demorar desaprendi como era antes de você como era antes de você chegar
caminho tanto corro tanto querido não temas se devoro, rasgo, quebro, destruo eu só estou un poco confusa
minha calamidade - sua ausência minha fortuna é um sonho seu que faço crescer
não durmo há dias deitada em minha cama tenho febre penso no dinheiro que vou buscar para comprar suas horas suas horas
dia bonito, céu azul, sol firme, nada absurdamente quente. último dia de fortaleza. então vou colocar nessa domingueira uma prata da casa: realejo quartet, ou apenas realejo. grupo liderado pelo multiinstrumentista dustan gallas que tem apenas um disco no currículo, o 'mavioso' kinobox (independente, 2003, que ganhou uma reedição gringa em 2008), e um carreira de mais interrupções que retomadas. dustan, por exemplo, que já trabalhou com karine alexandrino e junior boca, morou um bom tempo em amsterdã estudando produção musical e ano passado se mudou pra são paulo; o baixista rian batista se mudou pra são paulo já tem uns 3 ou 4 anos e começou a tocar com deus e o mundo (otto, instituto, marcelo d2, lucas santtana e, obviamente, o cidadão instigado de fernando catatau, etc.); dos outros integrantes, danilo carvalho e denilson lopes, não sei.
esse video abaixo vem no kinobox original e como não estou com meu CD aqui não sei o nome da música. sua página no youtube também não traz mais informações, mas é uma ótima prévia do som dos cabras: jazz eletrônico urbano e nordestino (esse 'nordestino' foi liberdade minha porque não veio outra palavra pra definir certas peculiaridades do som do realejo, e não poderia colocar apenas 'cearense' porque apesar de todos se conhecerem de fortaleza, dustan é piauiense, rian é potiguar, etc.)
p.s.: em 2006, alexandre matias fez uma espécie de reportagem oral (um jogral virtual) sobre toda essa geração de músicos nascida e criada em fortaleza. leia aqui. e eu, lá na extinta coluna disco do mês de sempre que tive no gafieiras, escrevi um textinho ficcional (coisa que não faço tem tempo) inpirado nesse disco do realejo.
recebi ontem da minha irmã ariadne dois exemplares de literatura de cordel, sendo que um novinho em folha, atualíssimo: a chegada de michael jackson no portão celestial (tupynanquim editora, 2009), escrito por joão gomes de sá e com capa assinada por klévisson viana (que também é co-autor dos versos). mais uma prova que o cordel continua vivo no ceará, e acredito que também em pernambuco, os dois principais pólos produtores dessa literatura. separei alguns trechos que, entre os deboches próprios da mídia, dizem muito da percepção popular sobre o popstar. ah, o outro livrinho se chama o homem que foi preso porque peidou na igreja e é de sávio pinheiro. depois coloco aqui.
(...)
Eu sonhei que o rei do pop, Logo após bater as botas, Foi direto para o céu, Fazendo muitas marmotas, Cantando muito agitado Feliz, tinha se livrado De dívida, banco e agiotas.
(...)
Michael Jackson lá no céu Chegou bastante apressado, Dizendo para São Pedro: - Estou demais atrasado Eu quero até me esconder Porque não pude fazer O que tinha programado!
(...)
Eu queria dançar mais Sabe o senhor, não empaco, Gostava de requebrar, Pois eu sou bom nesse taco Dançando eu faço munganga, Às vezes visto uma tanga Para prender o meu saco!
São Pedro disse: Rapaz, Não é como você pensa! Primeiro você procura O assessor de imprensa E faça um requerimento, Protocole no convento, Com o avô do Alceu Valença.
(...)
Disse Jackson: Eu sou um astro Famoso no mundo inteiro! Não tem um ato secreto Para me atender primeiro? Pedro disse: Eu não tropeço, O céu não é o congresso Lá do povo brasileiro!
(...)
O sucesso foi crescendo, Sobretudo a vaidade, Tudo aquilo que sonhava Virava realidade. O meu corpo mutilei, Mesmo assim nunca encontrei Minha própria identidade.
(...)
Jackson que ao longo da vida Foi branco por opção, Nasceu negro, mas fez de tudo Pra perder coloração... Sentiu-se fútil e pequeno, Ao mirar um Deus moreno Como o Autor da Criação.
Quando relembrei o sonho, Achei um pouco sem nexo, Mas pensei: Agora Michael Vai se livrar do complexo. Pode brincar à vontade Com os anjos, sem maldade, Pois anjinhos não tem sexo.
com os meus conterrâneos do costa a costa. formado em 2005 por don l., nego gallo, preto b e dj flip jay, o grupo lançou dois anos depois uma mixtape que surpreendeu a todos que acompanham o rap no brasil. dinheiro, sexo, drogas e violência de costa a costa (dunego records, 2007) trouxe um flow muito diferente de são paulo e rio, além de uma espantosa variedade de influências (brasileiras) nas batidas. só ouvindo. abaixo, o clipe de "costa rica", a mais latina das músicas do grupo, que foi dirigido por simone lima e valdo siqueira. a genial e caudalosa mixtape pode ser baixada aqui com a devida autorização dos caras.