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terça-feira, 8 de agosto de 2023

bicho é mais que bicho

mais um release pra minha coleção. costumo fazer mais pra música, mas teve uma época que fiz vários pra Globo Livros (biografia do Will Eisner, livros de história, etc). só que nunca tinha feito de um livro infantil, mas como chamado da amiga Renata Assumpção é uma ordem, topei na hora. Estranhos, de Luiz Antônio Barros, é uma beleza cheia de camadas e tensões (e as ilustrações e projeto gráfico de Alex Gyurkovicz são um show à parte). saca só.

UMA ODISSEIA PARA BICHOS E CRIANÇAS

Em 1945, George Orwell criou, em A Revolução dos Bichos, uma parábola sobre a busca de uma sociedade utópica onde os animais de uma fazenda viveriam por conta própria livres de seus opressores, os humanos. E de como esse paraíso rui diante da traição e corrupção de seu ideal. Já em 1976, Chico Buarque lançou o musical teatral Os Saltimbancos e nele alguns animais fogem de seus donos para tentar a sorte, coletiva e artisticamente, na cidade grande. Estamos em 2023, e os animais de Estranhos, livro infantil escrito por Luiz Antonio Barros e ilustrado pelo designer Alex Gyurkovicz, não buscam mais uma autogestão idílica longe dos humanos. É impossível fugir deles, então querem apenas sobreviver. 

A história é toda contada por Gesilda, uma pequena aranha negra, para o autor do livro e sua neta. É uma história sobre três dias dramáticos para os bichos da Baixada Santista e que começa com um grande incêndio nas matas do Xixová-Japuí, parque estadual que fica entre os municípios de Praia Grande e São Vicente. 

Espécies nativas das mais diversas – de insetos a macacos-prego, de guaxinins a roedores, de cobras e lagartos a cães-do-mato – buscam então refúgio do outro lado da baía de Santos, nos morros do Guarujá. São levados, em perigosa travessia, por mar (a bordo de tartarugas-marinhas) e ar (por aves de todos os portes). Mas nada sai como esperado e os animais do Guarujá não os querem por lá. 

Nova travessia rumo aos jardins das praias de Santos. Novo, e ainda mais violento, conflito, mas dessa vez com os animais santistas que não querem saber de dividir espaço com desconhecidos, invasores, imigrantes, essa gentinha (segundo eles, claro). A única saída possível, sugerida por uma coruja, é que esses “estrangeiros” sigam para os morros do Marapé pelas águas do Canal 1. 

Segue então a derradeira aventura de Estranhos e nela pequenas tartarugas-marinhas aproveitam uma grande chuva para conseguir driblar as comportas do canal e assim levar os animais do Xixová-Japuí até o Marapé em segurança (e até deixando alguns pelo caminho, mais precisamente, no Orquidário). Tudo finalmente dá certo, ou quase, pois três tartarugas acabam sendo capturadas pelos humanos, esses selvagens, quando tentam regressar ao mar. Todos os animais da cidade fazem uma espécie de minuto de silêncio para os colegas que, presos no aquário da cidade, nunca mais serão livres. Gesilda, a pequena aranha negra, sobrevive para contar a história. 

Descrevendo assim, Estranhos não parece nada com literatura infantil. Diferente de A Revolução dos Bichos ou Os Saltimbancos, o livro de Luiz Antonio Barros é de um duro realismo até para adultos. Não existem muitas chances de um mundo melhor para os animais. Só se conseguirem, talvez, ficar o mais longe possível dos humanos. Ou aperfeiçoarem um senso de comunidade próprio, afinal mesmo entre os animais podem acontecer (e certamente acontecerão) brigas. A natureza também não é sopinha no mel. 

No entanto, a delicadeza utilizada por Barros para contar esse pequeno épico santista faz um contrabalanço perfeito aos assuntos difíceis, atuais e necessários que trata, tanto políticos quanto sociais e ambientais. É o cuidado com a forma unido ao respeito pela inteligência das crianças, e é justamente dessa forma que alcança, de igual para igual, o exigente público infantil. Como se tudo isso não fosse o suficiente, Estranhos é ilustrado e diagramado com um esmero expressionista por Alex Gyurkovicz. Parece um sonho. Será que aranhas sonham?

O livro Estranhos será lançado em Santos no dia 12 de agosto, na Realejo Livros (Rua Marechal Deodoro, 2)

terça-feira, 5 de outubro de 2021

entre miranda e jangada, o release

quatro anos atrás fiz o release pro disco instrumental santos 3am do duo cæs. trampo massa demais e foi um prazer escreve sobre. daí que o tempo passou e uma pandemia dominou e domina o mundo e nossas vidas. então guilherme barros, uma das metades desse duo paulista, produziu um disco solo interessantíssimo e me chamou pra fazer o release. leia o disco, escute o release, e vice-versa. com vcs, entre miranda e jangada.

ORGANIZANDO SONS NUMA PANDEMIA

Acorda, toma café, trabalha, come alguma coisa, trabalha de novo, tira um cochilo, cai nos braços do amor, vê um filme ou uma série, ouve músicas, trabalha mais um pouco, almoço vira janta, dorme. Tudo em casa, tudo entre quatro paredes. E no dia seguinte, tudo de novo, mas não necessariamente nessa ordem. 

Pra muita gente essa rotina desesperadoramente repetitiva foi o novo normal durante os tempos mais fechados da pandemia. Com Guilherme Barros não foi diferente. Mas o que poderia ser angústia pura e simples, virou Entre Miranda e Jangada, disco instrumental que é tanto uma viagem pessoal do músico por timbres e paisagens sonoras quanto uma bela fuga instigante para o ouvinte em tempos de repetição.

Inspirado pelas roupas e as armas de uma de suas referências, o organizador de sons John Cage, Barros passou a entrar todo dia no seu pequeno estúdio caseiro para pescar, de seu passado como captador de som direto para documentários, o que achasse interessante, bonito, estranho. Vieram assim, de fora do quartinho, cigarras, pássaros, uma velha máquina de tear, uma chaleira apitando, galos amanhecendo, um anúncio de velório numa cidadezinha do interior, uma fala sonolenta e onírica. A partir daí foi criando músicas para essas paisagens, de dentro pra fora e vice-versa. 

Mais interessado em compor a partir de timbres e experimentações no seu pequeno laboratório do que em criar narrativas com começo, meio e fim, Barros foi buscando sons no próprio instrumento (o violão) e tentou combinar coisas das mais variadas e sem muito planejamento. E porque tudo numa faixa só? “Sei que nesses tempos de playlists é difícil, mas queria que Entre Miranda e Jangada fosse uma experiência. De colocar o fone, apagar a luz e ouvir os 30 e poucos minutos do disco de uma vez”, disse o músico. 

Com ou sem pandemia, uma experiência sonora dessas é mais que necessária, é enriquecedora. Do tipo que faz nossos ouvidos se abrirem para sons que criam mundos internos e externos, e músicas que surgem onde menos se espera.

p.s.: E o título? O que significa o título Entre Miranda e Jangada? Está lá no início da, digamos assim, terceira faixa, na fala de Renata Assumpção, companheira de Barros. São cidades? Lugares? Ela também não sabe, mas tinha uma parede colorida rodando entre Miranda e Jangada. Era um sonho, ainda é.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

duo cæs, o release

após uma sequência de releases de discos de canções - o da héloa no ano passado e os de zé ed e lincoln neste ano - apareceu um todo instrumental pra fazer. e que coisa bonita e ótima surpresa o projeto santos 3am, de guilherme barros e bruno bortoloto, ou melhor, o duo cæs. em pouco menos de 50 minutos, o disco leva o(a) ouvinte numa viagem por leituras musicais muito pessoais inspiradas por sons captados nas ruas e pela história da cidade. 

então, sem mais blábláblá, o release, o disco na íntegra - que também pode ser ouvido ou baixado no bandcamp, no itunes e no soundcloud - e até o curta setentista do lendário aloysio raulino, uma das inspirações desse trabalho do duo cæs. 



Toda cidade tem sons. De uma freada de ônibus. Da chuva no telhado. Do grito de gol. Da água correndo no meio fio. De um vendedor ambulante, um amolador de facas, uma feirante, um pedinte. Buzina, um palavrão, mais buzinas. Ou, de repente, um trem, o trem, o trem, o trem. Toda cidade tem seus sons e o Duo Cæs, formado pelos músicos Bruno Bortoloto e Guilherme Barros, andou por Santos, principalmente em sua região central, para registrar a vida e a história da cidade, e daí fazer música. 

Contemplado pelo 5º Concurso de Apoio a Projetos Culturais Independentes do Munícipio de Santos, e beneficiado com verba do Fundo Municipal de Assistência à Cultura [Facult], o disco-projeto Santos 3AM é uma espécie de épico urbano intimista e instrumental. ‘Épico’ por tratar do heroísmo cotidiano de anônimos e ‘intimista’ pelo olhar delicado, próximo e envolvente sobre todas essas pessoas. E a cidade, sua história e seus cantos, amarrando tudo.



Tudo começa na faixa que dá nome ao trabalho, com seus barulhos de uma madrugada na cidade misturados a samples históricos de O Porto de Santos, curta dirigido por Aloysio Raulino em 1978 e uma das inspirações de Santos 3AM. E então o dia vai nascendo vagarosamente ao som “Trem para Vicente de Carvalho”, um blues sertanejo a contemplar o movimento das barcas que ligam Santos a Vicente de Carvalho, distrito do município vizinho do Guarujá. Contempla ainda o andar sonolento de mulheres e homens, a maioria de ascendência nordestina, rumo ao trabalho. Com o trem ao fundo, e o sinaleiro dando o tom.

Já “Vila” e “Guarany” tratam de dois espaços icônicos de Santos: a Vila Belmiro, casa do Santos Futebol Clube, e o centenário Teatro Guarany, o mais antigo da cidade ainda de pé. Nas duas faixas, a delicadeza de quem vê as coisas por fora e por dentro e, acima de tudo, escuta a tudo atenta e carinhosamente.

A vida santista volta a se agitar em “Avenida dos Portuários”, um samba instrumental oitentista com direito a sintetizadores, efeitos de guitarra e sons de trânsito, e “Feira”, registro sem cortes de um passeio pelas barracas de uma feira livre comentado por uma guitarra que às vezes chora e n’outras vezes grita baixinho. 

Então os olhos e ouvidos se voltam para o porto em “Santos-Valparaiso-Montevideo”, uma toada tango que dialoga com várias gravações de radioamadores de outras cidades portuárias mundo afora. Ainda na região, “Paralelepípedos” é uma balada sobre o vai e vem de carros por ruas que mantém seu calçamento original, e essa combinação sonora da borracha dos pneus com os paralelepípedos tem um colorido especial que não existiria com o asséptico e impermeável asfalto.

E o tempo fecha e lá vem “Chuva na Rua Direita”, outra música que contempla tanto o presente [das gotas de chuva] quanto o passado histórico da cidade [a Rua Direita foi a mais importante da cidade quando ainda era vila e atualmente se chama Rua XV de Novembro]. Aliás, uma das causas da chuva e do calor tão característicos da região dá o nome a penúltima faixa do disco, “Vento Noroeste”, mais uma delicada observação sonora e musical sobre as coisas de Santos.

“E o resto é silêncio”, a última faixa do disco, é uma despedida ao som da barca que vai até a Praia do Góis, no Guarujá. E a água batendo, e o mar, e a vida que segue sem lamentar o eterno movimento, movimento dos barcos, movimento.

p.s.: Santos 3AM foi todo tocado e programado por Bruno Bortoloto e Guilherme Barros, mas teve a participação do baixista Fábio Machado em três faixas. Todas as composições também são do duo Bruno-Guilherme, com exceção de “Vento Noroeste”, co-escrita por Jota Amaral.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

lincoln, o release

dando sequência à recente buena onda de frilas-release - já rolaram aqui héloa e zé ed -, agora é a vez de lincoln. baiano, brasiliense e paulistano de muitos talentos, lincoln acabou de lançar seu disco de estreia solo. não sabia nada sobre ele, seu som, nada nada, e foi uma bela surpresa encontrar um trabalho tão coeso, bem escrito e bem produzido [e acompanhado de músicos experientes como guilherme held e fábio sá]. com vocês, o release, o clipe de "fica a dica" e a íntegra do disco malvado canto.



Entre idas e vidas, Lincoln foi e é um tanto de várias coisas. Artista plástico, compositor, web-designer, músico, designer de produtos e cantor, além de baiano de nascimento, brasiliense, paulistano e até com uma passagem pelos Estados Unidos para estudos. Mas ele sempre quis, acima de tudo, mostrar sua música, mesmo quando se escondia [ou se procurava] em experimentações pessoais. Agora, aos 35 anos, o artista sai das sombras com seu primeiro disco solo, o belo Malvado Canto.

Só que antes de falar do disco se faz necessário um rápido flashback. Dois anos atrás, após uma combinação explosiva de crise de identidade e desilusão amorosa, Lincoln sentiu necessidade de um aconselhamento espiritual. Foi então que ouviu que precisava mostrar o que estava escondido, precisava cantar. 

A partir daí, como num passe mágico, caminhos se abriram, encontros se multiplicaram, todas as letras do futuro disco nasceram em apenas uma hora e as músicas foram compostas em duas semanas em parceria com Nei Zigma, que acabou assinando Malvado Canto como produtor musical. E o disco se fez, foi feito: conciso em suas 10 faixas, rebuscado em sua afetividade e pop na vontade de se comunicar. Então, solte o som & o canto, Lincoln.



“Fica a dica”, a música que abre o disco, é um rock confessional com metais abolerados e versos cortantes como “Se ele soubesse mirar no espelho / Veria mais fácil o outro sem medo”. Já “Um a um” é balada mansa de coração à mostra, daquela que traz lembranças de amores encontrados e perdidos. Mas esse tom conciliatório muda em “Escorpiônico”, uma canção de sentimentos à flor da pele no qual Lincoln grita, entre dentes, que um ex-amor “se satisfez matando um tanto de outra pessoa”. Tem raiva, frustração e desencantamento nessa música que, não coincidentemente, traz os versos que dão o nome ao disco Malvado Canto.



Só que Lincoln sabe que [o fim de] uma história de amor tem mais de uma versão, muito mais que uma leitura, e em “Silêncio e melancolia” ele dá um passo atrás e assume suas próprias responsabilidades. E é com alegria, musical inclusive, que faz isso. É tempo de reconciliação, ou pelo menos de tentativa, e surge então “O fardo do amor”, um belo pós-fado de alguém que só quer carinho. Daí que certas coisas quebradas não tem conserto, não tem cola que dê jeito, e Lincoln entende que “Já é tarde”, uma canção dolorosamente pé no chão.

Enquanto o disco se aproxima do fim, o artista, compositor e cantor olha para frente, buscando entender seus próprios desejos, medos e dúvidas. Entre efeitos e pedais, a guitarra de Guilherme Held ajuda muito a transformar em realidade as tantas emoções diferentes que saem do malvado canto de Lincoln [mas Lincoln, Zigma e Held não estão sozinhos nessa empreitada e é sempre importante citar músicos que colaboram decisivamente nos arranjos finais, tais como Fabio Sá e José Aurélio, além das participações de Marcelo Sanches, Gustavo Da Lua e Natan Oliveira].



“Frieza”, “Padrão”, “Trato de dono” e “Deita em mim”, as últimas faixas do disco, completam o arco narrativo proposto, mesmo que não todo conscientemente, por Malvado Canto. E assim Lincoln oferece sua primeira e bela contribuição solo para uma das mais fortes tradições da música popular brasileira, a saga dos afetos. Não é pouco e é só o começo.

p.s.: segue o disco na íntegra, no youtube e no spotify.



terça-feira, 11 de abril de 2017

zé ed, o release

o release que fiz pro disco da cantora héloa, no segundo semestre do ano passado, abriu caminho para uma nova safra de frilas-release e nessa toada nasceram outros três que publicarei aqui conforme os discos forem lançados. daí que o disco de estreia do zé ed já está por aí, tanto fisicamente quanto nas plataformas de streaming [spotify, deezer, google play, itunes, etc]. mais uma bela surpresa que me caiu no colo e nos ouvidos. disco doce, delicado mesmo, e lindamente cantado e arranjado.



ZÉ ED

Entre a dança e a doçura, entre a rua e o suor, entre o amor e o Sol, entre cangotes e encontros, assim caminha o canto de Zé Ed. Mais conhecido por ser uma das vozes do Tarado Ni Você, um dos blocos mais disputados do carnaval de rua paulistano, o cantor e compositor lança seu disco de estreia com aquela segurança louca de quem ama o que faz e com aquela alegria de quem tem muito a dizer. 

E Zé Ed diz muito em seu canto autoral, talvez porque tenha levado uma década para amarrar o conceito de sua estreia e reunir as composições [todas as 11 músicas do disco são dele ou em parceria]. 

Na faixa que abre o disco, “Transa”, o artista paulistano começa apoiado por um naipe de metais e logo estabelece um diálogo vibrante entre arte, dança e pessoas. Já na segunda música, a dedilhada “Do vento”, um tanto de melancolia toma conta de sua voz [ou doçura, ou uma união de ambas] e essa alternância entre climas permeia todo o disco. 

“Bonde da vida”, a única não inédita do disco [foi lançada como ‘single’ em 2015 e tem participação do grupo Batakerê], tem um quê de amores carnavalescos de ladeiras olindenses e é pop e tropicalista ao mesmo tempo. “Delírio” [part. Simone Julian e Clara Bastos ] e “Confesso” são canções tranquilas sobre o amor, suas idas e vindas, e sua permanência apesar dos solavancos da vida. Afinal de contas, “o que fica do amor é joia rara”.



E a vida segue complexa e cheia de voltas na faixa “Tudo em movimento” [part. Ricardo Herz], pois começa como balada para depois crescer epicamente no refrão. Vida muda todo tempo, não para, tem alegrias e tristezas e vice-versa. Daí que Zé Ed não aguenta ficar parado também, quer tudo sempre em movimento. Mas uma coisa não tem saída, do coração não se escapa, e “Condição do amor” [part. Tati Abdo e Paulo Neto] é outra canção de quem não quer [e nem pode] fugir dos sentimentos. 



“Pro futuro” [part. Irlana Maia] é uma festa para quem espera sempre mais e melhor do que vem pela frente. É aquela canção amiga que pega pelo braço e te leva pra dançar na rua. “Assunta” é um outro lado da festa, é aquele início lento de procuras e descobertas. E enquanto o disco vai chegando ao fim, Zé Ed ainda tem fôlego para sacar mais duas belezas: “Preciso ir” [part. Rubi], um xote sobre o desapego, e “Verão na cidade”, uma marchinha urbana sobre como ocupar afetivamente a rua com alegria, amor, loucura e esperança [no dicionário essa seria a melhor definição para “carnaval”].



Produzido por Luiz Gayotto, Estevan Sincovitz e Guilherme Kastrup, a estreia de Zé Ed é daqueles sopros bons que a música popular brasileira continua nos brindando ano após ano. É aquela voz tranquila e amiga que chega perto e diz que vai ficar tudo bem, vamos lá, vem comigo.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

héloa, o release

uma das coisas certas na vida é que a música popular brasileira - que, bom frisar, é muito mais ampla que a tal mpb - nunca vai te deixar na mão. ano após ano tem gente boa aparecendo, gente ótima surgindo, jovens artistas amadurecendo, gêneros se firmando e se transformando, velhos artistas inquietos. enfim, tem surpresa por todos os lados e de muitas formas.

a cantora e multiartista héloa, sergipana radicada em são paulo, é uma dessas surpresas boas, refrescantes mesmo, e tive a honra de escrever o texto-release pra divulgar seu disco de estreia, o belo 'eu'. não fiz muitos releases na vida e antes deste, foram apenas três - trio esmeril [junior boca, guizado e mauricio takara], projeto manada e paulo carvalho - e é curioso ver um pouco da inquieta e atual diversidade musical brasileira nessa pequena amostra.

agora, sem mais blábláblá, o texto sobre o 'eu' de héloa e sua música.



Uma voz que canta ventos e avenidas, amizades e mudanças, sorrisos e silêncios, amores e lembranças... uma voz assim não se encontra todo dia. Héloa é a dona desta voz e o seu 'Eu' – estreia em disco dois anos após o EP ‘Solta’ - é uma espécie de autorretrato de uma artista em movimento.

A história e os sons de ‘Eu’ começam em Aracaju, Sergipe, terra natal da cantora. É lá que seus caminhos se abrem, é lá que começa a dançar, fazer teatro e artes visuais. E a compor. Amarrando tudo com uma voz de céu, sol e mar. Uma voz quente. 

E então, vem a mudança. No segundo semestre do ano passado, Héloa decidiu ir para São Paulo para gravar e encontrar ‘Eu’. Tal movimento é ilustrado no disco pela regravação de “Caravana” [Geraldo Azevedo e Alceu Valença]. Ela sabe que é inevitável se arriscar, se jogar no mundo, e soa muito pessoal e verdadeira quando canta, com um fraseado todo especial: “Corra, não pare, não pense demais / Repare essas velas no cais / Que a vida é cigana”. 



Antes de partir em “Caravana”, na vida e no disco, Héloa pede “proteção para minha estrada, que não me aconteça nada que atrapalhe esta jornada de viver” [“Proteção”, de Ruan Levy, é a a faixa que abre ‘Eu’]. Daí faz silêncio pra enxergar e se expressar melhor [na ótima “Calei”, de Allen Alencar, talvez a mais pop do disco] e se espreguiça apaixonadamente ao acordar lado a lado com o amor [“Amanheceu, seu sorriso”, de Allen Alencar]. 

Acompanhada pelos músicos e produtores Daniel Groove e João Vasconcelos, Héloa vai encontrando novos ‘eus’ em São Paulo, todos muito apaixonados e apaixonantes. Na linda “A avenida” [Héloa e Eduardo Escariz], a cantora lamenta perdas, procura respostas e guarda certezas no coração, e, em meio ao frenesi de uma cidade grande e nova, Héloa vai buscando tranquilidades na vida.

De música em música, e sem nunca se prender a rótulos, a cantora se coloca naturalmente como mais uma força a expandir e misturar os limites da música popular brasileira. Afinal, tem um tanto de afoxé em “A paz que desejei” [Eduardo Escariz], balada em “Super herói” [Daniel Groove], brega romântico em “Se você disser que vem” [Daniel Groove], bossa em “Crua” [Otto] e bluegrass em “Meus amigos” [Saulo Duarte e Daniel Groove]. Mas todas as canções de ‘Eu’ vão muito além de um gênero, muito além da velha e gasta mpb.

É que Héloa canta ventos e avenidas. Uma voz assim não se encontra todo dia.



p.s. 1: saiu o clipe de “Calei”.



p.s. 2: apresentação ao vivo de Héloa no estúdio do Showlivre.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

paulo carvalho, cantautor

nunca fui um profissional de releases (musicais) para imprensa e nesses meus doze anos de profissão só tinha feito um, no final de 2008, porque foi pedido de um amigo (oga mendonça, do projeto manada), gosto do trabalho dele/grupo, presto muito atenção no rap brasileiro e gostaria de dar uma contribuição e tals. mas daí que em março ou abril, o paulistano paulo carvalho me convidou pelo facebook pra fazer o release de seu segundo disco solo (o amor é uma religião). não sei se ele tinha uma opção anterior, não o conhecia pessoalmente, mas lembrava que tínhamos falado um pouco por emails quando ele lançou seu disco de estreia em 2007 e me agradeceu pela resenha que fiz no gafieiras. fui tomado por receios ético-profissionais. e se não gostar do disco? será que vou ter que apelar pra ficção jornalística? na conversa com paulo decidimos que iria acompanhar um pouco dos ensaios em maio e da gravação em junho para ter mais informações extra-musicais. e, ufa, bastaram alguns minutos do primeiro ensaio pra ter certeza que não precisaria usar de truques para falar sobre um disco que se mostraria cheio de boas surpresas e muitas e belas canções. portanto, seguem algumas fotos que tirei nesse processo, o release em si e o disco em streaming (que também pode ser baixado gratuitamente no site oficial do paulo ou, acima, no link do disco).  



CORAÇÃO NA BOCA

O amor é um daqueles grandes mistérios, e consequentemente temas, da humanidade. Artistas e não-artistas tentam entendê-lo (e assim louvá-lo, amaldiçoá-lo, mil coisas) em verso e prosa desde que a maçã foi comida. Paulo Carvalho gosta de escrever sobre o amor e não é de hoje. Em 2007, sobre sua estreia em disco (De Longe) como cantor e compositor, escrevi o seguinte para o site Gafieiras: “Romântico, o paulistano prefere cantar dores de amor e ausências, mas devidamente colocadas em um cenário urbano e atual”.

Mas foi necessário um pouco mais de tempo e maturação para o também escritor e psiquiatra tomar coragem de se assumir definitivamente como um “cantautor”. O resultado é seu segundo disco, O Amor é uma Religião, que volta a tratar dos solavancos do coração, só que de uma forma mais aberta e ainda mais poética e autoral. O título vem de um dos versos de “Solando no tempo” – canção de Luiz Melodia, gravada originalmente em Mico de Circo (1978) –, uma das duas regravações presentes no disco. A outra é “Aeroplanos” (Jorge Mautner e Rodolfo Grani Jr.), que Mautner gravou em Mil e Uma Noites de Bagdá (1976).

Nessas duas músicas, e também nas autorais “Sóis” e “Segredo” (esta com a irmã Luciana de Carvalho, parceira habitual), existem ligações evidentes entre amor, Deus e religião/crença, como sugere o título desse disco de 12 faixas. Mas na verdade o amor-religião de Paulo Carvalho é feito de belezas e mistérios muito próximos, em nada distantes ou idealizados. Tanto faz ganhar ou perder, o importante é se encantar e se entregar. Amor é vida, o resto é ficção.

É notável a coragem de Paulo Carvalho enfrentar o amor (logo o amor) dentro do historicamente fértil terreno da canção popular brasileira, e ele se sai muito bem nas suas escolhas poéticas, mas teve ainda a grande sabedoria de chamar um afiado quarteto de músicos-arranjadores para todo o disco.

Três deles possuem uma longa convivência no grupo Cidadão Instigado: Dustan Gallas (teclados), Rian Batista (baixo) e Régis Damasceno (guitarra e violão). Rian e Régis haviam tocado na estreia discográfica de Paulo Carvalho e agora o guitarrista é co-produtor ao lado de Yury Kalil (que também co-produziu a estreia de Paulo, mas na época ao lado de Fernando Catatau, o líder do Cidadão Instigado). O baterista Richard Ribeiro poderia ser um estranho no ninho, mas toca com Régis em seu projeto solo (Porto) e na banda de Marcelo Jeneci (e de lá veio Laura Lavieri que cantou junto de Paulo na delicada “Miragem”), além de também colaborar com o Cidadão Instigado.

Nos ensaios, a familiaridade de uns com os outros era patente em quão rápido e fácil encontravam soluções e caminhos para cada música de O Amor é uma Religião. Uma psicodelia aqui, uma bossa nova acolá, pitadas de futurismo, umas colheres de Jovem Guarda, um jeito Caetano Veloso, uma valsinha com clima de praia, uma guitarra Lulu Santos, rocks variados e assim por diante em um disco repleto de surpresas sonoras. Tudo isso, todo esse clima leve, ajudou Paulo a ter mais confiança e lá se foi o rapaz arriscar em espanhol (“Inmersión”) e inglês (“Dreamer”, parceria com Régis) e assinando canções com Pélico (“Teu nome”) e Pecker, cantor e compositor espanhol que veio até São Paulo gravar uma participação em “Inmersión” (além de terem feitos juntos “Segredo”). O amor, esse mistério, nos dá força pra cada coisa.



p.s.: as fotos acima foram tiradas durante os ensaios, que aconteceram no estúdio loop, a as que seguem abaixo nas gravações nos estúdios mosh.


yuri kalil (co-produção)

dustan gallas (teclados)

rian batista (baixo)

régis damasceno (guitarras, violão e co-produção)

richard ribeiro (bateria)

laura lavieri (voz) e tony berchmans (acordeon), 
participações especiais em "miragem"

terça-feira, 1 de março de 2011

na retina e nos ouvidos

foi no final de 2008 que escrevi um release pro disco de estreia do projeto manada, grupo do bróder oga mendonça. pouco mais de dois anos depois coloco aqui o texto na íntegra (já tinha publicado um trecho em outro post) para chamar pro show que o quarteto faz hoje no sesc pompéia, de graça, 21h. aumenta o som aí...



Cidade grande assim é dura. Bate mesmo e às vezes é abaixo da linha de cintura. O pessoal do Projeto Manada sabe disso. Já tomaram uma ou duas porradas, pode acreditar, mas agora decidiram que chegou a hora de revidar. As 14 faixas de Urbanidades, disco de estréia do quarteto paulistano, distribuem sopapos, reflexões, críticas, areia no olho e um tanto de carinho. É que eles também sabem que a cidade é cheia de gente e tem muita gente boa por aí. Cidade grande é assim, amor e ódio e não necessariamente nessa ordem.

Urbanidades é chumbo grosso, olho aberto e movimento: a vida pode ser boa em “O sol”, os beats ficam nervosos na relação periferia vs. religião em “Mentira salva”, a grana e os números soterram as pessoas em “Retina” e a amizade fala mais alto em “Verdadeira força” e “1 por todos” (com direito a Elis Regina cantando “Um por todos”, de João Bosco e Aldir Blanc, que curiosamente foi lançada na trilha da novela O Grito, de 1975).

As rimas se multiplicam sob bases cheias de sons, histórias e referências tanto para a cabeça (“Batalha”) quanto para o quadril (“Zueira” e “Estouro”). A última faixa “Ao avesso”, esclarece o jogo e derruba cenários em versos como “Manada se diverte nesse mundo ao avesso”. Desse jeito Leco, Macário, PriZma e Venom colocam novos tijolos na construção de um moderno rap brasileiro. Porque rap é vida real, pulsante, um rio caudaloso cheio de vozes. Aí chegam esses quatro paquidermes e colocam suas “patinhas” na água. Pense nas ondas bagunçando a superfície. Pense no barulho. Projeto Manada é mais, muito mais rimas, bumbo e caixa do que você imagina.


pelo poder de greyskull?!?!?

sábado, 12 de setembro de 2009

psycho afro sambas

escrevi o texto abaixo em maio de 2007 a pedido do junior boca (foi o primeiro "press release" que fiz). conheci o guitarrista cearense lá em fortaleza via dustan gallas, num barzinho de música instrumental perto da av. santos dumont (foi em 2005?). logo depois ele veio pra são paulo e descolei o primeiro show solo dele aqui na cidade, lá no saudoso villaggio café do bixiga. de lá pra cá, o boca passou a tocar com um monte de gente e sofisticou ainda mais sua guitarra (que era mais jazz puro quando conheci). com certeza é um dos melhores instrumentistas em atividade agora no país. bom, e um dos projetos que ele se meteu foi o trio esmeril - que não tinha esse nome quando escrevi o texto - com mauricio takara e guizado. o trio se propôs a entortar os afro-sambas de baden powell e vinicius de moraes. o resultado é maravilhoso, mas pouca gente viu/ouviu. rolaram uma série de shows aqui em são paulo em 2006 e 2007, talvez alguma coisa em 2008, mas é o típico projeto paralelo e acabou ficando de escanteio por outras prioridades.

é que ontem, navegando no site do ótimo selo desmonta descobri, na seção "media", três músicas do trio para baixar gratuitamente. que delícia ouví-las novamente e poder tê-las. a notícia é essa, mas acrescentei aqui o texto que fiz (acompanhei um ensaio deles no estúdio el rocha, em pinheiros), uma foto maluca que tirei num bar vegetariano no bixiga (único show que vi, totalmente excelente), um video e as três músicas em streaming.


um borrado boca, um takara compenetrado e um guizado olhando pro infinito

Primeiro foi um ensaio, na moral, bateria, guitarra e algumas bases. Poucas semanas depois, um show, o segundo e valendo, com a entrada de um trompete e novos efeitos. Em dois momentos, distintos e complementares, pude acompanhar o encontro dos jovens músicos Mauricio Takara, Junior Boca e Gui Mendonça (aka Guizado) com os afro-sambas de Baden Powell e Vinicius de Moraes.

Músicas como “Canto de Ossanha”, “Canto de Iemanjá”, “Canto de Pedra Preta” e “Canto de Xangô”, tão misteriosas, espirituais e sensuais como em seu lançamento em 1966, quase sempre sofreram de demasiada reverência nas interpretações de outros artistas. Talvez porque não tenham também embarcado em outra característica da bossa negra de Baden e Vinicius: a liberdade.

No caso de Takara, Boca e Guizadoman, essa liberdade é tomada por formas exclusivamente instrumentais. É mais jazz, tem algo de rock, é música instrumental brasileira, e tem barulho, groove, surpresa e improviso. Tudo muito natural. Às vezes não se entende nada e de uma hora para a outra você se pega sorrindo, batendo o pé no compasso, essas coisas. E, acompanhando esse power trio em ação, os versos de Vinicius fazem muito sentido: “O homem que diz ‘sou’ não é / Porque quem é mesmo é ‘não sou’”. Enfim, só ouvindo mesmo.


e agora, as músicas. na ordem, "canto de iemanjá", "canto de xangô" e "tempo de amor".







e pra encerrar, um video com apresentação do trio esmeril no studio sp (em tempos de vila madalena), em junho de 2006.