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quarta-feira, 26 de março de 2014

reiOpixo, o fim

tinha separado mais alguns versos de músicas do roberto carlos e o #reiOpixo poderia seguir tranquilamente por mais umas 20 ou 30 intervenções, mas a verdade é perdi o pique. deu o tempo. e, pensei, poderia muito bem finalizar no 100. mas qual música? tinha que ser alguma muito relevante, sei lá. então passei quase dois meses para achar a resposta – os #reiOpixo 98 e 99 foram feitos em 26 de janeiro, um domingo –, e nem lembro como a ideia surgiu. mas era isso, o que tinha de mais atual relacionado ao roberto era a patacoada da publicidade da friboi que ele protagonizou com a história de voltar a comer carne [e dá-lhe a escolha óbvia, e já utilizada em outras propagandas, de “o portão”]. taí ó...


o #reiOpixo acabou e foi muito bom enquanto durou [sete meses, por aí, com direito a matérias na folha de s. paulo e na revista vida simples]. foi bem divertido escrever na rua, conseguir criar novos diálogos do texto com o espaço, isso sem se repetir nem uma vez [e ainda finalizar na zuera com o grande, falho e sinceramente amado ídolo]. mas os rolezinhos não param... faltam mais alguns vocêpraça [22, para ser mais exato], posso voltar com o “menos mimimi, mais cariri” e o existencialismo leminski, e comecei o “menos mais, mais menos”. e o que mais vier. cidade também serve pra isso.


p.s. 1: muitas pessoas me ajudaram nesse projeto, principalmente dando sugestões de músicas [algumas que não conhecia], e estão devidamente creditadas nas respectivas canções-intervenções lá no tumblr. a todas e todos, agradeço mais uma vez. foram muitas emoções. 

p.s. 2: dois dias depois passei lá novamente [faria lima com pedroso de moraes] e deu uma vontade de "assinar". então tasquei um #reiOpixo. ficou assim.


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

yahoo #62

meio nonsense (ou não) esse texto do yahoo sobre música popular brasileira, cavalos, a derrocada do macho moderno, etc. e tal. e tudo teve início com o vídeo que tá lá no pé do post. agora, lá no ultrapop, "as charges e a dor".




MÚSICA POPULAR DE CAVALGAR

Você não sabe que a cavalo dado não se olham os dentes? Pois então, lugares comuns equinos não faltam à música popular brasileira. Primeiro vieram os reais cantados pelo caipira/gaúcho/sertanejo, tais como “Cavalo Baio” (Brinquinho & Brioso), “Cavalo Preto” (Palmeira & Luisinho), “Como é Burro o Meu Cavalo” (Bob Nelson), “Cavalo Zaino” (Raul Torres & Florêncio), “Cavalo Enxuto” (Jacó & Jacózinho) e “Cavalo Crioulo” (Luiz Gonzaga).

Mas a partir dos anos 1970, o cavalo ganhou diferentes usos na música popular, desde a viagem mística-suingante-elétrica de “Cavaleiro do Cavalo Imaculado” (Jorge Ben) até o revisionismo regionalista de crítica social de “Ventania (De Como um Homem Perdeu Seu Cavalo e Continuou Andando)” (Geraldo Vandré), passando pela euforia de “Cavalo das Alegrias” (Marku Ribas), a liberdade de “Cavalo Bravo” (Renato Teixeira), e os delírios de “Cavalo Ferro” (Fagner) e “Cavalo de Pau” (Alceu Valença). Só que o duplo sentido acabou ganhando a batalha. Em “Cavalgada”, lançada em 1977, Roberto Carlos e Erasmo Carlos transformaram o simples ato de trotar numa explosão de sacanagens românticas (sim, isso é possível). Nada mais foi o mesmo.


Aí, meu amigo e minha amiga, quando a sacanagem entra na parada não sobra pra mais nada. Potrancas, por exemplo, se multiplicaram nos axés baianos e pancadões cariocas e encontraram com garanhões e pangarés que sumiram dos pastos para ganharem as cidades. E essa cavalgada seguiu em ritmo de festa até ser interrompida brevemente pelo sucesso, em 2003, da quase infantil “Eguinha Pocotó”, de MC Serginho (e Lacraia, in memoriam).


Hoje em dia, o cavalo se encontra numa encruzilhada. Ou vai para o brejo de vez, já que até no campo foram substituídos por Camaros, Dodges Ram e até helicópteros. Ou então fica na eterna dúvida se é dominado ou se domina como em “Vai Cavalinho” (Forró da Curtição), provável hit do verão baiano do Trio da Huanna. Certo mesmo é que estrelas mudam sempre de lugar, sua cavalgadura!



p.s.: o gatilho desse texto surgiu quando yuri de castro postou no facebook o vídeo de um casal muito bêbado dançando "vai cavalinho" em algum lugar no espírito santo. depois colocaram uma versão extendida no youtube e a parte do cavalinho começa no 5:22. coisa mais linda é ver gente feliz, né?

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

yahoo #60

quem gosta e acompanha cinema brasileiro estava ansioso para a estreia em longas de kléber mendonça filho. um tanto por seus inspirados curtas (ficcionais e documentais) e outro por suas brilhantes, e serenas, críticas de cinema no jornal do commercio, incluindo deliciosas coberturas do festival de cannes. o som ao redor é tudo que se podia esperar de seu talento e muito mais. é o tipo de filme que dá o que pensar e fica por dias a fio maturando na cabeça de quem o assiste, melhorando a cada lembrança. e, claro, foi assunto no yahoo. o texto mais recente por lá é o "saudade de cinema de rua" e tem relação com esse.




NEM TODOS ESTÃO SURDOS


Medo. Do que pode acontecer. Do desconhecido. Do escuro. Da rua. De quem está ao lado. De tudo, tudo. Boa parte dos personagens de O Som ao Redor, longa de Kleber Mendonça Filho lançado recentemente nos cinemas, sofre desse mal tão contemporâneo e urbano. Algumas vezes com razão, mas na grande maioria fruto de um emaranhado de paranoias, delírios e preconceitos, muitos preconceitos, individuais e coletivos.

Não existe uma trama clara nessa excelente estreia do pernambucano, autor de curtas sensacionais como Recife Frio e hábil crítico de cinema. Existem pessoas de classe média e seus empregados (porteiro, doméstica, flanelinha, entregador de água etc.), uma rua em Recife perto da Praia da Boa Viagem e um grupo de seguranças particulares que chegam oferecendo... segurança (Contra o quê? Contra quem?). E, claro, um dia após o outro dia.

Tem crianças brincando no playground azulejado do prédio, a patroa que dá esporro na empregada, a moradora de apartamento que reclama porque “anda recebendo sua Veja fora do plástico”, o boyzinho arruaceiro e prepotente, uma reunião de condomínio, o cachorro que não para de latir madrugada afora, um baseado fumado escondido, um banho de mar noturno, adolescentes namorando, um argentino perdido, uma batida de carros. Tudo normal, aparentemente normal. Aos poucos, o filme vai sendo tomado por uma tensão de que algo (ruim) está para acontecer. É o medo dessa gente tomando as mais diferentes formas.


No ótimo texto “Da relação direta entre ter de limpar seu banheiro você mesmo e poder abrir sem medo um Mac Book no ônibus”, Daniel Duclos fala da Holanda onde mora para chegar ao Brasil onde nasceu e à seguinte conclusão: “O curioso é que aqueles brasileiros que se queixam amargamente de limpar o próprio banheiro, elogiam incansavelmente a possibilidade de andar à noite sem medo pelas ruas [de Amsterdam], sem enxergar a relação entre as duas coisas. Violência social não é fruto de pobreza. Violência social é fruto de desigualdade social”.

Só que no Brasil a manutenção da desigualdade – consequentemente da violência e do medo – é um bom negócio para muita gente (não só dá lucro como também elege os coronéis Telhada da vida). E grudado nisso tem o espírito Casa Grande & Senzala que ainda vive arraigado em nossas relações sociais. Arraigado e difuso, afinal hoje em dia existem milhões de senhorzinhos de engenho espalhados pelo país (a diminuição da desigualdade econômica ameniza a social, mas não a resolve).

Não precisa mais ter poder, basta achar que tem. E na rua de O Som ao Redor, como em todo o país, tem um monte de gente que quer manter as coisas como estão com seus grandes e pequenos poderes. Quanto mais desigual, melhor, e o medo é moeda de troca nesse conflito diário entre autoritarismos e subserviências.

O filme critica tudo isso observando, apenas observando. Não levanta bandeiras, não faz discursos. Mas registra inúmeros momentos no qual pessoais normais alimentam o bicho feio (real ou não) que irá lhes assustar quando colocarem o pé na rua. Quem mandou não olhar para o lado. Quem mandou não ouvir.

p.s.: Recomendáveis a leitura desses dois textos sobre o filme, “O som ao meu redor” (Marcelo Negromonte) e “Terror suspenso” (Kiko Dinucci), e a ótima divulgação que o filme tem feito no Facebook.

domingo, 18 de dezembro de 2011

as canções que você fez pra mim

segue aqui no esforçado o texto que foi minha primeira contribuição ao farofafá, dos camaradas pedro alexandre sanches e eduardo nunomura. é sobre o novo documentário de eduardo coutinho, as canções, que ainda segue em cartaz em poucos cinemas nas cidades de são paulo, rio de janeiro, fortaleza, salvador, porto alegre, brasília e joão pessoa.


NO CORPO DE QUEM CANTA

As Canções, o mais novo documentário de Eduardo Coutinho, estreou na sexta passada em alguns poucos cinemas de algumas poucas cidades e, provavelmente, não fará a boa e surpreendente bilheteria que Edifício Master teve lá em 2002. Não merecia. Só o anúncio que foi colocado para convocar pessoas no Rio de Janeiro para participar do filme (“Alguma música já marcou sua vida? Cante e conte sua história”) já seria uma deixa para se prever que Coutinho levaria o espectador para o terreno dos sentimentos mais populares: amor, perda, traição, saudade, alegria. E isso dá samba, sabemos bem. Ou samba canção. Ocasionalmente bolero. É identificação imediata e não importa idade ou gosto musical (e olha que a faixa etária d’as canções do documentário é alta). Enfim, sucesso. Mas isso não acontecerá com As Canções e sua muita tímida distribuição.

Ao total, 237 pessoas foram entrevistadas pela sempre afiada equipe de Coutinho, 42 foram gravadas e 18 entraram na edição final. O formato do filme é o mesmo de Jogo de Cena (2007) – uma cadeira, um palco, um entrevistado por vez rasgando o peito -, o que acaba lhe conferindo um ar de déjà vu. Mas isso é o de menos, originalidade hoje em dia está nos detalhes ou na construção de algo. O que importa em As Canções são as histórias e suas relações íntimas com a música popular brasileira. Coisa de pele mesmo.

Como a de um músico (tô em dúvida agora sobre a profissão do cara), talvez a mais surpreendente dessa leva. Ele conta sobre seu primeiro casamento que o levou a tocar na Igreja Batista, e da súbita interrupção do mesmo com a morte de sua mulher. Depois a depressão, um novo amor, o segundo casamento, a saída da igreja. Mas acaba lembrando de uma música (“Esmeralda”, bolerão de 1960 cantado por Carlos José) que associa a sua mãe costurando em casa. E começa a chorar copiosamente. Mas sua mãe está bem, viva, 85 anos, não tem nada de errado e ele fica desconcertado sem saber por que chorou desse jeito, com essa música.

Muitas outras histórias aparecem. Doloridas, divertidas, ricas, mas a maioria girando em torno de amores perdidos, por desencontros ou separações. É aí que as músicas de Roberto Carlos (e Erasmo) entram de sola nos corações de alguns entrevistados (“Não se Esqueça de Mim” e “Olha”) e de milhões de brasileiros. Coutinho chegou a afirmar em entrevista recente que o filme todo poderia ter sido feito apenas com Roberto e Erasmo, mas que as negociações de direitos seriam muito problemáticas.

De qualquer forma, entram ainda nesse microcosmo sentimental canções como “Minha Namorada” (Carlos Lyra e Vinícius de Moraes), “Retrato em Branco e Preto” (Tom Jobim e Chico Buarque), “Último Desejo” (Noel Rosa) e as clássicas versões em português das latinas “Fascinação” e “Perfídia”. A música mais nova presente no filme é “Que Nega é Essa?” (Jorge Ben), já que “Pais e Filhos” (Legião Urbana), segundo o próprio realizador, acabou ficando no chão da sala de edição.

E assim, em suas falas e histórias, os personagens vão deixando claro que o romantismo é a faceta mais importante, mais próxima, de sua relação com o cancioneiro popular brasileiro. Músicas servem para lembrar, celebrar ou curar o amor, são terapêuticas em sua essência, e é isso que marca a vida das pessoas (a maioria das histórias do filme são entre mulher X homem, mas também entraram casos de filho X pai e filho X mãe).

Ainda haverá o momento que conseguiremos entender direitinho porque povo tão festivo curte mesmo uma fossa. As Canções, de Eduardo Coutinho, dá uma pista: a música popular é o divã do povão.



Epílogo-diálogo

No sábado a tarde, 10 de dezembro, um dia após a estréia, o colega James Cimino me chamou no facebook perguntando se eu gostava de Coutinho (respondi que sim, claro), porque ele não gostava, tinha escrito uma crítica negativa ao filme e queria saber minha opinião, queria entender porque as pessoas gostavam do cineasta. Então li seu texto, voltei ao bate-papo e, brincando, disse que como ele já tinha me adiantado que não gostava do Coutinho discordei de tudo que ele tinha escrito. Ali, na hora, começamos a discutir o processo dele, as escolhas, mas só depois de assistir o filme à noite tive a confirmação do que, pra mim, era o erro de sua análise.

“Na maioria dos casos, os entrevistados estão apenas expostos ao escárnio público, quando não à piedade coletiva”, diz Cimino sobre os personagens que vão cantando, abrindo e fechando suas feridas publicamente. E isso eu não consigo entender porque vejo aquelas pessoas com muito orgulho de ter essas histórias e de poder contá-las (ou teatralizá-las). Sentir-se constrangido com essa exposição é problema unicamente do espectador.

Tenho certeza que se o estrevistado tivesse se arrependido ou tivesse “apelado”, Coutinho seria o primeiro a cortá-lo (tanto para preservar o filme quanto o personagem, afinal sendo jornalista como Cimino, eu e os camaradas do Farofafá, ele sabe que ‘respeito’ e ‘confiança’ são fundamentais na relação ideal entre entrevistado e entrevistador).

Cimino fala ainda que “ao encadear essas histórias desconexas umas das outras, não apresenta reflexão nenhuma, como se espera de um documentário”. E aí está outro erro. As histórias não são nada desconexas, pois na costura de todos os depoimentos está a ligação íntima entre sentimentos pessoais e sua manifestação musical (o bom e velho “essa música foi feita pra mim”). No mais, um documentário, como qualquer outro filme, não é obrigado a apresentar reflexões, ou o que quer que seja, como “se espera”. As histórias podem ser bem ou mal contadas, e o resto é com a gente.

Pra mim é impossível imaginar Coutinho explorando a miséria humana, como Cimino afirma numa comparação de As Canções com realities shows que apelam para o choro fácil. Em todos os seus filmes que vi – de Cabra Marcado Para Morrer a Moscou, passando por Santo Forte, Babilônia 2000, Edifício Master, Peões, O Fio da Memória e Jogo de Cena –, a emoção é sempre intensa, mas o choro é raro e quando vem é à reboque de uma identificação com a história de uma ou outra pessoa (e não por meio de artifícios).

Coutinho é um antisentimental por natureza, oras bolas, mas seus entrevistados não, e é desse “confronto” que surgem alguns dos melhores momentos de seus filmes. Porque Coutinho não julga e gosta de ouvir, o que faz com que seus entrevistados se sintam livres e confiantes para rasgar o coração diante das câmeras.


o militar aposentado que é um dos 18 entrevistados que entraram
na edição final de as canções

segunda-feira, 30 de maio de 2011

yahoo #06

ah, demorei um pouco para colocar o sexto texto da ultra pop aqui. correrias, marchas, esquerda festiva, sacumé? dessa vez, pensando sobre a diferença entre os programas de auditórios de faustão e chacrinha (que voltou a ser exibido no canal viva), voltei a um tema que vira e mexe aparece por lá: a defesa do retorno de uma certa loucura ingênua, uma liberdade, uma anarquiazinha, nas nossas produções audiovisuais. a coluna mais recente, "a banda mais coisinha-bebê do brasil" (título autoexplicativo), já está por lá.
eu quero me enrolar nos teus cabelos, velho guerreiro

CHACRINHA CONTINUA BALANÇANDO A PANÇA

Quando a loucura de um programa de auditório é domada? Quando um Chacrinha se transforma em um Faustão? No final de semana passado foi possível ter algumas respostas ao assistir os programas de dois dos maiores apresentadores da TV brasileira, o Cassino do Chacrinha e o Domingão do Faustão (e quando digo "maiores" para Fausto Silva é mais pela importância histórica do que por gosto pessoal). O do Velho Guerreiro, já em sua fase final na TV Globo (1982-88), começou a ser reprisado no Canal Viva e o do Faustão é aquele mesmo de todo santo domingo.

Cerca de 25 anos os separam, mas é muito revelador sobre o conservadorismo da nossa televisão que muito do formato de um permaneça vivo no outro, só que com o importante detalhe que aquele vovó de roupas extravagantes, e beirando os 70 anos, ainda é mais anárquico hoje em dia que o tiozão de camisetas ultraestampadas. E não adianta falar que os dois possuem a mesma rica formação radiofônica e nem que o Faustão já foi, um dia lá atrás no Perdidos na Noite, um honrado sucessor de Chacrinha. A verdade é que algo se perdeu entre as tardes de sábado e as tardes de domingo.

A impressão que tenho é que Chacrinha fazia seu programa mais para o público, qualquer que fosse ele, enquanto o Faustão pensa mais nos anunciantes. E isso, amiguinhos e amiguinhas, faz toda a diferença no calor e na diversão de um programa de auditório. Não é não, Bezerra da Silva?



Por mais que um pessoal na caixa de comentários continue acreditando que o mundo está perdido, que está faltando religião, que tudo é uma pouca vergonha, a realidade é bem outra. Existe um bom mocismo hipócrita e repressivo comendo solto por aí mais uma vez (coisas assim acontecem como ondas em resposta a outras de sentido libertário). Faustão, por exemplo, precisa elogiar seus convidados até eles corarem de vergonha, sem nunca abrir espaço para o humor, ou para a ironia. É que nada pode afastar o pessoal que coloca a grana. Já Chacrinha começou a jogar bacalhaus para a platéia para salvar o produto encalhado na Casas da Banha, um dos patrocinadores de seu programa na época da TV Tupi. Visões de marketing muito diferentes, ora pois.

Faustão jamais colocaria nomes como Soninha Toda Pura, Regina Polivalente, Bia Zé Colméia, Fátima Boa Viagem ou Elza Cobrinha nas moças de seu corpo de baile. E Chacrinha não estava nem aí e dublava marchinhas de duplo sentido rodeado pelas suas moças com maiôs purpurinados. O Velho Guerreiro era, em um certo sentido, bem parecido com as pornochanchadas da década de 1970: um pouco sacana, um pouco ingênuo, quase infantil.

Já a questão musical dos dois programas é um capítulo à parte. Claro que existe uma relação muito próxima (para não usar outro termo) com as grandes gravadoras, mas em qualquer mundo, e sob qualquer circunstância, é mais interessante assistir os Titãs mandando ver “Homem Primata” (ou então Roger, do Ultraje a Rigor, cantando “Por isso eu sempre sou terceirooo!”) do que o NX Zero chorando as pitangas por algum amor que não deu certo ou Claudia Leitte pedindo para tirar o pé do chão. Eu, como Chacrinha e Roberto Carlos, sempre vou preferir ser “o sabonete que te alisa embaixo do chuveiro”.


sexta-feira, 11 de junho de 2010

transversão #34

segue uma edição especial e veloz do transversão, desta vez com roberto carlos. desde muito tempo roberto e erasmo carlos possuem um acordo de assinar músicas em parceria, mesmo que só um dos dois tenha feito. coisa de amigo, irmão, camarada. mas é claro que as composições solo apareciam de vez em quando. um exemplo de música assinada apenas por roberto carlos é a doce e ultraromântica "e por isso estou aqui", lançada originalmente no filme e na trilha de roberto carlos em ritmo de aventura (1967), de roberto farias. segue o genial trecho do filme no qual aparece a música com todo sua sonoridade "antiga" à base de um piano-cravo.



por favor, o que é esse diálogo?

músico - cara, o que você tá fazendo aí?
roberto - música.
músico - quem são esses caras de metralhadoras aí fora, heim?
roberto - bandidos.

mas voltando ao transversão. essa música foi gravada outras vezes (os três morais, fábio jr. e até uma versão instrumental pelo bandolinista déo rian), mas lembrei dela ao ouvir a regravação feita pelo grupo os uirapurus em 1968. escuta só.

os uirapurus - e por isso estou aqui by dafnesampaio

essa música é do mesmo disco da genial "sabiá lá na gaiola", que o edson franco colocou no corjacast #6.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

uma grande dama

acho que já falei por aqui que não gosto de entrevistar por telefone. falta o olho no olho, a reveladora linguagem corporal, enfim, falta uma porrada de coisas. mas como o tempo ruge e as distâncias existem, ocasionalmente não existe saída. foi assim com marília pêra em maio de 2008. o mote da entrevista pra revista monet era a estreia, no canal brasil, de vestido de noiva, de joffre rodrigues. olha o trailer.



confesso que até hoje não vi o filme, mas conheço bem a genial peça do nelson rodrigues, já li algumas vezes. e a entrevista? que desperdício falar apenas uns 20 minutos com uma atriz com tanta história pra contar. e ela foi tão profissional ao telefone, tão anti-estrela. enfim... segue aqui o bate-papo, direto do meu baú (que há tempos não abria).

INSTINTO PURO - A grande dama fala de sua relação com a obra de Nelson Rodrigues – das crônicas que a avó lhe contava para dormir à cafetina do filme Vestido de Noiva


Quando você assistiu uma peça do Nelson pela primeira vez?
Tenho uma história anterior com o Nelson porque quando tinha, sei lá, uns 5 anos meus pais saíam para trabalhar no teatro e me deixavam com a minha avó, que era atriz também, lá no Rio Comprido. E ela lia pra mim na cama aquelas crônicas de
A Vida Como Ela É. Não tinha idéia de quem escrevia, mas gostava muito daquilo. Tenho esse encontro com Nelson ainda muito menina. Depois vi Toda Nudez Será Castigada, Bonitinha Mas Ordinária e todas as adaptações para o cinema. Fiz também alguns trechos de peças dele para o Fantástico na década de 1970 e depois, em 1998, estive em uma montagem de Toda Nudez.

Alguma razão para essa demora?
É que foi a primeira vez que me convidaram pra fazer um Nelson Rodrigues e como não produzo tudo o que faço... foi só por isso. Outras atrizes foram fazendo e houve um momento em que montaram muito as peças dele. Acho que acabou surgindo um desinteresse meu por causa disso, por causa de tantas boas montagens. Já estava feito. Aí fui esquecendo da minha vontade de fazer.

Qual a contribuição do Nelson Rodrigues para a dramaturgia nacional?
Ele é um revolucionário e uma pessoa louca, mas no sentido criativo. Engraçado. Com uma família dilacerada e uma coragem de expor todas as coisas que aconteceram com ele. Teve uma vida muito rica, uma história muito sofrida e tudo colocado ali no teatro. É um clássico. É o nosso maior autor e um desbravador que abriu o caminho para muitos autores brasileiros.


E como chegou o convite para participar dessa adaptação?
Acho que o Joffre Rodrigues
[diretor do filme e filho de Nelson Rodrigues] pretendia fazer com outras atrizes, uma delas era a Lucélia Santos, mas não sei porque não aconteceu com nenhuma delas e ele acabou chegando a mim. Quando ele chegou com o texto e o convite não entendi muito bem porque sempre imaginei a Madame Clessy como uma mulher de 40 anos. Achei estranho porque tenho uma idade maior que essa, mas ele disse que isso não tinha importância e partimos para o filme.

Como foi a experiência de viver a Madame Clessy?
Viver qualquer texto do Nelson é uma experiência rica porque ele tem um jeito todo particular de contar a vida. Queria muito viver isso. E a Clessy é linda, é uma personagem muito bonita que morre de amor por um menino de 17 anos. Sempre vi a Madame Clessy muito meiga e delicada, diferente de outras interpretações que deram a ela. Já vi a Clessy muito incisiva, mais cafetina mesmo, mas sempre imaginei ela mais doce, mais menina. Aliás, eu tenho mesmo essa tendência de puxar o lado menina das personagens. Gosto de fazer isso.


E porque você faz isso?
Acho que a alma da personagem está na criança. É quando ela é mais verdadeira. Eu sempre regrido um pouco os personagens para entender suas almas. Acho que é isso. E a Madame Clessy é uma menina, uma menina.


Isso me lembra seu personagem em Polaróides Urbanas...
É que as gêmeas são puro instinto e a criança é puro instinto. A Magali e a Magda talvez tenham essa coisa mais infantil, mais espontânea. Possuem menos auto-censura.


Como foi o trabalho em Polaróides?
O Miguel Falabella é um homem de teatro. Primeiro como ator e depois como escritor, produtor e diretor. Depois é que foi fazer televisão e agora está começando em cinema. O Miguel é muito talentoso e delicado no trato com os atores. Essa é uma diferença muito visível entre os diretores que são também atores e os diretores-diretores. Os diretores-atores possuem um extremo cuidado com os atores e um desejo enorme de deixá-los à vontade e felizes. Voltando ao Miguel... ele sabia muito bem o que queria, nunca ficou perdido e conseguiu com o diretor de fotografia uma movimentação de câmera muito cinematográfica. Acho o filme muito bem acabado, muito redondo. E muito bonito, o que acabou me surpreendendo porque a minha parte é muito chanchada da Atlântida – a Magali e a Magda são a Dercy Gonçalves
[risos] - e não sabia que aconteceriam tantos momentos pungentes e dramáticos nas outras partes.

e pra encerrar, o video da "polêmica" participação da atriz no especial elas cantam roberto (2009), no qual interpretou a setentista "120, 150, 200 km por hora". é um pouco cheio de excessos teatrais mais que a conta, mas é forte e de verdade.



p.s.: procurando videos de marilia no youtube achei uma propaganda de sempre livre que ela estrelou em 1974. toda metalinguística, a propaganda teve um trecho censurado - um close na aba do absorvente (?) - e a história é contada no blog almanaque da comunicação.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

letra/música #6

roberto carlos, e seu parceiro-irmão-camarada erasmo carlos, já fizeram tantas coisas boas e belas, principalmente no fim da década de 1960 e início dos anos 1970, que fica difícil fugir do óbvio. na recente votação que a rolling stone fez sobre as maiores canções brasileiras, a dupla emplacou "detalhes", "as curvas da estrada de santos", "sentado à beira do caminho" e "quero que vá tudo para o inferno" (a lista completa aqui). na lista que mandei pra eles acabei escolhendo o roberto como intérprete (de "como dois e dois" do caetano veloso). em comum nas duas listas, o disco roberto carlos (cbs, 1971), o meu preferido pessoal que traz, além de "como dois e dois" e "detalhes", petardos como "todos estão surdos", "traumas", "debaixo dos caracóis dos seus cabelos", "amada amante", "de tanto amor", "se eu partir" (fred jorge), "eu só tenho um caminho" (getúlio cortês) e a lindinha "i love you". canção romântica e bem humorada, com roberto impostando a voz como um vicente celestino encostado em um balcão de salloon, "i love you" mostra uma outra face da dupla de compositores-amigos e do maior cantor da música popular brasileira.

i love you
(roberto carlos e erasmo carlos)

eu queria um passarinho ser
pra levar um bilhetinho pra você
e nas mal traçadas linhas revelar
minha paixão e o meu amor, meu grande amor
no meu radinho de pilha sempre escuto
melodias que me lembram de você
cafonice talvez possa parecer
vou me modernizar você vai ver

uma calça lee agora vou comprar
vou ficar moderninho pra chuchu
vou até aprender falar inglês
pra lhe dizer: i love you, i love you

vou falar gíria e dançar o rock’n’roll
e do castelinho vou ficar freguês
e se tudo isso não adiantar
eu vou vestir meu terno branco outra vez


p.s.: procurando saber o que foi o "castelinho" citado na música - afinal, apesar de ter morado no rio na década de 1980, não sou carioca, muito pelo contrário - dei uma procurada na internet e achei o fotolog saudades do rio, capitaneado por luiz darcy. mandei um email pra ele que acabou de me responder: "há duas opções: a primeira, mais provável, é que iria frequentar o trecho da praia de ipanema conhecido como castelinho, entre o arpoador e a praia de ipanema propriamente dita (entre as ruas rainha elizabeth e francisco otaviano). neste trecho havia um castelo em estilo mourisco que deu nome ao lugar. foi o "point" da praia nos primeiros anos da década de 60 (a partir de 66 o "point" já passou para defronte da rua montenegro, hoje rua vinicius de moraes). a segunda, menos provável, é que iria frequentar o bar castelinho, que ficava também neste trecho, na av. vieira souto 100, onde se tomava um chope maravilhoso. as mais belas cariocas frequentavam os dois pontos: o bar e a praia". muito obrigado, luiz!

quarta-feira, 17 de junho de 2009

CORJA #1

sim, amiguinhos e amiguinhas, tá no ar a edição de estreia, também conhecida como #1, do podcast do CORJA. logo aí na barra ao lado. gravada em dois momentos, um sábado e uma terça, esta edição foi feita na sala do cafofo de edson franco entre bolachões, posters de jazz e um impressionante gravador de rolo. já dá pra notar que o som melhorou bastante. estávamos com três bons microfones - aliás, um obrigado público a daniel almeida que emprestou o seu com pedestal e tudo mais -, e tentamos na medida do possível ser mais concisos. mas ainda não rolou. estamos com umas ideias aí pro próximo e tal, e enquanto isso vocês podem xingar, elogiar, dar pitacos e fazer uma marola. à vontade.

oga, edson, valtinho e eu nos divertimos bastante entre buraka som sistema, nara leão, céu, matt & kim, nelson ferraz e gordurinha. ao fundo, faixas do disco som quente é o das neves (polydor, 1969), de wilson das neves. agora diga, onde mais, nesse mundão da internet, você ouviria gordurinha e matt & kim no mesmo programa? só aqui no CORJA, negô!!! é nozes. e tem download AQUI.

p.s. 1: no dia 22 de junho, alexandre matias falou do podcast no seu imprescindível trabalho sujo. falo por todos que é uma honra receber os elogios de um cara que manja da parada, tá ligado? ainda mais que ele acabou, finalmente e sem querer, nos batizando: CORJACAST. valeu, matias!!!

corjacast#1 by corjacast

quinta-feira, 23 de abril de 2009

e a viva jovem guarda

pois então, a vida segue e o itaú cultural pôs na rede um interessante especial sobre a jovem guarda. é fruto desse projeto do itaúbrasil pr'os 50 anos de carreira de roberto carlos. em um site bonito, mas de navegação meio truncada e com espaços pequenos para os textos, é possível ir de uma rádio pra uma galeria de fotos, e então para uma série de videos com entrevistas (jerry adriani, martinha, wanderley cardoso, etc.) e biografias, além de textos de gente boa como alexandre matias, fernando rosa, ricardo alexandre e alberto villas, entre outros(as). mas dando uma bizoiada no site senti falta do mestre paulo sérgio (1944-1980), provavelmente porque ainda é considerado um imitador do homenageado. qual o quê!



"eu te amo, eu te venero" (paulo sérgio e carlos alberto), lançada originalmente em 1978 e portanto muito distante do auge da jovem guarda, é só uma das muitas pauladas do conterrâneo de roberto carlos (sim, paulo sérgio também é capixaba). no final da década de 1960, paulo sérgio era o maior rival do rei em vendas de discos e shows. pena que não achei nenhum video das minhas preferidas: "eu não sei, eu não sei, eu não sei", "não creio em mais nada", "preciso acreditar", "você não presta", "preciso esquecer você" e "desiludido". peguei esse video no site paulo sérgio in memorian (tentei colocar o link direto, mas não tá rolando, mistério). no mais, vale a navegada.

p.s.: e pra vocês verem como são as coisas... fiquei sabendo agora, sábado, que o mano tacioli do gafieiras fez os roteiros da rádio e as entrevistas com o povo jovem guarda. taí outro defeito do site: não existem créditos, além de não existir nada próximo de um release e muito menos alguma observação se o projeto está em progresso ou se é isso mesmo que tá no ar. vai entender.

sábado, 4 de abril de 2009

vou cavalgar por toda a noite...

último post antes de ir pro lançamento da revista samba. estou aqui escutando u can't lurn imaginashun, o disco mais recente do dj vadim, músico e produtor russo, criado em londres e radicado em nova york. casado com a mc yarah bravo, filha de um brasileiro exilado na suécia, o dj ouve bastante música brasileira, como me disse oga, que conheceu o casal durante shows que fizeram em são paulo em junho do ano passado. para provar tal afirmação pincei do disco "beijos", música cantada pela inglesa heidi vogel e que traz samples de "cavalgada" do rei roberto (a base, ainda com os vocais originais, esteve no myspace do sujeito por um tempo).

p.s.: ouvi o disco todinho, algumas vezes, e tá bem bacana. fora "beijos", dj vadim conseguiu acertar a mão também nas faixas "soldier" (com big red e 5nizza), "under your hat" (com kathrin deboer e governor tiggy), "you are yours" (com yarah bravo) e "maximum" (com la methode).


terça-feira, 31 de março de 2009

majestade, com certeza

essa veio do mano edson franco, que disse apenas: "do caralho!". aí fui ouvir/ver e me deparei com roberto carlos, jovem de tudo, cantando "coimbra" (raul ferrão e josé galhardo). o ano é 1966 e esse video veio do programa rtp memória, da emissora portuguesa rtp, que recuperou gravações históricas como essa do programa canção é espetáculo. suingue e timidez, é isso aí...