Mostrando postagens com marcador larica total. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador larica total. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

larica total reloaded

tem várias coisas que me orgulho nesses 20 e poucos anos como jornalista e uma delas é, certamente, ter feito a primeira reportagem pra grande imprensa sobre o mítico Larica Total lá no final de 2008. foi um delírio à primeira vista e rapidamente se tornou obsessão e eu falava igual ao personagem, usava frases, entonações, era uma loucura. e o programa foi crescendo e ganhando mais e mais fãs e isso em tempos de redes sociais engatinhando.

entrevistei Paulo Tiefenthaler, o ator-protagonista da série, sobre a primeira temporada ("Comida Kung Fu") e a segunda ("Xablablau no Tucupi"), ambas pra Revista Monet. então, dez anos após o fim da terceira temporada, eu, Larica Total e Monet voltamos a nos encontrar. é pq agora em meados de fevereiro irá ao ar, no Canal Brasil, um episódio inédito feito agora em dezembro junto a um documentário sobre esse reencontro, lembranças do início do programa e das três temporadas. então entrevistei, via zoom, Tiefenthaler, Caíto Mainier e Leandro Ramos. o resultado tá aqui.

Paulo de Oliveira ilustrado por Ronaldo Barata

RETROGOSTO DE QUERO MAIS

O acaso, às vezes, é acrobático. O “autor” desta frase, Paulo de Oliveira, jamais poderia imaginar como as piruetas e cambalhotas do destino o fariam se tornar um dos personagens mais queridos e influentes na recente história do audiovisual brasileiro. Paulo é o cara e a cara do Larica Total, programa que estreou no Canal Brasil em outubro de 2008 e que durante três temporadas e 74 episódios mudou o jeito de fazer comédia e comida na TV. Nunca foi comida de qualquer jeito, foi sempre comida a qualquer custo, feita de verdade, possível. 

Paulo também é, acima de tudo, o ator Paulo Tiefenthaler que, após dez anos do fim da terceira temporada em 2012, voltou a se encontrar com os parceiros-roteiristas-diretores Caíto Mainier, Leandro Ramos e Felipe Abrahão. O motivo é um especial de uma hora com episódio inédito e atual e um documentário dirigido por Pedro Asberg com lembranças, imagens do reencontro, e todo o processo de produção de um programa, desde o roteiro até a gravação (Vai Dar Certo - Larica Total 10 Anos Depois será exibido no Canal Brasil dia 19 de fevereiro, às 21h). 

O Larica Total abriu muitas portas e janelas para Tiefenthaler e nesses dez anos trabalhou bastante e fez de um tudo, desde séries como Amor Veríssimo, Coisa Mais Linda e Nada Suspeitos até filmes como A Noite da Virada, O Roubo da Taça e A Mulher do Meu Marido. Com o parceirão Canal Brasil idealizou as selfies-pensatas TiefenTalks e, mais recentemente, dirigiu e atuou na série Perdido. Criou até dois espetáculos gastronômicos-teatrais (Larica Live Concert e Fome, o Musical - Do Broto ao Bacon, Everybody Rocks). 

Tiefenthaler diretamente de Teresópolis

“Mas estava precisando dar uma retomada na energia solar do personagem. Só que tinha dúvida se conseguiria fazer esse personagem com essa alegria toda dez anos depois. Agora tenho 53 anos, sou um tiozão cinquentão de barba branca e mais careca”, disse Tiefenthaler diretamente de um sítio da família em Teresópolis onde se refugiou desde o início da pandemia em 2020. Foi lá que nasceu a ideia da volta do Larica Total. “Depois encontrei com Caíto e Felipe no Rio e falei... e se o Paulo voltasse nessa época maluca de pandemia e fascismo, e desse um alô, viesse com uma mensagem, e depois sumisse de novo?”. Todos gostaram, todos queriam trabalhar juntos novamente.

“A ideia de voltar sempre foi muito recorrente. Muita gente pedia. Tem os saudosistas, tem o pessoal que descobre o Larica porque é fã do Choque de Cultura que eu e o Leandro fazemos. Então a gente pensava, mas era mais uma coisa de desejo pessoal porque a gente logo lembrava o trabalho que dava com tão pouco dinheiro. Dessa vez tinha uma energia diferente. E todo mundo achou legal fazer o programa hoje, com o Paulo hoje, todo mundo hoje. E que seria legal documentar isso também”, afirmou Caito Mainier, que segue roteirista (Irmão do Jorel, Lady Night, etc), diretor (Décimo Andar), mas que também foi pra frente das câmeras (Falha de Cobertura, o já citado Choque e Os Salafrários).

Caíto Mainier diretamente do Rio de Janeiro

“A gente se colocou na mesma situação porque era interessante tentar refazer como era, e com a mesma equipe. Por outro lado, esse documentário foi como abrir uma caixa preta. Muita gente achava que era o Paulo que fazia tudo sozinho, improvisando. Então essa coisa do processo de fazer, de estar concentrado naquilo, a gente guardava muito pra gente mesmo. Agora, com esse documentário, a gente perdeu o medo de mostrar essa intimidade. A gente viu que rola, que tem um grau de concentração que é nosso. Isso foi libertador”, completou Leandro Ramos que, ultimamente, tem trabalhado mais como ator (nas séries Ninguém Tá Olhando e O Mecanismo e em filmes como Cabras da Peste, Papai é Pop e Juntos e Enrolados, além de uma participação na novela A Dona do Pedaço como Julinho da Van, seu personagem no Choque de Cultura). 

Leandro Ramos diretamente de São Paulo

Mas e aí? Foi tranquilo recuperar o fio da meada ou teve que pegar no tranco? “Ah, foi fácil retomar a energia com todo mundo de volta e naquela cozinha. A cozinha é como se fosse um figurino pro personagem. Mas eu estava muito ansioso, fiquei uns três dias sem dormir”, confessou Tiefenthaler. “Quando a gente chegou no apartamento não parecia que tinham se passado dez anos. Parecia que foram uns seis meses. O cara que mora agora lá não reformou nada e a cozinha estava mais velha”, e gargalhou ao relembrar os dois dias de gravação que aconteceram em meados de dezembro.

Mainier e Ramos também tiveram a mesma sensação. “A gente passou tanto tempo lá, pensando, criando, gravando, vivendo. Foram cinco anos fazendo aquilo, então era tudo muito familiar”, pontuou Mainier. “É que a nossa intimidade permanece a mesma, a gente se encontra, se fala e ocasionalmente trabalhamos juntos. Não teve aquele impacto de ficar dez anos sem ver as pessoas e se reencontrar”, disse Ramos. 

Tudo certo e azeitado no set de gravação, mas qual foi a receita escolhida para celebrar tão aguardado reencontro? Um cozido. “O cozido é uma receita que agrega muitos ingredientes, muitos legumes, e é uma coisa quentinha, gostosa, que reúne pessoas”, lembra Tiefenthaler sobre o prato que fizeram na mesma cozinha de uma década atrás. Mainier assina embaixo e complementa que “é uma receita fácil e dá essa ideia de aglomeração, de combinação de cores, sabores. Fazer esse episódio novo também tem isso da volta, das pessoas voltando a se encontrar. Voltar foi o tema que a gente usou e que permeia o episódio. Mas não significa a volta do Larica, significa apenas a volta do personagem naquele dia”.

Sim, todos deixam bem claro que não existem planos para novas temporadas do Larica Total. Não por vontades próprias. “Acho que no nosso atual universo audiovisual, a gente poderia voltar a fazer o Larica tranquilamente por mais uma, duas, três temporadas. Sem medo, sendo legal. Não seria uma novidade, mas também não precisa”, sentencia Mainier. Então faz uma pausa. “O que não dá mais, e nisso todo mundo concorda, é fazer naquele esquema de guerrilha. A gente não tem mais saúde. Precisa ter uma equipe maior, uma parada com estrutura, um investimento maior”.

Ramos acrescenta, na sinceridade, que “o programa acabou porque a gente não aguentava mais. Era muito exaustivo. Equipe reduzida, todo mundo fazia tudo. Era uma delícia, foi um grande aprendizado, mas daquele jeito a gente não consegue mais. A gente era jovem. Na guerrilha não dá mais”.

E Tiefenthaler adiciona uma dose de experiência pessoal nesse caldo de cansaços que encerrou o programa em 2012. “No começo era divertido gravar na própria casa, mas depois de um tempo foi ficando estressante. A equipe ia embora e eu continuava lá, naquele ambiente, e era um pouco confuso. Me desgastou muito”. Mainier reaparece e reduz o fogo. “Ganhamos APCA, o Prêmio da Revista Monet, tivemos liberdade pra criar, então todo mundo também estava com a sensação de dever cumprido depois de 5 anos intensos. Quando acabou a gente até tirou um pouco férias da gente mesmo”. Bola do jogo, sal na comida, vida que segue, normal.

“O Larica foi interrompido no auge. Um tanto por isso virou cult. E fomos influência pr’um monte de canais no YouTube, essa coisa de culinárias populares, improviso e humor”, diz um orgulhoso Tiefenthaler. O programa saiu do ar deixando os fãs com água na boca por mais receitas como Yakisobra, Sushi de Feijoada, Estragadinho e Churros de Aipim, o que pode muito bem ser reativado por esse tão aguardado reencontro. Vai saber o que ainda pode sair daquela cozinha?

Da ideia original de Terêncio Porto e Adriana Nolasco para um curta lá em 2006, ampliada pelo mítico Frango Total Flex feito no primeiro episódio, Paulo de Oliveira continuou sendo, nas palavras de Ramos, “o cara que cozinha com o que tem em casa, faz com o conhecimento que tem. Ele faz o que é possível, como nós”. E isso é humor que não acaba mais.

seguem abaixo TODOS os episódios das três temporadas de Larica Total

 

MELHORES EPISÓDIOS

Primeira Temporada (2008-09)

- 'Frango Total Flex': o piloto, a origem de tudo, um frango estragado, o erro como personalidade e recurso narrativo, frases lendárias como “Tá com medo do arroz?” e “Não tenho cara de que vou te ajudar?”; tá tudo ali, naquela cozinha

- 'Tenha sempre uma glicose em casa': roteiro espertíssimo costurando manhã de preparação da larica com muito leite condensado e chocolate, noite de festa de casamento e madrugada de volta pra casa bêbado feito um gambá, com direito a um final lindo e melancólico ao som de Bob Marley (“Chances Are”)

Segunda Temporada (2009-10)

- 'Peladona do primeiro andar': o programa teve várias participações especiais, mas a da atriz Karine Carvalho como uma vizinha divertida e naturalmente sedutora, o que gera uma baita química com Tiefenthaler, é uma das melhores e a receita é uma pão caseiro todo multigrãos

- 'Nos litorais do Carnaval me vi peixe ensaboado na Curva do Batman': um dos episódios mais delirantes que tem início com "Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua" do Sérgio Sampaio e Paulo fantasiado de Batman minimalista, um peixe destruído por uma faca sem corte e uma piada maravilhosa com "Eyes Without a Face" de Billy Idol

Terceira Temporada (2011-12)

- 'Em Busca do Camarão Perfeito': o clima do episódio é uma paródia de Apocalypse Now e Paulo vai rio abaixo em busca do misterioso Baba Guru, um rasta criador de camarões; tudo em nome de um bobó pra entrar pra história

- 'Self-Ceviche Milenar': episódio em dois tempos, sendo que em um Paulo faz bico de guia turístico meio charlatão, e n’outro está em casa fazendo um ceviche e disparando frases como a lendária “Pintou tubarão? Vai no crawl”; participações especiais de Caito Mainier e Leandro Ramos

quarta-feira, 25 de abril de 2012

yahoo #38

o programa larica total é um velho e querido conhecido da casa e não poderia deixar de falar da estreia da terceira temporada lá no yahoo, mas o mais recente texto se chama "banditismo por necessidade" e é um novo capítulo da novela ministério-da-cultura-da-ana-de-hollanda & ecad.


A GENTE NÃO QUER SÓ COMIDA

Você conhece Paulo de Oliveira? Não? Deveria e para o seu próprio bem. Protagonista da série Larica Total, Paulo é boêmio, falido, peludo, solteirão, pegador e um entusiasta da “cozinha de guerrilha”. Também é interpretado pelo ator Paulo Tiefenthaler e está no ar desde outubro de 2008, sempre no Canal Brasil (semana passada estreou a terceira temporada que trará 26 episódios). Mas a troco de quê assistir um sujeito criando pratos bizarros como o Frango Total Flex, Moqueca de Ovo, Yakisobra ou Sushi de Feijoada, e ainda mais numa cozinha feia com utensílios caindo pelas tabelas? Porque o ficcional Paulo de Oliveira é muito de verdade e poucas coisas são tão surpreendentes, e potencialmente divertidas, quanto a realidade.

Diversão e anarquia como poucas vezes aconteceu na TV, Larica Total é retrato fiel tanto de novas produções independentes feitas na raça e viralizadas pela internet quanto por um jeito colaborativo de se relacionar com seu público (a receita do primeiro episódio da terceira temporada, por exemplo, veio de um internauta de Belém). Porém, a “sujeira” da realidade é uma das mais interessantes características do programa. Não existe a bancada limpinha e as ajudantes servis de Ana Maria Braga, muito menos os ingredientes especiais e a técnica apurada de Jamie Oliver. Paulo faz comida com o que tem na geladeira, como todos nós.


“O Larica Total não é culinária de qualquer jeito, é culinária a qualquer custo”, explicou um de seus diretores, Caíto Mainier, em ótimo making of da primeira temporada. Taí a mais pura verdade. Em um mundo no qual todos são descolados, cínicos e espertos, Paulo de Oliveira e seu programa são doses cavalares de galhofa e paixão.

E digo isso com a experiência de acompanhar Larica Total desde sua estreia e de já ter entrevistado Tiefenthaler duas vezes (“Comida kung fu” e “Xablablau no tucupi” foram escritas quando fui editor da Revista Monet). Sobre a segunda temporada, o carioca e flamenguista afirmou que “o personagem já não é mais tão inocente, ele tá mais rodado. Mas sempre vai existir o afeto, no sentido de estar afetado mesmo [risos]. Continuo equilibrando o tiozão, o amigão, o brother e, ao mesmo tempo, sendo charmoso pras moças [risos]. (...) Mas ainda quero fazer muita coisa com o Paulo de Oliveira, chamar amigos dele pra cozinhar, sair mais pra rua, e sempre dizendo por aí que o Larica é um programa libertário em nome do amor e da alegria.” E essa terceira temporada – cujos dias e horários de exibição são terças (21h30), quartas (16h) e domingos (13h30) – segue na mesma toada. Sorte de quem é de verdade.

p.s.: e antes que me esqueça... acho que o Canal Brasil deveria ser obrigatório nos pacotes mais baratos de todas as operadoras. E não por reserva de mercado ou nada parecido. Simplesmente porque é um canal com uma programação ótima, divertida e variada (e brasileira também, claro). No mais, segue abaixo um dos mais divertidos e didáticos episódios dessa nova temporada.

Larica Total - Self-Ceviche Milenar 3ª TEMPORADA--EPISÓDIO 10 from Evaldo Filho on Vimeo

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

pimenta e sal a gosto

segue abaixo um perfil do claude troisgros que fiz para a revista oas (spring). infelizmente, pela correria das agendas do chef franco-brasileiro e a minha própria, a entrevista foi por email, mas acho que o resultado saiu bem honesto.

que marravilha, paulô!

A EDUCAÇÃO BEM TEMPERADA DE CLAUDE


Ele não tinha como fugir. Aliás, melhor, ele nunca pensou nisso. O destino de Claude Troisgros estava traçado muito antes da maternidade, antes até de sua existência ser cogitada na pequena Roanne, cidade bem no centro da França e às margens do Rio Loire. Nascido do mesmo berço que gerações e gerações de cozinheiros, chefs e amantes da boa gastronomia, Claude cresceu brincando entre panelas e fogões, queijos e legumes. Não podia querer outra coisa. E foi para fazer o que gosta que chegou ao Brasil há pouco mais de trinta anos. Mal sabia que fincaria raízes no país, criando família, restaurantes e misturas gastronômicas inéditas.

“Como qualquer francês, a imagem que tinha do Brasil se resumia a futebol, Pelé, Copacabana, samba, carnaval, belas mulheres, praia e sol. Enfim, o Paraíso Tropical”, explicou em entrevista exclusiva. “Naquela época não tinha pretensão alguma. Era mais o desejo de conhecer o país trabalhando no que faço bem que é cozinhar. E depois voltar para casa da família e continuar a tradição Troisgros”. Mas calma porque já chegaremos ao Brasil. Antes é bom falar da tal tradição Troisgros.
Família almoça junto todo dia

Tudo começa com o casal Jean-Baptiste e Marie Troisgros que, autodidatas na cozinha, ganharam notoriedade ao criarem um menu de pratos regionais do interior francês, tudo enganosamente simples, após se mudarem para a cidade de Roanne, em 1930. Jean-Bapstite ainda ganhou fama de polêmico na época ao sugerir que não era nenhum fim do mundo comer peixe acompanhado de vinho tinto. Os dois filhos do casal, Jean e Pierre, foram educados nesse meio, no qual tradição e experimentação sempre conviveram em harmonia. Não deu outra, os dois começaram sua educação formal no início da década de 1940, pouco depois de completarem 15 anos. Em 1957, com experiência acumulada em restaurantes premiados em toda a França, os irmãos voltaram a Roanne para assumirem o Hotel Moderne do pai Jean-Baptiste, que queria ficar mais sossegado cuidando apenas da carta de vinhos.

Foi em Roanne que Jean e Pierre Troisgros criaram, junto com o amigo Paul Bocuse em Paris, os fundamentos da nouvelle cuisine, um jeito mais leve e sofisticado de experimentar a tradição. Pelo lado familiar, Pierre se casou com a italiana Olympe e tiveram três filhos: Michel, Anne-Marie e Claude. Todos seguiram incrementando a história de uma das linhagens mais respeitadas da gastronomia mundial (entre as muitas láureas estão as cobiçadas três estrelas do Guia Michelin que o restaurante de Roanne possui desde 1968). Michel faz sua cozinha na cidade que os Troisgros colocaram no mapa, Anne-Marie em Bordeaux e Claude, bem, Claude foi para outro continente, para um país chamado Brasil.
Bonito por natureza

Em 1979, Claude aceitou o convite do veterano chef Gaston Lenôtre e veio para o Rio de Janeiro com a equipe do Le Pré Catelan (que existe até hoje). O contrato era de dois anos, mas o francês nunca mais foi embora. Curioso e inquieto como todos da família Troisgros, Claude logo descobriu que vários ingredientes que conhecia não eram facilmente encontrados no Brasil do início da década de 1980. Precisou se adaptar, acertar e errar com o que tinha na mão, e aí um novo mundo se abriu diante de seu paladar. “Por necessidade de produtos frescos, da estação, fui até os pequenos produtores e incorporei, naquela época, os produtos do mercado brasileiro. Criei uma personalidade própria que podemos chamar de ‘francês valorizando o produto brasileiro’. Casei a França com produtos como manga, maracujá, inhame, quiabo, jabuticaba e maxixe, entre outros. E isso deu um start para uma nova cozinha brasileira”.

Nasceram assim, dessa necessidade e já no seu próprio restaurante (o Olympe), pratos clássicos como Ravioli recheado de mousseline de inhame em molho aveludado de trufa branca, o Filet de linguado grelhado com banana e o Cheesecake caramelado com calda de goiaba. Agora, como era de se esperar numa família aberta e criativa, o aprendizado brasileiro de Claude acabou contagiando os premiados restaurantes dos familiares ao redor do mundo. “A família já usa receitas minhas como Tapioca caviar, Crepe Passion, Peixe com coco e Cherne com banana. E estão querendo jambu, açaí e tucupi”. Aprendizado tem dessas coisas, multiplica-se e nunca tem fim. Por isso o chef expandiu seu prazer para além da cozinha (mas sem nunca sair dela, claro).

Além de seus restaurantes - atualmente são três, o Olympe, o 66 Bistrô e o CT Brasserie, todos no Rio de Janeiro -, Claude escreve livros, é consultor gastronômico para outros restaurantes e desenvolve linhas de produtos para supermercados e delicatessens (conservas artesanais, por exemplo). Sua simpatia, e o divertido português com sotaque, também lhe garantiram espaço em programas de TV, o que lhe permitiu injetar outros novos mundos em sua cozinha.
Com sabor de descoberta

A ideia de entrar na televisão era desejo antigo de Claude. Mas qual a motivação? “Queria divulgar mais o meu savoir faire (conhecimento), meu amor pelo Brasil e também ficar mais perto das pessoas, que é o que a televisão propicia. O primeiro programa que fiz no GNT já tem quatro anos e era chamado
Adivinha o Que Tem para Jantar?. De lá pra cá consegui me aproximar mais do telespectador, das pessoas que querem aprender as bases, das pessoas que querem comer bem em casa com receitas fáceis, mas com um toque de chef”. O que certamente lhe ajudou nesse processo de conquista foram as viagens que fez pelo Brasil em edições especiais do Menu Confiança, programa que dividiu durante anos com o jornalista Renato Machado e, durante uma temporada, com a somelière Denise Novakovski.

Foram nessas jornadas que caiu de amores pelos pratos e ingredientes do Norte do Brasil. Um dos pratos nacionais que mais gosta é o nortista Pato no tucupi. “Acho que aprendi a ser mais simples no meu jeito de cozinhar. Sempre fui um chef de alta gastronomia e continuo sendo, mas aprendi que podemos comer muito bem sem complicar demais a coisa. Sem precisar usar técnicas muito sofisticadas e apuradas. É isso que quero passar para o telespectador”. Essa é a receita que usa no seu terceiro e mais recente programa,
Que Marrravilha!, no qual ajuda pessoas comuns a cozinharem pratos nada ordinários.

Incentivador e embaixador de uma nova e moderna cozinha brasileira - que, segundo ele, existe sim e “está ultrapassando fronteiras e mostrando para o mundo que o Brasil existe também na arte culinária” -, Claude gosta de citar dois nomes 100% nacionais que já estão fazendo bonito entre fogos e panelas: Alex Atala e Roberta Sudbrack. Da sua parte colocou no mundo uma quarta geração de Troisgros, os filhos Thomas e Carolina, a entrar nesse mundo de muitos sabores e labuta quente e diária. Mas nem por isso sonha em parar. “Tenho grande prazer em descobrir novos produtos, novos sabores e tentar criar alguma coisa que agrade os paladares”. Em resumo, Claude Troisgros ama cozinhar e esse amor é do tipo que dura a vida toda.


p.s.: e a imagem que abriu essa reportagem, do encontro de claude troisgros e paulo tiefenthaler, é um flagra do último episódio da segunda temporada do larica total. saca só o caos e as rãs...

quarta-feira, 28 de julho de 2010

o último episódio do larica total?

na verdade, o que segue abaixo é o último da 1ª temporada do larica total, o programa predileto da casa. a 2ª acabou ali por março deste ano, mas nunca tinha visto esse episódio (#24), uma espécie de resumo da ópera delirante e gastronômica comandada pelo ator paulo tiefenthaler. lá no site dizem que nunca foi exibido no canal brasil.



e o dvd com a primeira temporada mais um livrinho de receitas está pra sair. pelo menos é o que prometeram no @laricatotal (e também no @ramos_leandro, um dos diretores do programa).

sábado, 23 de janeiro de 2010

a vida é uma só, vai acabaaar!

depois de um post tão confessional (e de flores e um jantarzinho delícia)... voltamos a nossa programação normal. talvez o melhor episódio (até agora) da segunda temporada do larica total foi o #16, "tenha sempre em casa", com receitas de drinks clássicos como cosmopolitan e sex on the beach. vai vendo.



essa música que toca no final do episódio ficou martelando na minha cabeça durante todo o final de semana passado. era familiar, muito familiar, pop na veia. mas não sabia de quem era, de quando era (anos 1990?), e muito menos como achá-la. não lembrava de nenhuma parte da letra (não conseguia saber se era inglês e o refrão ainda era assim todo de ê ô ê ô). bruna, que trabalhou como estagiária de texto na monet, matou a charada na segunda. na terça chegou um email com a confirmação de um dos diretores (caito mainier). a música se chama "hey oh", sucesso de 2003 do tragédie, dupla francesa formada em nantes por silky shai e tizy bone (y-zit). é rap pop farofa que gruda na mente, pois não.



sexta-feira, 2 de outubro de 2009

xablablau no tucupi

segunda temporada do larica total estreando hoje - de sexta pra sábado, meia noite e meia no canal brasil -, e consequente segundo encontro com paulo tiefenthaler (mas desta vez por telefone). fã assumido que sou, sempre procuro divulgar o programa por onde passo e escrevo, e essa entrevista com o paulo, divertida como sempre, saiu na monet deste mês.


paulo encarando a lente de eduardo monteiro

Em que pé está a segunda temporada? O que tem pela frente?

Bem, gravamos 10 episódios e serão 24 como na temporada anterior. Já fizemos carne assada, pesto, salada Caesar [risos], tapioca, um refogadão de restos de gaveta de geladeira e, o mais trash de todos, o bolinho de miojo. Cara, bolinho de miojo é uma coisa muito ruim [risos], mas é larica total pura, né? E é uma homenagem ao criador do miojo, o Momofuku Ando, que morreu uns dois anos atrás. Agora, tem uma foto dele na cozinha, tem um altar e tal. É o padroeiro do programa. Sei que ainda vai ter canja de galinha, arroz à piemontese, sanduíche-no-ferro-de-passar-roupa, farofa de girino, cachorro-quente-vira-lata e sopa de pedra [risos].


Como você está sentido esse começo de segunda temporada em comparação com a primeira?


Na primeira temporada a gente não tinha noção do que estava fazendo. Não tínhamos resposta de nada. A gente ia gravando e editando, e quando o programa estreou em outubro do ano passado já tínhamos gravado uns episódios. Aliás, o primeiro, o “Frango Total Flex”, foi gravado no final de 2007. Quer dizer, ninguém sabia fazer nem o próprio programa, que foi uma coisa que a gente foi descobrindo a cada episódio. Algumas ideias não rendiam, outras sim, e pouco a pouco chegamos a esse formato da câmera parada, do improviso, das coisas criadas na hora, onde não se decora absolutamente nada. A primeira temporada foi mais na loucura. E agora a gente já tá gravando com uma resposta, um retorno da primeira temporada. Trago agora esse retorno da rua. Afinal, já sou reconhecido na rua [risos]. O personagem já não é mais tão inocente, ele tá mais rodado. Mas sempre vai existir o afeto, no sentido de estar afetado mesmo [risos]. Continuo equilibrando o tiozão, o amigão, o brother e, ao mesmo tempo, sendo charmoso pras moças [risos].

Conta então como você sentiu retorno da rua?
Teve um dia que estava numa padaria 24h na Glória, na descida de Santa Tereza [bairro onde mora no Rio de Janeiro], tomando um café com leite às 11 e meia da noite, e passa um taxista com os braços de fora do carro, gritando: “Larica totaaal!” [risos]. Depois teve uma louca figuraça que saiu de um boteco gritando pra mim: “Larica total! Não acredito que tô te vendooo!”. E teve um advogado forense [risos], lá no Centro, que chegou e disse: “Sou teu fã!”. Comecei a achar engraçado isso e ao mesmo tempo me policiando pra não acreditar em nada, né? Porque as pessoas quando me veem procuram o personagem e mesmo que tenha emprestado a minha alegria ao Paulo de Oliveira, não sou assim o tempo todo. Agora, em março, logo que acabou a primeira temporada começou uma reexibição e muito mais gente começou a assistir. Tem uma comunidade no Orkut que já tem quase 4 mil pessoas, e tem outras como a do “xablablau”, que foi uma coisa que inventei inspirado no [poeta] Chacal e pegou de jeito. Mas nesse mundo virtual existe uma resposta absurda de gente discutindo, querendo levantar dinheiro pro programa, fazer churrasco [risos]. Marquei uma vez um chopp aqui na esquina, foi engraçado.

O que esse personagem te trouxe? Como tem sido essa experiência?
O Paulo me deu oportunidade de fazer um trabalho de atuação quase documental. É quase o que acontece diante da câmera. E ele também está me dando possibilidades de ver algumas coisas minhas... dizem que os atores interpretam o tempo todo, o que não é nem mentira, nem verdade. Mas esse personagem tem muito a ver com a vida que levei nesses últimos dois, três anos, pelo menos no meu lado social, tenho muitos amigos e tal. Porque normalmente sou mais calado, fico muito em casa. Então saiu de mim muita coisa e foi pra ele. Aí, de tanto fazer no Larica, não faço mais. Fiquei assim... esvaziado não é a palavra. Liberado! Tô pronto pra uma nova fase na minha vida, que ainda não sei o que é. Isso me ajuda porque, inclusive, estão pintando umas propostas muito boas de trabalho. Mas ainda quero fazer muita coisa com o Paulo de Oliveira, chamar amigos dele pra cozinhar, sair mais pra rua, e sempre dizendo por aí que o Larica é um programa libertário em nome do amor e da alegria.


tiefenthaler em foto que tirei em novembro de 2008

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

carnaval do larica

encha o tanque da mobilete e vá pra rua!
segue abaixo o mais recente episódio do larica total, o de número 20.

parte 1


parte 2

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

tá com medo do arroz?

desde outubro do ano passado, quando larica total estreou no canal brasil, já foram exibidos 18 dos 24 episódios previstos pr'essa primeira temporada. então dá tempo pra colocar aqui o texto que fiz pra monet de novembro de 2008, com direito a algumas fotos minhas. aproveitei que o ator paulo tiefenthaler estava em são paulo, editando umas das partes da saga os sertões do zé celso martinez corrêa, e batemos um papinho numa praça no pacaembu. conversa boa e ainda deu pra ver que tem muito dele em paulo de oliveira, o protagonista de uma das mais divertidas comédias dos últimos tempos.



tiefenthaler, pacaembu, 2008

COMIDA KUNG FU

Você é solteiro? Solteira? Mora em república de estudantes? É desquitado? Ficou pra titia? Tem medo de fazer arroz? Pavor de panela de pressão? Pois então, seus problemas acabaram, ou pelo menos parte deles. Está no ar Larica Total, nova série do Canal Brasil apresentada por um tal de Paulo de Oliveira que promete desvendar os segredos e mistérios de uma cozinha de guerrilha. Pense em um Jamie Oliver sem eira e nem beira que faz pratos rápidos com o que tem na porta da geladeira. Assim é Paulo, criação do ator suiço-carioca Paulo Tiefenthaler.

Pouco conhecido fora do circuito teatral carioca – ele já trabalhou com Hamilton Vaz Pereira, Antônio Abujamra e Domingos de Oliveira -, o ator chegou ao programa por acaso. “A idéia original surgiu em 2006 com o Terêncio Porto e a Adriana Nolasco. Eles são casados e tem uma produtora que faz curtas e documentários. Tiveram esse estalo de criar um programa sobre uma cozinha rápida, do dia-a-dia. O termo ‘larica’ vem da fome da maconha, mas é uma palavra bem mais antiga. Até me perguntaram se pode colocar esse nome na televisão! Claro que pode, ainda mais que nosso programa é quase de criança, né?”, explicou durante uma breve passagem por São Paulo.



Tiefenthaler fez um teste para o papel e foi tão bem sucedido na improvisação que os cacos criados no dia rapidamente se transformaram em marca registrada do solteirão convicto. “O Paulo tem muita inspiração no meu pai. Minha mãe cozinhava pra 20 pessoas e deixava tudo impecável. Meu pai fazia pra uma e sujava tudo. Ele tinha esse espírito palhaço de quebrar a rotina. Outra inspiração foi meu primo Horácio que era mais velho que eu e vivia na praia porque era guia turístico. Vivia correndo atrás de gringo para vender pacotes. Ele era muito bonito e parecia milionário, mas era um duro. Tinha uma disposição, uma cara-de-pau que poucas vezes vi na vida”. Com estas e outras figuras na cabeça, o ator criou um personagem tão debochado quanto camarada e que já vem fazendo sucesso na internet com sua receitas infalíveis de arroz, macarrão alho e óleo, yakisoba e de um muito suspeito e totalmente genial frango total flex [do episódio que deu origem a série].



“Tenho essas misturas na minha cabeça. Tudo isso precisava sair alguma hora de dentro de mim. Na verdade esse personagem começa comigo, mas não sou isso o tempo todo. É um personagem que trago editado dentro de mim porque muita coisa vem na hora mesmo”. Quando esta entrevista foi feita era início de novembro, 12 dos 24 episódios da primeira temporada já estavam prontos, e todos da equipe aproveitavam para aumentar a biografia do personagem no site oficial do programa. De uma hora para outra, Paulo de Oliveira era formado em Veterinária, mas sem nunca ter exercido, e sobrevivia alugando buggys para turistas. “Não quero congelar o personagem porque ele ainda está em construção. Agora tem que jogar pros leões, amadurecer, encontrar outros personagens, mudar de cenários porque a veia cômica do programa vem muito da rua, do cotidiano. Queremos sofisticar esse cara dentro da loucura dele”.

Louco que só ele, Tiefenthaler também se desdobra esfomeadamente nas funções de diretor [o premiado curta documental Jorjão, de 2004, sobre um dos mais famosos mestres de bateria do Rio de Janeiro] e editor [participou das primeiras edições do Big Brother Brasil e atualmente finaliza parte da saga Os Sertões, adaptação teatral de Zé Celso Martinez Corrêa da obra de Euclides da Cunha, a ser lançado em DVD]. Mas agora ele é Paulo de Oliveira, principalmente Paulo de Oliveira, que grita ao seu pé do ouvido: "E você?! Você tem fome de quê?"



leia mais: entrevista com tiefenthaler sobre a segunda temporada de larica total.