quarta-feira, 28 de setembro de 2016

héloa & eu

uma das coisas certas na vida é que a música popular brasileira - que, bom frisar, é muito mais ampla que a tal mpb - nunca vai te deixar na mão. ano após ano tem gente boa aparecendo, gente ótima surgindo, jovens artistas amadurecendo, gêneros se firmando e se transformando, velhos artistas inquietos. enfim, tem surpresa por todos os lados e de muitas formas.

a cantora e multiartista héloa, sergipana radicada em são paulo, é uma dessas surpresas boas, refrescantes mesmo, e tive a honra de escrever o texto-release pra divulgar seu disco de estreia, o belo 'eu'. não fiz muitos releases na vida e antes deste, foram apenas três - trio esmeril [junior boca, guizado e mauricio takara], projeto manada e paulo carvalho - e é curioso ver um pouco da inquieta e atual diversidade musical brasileira nessa pequena amostra.

agora, sem mais blábláblá, o texto sobre o 'eu' de héloa e sua música.



Uma voz que canta ventos e avenidas, amizades e mudanças, sorrisos e silêncios, amores e lembranças... uma voz assim não se encontra todo dia. Héloa é a dona desta voz e o seu 'Eu' – estreia em disco dois anos após o EP ‘Solta’ - é uma espécie de autorretrato de uma artista em movimento.

A história e os sons de ‘Eu’ começam em Aracaju, Sergipe, terra natal da cantora. É lá que seus caminhos se abrem, é lá que começa a dançar, fazer teatro e artes visuais. E a compor. Amarrando tudo com uma voz de céu, sol e mar. Uma voz quente. 

E então, vem a mudança. No segundo semestre do ano passado, Héloa decidiu ir para São Paulo para gravar e encontrar ‘Eu’. Tal movimento é ilustrado no disco pela regravação de “Caravana” [Geraldo Azevedo e Alceu Valença]. Ela sabe que é inevitável se arriscar, se jogar no mundo, e soa muito pessoal e verdadeira quando canta, com um fraseado todo especial: “Corra, não pare, não pense demais / Repare essas velas no cais / Que a vida é cigana”. 

Antes de partir em “Caravana”, na vida e no disco, Héloa pede “proteção para minha estrada, que não me aconteça nada que atrapalhe esta jornada de viver” [“Proteção”, de Ruan Levy, é a a faixa que abre ‘Eu’]. Daí faz silêncio pra enxergar e se expressar melhor [na ótima “Calei”, de Allen Alencar, talvez a mais pop do disco] e se espreguiça apaixonadamente ao acordar lado a lado com o amor [“Amanheceu, seu sorriso”, de Allen Alencar]. 

Acompanhada pelos músicos e produtores Daniel Groove e João Vasconcelos, Héloa vai encontrando novos ‘eus’ em São Paulo, todos muito apaixonados e apaixonantes. Na linda “A avenida” [Héloa e Eduardo Escariz], a cantora lamenta perdas, procura respostas e guarda certezas no coração, e, em meio ao frenesi de uma cidade grande e nova, Héloa vai buscando tranquilidades na vida.

De música em música, e sem nunca se prender a rótulos, a cantora se coloca naturalmente como mais uma força a expandir e misturar os limites da música popular brasileira. Afinal, tem um tanto de afoxé em “A paz que desejei” [Eduardo Escariz], balada em “Super herói” [Daniel Groove], brega romântico em “Se você disser que vem” [Daniel Groove], bossa em “Crua” [Otto] e bluegrass em “Meus amigos” [Saulo Duarte e Daniel Groove]. Mas todas as canções de ‘Eu’ vão muito além de um gênero, muito além da velha e gasta mpb.

É que Héloa canta ventos e avenidas. Uma voz assim não se encontra todo dia.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

não vai ter selfie

o controle midiático da narrativa política é um troço avassalador. semana passada aconteceram em são paulo cinco atos #foratemer e em todos a polícia militar compareceu com sua violência habitual e selecionada. a desculpa policial é a mesma de sempre e é ilustrada pelas imagens da assessoria de comunicação da instituição [a grande imprensa, com ênfase na tv globo]: vândalos infiltrados queimam uns lixos, pixam umas paredes, vandalizam uns bancos, aí a polícia é obrigada a agir e dispersar a multidão. qualquer pessoa que tenha passado em qualquer manifestação de esquerda desde 2013 sabe que esse lixo queimado, essas fachadas quebradas de bancos e concessionárias só ocorrem APÓS a repressão policial.

foto: marlene bergamo

a linda manifestação deste domingo 4 de setembro, igualmente #foratemer, só que muito maior, mais longa e mais diversa, parecia que conseguiria driblar a narrativa conservadora com crianças, famílias, cinco horas de marcha absolutamente pacífica e sem acompanhamento da polícia. mas a pm não quis perder a viagem e soltou bombas, balas de borracha e jatos d'água após o fim do ato QUANDO MILHARES DE PESSOAS JÁ ESTAVAM INDO PARA SUAS CASAS e outras tinham ficado pelo largo da batata para beber uma saideira [isso devia ser um pouco depois de 8 e meia da noite].

a globo news, que tinha mostrado uns curtíssimos flashes da gigantesca manifestação - nas manifestações pelo impeachment era cobertura 24 horas, tinha convocação e o escambau -, rapidamente entrou ao vivo com lixos pegando fogo e acabou ditando a cobertura noite afora e nos jornais de hoje. ontem, a princípio, folha, estadão, bbc, el país e o globo deixaram bem claro que foi a pm, dando razões desencontradas, que começou gratuitamente a repressão. logo depois o discurso mudou. hoje o estadão nem deu foto na primeira capa e na chamada fala em tumulto. o jornalismo capacho de césar tralli no sptv falou que era "muito triste tudo isso". a folha deu foto na capa junto com um texto neutro, mas logo abaixo uma outra chamada, diretamente de um texto asqueroso do secretário de redação & revoltado online vinicius mota, falando que militantes de esquerda são burguersinhos que não respeitam o trabalhador pm e que a violência é de esquerda [o que é de um cinismo absurdo justamente quando a folha defendeu violência da pm em editorial na sexta].


para a grande imprensa, para a pm de geraldo alckmin, para o ministério público, para o governo GOLPISTA, os movimentos sociais, partidos de esquerda, defensores de dilma ou da democracia, não são manifestantes, não são brasileiros, são militantes pagos a preço de mortadela, vândalos arruaceiros e bandidos [e seus leitores/admiradores tem certeza absoluta que usam crianças como escudo humano]. a recorrência da narrativa do "vandalismo de esquerda" é um jeito de esvaziar as manifestações [para a esquerda] e criminalizar [para a direita] ao mesmo tempo. pra essa corja cínica não basta dar um golpe e roubar 54 milhões de votos, é preciso criminalizar e aniquilar a oposição progressista. eles estão vencendo e tudo fica mais fácil controlando a narrativa. não dá pra esperar que a história faça justiça ao que está acontecendo, é preciso contra atacar com ações e discurso, é preciso união de esquerdas [coisa rara, difícil, mas que aconteceu ontem por algumas horas]. 


p.s.: o baderna notícias, de belo horizonte, fez um belo apanhado da cobertura de ontem; o ator e roteirista gregório duvivier deu belas porradas no editorial da folha dentro da própria folha; tem também esse texto do matheus pichonelli ["os '40 que quebram carros' mandam um recado a temer: conecte-se ao mundo real"]; texto de jean wyllys em resposta ao secretário de redação da folha; ah, antes da manifestação de ontem, a polícia prendeu arbitrariamente cerca de 20 pessoas, alguns menores e outros que nem iam pra manifestação e aqui tem um relato assustador dessa história que ainda não acabou.



quarta-feira, 17 de agosto de 2016

uma deusa, uma rapper, uma feiticeira

sa-roc já tem um tempo nas rimas, uns 8 anos pelo menos, e produz muito e como alta qualidade desde o início. mas fiquei particularmente impressionado com uma série semanal que ela está fazendo no canal da rhymesayers entertainment no youtube. 'wisdom wednesdays' - ou 'quartas de sabedoria' - traz uma música inédita toda semana e acompanhada com vídeo e com download gratuito via soundcloud. altíssimo nível em tudo.



daí que fiz uma playlist juntando as cinco que já saíram ["queen ting", "word war 2", "what it's worth", "nfsw (not safe for weak rappers)" e "lord of the forest"] e vou atualizando aqui semana sim e outra também. 

saca só o poder da mina.

atualizações: "i come in peace" [24.08], "seven" [31.08].

terça-feira, 12 de julho de 2016

o fantasma dos que não conseguiram

perto da ilha onde fica a estátua da liberdade, em nova york, existe uma outra pequena ilha: ellis. de 1892 a 1954, ellis foi a principal entrada para imigrantes do mundo todo rumo ao "sonho americano" [estima-se que nestes 62 anos cerca de 12 milhões de pessoas passaram por lá e que 40% da atual população norte-americana possua pelo menos um ancestral que tenha cruzado seus portões]. a ilha foi durante muito tempo sinônimo de esperança e quem não se lembra do menino vito andolini que foi renomeado vito corleone, em 'poderoso chefão 2', justamente na sua chegada a ellis? vito chegou muito doente, como era comum na época após tantos dias no mar e com tão pouca comida, e permaneceu um tempo em ellis até receber alta. mas vito conseguiu colocar seus pés na tão sonhada américa. muitas e muitos não [geralmente por motivos de saúde].

em outubro de 2015, o artista plástico francês JR lançou o curta 'ellis', uma tocante homenagem aos que não conseguiram. com roteiro baseado em relatos reais assinado por eric roth ['forrest gump', 'munique', 'ali', 'benjamin button', etc.] e a presença, em corpo e voz, de robert de niro, o curta é um passeio bonito e dolorido pelas dependências do hospital da ilha e pelas intervenções que JR fez em 2014 a partir de fotos de anônimos sonhadores que passaram por lá. olha só.



"are you talking to me?"

aqui, algumas imagens de 'unframed', o trabalho que JR fez no hospital da ilha ellis. o hospital é aberto a visitação - acho que é a única parte aberta da ilha - e 'unframed' é uma exposição permanente.





p.s.: a trilha do curta, assinada por yoann "woodkid" lemoine [que também dirigiu clipes para katy perry, taylor swift, moby, john legend, drake e lana del rey] e nils frahm está no exystence, com direito ao monólogo de robert de niro.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

o cinema liberta

mukunda, narayana, govinda, bhagavan, krishna e jagadesh poderiam ser personagens do mítico ‘mahabharata’, mas, neste caso específico, são seis irmãos que passaram boa parte da infância e adolescência presos pelos pais [mais o pai que a mãe] em um apartamento de um conjunto habitacional em nova york. a explicação que lhes foi dada é que, basicamente, o mundo lá fora é hostil. então eles foram educados em casa [pela mãe] e se educaram pelo cinema, muito cinema. tanto cinema que até começaram a fazer versões próprias de alguns de seus filmes preferidos. os irmãos, sua história e a paixão pelo cinema estão no excelente documentário the wolfpack, da estreante crystal moselle. olha só o trailer...


o encontro da cineasta com os irmãos se deu por acaso na rua, numa das primeiras saídas deles após o início da ruptura com o pai, em 2010, e o filme levou quase cinco anos para ficar pronto. crystal moselle conta um tanto do processo nessa boa entrevista para a vice.


daí que o documentário abriu ainda mais as portas do mundo para os irmãos angulo e na estreia do longa em los angeles, a vice os acompanhou em encontros com os diretores william friedkin e david o. russell [o primeiro filme que os irmãos viram numa sala de cinema foi o lutador]. o resultado é bem educativo [cinematograficamente falando].


difícil saber o que futuro reserva para os irmãos, mas sua paixão pelo cinema é tão grande quanto sincera e, novamente com o apoio da vice, produziram seu primeiro trabalho autoral: mirror heart, um curta bonito e surreal.


já dá pra achar o filme em boas cópias nos torrents da vida [vai saber se passará nos cinemas aqui, além de um ou outro festival, ou na tv].

p.s.: the wolfpack ainda serviu pr'eu conhecer a linda "daylight", do músico e produtor dinamarquês peder.


quinta-feira, 24 de março de 2016

histórias do rap nacional, a série

totalmente ótima a primeira temporada de histórias do rap nacional, série em seis episódios escrita e comandada por ronald rios e exibida pela tv gazeta [ora veja só você, a gazeta]. apesar de errar em alguns poucos insights pessoais sobre o rap, nacional e gringo, ronald se mostra sempre atento e entusiasmado com o tema e colocou no ar um belo panorama histórico e atual sobre o gênero [majoritariamente em são paulo].


ronald e leandro, que ganhou um episódio totalmente 
dedicado ao seu alter ego emicida 

segue a lista da turma que aparece em cada episódio e, na sequência, todos os seis episódios numa mesma playlist de youtube.

episódio 1: rashid, tássia reis, rincon sapiência, bitrinho, lurdez da luz, lívia cruz, haikaiss, síntese, drika barbosa e rodrigo ogi

episódio 2: pepeu, thaíde, max b.o., dmn, gabriel o pensador, kamau e rappin hood

episódio 3: emicida

episódio 4: kl jay, edi rock, dj nyack, dj cia, wzy, dario, skeeter, dj hum e daniel ganjaman

episódio 5: rzo, rael, msário, sampa crew, de menos crime, gog, ndee naldinho, dbs, xis, renan inquérito e rico dalasam

episódio 6: criolo, rinha dos mcs, dj dandan, redniggaz, kauan, bivolt mc, flow mc, dj colorado, tvs, helibrown, marcelo gugu, guilherme treeze e matheus mc

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

77 músicas brasileiras de 2015

música muita música todo tempo música serve pra isso também né. na tradicional retrospectiva do esforçado já passaram os discos e músicas gringas de 2015, e também os discos nacionais. agora é a vez das canções brasileiras e então a lista aumentou. fechei em 77 músicas. setenta e sete! e poderiam ser maior, fácil fácil. por outro lado, senti falta de funk e tive a impressão que foi um ano no automático pro gênero [tanto no rio quanto em são paulo], mas posso ter comido bola. também não teve nada no mainstream de interessante – exceção ao naldo, mas sobretudo pelo encontro com mano brown –, e não lembro nada de particularmente divertido neste ano produzido pelo trio maravilha do pop feminino brasileiro: anitta, ludmilla e valesca popozuda [ivete já é medalhão pop rsrs]. 

como é de costume, tem artista aqui que não emplacou disco, tem disco que não emplacou música e a vida segue. enfim, a vida é escolhas [sonoras, inclusive] e estas 77 canções brasileiras são um pouco do que ouvi [e gostei bastante] neste ano. segue a playlist com todas e também a lista completa em ordem alfabética. destaque especial: "escola de luta", paródia linda e precária - e a favor da luta dos estudantes das escolas estaduais de são paulo - que a dupla mc foice & martelo fez para "baile de favela" do mc joão.


aláfia - "salve geral"
alessandra leão - "língua"
amiri & projetonave - "estalo" [clipe]
amplexos - "a tecnologia"
andré whoong - "vou parar de beber" [clipe]
arnaldo antunes - "põe fé que já é" [clipe]
ava rocha - "transeunte coração" [ao vivo]
baiana system - "playsom"
boogarins - "6000 dias" [clipe]
donatinho - "dança dos urubus" [part. dona onete]
barbara eugênia - "besta" [ao vivo]
bixiga 70 - "lembe"
black alien - "rolo compressor"
bnegão & seletores de frequência - "no ar (convocação)"
cícero - "a praia" [ao vivo]
cidadão instigado - "land of light" [ao vivo]
daniel groove - "jardim suspenso"
diogo strausz - "me ama" [part. kassin]
eddie - "tentei te ligar"
edi rock - "cava cava (parte 2)" [part. don pixote] [clipe]
elza soares - "a mulher do fim do mundo"
emicida - "chapa" [ao vivo]
fafá de belém - "asfalto amarelo"
flávio renegado - "redenção" [clipe]
gal costa - "jabitacá"
gog & projetonave - "heroínas e heróis" [clipe]
gui amabis - "eles eram humanos"
guizado - "cachoeiras" [ao vivo]
ian ramil - "coquetel molotov"
iconili - "jorge botafogo"
instituto - "alto zé do pinho" [part. sabotage, nação zumbi, otto e sombra]
jaloo - "insight" [clipe]
joão brasil & gaby amarantos - "garrafa de licor" [clipe]
jonathan tadeu - "começar de novo" [clipe]
karina buhr - "desperdiço-te-me"
karine alexandrino - "se não for certo, não quero" [clipe]
karol conká & tropkillaz - "é o poder
lay - "ghetto woman" [clipe]
letuce - "lugar para dois"     
liniker - "louise du brésil" [ao vivo]
lira - "ser" [ao vivo]
mahmundi - "eterno verão" [clipe]
marcelo callado - "breja" [ao vivo]
mariana aydar - "isso pode" [clipe]
mc foice & martelo - "escola de luta" [clipe]
metá metá - "atotô"
ná ozzetti & passo torto - "perder essa mulher"
ná ozzetti & zé miguel wisnik - "alegre cigarra"
naldo & mano brown - "benny e brown"
nectar gang - "medusa" [part. qualy] [clipe]
omulu - "vila mimosa"
oquadro - "jesus cristin"
orquestra brasileira de música jamaicana - "dub manifesto"
orquestra raiz - "outra vez" [part. diogo soares]
pélico - "olha só" [ao vivo]
peri pane - ""
rafael castro - "ciúme" [clipe]
ramonzin - "boom bap" [clipe]
rapadura – "é o terror (parte 2)" [clipe]
raphão alaafin - "rap sim rap não" [part. dj erry-g]
rashid - "a cena" [part. izzy gordon]
rodrigo campos - "chihiro" [part. ná ozzetti & juçara marçal]
rodrigo ogi - "ponto final"
romulo fróes - "porto"
senzala hi-tech - "pegada do vampiro" [clipe]
silva - "noite" [part. don l & lulu santos]
space charanga - "fakechá"
thiago ramil - "casca"
trupe chá de boldo - "diacho"
tulipa ruiz - "tafetá" [part. joão donato]
vicente barreto - "herança" [part. juçara marçal]
vitrola sintética - "minha garota" [part. maurício pereira & gustavo ruiz]
wado - "menino velho"
zé pi - "acredito" [part. barbara eugênia & karine carvalho]

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

65 discos brasileiros de 2015

já rolaram os discos e músicas gringas de 2015, então agora é a vez de falar daqui, de listar o que mais gostei do que ouvi aqui: artistas novos se firmando, iniciantes cheios de gás e voz, medalhões inquietos, um pouco mais da nossa costumeira efervescência musical. acabei fechando a minha lista [sempre e cada vez mais] inclusiva com 65 discos, mas destacarei 17 que estiveram mais muito mais próximos. pra facilitar minha vida separei esses 17 em 3 blocos: os raps, as mina e os mano.

ogi, emicida, instituto, black alien, bnegão, síntese & cia

os rap – tal e qual a gringolândia, o rap também é no brasil o gênero que tem mostrado mais originalidade, mais vontade de falar de assuntos diversos e urgentes, e de se misturar sem medos. isso, claro, não é de hoje, mas seis discos lançados este ano são prova clara que o rap brasileiro cresceu de uma forma absolutamente inequívoca. por exemplo rá!, o segundo disco do grande cronista paulistano rodrigo ogi, que é um passeio veloz e afiado pelos humores da cidade. e tem ainda samba e muita vida, e ocasionalmente sangue, em suas rimas. já sobre crianças, quadris, pesadelos e lições de casa, de emicida, a grande jovem estrela do gênero, é uma maravilha de diversa atualidade: é família, pop, pesado e ativista, tudo ao mesmo tempo, e com uma delicadeza e equilíbrio de dar inveja a muito veterano. 

transmutação e babylon by gus vol. II, dos contemporâneos, cariocas e ex-companheiros de planet hemp, bnegão e black alien, são produções extremamente bem acabadas, divertidas e com pegada [e como é bom ver e ouvir black alien de novo].

a volta do instituto, após 14 anos de sua estreia, com violar é outra prova de como o rap se tornou predominante e incontornável. até as músicas instrumentais do disco parecem rap, mas como se isso não bastasse, tem criolo, bnegão, karol conká, sombra e uma linda pérola póstuma de sabotage.

então, pra finalizar esse bloco de rap, um trabalho que entrou aos 48 do segundo tempo, síntese, akilez, kiko dinucci e thiago frança. encontro poderoso e ofegante esse do rapper de são josé dos campos com o produtor curitibano, o guitarrista guarulhense e o saxofonista mineiro [nada mais paulistano que isso]. síntese continua firme com um dos rappers mais originais da atualidade, apesar dos arroubos religiosos [ou devido a eles?].

elza, gal, alessandra, karina, letuce e tulipa

as mina – duas veteranas abrem esse bloco com discos absurdos de lindos. a mulher do fim do mundo é o encontro de elza soares com composições e músicos muito atuais e de são paulo. é trabalho poderoso, negro, rasgado, torto, sexual, melancólico e surpreendente. estratosférica é gal costa tinindo em delicadezas e com repertório também todo de inéditas. duas grandes mulheres artistas inquietas e atentas.

a jovem guarda feminina tem um tanto de pernambuco via são paulo com selvática, o mais regular e bonito disco de karina buhr, e os fortes e carnais eps aço e língua de alessandra leão [karina e alessandra foram companheiras de comadre fulozinha]. tem também rio de janeiro com estilhaça, o terceiro disco de letuce e que traz a cantora e compositora letícia novaes ainda à flor da pele, mas também conseguindo ser menos estritamente confessional e mais universal. pra encerrar o bloco, dancê, o mais recente, alegre e solto trabalho de tulipa ruiz.

jaloo, siba, lira, cidadão instigado e rodrigo campos

os mano – a grande surpresa deste ano, entre os manos, foi o #1 de jaloo. conhecido por seus remixes tecnobregas, o paraense fez um belíssimo, doce e dançante disco autoral. gosto de jaloo tem tempo, mas realmente não esperava um disco com tantas músicas tão bonitas. no mais, os feras de sempre aprontando mil e uma confusões: fortaleza, o quarto disco do cidadão instigado, é o que existe de melhor e mais pulsante no rock nacional; de baile solto do siba tem pernambuco, áfrica, guitarra e muitas outras coisas tão boas quanto; o igualmente pernambucano lira lançou seu segundo disco solo, o labirinto e o desmantelo, e sua poesia está cada vez mais apurada e dolorida; por último e não menos importante, o delicado conversas com toshiro, terceiro e mais maduro disco de rodrigo campos.

aqui, a lista completa com os 65 discos:

aláfia - corpura
alessandra leão – aço/língua EPs
amplexos - sendeiro
andreia dias - prisioneira do amor
as bahias e a cozinha mineira - mulher
barbara eugênia - frou frou
bixiga 70 - III
bnegão & seletores de frequência - transmutação
boogarins - manual
cícero - a praia
cidadão instigado - fortaleza
daniel groove - romance pra depois
diogo strausz - spectrum vol. 1
eddie - morte e vida
fabio góes - zonzo
frito sampler - aladins bakunins
gal costa - estratosférica
gui amabis - ruivo em sangue
hélio flanders - uma temporada fora de mim
iconili - piacó
instituto - violar
jaloo - #1
juçara marçal e cadu tenório - anganga
karina buhr - selvática
karine alexandrino - mulher tombada
letuce - estilhaça
liniker - cru EP
mariana aydar - pedaço duma asa
metá metá - metá metá EP
ná ozzetti e zé miguel wisnik - ná e zé
ná ozzetti & passo torto - thiago frança
odair josé - dia 16
orquestra brasileira de música jamaicana - obmj ataca!
orquestra raiz - as américas
pélico - euforia
qinho - ímpar
rafael castro - um chopp e um sundae
raphão alaafin - eu gosto
rodrigo campos - conversas com toshiro
rodrigo ogi - rá!
romulo froés - por elas sem elas
silva - júpiter
space charanga - r.a.n. (rhythm and noise)
thiago ramil - leve embora
trupe chá de boldo - presente
tulipa ruiz - dancê
vicente barreto - cambaco
vitrola sintética - sintético
wado - 1977
zé manoel - canção e silêncio
zé pi - rizar
síntese, akilez, kiko dinucci & thiago frança

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

90 músicas gringas de 2015

após a lista dos melhores discos gringos do ano, nada mais natural que a de músicas né não. acabei meio que sem querer fechando também no número 90. coisa pra diabo, muitos sons, e esse número podia facilmente ser maior, pois tem artistas aí - kendrick, blur, dj vadim & sena, drake, ibeyi, son little, etc - que poderiam emplacar 3 ou 4. também é fácil notar que a lista tem muito rap e, nunca é demais repetir, a razão é simples: o rap é foda [e tá cada vez mais foda em todos os níveis, do político ao musical, das misturas à tradição, e em vários lugares do mundo].

sinceramente não saberia dizer qual ou quais músicas do ano. tem 3 hits globais na minha lista - “uptown funk” [mark ronson & bruno mars], “bitch better have my money” [rihanna] e “hotline bling” [drake] - e tem canções sensacionais de veteranas(os) em plena atividade - madonna, ghostface killah, blur, missy elliott, erykah badu, giorgio moroder, lauryn hill, prince e public enemy. tem também um punhado bom de novinhas e novinhos mostrando que as novas gerações não deixarão a música cair na mesmice, tais como alessia cara, bishop neru, don monique, dope saint jude, le1f, leon bridges, lianne la havas, lizzo, nicola cruz, nozinja, pell, rae sremmurd, raury, shamir e the internet.

então, sem mais delongas e na ordem alfabética, as 90 melhores músicas de 2015 segundo os padrões da casa.

a$ap rocky - "excuse me"
action bronson - "actin' crazy"
alabama shakes - "shoegaze"
alessia cara - "here"
am & shawn lee - "persuasion"
andreya triana - "gold"
badbadnotgood & ghostface killah - "six degrees" [feat. danny brown]
beirut - "no no no"
bishop nehru - "manssin" [feat. que hampton]
blueprint - "the talented tenth"
bomba estereo - "caderas"
cee-lo green - "mother may i"
dengue fever - "taxi dancer"
disiz - "abuzeur"
dj vadim & sena - "give more pt. 2" [feat. syross the virus]
don monique - "drown"
dope saint jude - "keep in touch" [feat. angel-ho]
drake - "hotline bling"
erykah badu - "phone down"
future - "where ya at" [feat. drake]
ghostpoet - "yes, i helped you pack" [feat. etta bond]
giorgio moroder - "tom’s diner" [feat. britney spears]
heems - "sometimes" [feat. hannibal buress & eric andre]
ibeyi - "stranger/lover"
jamie xx - "i know there's gonna be (good times)" [feat. young thug & popcaan]
joey bada$$ - "like me" [feat. bj the chicago kid]
kendrick lamar - "king kunta"
lauryn hill - "feeling good"
le1f - "umami/water"
leon bridges - "smooth sailin"
lianne la havas - "unstoppable"
lil b & chance the rapper - "we rare"
lizzo - "ain’t i"
l'orange & kool keith - "upwards. to space!"
m.i.a. - "borders"
madonna - "unapologetic bitch"
major lazer - "too original" [feat. elliphant & jovi rockwell]
mark ronson - "uptown funk" [feat. bruno mars]
mick jenkins - "your love"
miley cyrus - "cyrus skies"
missy elliott - "wtf (where they from)" [feat. pharrell williams]
murs - "the worst"
nicola cruz – "colibria"
nneka - "book of job"
nozinja - "baby do u feel me"
panda bear - "mr. noah"
pell - "queso"
people under the stairs - "runaway" [feat. greg nice]
petite noir - "mdr"
prince - "ain't about to stop" [feat. rita ora]
public enemy - "mine again"
rae sremmurd - "throw sum mo" [feat. nicki minaj & young thug]
raekwon - "i got money" [feat. asap rocky]
ratatat - "drift"
raury - "crystal express"
rdgldgrn - "runnin away"
roots manuva - "don't breathe out"
sadat x - "never left" [feat. tony mays]
shamir - "in for the kill"
son little - "go blue blood red"
songhoy blues - "sekou oumarou"
sons of kemet - "play mass"
sts & rjd2 - "monsters under my bed"
talib kweli & 9th wonder - "every ghetto" [feat. rapsody]
the arcs - "outta my mind"
the breathing effect - "fireflies"
the internet - "get away"
the lions - "the magnificent dance" [feat. black shakespeare]
the mighty mocambos - "road to earth" [feat. peter thomas]
the selecter - "karma"
the skints - "my war"
the souljazz orchestra - "courage"
the very best - "let go"
the weeknd - "can't feel my face"
toro y moi - "lilly"
travis scott - "antidote"
wiley - "chasing the art"
young fathers - "rain or shine"
young thug - "can't tell" [feat. t.i. & boosie badazz]

e a laíssa, do era segunda, fez o favorzão de fazer uma playlist gigante no youtube. das 90 músicas, 83 estão na plataforma. as 7 restantes estão logo na sequência, com destaque para a poderosa “hell you talmbout”, um grito liderado por janelle monáe contra a constante morte de negros(as) pela força policial norte-americana.


janelle monáe, deep cotton, st. beauty, jidenna, roman gianarthur & george 2.0 - "hell you talmbout"
los crema paraiso - "la luz se apaga" [feat. juan rivas]
opio & free the robots - "opiopia"
owiny sigoma band - "nairobi (too hot)"
pat thomas & kwashibu area band - "odo adaada"
quantic - "bicycle ride"

the electric peanut butter company - "mister pink"

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

90 discos gringos de 2015

mais um ano cheio de muita música boa, mais um ano repleto de excelentes artistas iniciantes e veteranos a toda velocidade. a tradicional retrospectiva musical aqui do esforçado começa este ano com os melhores discos gringos e não tive escolha a não ser mais uma vez bastante inclusivo e fechei a lista com 90 álbuns [e poderia ter mais].

pra facilitar o texto – e entender melhor o que mais gostei da produção deste ano – acabei dividindo esses 90 discos em quatro blocos [rap, instrumentais, pop-rock-soul-eletrônico e mundão]. e vou começar com o rap, o gênero que vem trazendo cada vez mais coisas novas e instigantes para nossos ouvidos e cabeças. pouco mais de um terço da lista é do rap, com direito a to pimp a butterfly, de kendrick lamar, disparado um dos melhores, mais fortes e complexos discos do ano, e ainda o poderoso white men are black men too [young fathers], if you’re reading this it’s too late [drake, cada vez mais afiado] e a surpresa de summertime '06 [vince staples]. mas ainda teve o retorno do dr. dre, os incansáveis ghostface killah, snoop dogg e public enemy, a originalidade inglesa de roots manuva e ghostpoet e o poder das minas erykah badu e georgia anne muldrow. seguem então meus destaques do rap gringo [majoritariamente norte-americano, obviamente], em ordem alfabética...

kendrick lamar, young fathers, drake e vince staples

action bronson - mr. wonderful
adrian younge & ghostface killah - 12 reasons to die II
alchemist - israeli salad
badbadnotgood & ghostface killah - sour soul
blueprint - king no crown
dr. dre - compton
drake - if you’re reading this it’s too late
georgia anne muldrow - thoughtiverse unmarred
ghostpoet - shedding skin
heems - eat pray thug
joey bada$$ - b4.da.$$
kendrick lamar - to pimp a butterfly
kid cudi - speedin bullet 2 heaven
le1f - riot boi
l'orange & kool keith - time? astonishing!
opio & free the robots - sempervirens
public enemy - man plans god laughs
rae sremmurd - sremmlife
rdgldgrn - rdgldgrn lp 2
roots manuva - bleeds
sadat x - never left
snoop dogg - bush
sts & rjd2 - sts & rjd2
talib kweli & 9th wonder - indie 500
tyler the creator - cherry bomb
vince staples - summertime '06
young fathers - white men are black men too
young thug - barter 6

sons of kemet e kamasi washington

então chega a hora dos sons instrumentais e o mundo se abre com os colombianos do romperayo [que tem gente do projeto ondatrópica e do meridian brothers], o finlandês jimi tenor, o francês pascal comelade, os canadenses da souljazz orchestra, e tem jazz [joshua redman acompanhado do the bad plus], rock [ratatat], interpretações de john zorn [forró in the dark], mas meus destaques pessoais, o que mais bateu aqui, foram os impressionantes lest we forget what we came here to do [dos ingleses sons of kemet] e the epic [ousado & duplo disco de estreia do saxofonista kamasi washington que, não coincidentemente, também toca no disco de kendrick lamar].

andrew bird - echolocations: canyon
forró in the dark - forró in the dark plays zorn
jimi tenor & umo - mysterium magnum
joshua redman & the bad plus - the bad plus joshua redman
kamasi washington - the epic
pascal comelade & les limiñanas - traite de guitarres triolectiques
ratatat - magnifique
romperayo - romperayo
the electric peanut butter company - trans-atlantic psych classics vol.1
the souljazz orchestra - resistance

blur, panda bear, son little e ibeyi

o outro terço dessa lista é composto por um grande bloco reunindo pop, rock, soul, eletrônica e dub/reggae. tem novos trabalhos de pratas da casa como björk, beirut, cee lo green, dj vadim, madonna, major lazer, mark ronson, prince, sharon jones & the dap-kings, shawn lee, the arcs [grupo novo de uma das metades do black keys], the lions, the skints e toro y moi. e não tenho como não falar da boa surpresa que foi miley cyrus e seu disco lisérgico produzido pelo flaming lips.

mas desse bloco os destaques pessoais, álbuns que me acompanharam muitas vezes durante o ano, foram the magic whip [blur], disco lindo lindo que é muito mais cheios de camadas que grande parte da produção contemporânea pop/rock, e as psicodelias eletrônicas de panda bear meets the grim reaper [panda bear ou noah lennox, uma das cabeças do animal collective]. sem falar nas belezuras ouvidas nas estreias da irmãs ibeyi e de son little. que discos, que discos.

alabama shakes - sound & color
andreya triana - giants
beirut - no no no
björk - vulnicura
cee lo green - heart blanche
dj vadim & sena - grow slow
ibeyi - ibeyi
jamie xx - in colour
leon bridges - coming home
lianne la havas - blood
madonna - rebel heart
major lazer - peace is the mission
mark ronson - uptown special
panda bear - panda bear meets the grim reaper
prince - hitnrun phase one
raury - all we need
shamir - ratchet
sharon jones & the dap-kings - it's a holiday soul party
shawn lee & am - outlines
son little - son little
the arcs - yours, dreamily
the breathing effect - mars is a very bad place for love  
the lions - soul riot
the selecter - subculture
the very best - makes a king
the weeknd - beauty behind the madness
toro y moi - what for?

petite noir, dengue fever, bomba estéreo e dexter story 

mesmo com a vasta internet, o mundo anglocêntrico ainda permanece muito mais familiar a todos nós. mas basta ficar atento que esse mundão tem muita coisa pra mostrar, ainda mais em termos de música. aqui nessa lista tem colômbia [bomba estéreo], venezuela [los crema paraiso], peru [kanaku y el tigre], argentina [nicola cruz], síria [omar souleyman], congo [mbongwana star], mali [songhoy blues], gana [pat thomas], nigéria/alemanha [nneka], quênia/inglaterra [owiny sigoma band], cambodja/estados unidos [dengue fever], estados unidos/etiópia [dexter story], índia, Inglaterra/israel [o encontro de shye ben tzur, jonny greenwood – do radiohead – e o grupo rajasthan express] e áfrica do sul [nozinja, petite noir e fantasma, grupo liderado por spoek mathambo].

mas de todos esses álbuns, os meus destaques vão para o belo e sensacional la vie est belle [petite noir] com sua mistura irrotulável de pop, eletrônica e experimentalismos regionais; pro climão ethiojazz de wondem [dexter story]; pra alegria dançante de amanecer [bomba estéreo]; e pra maviosa surf music cambodjana de the deepest lake [dengue fever].

bomba estéreo - amanecer
dengue fever - the deepest lake
dexter story - wondem
fantasma - free love
kanaku y el tigre - quema quema quema
los crema paraiso - de pelicula
mbongwana star - from kinshasa
nicola cruz - prender el alma
nneka - my fairy tales
nozinja - nozinja lodge
omar souleyman - bahdeni nami
owiny sigoma band - nyanza
petite noir - la vie est belle
shye ben tzur, jonny greenwood and the rajasthan express - junun
songhoy blues - music in exile
pat thomas & kwashibu area band - pat thomas & kwashibu area band

e nos próximos dias, as listas de melhores músicas gringas, discos e músicas nacionais. tem coisa boa pra dedéu.