terça-feira, 12 de setembro de 2017

flanelinha porque preciso, cinéfila porque te amo

acabou de sair, agora em setembro, meu quinto texto pra seção 'esquinas' da piauí. minha colaboração com a revista começou com um jogo de futebol americano em são bernardo do campo ['touchdowns no abc'], depois veio um cemitério de animais em itapevi ['o paraíso é aqui do lado'], uma festa cigana na extrema zona leste de são paulo ['e o lenço levou'] e um bingo erótico em santos ['um 69 e eu levo a pintola!', este acabou não sendo publicado]. 

dessa vez a história foi mais próxima, aqui mesmo no bairro onde moro, pinheiros, e a protagonista é rosa, flanelinha de um quarteirão na rua fradique coutinho. é que frequentando o cinema da rua, o cinesala, ou indo na casa de amigos que moram por ali cruzei caminho algumas vezes com rosa e me diverti com as observações dela sobre os filmes em cartaz. mandei a pauta pra revista, recebi sinal verde e passei um domingo com rosa pra conhecer seu cotidiano de trabalho e histórias de sua vida.

aqui, como sempre, vai o versão original do texto. mas dá pra ler também a que saiu na piauí, um pouco menor [ah, a limitação do espaço no impresso], revisada e com alguns toques de edição. no mais, aquele abraço agradecido a rafael cariello e bernardo esteves.

ilustra que andrés sandoval fez pro texto na piauí

A ROSA PÚRPURA DA FRADIQUE

Rosa não estava se sentindo bem naquela semana e, pela primeira vez em 4 anos, faltou ao trabalho. Foram alguns dias nos quais os carros de um quarteirão da Rua Fradique Coutinho – em Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo – contaram apenas com a própria sorte. “Esse tempo mais frio né. E o cigarro. Aí a sinusite atacou de novo”. Já é domingo e ela está melhor e de volta ao batente. “Peraí, chegou um carro”.

O quarteirão que Rosa toma conta fica entre as ruas Teodoro Sampaio e Artur de Azevedo, e apesar de possuir estabelecimentos como um banco, uma casa de chás chineses, a sede do Greenpeace, uma padaria e um restaurante capixaba, seu foco de atenção está em quem frequenta o CineSala, um dos poucos cinemas de rua sobreviventes da cidade. 

Inaugurado em 1962 como Cine Fiammeta, “o Cinema Elegante de São Paulo”, o atual CineSala já foi chamado de Studio ABC, Sala Cinemateca, Sala UOL de Cinema, iG Cine, Cinema da Vila, Cine Sabesp e Cinesala Sabesp. Apenas dois anos mais nova que a sala de cinema, Rosa nem lembra a última vez que foi chamada pelo seu nome de batismo, Rosalia. Rosalia Beserra Neta, natural do vilarejo piauiense de Campestre, município de Itainópolis, perto de Picos.

Ainda com alguma tosse decorrente da sinusite, Rosa perdeu a primeira sessão, às 14h. “Mas pelo que estou vendo aqui foi meio fraco. Geralmente é assim no domingo, pode ser o filme que for: a primeira e a última sessão são mais ou menos, enquanto a segunda e terceira são ótimas. Olha, outro carro”. Meros dois passos após avistá-lo, Rosa já está na rua com sua abordagem habitual para desconhecidos: “Boa tarde. Tá precisando de vaga? Vai no cinema? Comprou ingresso? Bom filme”. 

Já são quatro carros encaminhados para a segunda sessão e ela se dá o direito de acender um cigarro. “Aqui não tem filmes de ação, de efeitos especiais. É uma outra categoria, uns filmes mais culturais, dramas. Mas gosto de drama, tenho paciência pra assistir. Gosto de uma história bem contada”. Então estica um pouco o pescoço ao ver um carro se aproximando devagar. “Esse vai pro estacionamento”, e relaxa novamente.


“Na época do Cine Sabesp, quando comecei a trabalhar aqui na rua, não me sentia confortável pra ver os filmes, mas depois que mudou para o CineSala passei a conhecer todo mundo. Às vezes pago ingresso, às vezes me dão cortesia e também já vi filme pago por gente que vem assistir”. Contabiliza uns 25 filmes em pouco mais de 2 anos. Não lembra o nome de todos, mas não esquece a empregada de ‘Que Horas Ela Volta?’, a péssima cantora de ópera de ‘Marguerite’ e o amor proibido de ‘Carol’. Ficou bastante impressionada com ‘O Regresso’, um tanto pela atuação de Leonardo DiCaprio, mas principalmente por descobrir que é possível sobreviver a uma tempestade de neve abrindo a barriga de um cavalo morto e se aquecendo dentro dela.

“Lembro também que vi ‘As Sufragistas’, aquele filme que passa lá atrás quando as mulheres não tinham direito a nada e eram escravizadas no trabalho”. Rosa diz que nunca se sentiu “escravizada” por nada, mas está na lida diária desde antes da maioridade, afinal perdeu os pais aos 10 anos e veio para São Paulo morar com os irmãos. Trabalhar era mais que preciso.

Seu primeiro emprego foi numa metalúrgica no Alto da Mooca, mas logo casou e passou a trabalhar com o marido em feiras-livres. Não demorou muito e recebeu uma licença da Prefeitura de São Paulo pra trabalhar como camelô na região Santana/Tucuruvi, Zona Norte da cidade. Foram 30 anos assim, vendendo todo tipo de coisa, desde guarda chuvas até, mais recentemente, capinhas de celular.

No entanto, 8 anos atrás, durante a gestão de Gilberto Kassab, a Prefeitura cassou todas as licenças da região e Rosa virou clandestina. Em um determinado mês chegou a ter seus produtos apreendidos 8 vezes pelo “rapa”, a Guarda Civil Metropolitana. Resultado: perdeu todo dinheiro que tinha guardado, cerca de R$ 18 mil, e chegou a ser despejada. O momento só não foi pior porque ela já estava separada – sobre o ex-marido não gosta nem de falar – e seus dois filhos, Marcela e Eduardo, já estavam grandinhos, formados. “Agora preciso trabalhar”, e volta para a rua, afinal a segunda sessão de domingo está prestes a começar e sempre aparecem uns carros retardatários.

Rosa ainda insistiu um tempo na clandestinidade, mas a idade e a falta de dinheiro deram um fim à essa correria. Após um período de bicos variados ela decidiu tentar a sorte em uma região que não conhecia. Começou pela Vila Madalena e, apesar de não beber, ficou encantada com a quantidade de barzinhos. Mas nada de trabalho. Então foi descendo pela Rua Fradique Coutinho, chegou ao bairro de Pinheiros e numa conversa casual foi abordada por Raimundo, um flanelinha da área. Foi ele que, quatro anos atrás, “ofereceu” o quarteirão do CineSala, pois não estava dando conta de tantas ruas. Rosa topou na hora e foi ficando, ficando. “Esse quarteirão me acolheu”, confessa.



A segunda e a terceira sessões foram realmente boas, conforme previsto por Rosa, e ela ficou de olho em nove e doze carros, respectivamente. “Quando estreia filme novo a primeira coisa que faço é ler a sinopse. Depois pergunto pra um dos gerentes do cinema se ele acha que vai dar público ou não. Eles até brincam que pareço um dos donos, porque pergunto tudo. Mas é que preciso estar informada porque sempre tem gente que pergunta como é o filme que está passando ou se está lotado”. Falta meia hora para começar a última sessão de domingo, apenas três carros apareceram e quando um quarto surge na esquina ela nem pestaneja. “É Uber”.

“Tem filme que sei que não é bom, ou me falam que não é bom, mas só comento depois que o filme sai. Ou então se tiver intimidade com a pessoa. É o meu ganha pão, não vou falar mal. Meses atrás teve um que entravam umas 50 pessoas e saíam umas 120 antes do filme acabar”, e solta uma gargalhada. “Nunca tinho visto isso. O filme chamava muita gente, é de um diretor conhecido [‘Os Belos Dias de Aranjuez’, de Wim Wenders], mas quando acabava a sessão não tinha mais ninguém”. 

Apaixonada por cinema desde que viu, ainda garotinha, filmes de Bruce Lee no centro de São Paulo, Rosa ficou um bom tempo longe das pipocas. Fase de muito trabalho e crianças pequenas em casa. Mas bastou crescerem um pouco e os levou para assistir ‘O Rei Leão’ e ‘A Bela e a Fera’ e se divertiu tanto quanto eles. “E também gosto muito do Woody Allen, por exemplo. Quando aparece um filme dele tem que ver. Mas esse último, o ‘Café Society’, vi aqui e foi um dos mais fracos dele. Achei uma Sessão da Tarde melhorada”. E dá uma risada.

Um dos que mais gostou no ano foi ‘Capitão Fantástico’. “Fiquei encantada com esse filme. Achei que o pai [interpretado por Viggo Mortensen], mesmo vivendo no mato, conseguiu educar os filhos muito bem. Criei meus filhos da mesma forma, dando liberdade prumas coisas, segurando outras. Me identifiquei muito”. 

É que Rosa criou seus dois filhos com o dinheiro que ganhou em seus tempos de camelô. “Dinheiro da rua, da selva de pedra”, diz com orgulho. Marcela, a mais velha, é formada em Administração, trabalha numa grande empresa, mora em Guarulhos e está prestes a lhe dar o primeiro neto. Eduardo, o mais novo, é formado em Psicologia, fala cinco línguas e há dois anos mora em Tóquio. Os dois não precisaram abandonar os estudos na metade do ensino fundamental, nem trabalhar desde cedo, porque Rosa fez questão que sua história não se repetisse. “Chegou o último carro do domingo”, e sai apressada. 

É sinal de que só tem mais umas duas horas de trabalho. Tempo do filme acabar, as pessoas e seus carros saírem, a luz da marquise apagar e as portas descerem. Aí ela também voltará para casa, cinco quarteirões dali. Queria jantar alguma coisa e ver ‘Velozes e Furiosos 8’, mas o controle remoto do DVD está com defeito e ela terá que se contentar com o Domingo Maior. 


“Olha, sempre adorei trabalhar na rua. Não tem rotina, todo dia tem gente diferente, cada um com sua ideia. Mas gosto mais de lidar com gente de idade porque são pessoas que já viveram o bastante para não desejarem o mal de ninguém. Acho que é porque fui criada sem pai nem mãe, então dou corda, gosto. E gosto que gostem de mim. Acho que sou meio doida, né?”. Enquanto sua pergunta fica no ar, passa uma cadelinha. “Oi, Sofia!”, e a cadelinha se aproxima. “Olha, ela já tá até me cheirando”, diz para o dono. Sofia sai balançado o rabo. Rosa conquistou mais um.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

heroísmo pé no chão

durante muitos muitos anos tive preguiça de séries. preguiça de acompanhar, do compromisso, sei lá. mesmo quando na segunda metade dos anos 2000 começou uma mudança na dinâmica tv/cinema e as séries passaram a ser mais adultas que hollywood. em 2014/2015 teve uma segunda explosão com o netflix mudando paradigmas ao estimular novos cultos com o ‘binge watching’, a liberação de temporadas completas numa tacada só [além das elogiadas produções próprias]. fui acompanhando tudo isso ao largo, sem ver as séries, afinal... preguiça. mas agora, em 2017, não consegui mais evitar, tava perdendo muita coisa. e como quadrinhos são uma das preferências da casa fui logo ver o que a marvel andava produzindo via netflix: demolidor [duas temporadas], jessica jones, luke cage, punho de ferro e a recente união de todos em the defenders. seguem algumas impressões...


danny, luke, jessica e matt

DEMOLIDOR

quando comecei a ler quadrinhos, ali pelos meados do anos 1980, o demolidor foi um dos primeiros personagens que me interessou [eram tempos de frank miller reinventando um personagem originalmente dos anos 1960]. então sempre tive um carinho especial pelo herói cego e foi particularmente frustrante ver o bobo demolidor (2003) com ben affleck [sem falar no elektra, dois anos depois]. mas aí vieram as duas temporadas [26 episódios] da série criada por drew goddard [buffy, alias, lost, guerra mundial z, etc] para o netflix e o que sempre imaginei, e o que mais me interessava no personagem, estava ali. era sombrio, torturado, e muito urbano.

um herói em permanente conflito entre usar os meios legais em busca de justiça durante o dia [sendo o advogado matt murdock] e fazer justiça com as próprias mãos a noite [sendo o demolidor]. as conflituosas intersecções entre esses dois mundos. um bando de outros tantos personagens torturados, tanto heróis quanto vilões. a cidade. a noite.

demolidor, a série, vai além em alguns pontos e consegue trabalhar melhor o passado e o presente de quase todos os personagens principais [destaque para a karen page da ótima deborah ann woll] e, acima de tudo, o realismo da violência urbana. é impressionante a quantidade de ótimas cenas de luta, tudo muito bem pensado, coreografado e filmado [um longo plano sequência na segunda temporada, com direito a corredores e escadas, foi uma das coisas mais sensacionais que vi nos últimos tempos em termos de ação].


demolidor é crime, castigo e muitos machucados, principalmente na violentíssima segunda temporada [a que tem o importante co-protagonismo de elektra e justiceiro, além da participação do vilão da primeira, wilson fisk]. é trabalho interessante, denso e popular ao mesmo tempo. lá pelo final da segunda temporada, o realismo de toda série abre espaço para novos vilões, um tanto mais fantásticos: a organização tentáculo [tradução estranha pra ‘the hand’], que terá papel fundamental em punho de ferro e defenders.

atuações: charlie cox manda muito bem tanto como matt murdock quanto como demolidor, ambos diferentes e complementares, e já falei de deborah ann woll, uma determinada e apaixonante karen page, mas vale mencionar também elden henson [foggy nelson], vincent d’onofrio [wilson fisk, o rei da crime], elodie yung [uma interessante elektra, o eterno amor tortuoso de matt] , scott glenn [o lendário stick, que treinou matt e elektra] e rosario dawson [claire temple, personagem que cruza caminho com todos os heróis desse universo marvel mais pé no chão].

JESSICA JONES

não conhecia jessica Jones por serpersonagem dos anos 2000 [já tinha parado de ler quadrinhos de super heróis desde o início dos 90] e a surpresa de gostar de jessica jones, a série, veio [talvez] por não ter expectativas ou referências. mas a verdade é que a primeira temporada é mais um perturbador drama psicológico que uma história de super herói.

criada por melissa rosenberg [dexter e a franquia crepúsculo], a série acompanha uma mulher traumatizada e em fuga de um passado de abuso, dominação e violência – e, claro, de seu abusador -, mas também dos próprios poderes. esse é provavelmente o grande achado de jessica jones, o de colocar no centro da história uma mulher mal se equilibrando, e ainda por cima com muita dor e culpa, entre poder e impotência. nada mais atual.


mesmo que um tanto esticado na série, o duelo de jessica com seu abusador, o [literalmente] controlador kilgrave, é uma das construções mais tensas, violentas e perturbadoras que vi nos últimos tempos. e fica especialmente impressionante, lá pela metade da série, quando os dois invertem momentaneamente os papéis.

a série também apresenta um personagem que ganhou sua própria série pouco tempo depois, luke cage, e que tem papel importante na trama. primeiro, como sexo casual e breve interesse amoroso de jessica. depois, culpa e horror por causa de coincidências fatais envolvendo a ex-mulher de luke. e então, acerto e cooperação.

atuações: krysten ritter é uma excelente jessica jones, dura, frágil e sarcástica. david tennant é um absurdo kilgrave, encantador e repulsivo em doses cavalares. mas do elenco vale ainda mencionar carrie-anne moss como jeri hogarth, uma advogada durona e um tanto inescrupulosa, e eka darville como malcolm ducasse, amigo de jessica. já mike colter, o luke cage, parece ser gente boa, mas é só ok como ator.

LUKE CAGE

nos quadrinhos, o surgimento e a breve fama de luke cage ficou circunscrita aos anos 1970. então, quando comecei a ler hqs em meados dos anos 1980, ele já tinha sumido. sabia da existência, lembrava da cara, da camisa amarela, da tiara de ferro, mas só isso. tava, portanto, sem expectativas também [foi, aliás, a primeira das quatro séries marvel/netflix que vi].

criada por cheo hodari coker [das televisisas southland e ray donovan e do longa notorious b.i.g.], a série luke cage é uma blaxploitation cool e a mais realista, mais pé no chão, de todas as séries marvel/netflix. tem questões pulsantes e complexas como violência policial, desigualdade social, especulação imobiliária/gentrificação, falta de oportunidades para a juventude negra, e por aí vai. é um ‘black lives matter’ com um herói negro à prova de bala.

atuações: como já disse antes, mike colter cumpre seu papel, não compromete, mas lhe falta carisma. destaque, destaque mesmo, vai pra dupla mahershala ali e alfre woodard, os primos [e vilões] cottonmouth e mariah dillard. os dois enchem seus personagens de humanidade, dores íntimas e maldades públicas. e dá-lhe também rosario dawson e a dignidade amorosa de sua claire temple, bastante importante na trama [como foi em demolidor e como será em punho de ferro]. destaque afetivo para a pequena e boa participação de sonia braga como a mãe de claire.


música: a trilha de luke cage é um caso à parte com o mais fino da música negra americana, do blues ao rap. tem nina simone, ghostface killah, the stylistcs, gang starr e wu tang clam, por exemplo. tem música originalmente composta pra série, a ótima “bulletproof love” de adrian younge, ali shaheed muhammad e method man [que faz uma pequena participação]. e tem ainda apresentações ao vivo na casa noturna de cottonmouth/mariah com ninguém menos que raphael saadiq [“good man”], faith evans [“mesmerized”], charles bradley [“ain’t it a sin”], jidenna [“long live the chief”], the delfonics [“stop & look and you have found love”] e sharon jones & the dap kings [“100 days, 100 nights”].

PUNHO DE FERRO

enquanto luke cage era uma tentativa de pegar o bonde do cinema blaxploitation, o punho de ferro quis tirar uma casquinha dos filmes de kung fu. dois frutos desesperado da crise dos quadrinhos nos anos 1970. ambos não renderam muito, nem mesmo quando lutaram juntos, brevemente nos quadrinhos, no final da década. enfim, tal qual luke cage, só sabia da existência de punho de ferro e nada mais.

daí que o último dos quatro heróis pé no chão da dobradinha marvel/netflix é justamente o menos pé no chão de todos. punho de ferro é uma fantasia de ação com misticismos orientais diluídos que traz para nova york uma terrível organização secreta originária da mesma sagrada & tibetana k’un-l’um que o treinou [é o tal tentáculo, o lado negro da força]. é que punho de ferro é danny rand, um garoto que perdeu os pais em um acidente de avião e foi criado e treinado por monges nesse lugar místico [é lá que se torna o ‘punho de ferro imortal, inimigo do tentáculo’].

danny rand volta a nova york já adulto, quando todos achavam que estava morto, e com poderes, mas seu desejo é de retomar a vida, refazer raízes, reencontrar com o que sobrou de seu passado. danny, ingênuo e arrogante, começa acreditando em todo mundo para, depois de ser traído por pessoas próximas, não acreditar mais em ninguém [e ainda tem o tentáculo para bagunçar mais sua cabecinha]. esse é o grande drama pessoal do punho de ferro: confiança. muito pouco, muito raso, perto dos dramas de matthew murdock, jessica jones e luke cage. ah, falei que danny rand é herdeiro de uma empresa bilionária?! daí você para e pensa: o mundo precisa de outro branco bilionário com superpoderes?


punho de ferro é a mais fraca das quatro séries marvel/netflix. tem boas cenas de luta, e kung fu é sempre bonito de ver, mas não tem a explosão física e coreográfica de demolidor. o personagem também não possui conexões com uma comunidade/bairro como demolidor [hell’s kitchen] e luke cage [harlem] ou relações difíceis com o passado como luke cage, demolidor e jessica jones. os roteiristas scott buck, das séries dexter, roma e à sete palmos, e raven metzner da famigerada elektra e da série sleepy hollow, não conseguem resolver o principal problema do punho de ferro/danny rand: ele é um riquinho mimado da porra.

atuações: o protagonista finn jones é fraco e não tem jeito, nem com boa vontade [mas ainda acho que seu personagem é pior], mas a série tem as boas performances de jessica henwick [a lutadora colleen wing, que acaba se tornando parceira e interesse amoroso de danny], wai ching ho [a misteriosa madame gao, uma das integrantes do tentáculo], tom pelphrey [o torturado ward meachum] e, claro, mais uma vez rosario dawson [novamente claire temple tem um papel fundamental na trama – aliás, ela só não participa muito em jessica jones].

THE DEFENDERS

e então surgiu a primeira temporada da união desses quatro heróis em the defenders. os roteiristas douglas petrie e marco ramirez, que trabalharam juntos na segunda temporada de demolidor, tinham que pensar em um inimigo forte o bastante para justificar a união desses heróis-indivíduos tão diferentes [tão isolados em seus mundos pessoais/espaciais]. a única solução foi o tentáculo, o que faz defenders ficar mais próximo, fantasiosamente falando, de punho de ferro e do final da segunda temporada de demolidor.


em apenas oito episódios – contra os habituais 13 das séries anteriores –, defenders diverte, é bem feita, mas não empolga. nunca se entende muito bem o que motiva os vilões, afinal a busca por imortalidade não é algo que se possa relacionar [ou, de cara, criticar]  no nosso dia a dia. punho de ferro continua mimado e irritantemente repetitivo. o demolidor matthew murdock já começa a irritar com sua culpa cristã. os coadjuvantes das séries individuais mal aparecem e pouco interagem, e os encontros dos protagonistas são subutilizados [sem falar que algumas sequências de luta poderiam ser tão melhores se não fossem tão editadas]. mesmo a ameaça de destruição de nova york pelo tentáculo não parece real ou ameaçadora de verdade e eles, os vilões, nem parecem mais tão durões assim. tudo é meio corrido demais.

mas existem momentos interessantes na série, principalmente quando os dois outsiders desse mundo de fantasia, jessica jones e luke cage, viram superego da porra toda. jessica com o seu sarcasmo não aguenta o papo místico de danny e matt, enquanto luke dá uma bela lição racial sobre o ‘privilégio do homem branco’ para danny. não é à toa que são raros momentos assim. também são interessantes, mesmo que igualmente subutilizados, os conflitos por poder entre os membros do tentáculo, com destaque para o trio alexandra, murakami e madame gao [os outros dois dedos do tentáculo, sowande e bakuto, aparecem menos], com participação decisiva da versão ressuscitada de elektra [aka ‘black sky’]. no mais, tão triste e tortuosa a relação amorosa de elektra e matthew murdock [e a luta dos dois no final de defenders é um bom resumo disso tudo].

atuações: krysten ritter e charlie cox continuam com as melhores atuações entre os protagonistas, mas a verdade é que nenhum dos quatro precisa se esforçar muito na correria dos oito episódios. os coadjuvantes, muito menos, a não ser scott glenn [stick], jessica hanwick [colleen] e rosario dawson [claire], que possuem papeis importantes na trama. daí que o lance mesmo é a grande vilã alexandra, que sigourney weaver injeta altas doses de dignidade, humanidade, e um delicado desequilíbrio entre força e fragilidade. a relação maternal de sua personagem com elektra é bem interessante e tem um final surpreendente. aliás, elodie yung, que faz elektra/black sky, tem momentos ótimos na série. vale destacar também outros dois ótimos vilões, o murakami de yutaka takeuchi e, novamente, a madame gao de wai ching ho.


a melhor sequência de luta de defenders, no final do terceiro episódio

p.s.: desse universo marvel/netflix já estão confirmadas a terceira temporada de demolidor [que, pelo final de defenders, será uma adaptação da clássica saga ‘a queda de murdock’], e as segundas de jessica jones, luke cage e punho de ferro. ainda este ano será lançada a primeira de justiceiro.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

a avó e a boi

foi no dia 10 de junho que @EduardoHanzo começou a contar uma história no twitter sobre uma rixa de décadas entre sua avó e uma vizinha, carinhosamente apelidada [pela vó] de "a boi". tão cômica quanto surrealista, a história viralizou rapidamente no mesmo dia e Hanzo seguiu acrescentando novas peripécias das duas no dia seguinte. pouco tempo depois a saga da avó e da boi chegou aos 'moments' do twitter, ao facebook e a sites que deram prints nos tweets. daí que Hanzo acrescentou mais histórias em 20 de junho.

lendo e relendo a história pensei [como muitas outras pessoas] que maravilhoso filme isso daria. poderia ser uma comédia violenta & surreal bem ao estilo de 'durval discos' da anna muylaert. 

mas verdade mesmo é que fui guardando tudo, separando, editando, e dividi a longa saga em três partes. então pedi pro amigo, e grande desenhista, fernando de almeida ilustrar a história. e se aparecerem mais capítulos acrescento aqui.



A AVÓ E A BOI 
ou 
EU NÃO TINHA NADA PRA FAZER MESMO

PARTE 1

deixa eu contar o conflito que já ultrapassa 50 anos entre minha vó e a vizinha dela, a Boi. Boi é o apelido da vizinha dado por minha avó. até lá pelo meio dos anos 90 minha avó chamava a vizinha de a Vaca, mas lá por 1996 decidiu que isso era muito machista e que tudo tinha limites, e a Vaca foi renomeada pra a Boi. 

minha avó conhece a Boi desde pequena. elas duas moram nas mesmas casas desde crianças. são vizinhas a pelo menos 60 anos. antes de casar com meu avô, minha avó teve 2 namorados. eram épocas mais simples. a Boi roubou os dois namorados, segundo minha avó. anos depois a Boi casou com o segundo namorado roubado num casamento feito NA RUA DE CASA, NA FRENTE DA CASA DA MINHA AVÓ. 

quando eu era criança, minha avó pagava moleques do bairro pra passar dias inteiros tocando a campainha da Boi. varias vezes por hora. minha avó usava uns aparelhos de inalação pra respirar melhor. toda vez que a Boi escutava o som característico do aparelho funcionando, ela ia na frente da casa da minha avó e desligava o disjuntor de energia pra cortar a energia da casa e o inalador parar de funcionar. e o ódio que a minha avó e a Boi compartilham uma pela outra é de longe o sentimento mais forte, intenso e dedicado que eu já vi na vida. 

minha avó tem certeza plena e total que a Boi MATOU pelo menos CINCO cachorros de estimação da minha avó ao longo do anos, e que ela também é responsável pelo desaparecimento de outros dois. um cachorro da minha avó sumiu uma vez. meses depois um conhecido dela foi em um sítio que a família da Boi tinha e viu o cachorro lá. desde que eu me lembro as galinhas que a Boi sempre cria volta e meia aparecem mortas em circunstâncias inexplicáveis e misteriosas. ela não admite mas eu SEI que minha avó tem participação nessa selvageria. dava polícia tantas vezes na rua da casa da minha avó devido a brigas dela com a Boi que eu conhecia vários policiais pelo nome. hoje quase não dá polícia mais porque elas ligam e a polícia, já sabendo da situação, simplesmente não aparece mais. desistiram. uma vez quando a Boi viajou, minha avó PULOU O MURO e envenenou todas as plantas do quintal da Boi com soda cáustica e querosene. todas as plantas. até a última roseira, até a última samambaia. até. o. último. pé. de. boldo.

em uma reviravolta shakespereana e otimista, meus tios e minha mãe eram e são até hoje muito amigos dos filhos da Boi. sempre foram vizinhos mais ou menos das mesmas idades. iam na mesma escola. claro que viraram amigos a despeito da insanidade das mães. pra degosto eterno da minha avó, um tio meu até namorou e depois casou com uma das filhas da Boi. Nem a Boi nem minha avó foram ao casamento. anos atrás, minha avó e a Boi já mulheres idosas, a Boi caiu sozinha em casa, se machucou e ficou gritando pra alguém chamar uma ambulância. minha avó ouviu e não só não chamou a ambulância como GRAVOU O GRITOS DE DOR DA BOI PRA OUVIR DEPOIS. ELA TEM ESSA GRAVAÇÃO ATÉ HOJE. minha avó é a SAVAGE original, ela é completamente implacável e ela não tem misericórdia nenhuma por seus inimigos. 



PARTE 2

o que vocês precisam entender sobre minha avó e a Boi é que:

1 - elas têm muito tempo livre nas mãos
2 - elas têm uma capacidade de FOCO incrível
3 - elas sempre vão até as últimas consequências

minha avó já fez inferno contra a Boi pra mulher do dono do comércio da rua e a mulher convenceu o marido a NÃO VENDER MAIS NADA PRA BOI. então há anos a Boi simplesmente precisa dar uma volta enorme pra ir em outro mercadinho lá na outra rua pra comprar coisas. a minha avó é uma velhinha já meio surda então ela escuta música MUITO ALTO quando tá fazendo as coisas em casa de dia. então a Boi juntou dinheiro da aposentadoria e fez o marido instalar um sistema de som daqueles enormes no carro pra tocar música MAIS ALTO. 

minha avó já caiu dentro da vala que tinha na rua pra se salvar da Boi jogando o carro nela, tem noção? a vala virou A VALA DA VOVÓ pra nós. quando a prefeitura cobriu e pavimentou a vala a gente foi lá se despedir da vala. vovó ficou pistola. minha família só tem gente louca. 

o conflito da minha avó com a Boi não consiste só de agressão física e moral. terrorismo psicológico também é frequente. por exemplo. a Boi acredita em macumba. minha avó não acredita em nada além de tormento e destruição. e no Sílvio Santos. ela acredita no Sílvio Santos. então claro que a minha avó tá sempre fazendo despacho de macumba fake e colocando no quintal e na frente da casa da Boi pra enlouquecer ela. ela já me fez procurar foto de trabalho e despacho no google images e imprimir pra ela poder reproduzir. minhas mãos tão sujas também. a Boi encontra bacia com farofa e galinha no portão de casa, saquinho de pano com ervas pendurados nas árvores do quintal, etc. 

uma vez a Boi achou um saco de veludo EMBAIXO DA CAMA DELA com ervas e um papel com o nome dela riscado que ela é convicta que foi escrito com sangue. (eu não sei se acredito que não foi realmente escrito com sangue. eu honestamente não sei mais no que acreditar a esse ponto). essa foi a primeira vez de muitas que a Boi chamou benzedor pra benzer a casa. ele cobrou 300 reais. não foram feitas perguntas a esse respeito. recentemente a esposa do meu tio, filha da Boi, fez ele confessar que a vovó fez ele entrar na casa e colocar o artefato de macumba lá. 

antes do estatuto do desarmamento passar tanto minha avó quanto a Boi tinha armas em casa, que os maridos usavam pra caçar no interor. todos nós vivíamos constantemente apavorados que alguma coisa ia ser a gota d'água e elas duas iam estourar um tiroteio. meu avô deixava a espingarda trancada no COFRE por causa disso e ninguém sabia a combinação além dele. eventualmente ele acabou se desfazendo da espingarda porque minha avó ficada inventando desculpa pra pedir a combinação do cofre da casa. porque a chance dela querer chegar na arma eram estarrecedoramente altas, e balear inimizades é total algo que ela faria. minha avó 'did not come to play'. eu amo demais essa mulher honestamente, ela me inspira diariamente. acho que a lição que eu tiro disso é que criatividade se apresenta das formas mais inesperadas e que determinação nem sempre dá bons frutos. 

pelo menos uma vez por semana eu ou a mamãe ligamos pra ela pra saber dos desenvolvimentos e inacreditavelmente sempre tem novos episódios. seria de se imaginar que depois de mais de 50 anos de conflito tudo que poderia acontecer já aconteceu né. mas as surpresas não param. é meio que essa piada entre a gente da família ligar pra ela e a primeira coisa que ela falar seja VOCÊS NÃO SABE A ÚLTIMA DA BOI. e é uma desculpa pra gente sempre estar em contato com a véia, ela adora o interesse e a atenção e a gente adora ela. 

acho que outra lição tirada disso é que fazer um inimigo de uma pessoa criativa e com muito tempo livre é uma ideia muito equivocada.



PARTE 3

minha avó chegou do interior de manhã, eu fui lá arrumar a tv dela e encontrei ela sentada numa cadeira no portão. o correio ia passar pra entregar encomenda. ela passou a tarde toda sentada no portão esperando com medo da Boi receber a encomenda e roubar. 

- vó, mulher. entra, por favor. não é assim que funciona. o correio não entrega coisa assim pra qualquer um.

- eu não tinha nada pra fazer mesmo. e tu lembra das contas de luz? a Boi sempre encontra um jeito.

(me ocorreu na hora que se fosse feito filme da história da minha avó com a Boi o nome ia ter que ser Eu Não Tinha Nada Pra Fazer Mesmo e o nome da inevitável sequência teria que ser Eu Não Tinha Nada Pra Fazer Mesmo 2: A Boi Sempre Encontra Um Jeito)

ela fez eu ficar lá no portão esperando enquanto ela entrava pra fazer café pra mim. eu fiquei. não me julguem por ter compactuado. o café da minha avó é muito bom, o suficiente pra não me deixar em posição de negociar no momento. então eu fiquei lá rindo sozinho lembrando do incidente com as contas de luz da minha avó que nunca chegavam. as contas de luz da minha avó nunca chegavam na casa e mais de uma vez contaram a luz porque ela não lembrou de pagar. eventualmente descobriu-se que a Boi sabia o dia que conta chegava e roubava da caixa de correio pra vó não ver e esquecer de pagar.

antes do cabaré realmente pegar fogo entre a vó e a Boi e um muro precisar ser erguido pelo bem de todos, as duas casas ficavam num só terreno enorme com duas caixas de correio, uma do lado da outra. assim como muitas coisas nessa história que fogem à minha compreensão, isso nunca foi mudado. é assim até hoje. talvez tenha a ver com elas serem as duas mulheres mais sovinas do Brasil e não quererem pagar pra mudar a caixa de lugar. ou talvez pra isso elas tivessem que admitir a maluquice que é isso tudo, coisas que elas não fazem. as duas acham que estão certas. a psique da minha avó e da Boi já foi muito analisada por nós nos dias de churrasco, foi concluído que as duas coisas são igualmente plausíveis. 

mas eu divago. enquanto eu tava lá no portão o correio passou. eu recebi a encomenda e entrei. assim que eu entrei minha avó viu o pacote e disse TÁ VENDO ELES ENTREGAM PRA QUALQUER PESSOA QUE TIVER NO PORTÃO SIM. eu odeio quando o viés-confirmatório e as loucuras da minha avó são aparentemente comprovadas e validadas empiricamente. mas eu não tive forças pra explicar que eu assinei o recebimento, mostrei minha identidade, etc. por hoje, o delírio dela foi bem alimentado. 

agora em casa eu estou pensando nas coisas que poderiam ter sido realizadas se essas mulheres não vivessem em estado de paródia constante. e constantemente tentando prever o próximo movimento uma da outra. pesando também que é IMPERATIVO encontrar alguém com a mesma dedicação por você quanto a vó e a Boi se dedicam a arruinar a vida uma da outra.  

PARTE 4 [tuites de 5 de julho]

a guerra secundária da minha avó com a boi pra ganhar a preferência do filho do meu tio com a filha da Boi está escalando muito rápido. elas ficam tratando o garoto como quem trata um Deus caprichoso, exigente, observador, rígido e muito facilmente irritável. 

em maio minha avó comprou um notebook pra ele porque ela achava a tela do celular muito pequena pra ele ver vídeo de Gameplay de Minecraft. mês passado a Boi tentou comprar um desses.



minha avó quer pagar a festa de aniversário dele que tá chegando (contando que seja na casa dela). meu tio e a mãe do menino sendo criados no seio da loucura reconhecem na hora quando é amor genuíno e quando não é e devolvem as coisas. mas as vezes algum suborno emocional passa pela vigilância. é assim que meu primo de 12 anos tem um iphone. meu tio, além de não ter probleminha e portanto não estar disposto de gastar 80 milhões de reais num iPhone ainda detesta Apple. e aí é obrigado a ter um ataque constante desse dentro de casa.

lição: a Guerra tem consequências pra todo mundo. os inocentes são atingidos e frequentemente sofrem destinos piores que a morte. eu aprendi muito mais sobre a moralidade da Guerra crescendo com a minha vó do que 'Catch-22' e Cormac McCarthy nenhum poderiam ter me ensinado.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

o brasil pega mal

o ano pós-golpe não anda fácil para o brasil, mas para frilas jornalísticos está um pouco pior. sorte que de vez em quando surge alguma coisa bacana, como, por exemplo, essa matéria que fiz para a edição de maio da revista trip [anitta na capa] sobre iniciativas para aumentar a acessibilidade da internet no país. a pauta veio do editor renan fagundes e a reportagem foi ilustrada por beto shibata. delícia falar com várias fontes e costurar os muitos lados de um tema complexo e atual. ah, tem a matéria também no site da trip. detalhe: acabei colocando como título do post o que ficou na revista e deixei aqui meu título original.


LIGANDO OS PONTOS

Metade das casas brasileiras já possui acesso a internet, mas e a outra metade? Saiba mais sobre algumas iniciativas – independentes, privadas e públicas – que pretendem conectar áreas remotas do Brasil

No caminho para a maior cachoeira do Estado do Rio de Janeiro, a 32 quilômetros de Resende, existe um povoado chamado Fumaça. Por lá vivem cerca de 800 pessoas e os mais velhos ainda o tratam como Aldeia por ter sido a última morada dos índios Puris. É difícil a comunicação com o mundo a partir do distrito: os três orelhões estão quebrados e sem previsão de conserto, e um antena instalada anos atrás só pega (mal) na Praça da Matriz. Daí que, em 2015, o coletivo Nuvem - Estação Rural de Arte e Tecnologia recebeu uma bolsa internacional para a criação de uma rede wifi e de uma rede autônoma de celular na vila. A vida dos moradores de Fumaça nunca mais foi a mesma.

“Meu filho está em Portugal e hoje consegui falar com ele devido a internet. Tive notícias, sei o que ele está fazendo, como está, e ele também teve notícias da gente. Isso foi maravilhoso”, declarou Elizabeth Nunes, 63 anos, após a instalação dessa rede livre, gratuita, participativa, que não passa por empresas e é gerida pela própria comunidade. Para a pequenina Fumaça a internet deixou de ser um privilégio, só que para 70 milhões de brasileiros que ainda estão desconectados, segundo dados recentes da ONG Internet.org, essa realidade ainda é distante.  Dentre esses 70 milhões quem é mais atingido por esse isolamento estão, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2014, nas zonas rurais, no Norte e Nordeste, tem mais de 50 anos, são negros, e possuem menores faixa salarial e nível de instrução. 

E o que está sendo feito para mudar essa que é uma das muitas desigualdades brasileiras? Internet é um privilégio ou um direito? “A internet é um direito humano essencial porque é um direito à comunicação. Isso está na Constituição e, mais recentemente, no Marco Civil da Internet”, afirmou Fábio Malini, professor da Universidade Federal do Espírito Santo e Coordenador do Laboratório de Estudos sobre Internet e Cultura.

Sancionado em 23 abril de 2014, o Marco Civil é tido como referência mundial para legislações que tratam da internet.  O texto da lei garante neutralidade da rede, privacidade dos usuários, liberdade de expressão, retenção de dados, e obrigações de responsabilidade civil aos usuários e provedores, entre outros temas. Prioriza e assegura, enfim, o caráter aberto da internet.

Tudo muito bem, tudo muito bom, mas como garantir um maior acesso a internet em um país tão grande quanto o Brasil? “Pois é, um dos grandes problemas do país é que o acesso a internet está muito ligado ao mercado consumidor e sua territorialidade. O acesso a banda larga, por exemplo, está concentrado no litoral brasileiro e nas regiões mais ricas do interior. Então, deixar a regulação ser feita pela iniciativa privada acaba gerando um grande número de pessoas sem acesso porque não é economicamente atrativo para as teles”, diz Malini.

Os ativistas da Nuvem, por exemplo, foram na contramão dessa lógica do mercado com a criação de redes como a de Fumaça. Esse projeto serviu também como um dos embriões da Coolab, iniciativa formada por pessoas que trabalham com tecnologia e redes livres e que está “começando agora este processo de apoiar comunidades a se conectarem com recursos e suporte, inspirados pelos princípios cooperativistas e com base na economia colaborativa”, como explicam coletivamente. “Além da metodologia aberta e colaborativa que capacita a própria comunidade a construir sua rede e fazer a manutenção, o modelo de trabalho da Coolab é também aberto e replicável.”

A Coolab cita que, além da Fumaça, os integrantes do coletivo também criaram redes comunitárias no Quilombo Kalungas (Goiás), uma rede de transmissão de dados digitais por ondas curtas na Amazônia, provedores comunitários em Campos (Rio de Janeiro) e implementaram uma rede autônoma na Casa dos Meninos (São Paulo). Mas essas ações, por mais replicáveis e abertas que sejam, são trabalho de formiguinha perto da (ainda) grande lacuna do país em termos de acessibilidade.  


E a iniciativa privada? Um exemplo no Nordeste diz muito sobre como uma aguçada percepção de potencialidades regionais pode transformar acesso em lucro. Fundada em 1998, a Brisanet é a realização do sonho de um empreendedor local, José Roberto Nogueira, que saiu de sua terra natal (Pereiro, interior do Ceará) para trabalhar instalando painéis de aviões na Embraer. Curioso e inquieto, Nogueira sempre quis voltar para resolver problemas de sua região e gerar negócios, e com o dinheiro de uma loja de informática que montou em São José dos Campos começou a construir antenas de rádio. Salto no tempo para 2010, quando Nogueira, já de volta ao berço, viu sua Brisanet se tornar a maior operadora de internet a rádio do Brasil, com 30 mil clientes em 150 cidades nos estados do Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba.

Nos últimos anos, a transmissão por rádio vem sendo substituída pela fibra ótica, mais segura e rápida, e a Brisanet agora tem planos de, até o fim do ano, chegar a Pernambuco, atingindo assim um total de 230 cidades no semi-árido nordestino. Nogueira, que fez curso de eletrônica por correspondência no início dos anos 1980, sabia desde sempre que sua terra possuía muita gente curiosa e inquieta como ele, mas que sem acesso a conhecimento e a ferramentas não via seu talento florescer. Oferecer todas essas oportunidades, via internet, é estimular negócios, criatividade, produção, sonhos. E isso dá retorno (atualmente, a Brisanet emprega cerca de 1300 pessoas).

Empresas pequenas e médias como a Brisanet são responsáveis por quase 50% dos atendimentos de banda larga no Brasil, de acordo com o Clube de Engenharia. Mas segundo elas próprias, o Governo Federal poderia estimular mais esses negócios e, consequentemente, melhorar a acessibilidade em regiões fora dos eixos. “(Poderia) facilitar e baratear o uso das infraestruturas já existentes, como os postes de utilização da faixa de domínio das rodovias federais e estaduais; criar linhas de financiamento especificas ou incentivos fiscais para pequenas e médias operadoras em regiões mais remotas, pois são elas que estão fazendo esse processo de inclusão digital”, afirma Jordão Estevam, diretor comercial e sócio da Brisanet.

Enquanto isso, no Senado Federal, tramita um projeto de lei (PLS 431/2014), que “permite que Governo Federal assuma a instalação e a operação da banda larga nas regiões mais remotas ou menos desenvolvidas, onde o serviço não é rentável para as empresas privadas”. O dinheiro para custear tamanha empreitada viria do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust), mas não existe nenhuma previsão de quando isso se tornará realidade.

Outra ação federal é o Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicação Estratégicas (SGDC) que deveria ter sido lançado em março para ajudar a expandir o acesso à internet banda larga no país, “especialmente em regiões mais carentes em infraestrutura”. Dividido em duas bandas, uma exclusiva das Forças Armadas e outra para comunicação, o satélite tem sofrido críticas tanto de ativistas digitais quanto de pequenos e médios empresários, pois suas regras de utilização mudaram recentemente quando a banda de comunicação foi dividida em quatro lotes, sendo que três (79%) seriam controlados por grandes da iniciativa privada. Em poucas palavras, sobraria pouco para o serviço público e os pequenos e médios fornecedores não teriam espaço para competir. 

Mas afinal, internet é um privilégio ou um direito? Na teoria, um direito. Na prática, um privilégio para cerca de 70 milhões de brasileiros. No entanto, o caráter aberto da internet , esse “mecanismo de desentermediação do mundo” (nas palavras do professor Fábio Malini), talvez seja justamente o melhor jeito de compartilhar conhecimento, derrubando assim privilégios e garantindo direitos. Os moradores de Fumaça já perceberam isso.

domingo, 21 de maio de 2017

a virada vazia do "gestor"

ainda antes de tomar posse no início de janeiro, o “gestor” deixou claro que desejava esvaziar e vender são paulo, mais ou menos nessa ordem. e então veio a ideia cretina, uma de suas muitas, de tirar a virada cultural do centro da cidade para “descentralizá-la” em interlagos (!!!). houve uma grande gritaria de movimentos sociais, artistas e setores culturais, e o secretário andré estrume falou que não era bem assim, só os shows grandes e tal, mas que haveriam sim menos atrações no centro – destruindo assim o conceito original do evento criado em 2005 na administração do igualmente tucano, josé serra. enfim, a virada estava morta. só faltava o velório. 

sim, doria mente [e muito]

não dá nem pra dizer “bem feito” em um caso assim porque acompanhar o assassinato de um evento tão bacana, tão são paulo – mesmo com seus erros e problemas, maiores ou menores dependendo da gestão –, é de machucar o coração. triste ver daniela mercury cantando pra meras 2 mil pessoas no anhembi [ela que no aniversário da cidade em 2016, o último ano da gestão haddad, levou uma gigantesca multidão da faria lima até a praça roosevelt]; triste ver os cancelamentos de shows de fafá de belém [anhembi, falta de público] e mano brown [grajaú, problemas na estrutura do palco]; triste ver o parque do carmo vazio; triste não terem montando o palco da festa talco bells no centro; triste ver a viradinha sem público espremida entre cercas em interlagos e disputando atenção com o ronco de motores de uma corrida de stock car; triste ver um palco repleto de veteranos da música brasileira como paulo diniz, luis vagner, carlos dafé e tony tornado sem rampa de acessibilidade; triste ver palcos muito distantes um do outro no outrora agitadíssimo centro da virada; triste triste triste.

o público de daniela mercury no anhembi

não foi à toa que o “gestor” não postou nada sobre o evento em suas caudalosas redes sociais – a são paulo que ele administra, principalmente no facebook, está bem distante da são paulo real – e não foi à toa mesmo que ele e alckmin resolveram aproveitar o domingo da virada para invadir a cracolândia com mais de 500 policiais [mais gente que em muitos palcos] e acabar com o programa braços abertos [criado na gestão haddad para ressocialização de dependentes]. em outros anos, a praça júlio prestes vivia um domingo de virada com festa e inclusão. com doria e alckmin veio a violência, o vazio e a limpeza para os amigos da especulação imobiliária.

doria está fazendo com a virada, entre outras coisas na cidade, o que é um costume histórico de seus pares do psdb: esculhamba um serviço público, diz que não dá pra manter e o privatiza. só que o espertão que “consegue” doações de amigos empresários “sem contrapartida” parece não saber que o empresariado brasileiro é um dos mais encostados, corruptos e desinteressados do mundo. jamais bancariam por si só um evento como a virada. só colocam um dinheirinho porque o resto é bancado pela administração pública. então nem vai rolar de privatizar a virada. esvaziá-la é matá-la, caro “gestor”. 20 e 21 de maio 2017 ficarão marcados como os dias dos últimos suspiros de um dos eventos culturais mais interessantes da cidade e do brasil.

a viradinha em interlagos

fui em quase todas as edições da virada, trabalhando ou como espectador, e presenciei alguns momentos inesquecíveis dessa união de cultura, cidade e gente. conheci também várias pessoas que trabalham duramente na secretaria de cultura para fazer esse e outros eventos públicos acontecerem. triste pensar em tudo isso, nessas pessoas vivendo essa destruição de dentro e tendo que aguentar as arrogâncias e os desinteresses da dupla andré estrume e joão dollar. triste triste triste.

morreu são paulo de braços abertos [todas as fotos vieram do uol/folha]

p.s.: bem feito mesmo foi pro bradesco que pagou 2 milhões de golpes pra aparecer num evento todo destruído.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

lincoln, o release

dando sequência à recente buena onda de frilas-release - já rolaram aqui héloa e zé ed -, agora é a vez de lincoln. baiano, brasiliense e paulistano de muitos talentos, lincoln acabou de lançar seu disco de estreia solo. não sabia nada sobre ele, seu som, nada nada, e foi uma bela surpresa encontrar um trabalho tão coeso, bem escrito e bem produzido [e acompanhado de músicos experientes como guilherme held e fábio sá]. com vocês, o release, o clipe de "fica a dica" e a íntegra do disco malvado canto.



Entre idas e vidas, Lincoln foi e é um tanto de várias coisas. Artista plástico, compositor, web-designer, músico, designer de produtos e cantor, além de baiano de nascimento, brasiliense, paulistano e até com uma passagem pelos Estados Unidos para estudos. Mas ele sempre quis, acima de tudo, mostrar sua música, mesmo quando se escondia [ou se procurava] em experimentações pessoais. Agora, aos 35 anos, o artista sai das sombras com seu primeiro disco solo, o belo Malvado Canto.

Só que antes de falar do disco se faz necessário um rápido flashback. Dois anos atrás, após uma combinação explosiva de crise de identidade e desilusão amorosa, Lincoln sentiu necessidade de um aconselhamento espiritual. Foi então que ouviu que precisava mostrar o que estava escondido, precisava cantar. 

A partir daí, como num passe mágico, caminhos se abriram, encontros se multiplicaram, todas as letras do futuro disco nasceram em apenas uma hora e as músicas foram compostas em duas semanas em parceria com Nei Zigma, que acabou assinando Malvado Canto como produtor musical. E o disco se fez, foi feito: conciso em suas 10 faixas, rebuscado em sua afetividade e pop na vontade de se comunicar. Então, solte o som & o canto, Lincoln.



“Fica a dica”, a música que abre o disco, é um rock confessional com metais abolerados e versos cortantes como “Se ele soubesse mirar no espelho / Veria mais fácil o outro sem medo”. Já “Um a um” é balada mansa de coração à mostra, daquela que traz lembranças de amores encontrados e perdidos. Mas esse tom conciliatório muda em “Escorpiônico”, uma canção de sentimentos à flor da pele no qual Lincoln grita, entre dentes, que um ex-amor “se satisfez matando um tanto de outra pessoa”. Tem raiva, frustração e desencantamento nessa música que, não coincidentemente, traz os versos que dão o nome ao disco Malvado Canto.

Só que Lincoln sabe que [o fim de] uma história de amor tem mais de uma versão, muito mais que uma leitura, e em “Silêncio e melancolia” ele dá um passo atrás e assume suas próprias responsabilidades. E é com alegria, musical inclusive, que faz isso. É tempo de reconciliação, ou pelo menos de tentativa, e surge então “O fardo do amor”, um belo pós-fado de alguém que só quer carinho. Daí que certas coisas quebradas não tem conserto, não tem cola que dê jeito, e Lincoln entende que “Já é tarde”, uma canção dolorosamente pé no chão.

Enquanto o disco se aproxima do fim, o artista, compositor e cantor olha para frente, buscando entender seus próprios desejos, medos e dúvidas. Entre efeitos e pedais, a guitarra de Guilherme Held ajuda muito a transformar em realidade as tantas emoções diferentes que saem do malvado canto de Lincoln [mas Lincoln, Zigma e Held não estão sozinhos nessa empreitada e é sempre importante citar músicos que colaboram decisivamente nos arranjos finais, tais como Fabio Sá e José Aurélio, além das participações de Marcelo Sanches, Gustavo Da Lua e Natan Oliveira].



“Frieza”, “Padrão”, “Trato de dono” e “Deita em mim”, as últimas faixas do disco, completam o arco narrativo proposto, mesmo que não todo conscientemente, por Malvado Canto. E assim Lincoln oferece sua primeira e bela contribuição solo para uma das mais fortes tradições da música popular brasileira, a saga dos afetos. Não é pouco e é só o começo.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

de barafondas e sambas, a barra funda

não sei porque diabos deixei de colocar aqui um frila legal que fiz em 2014 - convite do michel blanco, amigo desde os tempos da coluna do yahoo. o lance era escrever um texto grande sobre a história da barra funda, bairro tradicional da região central de são paulo. lá fui andar a pé pelo bairro e pesquisar. de algumas coisas já sabia, poucas, e as que conhecia era de modo superficial [sabia que é considerado o berço do samba paulistano, mas não de que modo aconteceu ali]. trabalho massa que resultou numa das partes do livro barra funda em três tempos [paralaxe editora, 2014], organizado por marcelo aflalo, editado pelo michel e com fotos de lalo de almeida [desculpa lalo, vou colocar umas fotos minhas, umas que tirei nessas andanças pelo bairro e em outros momentos].


BARRA FUNDA, OUTROS TEMPOS

Até hoje não se sabe ao certo de onde veio o nome Barra Funda. Uns dizem que dos italianos, seus primeiros habitantes, que carinhosamente falavam que o lugar era uma ‘barafonda’, uma confusão, e muito provavelmente por sua própria presença. Outros dizem que veiodas curvas do Rio Tietê e dos portos de areia da região, pois uma barra funda facilitava a aproximação de barcos maiores. De uma forma ou de outra, Barra Funda nasceu e Barra Funda ficou.

Na segunda metade do século 19, a região era apenas um pedacinho das posses do Barão de Iguape (1778-1875) e lá se encontrava, por exemplo, a bucólica Chácara do Carvalho. Mas as construções das estações de trem da Estrada de Ferro Sorocabana (1875) e da São Paulo Railway (1892) mudaram toda a dinâmica da região. A Barra Funda virou então um movimentado entreposto, um importante meio do caminho entre o Porto de Santos e o interior do Estado, e era preciso muita mão de obra para movimentar essas novas engrenagens. Vieram então os italianos e, após a Abolição, os negros.

Em um tempo no qual as periferias eram próximas ao Centro, a Barra Funda rapidamente se transformou em um amontoado de vilas e cortiços que forneciam importante força de trabalho tanto para as ferrovias e indústrias quanto para as casas ricas no vizinho bairro dos Campos Elíseos. Não foi à toa que o primeiro bonde elétrico de São Paulo foi inaugurado em 7 de maio de 1900 ligando a Barra Funda, onde morava o então primeiro prefeito da cidade e neto do Barão de Iguape (Antônio da Silva Prado, 1840-1929), ao Largo São Bento.


Chaminé de fumaças passadas, 
escutam de perto 
os sons do Espaço das Américas

Com toda essa malha de transportes e distribuição, o desenvolvimento industrial do bairro ocorreu a passos largos a partir de 1900. Indústrias têxteis, químicas e metalúrgicas de pequeno, médio e grande porte, além de olarias e curtumes, começaram a se instalar na Várzea da Barra Funda, a parte do bairro entre as linhas de trem e o Rio Tietê. São dessa época no bairro a Cristaleria Paulista, a Fábrica de Vapor de Tecido e Fiação de Corda e de Barbante, a fábrica de papel Divani, a L. Queiróz (do lança-perfumes Pierrot) e a Bebidas Palhinha. Já na parte de cima da Barra Funda, entre o trem e os Campos Elíseos, concentrou-se a área residencial operária, além de pequenas oficinas (mecânicas, marcenarias, etc).

Boa parte das residências desse início da Barra Funda, bem como de outros bairros da cidade com predominância italiana, tinham como característica a “ponta de chuva”. Era um desenho básico para os pedreiros, dando ênfase à fachada, feito pelos capomastri (mestres de obras) com a ponta de seus guarda-chuvas na terra da construção. O restante das casas era ainda mais simples: entrada lateral, quarto enfileirados como um vagão de trem, porão e muita área de fundo, onde ficavam a cozinha e o banheiro.


A linha de trem atrás do muro, 
o pé do Viaduto Pacaembu, 
nenhum sinal do Largo do Banana

Barra Funda é que mora o samba

Um dos pontos mais importantes do bairro na primeira metade do século 20 foi o Largo da Banana, onde atualmente é o Viaduto Pacaembu e parte do Memorial da América Latina. O largo desapareceu sem deixar vestígio físico, mas o que aconteceu ali se ouve até hoje, pois é unanimidade entre historiadores que o Largo da Banana foi o berço do samba paulista. Em um triângulo de poucos metros quadrados, no qual milhares de cachos de banana e outras frutas eram vendidas e compradas diariamente, a comunidade negra do bairro se encontrava para batuques e improvisos em seus momentos de lazer, já que regularmente eram impedidos de participarem dos ranchos carnavalescos no Centro da cidade.

Foi então na Barra Funda que aconteceu a mistura urbana do samba rural vindo do interior do Estado de São Paulo (Pirapora do Bom Jesus) com o samba carioca que chegava via Porto de Santos. Tudo trazido e levado por trens e confluindo numa cidade que crescia rapidamente com a força econômica do café e da indústria.


Geraldo Filme (1928-1995) cantou essa história em diversas composições, como em “Samba da Barra Funda” - “Alô alô, gente bamba. Na Barra Funda é que mora o samba” -, lembrando de quando, ainda menino, acompanhava as rodas de samba e tiririca (capoeira) que os engraxates e carregadores improvisavam no Largo da Banana. Em “O Último Sambista”, Geraldo voltou a cantar o bairro, dessa vez com certo travo amargo de nostalgia: “Levo saudade lá do Largo da Banana / Onde nóis fazia samba / Todas noites da semana / Deixo esse samba / Que eu fiz com muito carinho / Levo no peito a saudade nas mãos o meu cavaquinho / Adeus Barra Funda”.

Esses agrupamentos festivos que aconteciam no Largo deram origem, em 1914, ao Grupo Carnavalesco Barra Funda. Seus integrantes saíam pelas ruas do bairro vestidos de camisas verdes e calças brancas e, como é de costume em manifestações realmente populares na rua, eram perseguidos pela polícia. Quando ocorriam essas repressões as festas eram transferidas para os quintais ou porões de teto baixo que, a princípio, foram feitos para guardar mantimentos, mas com o adensamento da população ganharam função domiciliar.

Na década de 1930, durante o ditatorial Estado Novo de Getúlio Vargas, os foliões foram sistematicamente “confundidos” com simpatizantes da Ação Integralista Brasileira, partido político do líder fascista Plínio Salgado, que usavam verde. A repressão foi tão dura que o grupo deixou de desfilar em 1936 e só voltou, com nome novo (Escola de Samba Camisa Verde e Branco), na década de 1950.

Em meados da década de 1950, com a cidade em franca expansão, surgiu a necessidade de ligar o bairro com a Zona Norte. Como existiam poucas passagens sobre a linha de trem foi construído o Viaduto Pacaembu, que acabou passando por cima (literalmente) do Largo da Banana. Desde então não existem mais vestígios do ainda pouco conhecido berço do samba paulista. Geraldo Filme também cantou esse triste e silencioso fim do Largo em “Vou Sambar Noutro Lugar”: “Fiquei sem o terreiro da escola / Já não posso mais sambar / Sambista sem o Largo da Banana / A Barra Funda vai parar / Surgiu um viaduto, é progresso / Eu não posso protestar / Adeus, berço do samba / Eu vou-me embora, vou sambar noutro lugar”.

Favela do Moinho

Felizmente algumas edificações históricas sobreviveram à sanha do progresso. Uma delas é o Theatro São Pedro, na esquina da Rua Barra Funda com a Rua Dr. Albuquerque Lins. Sua construção aconteceu por obra e graça do português Manuel Fernandes Lopes, homem de negócios que fez vida em São Paulo e decidiu retribuir com nada menos que um teatro (que hoje é o segundo mais velho da cidade ainda na ativa, perdendo apenas para o Theatro Municipal de 1911). O nome São Pedro veio do local de nascimento de seu benfeitor, Sarzedas de São Pedro, vilarejo próximo a Coimbra.

De estilo eclético, meio neoclássico e meio art nouveau, o teatro foi inaugurado em 20 de janeiro de 1917, e manteve durante muito tempo uma programação que ia desde sessões de cinema até operetas, passando por concertos, espetáculos de variedades e dança. A partir do final da década de 1960 passou por diversas fases de abandono e efervescência. No final da década de 1960, por exemplo, as atrizes Lélia Abramo e Beatriz Segall comandaram uma guinada para as artes cênicas e foram montadas peças de autores como Bertolt Brecht, Ariano Suassuna e Chico Buarque.

O tombamento pelo Patrimônio Histórico aconteceu em 1984, mas o Theatro São Pedro só voltou a abrir ao público definitivamente a partir de uma grande reforma em 1998 e desde então segue firme como uma das poucas edificações que lembra a fase áurea do bairro.

Outras edificações sobreviventes são o palacete da Chácara do Carvalho, situado na Alameda Barão de Limeira, e a Casa Mário de Andrade, na esquina da Rua Lopes Chaves com a Rua Margarida.

O palacete é um dos marcos iniciais do bairro, foi construído no final do século 19 e pertenceu a família do Barão de Iguape. A princípio era um lugar de criação de cavalos puro sangue, mas com a instalação das ferrovias o terreno valorizou e Antônio da Silva Prado, que foi o primeiro prefeito da cidade (1899-1911) e neto do Barão de Iguape, decidiu construir um palacete projetado pelo italiano Luigi Pucci.

Durante a década de 1920, o palacete foi palco de inúmeros convescotes da elite paulistana e chegou até a hospedar Alberto I, o então Rei da Bélgica, e sua corte em visita a cidade. Hoje a Chácara do Carvalho abriga o Instituto de Educação Boni Consilii.

Já a casa de Mário de Andrade não tem particularmente nada de especial (arquitetonicamente falando). É um sobrado geminado típico da classe média paulistana do início do século 20, mas desde que a família do escritor modernista se mudou para lá em 1918, apenas um ano depois de sua construção, a casa ganhou importância histórica.

Lá ficava sua gigantesca e diversa biblioteca, e móveis desenhados por ele. Era lá também que Mário de Andrade dava aulas de composição e, às quartas, recebia importantes intelectuais da época, incluindo amigos que participaram da Semana de Arte de Moderna de 1922.

Durante a década de 1930, quando foi diretor do Departamento Municipal de Cultura, idealizou neste sobrado uma série de atividades culturais acessíveis para a população, tais como bibliotecas circulantes, concertos e espetáculos a preços módicos. Em 1937, pouco antes de sair para um breve autoexílio no Rio de Janeiro, viajou até Pirapora do Bom Jesus. De volta à Rua Lopes Chaves escreveu “O Samba Rural Paulista”, texto seminal sobre as origens do gênero em terras bandeirantes.

Foi no sobrado, em 25 de fevereiro de 1945, que Mário de Andrade sofreu um ataque cardíaco fulminante. Em seu testamento dava dois fins possíveis para a casa: ou ficava com a família ou deveria ser transformada em centro cultural. A casa foi tombada em 1975 e abriga desde 1990 a Oficina da Palavra, uma instituição estadual dedicada a literatura.


Casa das Caldeiras, março de 2013

Outra edificação sobrevivente do glorioso passado industrial da Barra Funda fica no extremo oeste do bairro, quase Pompéia. A Casa das Caldeiras, que desde sua reforma no final da década de 1990 é um local para eventos e shows mantido pelo Estado, era parte das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, que foi a seu tempo o maior complexo industrial da América Latina.

Tombado pelo Patrimônio Histórico em 1986, a Casa das Caldeiras é um espaço impressionante de alvenaria, pé direito altíssimo e três chaminés monumentais que levam às caldeiras que dão nome ao espaço. Sua construção começou na década de 1920 e o espaço foi ampliado em outros dois momentos (1936 e 1953) em um vasto terreno de mais de 100 mil m2. No complexo fabril do Conde Francesco Matarazzo (1854-1937) eram produzidos sabonetes, álcool, óleo vegetal, vela, sacarias, etc. Tudo devidamente escoado por uma linha de trem própria ligada à Estrada de Ferro Sorocabana.

Mas nem só de passado remoto vive o patrimônio histórico e cultural da Barra Funda, pois em 1989 o bairro ganhou o Memorial da América Latina. Idealizado pelo antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997) e projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012), o Memorial foi construído em um grande terreno entre o Viaduto Pacaembu e o Terminal Intermodal da Barra Funda. Em um terreno de 84.482 m2, o complexo arquitetônico é formado pela Praça Cívica, o Parlamento Latino-Americano, a Galeria Marta Traba, a Sala de Atos, o Queijinho (Centro de Recepção de Turistas), o Pavilhão da Criatividade e o Auditório Simon Bolivar.

Até hoje, mais de duas décadas após sua inauguração, o Memorial da América Latina ainda sofre críticas. De um lado, pela completa aridez do espaço. Nada de árvores ou jardins, apenas o concreto, a ideia fixa de Niemeyer. Do outro, pela falta de diálogo com o entorno. Segundo os críticos é como se tivessem sido jogadas aleatoriamente umas construções naquele espaço e o entorno, e a cidade, que se vire para correr atrás.


Fugindo parada 
bem na ruazinha 
Chácara do Carvalho

Transformações barafondas

A partir do processo de desindustrialização que a cidade de São Paulo viveu a partir da década de 1960 – com a criação de parques industriais na região do ABC, por exemplo –, bairros como a Barra Funda sofreram sucessivas quedas demográficas. Grandes áreas, outrora fábricas e oficinas, permaneceram abandonadas durante muitos anos assombrando velhos moradores, assustando possíveis novos moradores. E o bairro foi se degradando, junto com outras partes próximas ao Centro de São Paulo, sem ninguém se dar conta de sua posição estratégica na cidade, de sua boa malha de transporte público e variedade de serviços. Nem mesmo as estações de metrô, construídas no final da década de 1970, e nem o Memorial da América Latina, do final da década de 1980, reverteram o processo. Afinal, o mais comum em São Paulo é o surgimento de iniciativas urbanas isoladas sem nenhuma preocupação com o entorno.

Segundo levantamento divulgado pelo IBGE, o distrito tinha em 2011 uma população de 14.481 pessoas moradoras, sendo que quase metade na faixa entre 30 e 59 anos. Em 1980, o número era 17.894. Por outro lado, esse mesmo censo de 2011 afirmou que a queda foi estancada e o número de habitantes permanece praticamente o mesmo desde o final dos anos 1990 (ao redor dos 14 mil), enquanto a população flutuante voltou a aumentar.

Uma das explicações para esse novo movimento na Barra Funda é que durante esse período recente, uma série de iniciativas (empresariais, de serviços, entretenimento, etc.) injetou novos dinamismos no bairro. É possível citar, entre outros, o Centro Empresarial Água Branca, os estúdios da TV Record, o 1º Tribunal do Júri da Cidade de São Paulo, o Espaço das Américas, além de bares, casas noturnas e faculdades.

Durante muitas décadas, a Barra Funda, como outros bairros de São Paulo, sofreu com a falta de planejamento urbanístico. Aos poucos, e por consequência dos limites que a cidade chegou, novas ideias precisam ser testadas, afinal o futuro da cidade depende de seu presente.