domingo, 15 de novembro de 2009

"tem que saber o que é que vai pra onde"

direto de berlim pra revista moviola, o cineasta karim ainouz (madame satã, o céu de suely e a minissérie alice, esta co-dirigida por sérgio machado) deu uma excelente entrevista para ariane mondo (e muito bem filmada e editada, aliás). mesmo com tantos anos de frança e estados unidos, o sotaque fortalezense é inconfundível e é assim que fala sobre formação, cinema, improvisação, busca, o recente viajo porque preciso, volto porque te amo (co-dirigido com marcelo gomes), ficção documental, o próximo longa (praia do futuro), novas mídias, etc.

Entrevista com Karim Aïnouz from ::: Ariane Mondo ::: on Vimeo.

p.s.: mais sobre ariane no blog memórias do muro.

domingueira

uma combinação 100% inglesa pra esse domingo ligeiramente abafado (mesmo pós uma baita chuva na madrugada aqui em são paulo). senão vejamos... música do grupo the stranglers lá dos idos de 1977, regravação do dub pistols datada de 30 anos depois, com participações do rapper rodney p. e do lendário terry hall (the specials). ah, a música se chama "peaches" e os pistoleiros do dub a registraram no disco speakers and tweeters (sunday best recordings, 2007), que inclusive, coisa rara, foi lançado no brasil pela st2 music.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

falam que eu sou bela patrícia...

de volta ao baú, dessa vez da monet. em abril deste ano saiu na revista uma entrevista que fiz com a atriz patrícia pillar por causa de sua estreia como diretora do documentário waldick soriano - sempre no meu coração. muito simpática, apesar de um gripe que a fazia tossir regularmente, pillar falou com carinho sobre waldick soriano (1933-2008) e a descoberta de um brasil que lhe diz muitas coisas.

waldick e patrícia durante as gravações do documentário

como foi a decisão de assumir a direção de um filme?
comecei fazendo teatro de grupo. e ali a gente fazia um pouco de cada coisa. fui criada tendo essa noção do espetáculo como um todo. e quando fui fazer cinema continuei com essa mesma maneira de trabalhar. não colocando meu trabalho de atriz como mais importante, e sim inserindo no todo. então sempre me interessei por todos os aspectos de uma produção, até dos mais técnicos, e tudo que puder ajudar a contar a história. essa minha vontade de dirigir veio de uma maneira natural, depois de tantos anos trabalhando e tendo uma visão minha sobre as coisas. agora, o assunto waldick soriano veio movido pela minha própria curiosidade.

e a curiosidade pelo waldick soriano?
o waldick é um personagem... tem a questão do homem do interior que fala de um brasil que tenho a maior ternura. falar desse homem do interior que uma vez foi ao cinema e viu um episódio do durango kid e se identificou por esse personagem americano, vestido de preto, meio justiceiro. ao mesmo tempo ele era cantor e compositor e escreveu canções que são muito comoventes. são músicas de uma poesia muito simples, brasileira, e que me falam muitas coisas. e a história dele... de uma homem que foi lavrador, garimpeiro, sanfoneiro, depois foi para são paulo e trabalhou como faxineiro, engraxate e pedreiro. ele teve que sair de sua terra em busca de um reconhecimento, um espaço, para fazer sua arte.

e como foi pra você lidar com um personagem machista? ele era assim?
é engraçado porque quando se presta mais atenção nas letras dele dá para perceber que na maioria ele não é nada machista. pelo contrário, o waldick era quase servil, era um escravo da paixão e da mulher, um poeta mesmo. acho que ele criou essa persona machista como uma saída. esses aspectos dúbios da personalidade dele também me interessaram muito.

mas houve alguma dificuldade nesse encontro de mundos tão diferentes como o seu e o dele?
quando conheci o waldick ele era mais defendido. ele sofreu muito, até por fragilidades como a bebida, e teve relações complicadas com algumas pessoas, o que o fez optar pela solidão. mas posso dizer que aos poucos viramos grandes amigos. ele era um cavalheiro, gentil e muito inteligente. sempre tinha alguma coisa interessante para falar. muito diferente do estereótipo que passava. tentei no filme buscar o homem velho e foi esse homem velho que conheci
[waldick morreu em setembro de 2008]. mas a despeito de falar da solidão e da velhice é um filme divertido. traz um pouco do humor do waldick que era um sujeito valente.

é interessante que sendo você uma atriz sua primeira experiência na direção foi com um documentário e não com ficção...
mas acho que é porque essa minha curiosidade é mais de uma pessoa que por acaso trabalha com cinema do que propriamente uma vontade de dirigir filmes. foi pessoal mesmo. e o meu material de trabalho, o que sei fazer, a minha experiência, passa pelo cinema. é a linguagem que conheço, que estou acostumada. talvez se tivesse outra formação essa minha curiosidade pudesse ter se transformado em um livro.

e a experiência de fazer um documentário?
foi minha primeira vez e busquei ter um compromisso com a verdade. a verdade dele, um tanto em respeito a ele, mas também aos espectadores e a mim mesmo. a verdade foi uma coisa que me norteou e, ao mesmo tempo, foi muito dura. porque, às vezes, não era bem aquilo que ele gostaria que fosse e em outras ocasiões eu mesma gostaria que fosse diferente do que estava registrando. é complicado falar da vida de uma pessoa e tentei tratar tudo com delicadeza, mas sem abrir mão do principal que é a verdade. tenho também vontade de dirigir uma ficção, mas não agora porque o filme também vai ser exibido nos cinemas, em circuito digital, e preciso descansar.

antes do documentário, pillar já tinha gravado um show de waldick em fortaleza e que resultou no cd/dvd waldick soriano ao vivo (som livre, 2007). foi gravado no lendário cine são luiz, escrevi uma resenha lá no gafieiras e peguei uma das faixas pra colocar aqui. a música é "carta de amor" que foi lançada em 1970 e foi um de seus maiores sucessos.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

um clipe, uma animação e o inevitável, obrigatório e incontornável serviço militar



soul grooveado e recém lançado de bonobo, projeto do inglês simon green, com participação vocal de andreya triana.

The Father from fla on Vimeo.

animação divertida, bela e triste do sul-coreano fla do stickymonsterlab.



impagável remix da propaganda do serviço militar obrigatório por arnaldo taveira. na minha época, fui considerado inapto (graças a uma combinação matadora de miopia e hepatite em priscas eras).

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

matrix vs. chaplin



video genial feito por um grupo de atores russos chamado "big difference" (ou bolshaya raznitsa ou Большая Разница). via @erikaoikawa e @boingboing.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

o autor, o autor

já faz um tempo que o esforçado está com um header pra chamar de seu. e eu tava devendo um anúncio decente por aqui sobre o autor (falei algumas vezes no twitter). o sujeito é daniel almeida, amigo-irmão desde os remotos tempos de ribeirão preto e irmão-de-sangue de fernando de almeida. ambos são desenhistas de mãos cheias, mas o daniel demorou um pouco pra assumir seu traço - fez rádio & tv na unesp de bauru e já bateu ponto na 89 fm e na eldorado -, e isso só começou (acho) quando ele passou a fazer ilustrações pro gafieiras no início dos anos 2000 (é um dos sócios-fundadores). agora o menino (34) tá quebrando tudo por aí: folha de s. paulo, homem vogue, voetrip, américa economia, próxima viagem, monet, docol magazine, serafina, vida simples, vogue rg, tam nas nuvens, superinteressante, etc. hoje estou subindo uma nova versão do header porque o rapaz deu uma idéia - que gostei muito, claro - de fazer dele uma série, um work in progress no qual objetos vão aparecendo no espaço de tempos em tempos. acompanhem aqui o processo e dêem um pulo no site do cara. tem muita coisa bonita pra ver. eu, da minha parte, só posso agradecer esse presente. valeu, dani! é nozes.

letra/música #4

um dos melhores títulos de disco da história da música brasileira: cadáver pega fogo durante o velório (independente, 1983). foi isso que pensei quando li, na extinta bizz de ricardo alexandre, um texto sobre esse disco raro e pouco lembrado de uma turma da ponte rio-niterói. disco de samba devedor, ao mesmo tempo, de nelson rodrigues, nelson cavaquinho e stanislaw ponte preta, cadáver trouxe uma série de canções assinadas por fernando pellon, que mais tarde se formaria em geologia e entraria para o corpo de funcionários da petrobras, e participações de cristina buarque, nadinho da ilha, paulinho lemos e synval silva. entre as nove faixas do disco, tenho um carinho especial pela romântica e neurótica "cicatrizes", cantada pela voz pequena de pellon.

cicatrizes
(fernando pellon)

em linhas gerais tens os traços iguais aos dela
coisas triviais, encantos banais,
tão iguais aos que ela traz
e pra meu desgosto
estampas no rosto
um sorriso similar
que me faz te odiar
e de ti precisar por causa dela.

amor de verdade, não tem jeito, tem que ser perfeito
a viver na mentira, prefiro a saudade
queimando no peito
mas as cicatrizes
que só a marcha do tempo revela
agora eis-me aqui com você
por causa dela.



p.s.: tem o disco pra download lá no um que tenha.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

onde todo mundo erra

"A tal autoproclamada qualidade pode parecer discutível aos olhos mais críticos – ou cínicos – do Sudeste ou Sul do Brasil. Mas quem vê Givanildo como uma boa piada trash erra feio. Falando de assassinatos ou bêbados presos fazendo arruaça em Caruaru, Givanildo dá um jeito de manter alguma estranha leveza, um humor sem crueldade na hora de reportar o mundo cão. Esse estranho carisma parece ser a alma do negócio do Sem Meias. Quem concorda é Edeilson Lins, o âncora do programa. “O Datena é equivocado. O apresentador fica gritando, tratando gente presa como animais e o repórter tem aquela pose de super-herói. Isso não pega bem, estamos no século 21”, elabora com uma anacrônica voz de locutor. “Aqui não. A gente sabe que essas coisas acontecem, e que todo mundo erra. E o povo, no fundo, sabe disso.” Principalmente em Caruaru."

trecho do excelente perfil que bruno torturra nogueira fez de givanildo silveira para a revista trip (siga o link para o restante). givanildo é o impagável repórter televisivo do programa sem meias palavras, lá de caruaru (pe). já falei do programa aqui. você conhece ele, conhece sim. e para sua (e minha) provável surpresa é esse mesmo sujeito que vive aos mergulhos no mundo cão que nos dá uma lição de jornalismo, humor e humanidade. fiquei sabendo desse texto via twitter do chico barney.


momento relax de givanildo em flagra de bruno torturra nogueira

domingo, 8 de novembro de 2009

domingueira

brighton port authority é o nome do mais recente projeto de norman cook, o bom e velho fatboy slim. no ano passado surgiram as primeiras (ótimas) músicas, "toe jam" (com david byrne e dizzee rascal) e "he's frank" (com iggy pop), e em janeiro deste ano surgiu o disco cheio, i think we're gonna need a bigger boat (southern fried, 2009), que ainda não ouvi. certeza que o resto é mais ou menos do mesmo, música eletrônica e pop pra cima. pra essa domingueira escolhi o clipe de "toe jam", que já fez merecido sucesso na internet. afinal, festinha com um monte de gente pelada se divertindo é batata!

sábado, 7 de novembro de 2009

duas fotos

zeca baleiro, sesc pompéia, 2004

maciel salu (em show de dj dolores & orquestra santa massa), free jazz, 2001

mais que uma kombi branca



depois de marli e seus dinossauros miniatura, depois de stefhany e seu crossfox, depois de xuxu e sua pantera cor-de-rosa, agora é a vez de vitória matos e sua kombi branca.
é o coração na ponta do virabrequim. via suceço.

transversão #26

olha, relembrei uma música de erasmo carlos (com roberto, claro - mas é uma daquelas parcerias 100% erasmo) vendo uma entrevista no globonews. tanto tempo que não ouvia. aí queria muito colocar aqui, registrar essa lembrança/memória, mas não achei nenhum video de "filho único". então fui procurar no memória musical pra saber de outras gravações. qual não foi minha surpresa quando... antes, a versão original, gravada no excelente banda dos contentes (polydor, 1976). a música entrou, um ano depois, na trilha da novela locomotivas (som livre, 1977). vai lá erasmo, nada de refrão, apenas sentimentos.



mas então... nessa busca descobri que a música ganhou uma regravação do grupo polegar em seu disco de estreia - polegar (continental, 1989). isso mesmo, polegar! aquela boy band que trouxe ao mundo o problemático rafael ilha e hits como "dá pra mim", etc. e tal. segura essa.



no blog música da mpb ao rock tem o disco banda dos contentes. a ótima trilha de locomotivas - que ainda traz azymuth, rita lee, cassiano, banda black rio, edu lobo e quinteto ternura, entre outros - está no blog da lu. no mais, o recém-lançado livro de memórias de erasmo, minha fama de mau (objetiva, 2009), está aqui na fila, esperando a vez. deve ser, no mínimo, divertido de ler. um tanto porque nos últimos anos, erasmo ganhou ares mitológicos pra mim. talentoso, afiado, puro, irônico, direto, doce, cheio de histórias, muitas coisas juntas. é um gigante, um dos maiores, e autor de muitos discos memoráveis, como esse último, rock'n'roll (coqueiro verde, 2009). falaê, tremendão.



e lá no pedro alexandre sanches tem um texto ótimo sobre o recente show aqui em são paulo da turnê do disco rock'n'roll.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

não suporto o silêncio



cena clássica de simples desejo (1992), de hal hartley. a música é "kool thing", uma das melhores de um dos melhores discos do sonic youth, goo (dgc, 1990), com direito a participação sinistra e vocal de chuck d (public enemy). e abaixo, o clipe oficial.



já tive fases em que ouvi muito sonic youth (primeira metade da década de 1990), mas hoje em dia ouço pouco. de qualquer forma, é uma das bandas que mais respeito nesse mundo de guitarras em fúria e sempre procuro ouvir os discos novos. kim gordon, thurston moore & cia. estarão aqui, em sp, amanhã. nada de silêncio.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

e deus fez crumb

acabou de sair no brasil, em raro (em termos de quadrinhos) lançamento mundial, o gênesis de robert crumb (conrad, 2009). versão fiel e respeitosa, e talvez por isso bastante crua, de um dos livros do antigo testamento bíblico, o novo trabalho de robert crumb é todo em preto e branco e mostra um artista cada vez mais seguro com seu traço, rebuscado e irônico. mais um belo lançamento em um dos melhores anos para os quadrinhos no brasil. e aqui segue uma rara e recente entrevista com o cara levada pela designer e artista gráfica françoise mouly (também mulher de art spiegelman). não consegui incorporar a versão original da entrevista que tem pouco mais que 47 minutos, não tem legenda, mas vale muito a pena, é divertida e trata de uma enorme variedade de assuntos (incluindo seu gênesis). logo abaixo, os primeiros 10 minutos e aqui é possível assistir a versão integral ou em partes (via @BoingBoing e @noizyman).

tom zé chora quando vê moça nua

entrevistei tom zé apenas uma vez (ainda não falou mais alongadamente ao gafieiras), e foi na época da tam magazine da spring e do genial disco estudando o pagode - na opereta segregamulher e amor (trama, 2005). fui lá com o pessoal da cia. de foto e passamos um divertido fim de tarde (acho). de lá pra cá, o baiano não parou: lançou o irregular danç-êh-sá (elo music/tratore, 2006), o dvd e álbum virtual danç-êh-sá - dvd ao vivo (trama, 2008) e o interessante, e muito feminino, estudando a bossa - nordeste plaza (biscoito fino, 2008), além de fazer muitos e lotados shows. em tempo: acho que estudando o pagode é um dos melhores e mais finos trabalhos de tom zé (com méritos a produção de jair oliveira), o que não é pouca coisa.

foto tirada durante a coletiva/happening pro disco estudando o pagode

OUTRO BAIANO QUE AMA AS MULHERES

Acompanhar o raciocínio sinuoso, bem humorado e instigante de Tom Zé é uma aventura em si. Sua fala e mais ainda sua música são uma sucessão de corredeiras, montanhas, vales, cascatas e lagoas. Em alguns momentos pode assustar, mas na maioria das vezes a viagem é repleta de surpresas delirantes. Mais elétrico que nunca, este jovem de 67 anos, acaba de lançar seu mais novo trabalho pela Trama, o CD Estudando o Pagode, onde trata de dois assuntos que lhe são muito caros no momento: a cultura de massa e a segregação da mulher.

“Eu trabalho no fio da navalha entre o ridículo e o brilhante”, avisa para quem possa achar que tais assuntos são indigestos para o universo da canção popular brasileira. Nada de tese ou panfletos. O que Tom Zé faz mais uma vez é colocar a política a serviço da música para mostrar mais uma vez que ama as mulheres. Está ao lado delas contra os homens, esses “pobres miseráveis”, que não sabem como satisfazê-las. Não é a toa que são cantoras que mais o interpretam. A lista possui nomes que vão de Mônica Salmaso a Zélia Duncan, passando por Rita Lee, Jussara Silveira, Ana Carolina e Gal Costa, e neste disco o time é reforçado por Suzana Salles, Luciana Mello e Patrícia Marx.

Há pouco tempo atrás o baiano de Irará escreveu uma música reveladora de sua atração pelo sexo oposto no disco Jogos de Armar. Reveladora tanto no título, “Medo de mulher”, quanto em seus deliciosos últimos versos: “Boi, boi, boi cara de lua / Toim Zé ainda chora / Quando vê moça nua”. Confira abaixo o que Tom Zé acha disso tudo:

Qual era a sua expectativa antes de lançar o disco?
Tem duas versões para essa resposta. A primeira é a que eu esperava conseguir vender os 40 mil discos que costumo vender. A outra... quando você faz um disco pensa que tá fazendo o melhor do mundo... não diz isso a ninguém, mas no íntimo você pensa... e que você vai criar um problema na porta das lojas. Esse é o sonho. Mas depois você vê a realidade que não é tanto nem tão pouco. Penso assim: o que adianta você ter algumas idéias se você não ama o público? Você precisa amar as pessoas que lhe sustentam. Quem me sustenta é esse público, então tenho que atender a estas pessoas com algo que dê auto-estima, vontade de aprender alguma coisa e um leque maior de diversificação estética. E tenho que reduzir isso a um sistema que fique viável pra eles. Por isso que resolvi fazer música popular, para ver alegria e entusiasmo nos olhos das pessoas. Trabalho para isso e também para produzir essa proteína chamada rebeldia.

E o que você achou da recepção?
Tenho sempre que agradecer a crítica que é sempre muito gentil. Mas dessa vez foi um pouco mais que o de costume. E o show... ninguém esperava lotar o Sesc Pinheiros três noites seguidas. Mil pessoas por noite. A gente teve medo, mas quando chegou de tarde lá já soube que tava lotado. Foi uma alegria, virei o maior lotador de teatro. Na França não é surpresa, uma semana antes já estava lotado. É mais surpresa ser bom aqui no Brasil porque geralmente o exterior me recebe com muita alegria.

A maioria das matérias sobre o disco privilegiou mais a questão do pagode que a da mulher e isso ficou ainda mais patente na sua participação no Roda Viva (TV Cultura). Porque você acha que a crítica foi mais por esse lado?
O machão brasileiro prova mais uma vez que ele não trata do assunto que não quer tratar (risos), mas não posso querer mal a ninguém, porque as pessoas me ajudam... o engraçado é que todo mundo sente que tá elogiando quando falam que sou um artista complexo, difícil e tal, e eu venho lutando para ser mais popular... mas voltando, o preconceito contra a mulher é muito forte, contra homossexuais, lésbicas, pobres e contra tudo é muito forte. Tanto que as perguntas eram... você fez pra esculachar o pagode? E o assunto de que uma classe no Brasil colocada de lado, completamente excluída, que não tem direito a nenhuma educação e que é submetida a uma cultura de massa terrível... isso não interessa. Só interessa falar mal do pagode.

E qual a saída para o homem deixar de ser esse pateta miserável?
Se soubesse a resposta não tinha feito o disco (risos). Mas é o caso de voltar ao meu tempo de solteiro. A minha primeira namorada... na década de 1960 você não transava com as namoradas, mas quando a intimidade vai aumentando, cinco ou seis anos, você já pega em tudo como todo mundo. E ela, à cada novidade que surgia, interiormente comemorava, vibrava. Com outras namoradas isso não aconteceu e eu não sabia o porquê. Depois soube: elas não vibravam, não gozavam. Era como se não tivesse acontecido nada. A minha tese é que as mulheres não gozam porque foram criadas com preconceito em relação ao sexo. A condição feminina é vilipendiada em todo lugar. Fora isso as mulheres não são convenientemente excitadas ou são largadas pelo macho depois que goza. Esse assunto tem que ser mais discutido. O homem precisa deixar de ser esse autista para ver que é uma desvantagem ter a mulher como uma inimiga em potencial. Foi um péssimo negócio. Olha, a mulher com o pé atrás torna a vida na Terra um desastre.

O homem precisa de educação, de alteridade...
Muito bem. Nós estamos muito ruins nesse negócio de alteridade. Estamos ruins com as mulheres, com os pobres, com as religiões e com o planeta. Respeitar os outros, né? Tudo na vida é um constante aprendizado e cada dia é um mistério.


e pra encerrar, o clipe de "o amor é um rock", um das melhores faixas do disco.

domingo, 1 de novembro de 2009

domingueira

o tempo passa, o tempo voa, e ainda estou devendo um texto sobre a vontade superstar (yb music, 2009), o ótimo segundo disco do paranaense-paulistano bruno morais. foi em maio que coloquei uma música do disco no segundo transversão (a portelense "o mundo é assim") e agora chega ao mundo virtual o primeiro clipe a sair do trabalho: "a vontade" (bruno morais e ivana debértolis) é a segunda faixa do disco e traz participação do trombone moleque de bocato.



o pessoal do música de bolso já havia feito um clipe alternativo de "a vontade" lá pras bandas de maio, mas era outro arranjo, outra história.

sábado, 31 de outubro de 2009

transversão #25

essa edição do transversão começou com grand magneto, outra dica certeira de edson franco. não consegui achar grandes coisas sobre o pessoal, a não ser que são franceses e só lançaram dois compactos em vinil no ano de 2007. em um compacto, david bowie ("let's dance") e blondie ("heart of glass), e no outro gloria jones/soft cell ("tainted love") e bee gees ("saturday night fever"). no mais, nenhum site ou myspace, quiça um blog. nada. e som é muito bom, entre o reggae e um funk acústico. depois que o edson me mostrou o que tem do grand magneto lá na dusty groove fui correr atrás pra ver o que conseguia em mp3. achei "tainted love" e "heart of glass", que acabei escolhendo porque a regravação é tão boa quanto a original, além de garantir outras transversões. vamos lá, então.

capa de um compacto americano de "heart of glass"

lançada em 1978, "heart of glass" é da dupla debbie harry e chris stein - vocalista e guitarrista da banda blondie, respectivamente -, e é quarta faixa do lado b do disco parallel lines (chrysalis/emi, 1978), o terceiro da banda (e pra muitos, o melhor, sob produção de mike chapman). é mistura permanentemente interessante entre rock, new wave e pop, o que horrorizou os mais "puristas". saca só o clipe original com debbie harry, toda gatinha e misteriosa.


pouco depois, em 1981, o guitarrista chet atkins (1924-2001), figura totalmente ligada aos sons country de nashville e cercanias, gravou uma versão instrumental e muy delicada da música no disco country after all these years (rca victor, 1981).

Chet Atkins -Heart of Glass by dafnesampaio

muito anos depois e novamente no terreno instrumental, o trio the bad plus entortou a canção em seu excelente disco de estreia, these are the vistas (columbia, 2003).

The Bad Plus - Heart of Glass by dafnesampaio

então, em 2007, vem o pessoal do grand magneto.

Grand Magneto - Heart of Glass by dafnesampaio

agora, pra encerrar, uma versão ao vivo de 2007, em plena nova york, com o pessoal do blondie e lily allen.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

minha paz quer trégua

o tempo das coisas... não sei se vocês ficaram sabendo de uma história acontecida da uniban de são bernardo do campo na semana passada (fiquei sabendo lá no boteco sujo): uma garota de 20 anos, estudante de turismo, foi hostilizada por outros universitários, homens e mulheres, por trajar roupas sumárias, "de puta" (tipo um vestido curto, algo assim), e precisou de escolta policial para sair da faculdade (ela deu uma entrevista hoje no vírgula). troço tenebroso e mais frequente do que se imagina nesse admirável mundo de novo de falsas aparências e moralismos disfarçados. aí, agorinha via twitter do URBe, fiquei sabendo de um clipe novo dos pernambucanos do eddie. a música se chama "eu tô cansado dessa merda" (fábio trummer), tá no disco carnaval no inferno (independente, 2008), e tem muito a ver com o incidente da uniban e tantas outras coisas nossas.

letra/música #3

ederaldo gentil é baiano da turma de batatinha e riachão. também é autor de um dos sambas mais belos e tristes de todos os tempos, "o ouro e a madeira", mas vou colocar aqui uma outra composição sua que conheci faz pouco tempo. foi lá no som barato que me deparei com o disco identidade (nosso som gravações e produções, 1983) e sua maviosa faixa-título. crítica social e melancolia em doses exatas.

identidade
(ederaldo gentil)

05342635 é o meu número, meu nome
minha identidade
mínimo salário é meu ordenado
12 horas de trabalho, que felicidade
que felicidade

acordo sem dormir
faço pelo sinal
ouço o radinho de pilha
pra saber do horário
preparo quase nada
e levo na marmita
vou dependurado e os sinais fechando
chego atrasado, é cortado o dia
são tanto os descontos
que nem mesmo sei
me falam de vantagens que eu jamais ganhei

é o inps, fgts
irss, o seguro e o pis
com 30 de trabalho
estou aposentado
e com mais de 70
eu penso em ser feliz

Ederaldo Gentil - Identidade by dafnesampaio

p.s.: para quem não transa essa história de torrent, lá no blog prato e fraca também tem o disco zipado.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

CORJA #5

houve uma mudança de ares na quinta edição do muy querido corjacast. saímos do cafofo de edson franco, descemos algumas quadras e viramos a esquerda na rua onde mora douglas "oga" mendonça. tudo ali em perdizes. nos instalamos na bela sala do recinto, espalhamos os salgados pela mesa e abrimos umas cervejinhas. só que agora eu me comportei, juro. o valtinho é que tava todo animadão. ah, houve uma ligeira mudança no roteiro do programa, mas a espinha dorsal continua a mesma e dessa vez rolou gente como marta topferova, o trio bk-one, benzilla & hypnotic brass ensemble, um dueto entre otto & céu, o encontro de princesa & rancho mc, massilia sound system e, ao fundo, bossa nostra.

pra quem prefere o corjacast no formato mp3, o link está AQUI. mas aguardem que nos próximos dias, o nosso podcast ganhará um um sítio próprio. quem viver, verá. e ouvirá.

ê ê ê fumacê, á á á fumaça

terça-feira, 27 de outubro de 2009

fora de si

"skhizein" é o segundo curta animado dirigido pelo francês jérémy clapin (o primeiro, "une histoire vertebrale", está aqui). em 13 delicados minutos acompanhamos a jornada de henry, sujeito solitário que é atingido por um meteorito e, consequentemente (?), fica a 91 cm de si mesmo. o traço de clapin me lembrou muito o do mano daniel bueno. no mais, vi esse video no blog boo monster bop da babee.

Skhizein (Jérémy Clapin,2008) from Josef K. on Vimeo.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

a lista, a lista

achei hoje, lá no blog vermute com amendoim, a lista completa das "100 maiores músicas brasileiras" que saiu na rolling stone brasil. quando fiz o post abaixo, nada de arrombar a festa, fui atacado pela preguiça e acabei não transcrevendo a lista. sorte que existem almas boas como a de fel mendes, um dos cabeças do referido blog. valeu! e ele ainda tem o link com a lista que a bravo fez em 2008. agora, é brincar de comparar.

1 - construção - chico buarque (chico buarque)
2 - águas de março - elis e tom (tom jobim)
3 - carinhoso - pixinguinha (pixinguinha e joão de barro)
4 - asa branca - luiz gonzaga (luiz gonzaga e humberto teixeira)
5 - mas que nada - jorge ben (jorge ben)
6 - chega de saudade - joão gilberto (tom e vinicius)
7 - panis et circensis - os mutantes (gil e caetano)
8 - detalhes - roberto carlos (roberto e erasmo)
9 - canto de ossanha - baden e vinicius (baden e vinicius)
10 - alegria, alegria - caetano veloso (caetano veloso)
11 - domingo no parque - gilberto gil e os mutantes (gilberto gil)
12 - aquarela do brasil - francisco alves (ary barroso)
13 - as rosas não falam - cartola (cartola)
14 - desafinado - joão gilberto (tom jobim e newton mendonça)
15 - trem das onze - demônios da garoa (adoniran barbosa)
16 - ouro de tolo - raul seixas (raul seixas e paulo coelho)
17 - o mundo é um moinho - cartola (cartola)
18 - sinal fechado - chico buarque (paulinho da viola)
19 - quero que tudo vá pro inferno - roberto carlos (roberto e erasmo)
20 - preta pretinha - novos baianos (luiz galvão e moraes moreira)
21 - tropicália - caetano veloso (caetano)
22 - da lama ao caos - chico science & nação zumbi (chico science)
23 - inútil - ultraje a rigor (roger moreira)
24 - eu sei que vou te amar - vinicius (tom e vinicius)
25 - país tropical - wilson simonal (jorge ben)
26 - roda viva - chico buarque & mpb4 (chico buarque)
27 - garota de ipanema - pery ribeiro (tom e vinicius)
28 - pra não dizer que não falei das flores - geraldo vandré (vandré)
29 - nanã (coisa nº5) - moacir santos (moacir santos e mario telles)
30 - baby - gal costa (caetano veloso)
31 - travessia - milton nascimento (milton nascimento e fernando brandt)
32 - ovelha negra - rita lee (rita lee)
33 - pérola negra - luiz melodia (luiz melodia)
34 - brasil pandeiro - novos baianos (assis valente)
35 - trem azul - lô borges (lô borges e ronaldo bastos)
36 - o bêbado e o equilibrista - elis regina (joão bosco e aldir blanc)
37 - primavera - tim maia (cassiano e silvio rochael)
38 - eu quero é botar meu bloco na rua - sérgio sampaio (sérgio sampaio)
39 - metamorfose ambulante - raul seixas (raul seixas e paulo coelho)
40 - sanque latino - secos e molhados (joão ricardo e paulinho mendonça)
41 - manhã de carnaval - luiz bonfá (luiz bonfá e antônio maria)
42 - sampa - caetano veloso (caetano)
43 - como nossos pais - elis regina (belchior)
44 - azul da cor do mar - tim maia (tim maia)
45 - carcará - maria bethânia (joão do vale e josé candido)
46 - ponteio - edu lobo e maria medalha (edu lobo e capinam)
47 - me chama - lobão e os ronaldos (lobão)
48 - maracatu atômico - chico science & nação zumbi (jorge mautner e nelson jacobina)
49 - os alquimistas estão chegando - jorge ben (jorge ben)
50 - ando meio desligado - os mutantes (arnaldo baptista, rita lee e sérgio dias)
51 - disparada - jair rodrigues (geraldo vandré e théo de barros)
52 - diário de um detento - racionais mc's (jocenir e mano brown)
53 - brasileirinho - waldir azevedo (waldir azevedo e ruy pereira costa)
54 - sabiá - cynara e cybele (tom jobim e chico buarque)
55 - balada do louco - os mutantes (arnaldo baptista e rita lee)
56 - a lua e eu - cassiano (cassiano e paulo zdanowski)
57 - conversa de botequim - noel rosa (noel rosa, vadico e francisco alves)
58 - apesar de você - chico buarque (chico buarque)
59 - minha namorada - carlos lyra (vinicius de moraes e carlos lyra)
60 - na rua, na chuva, na fazenda - hyldon (hyldon)
61 - chão de estrelas - silvio caldas (silvio caldas e orestes barbosa)
62 - luar do sertão - luiz gonzaga (catulo da paixão cearense e joão pernambuco)
63 - alagados - paralamas do sucesso (herbert vianna, bi ribeiro e joão barone)
64 - as curvas da estrada de santos - roberto carlos (roberto e erasmo)
65 - br-3 - toni tornado (antonio adolfo e tibério gaspar)
66 - clube da esquina nº2 - milton nascimento (milton, lô borges e márcio borges)
67 - a banda - nara leão (chico buarque)
68 - comida - titãs (arnaldo antunes, marcelo fromer e sérgio britto)
69 - rosa de hiroshima - secos e molhados (gerson conrad e vinicius de moraes)
70 - ronda - inezita barroso (paulo vanzolini)
71 - como uma onda (zen surfismo) - lulu santos (lulu santos e nelson motta)
72 - gita - raul seixas (raul seixas e paulo coelho)
73 - wave - tom jobim (tom jobim)
74 - sentado à beira do caminho - erasmo carlos (roberto e erasmo)
75 - foi um rio que passou em minha vida - paulinho da viola (paulinho da viola)
76 - samba de verão - marcos valle (marcos valle e paulo cesar valle)
77 - insensatez - tom jobim (tom e vinícius)
78 - cálice - chico buarque e milton nascimento (gilberto gil e chico buarque)
79 - maria fumaça - banda black rio (oberdan magalhães e luiz carlos batera)
80 - vapor barato - gal costa (jards macalé e waly salomão)
81 - que país é este? - legião urbana (renato russo)
82 - sossego - tim maia (tim maia)
83 - ideologia - cazuza (cazuza e roberto frejat)
84 - rosa - orlando silva (pixinhuinha e otávio de souza)
85 - o barquinho - maysa (ronaldo bôscoli e roberto menescal)
86 - nervos de aço - paulinho da viola (lupicínio rodrigues)
87 - meu mundo e nada mais - guilherme arantes (guilherme arantes)
88 - sá marina - wilson simonal (antonio adolfo e tibério gaspar)
89 - a flor e o espinho - nelson cavaquinho (nelson, guilherme de brito e alcides caminha)
90 - 2001 - os mutantes (tom zé e os mutantes)
91 - felicidade - caetano veloso (lupicínio rodrigues)
92 - tico-tico no fubá - ademilde fonseca (zequinha de abreu e eurico barreiros)
93 - casa no campo - elis regina (zé rodrix e tavito)
94 - o mar - dorival caymmi (dorival caymmi)
95 - último desejo - aracy de almeida (noel rosa)
96 - disritmia - martinho da vila (martinho da vila)
97 - você não soube me amar - blitz (evandro mesquita, ricardo barreto, guto e zeca mendigo)
98 - a noite de meu bem - dolores duran (dolores duran e tom jobim)
99 - rua augusta - ronnie cord (hervé cordovil)
100 - anna júlia - los hermanos (marcelo camelo)

domingo, 25 de outubro de 2009

domingueira

rápido e rasteiro. wax tailor é o nome do projeto de música eletrônica, rap e beats variados do produtor francês jean-christophe le saoût. conheci o sujeito faz pouco tempo ao ouvir seu trabalho mais recente, in the mood for life (leplan music, 2009), disco gostoso de ouvir, cheio de camadas, scratches e boas orquestrações. a música no caso é "say yes". lá no blog difusor de som tem um pouco mais (o disco, por exemplo) sobre wax tailor.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

feito em casa, novamente

foi em maio que fiz o primeiro exercício de edição. coisa caseira mesmo. juntei umas fotos, alternei, tudo toscamente no movie maker, e coloquei uma música ("durango kid", do rockers control). voltei ao programa, agora com imagens em movimento (pena que o celular novo filma porcamente como o antigo). é um plano só lá no bosque que tem entre os prédios da geologia e letras, na usp de são paulo capital. filmei hoje mesmo, lá pelas 17h30. o video tem uns 2 minutos e 30 segundos. ok. aí fui atrás de uma música e achei uma ligeiramente mais curta, mas o título era imperdível (pessoalmente falando) e cabia direitinho com as imagens. nem foi preciso editar. joguei e pronto. a parte sem música no final até funcionou. pena que as imagens são de baixíssima qualidade. ah, a música se chama "uma viagem pro reino encantado" e é do paraense pio lobato. sobre o título: esse bosque é O BOSQUE que deu nome a turma de malucos - "a galera do bosque", amigos até hoje - com quem andei durante o curso de ciências sociais, entre 1994 e 1999. se essas árvores falassem...

uma balada, um frevo e uma animação

primeiro clipe do novo, e totalmente excelente, disco de arnaldo antunes (iê iê iê). a música se chama "longe" e é parceria de arnaldo com marcelo jeneci e betão aguiar. pegue o lenço e aumente o som.



os moleques d'a banda de joseph tourton são de recife e finalmente estão preparando a estreia em disco (sob produção do pessoal do mombojó), após muito buchicho na internet e shows disputados em são paulo. a maioria de suas músicas (rocks?) é instrumental, mas essa aqui, "frevo do preguiçoso", é cantada e com muito bom humor. cortesia do pessoal do música de bolso.



e pra encerrar, uma bela animação que vi lá no URBe. se chama "the meaning of life" e é de um tal de vytautas alechnavicius (russo?). a música é do malucão do aphex twin.

the Meaning of Life - stop motion from Vytautas Alechnavicius on Vimeo.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

nada de arrombar a festa

pela segunda vez fui convidado a integrar, sempre trajando credenciais gafieiras, um júri na rolling stone brasil. dessa vez a revista quis elencar “as cem maiores músicas brasileiras” e pediu a cada um dos oitenta e poucos envolvidos uma lista com vinte músicas (e suas respectivas gravações), sem ordem de preferência. pense numa angústia! pinçar apenas esses poucos peixes do oceano caudaloso que é a música brasileira! quer dizer, gosto de listas. de ler e, eventualmente, fazer (fora o fato que convites assim são sempre uma honra). mas o melhor delas é que sempre dão o que pensar, tanto pelos acertos quanto pelas ausências. com essa não seria diferente (e as dez primeiras da lista estão aqui).

bem, após a angústia da escolha veio um questionamento, digamos assim, filosófico-conceitual-pessoal: escolheria racionalmente (pensando em importâncias históricas, hinos de uma geração, canções icônicas, etc. e tal) ou jogaria tudo para o alto e mandaria ver na subjetividade. optei por um equilíbrio. algumas músicas simplesmente não poderiam deixar de aparecer, nem mesmo por birra (“garota de ipanema” nunca me disse nada, mas seria um descalabro não tê-la na lista). também não queria limar músicas que me são muito caras. e daí que só teriam o meu voto? enfim, cheguei a essas vinte músicas (p.s.: coloquei links de videos pras músicas, dica de ana aranha, mas claro que não consegui as versões originais de todas).

a flor e o espinho”, por nelson cavaquinho
águas de março”, por tom jobim & elis regina
ando meio desligado”, por mutantes
augusta, angélica, consolação”, por tom zé
back in bahia”, por gilberto gil
como dois e dois”, por roberto carlos
construção”, por chico buarque
da maior importância”, por gal costa
dama tereza”, por sabotage & instituto
danada”, por eddie & erasto vasconcelos
diário de um detento”, por racionais mc’s
doralice”, por joão gilberto
ela partiu”, por tim maia
laser”, por josé miguel wisnik
maracatu atômico”, por chico science & nação zumbi
milágrimas”, por itamar assumpção
o bem do mar”, por dorival caymmi
o homem da gravata florida”, por jorge ben
para um amor no recife”, por paulinho da viola
rua real grandeza”, por jards macalé

faltou gente? claro. cometi injustiças? óbvio. listas são assim, retratos (imperfeitos) de um momento. sei também que das minhas vinte apenas seis entraram na lista de cem. são elas, e suas respectivas colocações, “construção” (1), “águas de março” (2), “maracatu atômico” (48), “ando meio desligado” (50), “diário de um detento” (52) e “a flor e o espinho” (89). de resto, escolhi músicas menos conhecidas de medalhões ou fiz outras combinações entre compositores e intérpretes. e ainda, claramente em quatro, fiz escolhas estritamente pessoais: “dama tereza”, “danada”, “laser” e “milágrimas”. mas gostaria de lançar aqui alguns pensamentos avulsos sobre a lista final.

o gênero, sempre ele – maioria esmagadora de homens por todos os lados. dos cento e quatro compositores mencionados, apenas duas mulheres (rita lee e dolores duran). dos setenta e dois intérpretes treze são mulheres, número que pode aumentar um pouco se forem consideradas baby consuelo (novos baianos) e a dupla fernanda abreu e márcia bulcão (blitz). nesse último caso, pelo menos, elis regina é uma das mais mencionadas. claro que esse machismo não é novidade, afinal somente após o final da década de 1970 é que as mulheres conseguiram espaço para se mostrar como compositoras, e só agora nos anos 2000 esse número deixou, definitivamente, de ser traço nas estatísticas.

ah, no meu tempo – listas assim costumam refletir a geração de votantes. meu chute é que a faixa etária varie entre 20 e tantos até 40 e trilili (tenho 35), com devidas exceções, o que já confere um certo ar nostálgico, conservador, pra coisa toda. das cem músicas, apenas doze foram feitas da década de 1980 pra cá (contando com “maracatu atômico”, na versão de chico science, que é na verdade de 1974), e a mais nova, “anna júlia”, já tem dez anos. no entanto, é inegável que a lista deixe claro, mais uma vez, a força das três décadas mais cruciais e absurdamente produtivas da música popular brasileira: 1930s, 1960s e 1970s. é muita coisa boa junta. por outro lado, na minha lista, coloquei duas músicas dos anos 2000 (“danada” e “dama tereza”) e tenho certeza que exemplos não faltam. mas ainda é preciso dar tempo e com isso fica a pergunta: será que uma lista dessas, dez anos para frente, muda pouco ou muito?

absurdum – dorival caymmi aparecer somente na rabeira é tipo um crime hediondo (“o mar” está em 94). acho péssimo não ter itamar assumpção e tom zé surgir via “2001” com os mutantes. nenhum dos grandes compositores/intérpretes populares (os bregas) entrou. nada de odair josé, waldick soriano, paulo sérgio, fernando mendes, lindomar castilho e afins. nem beth carvalho, clara nunes e alcione, por exemplo. nem egberto gismonti, hermeto pascoal ou qualquer outra coisa puramente instrumental. claro que tem muita gente por aí, dá pra entender que nem todos entrarem, mas o que não dá pra perdoar é “anna júlia” ter entrado (mesmo que no 100). qual a importância dessa música? a não ser como marco do lançamento de uma das bandas mais importantes dos anos 2000, mas que se tornou referência após ter “renegado” seu primeiro sucesso comercial (e camelo & amarante possuem uma boa coleção de canções interessantes). quer dizer...

tiro certo – bom saber que roberto e erasmo carlos solidificaram, de uma vez por todas, sua importância na música brasileira (milhões já sabiam, mas faltavam alguns “especialistas”). a inseparável dupla emplacou “detalhes” (8), “quero que vá tudo para o inferno” (19), “as curvas da estrada de santos” (64) e “sentado à beira do caminho” (74). bom ver também o hitmaker guilherme arantes (“meu mundo e nada mais”, 87), o instrumental black power da black rio (“maria fumaça”, 79) e o choro pop de waldir azevedo (“brasileirinho”, 53), e ainda ultraje a rigor (“inútil”, 23), lobão (“me chama”, 47), paralamas (“alagados”, 63), titãs (“comida”, 68), lulu santos (“como uma onda”, 71) e blitz (“você não soube me amar”, 97). racionais e chico science entraram de vez no cânone, o que é ótimo e mais que merecido. o resto era de se esperar. ah, diferente do zeca camargo, não esperei que por levar o selo rolling stone a lista fosse ter uma pegada mais jovem, mais pop rock. aliás, esse é um dos grandes achados da lista, o de colocar todo mundo junto no mesmo espaço (como a gente no gafieiras faz desde o início em 2001). afinal de contas, o rótulo mpb é (e deve ser) coisa do passado.

pra finalizar, um material bônus. entre idas e vindas na minha escolha deixei separado uma segunda lista, uma espécie de banco de reservas com mais cinquenta opções (?!). algumas dessas entraram na lista da rolling stone brasil e estão devidamente sinalizadas.

“a vida é doce”, por lobão
“bananeira”, por joão donato
“banzo”, por rumo
“boa noite, cinderela”, por costa a costa
“caio no suingue”, por pedro luís e a parede
“canto de ossanha”, por baden powell & vinicius (9)
“carolina”, por seu jorge
“chorando no meio da rua”, por cristina buarque
“conselheiro”, por batatinha
“coqueiro verde”, por erasmo carlos
“de alegria raiou o dia”, por carlos dafé
“disritmia”, por martinho da vila (96)
“espelho”, por joão nogueira
“eu quero é botar meu bloco na rua”, por sérgio sampaio (38)
“eu, você e a praça”, por odair josé
“fita amarela”, por aracy de almeida
“incompatibilidade de gênios”, por clementina de jesus
“jaçanã picadilha”, por relatos da invasão
“jacarandá”, por luiz bonfá
“maria fumaça”, por banda black rio (79)
“me acalmo danando”, por ângela rô rô
“na rua, na chuva, na fazenda”, por hyldon (60)
“não creio em mais nada”, por paulo sérgio
“ninguém”, por clara nunes
“o céu, o sol, o mar”, por mombojó
“o ouro e a madeira”, por conjunto nosso samba
“o percurso”, por nervoso
“o pior é esperar”, por fernando mendes
“podes crê, amizade”, por tony tornado
“poema rítmico do malandro”, por sônia santos & zito righi
“pra dizer adeus”, por tom jobim & edu lobo
“quase 6 de misticismo”, por hurtmold
“rebelde sem causa”, por ultraje a rigor
“retalhos de cetim”, por benito di paula
“rio de janeiro”, por picassos falsos
“rumo”, por parteum
“segura a nega”, por bebeto
“semáforo”, por vanguart
“sobre a gente”, por rômulo fróes
“sonífera ilha”, por titãs
“swing de campo grande”, por novos baianos
“taí”, por carmem miranda
“te encontra logo”, por cidadão instigado
“tempos modernos”, por lulu santos
“tributo a wes montgomery”, por egberto gismonti
“um dia útil”, por mauricio pereira
“uma vida”, por união black
“v.v.”, por bnegão & os seletores de frequência
“volta por cima”, por maria bethânia
“zamba ben”, por marku ribas

p.s.: o bruno natal, outro a participar da lista, colocou as suas vinte músicas lá no URBe.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

letra/música #2

já faz um tempinho que saiu o ótimo o retrato do artista quando pede (desmonta, 2009), disco de estreia do duo moviola, e ele segue impávido colosso entre os melhores do ano. projeto criado pelos afromacarrônicos kiko dinucci e doulas germano, o duo veio com um disco onde o samba é ponto de partida e base para tudo, mas está longe de ser uma camisa de força. muito pelo contrário. vocais, violões e percussões são entortados pelas melodias com bom humor, poesia e um sofisticado sentimento popular. a faixa-título, e a última do disco, dá medida exata da pegada da dupla. é marchinha debochada que joga luz sob as armadilhas da produção cultural em são paulo (e trocando uma instituição aqui e outra ali, de todo o país).

o retrato do artista quando pede
(kiko dinucci e douglas germano)

pra sobreviver de arte em são paulo
tenta o sesc, tenta o sesc
mas se o programador não for com a tua cara
esquece, esquece

pra sobreviver de arte em são paulo
tenta o pac, tenta o pac
mas se acaso, no projeto, faltar cep
se estrepe, se estrepe

você gasta o que não tem no xerocão
e a tiazinha sempre diz que está faltando
um carimbinho de uma data esquecida,
assinatura com firma reconhecida

pra sobreviver de arte em são paulo
lei mendonça, lei mendonça
mas se não tiver contra-partida social
babáu, a água bebe a onça

pra sobreviver de arte em são paulo
vai e tenta a rouanet
mas se o empresário fala em custo/benefício
manda ele se pentear