sábado, 3 de dezembro de 2016

100 músicas gringas de 2016

mais um ano de rap dominando a lista de melhores músicas do ano, tanto no brasil [post futuro] quanto na gringolândia. acho que um terço desta lista aqui, a primeira da retrospectiva musical deste ano, é de raps. já falei aqui e em outros lugares que já faz uns bons par de anos que o rap é o mais diverso, atual e contestador gênero musical desta década [o que já se desenhava nos anos 1980 e, principalmente, nos anos 1990].

mas antes do rap, é bom destacar uma outra galera. David Bowie e Leonard Cohen, por exemplo, nos deixaram este ano logo após lançarem belas e tristes músicas. também foi um ano no qual outros preferidos [de longa data] da casa mantiveram o alto nível de suas carreiras e ainda subiram novos degraus: Beck, Radiohead, Andrew Bird, Massive Attack, M.I.A., Quantic [e este ano foi a vez do seu projeto Flowering Inferno], The Strokes, Rihanna, Iggy Pop, Devendra Banhart e Zack de la Rocha. 

2016 também foi o ano de minas foda com a faca no dentes e em vários gêneros, desde o pop poderoso e político de Beyoncé ["Sorry", a faixa de Lemonade que escolhi pra lista, poderia ser facilmente substituída por pelo menos outras 4 pedradas do disco] e Alicia Keys até a cumbia digital de La Yegros, passando pelos raps de Sa-Roc, Rapsody e Princess Nokia, o soul confessional de Solange [irmã de Beyoncé], o rock dançante das Warpaint, a divertida pegada de Santigold, a novidade em Xenia Rubinos, Fritzwa, Lizzo, A-Wa, Chloe & Halle e as já citadas M.I.A. e Rihanna.

mas o rap é o rap e este ano teve a volta/despedida emocionante de A Tribe Called Quest e novos sons bacanas de veteranos como o De La Soul, Drake ["One Dance" é certamente um dos hits do ano], Atmosphere, Aesop Rock, Common, Kool Keith e Kanye West; e moleques como Frank Ocean, Chance The Rapper, deM atlaS, Bishop Nehru, Vic Mensa, Jerreau, Vince Staples e Young Thug, botando pra quebrar; no rap vale ainda destacar ScHoolboy Q, Danny Brown, Mick Jenkins, Kid Cudi, Desiigner ["Panda", outro hit do ano], Mykki Blanco, J. Cole [o último a entrar na lista] e a chegada definitiva do nigeriano Jidenna. sem falar na presença discreta, em participações, do maior nome do rap atual, Kendrick Lamar.

agora, pra encerrar o blábláblá e partir logo pra música, tem uns sujeitos que definitivamente vieram pra ficar [talvez porque além do talento não são facilmente rotuláveis]: Anderson Paak, Sampha e Kaytranada.

então, som na caixa [ah, e como sempre, a lista está em ordem alfabética].




2 Chainz - "Here We Go Again"
A Tribe Called Quest - "We The People... "
A Tribe Called Red - "R.E.D." [Ft. Yasiin Bey, Narcy & Black Bear]
Aesop Rock - "Kirby"
Alicia Keys - "Pawn It All"
Anderson .Paak - "Come Down"
Andrew Bird - "Are You Serious"
Animal Collective - "FloriDada"
Atmosphere - "Pure Evil" [feat. I.B.E.]
Balkan Beat Box - "Chin Chin"
Baloji - "Spoiler"
Banks & Steelz - "Conceal"
Batuk - "Puta"
Beck - "Wow"
Beyoncé - "Sorry"
Bishop Nehru - "He The Man"
Bombino - "Akhar Zaman"
Chance The Rapper - "No Problem" [feat. 2 Chainz & Lil Wayne]
Chemical Brothers - "Wide Open" [feat. Beck]
Childish Gambino - "Redbone"
Chloe x Halle - "Drop"
Common - "Black America Again" [feat. Stevie Wonder]
Danny Brown - "Really Doe" [feat. Kendrick Lamar, Ab-Soul & Earl Sweatshirt]
David Bowie – "Lazarus"
De La Soul - "Snoopies" [feat. David Byrne]
deM atlaS - "Sum-Mo"
Desiigner - "Panda"
Devendra Banhart - "Fancy Man"           
DJ Khaled - "Nas Album Done" [feat. Nas]
DJ Shadow - "Nobody Speak" [feat. Run The Jewels]
DJ Vadim - "Inner Lite" [feat. Big Red & Pupa Jim]
El Guincho - "Comix" [feat. Mala Rodriguez]
Fanfare Ciorcarlia - "I Put a Spell On You"
Flume - "Smoke & Retribution" [feat. Vince Staples & Kučka]
Iggy Pop - "Break Into Your Heart"
Isaiah Rashad - "4r da Squaw"
J. Cole - "False Prophets (Be Like This)"
Jamila Woods- "VRY BLK" [feat. Noname]
Jerreau - "Hunt & Trap"
Jidenna - "Chief Don't Run"
Jimi Tenor - "Full House" [feat. Tony Allen]
Joey Purp - "Girls" [feat. Chance the Rapper]
Jungle By Night - "Kingfisher"
Kaytranada - "Glowed Up" [feat. Anderson .Paak]
Kid Cudi - "Surfin" [feat. Pharrell Williams]
Kings of Leon - "Muchacho"
Kool Keith - "World Wide Lamper" [feat. B.a.R.S. Murre & Dirt Nasty]
La Yegros - "Atormentada"
Laura Mvula - "Phenomenal Woman"
Leonard Cohen - "Traveling Light"
Lizzo - "Phone"
M.anifest - "Cupid's Crooked Bow" [feat. Nomisupasta]
M.I.A. - "Borders"
Massive Attack - "Come Near Me" [feat. Ghostpoet]
Me And My Friends - "All That Is You"
Michael Kiwanuka - "Love & Hate"
Mick Jenkins - "Drowning" [feat. BadBadNotGood]
Miike Snow - "Genghis Khan"
Mr. Lif - "Let Go" [feat. Selina Carrera]
Mykki Blanco - "High School Never Ends" [feat. Woodkid]
Onda Vaga - "La Maga"
Pigeon John - "Rebel Rebel"
Princess Nokia - "Brujas"  
Quantic Presenta Flowering Inferno - "Chambacu" [feat. Nidia Gongora]
Radiohead - "Present Tense"
Rae Sremmurd - "Start a Party"
Rapsody - "OooWee" [feat. Anderson .Paak]
Rihanna - "Pose"
Run The Jewels - "Legend Has It"
Sampha - "Blood On Me"
Sa-Roc - "Lord of the Forest"
ScHoolboy Q - "THat Part" [feat. Kanye West]
Sinkane - "U'Huh"
Solange - "Weary"
Teachers - "Ocean"
Temi DollFace - "Beep Beep"
The Avalanches - "Frankie Sinatra"
The Bacao Rhythm & Steel Band - "Police in Helicopter"
The Bongolian - "Moog Maximus"
The Comet Is Coming - "Final Eclipse"
The Frightnrs - "Dispute" [dub version]
The Strokes - "Oblivius"
The Underachievers - "Really Got It"
The Weeknd - "Starboy" [feat. Daft Punk]
Vaudou Game - "La Vie C'est Bon"
Vex Ruffin & Fab 5 Freddy - "The Balance"
Vic Mensa - "New Bae"
Vince Staples - "Prima Donna"
Warpaint - "Whiteout"
Xenia Rubinos - "Mexican Chef"
Xiomara - "You Don’t Know Jack
Young Paris - "Best of Me" [feat. Ben Bronfman]
Young Thug & Travis Scott - "Pick Up the Phone" [feat. Quavo]
Zack de la Rocha - "Digging For Windows"

pra encerrar a lista, quatro músicas que, por algum mistério do mundo do business, não estão no youtube. sendo que duas delas, "One Dance" e "Nikes", grandes hits do ano.

Drake - "One Dance" [feat. Wizkid & Kyla]
Frank Ocean - "Nikes"
Fritzwa - "Lies and Ego"
Kanye West - "No More Parties in LA" [feat. Kendrick Lamar]


daí que este ano também coloquei a lista no Spotify e, pra minha surpresa, achei 92 das 100 músicas. ficaram de fora Beyonce (?!), deM atlaS, DJ Vadim, Jamila Woods, Princess Nokia, Quantic's Flowering Inferno e Temi DollFace. e acabei, por um motivo ou outro, escolhendo outras músicas das A-Wa, Fanfare Ciocarlia, Mr. Lif, Pigeon John, Sa-Roc, The Comet Is Coming, The Frightnrs e Vince Staples. 

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

i'm not alone, i've met a few

o grande grande grande leonard cohen nos deixou, mas também deixou muita coisa em seus 82 anos de vida: 14 discos, 13 livros de poesia, 2 romances, uma porrada de shows, uma infinidade de coisas bonitas. lembro até hoje que o ouvi o canadense pela primeira vez em algum momento do final dos anos 1980. meu pai comprou o LP poets in new york [1986], um tributo em memória aos então 50 anos da morte de federico garcia lorca, e lá estava leonard e sua voz rouca cantando "take this waltz" [versão que fez para a "pequena valsa vienense" do poeta espanhol]. lorca era um de seus poetas preferidos.



o tempo passou, minha adolescência foi indo embora e reencontrei leonard nas trilhas de assassinos por natureza de oliver stone e exotica de atom egoyam, ambos de 1994. do primeiro vieram "the future", "waiting for the miracle" e "anthem"; do segundo, "everybody knows". aí fiquei sabendo que ele era o autor de "hallelujah", "so long marianne", "first we take manhattan", "the partisan" e "suzanne", entre tantas outras de seus primeiros anos [seu disco de estreia é de 1967, quando já tinha pouco mais de 30 anos]. foi também nessa época, meados da década de 1990, que ele se converteu ao budismo e largou mão dessas coisas ocidentais. pausa para um flashback rápido com "suzanne" ao vivo em seu lendário show na ilha de wight em 1970.



daí que durante seu retiro budista, leonard foi passado pra trás por uma ex-empresária e precisou voltar aos palcos por motivos financeiros. e ele voltou com tudo em shows de 3, 4 horas, além de discos novos e novos clássicos sobre os temas que sempre o rodearam: amor, espiritualidade, sexo e, eventualmente, política. seus três últimos discos de estúdio são umas lindezas e separei aqui as minhas preferidas: "different sides" [old ideas, 2012], "almost like blues" [popular problems, 2014] e "traveling light" [you want it darker, 2016]. o título desta postagem é um verso desta última, uma linda e leve canção de despedida.








i'm traveling light. it's au revoir.



p.s. 1: um finlandês obcecado pelo artista mantém desde 1995 um grande arquivo online com tudo o que você possa imaginar que exista sobre leonard e também as muitas regravações de seus trabalhos. é o leonard cohen files.

p.s. 2: segue abaixo, como faixa bônus, ladies and gentlemen... mr. leonard cohen, um interessante documentário feito em 1965, quando leonard ainda era exclusivamente escritor.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

horace & pete, louis & donald

não consigo ver séries de tv. tenho curiosidade por várias, mas tenho preguiça do compromisso, desse monte de episódios e temporadas e, ultimamente, do frenesi de fãs sobre a melhor de todos os tempos da última semana. só que meu interesse por louis ck me levou a horace and pete, série em dez episódios que ele escreveu, dirigiu, atuou e lançou de surpresa no início do ano e exclusivamente em seu site [dá pra comprar tudo pela bagatela de 31 dólares].

a sinopse é simples: os irmãos horace [louis ck] e pete [steve buscemi] cuidam de um boteco mantido pela família a cem anos no brooklyn. o estabelecimento é frequentado por pessoas geralmente solitárias, gente que bebe durante o dia, e os episódios giram em torno de conversas aleatórias destes clientes e os dramas familiares de horace e pete [mortes, perdas, ressentimentos, um câncer, culpas, segredos, sexo, traições, etc]. 


horace and pete parece, visualmente, com uma sitcom, mas não tem aquela claque de risadas e nem plateia. também é bastante teatral e essencialmente dramática [com algumas piadas surgindo aqui e ali, geralmente pelos clientes]. e é, acima de tudo, muito muito triste, o que é ao mesmo tempo um gesto ousado e belo de louis ck em tempos de 'curtidas'. o texto é lindo, os personagens tem histórias e dramas profundos e muito bem construídos, e o espectador - eu, pelo menos - vai roendo as unhas e torcendo pra que essas pessoas não se machuquem ou machuquem tanto. vã esperança.

a série tem muitos grandes momentos e o longo monólogo do terceiro episódio com sarah [laurie metcalf], ex-mulher de horace, contando um segredo de seu atual casamento é assombroso de sensacional. mas tem ainda, por exemplo, um diálogo absolutamente atual sobre sexo com pessoas trans no sétimo episódio, entre muitas outras coisas [aliás, esses dois links que coloquei são de uma usuária que subiu todos os episódios no youtube, mas não sei se vão durar muito]. outro destaque é o elenco que, além de louis ck e steve buscemi, tem os monstros edie falco, alan alda e jessica lange, e coadjuvantes como aidy bryant, tom noonan, rebecca hall, karen pittman, steven wright, george wallace, david blaine e até paul simon [autor da música-tema da série] em participação especial.  


na madrugada deste 9 de novembro, enquanto a contagem dos votos da eleição americana mostrava uma inescapável e assustadora vitória de donald trump, vi o último e devastador episódio da série. lá pelas tantas, um dos clientes do bar, interpretado por kurt metzger, lança uma teoria bastante sarcástica sobre trump. segue abaixo uma transcrição levemente editada do diálogo.

- Ei, sabe de uma coisa? Desmascarei o Trump. 
- Mesmo?
- Sim, ele é o cara mais necessitado do planeta. Tipo, ele é muito carente e realmente precisa ser presidente mais do que qualquer coisa, e todos vamos votar por ele, porque somos um país generoso e ajudamos as pessoas necessitadas. (...) Mas Trump tem um vazio presidencial, sacou? Nada além da presidência vai preencher este vazio, e ele vai agarrar como agarrou aqueles dez bilhões, por que quando ele conseguiu os dez bilhões, isso não preencheu seu vazio. Ele percebeu, oh meu Deus ainda tem mais espaço... e minha muitas esposas não o preenchem (...). Eu preciso ser o líder do Mundo Livre e todo mundo tem que me amar, como se ele soubesse do vazio dentro dele e tentasse preenchê-lo, entende? E a América, porque somos bons, vamos ajudá-lo!
- Ok, então todos vamos votar no Trump porque ele está triste e sofrendo? Então na verdade nós vamos deixar ele ser nosso presidente só para ser legais, gentis ou algo do tipo?
- Sim, sim, como o Batboy. Lembram do Batboy? Todos participamos disso.
- O que foi o Batboy?
- Um garoto com câncer que queria ser o Batman, então a cidade inteira dizia: “você é o Batman!”
- Eu tenho essa amiga, e ela tem dez anos de idade.  Enfim, conversei com ela noutro dia e ela disse que estava com dor no estômago, então ela disse pra mim, Big Boy... bem, ela me chama assim, de Big Boy... Ela disse, meu estômago tá doendo tanto que quero dar socos no meu estômago porque dói muito. E eu disse, bem, não é assim que funciona, Esmeralda. Se seu estômago dói e você machucar mais ele, então você fica mais machucada. Eu disse, você precisa achar o lugar em você que dói e ser gentil com ele, ser bom pra ele, dar-lhe leite e mel e remédios e você vai ficar bem e se curar... Depois pensei: "Se alguém é parte de você, como você faz para essa pessoa parar de te machucar?" É sendo bom para eles e sendo cuidadoso com eles e lhes dando leite e mel. Você precisa cuidar das pessoas pra elas não te machucarem.
- Sim, estamos todos conectados. Essa bobagem hippie é verdade. Não é só o Trump, esse é o nosso Trump, entendem? Ele está sofrendo, está inchado, temos que pôr gelo nele e botá-lo rápido dentro da Casa Branca.
- Não podemos só dizer pra ele que ele é o presidente? Não podemos apenas fingir pra que ele fique bem?
- Como o Batboy.
- Sim, como o Batboy.

e assim foi feito e os estados unidos da américa elegeram para presidente o garoto mais mimado da turma. e como horace and pete mostra... às vezes, não tem leite e mel suficientes para aplacar certos machucados.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

héloa & eu

uma das coisas certas na vida é que a música popular brasileira - que, bom frisar, é muito mais ampla que a tal mpb - nunca vai te deixar na mão. ano após ano tem gente boa aparecendo, gente ótima surgindo, jovens artistas amadurecendo, gêneros se firmando e se transformando, velhos artistas inquietos. enfim, tem surpresa por todos os lados e de muitas formas.

a cantora e multiartista héloa, sergipana radicada em são paulo, é uma dessas surpresas boas, refrescantes mesmo, e tive a honra de escrever o texto-release pra divulgar seu disco de estreia, o belo 'eu'. não fiz muitos releases na vida e antes deste, foram apenas três - trio esmeril [junior boca, guizado e mauricio takara], projeto manada e paulo carvalho - e é curioso ver um pouco da inquieta e atual diversidade musical brasileira nessa pequena amostra.

agora, sem mais blábláblá, o texto sobre o 'eu' de héloa e sua música.



Uma voz que canta ventos e avenidas, amizades e mudanças, sorrisos e silêncios, amores e lembranças... uma voz assim não se encontra todo dia. Héloa é a dona desta voz e o seu 'Eu' – estreia em disco dois anos após o EP ‘Solta’ - é uma espécie de autorretrato de uma artista em movimento.

A história e os sons de ‘Eu’ começam em Aracaju, Sergipe, terra natal da cantora. É lá que seus caminhos se abrem, é lá que começa a dançar, fazer teatro e artes visuais. E a compor. Amarrando tudo com uma voz de céu, sol e mar. Uma voz quente. 

E então, vem a mudança. No segundo semestre do ano passado, Héloa decidiu ir para São Paulo para gravar e encontrar ‘Eu’. Tal movimento é ilustrado no disco pela regravação de “Caravana” [Geraldo Azevedo e Alceu Valença]. Ela sabe que é inevitável se arriscar, se jogar no mundo, e soa muito pessoal e verdadeira quando canta, com um fraseado todo especial: “Corra, não pare, não pense demais / Repare essas velas no cais / Que a vida é cigana”. 

Antes de partir em “Caravana”, na vida e no disco, Héloa pede “proteção para minha estrada, que não me aconteça nada que atrapalhe esta jornada de viver” [“Proteção”, de Ruan Levy, é a a faixa que abre ‘Eu’]. Daí faz silêncio pra enxergar e se expressar melhor [na ótima “Calei”, de Allen Alencar, talvez a mais pop do disco] e se espreguiça apaixonadamente ao acordar lado a lado com o amor [“Amanheceu, seu sorriso”, de Allen Alencar]. 

Acompanhada pelos músicos e produtores Daniel Groove e João Vasconcelos, Héloa vai encontrando novos ‘eus’ em São Paulo, todos muito apaixonados e apaixonantes. Na linda “A avenida” [Héloa e Eduardo Escariz], a cantora lamenta perdas, procura respostas e guarda certezas no coração, e, em meio ao frenesi de uma cidade grande e nova, Héloa vai buscando tranquilidades na vida.

De música em música, e sem nunca se prender a rótulos, a cantora se coloca naturalmente como mais uma força a expandir e misturar os limites da música popular brasileira. Afinal, tem um tanto de afoxé em “A paz que desejei” [Eduardo Escariz], balada em “Super herói” [Daniel Groove], brega romântico em “Se você disser que vem” [Daniel Groove], bossa em “Crua” [Otto] e bluegrass em “Meus amigos” [Saulo Duarte e Daniel Groove]. Mas todas as canções de ‘Eu’ vão muito além de um gênero, muito além da velha e gasta mpb.

É que Héloa canta ventos e avenidas. Uma voz assim não se encontra todo dia.



p.s.: saiu o clipe de “Calei”.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

não vai ter selfie

o controle midiático da narrativa política é um troço avassalador. semana passada aconteceram em são paulo cinco atos #foratemer e em todos a polícia militar compareceu com sua violência habitual e selecionada. a desculpa policial é a mesma de sempre e é ilustrada pelas imagens da assessoria de comunicação da instituição [a grande imprensa, com ênfase na tv globo]: vândalos infiltrados queimam uns lixos, pixam umas paredes, vandalizam uns bancos, aí a polícia é obrigada a agir e dispersar a multidão. qualquer pessoa que tenha passado em qualquer manifestação de esquerda desde 2013 sabe que esse lixo queimado, essas fachadas quebradas de bancos e concessionárias só ocorrem APÓS a repressão policial.

foto: marlene bergamo

a linda manifestação deste domingo 4 de setembro, igualmente #foratemer, só que muito maior, mais longa e mais diversa, parecia que conseguiria driblar a narrativa conservadora com crianças, famílias, cinco horas de marcha absolutamente pacífica e sem acompanhamento da polícia. mas a pm não quis perder a viagem e soltou bombas, balas de borracha e jatos d'água após o fim do ato QUANDO MILHARES DE PESSOAS JÁ ESTAVAM INDO PARA SUAS CASAS e outras tinham ficado pelo largo da batata para beber uma saideira [isso devia ser um pouco depois de 8 e meia da noite].

a globo news, que tinha mostrado uns curtíssimos flashes da gigantesca manifestação - nas manifestações pelo impeachment era cobertura 24 horas, tinha convocação e o escambau -, rapidamente entrou ao vivo com lixos pegando fogo e acabou ditando a cobertura noite afora e nos jornais de hoje. ontem, a princípio, folha, estadão, bbc, el país e o globo deixaram bem claro que foi a pm, dando razões desencontradas, que começou gratuitamente a repressão. logo depois o discurso mudou. hoje o estadão nem deu foto na primeira capa e na chamada fala em tumulto. o jornalismo capacho de césar tralli no sptv falou que era "muito triste tudo isso". a folha deu foto na capa junto com um texto neutro, mas logo abaixo uma outra chamada, diretamente de um texto asqueroso do secretário de redação & revoltado online vinicius mota, falando que militantes de esquerda são burguersinhos que não respeitam o trabalhador pm e que a violência é de esquerda [o que é de um cinismo absurdo justamente quando a folha defendeu violência da pm em editorial na sexta].


para a grande imprensa, para a pm de geraldo alckmin, para o ministério público, para o governo GOLPISTA, os movimentos sociais, partidos de esquerda, defensores de dilma ou da democracia, não são manifestantes, não são brasileiros, são militantes pagos a preço de mortadela, vândalos arruaceiros e bandidos [e seus leitores/admiradores tem certeza absoluta que usam crianças como escudo humano]. a recorrência da narrativa do "vandalismo de esquerda" é um jeito de esvaziar as manifestações [para a esquerda] e criminalizar [para a direita] ao mesmo tempo. pra essa corja cínica não basta dar um golpe e roubar 54 milhões de votos, é preciso criminalizar e aniquilar a oposição progressista. eles estão vencendo e tudo fica mais fácil controlando a narrativa. não dá pra esperar que a história faça justiça ao que está acontecendo, é preciso contra atacar com ações e discurso, é preciso união de esquerdas [coisa rara, difícil, mas que aconteceu ontem por algumas horas]. 


p.s.: o baderna notícias, de belo horizonte, fez um belo apanhado da cobertura de ontem; o ator e roteirista gregório duvivier deu belas porradas no editorial da folha dentro da própria folha; tem também esse texto do matheus pichonelli ["os '40 que quebram carros' mandam um recado a temer: conecte-se ao mundo real"]; texto de jean wyllys em resposta ao secretário de redação da folha; ah, antes da manifestação de ontem, a polícia prendeu arbitrariamente cerca de 20 pessoas, alguns menores e outros que nem iam pra manifestação e aqui tem um relato assustador dessa história que ainda não acabou.



quarta-feira, 17 de agosto de 2016

uma deusa, uma rapper, uma feiticeira

sa-roc já tem um tempo nas rimas, uns 8 anos pelo menos, e produz muito e como alta qualidade desde o início. mas fiquei particularmente impressionado com uma série semanal que ela está fazendo no canal da rhymesayers entertainment no youtube. 'wisdom wednesdays' - ou 'quartas de sabedoria' - traz uma música inédita toda semana e acompanhada com vídeo e com download gratuito via soundcloud. altíssimo nível em tudo.



daí que fiz uma playlist juntando as cinco que já saíram ["queen ting", "word war 2", "what it's worth", "nfsw (not safe for weak rappers)" e "lord of the forest"] e vou atualizando aqui semana sim e outra também. 

saca só o poder da mina.

atualizações: "i come in peace" [24.08], "seven" [31.08].

terça-feira, 12 de julho de 2016

o fantasma dos que não conseguiram

perto da ilha onde fica a estátua da liberdade, em nova york, existe uma outra pequena ilha: ellis. de 1892 a 1954, ellis foi a principal entrada para imigrantes do mundo todo rumo ao "sonho americano" [estima-se que nestes 62 anos cerca de 12 milhões de pessoas passaram por lá e que 40% da atual população norte-americana possua pelo menos um ancestral que tenha cruzado seus portões]. a ilha foi durante muito tempo sinônimo de esperança e quem não se lembra do menino vito andolini que foi renomeado vito corleone, em 'poderoso chefão 2', justamente na sua chegada a ellis? vito chegou muito doente, como era comum na época após tantos dias no mar e com tão pouca comida, e permaneceu um tempo em ellis até receber alta. mas vito conseguiu colocar seus pés na tão sonhada américa. muitas e muitos não [geralmente por motivos de saúde].

em outubro de 2015, o artista plástico francês JR lançou o curta 'ellis', uma tocante homenagem aos que não conseguiram. com roteiro baseado em relatos reais assinado por eric roth ['forrest gump', 'munique', 'ali', 'benjamin button', etc.] e a presença, em corpo e voz, de robert de niro, o curta é um passeio bonito e dolorido pelas dependências do hospital da ilha e pelas intervenções que JR fez em 2014 a partir de fotos de anônimos sonhadores que passaram por lá. olha só.



"are you talking to me?"

aqui, algumas imagens de 'unframed', o trabalho que JR fez no hospital da ilha ellis. o hospital é aberto a visitação - acho que é a única parte aberta da ilha - e 'unframed' é uma exposição permanente.





p.s.: a trilha do curta, assinada por yoann "woodkid" lemoine [que também dirigiu clipes para katy perry, taylor swift, moby, john legend, drake e lana del rey] e nils frahm está no exystence, com direito ao monólogo de robert de niro.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

o cinema liberta

mukunda, narayana, govinda, bhagavan, krishna e jagadesh poderiam ser personagens do mítico ‘mahabharata’, mas, neste caso específico, são seis irmãos que passaram boa parte da infância e adolescência presos pelos pais [mais o pai que a mãe] em um apartamento de um conjunto habitacional em nova york. a explicação que lhes foi dada é que, basicamente, o mundo lá fora é hostil. então eles foram educados em casa [pela mãe] e se educaram pelo cinema, muito cinema. tanto cinema que até começaram a fazer versões próprias de alguns de seus filmes preferidos. os irmãos, sua história e a paixão pelo cinema estão no excelente documentário the wolfpack, da estreante crystal moselle. olha só o trailer...


o encontro da cineasta com os irmãos se deu por acaso na rua, numa das primeiras saídas deles após o início da ruptura com o pai, em 2010, e o filme levou quase cinco anos para ficar pronto. crystal moselle conta um tanto do processo nessa boa entrevista para a vice.


daí que o documentário abriu ainda mais as portas do mundo para os irmãos angulo e na estreia do longa em los angeles, a vice os acompanhou em encontros com os diretores william friedkin e david o. russell [o primeiro filme que os irmãos viram numa sala de cinema foi o lutador]. o resultado é bem educativo [cinematograficamente falando].


difícil saber o que futuro reserva para os irmãos, mas sua paixão pelo cinema é tão grande quanto sincera e, novamente com o apoio da vice, produziram seu primeiro trabalho autoral: mirror heart, um curta bonito e surreal.


já dá pra achar o filme em boas cópias nos torrents da vida [vai saber se passará nos cinemas aqui, além de um ou outro festival, ou na tv].

p.s.: the wolfpack ainda serviu pr'eu conhecer a linda "daylight", do músico e produtor dinamarquês peder.


quinta-feira, 24 de março de 2016

histórias do rap nacional, a série

totalmente ótima a primeira temporada de histórias do rap nacional, série em seis episódios escrita e comandada por ronald rios e exibida pela tv gazeta [ora veja só você, a gazeta]. apesar de errar em alguns poucos insights pessoais sobre o rap, nacional e gringo, ronald se mostra sempre atento e entusiasmado com o tema e colocou no ar um belo panorama histórico e atual sobre o gênero [majoritariamente em são paulo].


ronald e leandro, que ganhou um episódio totalmente 
dedicado ao seu alter ego emicida 

segue a lista da turma que aparece em cada episódio e, na sequência, todos os seis episódios numa mesma playlist de youtube.

episódio 1: rashid, tássia reis, rincon sapiência, bitrinho, lurdez da luz, lívia cruz, haikaiss, síntese, drika barbosa e rodrigo ogi

episódio 2: pepeu, thaíde, max b.o., dmn, gabriel o pensador, kamau e rappin hood

episódio 3: emicida

episódio 4: kl jay, edi rock, dj nyack, dj cia, wzy, dario, skeeter, dj hum e daniel ganjaman

episódio 5: rzo, rael, msário, sampa crew, de menos crime, gog, ndee naldinho, dbs, xis, renan inquérito e rico dalasam

episódio 6: criolo, rinha dos mcs, dj dandan, redniggaz, kauan, bivolt mc, flow mc, dj colorado, tvs, helibrown, marcelo gugu, guilherme treeze e matheus mc

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

77 músicas brasileiras de 2015

música muita música todo tempo música serve pra isso também né. na tradicional retrospectiva do esforçado já passaram os discos e músicas gringas de 2015, e também os discos nacionais. agora é a vez das canções brasileiras e então a lista aumentou. fechei em 77 músicas. setenta e sete! e poderiam ser maior, fácil fácil. por outro lado, senti falta de funk e tive a impressão que foi um ano no automático pro gênero [tanto no rio quanto em são paulo], mas posso ter comido bola. também não teve nada no mainstream de interessante – exceção ao naldo, mas sobretudo pelo encontro com mano brown –, e não lembro nada de particularmente divertido neste ano produzido pelo trio maravilha do pop feminino brasileiro: anitta, ludmilla e valesca popozuda [ivete já é medalhão pop rsrs]. 

como é de costume, tem artista aqui que não emplacou disco, tem disco que não emplacou música e a vida segue. enfim, a vida é escolhas [sonoras, inclusive] e estas 77 canções brasileiras são um pouco do que ouvi [e gostei bastante] neste ano. segue a playlist com todas e também a lista completa em ordem alfabética. destaque especial: "escola de luta", paródia linda e precária - e a favor da luta dos estudantes das escolas estaduais de são paulo - que a dupla mc foice & martelo fez para "baile de favela" do mc joão.


aláfia - "salve geral"
alessandra leão - "língua"
amiri & projetonave - "estalo" [clipe]
amplexos - "a tecnologia"
andré whoong - "vou parar de beber" [clipe]
arnaldo antunes - "põe fé que já é" [clipe]
ava rocha - "transeunte coração" [ao vivo]
baiana system - "playsom"
boogarins - "6000 dias" [clipe]
donatinho - "dança dos urubus" [part. dona onete]
barbara eugênia - "besta" [ao vivo]
bixiga 70 - "lembe"
black alien - "rolo compressor"
bnegão & seletores de frequência - "no ar (convocação)"
cícero - "a praia" [ao vivo]
cidadão instigado - "land of light" [ao vivo]
daniel groove - "jardim suspenso"
diogo strausz - "me ama" [part. kassin]
eddie - "tentei te ligar"
edi rock - "cava cava (parte 2)" [part. don pixote] [clipe]
elza soares - "a mulher do fim do mundo"
emicida - "chapa" [ao vivo]
fafá de belém - "asfalto amarelo"
flávio renegado - "redenção" [clipe]
gal costa - "jabitacá"
gog & projetonave - "heroínas e heróis" [clipe]
gui amabis - "eles eram humanos"
guizado - "cachoeiras" [ao vivo]
ian ramil - "coquetel molotov"
iconili - "jorge botafogo"
instituto - "alto zé do pinho" [part. sabotage, nação zumbi, otto e sombra]
jaloo - "insight" [clipe]
joão brasil & gaby amarantos - "garrafa de licor" [clipe]
jonathan tadeu - "começar de novo" [clipe]
karina buhr - "desperdiço-te-me"
karine alexandrino - "se não for certo, não quero" [clipe]
karol conká & tropkillaz - "é o poder
lay - "ghetto woman" [clipe]
letuce - "lugar para dois"     
liniker - "louise du brésil" [ao vivo]
lira - "ser" [ao vivo]
mahmundi - "eterno verão" [clipe]
marcelo callado - "breja" [ao vivo]
mariana aydar - "isso pode" [clipe]
mc foice & martelo - "escola de luta" [clipe]
metá metá - "atotô"
ná ozzetti & passo torto - "perder essa mulher"
ná ozzetti & zé miguel wisnik - "alegre cigarra"
naldo & mano brown - "benny e brown"
nectar gang - "medusa" [part. qualy] [clipe]
omulu - "vila mimosa"
oquadro - "jesus cristin"
orquestra brasileira de música jamaicana - "dub manifesto"
orquestra raiz - "outra vez" [part. diogo soares]
pélico - "olha só" [ao vivo]
peri pane - ""
rafael castro - "ciúme" [clipe]
ramonzin - "boom bap" [clipe]
rapadura – "é o terror (parte 2)" [clipe]
raphão alaafin - "rap sim rap não" [part. dj erry-g]
rashid - "a cena" [part. izzy gordon]
rodrigo campos - "chihiro" [part. ná ozzetti & juçara marçal]
rodrigo ogi - "ponto final"
romulo fróes - "porto"
senzala hi-tech - "pegada do vampiro" [clipe]
silva - "noite" [part. don l & lulu santos]
space charanga - "fakechá"
thiago ramil - "casca"
trupe chá de boldo - "diacho"
tulipa ruiz - "tafetá" [part. joão donato]
vicente barreto - "herança" [part. juçara marçal]
vitrola sintética - "minha garota" [part. maurício pereira & gustavo ruiz]
wado - "menino velho"
zé pi - "acredito" [part. barbara eugênia & karine carvalho]

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

65 discos brasileiros de 2015

já rolaram os discos e músicas gringas de 2015, então agora é a vez de falar daqui, de listar o que mais gostei do que ouvi aqui: artistas novos se firmando, iniciantes cheios de gás e voz, medalhões inquietos, um pouco mais da nossa costumeira efervescência musical. acabei fechando a minha lista [sempre e cada vez mais] inclusiva com 65 discos, mas destacarei 17 que estiveram mais muito mais próximos. pra facilitar minha vida separei esses 17 em 3 blocos: os raps, as mina e os mano.

ogi, emicida, instituto, black alien, bnegão, síntese & cia

os rap – tal e qual a gringolândia, o rap também é no brasil o gênero que tem mostrado mais originalidade, mais vontade de falar de assuntos diversos e urgentes, e de se misturar sem medos. isso, claro, não é de hoje, mas seis discos lançados este ano são prova clara que o rap brasileiro cresceu de uma forma absolutamente inequívoca. por exemplo rá!, o segundo disco do grande cronista paulistano rodrigo ogi, que é um passeio veloz e afiado pelos humores da cidade. e tem ainda samba e muita vida, e ocasionalmente sangue, em suas rimas. já sobre crianças, quadris, pesadelos e lições de casa, de emicida, a grande jovem estrela do gênero, é uma maravilha de diversa atualidade: é família, pop, pesado e ativista, tudo ao mesmo tempo, e com uma delicadeza e equilíbrio de dar inveja a muito veterano. 

transmutação e babylon by gus vol. II, dos contemporâneos, cariocas e ex-companheiros de planet hemp, bnegão e black alien, são produções extremamente bem acabadas, divertidas e com pegada [e como é bom ver e ouvir black alien de novo].

a volta do instituto, após 14 anos de sua estreia, com violar é outra prova de como o rap se tornou predominante e incontornável. até as músicas instrumentais do disco parecem rap, mas como se isso não bastasse, tem criolo, bnegão, karol conká, sombra e uma linda pérola póstuma de sabotage.

então, pra finalizar esse bloco de rap, um trabalho que entrou aos 48 do segundo tempo, síntese, akilez, kiko dinucci e thiago frança. encontro poderoso e ofegante esse do rapper de são josé dos campos com o produtor curitibano, o guitarrista guarulhense e o saxofonista mineiro [nada mais paulistano que isso]. síntese continua firme com um dos rappers mais originais da atualidade, apesar dos arroubos religiosos [ou devido a eles?].

elza, gal, alessandra, karina, letuce e tulipa

as mina – duas veteranas abrem esse bloco com discos absurdos de lindos. a mulher do fim do mundo é o encontro de elza soares com composições e músicos muito atuais e de são paulo. é trabalho poderoso, negro, rasgado, torto, sexual, melancólico e surpreendente. estratosférica é gal costa tinindo em delicadezas e com repertório também todo de inéditas. duas grandes mulheres artistas inquietas e atentas.

a jovem guarda feminina tem um tanto de pernambuco via são paulo com selvática, o mais regular e bonito disco de karina buhr, e os fortes e carnais eps aço e língua de alessandra leão [karina e alessandra foram companheiras de comadre fulozinha]. tem também rio de janeiro com estilhaça, o terceiro disco de letuce e que traz a cantora e compositora letícia novaes ainda à flor da pele, mas também conseguindo ser menos estritamente confessional e mais universal. pra encerrar o bloco, dancê, o mais recente, alegre e solto trabalho de tulipa ruiz.

jaloo, siba, lira, cidadão instigado e rodrigo campos

os mano – a grande surpresa deste ano, entre os manos, foi o #1 de jaloo. conhecido por seus remixes tecnobregas, o paraense fez um belíssimo, doce e dançante disco autoral. gosto de jaloo tem tempo, mas realmente não esperava um disco com tantas músicas tão bonitas. no mais, os feras de sempre aprontando mil e uma confusões: fortaleza, o quarto disco do cidadão instigado, é o que existe de melhor e mais pulsante no rock nacional; de baile solto do siba tem pernambuco, áfrica, guitarra e muitas outras coisas tão boas quanto; o igualmente pernambucano lira lançou seu segundo disco solo, o labirinto e o desmantelo, e sua poesia está cada vez mais apurada e dolorida; por último e não menos importante, o delicado conversas com toshiro, terceiro e mais maduro disco de rodrigo campos.

aqui, a lista completa com os 65 discos:

aláfia - corpura
alessandra leão – aço/língua EPs
amplexos - sendeiro
andreia dias - prisioneira do amor
as bahias e a cozinha mineira - mulher
barbara eugênia - frou frou
bixiga 70 - III
bnegão & seletores de frequência - transmutação
boogarins - manual
cícero - a praia
cidadão instigado - fortaleza
daniel groove - romance pra depois
diogo strausz - spectrum vol. 1
eddie - morte e vida
fabio góes - zonzo
frito sampler - aladins bakunins
gal costa - estratosférica
gui amabis - ruivo em sangue
hélio flanders - uma temporada fora de mim
iconili - piacó
instituto - violar
jaloo - #1
juçara marçal e cadu tenório - anganga
karina buhr - selvática
karine alexandrino - mulher tombada
letuce - estilhaça
liniker - cru EP
mariana aydar - pedaço duma asa
metá metá - metá metá EP
ná ozzetti e zé miguel wisnik - ná e zé
ná ozzetti & passo torto - thiago frança
odair josé - dia 16
orquestra brasileira de música jamaicana - obmj ataca!
orquestra raiz - as américas
pélico - euforia
qinho - ímpar
rafael castro - um chopp e um sundae
raphão alaafin - eu gosto
rodrigo campos - conversas com toshiro
rodrigo ogi - rá!
romulo froés - por elas sem elas
silva - júpiter
space charanga - r.a.n. (rhythm and noise)
thiago ramil - leve embora
trupe chá de boldo - presente
tulipa ruiz - dancê
vicente barreto - cambaco
vitrola sintética - sintético
wado - 1977
zé manoel - canção e silêncio
zé pi - rizar
síntese, akilez, kiko dinucci & thiago frança