sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

sobre quatro gordos numa loja de penhores

muito bem, chegamos então ao fim de mais um ciclo. o texto que segue abaixo foi o último que fiz como editor da revista monet (os dois últimos parágrafos, aliás, foram escritos após a notícia da demissão) e surgiu de um convite do history channel para entrevistar os protagonistas do reality show trato feito. do mesmo jeito que aconteceu na minha reportagem sobre outro reality, à prova de tudo (discovery), não tinha visto nem um episódio do programa antes do convite, mas diferentemente das aventuras do inglês em terras inóspitas, essa atração televisiva me interessou mais (tem briga de família, interação, doses de história, etc). e teve a viagem a las vegas, uma cidade que jamais entraria na minha rota turística pelos estados unidos.

apesar de ter achado a cidade um lixo, a viagem em si foi agradável, com direito a conversas bem divertidas, e numa mistura curiosas de três línguas, com o pessoal do history (daniela zavala, dana e joseph) e com colegas jornalistas como a argentina valentina ruderman (la nación), a colombiana liliana lópez sorzano (el espectador) e o carioca natanael damasceno (o globo). interessante comparar textos diferentes a partir de um mesmo evento.


corey, rick, chumlee e old man, ao lado da loja gold & silver

PENHORES E DELÍRIOS EM LAS VEGAS

Fomos ver de perto porque a Cidade do Pecado é uma inspiração para Trato Feito, reality que coloca três gerações fazendo negócios, comprando e vendendo história

Não sei como vim parar nesse lugar. Mentira, sei sim. Me confiaram uma missão. Mas que lugar é esse? Estou no meio do deserto, o céu é tão azul e sem nuvens que parece de mentira e do outro lado da avenida a Torre Eiffel e o Arco do Triunfo disputam espaço no mesmo quarteirão. Ao meu lado, Homer Simpson balança a pança com alguns dólares pendurados na sunga preta, enquanto um transformer Autobot (ou seria Decepticon?) descansa as pernas no ponto de ônibus. Tudo parece fora do lugar, não é possível. Mas a verdade é que tudo é real e está bem aqui, diante dos meus olhos. Não bebi e nem ingeri nada. Juro pelo Santo Hunter Thompson! É que me deram uma missão, lembra? Conhecer a loja de penhores Gold & Silver, cenário do reality Trato Feito, e entrevistar Rick Harrison, seu filho Corey Harrison e o amigo Chumlee, protagonistas de um dos mais bem sucedidos programas do History Channel.

Só que ainda falta um chão para esse encontro acontecer, então vou matando tempo atravessando a pé cassinos, passarelas, lojas de luxo, calçadas desertas e gigantescos terrenos baldios, desviando de um Buzz Lightyear aqui, um Jack Sparrow acolá, e de um vento frio que vem do deserto. Nessa cidade-cenário, terra natal de todas as limusines, o conceito de shopping foi elevado a categoria de espetáculo e tudo é construído para que não se saiba se é dia ou noite e que não exista limites para a diversão. Mas eu vim a trabalho, portanto...

Passo então a procurar vestígios do passado romântico de Las Vegas. Não encontro nada de Frank Sinatra, Sammy Davis Jr., Dean Martin e aquela turma toda da pesada. Muito menos dos mafiosos clássicos, reais ou não, que comandaram a cidade até a década de 1960, gente como Bugsy Siegel (Bugsy), os Corleones (O Poderoso Chefão 2), Frank “Lefty” Rosenthal (que inspirou o personagem Sam “Ace” Rothstein de Cassino) e Charlie “Lucky” Luciano (Lucky Luciano). Vegas vive em um presente contínuo, como naquele ditado popularizado por Hollywood: “O que acontece em Vegas, fica em Vegas.”

Curioso que é exatamente do passado que vive Trato Feito, afinal em seus episódios as três gerações do clã Harrison avaliam, compram ou descartam uniformes militares do início do século 20, rifles do Velho Oeste, espadas samurais, livros antigos e assim por diante. E qual a ligação disso com Las Vegas? “O programa tem tudo a ver porque essa cidade gira em torno de negócios e dinheiro”, explicou mais tarde Mary E. Donahue, produtora executiva do History Channel, em encontro com a imprensa. “Mas credito o sucesso a outros fatores: a dinâmica familiar dos Harrison, porque eles são muito engraçados; a combinação deles com os outros personagens, os especialistas e o pessoal que trabalha na loja, com destaque para o Chumlee, claro; e o fato de que como ainda estamos vivendo uma recessão econômica as pessoas alimentam esse sonho de achar um bilhete premiado entre as coisas velhas da família.”

Distante pouco mais de três quilômetros dos cassinos centrais da cidade, a loja Gold & Silver segue em sua movimentada rotina 24 horas. Já é noite e a lua parece tão cheia no céu que fico imaginando se não é um canhão de luz. Vai saber. Certo mesmo é que o encontro com os Harrison e Chumlee será no dia seguinte, então o objetivo do momento é ficar de olhos e ouvidos abertos durante um tour pelo estabelecimento guiado por Andy, o gerente novaiorquino gente boa (“Costumo dizer que coleciono apenas salários e bons sentimentos”).

A loja existe desde 1988. Antes do programa, de 50 a 70 pessoas passavam nela por dia, atualmente são 3000, mais ou menos. Como as outras 43 lojas de penhores da cidade, somos obrigados a mandar um relatório diário para a polícia local e o FBI com a movimentação diária da loja, principalmente do que entra, para não sermos condenados como receptores de roubo. As regras aqui em Nevada são duras. O que movimenta realmente os negócios são itens em ouro e prata, além de jóias, e nossos clientes geralmente vendem mais do que penhoram. A taxa de resgate de uma penhora ficava por volta de 90%, mas depois da crise em 2008, esse número caiu pra 70%. Já passaram por aqui personalidades como o lutador Randy Couture, a atriz Mary Olsen, e os músicos Bob Dylan e Alice Cooper. Alguns objetos aqui não estão à venda por preço algum, pois ajudam a atrair turistas.

Andy continua falando e as paredes da Gold & Silver, tantas vezes vistas na TV, começam a brilhar com seus quadros de Dali, Picasso e Chagall, uma camisa do cowboy cantor Roy Rogers, o calendário original com Marilyn Monroe nua lançado em 1952, uma espada samurai do século 15, entre tantas outras coisas. A loja não é grande, mesmo após ter sofrido algumas reformas e ampliações significativas nos últimos anos, e a olhos nus nada nela impressiona, mas, ao mesmo tempo, possui algo que falta na cidade: respeito e cuidado pela história (nem que seja por motivos comerciais). Hora de ir embora.


Respeitável público! Com vocês...

Amanheceu e algumas dezenas de jornalistas de várias partes do mundo são divididos em grupos para as entrevistas. No meu ficam uma argentina, uma colombiana, uma mexicana e dois canadenses. Rick Harrison, seu filho Corey e o amigo Chumlee estão cada um em uma suíte nos esperando – como já havia sido avisado, o Velho Harrison não tem paciência para essas demandas de publicidade - e teremos algo em torno de 20 minutos com cada um. Começamos com Rick, o verdadeiro protagonista de Trato Feito.

“Durante quatro anos tentei emplacar uma versão desse programa e em um dos canais me disseram que ninguém ia querer ver na TV quatro gordos numa loja de penhores”, explica entre gargalhadas o jovem pai de família e empresário de 44 anos. A virada no destino aconteceu quando o pessoal de uma produtora de Nova York veio para uma festa de solteiro em Vegas e entre uma bebida e outra saíram em busca de um negócio familiar que pudesse ser transformado em reality show. Acharam os Harrison.

“Sou muito nerd. De verdade. Leio muita coisa, livros obscuros, história, ciência e quase nunca vejo televisão, acho meio chato, que o pessoal do History não me ouça”, e dispara novas gargalhadas. Mas porque então tanta insistência na TV? “Porque seria bom para os negócios, ué. Dinheiro é a minha segunda ou terceira coisa preferida no mundo. Mas atualmente, o grande negócio é vender camisetas com a cara do Chumlee.” 

Só que brincadeiras e sentimentos à parte, Rick diz à MONET que coisas são apenas coisas: “Tenho objetos dos meus avós, mas se chega em um ponto que preciso escolher entre alimentar minha família e manter o canivete suíço do meu tataravô... bem, existem assuntos mais importantes.” Existem mesmo, mas é hora de partir para a outra suíte.

Corey não é o único filho de Rick, mas como o outro (Adam) é encanador e não liga a mínima para a loja e foi sobre ele que recaiu a responsabilidade de seguir com a tradição familiar. Ele não reclama, pelo contrário. “Sempre soube que iria trabalhar lá e até tive outros empregos, mas sabe quando você é bom em uma coisa e nem sabe direito qual o motivo? Às vezes brinco com o meu pai... porque hoje em dia tanto eu quanto ele não precisamos ir na loja todos os dias, muito menos o Velho. E mesmo assim vamos todo santo dia. É que não sabemos fazer outra coisa.”

E não adianta colecionar motos, participar de corridas, nem passar algumas horas na cadeia por causa de uma briga de bar (como aconteceu em março do ano passado), Corey só pensa em uma coisa. “O que mudou na loja? O tanto de pessoas. Éramos 13 trabalhando na loja e agora somos 60. Em um dia agitado fazíamos umas 17 transações, enquanto agora, em época de férias, chegamos a ter umas 750. É um caos controlado, digamos assim, porque precisamos equilibrar a onda de turistas e os negócios do dia-a-dia”, explica à MONET.

É isso. Gold & Silver, faça chuva ou sol. Tanto que Corey adora relembrar histórias de clientes, principalmente os malucos que aparecem na madrugada diante da folclórica “Night Window” (a janela blindada na frente da loja que funciona 24h). “Teve aquela senhora que chegou perguntando se a gente comprava dente de ouro. Disse que sim. Aí ela saiu e voltou uns 20 minutos depois com a boca cheia de algodões ensanguetados. ‘Quanto você me paga por esses aqui?’, disse. Respondi que uns 40 dólares. Ela topou, recebeu o dinheiro e foi embora.” Claro que Corey não teve a indelicadeza de perguntar por que ela fez isso, afinal negócios são negócios, os motivos dela são coisa dela e ouro é ouro. Fim de papo.

Diferente de Rick e Corey, Chumlee recebe os jornalistas de óculos escuros. É o único solteiro do trio e provavelmente deve ter dormido tarde. Amigo de infância de Corey, o rapaz nascido na Califórnia e criado em Vegas é o principal motivo de risadas de Trato Feito e acabou, para a surpresa de todos, tornando-se o rosto mais famoso da loja e estampando dezenas de modelos de camisetas. “É um pouco estranho cruzar na rua com alguém vestindo uma camiseta com a minha cara, mas é legal também. Não tenho nenhuma, mas minha mãe se recusa a usar qualquer outra camiseta que não seja do Chumlee. Acho que as pessoas se identificam comigo e veem que sou de verdade, que sou honesto.”

Ele não parece deslumbrado, mas não consegue esconder a euforia de ter encontrado ídolos como Ozzy Osbourne e Bon Jovi que o conheciam da TV. “Não me vejo como um coadjuvante cômico (sidekick). Tento apenas viver cada dia sendo eu. Mas gosto da minha posição”, confessa à MONET o amante de games antigos e novos que ainda disse que se não trabalhasse com os Harrison provavelmente seria eletricista. “Mas em outro Estado porque o emprego está difícil aqui em Vegas”, e exemplifica com a notícia que um grande hotel & cassino que, construído recentemente, deverá ser implodido porque fizeram algo errado nas fundações. Resultado? Não existe previsão de retomada nas obras. 

Mas isso não interessa ao Chumlee de hoje em dia porque ele aprendeu muito bem no trabalho com os Harrison que “ouro é o melhor negócio. Você pode comprar algo hoje e vender amanhã com algum lucro. Qualquer outra coisa precisa ficar na loja até o comprador certo aparecer.” Ele já sabe que quem fica parado no deserto o vento leva. 

Um comentário:

Anônimo disse...

Oi... Vc sabe de alguma matéria em português sobre o Corey Harrison ter sido preso?