terça-feira, 31 de março de 2009

samba 65

março tá acabando. e exatos três anos atrás saiu um texto meu na saudosa bizz de ricardo alexandre. a pauta veio dele: o encontro do pessoal da bossa nova com os compositores do morro, ano de 1965. e na revista ficou entre uma matéria sobre o evanescence (a capa) e uma entrevista com o fatboy slim.

um de meus textos mais longos, uma das reportagens mais complexas que tive nas mãos (e aí vai um agradecimento especial a ronaldo evangelista que ajudou a descascar o abacaxi). detalhe importante: a imagem que ilustra o texto é do indispensável acervo hermínio bello de carvalho.

CONEXÃO ENTRE O MORRO E O ASFALTO

Ou de como Zé Kéti, Nara Leão, Cartola, Carlos Lyra e outros bambas tentaram, aos trancos e barrancos, estabelecer uma ponte entre a bossa nova e o samba

As balas perdidas não mentem: o asfalto e o morro não se entendem mais, e isso não é de hoje. Mas no terreno da música tudo vai muito bem, obrigado: o samba é a voz de toda uma nova geração, da Lapa carioca até a Vila Madalena paulistana e espalhada por todo o Brasil. Hoje é fácil Marcelo D2 dizer que “Você quer sair do gueto / Mas a sua mente é o gueto / Você quer fugir do gueto / Mas o mundo inteiro é o gueto”, mas quando Nara Leão gravou, no início da década de 1960, sambas de compositores do morro então desconhecidos, como Zé Kéti, o buraco era mais embaixo. Uma cantora branca, moradora de um apartamento com vista para o mar e ligada à bem sucedida, e também jovem, bossa nova cantando sambas de compositores negros e mais velhos sobre a realidade dos morros soou estranho para muita gente. A bossa nova de barquinhos e tardinhas deveria ser engajada? O morro e o asfalto podiam se entender? A criação, em 1961, do Centro de Cultura Popular da UNE e o surgimento, em 1963, do Zicartola, a primeira casa de samba do Brasil, estabeleceram as primeiras conexões entre pontas soltas da realidade social e musical brasileira.

“Na bossa nova era muito uma questão de forma, e depois de um tempo tudo foi se tornando uma mesmice”, diz o violonista e compositor Carlos Lyra. Autor de clássicos como “Lobo bobo”, “Saudade fez um samba” e “Maria Ninguém”, gravadas por João Gilberto em seu primeiro LP, Chega de saudade (1959), Lyra foi um dos membros mais ativos e polêmicos da primeira geração da bossa nova. “A forma era importante, mas eu também queria que houvesse uma preocupação maior com o conteúdo e que tivesse realidade nas letras", esclarece, tomando para si os méritos de ter dado o pontapé inicial à criação de uma bossa nova mais “realista”.

Ligado ao Partido Comunista e ao Teatro de Arena, Lyra foi um dos fundadores, ao lado do ator e dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho (Vianinha), do poeta Ferreira Gullar e do cineasta Leon Hirszman, do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes, o CPC-UNE, em 1961. "Fiz parte desse sonho do CPC de mudar o Brasil. Era um ambiente muito democrático e muito produtivo, apesar do pouco dinheiro que tínhamos", relembra Lyra. O CPC atuou em diversas áreas culturais, desde o cinema e o teatro até a literatura, mas foi no terreno mais acessível da música que teve seu maior cartaz. “Nosso objetivo era procurar a raiz da música brasileira nos morros e no Nordeste. Isso daria um conteúdo realista para a música que vinha da bossa nova”, diz Lyra. Era uma doce utopia este encontro sem ressentimentos entre os intelectuais e músicos burgueses cariocas e os compositores das periferias de então, mas de real mesmo aconteceu, em dezembro de 1962, a 1ª Noite da Música Popular Brasileira no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, reunindo Pixinguinha, Vinicius de Moraes e a bateria da Portela.

De fora dos movimentos estudantis e da música cantada pela Zona Sul carioca, e dentro do mundo das escolas de samba, o então pouco conhecido compositor Elton Medeiros relembra o período: “O pessoal da bossa nova tinha um interesse legítimo na realidade social brasileira e mesmo os que não eram politizados traziam uma atitude de renovação. E se provoca uma transformação cultural, tem um cunho ideológico, consciente ou não”. No entanto, não deixa de ser esclarecedor que por trás das boas intenções da diretoria do CPC existisse um discurso extremamente elitista, fruto da intelectualidade da UNE. Publicado em 1962, o Manifesto do CPC-UNE definiu a instituição como “fruto da própria iniciativa, da própria combatividade criadora do povo” para logo depois afirmar que “os membros do CPC optaram por ser povo”. Tal atitude paternalista não passava de populismo que acabava sendo revelado, sem meias palavras, em outro trecho do manifesto: “a arte do povo é tão desprovida de qualidade artística e de pretensões culturais que nunca vai além de uma tentativa tosca e desajeitada de exprimir fatos triviais dados à sensibilidade mais embotada”. Existia um grande, imenso, abismo entre o povo idealizado pela UNE e o povo real, qualquer que fosse ele.

hermínio sentadinho no palco improvisado com
nelson cavaquinho ao violão e zé keti cantando


Mas não existia nada de tosco ou desajeitado nas músicas de Cartola, Zé Kétti e Nelson Cavaquinho, presenças regulares nos shows produzidos pelo próprio CPC nas universidades. “São compositores maravilhosos, muito fortes, e foi revitalizador este encontro porque era um contraste muito estimulante”, afirma Lyra. Faltava somente um lugar para todos se encontrarem e ainda comer, beber, selar parcerias, salvar o Brasil e o mundo, fazer e ouvir música. No ano de 1963, em um sobrado na Rua da Carioca, número 53, centro do Rio de Janeiro, surgiu o Zicartola, restaurante e bar comandado pelo sambista Cartola e sua mulher, Dona Zica. “Foi a primeira casa de samba do país", afirma o jornalista Sérgio Cabral. Opinião compartilhada com o compositor, poeta e produtor musical Hermínio Bello de Carvalho: “O Zicartola era um reduto de intelectuais de esquerda, e era o centro de discussões estéticas importantes para o cinema, a dramaturgia e a música popular. Digo sempre que ali se fincaram as raízes de dois importantes musicais: o Rosa de Ouro e o Opinião, onde levado pelo amigo Vianinha, estreei como compositor”. Outro freqüentador, Elton Medeiros, chegou ao bar para mostrar seus sambas e se apresentar, mas acabou conhecendo “o pessoal da Zona Sul”. “Era um lugar para ouvir e cantar junto, mas também de trocas entre pessoas que tinham preocupações semelhantes. O pessoal do Cinema Novo, do CPC, artistas plásticos, jornalistas, escritores, sambistas e muitos outros. Nunca existiu nada parecido nem antes nem depois em todo o Brasil”, acredita.

O Zicartola não possuía luxo algum, mas tinha um cardápio com sambas de todos os tipos e idades. “O idealizador das noitadas musicais do Zicartola foi, indiscutivelmente, o Zé Kéti. Eu apenas formatei a parte musical e, inclusive, datilografava os cardápios iniciais da casa”, explicou Hermínio sobre os shows de quartas e sextas. Outros dois amigos, Sérgio Cabral e Albino Pinheiro (fundador da Banda de Ipanema), também faziam as vezes de produtores musicais. “Tinha muito improviso. Por exemplo, eu inventei a Ordem da Cartola Dourada para agraciar os convidados especiais que iam lá dar uma força pro Cartola”, seguiu Hermínio nas lembranças e Cabral completou que “foi um jeito de chamar músicos que de outra forma não iriam porque não tínhamos cachê. Desse jeito apareceram Tom Jobim, Dorival Caymmi, Ataulfo Alves, Elizeth Cardoso, um monte de gente. Aí rolava sempre uma canja”. Jovens talentos também apareciam e um deles, o tímido Paulinho da Viola, veio por insistência de Hermínio.

Casa cheia, muita música, muitos planos e em meio a toda esta movimentação Cartola via sua carreira de compositor tomar um novo fôlego, após mais de vinte anos de silêncio e pobreza. No entanto, corria 1964, o ano que viu a manhã do dia 1º de abril ser tomada por tanques em muitas capitais e os militares darem um golpe de Estado, depondo o presidente João Goulart. A UNE foi extinta (e consequentemente o CPC), sua sede foi queimada e todos os seus membros foram presos ou colocados sob vigilância. O Zicartola sobreviveu, mas com medo.

Curiosamente, a primeira alfinetada da música brasileira em direção aos militares veio pela voz de um jovem cantora estreante, Nara Leão, que lançou seus dois primeiros LPs em 1964. O LP de estréia, Nara, trouxe Nelson Cavaquinho (“Luz negra”), Zé Kéti (“Diz que fui por aí”) e a dobradinha Cartola e Elton Medeiros (“O sol nascerá”), além do primeiro hino pós-golpe, assinado por Carlos Lyra e Vinicius de Moraes (“Marcha da quarta-feira de cinzas”), com seus melancólicos versos “Acabou nosso carnaval / Ninguém ouve cantar canções”. Na seqüência veio Opinião de Nara com mais Zé Kéti (“Acender as velas” e “Opinião”) e a chegada de João do Vale (“Sina de caboclo”). Todos freqüentadores do Zicartola. Em ambos os discos uma hábil mistura de bossa nova e samba, alegria e melancolia, e a opinião de Nara, através dos versos de Zé Kéti, era bem clara: “Podem me prender / Podem me bater / Podem até deixar-me sem comer / Que eu não mudo de opinião / Daqui do morro eu não saio não”.

Mas Opinião acabou indo mais longe e rachou de vez a turma da bossa nova. Em inúmeras entrevistas da época Nara renegou o gênero “alienado” e defendeu o “samba puro” e a “expressão do povo”. A réplica da turma, e de alguns setores da imprensa carioca, não tardou e a musa do protesto foi chamada de “ingrata” por cuspir no prato que lhe deu fama e “oportunista” por cantar as mazelas do povo brasileiro no conforto de seu apartamento com vista para o mar. Os irmãos Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle foram os mais diretos em “A resposta” (gravada em 1965 no disco O compositor e o cantor, de Marcos): “O samba pode ser feito de céu e de mar / O samba bom é aquele que o povo cantar / De fome basta a que o povo na vida já tem / Pra que lhe fazer cantar isso também? / (...) Falar de terra na areia do Arpoador / Quem pelo pobre na vida não faz um favor / Falar de morro morando na frente do mar / Não vai fazer ninguém melhorar”. Zé Kétti, Cartola & Cia. passavam ao largo desta discussão de comadres, afinal estavam sendo gravados, faziam shows e isso era dinheiro no bolso. Eles, que eram brancos, que se entendessem.

O cenário de repressão nas ruas deu um caráter de urgência para o show Opinião que reuniu, em um mesmo palco, a jovem branca bem nascida Nara Leão, o sambista negro Zé Kéti e o nordestino, também negro, João do Vale. Burguesia, operariado e campesinato, juntos. Uma utopia musical criada nas mesas do Zicartola por integrantes do recém-extinto CPC. Dirigido por Augusto Boal do Teatro de Arena, escrito por Vianinha e com produção musical de Carlos Lyra, o show estreou em 11 de dezembro de 1964 no pequeno Teatro Super Shopping Center, em Copacabana, e logo passou da condição de pequeno espetáculo para se transformar em evento político de amplas proporções. Ir ao Opinião significava ser contra a ditadura e a favor da democracia e da liberdade e não havia nada que os militares pudessem fazer contra o espetáculo, pois qualquer intervenção acarretaria um desgaste político que as Forças Armadas ainda não estavam prontas para bancar. Nara Leão não perdia tempo e em determinado momento do show afirmava delicadamente: “Não acho que porque vivo em Copacabana só posso cantar determinado estilo de música. Mas é mais ou menos isso, quero cantar toda música que ajude a gente a ser mais brasileiro. Que faça todo mundo querer ser mais livre. Que ensine a aceitar tudo, menos o que pode ser mudado”.

Os problemas da reforma agrária e das favelas, as desigualdades sociais e a defesa da cultura brasileira estavam representados em músicas como “Carcará”, “O favelado”, “Sina de caboclo”, “Marcha da quarta-feira de cinzas”, “Malvadeza Durão” e até “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, da trilha sonora do filme homônimo de Glauber Rocha. Porém, com pouco mais de um mês de apresentações, Nara Leão pediu licença por motivo de estafa e em fevereiro de 1965 uma cantora conhecida apenas no circuito universitário de Salvador ocupou seu lugar. Seu nome, Maria Bethânia. O registro do show em LP, no entanto, saiu logo no início de 1965 e não capturou a elogiada participação da cantora baiana.

“O Opinião tinha uma preocupação igualitária e passava um sentido de agregação muito bonito. Era o projeto de um país, um país que é nosso, não das Forças Armadas, nem dos advogados, nem do marceneiro ou do pedreiro”, explicou Elton Medeiros, que começava a ter suas composições gravadas, entre elas a nada política “Mascarada”, marcha feita em parceria com Zé Kéti. Após a saída , Nara voltou aos estúdios para gravar o LP O canto livre de Nara e registrar novas composições de Zé Kéti (“Malvadeza Durão” e “Nega Dina”) e João do Vale (“Carcará”), estouradas por causa do show-evento, além de “Samba da legalidade”, uma parceria inédita entre Carlos Lyra e Zé Kéti que foi, apesar de tantos encontros e boas vontades, a única concretização musical entre os compositores do morro e do asfalto.

Paralelamente ao Opinião, mas com ênfase no samba urbano e na cultura popular, aconteceu também o show Rosa de Ouro que reuniu uma cantora veterana (Araci Côrtes), uma iniciante com mais de sessenta anos (Clementina de Jesus) e um jovem grupo de compositores e instrumentistas liderado por Zé Kéti (Paulinho da Viola, Nelson Sargento, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho e Anescarzinho do Salgueiro), tudo sob a direção e produção de Hermínio Bello de Carvalho. Menos político e mais musical, o Rosa de Ouro ganhou registro em vinil no mesmo ano de 1965 e ainda teve uma segunda edição dois anos depois. O tal grupo de acompanhamento vivia nas mesas e noites do Zicartola e devido ao sucesso do show adotou oficialmente o nome de A Voz do Morro e lançou dois discos intitulados Roda de samba também em 1965. “Os shows Opinião e Rosa de Ouro são filhos legítimos do Zicartola e foram a concretização de um casamento entre a classe média e o morro”, atestou Sérgio Cabral. Tudo parecia correr às mil maravilhas, mesmo sob o manto de uma crescente repressão, mas o que era de vidro finalmente quebrou-se.

Apesar de viver lotado, o Zicartola fechou as portas em 1965 por dificuldades financeiras, afinal Cartola sabia muito de música e nada de números (e os clientes e amigos viviam pendurando as contas além de, ironicamente, o show Opinião ter garfado uma boa parte do público do bar). Chegou ao fim, após quase dois anos de existência, o mais importante ponto de encontro cultural entre a Zona Norte e a Zona Sul. Se a bossa nova continuava a fazer cada vez mais sucesso no exterior cristalizando-se enquanto fórmula, no Brasil passou a se misturar com outros ritmos e gêneros dando início ao que se convencionou chamar de MPB. O samba estava incluído nesse balaio, mas novamente deixou de ser o protagonista com a entrada de novos atores e atrizes.

Mesmo à margem, o samba conseguiu garantir seu nicho no mercado fonográfico após as experiências do Zicartola, do Opinião e do Rosa de Ouro. Produtores como Hermínio Bello de Carvalho e os paulistas Fernando Faro, J. C. Botezelli (Pelão) e Marcus Pereira conseguiram lançar, no final da década de 1960 e durante os anos 70, os primeiros LPs solo de Cartola, Nelson Cavaquinho, Clementina de Jesus e Elton Medeiros, entre outros. Paulinho da Viola saiu do grupo A Voz do Morro após o terceiro e último disco (Os sambistas, 1966), estreou ao lado do amigo e parceiro Elton Medeiros no LP Na madrugada (1966) e deu início a uma bem sucedida carreira solo unindo as pontas soltas do encontro do samba com a bossa nova, e ainda acrescentando sua formação de choro. O jovem estreante Chico Buarque também construiu sua carreira a partir deste encontro. Todos juntos ampliaram ainda mais a área de influência do samba dentro da música popular brasileira possibilitando que o gênero fosse misturado a outros nas décadas seguintes e surgissem provocações como as de Chico Science e sua Nação Zumbi. Afinal, não importa de que lado você samba, desde que sambe bem.

3 comentários:

Julio Cesar Corrêa disse...

Excelente! Excelente! Dissestes tudo!
abração

dafne sampaio disse...

olá julio, obrigado pelos dois 'excelente' e principalmente pelo 'dissestes tudo'. bondade sua, tem mais coisa ainda pra dizer...

mario disse...

Dafne, tinha o exemplar da Bizz de 2007 com essa matéria e usava em sala de aula para o trabalho de Metodologia Científica. Perdi o exemplar e a cópia da matéria. Sei que o conteúdo na íntegra está aqui publicado, mas por se tratar da disciplina de Metodologia Científica, faz toda a diferença ser a revista invés de a fonte ser o seu blog. Nesse sentido, peço gentilmente, se você tiver a matéria digitalizada da própria revista, que me envie o arquivo por email. Desde já, agradeço e aproveito para elogiar a matéria. Faço questão de usá-la em sala de aula.
Mario Offenburger
spalemao@gmail.com
(11) 9628.6553