segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

onfalofobia, as entrevistas

seguem aqui a íntegra de quatro das cinco entrevistas que fiz com a turma que tem aflição de umbigos. elas [e ele] são protagonistas da reportagem que fiz pra edição de novembro da revista trip. carolina toledo, minha mulher e musa inspirada da vida [e da pauta], ficou de fora porque a entrevista com ela não teve essa formalidade das outras.


fotos de Frederic Fontenoy

BIA LINS, arquiteta, Curitiba-PR

Quando falo em umbigo qual primeira coisa que vem na sua cabeça?
A primeira coisa que vem à minha cabeça é AGONIA. E o ato reflexo imediato é pensar em proteger essa área do corpo.

Quando você sentiu essa aflição de umbigo pela primeira vez? O que vc sentiu?
A sensação de agonia no umbigo parece ter me acompanhado desde cedo. A primeira recordação que tenho de mal estar é minha mãe brincando comigo, uns dois aninhos, de fazer cócegas, passar pelo umbigo e eu chorar porque doía. Reconheci a existência do umbigo e que ele dói.

Como você descreveria a sensação?
A sensação de agonia no umbigo passa por vários sentidos. O mais delicado deles com certeza é táctil. É como se fosse uma ferida em recuperação, mas muito sensível ainda. Você sabe que ali tem um machucado e protege automaticamente. Quase uma coisa de reflexo. Uma ferida de EXISTIR. Ouvir a palavra UMBIGO também gera desconforto e ver umbigos em imagens ou pessoalmente também é estranho, especialmente quando são aqueles umbigos pra fora. Aquela bolota ali dá arrepios na nuca. Mas a sensação mais forte é sensorial mesmo. Não é algo que passe pela razão, que você saiba atribuir uma causa, ou explicar claramente o que sente, mas se tivesse que escolher umas palavras seriam: dor, mal estar, insegurança, vulnerabilidade.

A aflição é com o seu umbigo ou com umbigos em geral? Existem tipos de umbigos que dão mais aflição que outros?
A aflição é com o MEU umbigo. Não tem nada a ver com o umbigo dos outros, mas a associação imediata de que eu tenho um umbigo que dá agonia.  E nem parece agonia propriamente com o umbigo, mas com a região, como se, alegoricamente falando, fosse uma região de fluxo de energias, como se o umbigo fosse uma espécie de portal por onde coisas ruins teriam acesso. Os umbigos gorduchinhos, aquelas bolotas pra fora, no entanto, causam uma agonia grande quando vejo. O meu umbigo é bem fechado pra dentro, às vezes acho que foi fechado tão lá pra dentro que talvez fosse a causa dessa agonia, mas acho que não tem nada a ver porque todo mundo tem umbigo assim ou assado e nem por isso sentem agonia.

Essa aflição mudou durantes os anos?
O que foi mudando ao longo dos anos foi a consciência da agonia. Pra mim, acentuou. Sempre tive, mas me sinto mais sensível com o passar dos anos.

A aflição chegou a afetar sua vida, sua rotina? deixou de fazer alguma coisa em função da aflição?
Não deixei de fazer nada propriamente, é uma agonia que a gente carrega quase como um segredo, porque, você fala ‘tenho agonia no umbigo’ e as pessoas confundem com cócegas, ou sei lá o que, então a gente deixa quieto. Agora, por exemplo, pensei em fazer uma plástica abdominal e o cirurgião falou em mexer no umbigo. Pronto, gelei na hora! Falei que tenho agonia e ele disse que as pessoas sentem isso por causa do excesso de cuidado com o tal do umbigo dos bebês que acaba gerando essa hiper sensibilidade e que isso seria comum. Só de pensar, adivinha, agonia.

E na relações pessoais, íntimas?
Nas relações intimas a comunicação é tudo. Mas não basta sinalizar não. Tem que dizer com TODAS AS LETRAS, nem chega perto do meu umbigo. ‘Porque?’ é a pergunta. ‘Porque eu não gosto!’ é a resposta e nesse ponto não tem negociação. São as particularidades de cada um.

Você conversou sobre isso com alguém? Chegou a te incomodar a ponto de pensar em tratamento psicológico?
Não é um assunto que eu lembre de ter conversado com ninguém. Tá tão interiorizado esse mal estar que a gente não vê como um problema, mas como uma característica pessoal, uma coisa sua, não um defeito. Nunca parei pra pensar que possa haver uma cura pra isso. Estranho.

Você já encontrou outra pessoa que tem também essa aflição?
Interessante que nunca conheci ninguém que falasse dessa tal agonia.

Tem alguma história engraçada ou pitoresca que aconteceu com vc relacionada a essa aflição de umbigo?
Essa delicadeza com o umbigo é peculiar. Por exemplo, só durmo de bruços, pois a sensação de proteção é boa. Se virar para dormir de barriga pra cima, durmo com as mãos sobre o umbigo. Dormir de lado é um problema porque pra segurar o umbigo com as mãos tem que dormir sobre o braço e daí a gente acorda com dor no corpo todo. Peculiar mesmo foi uma ocasião recente onde li na internet que se você estiver perto de alguma pessoa que te incomoda, o tal ‘sugador de energias’, seria indicado tapar o umbigo pra aliviar. Adotei o procedimento: Pego FITA CREPE e lacro todo umbigo. E por incrível que pareça, alivia.

Se você pudesse você preferia não ter umbigo? Pq?
Se eu pudesse escolher eu queria ter umbigo sim. Acho bonito. O que eu não queria ter é essa agonia.



CLARA SOUZA, fotógrafa, Manhuaçu-MG/Salvador

Quando falo em umbigo qual primeira coisa que vem na sua cabeça?
Não sinto nada demais... meu "problema" com umbigo é só quando tocam.

Quando você sentiu essa aflição de umbigo pela primeira vez? O que vc sentiu?
Eu tenho há muito tempo e não me lembro de quando começou, talvez eu tenha desde sempre.

Como você descreveria a sensação? É visual, sensorial, táctil?
Sinto uma coisa terrível... não é cócega, não é tesão. é uma sensação de invasão, acontece apenas quando alguém toca no meu umbigo... chega a me dar falta de ar. 

A aflição é com o seu umbigo ou com umbigos em geral? existem tipos de umbigos que dão mais aflição que outros?
Eu só tenho essa aflição com o meu... é apenas quando tocam. meu umbigo é bonitinho, acho ele mais bonito que a média [risos]. Eu, como fotógrafa, tenho horror a umbigo estufado e escuro de grávidas, trato todos na pós produção [risos].

Essa aflição mudou durantes os anos?
Piorou. 

A aflição chegou a afetar sua vida, sua rotina? Deixou de fazer alguma coisa em função da aflição?
Não. É muito íntimo. 

E na relações pessoais, íntimas?
Meu marido sabe que não gosto. Só toca nele quando quer fazer raiva em mim [risos].

Você conversou sobre isso com alguém? Chegou a te incomodar a ponto de pensar em tratamento psicológico?
Não... na verdade eu nem tinha me tocado quando a esse assunto. Achei legal isso ser tema de entrevista. Quero ler quando sair, pensava que só eu tinha essa maluquice. Nunca tinha ouvido falar que mais pessoas tivessem esse "problema".

Se você pudesse você preferia não ter umbigo? Pq?
Eu prefiro ter.



DAIANA DE SOUZA, jornalista, Campo Bom-RS

Quando eu falo em umbigo qual primeira coisa que vem na sua cabeça?
Tchê, me dá um arrepio. Uma sensação ruim, de agonia.

Quando você sentiu essa aflição de umbigo pela primeira vez? O que sentiu?
A vida toda! O que SEMPRE sinto é agonia. Inclusive, por muitas vezes, sonhei [tive pesadelo, na real] que alguém afundava o dedo no meu umbigo. Acordava como se tivesse saindo do inferno [mas é bem assim]. Faz tempo que não os tenho.

Como você descreveria a sensação? É visual, sensorial, táctil?
É sensorial, táctil. É algo bizarro porque se assemelha aquela sensação ruim semelhante às cócegas. Quem pratica te vê rindo e acha que tu está então gostando. Mas aquela risada na verdade é de pura angústia. Pois bem, é assim com o lance do umbigo. E eu não rio. Mas me refiro à essa sensação angustiante. Porque ninguém leva a sério isso, sabe? Parece que tu está brincando quando diz: por favor, não encosta no meu umbigo. A pessoa vem e encosta que é pra ver a tua reação. Tipo o lance das cócegas. Insiste.

A aflição é com o seu umbigo ou com umbigos em geral?
Com o meu apenas. Ufa, né?

Essa aflição mudou durantes os anos?
Não. Quando eu tinha uns 25 anos resolvi colocar piercing no umbigo justamente pra tentar boicotar esse troço chato. Porque nem eu consigo encostar no meu umbigo. Sendo assim, àquela época pensei: vou colocar um pendurico porque aí quero ver ter essas frescuras. Resultado: foi horrível, o negócio inflamou e minha própria pele expeliu o adorno. Trash, viu? Até hoje tenho uma cicatriz ali que se potencializou, inclusive, quando eu engravidei, em 2016. Quanto mais a barriga crescia, mais a cicatriz se anunciava. E detalhe: meu umbigo estava PRETO na gestação. A linea nigra, comum em gestantes, acentuou justamente quem? Ele, o umbigo [risos].

A aflição chegou a afetar sua vida, sua rotina? Deixou de fazer alguma coisa em função da aflição?
Sim, sim e sim. Por muito tempo eu tive que aceitar ter um umbigo sujo. Sim, sujo, porque ele é fundo [pro meu terror hahaha] e então nunca conseguia higienizar o local como deveria. Sentia vergonha do umbigo "sem trato", por assim dizer, e sentia uma sensação de derrota por tentar, tentar e não conseguir NUNCA fazer a limpeza. Hoje em dia, pós parto, eu já consigo limpar ali, colocar o dedo só pra me testar. O que pra mim é uma conquista e tanto [risos]. Quem sabe eu não esteja, devagarito, fazendo as tão sonhadas pazes com ele, né?

E na relações pessoais, íntimas?
Bah, sempre foi terrível isso. Como já comentei anteriormente: aquela coisa de que a pessoa não leva a sério que tu NÃO CURTE barato algum no teu umbigo. Hoje em dia, com meu querido marido [que sempre me compreendeu], me livrei dessa tortura. 

Você conversou sobre isso com alguém? Chegou a te incomodar a ponto de pensar em tratamento psicológico?
Minha mãe sempre ficou intrigada com isso, justamente porque veio já na infância. Mas nunca deu muita bola. Eu já pensei em fazer regressão, porque nada me tira da cabeça que é lance do começo de tudo, lá do meu nascimento, da hora do parto ou de dias depois [ou até da gravidez da minha mãe].

A gestação alterou alguma forma na aflição de umbigo? Limpar umbigo da criança foi possível ou não? A relação com o umbigo mudou?
Pois então. Eu tinha uma coisa pra limpar o umbigo da minha filha [ainda tenho]. Mas quando ela era recém nascida, até ele cair, quem limpava era o Camilo, meu marido. Eu até fazia essa higiene na pequena, às vezes, mas com ressalvas. Hoje, um ano depois de ter dado à luz, eu consigo colocar a mão [o dedo] lá dentro e limpar [o meu e o dela]. Mas a agonia está lá.

Você já encontrou outra pessoa que tem também essa aflição? como foi?
Não, nunca ouvi alguém se queixar dessa mesma aflição. Agora tô me sentindo melhor por poder ter falado sobre

Se você pudesse você preferia não ter umbigo? Pq?
Preferia ter um umbigo que não me desse tanto o que falar. Ou melhor: queria descobrir o porque disso tudo. E fazer as pazes com o meu.



DANILO MOURA, assistente de importação, Diadema-SP

Quando eu falo em umbigo qual primeira coisa que vem na sua cabeça?
Um umbigo pra fora, extremamente feio e muita agonia.

Quando você sentiu essa aflição de umbigo pela primeira vez? O que vc sentiu?
Quando vi um umbigo "pra fora", aquilo é horrível. Aflição e a sensação estranha, como se algo estivesse fora do lugar, mas de um jeito grotesco.

Como você descreveria a sensação? É visual, sensorial, táctil?
Sensorial. Sinto o meu antebraço repuxando, os pêlos ficam eriçados e não é nada bom. Aflitivo demais.

A aflição é com o seu umbigo ou com umbigos em geral? Existem tipos de umbigos que dão mais aflição que outros?
Umbigos pra dentro [apenas o buraco] é tranquilo, mas os que são externos são muito feios e me incomodam.

Essa aflição mudou durantes os anos?
Sim, piorou com o tempo.

A aflição chegou a afetar sua vida, sua rotina? Deixou de fazer alguma coisa em função da aflição?
Não, mas evito olhar pras pessoas na praia ou piscina, pra não ser surpreendido [risos].

E nas relações pessoais, íntimas?
Não há problemas.

Você conversou sobre isso com alguém? chegou a te incomodar a ponto de pensar em tratamento psicológico?
Nunca havia pensado nisso, vou verificar essa possibilidade.

Você já encontrou outra pessoa que tem também essa aflição? Como foi?
Nunca encontrei e quase nunca falei sobre isso.

Se você pudesse você preferia não ter umbigo? pq?
Preferia não ter, sinto incômodo quando faço a limpeza do local.



já na parte dos especialistas, conversei com três e dois entraram no texto: a psicóloga comportamental Paula Bonilha e o psicanalista Arnaldo Dominguez. por motivos de um desencontro de agendas e deadline, a entrevista com a psicanalista Marilucia Melo Meireles acabou ficando de fora, o que foi uma pena porque tem reflexões ótimas. então segue aqui, na íntegra, a conversa por email com Marilucia.


Existe uma distinção entre aflição e fobia?
Não havia ainda pensado na existência desta distinção pois, para mim, a aflição pertence ao campo das manifestações psicológicas mais gerais e genéricas, enquanto que as fobias se encontram dentro do campo das manifestações inconscientes, simbólicas, tratadas no plural e nas singularidades, caso a caso, razão pela qual possuem significações muito próprias, sem semelhança estrutural entre elas.  Avançando mais nesta ideia, a aflição, a meu ver, caracteriza-se por um estado difuso, provisório, de suspensão emocional, que tanto pode se referir a uma ampla gama de sentimentos de mal-estar quanto aos ligados ao bem-estar de uma pessoa. A fobia, nutrindo-nos de alguns textos freudianos a esse respeito, é um sintoma próprio dos quadros das neuroses, em especial o da histeria de angústia, relacionado quase sempre ao surgimento explosivo da angústia.

Existe uma diferença de causas e tratamentos entre fobias físicas e fobias externas ao corpo (elevador, bichos, lugar cheio, etc)?
É importante o uso do plural em se tratando das manifestações fóbicas, pois não existe a possibilidade de isolarmos uma única causa como sendo o fator desencadeante bem como elas, frequentemente, se apresentam combinadas com outros tipos de neurose. Quase sempre são classificadas de acordo com o objeto a que se vincula a angústia. Neste caso tanto pode ser escolhido alguma parte do corpo quanto objetos na externalidade. Os exemplos mais comuns e que receberam em muitos casos “pomposos nomes gregos” são o medo do escuro, o de ser envenenado, o de altura, falar em público, o de animais peçonhentos, medo da morte, o de tempestades, a ereutofobia [medo de enrubescer], dismorfofobia [medo à deformidade] a claustrofobia, a agorafobia como expressão do isolamento e da solidão, a fobia social e as ligadas aos contágios, dentre outras. É importante salientar que todos os objetos do mundo [“externos” ou “físicos”, como você chamou] podem se oferecer, por deslocamentos, às depositações de nossas angústias.

As palavras que mais ouvi dos onfalofóbicos foram 'vulnerabilidade' e 'agonia'. Pq o umbigo sugere isso?
Durante estes anos de atividade clinica é a primeira vez que ouço falar de onfalofobia. Consultando a Internet e encontrei algumas matérias que se referiam a fobia de umbigos, mas que a meu ver são bem superficiais. Fiz também um rápido levantamento sobre o tema, entre colegas, que tampouco ouviram falar sobre o assunto. A hipótese que podemos levantar é a de que esta fobia comtempla uma nova terminologia dada, na contemporaneidade, a um tipo de expressividade para a circulação da angústia, concernente aos medos que nos habitam na atualidade. É certo que encontramos diversos tipos de manifestações sintomáticas próprias de cada época, de cada momento histórico. Se na época de Freud os sintomas giravam em torno de uma sexualidade encoberta de ricos segredos, hoje circulamos por um mundo em que a sexualidade vem sendo cada vez mais redefinida e explicitada. Acho, portanto, uma ótima oportunidade para reabrirmos essa questão levando em consideração o surgimento, na pós modernidade, de outras modalidades de fobia daí, talvez, ser a onfolafobia um bom exemplo de representação social.  Talvez incorramos no risco de ser a onfalofobia mais uma “palavra ônibus”, em que cabe tudo e ao mesmo tempo não nos diz nada. No entanto, se sustentarmos que as fobias são formas agudas de circulação da angústia podemos considerar que a parte do corpo ou o objeto que é seu depositário, na externalidade, é a expressão inequívoca da força que a cultura exerce na produção de novas sintomatologias para o nosso sofrer humano, existencial.

Pq a mesma parte do corpo sugere fobia e também fetiche?
Podemos considerar, a grosso modo, que na medida em que o fetiche possui como uma de suas inúmeras funções a de tamponar a eclosão da angústia na constatação, pelo olhar, da ameaça da castração, podemos fazer uma aproximação desta ideia com a função que o objeto fobígeno, enquanto aplacador do surgimento da angustia, possui. Na verdade, não existe nenhum objeto dotado de um poder contrário ao poder do objeto fóbico ou ao poder do objeto fetiche pois ambos operam no registro imaginário. No caso das fobias, os objetos são antídotos, ajudas, auxílios, que as pessoas se utilizam como dispositivos contra fóbicos, com a finalidade de evitarem a eclosão dos seus medos, das suas angústias. Quanto ao objeto fetiche podemos dizer que ele é o único objeto verdadeiramente e diretamente contrafóbico, um para- castração. Desta maneira, uma cobra, pode ser ao mesmo tempo um bicho esquisito, que horroriza que causa fobia ou, no caso do fetiche, pode compor a estampa de uma lingerie e ser a condição de possibilidade da experiência amorosa.

Na pequena amostra que peguei - 5 pessoas - foram 4 mulheres onfalofóbicas e apenas 1 homem. Mulheres são mais fóbicas com o corpo que os homens? Alguma razão pra isso?
Esta pergunta exigiria retomarmos todas as concepções que foram surgindo a partir de Freud a respeito da mulher e, por conseguinte, da feminilidade. Poderíamos apenas afirmar que há, na mulher, uma gramática psíquica, construída no vínculo estabelecido com seu objeto de amor, a mãe ou alguém que a substituiu, geradora da angústia do desamparo diante da separação do corpo materno e da perda do amor que justifica atribuirmos aos quadros fóbicos femininos. Seguindo por esta via, há também na doutrina psicanalítica outras conceituações clássicas e fundamentais, muito presentes nas formações imaginárias da fobia. Refiro-me, neste sentido aos temas relativos a psicossexualidade infantil: o complexo de castração, o binômio fálico-castrado, a inveja do pênis, todos relativos aos elementos constitutivos da estrutura edípica, incluindo ainda as etapas pré genitais da libido e posteriormente aos destinos que a pulsão vai se encaminhar, além, é claro  das teorias sobre a angústia. Acredito não ser possível fazermos nenhuma extrapolação ou tirar conclusões precipitadas seja pelo fato de que essa “amostragem” colhida possa ter sido simplesmente casual, seja porque, como mencionei anteriormente, as fobias devem ser tratadas no plural e em suas singularidades, caso a caso.

Como você trataria um onfalofóbico? Seria o mesmo tratamento de outras fobias?
Esta pergunta nos remete às distinções existentes entre os métodos tradicionais de cura, praticados pela medicina e o trabalho de análise, proposto pela psicanálise. No nosso caso, as escutas dos sintomas apresentados, terão uma destinação radicalmente opostas às dos sintomas médicos, que aqui não há espaço para desenvolver. O que poderia responder suscintamente, é que a tarefa do psicanalista, no caso de um atendimento de uma pessoa que sofre e que apresenta sintomas fóbicos, é a de usar o seu conhecimento e acolher o sofrimento do analisante sem evidenciar, questionar ou manifestar qualquer atitude diante dos medos, aflições, vividos por ela. O recomendado é atrever-se com o analisante para, juntos, percorrerem a longa  empreitada de um processo analítico, uma verdadeira encruzilhada de Tebas,  independente de serem sintomas, fóbicos ou não.

Um comentário:

Silvio Guerchon disse...

Eu tenho onfalofobia e apesar de parecer tosca, gera um incômodo enorme em pensamentos e diversas situações do dia a dia