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domingo, 21 de outubro de 2012

yahoo #50

atolado por duas semanas na campanha não consegui escrever o texto da semana que passou para o yahoo (terei o mesmo desafio na semana que está começando), então pedi ajuda ao colega timpin pinto que, por sua vez, vinha falando comigo para ajudar a divulgar seus textos recentes. sempre achei que timpin tem tudo a ver com o ultrapop e foi interessante fazer esse teste (o texto teve mais de 800 'likes' no facebook e quase 400 comentários, números ótimos). e lá veio timpin em sua cruzada para saber quem roubou quem no faroeste da música POPULAR brasileira.


nope


MICHEL TELÓ EM PELE DE CORDEIRO

Tenho uma dívida eterna com Timpin Pinto, afinal ele é (com certeza é) o cara que mais conhece a verdadeira música popular brasileira do século 21. E não é a tal “curiosidade antropológica”, pois o cara gosta profundamente de tudo que ouve (e isso vale também pro que não gosta). Foi através dele e de seu Cabaré que conheci os eletromelodys paraenses, as swingueiras baianas, os bregas-funks pernambucanos e por aí vai. Mas tem outra: Timpin gosta e não foge de briga. O sujeito que já foi ameaçado de morte por gente ligada ao submundo do forró agora está numa missão de desconstruir a fama de bonzinho de Michel Teló, o multimilionário homem de um sucesso só. Pedi permissão ao Cabaré para reproduzir aqui no Ultrapop uma versão ligeiramente editada de “A verdadeira (e sórdida) história de Michel Teló”. Vai que é sua, Timpin!

Recentemente Michel Teló foi pra mídia reclamar que o Ministério da Cultura se recusou a ajudá-lo em um documentário através da Lei Rouanet. O cantor queria um milhão e trezentos do governo (entenda-se, do povo que paga os impostos que sustentam o governo) para documentar seus passeios pela Europa, na esteira do sucesso de “Ai se eu te pego” que, diga-se de passagem, tem sua autoria até hoje contestada na justiça. Na entrevista ao site Universo Sertanejo ele não consegue deixar de transparecer sua arrogância. Declarou que com seu hit levou “...o nome do país pra fora, o país voltou a ser notícia por algo de cultura”

A questão é que Michel Teló pousa de mocinho e de mocinho ele não tem nada. Quer desmascará-lo? Pergunte qual foi a verdadeira história da saída de sua antiga banda, o grupo Tradição, do Mato Grosso do Sul. Peça para Michel Teló explicar porque a banda se dilacerou, com todos os membros, que tocavam juntos há anos, partindo cada um para lado. Essa história nunca foi bem contada. Aliás, essa história nunca foi contada, apesar de que todo mundo que trabalha nos bastidores do mercado sertanejo saiba. Mas o público e os fãs não sabem. Por isso este cabaret vai trazê-la à tona.

Tudo começou em 2008, quando o grupo Tradição estava finalizando seu DVD Micareta Sertaneja 2. O anterior tinha rendido um disco de ouro e uma apresentação no Domingão do Faustão. Tinha tudo para não só repetir a dose como ainda apresentá-los para o resto do Brasil, já que seu sucesso ainda era regional. Ocorre que quando tudo já estava pronto, inclusive a arte final do DVD, Michel e seu irmão Teófilo Teló, disseram que as oito músicas que estavam registradas na editora Panttanal, que era deles, só seriam liberadas mediante ao pagamento de uma pequena fortuna por cada uma. Valores absurdos, completamente acima do valor do mercado.

Naturalmente a banda declinou da proposta, alegando que se fosse o caso, excluiriam as tais oito músicas e seguiriam em frente. Então os dois rebateram: se fosse feito assim, os direitos de uso das imagens do cantor não seriam liberados. O que se seguiu foi uma discussão que, segundo fontes seguras, chegou às vias de fato. Em seguida foi convocada uma entrevista coletiva no qual Michel Teló anunciou sua carreira solo, tranquilizando os fãs de que cumpriria a agenda de shows já vendidos, permanecendo na banda por seis meses. Isso depois de cantar na banda a mais de dez anos (ele foi descoberto pelos empresários do Tradição quando ainda era adolescente).


Durante meio ano a banda se apresentou por toda a região Sul e Centroeste disfarçando nos palcos o clima horrível que imperava nos bastidores. Chegou agosto de 2009, Michel desligou-se da banda, levou toda a estrutura de palco e ainda estreou solo usando nos cartazes de divulgação a expressão “Micareta Sertaneja”. Deixou pra trás uma banda falida e despedaçada. Todos os outros membros saíram, com exceção do guitarrista Wagner Pekois que insistiu em tentar o que na época era considerado por todos uma louca utopia, recomeçar do zero.

E foi o que ele fez. Inicialmente viajou ao Rio Grande do Sul e em Ijuí recrutou os irmão Guilherme e Leonardo Bertoldo, cantor e baterista do grupo Os 4 Gaudérios, respectivamente. Da banda sul matogrossense Zíngaro contratou o sanfoneiro Jefferson Villava, o baixista Leandro Azevedo e o percussionista Marcio Pereira. Com a formação nova gravaram o disco Caixinha de Surpresas e caíram na estrada por dois anos até adquirirem a sinergia e a verba necessária para a gravação de um novo DVD.

O DVD Tô de Férias acabou sendo um dos melhores lançamentos sertanejos de 2010, apesar da baixa repercussão que teve na mídia. E assim o Tradição continua na batalha até hoje. Recentemente lançaram um single de sucesso, chamado “Ui, adoro” que, apesar não tocar nas rádios, já teve mais de um milhão de downloads.

Só que a lei do karma ruim é implacável. A música “Ai se eu te pego” pode estar tocando no planeta inteiro, mas o sucesso de Michel Teló é uma bolha, uma mera ilusão porque ele não tem fãs. Ao contrário da maioria dos cantores que saem de suas bandas e se lançam em carreira solo, os fãs do Tradição não migraram para o lado do cantor, muito pelo contrário, permaneceram ainda mais fiéis à banda, sendo praticamente uma extensão do departamento de divulgação. Enquanto a preocupação de Michel é ganhar mais e mais dinheiro, o Tradição segue apostando na construção de uma carreira artística de qualidade.

O dia em que algum empresário visionário resolver investir no Tradição, o Brasil irá conhecer um dos melhores shows da atualidade. Se no momento Michel Teló é um dos artistas mais saturados do país, certamente o Tradição é o segredo mais bem guardado. Quem vai entrar na história como o mocinho e quem vai entrar como o bandido, só o futuro dirá. Mas não é muito difícil de adivinhar.

sábado, 30 de junho de 2012

yahoo #46, o capítulo final

pois é, realmente chegou ao fim essa minha fase ultrapop-yahoo. seria impossível continuar escrevendo quinzenalmente (quiça semanalmente) com as novas e muitas demandas na editora três (site da istoé e a revista istoé 2016). tentei fazer nesse último texto uma síntese da minha experiência e dos meus propósitos ultrapops. ter e manter essa coluna me fez pensar muito no meu próprio trabalho e em tudo que vejo, consumo e compartilho. foi muito massa, muito mesmo, apesar do choque inicial com a violência de muitos comentaristas (anônimos em sua maioria) e pela constatação nua e crua que a maiorias dos que comentam simplesmente não entendem o texto (nesse último, por exemplo, enxergaram na minha defesa do presente uma desqualificação do passado, e tome porrada seu maluco - maluca - que acha que "eu quero tchú" ou "ai se eu te pego" são melhores que legião urbana e beatles). de resto só tenho a agradecer ao bróder walter hupsel que me indicou e deu início a esse ciclo de 46 textos e aos camaradas michel blanco e rafael alvez que bancaram e incentivaram a minha liberdade por lá (e fazem isso com todos os outros colunistas).



NO NOSSO TEMPO É QUE É MELHOR

Quando comecei a escrever a coluna Ultrapop, um ano e meio atrás, tinha um propósito, uma espécie de missão: falar de cultura popular brasileira no século 21. E popular com P maiúsculo em um tempo de muitas e altas velocidades, novas liberdades e velhos moralismos. Falar e refletir sobre coisas acontecendo na música, TV, internet, cinema, shows e artes plásticas. Sobre descentralização, pirataria, humor, religião, drogas, violência policial, política e a cidade (brasileira). Sem julgamento de valores (na medida do possível), preconceitos e nem falsas polêmicas. Respeitando, sendo curioso, aquela onda toda.

Uma coisa em especial me ajudou nessa trajetória: nunca fui um nostálgico, sempre achei o presente um negócio muito interessante de se ver e viver. Afinal é no presente (numa eterna troca com o passado) que o futuro dá seus primeiros passos. Daí que colunas que fiz nesse período  vivi e escrevi sobre culturas e comportamentos brasileiros em presente contínuo. E gostando muito do que via e ouvia. Gostando até do que não gostava porque dava pano pra manga de pensar.

Acompanho mais de perto música e internet, logo depois quadrinhos, cinema e TV, e acredito realmente que o Brasil vive um momento particularmente rico (e isso já tem um tempo, desde meados dos anos 2000, mais ou menos). A produção é grande, variada, autogerida, cada vez mais sofisticada e independente de grandes esquemas. Nesse atual estado das coisas é eletrizante assistir a verdades universais caindo por terra junto com monopólios de comunicação ou então ver o ocaso dos formadores de opinião, toda essa turma que não está entendendo o que diabos acontece no Brasil e no mundo desse início de século 21.

Acho que consegui, nas 45 colunas que fiz nesse período (essa é a 46ª porque acabar em 45 é a maior zica), dar uma pequena contribuição para se compreender o que sucede por essas bandas. Claro que sou inveterado otimista e um apaixonado pelo Brasil (inclusive por seus defeitos e contradições), o que deixa marcas no meu jeito de entender as coisas, mas sempre tentei olhar para os muitos lados de um evento/acontecimento/fenômeno.

E assim minha trajetória aqui no Ultrapop do Yahoo! chega ao fim. Infelizmente por um lado, pois tive aqui total liberdade para escrever do jeito que quis e sobre o que bem entendesse (grande abraço para Michel Blanco e Rafael Alvez), além de participar de uma invejável equipe de colunistas (um salve pros manos Walter Hupsel, Pedro Alexandre Sanches, Dudu Tsuda, Fernando Vives, Celso Athayde e Lúcio Flávio Pinto, e pras minas Carol Patrocínio, Raquel Rolnik e Nega Gizza). Mas felizmente por outro, já que a minha saída é por motivos profissionais. No mais, os cãos ladram e o tempo ruge. Simbora que tem muita coisa bacana acontecendo, muita história pra contar.


p.s.:  lá no meu blog pessoal, o Esforçado, estão todos os textos que publiquei no Yahoo, mas gostaria de deixar aqui o link direto para os que melhor resumem essa ótima experiência que tive como colunista. São eles “Não tem papo, não tem alô” (uma defesa do funk carioca), “Bastardo é a mãe” (sobre atuais misturas de gêneros na música brasileira), “Pra que discutir com a madame?” (sobre o programa Mulheres Ricas), “BBB no dos outros é refresco”, “Custe o que custar, uma ova!” (uma carta de fim de namoro com o CQC), “Jesus não tem dentes no país dos banguelas” (de como não misturar religião com realidade), “Meu fraco é subcelebridade”, “Miss de tudo um pouco”, “Vira-lata, um complexo”, “Arte que desmancha no ar”, “Vamos gozar outra vez?” (pela volta do espírito da pornochanchada no cinema brasileiro), “A gente não quer só comida” (sobre o programa Larica Total), “Faça você mesmo” (na internet, esse mundo mágico), “Quem tem medo de Carlinhos Brown?” e a reportagem especial “A serviço secreto de sua majestade, o sabiá” (sobre a visita do Príncipe Harry a um haras paulista).

sábado, 21 de janeiro de 2012

yahoo #24

olhaí a primeira coluna do yahoo no novo esquema semanal ultrapop. sobre esse sentimento que a gente vê por aí no brasil desde tempos imemoriais e que agora, nas janelas de comentários, ganhou ares de arte-bruta. o pessoal pegou mal, claro (aqui). esta semana já rolou o "bbb no dos outros é refresco" e vai saber o que mais pode aparecer por aí.




VIRA-LATA, UM COMPLEXO


Foi na década de 1950, e por causa do futebol, que Nelson Rodrigues falou que o brasileiro sentia um tremendo complexo de vira-lata. A causa era a derrota da seleção para o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950. A volta por cima veio com a vitória bela e histórica em 1958 (e em 1962 e 1970). Entre uma Copa e outra, o brasileiro se escondia pelos cantos, envergonhado da própria existência, “um Narciso às avessas, que cospe na própria imagem”. Mas é claro que essas taças, e as outras duas que vieram depois, não curaram um complexo anterior e tão arraigado nas elites e classe média, e o ufanismo vazio e truculento dos militares também não ajudou muito. E assim muitas pessoas continuaram se lamentando aos berros que viviam num “país subdesenvolvido de merda” com um “povinho de merda”. Bom mesmo é lá fora, povo educado, transporte público de qualidade, mil anos de história e os parques, que parques.


O crescimento econômico dos últimos dez anos criou uma nova classe média, mais dinheiro começou a entrar para mais gente que não os de sempre, e o Brasil passou a ser reconhecido internacionalmente para além de Carmen Miranda, Pelé e carnaval. Sem falar que receberemos uma nova Copa e a primeira edição das Olimpíadas na América do Sul, isto é, muito trabalho pela frente. Enfim, outros orgulhos foram tomando corpo a partir dessa, digamos assim, nova condição, essa nova ordem mundial. Mas não tem jeito, a manada dos descontentes segue na mesma toada de rejeição a tudo que for nosso, mestiço, fora do eixo.


Claro que não estou falando aqui de uma “obrigação de orgulho” ou um “agora, vai!”, muito pelo contrário, afinal o país continua radicalmente desigual e nossas políticas federais, estaduais, municipais e pessoais seguem viciadas em falsa cordialidade e toma lá, dá cá dos tempos da vovozinha. Ou como escreveu Caetano Veloso para Gal Costa cantar: “Neguinho quer justiça e harmonia para se possível todo mundo / Mas a neurose de neguinho vem e estraga tudo”. Estou falando aqui, e cito palavras do colega James Cimino, de que é preciso “construir um orgulho que não precise de slogan”. Um orgulho que seja realista e construído diariamente, sem bandeiras, só vivência.





Lembrei novamente dessas vira-latices nacionais porque recentemente o cantor Michel Teló virou motivo de guerra virtual após o fenômeno de seu sucesso nacional e internacional virar capa da revista Época. Não vou tratar desse assunto aqui – colegas jornalistas como Alex Antunes, Luis Antônio Giron e o companheiro de Yahoo, Pedro Alexandre Sanches, já o fizeram com maestria – porque o que me deixou mais uma vez intrigado foi a repulsa sobre uma das teses da reportagem: Teló reflete os valores da cultura popular brasileira. “Não, não e não, que absurdo”, diziam batendo pé no chão e prendendo respiração. Era o bom e velho complexo de vira-lata em mais uma manifestação 2.0 (no ano passado, A Banda Mais Bonita da Cidade sentiu esse gostinho com as reações ao clipe de “Oração” e escrevi sobre isso na coluna “A banda mais coisinha-bebê do Brasil”).


É como se o Brasil fosse um quintal a ser explorado para conseguir uma graninha e se mudar para algum lugar da Europa, aquilo sim que é terra de gente, pensam os vira-latas. É como se orgulho – que é muito diferente de patriotismo - fosse falta de visão crítica. Muito diferente disso pensa Timpin Pinto, um cara que só não é do Nordeste ou do Norte porque nasceu no Rio Grande do Sul e mora em Curitiba. Dia desses ele soltou, no seu jeito apaixonado e hiperbólico de sempre, que “seremos o novo Império Cultural e que nosso Império será hedonista, lúdico, matriarcal e dionisíaco”. Não iria tão longe nessa animação toda, principalmente sobre a parte do Império, mas tenho certeza que enquanto ainda aprendemos como ser Nação e sociedade, e isso é aprendizado sem fim, podemos ensinar muito mais do que julga nossa vã vira-latice.


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

yahoo #22

carambolas, teve coluna nova no yahoo na semana passada ("pra que discutir com a madame?", sobre o programa mulheres ricas) e acabei esquecendo de subir a anterior, que foi uma espécie de mini-retrospectiva de 2011. entre os malucos de plantão nos comentários, uma minoria ficou indignada com os elogios ao deputado e ex-bbb jean wyllys, mas a maioria caiu em cima de mim babando de raiva por causa das críticas aos internautas linchadores no caso do cãozinho yorkshire (todo mundo achando que eu estava defendendo a enfermeira que matou o cachorro). não entenderam o texto, claro.

ah, uma novidade (e boa notícia pra mim): a partir dessa semana minha coluna no ultrapop passa de quinzenal para semanal. oh yeah.



O DE CIMA SOBE, O DE BAIXO DESCE

Muitas emoções em 2011, não? Então nessa coluna, que é a última do ano, resolvi fazer algo diferente. Decidi, assim da minha cabeça mesmo, fazer uma mini-retrospectiva com algunas pessoas ou acontecimentos que marcaram positiva ou negativamente esse ano que passou por cima da gente. O título veio naturalmente, afinal “Xibom bombom”, hit de 1999 lançado pelo grupo As Meninas, é o único axé de denúncia (marxista?) que se tem notícia e seu refrão continua atual, infelizmente, como uma daquelas verdades incontornáveis em nosso mundo cheio de desigualdades. Mas comecemos pra cima.

SOBEM

Protestos: Ainda não inventaram um jeito melhor de lutar pelos direitos ou demonstrar insatisfação com os governantes do que ir pra rua e ocupá-la. E 2011 foi um ano especialmente pródigo em manifestações, algumas revolucionárias, em todo o mundo. A Primavera Árabe se espalhou pelo Norte da África e Oriente Médio derrubando ditadores civis e militares. O Churrascão da Gente Diferenciada bagunçou Higienópolis, um dos bairros mais nobres de São Paulo, cidade que também abrigou a Marcha da Maconha, violentamente reprimida pela PM (em outras cidades brasileiras isso não aconteceu), e a consequente Marcha da Liberdade (pela liberdade de expressão). O Movimento Occupy Wall Street se multiplicou pelos Estados Unidos a partir do grito de raiva e frustração de quem só viu a vida piorar após a crise de 2008, enquanto os responsáveis por ela, os bandidos de colarinho branco, se safaram com a rapidez de sempre. Grécia, Espanha, Chile e Rússia em chamas. Com tanta coisa acontecendo cada vez se faz mais necessário a participação de cada um na melhora da vida de todos. E, de preferência, na rua.

Jean Wyllys: Ninguém deu a menor importância quando o ex-BBB anunciou em 2010 que concorreria ao Congresso Nacional. Apesar da votação expressiva para um estreante (13 mil), Jean só se mudou para Brasília por causa do quociente eleitoral de seu companheiro de partido (PSOL), Chicão Alencar. Mas chegando lá, o agora deputado federal se mostrou um dos políticos mais sérios e atuantes da casa. E comprou brigas da pesada, principalmente com a bancada evangélica e alucinados perigosos como Jair Bolsonaro, Marco Feliciano e Silas Malafaia, porque, homosexual assumido, defende coisas óbvias (e que ainda não existem) como a criminalização da homofobia e a expansão dos direitos civis para homosexuais (isso foi assunto de uma das colunas que fiz aquí pro Yahoo, “Jesus não tem dentes no país dos banguelas”). O baiano foi um dos homenageados da edição 2011 do premio Trip Transformadores.

Gaby Amarantos: Quem acompanha cena musical paraense, uma das mais efervescentes do país na atualidade, já conhece “a diva do tecnobrega” de outras aparelhagens. Mas foi só em 2011 que Gaby começou a colher os primeiros louros de sua carreira solo (ela ficou famosa no Pará como vocalista da banda TecnoShow, no qual ficou de 2002 a 2010). Após ser chamada de “Beyoncé do Pará”, a cantora deu a volta em todos e no início do ano quando foi uma das convidadas para o show de posse da presidenta Dilma e gravou uma versão acelerada de “Águas de março” (Tom Jobim) em parceria com João Brasil. Depois alternou muitas horas de estúdio para gravar seu disco de estreia solo com uma grande quantidade de shows, cada vez mais no eixo Rio-São Paulo. Então protagonizou o apoteótico encerramento do VMB da MTV em outubro, lançou o espetacular clipe de  “Xirley” (composição do pernambucano Zé Cafofinho e primeira música de trabalho), participou do programa Som Brasil em homenagem a Zezé di Camargo & Luciano, foi eleita como uma das personalidades brasileiras mais influentes do ano pela revista Época, deu ótima entrevista à revista TPM e ontem apareceu no programa Video Game, da apresentadora Angélica. Mas a saga de Gaby Amarantos está apenas começando, pois 2012 também será um outro ano dela. Já no primeiro domingo do ano, a elétrica paraense terá espaço de destaque no Domingão do Faustão. Logo depois devem sair as primeiras músicas de seu disco de estreia. Produzido por Carlos Eduardo Miranda, Treme trará participações de Fernanda Takai e DJ Waldo Squash (Gang do Eletro), além de composições de Thalma de Freitas, Iara Rennó e Dona Onete. Ainda sem data definida, mas provavelmente no primeiro semestre, será lançado o DVD de um show que a cantora fez em frente a sua casa, no bairro de Jurunas, e filmado com muita classe por Priscilla Brasil e pelo francês Vincent Moon. Sem falar numa grande e inédita entrevista que concedeu ao site Gafieiras e que está para sair. O furacão Gaby – artista orgulhosa de suas raízes periféricas, curiosa pelas misturas e sem medo de circular – ainda tem muito estrago para fazer. Sorte a nossa.

p.s. do ‘SOBEM’: falando em música... quem gosta de conhecer coisas novas sugiro dar um pulo no meu blog pessoal, o Esforçado, para dar uma olhada na retrospectiva musical de 2011 que fiz com os melhores discos gringos, as melhores canções gringas, os melhores discos nacionais e as melhores canções nacionais.


DESCEM

Defensores nazifacistas de animais: Na semana passada caiu na rede um vídeo flagrando a violência de uma mulher contra um cachorrinho da raça yorkshire em Formosa (GO). As barbaridades foram feitas na frente de sua filha de dois anos e o animal acabou morrendo em decorrência dos maus tratos.  Um horror, uma tristeza, um crime que tem de ser punido. Mas, pelo menos pra mim, o pior foi a reação de alguns defensores de animais que começaram pedindo justamente a punição da enfermeira (essa é a profissão da pessoa) para logo na sequência partirem para o linchamento jogando seus dados pessoais na internet (nome, documentos, endereço, etc), querendo lhe tirar a guarda da filha, desejando e clamando pela morte da “vagabunda”, da “maldita”. Quem faz isso não é melhor que ela. Quem faz isso, provavelmente, faz de tudo para seu cãozinho e fecha o vidro do carro para não ser importunado por crianças de rua. Quem faz isso não percebe que, por mais estranho que possa parecer, ela é normal (olha só como se define no twitter, “sou uma pessoa tranquila, amo meu maridão, meus filhos e meus cachorrinhos. Enfermeira por amor”, o que lendo hoje acaba sendo um tanto irônico). Mas o inferno são os outros, né? Nada disso. O inferno está em cada um de nós, não adianta fugir ou jogar a culpa no próximo.

CQC: No texto de semanas atrás (“Custe o que custar, uma ova!”) descrevi minha experiência pessoal de desapontamento com o programa comandado por Marcelo Tas. Mas pense bem: 2011 foi realmente um ano desastroso para a atração da TV Bandeirantes com a saída de duas de suas maiores forças humorísticas, para o bem e para o mal: Danilo Gentili e Rafinha Bastos. Danilo conseguiu driblar o mal estar público que causou com algumas piadas infelizes no twitter e emplacou um talk show no canal. Já o sempre muito ácido Rafinha, que foi irresponsável em apresentações ao vivo ao dizer que mulheres feias deveriam agradecer serem estupradas, acabou sendo expulso do programa ao mexer com gente famosa (a cantora e grávida Wanessa, mulher do empresário Marcus Buaiz). Ficou feio para o CQC se livrar de um integrante de modo tão abrupto e comercial, e ainda por cima sob fogo amigo (Marco Luque, no melhor estilo pelego, criticou abertamente o ex-colega de bancada e depois se retratou). É a decadência chegando antes do tempo.

José Serra e a “grande imprensa”: O político paulistano não é dos mais simpáticos e ainda por cima possui a estranha mania de abandonar cargos no meio do caminho (Governardor e Prefeito de São Paulo, lembram?). Isso sem falar que dizem que costuma pegar para si ideias de outros e que possui muitos desafetos dentro de seu próprio partido. No ano de 2011, Serra só viu seu prestígio diminuir e sua rejeição aumentar. Mas recentemente a barra pesou de verdade para o duas vezes derrotado candidato a presidência, afinal ele é o principal alvo das acusações de corrupção e enriquecimento ilícito, durante a privatização das telefônicas no governo de Fernando Henrique Cardoso, estampadas no livro-investigação A Privataria Tucana (Geração Editorial), do jornalista Amaury Ribeiro Jr. Mas onde entra a “grande imprensa” nessa história? Revistas como a Veja, jornais como a Folha, Estadão e O Globo, e TVs como a Globo deixaram cair a máscara da imparcialidade ao ignorarem uma pauta quente como essa, mesmo que fosse para esvaziá-la. Sempre a primeira a correr atrás de qualquer indício, por mais furado ou, no caso da Veja, inventado que seja, de desmandos dos governos Lula e Dilma (e eles existem e precisam ser investigados), a chamada “grande imprensa” finge que essa história não existe no PSDB ou em São Paulo ou em Minas Gerais, etc. Assim deixa claro, para quem ainda não sabia, que seu compromisso é mais político que com o leitor. Já é bom encomendar um epitáfio caprichado para toda essa turma de altas plumagens (acho que o Arnaldo Jabor ou o Ferreira Gullar devem topar).

E assim podemos nos despedir de 2011 na torcida de que o ano novo seja o melhor possível para todo mundo. Tipo paz mundial, saca? Então, aquele abraço e até 2012! Ah, e pra você que gosta de tocar o terror nos comentários... ai, seu eu te pego...