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sábado, 7 de janeiro de 2023

se eu quiser falar com gil

começando 2023 com novo frila pra querida Revista Monet, minha antiga casa (de 2006 a 2011). dessa vez foi uma reportagem sobre a nova temporada do talk show de Gilberto Gil para o Canal Brasil. infelizmente não consegui falar com octagenário mestre (final de ano, ele viajando, agenda cheia, etc) e as aspas que estão aqui vieram via assessoria de imprensa do canal. mas valeu, porque quando o material é bom (independente da procedência) a costura vai melhor. 


NA QUALIDADE RARA DE CONVERSA

Gilberto Gil festeja a terceira temporada de seu talk show ao lado de convidados como Fernanda Montenegro, Liniker, Marcelo Adnet e a filha Bela Gil


Gilberto Gil não tem medo da morte, mas sim de morrer. Do alto de seus 80 anos, completados em 26 de junho do ano passado, Gil dribla esse e outros medos ao seguir criando, cantando, refletindo, tocando e conversando. Vivendo, enfim. Recentemente, por exemplo, estreou na França sua primeira ópera, Amor Azul, onde tocou e foi acompanhado por 150 músicos da Orquestra da Radio France. E agora, neste mês, comemora a estreia da terceira temporada de seu programa no Canal Brasil, Amigos, Sons e Palavras.

“Os perfis das pessoas que estão vindo, dessa vez, são muito delineados e muito ligados a campos importantes de atuação de vida e eu, de certa forma, tenho tido mais interesse em outros aspectos na vida das pessoas do que propriamente questões existenciais”, explica Gil sobre os convidados desta temporada do programa. Daí que o baiano conversa sobre grandes e pequenas questões com pessoas como a física Gabriela Barreto Lemos, os sociólogos Laymert Garcia dos Santos e Demétrio Magnoli, o advogado Ronaldo Lemos, a cantora Liniker, o antropólogo Hermano Vianna, as atrizes Fernanda Montenegro e Glória Pires, os humoristas Marcelo Adnet e Gregório Duvivier e a filha e culinarista Bela Gil.

“Escolhemos os convidados, como sempre, sentando e compartilhando sugestões, ideias, nomes, aspectos, temas, fazendo uma lista longa de nomes, de onde exatamente tirar os entrevistados finais. Foi assim, com a equipe toda sugerindo, levando em consideração o perfil do programa, de entrevistas. E por outro lado, o que me interessa no meu radar, o que eu mesmo gosto de conversar”, diz sobre o programa que estreou em 2018, mesmo ano que lançou seu último disco de inéditas, o premiado OK OK OK. 

Em agosto daquele ano, Gil deu o pontapé inicial deste novo projeto fazendo uma tabelinha com o amigo-irmão Caetano Veloso. Nas semanas seguintes, e na segunda temporada que estreou em 2019, tudo pré-pandemia, as conversas giraram viajantes e afetuosas com pessoas tão diferentes quanto Xuxa e Fernando Henrique Cardoso, Zé Celso Martinez Corrêa e o Dr. Roberto Kalil, Lilia Cabral e Fernando Haddad, Flávia Oliveira e Dráuzio Varella, Alfredo Sirkis e Ivete Sangalo, Alex Atala e Lázaro Ramos, mas também muito familiares, como foi o caso com os filhos Preta e Bem Gil. As duas primeiras temporadas tiveram 25 episódios ao total, todas disponíveis no Globoplay, e a atual possui 13 (existem alguns episódios completo no YouTube do Canal Brasil, enquanto no Globoplay são exclusivos para assinantes).

Gil e Adnet, um dos episódios da 
terceira temporada de Amigos, Sons e Palavras

TEMPO REI – Figura fundamental da música e da cultura brasileira desde meados da década de 1960, Gilberto Passos Gil Moreira é autor de canções clássicas como “Domingo no parque”, “Aquele abraço”, “Cérebro eletrônico”, “Expresso 2222”, “Back in Bahia”, “Realce”, “Andar com fé”, “Se eu quiser falar com Deus”, “Toda menina baiana”, “A novidade” e “Vamos fugir”, entre dezenas de centenas de outras espalhadas por mais de 50 discos em cerca de seis décadas de carreira. E ainda teve oito filhos de três casamentos. E ainda foi vereador em Salvador (1989-1992) e Ministro da Cultura (2003-2008). E ainda compôs para cinema (Eu, Tu, Eles, por exemplo) e televisão (é dele, apenas, o tema de Sítio do Pica-Pau Amarelo). Tudo sempre com calma e balanço, firmeza e poesia. Com o envelhecer, claro, não seria diferente.

“Eu fiquei uma pessoa, por um lado muito simples, por outro muito complexa, ainda muito tímido, ainda muito temeroso em relação a muitas coisas, ainda aflito em relação a muitas questões sobre estar nesse mundo, de compartilhar esse mundo com outras pessoas. Simples nesse sentido de ter feito escolhas muito ‘normais’, digamos assim, para o preenchimento dos meus desejos, das minhas ambições, das minhas vontades, mas ao mesmo tempo, tomado por essa complexidade que é a vida. Porque me vi como um adepto da bondade radical. Sou um arauto da bondade, gosto das coisas que são identificadas com o bem, que são vistas como sendo do mundo do campo da bondade”, reflete de um jeito que só Gil conseguiria. 

Pouco mais de quatro anos atrás, na estreia de Amigos, Sons e Palavras, Gil também puxou o assunto do envelhecimento com Caetano Veloso (ambos possuem a mesma idade, um de junho e o outro de agosto de 1942). Entre muitas digressões, Gil disse que “o envelhecimento dá essa possibilidade dos distanciamentos e a aproximação da saudade como elemento próprio seu, saudade de si mesmo, além da perspectiva da finitude cada vez mais perto e a necessidade de se livrar de um sentido ameaçador que isso pudesse ter”. E sorriu bem resolvido com a morte (mas não com o medo de morrer, afinal de contas, e se ele tiver dor ou uma vontade de fazer xixi ali bem na hora?).

Enquanto isso não acontece, e Gil não tem pressa nenhuma, o baiano segue ativo na vida e cada vez mais perto de sua grande família. Ano passado todos foram protagonistas de uma série documental chamada Em Casa com os Gil. Em junho deste ano estreia no Brasil Nós, a Gente, show com filhos, filhas, netos e netas que começou pela Europa e foi transformado em Viajando com os Gil, docusérie produzida pela Conspiração Filmes e dirigida por Andrucha Waddington. E como se não bastasse tudo isso, Gil virou, também em 2022, um “imortal” da Academia Brasileira de Letras.

“O que tenho de perspectiva daqui pra frente é essa continuidade do trabalho como artista e essas contribuições laterais que vão sendo dadas, como é o caso da Academia Brasileira de Letras, onde a gente tem sempre uma participação, da tematização das coisas a serem tratadas lá, dos seminários a serem feitos, dos estudos a serem feitos ali. Essa participação ampla na sociedade, com entrevistas, com projetos feitos com as comunidades, palestras que são feitas ali, um prefácio de um livro que se escreve acolá, tudo isso. E isso vai seguindo até o dia de desaparecer do mundo”. E virar super-homem, Gil, transformando as velhas formas de viver. 

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

yahoo #61

bateu uma nostalgia lá no yahoo e acabei fazendo, sem querer, um texto que dialogava com o anterior sobre o longa o som ao redor, afinal a morte do cinema de rua tem muito a ver com o tal medo da classe média do resto do brasil. de qualquer forma, ninguém deu a mínima pelota, então o lance é bola pro mato que o jogo é de campeonato (e está no ar "música popular de cavalgar").




SAUDADE DE CINEMA DE RUA

Os primeiros filmes que vi foram em cinemas de rua, mais precisamente no Centro de Fortaleza. Dá-lhe E.T. – O Extraterrestre, Superman III, Loucademia de Polícia e Trapalhões, muitos Trapalhões. O São Luís ainda existe, mas outros como o Diogo passaram dessa pra pior (shoppings, igrejas ou a pura e simples demolição). Depois vieram os do Rio de Janeiro. Vários na Praça Saens Peña, perto de onde morava, outros tantos no Centro e alguns poucos na Zona Sul. E tome Guerreiros de Fogo, Remo – Desarmando e Perigoso, Por Incrível que Pareça, Ran e Brás Cubas. Depois ainda vieram Ribeirão Preto, Campinas e, finalmente, São Paulo. Muitos e muitos filmes em cinemas de rua, sempre.

Tinha algo de mágico nesse movimento de sair da realidade (a cidade) para entrar na fantasia (o cinema) e depois voltar com uma montanha de imagens e assuntos na cabeça. Sempre achei que cinema, literatura, quadrinhos, música, cultura de uma forma geral, fazem a gente viver mais ou, pelo menos, ter mais experiências, conhecimentos e paixões. Cultura fica na gente, por baixo da pele, nos olhos. E os cinemas de rua fazem com que essas sensações se relacionem com a cidade. Mas lá pelo final dos anos 1980 os shoppings começaram a ganhar terreno.

Primeiro como modernidade e status provinciano, e depois como refúgio de classes médias e elites contra uma cidade que lhes parecia cada vez mais assustadora (é o medo do outro, do diferente, do Brasil, como se pode ver no longa O Som ao Redor, assunto que tratei em “Nem todos estão surdos”). Daí que os cinemas de rua foram sendo abandonados em nome de uma bolha de segurança e vitimados pela sempre esperta especulação imobiliária.


Mas não adianta chorar pelo fotograma derramado, pois os cinemas de shopping vieram pra ficar e ficou muito caro manter um cinema de rua. Talvez se houvessem incentivos públicos como isenção de IPTU, a coisa melhorasse um pouco, afinal qualquer equipamento cultural acaba movimentando a região que o cerca e isso é ótimo pra cidade.

No entanto tive sensações conflitantes quando soube que Juca Ferreira, Secretário de Cultura da nova gestão da Prefeitura de São Paulo, planeja comprar o prédio do falecido Cine Belas Artes (esquina da Consolação com a Paulista) para transformá-lo em centro cultural. Quer dizer, todo novo centro cultural é bem vindo, onde quer que seja, e a região agradeceria – bem como os que vivem, trabalham ou passam por ela – que lhe dessem uma chance contra a degradação urbana.

Por outro lado, o Belas Artes não tem nada de especial, a não ser, claro, a relação afetiva com seu frequentadores. Mas prédios também possuem seu ciclo de vida, é normal. Então, não seria o caso de usar esse dinheiro para criar equipamentos culturais em áreas menos favorecidas, como sugere Raul Juste Lores em “O elitismo da ‘compra’ do Belas Artes”? Ou que se pensem em políticas culturais melhores e mais abrangentes como diz Ricardo Queiroz em “A polêmica do Belas Artes”?

De uma forma ou de outra tem que ter pipoqueiro, boteco perto, esses gêneros de primeira necessidade de uma cidade feliz.

sábado, 15 de setembro de 2012

música brasileira, essa caixinha de surpresas

muito boa, e notavelmente arriscada, a iniciativa do pessoal do pulsa nova música de reunir alguns músicos e bandas do momento, mais ou menos conhecidos e de lugares variados, para regravar um punhado de clássicos nacionais. boa porque sempre rolam alguns encontros/releituras memoráveis e arriscada porque... bem, tributos são uma loteria, tem vez que não dá certo, tem vez que dá vergonha. coisas da vida, enfim. mas, entre mortos e feridos, essa coletânea brasileiros se sai muito bem. são 15 faixas que podem ser baixadas separadamente a partir do player abaixo.


brasileiros (pulsa nova música, 2012)

1. bazar pamplona – “o que é que a baiana tem?” (dorival caymmi)
2. suéteres – “baby” (caetano veloso)
3. hierofante púrpura – “cuitelinho” (pena branca & xavantinho)
4. sabonetes & pedro pelotas – “detalhes” (roberto carlos)
5. pélico – “sim” (cartola)
6. letuce – “esotérico” (gilberto gil)
7. hidrocor – “alegria alegria” (caetano veloso)
8. nevilton – “amanheceu peguei a viola” (renato teixeira)
9. felippe pompeo – “san vicente” (milton nascimento)
10. nana – “garota de ipanema” (tom jobim e vinicius de moraes)
11. oito mãos –“trem das onze” (adoniran barbosa)
12. seychelles – “dia 36” (mutantes)
13. mahmundi – “corre corre” (rita lee)
14. arthur matos – “disparada” (geraldo vandré)
15. felippe pompeo & guilherme morais –“ travessia” (milton nascimento)

gostei de todas as faixas, nível bom mesmo na curadoria e versões. acho que só o “alegria alegria” do hidrocor me incomodou. mas as preferidas pessoais foram “esotérico” com letuce, “cuitelinho” com o hierofante púrpura, “trem das onze” com oito mãos, “corre corre” com mahmundi e “sim” com o pélico (acho que são as que mais ficam diferentes das originais). a do pélico ganhou um vídeo ótimo feito por filipe franco e a mahmundi, que já tocava essa música da rita lee em seus shows, ganhou um ao vivo registrado pela oi novo som. seguem...


sábado, 31 de março de 2012

yahoo #34

depois que escrevi esse "estamos perdidos?" lá no ultrapop na semana passada, o affair entre o ministério da cultura (gestão ana de hollanda) e o famigerado e enigmático ecad, trazido à baila pelos colegas do farofafá, ganhou alguns novos capítulos. o cineasta cacá diegues saiu em defesa do jeitinho ana-ecad ("a cultura é a alma de um povo"), o colunista d'o globo ancelmo góis lançou notinha venenosa sobre o farofafá e o próprio site do ministério da cultura republicou, como se fosse um clipping, um artigo em sua defesa escrito no estadão por josé nêumanne. artigo, aliás, equivocado, elitista e míope de cabo a rabo (como costuma ser o pensamento de nêumanne, nenhuma novidade nisso). de resto, um revelador pacto de silêncio entre governo, oposição e grande imprensa mantém a ministra de amsterdã no cargo e, consequentemente, o atual estado das coisas.


já o texto dessa semana, "o mal e as más", teve um tema mais, digamos assim, ameno: a maldade de duas vilãs recentes de novelas e como elas podem explicar os seus autores (no caso, joão emanuel carneiro e aguinaldo silva).





ESTAMOS PERDIDOS?

O bicho tá pegando. O couro tá comendo. A estrovenga tá girando. Quem acompanha notícias relacionadas à cultura musical brasileira sabe que vivemos um momento curiosamente ambivalente. Tipo euforia e depressão. Bipolar, apontariam os estudos.  Na internet, ou através dela, vivemos num frenesi inesgotável de eventos, discussões, lançamentos gratuitos, transmissões e compartilhamentos, isto é, variedade e disponibilidade. Enquanto isso, no mundo real, a Ministra da Cultura Ana de Amsterdã afirma, em sabatina no Congresso, que “hoje em dia a pirataria é feita assim. É copiado através da internet, e isso se multiplica, está sendo distribuído e vendido pela internet. (...) Isso vai matar a produção cultural brasileira se não tomarmos cuidado”.

Não parecem ser o mesmo mundo, confere? Aí fiquei dando tratos a bola... mas que mundo é esse da Ministra de Hollanda, seus assessores e secretários, que considera compartilhamento o mesmo que pirataria? E que acredita, consequentemente, que a internet é O MAL disseminador dessa praga que pode matar a produção cultural brasileira? Peraí, que cultura brasileira é essa que pode ser feita em pedacinhos pelos www da vida?

Todas essas perguntas vinham sendo respondidas nas próprias ações do MinC desde seus primeiros passos no início do ano passado. Em poucas semanas, Ana, a ministra, deu um catiripapo nos progressistas oito anos da gestão Gilberto Gil/Juca Ferreira e transformou a internet em inimiga da coisa toda. Começaram uns papinhos aqui e ali com as poderosas (e míopes) organizações norte-americanas de defesa dos direitos autorais e com o ECAD (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), o enigmático & muito nosso órgão privado que não pode ser investigado, que nunca explica direito como arrecada e distribui e que, recentemente, meteu os pés pelas mãos ao tentar cobrar blogs que incorporassem vídeos do You Tube.


O tal artista que o Ministério diz estar defendendo não é o artista que compõe, grava e faz ao vivo e sim o “artista” que lucra com suas retransmissões, isto é, a iniciativa privada. E que hoje não passa de um pequeno grupo de carpideiras de discos de ouro passados, invariavelmente multinacionais. Não estou falando da boca pra fora. Recentemente, o colega aqui de Yahoo! Brasil, Pedro Alexandre Sanches, vem assinando no Farofafá, em parceria com Jotabê Medeiros e Eduardo Nunomura, uma série de reportagens sobre a estranha promiscuidade entre o MinC e o ECAD, com direito a favorecer de um (público) em prol do outro (privado) em um processo contra formação de cartel. Mas, infelizmente, nada disso deve ir muito longe, afinal ninguém liga para a cultura mesmo, não é mesmo Governo e Oposição?

Muito bem. Pouco antes, em fevereiro, durante um evento em Porto Alegre, o ex-ministro Gilberto Gil disse que “a internet chegou para bagunçar o coreto. E tem aqueles que acham que por ordem no coreto é reivindicar a restauração, a ordem tal como ela foi até agora. Para outros não, é preciso criar novas ordens, novas formas de regulação, novas formas de atendimento a questão dos direitos. (...) Essas são as novas disputas e que estão em todas as áreas, no econômico, no político, no cultural, etc.” Para Gil, como para muitos outros (e outras), não estamos nada perdidos. Vivemos é um novo estado das coisas em constante transformação. Nada é sólido e tudo tem que ser para todos, fato que deve causar arrepios nessa gestão vazia, isolada e equivocada do Ministério da Cultura.

Agora, para finalizar, que cultura (musical) brasileira é essa que está sendo ameaçada pela malvada internet? Com certeza não é a de artistas que se viralizaram pela rede, disponibilizando seus trabalhos para download gratuito, e que estão curtindo a dor e a delícia de serem donos de suas próprias carreiras, tais como Criolo, Emicida, Karina Buhr, Wado e Romulo Fróes. Já neste ano três outros artistas (Lucas Santtana, Letuce e Siba) também lançaram e distribuíram seus novos trabalhos no mesmo esquema. Para nenhum deles, a internet é vilã. Talvez esse MinC esteja defendendo a turma de padres-pastores(as) que cantam e que ultimamente tem sido a tábua de salvação (opa!) do mercado fonográfico. Mas como acredito (e não só eu) que santo de casa não faz milagre...

sábado, 25 de fevereiro de 2012

35 minutos de história

foi em 2005 que a universal finalmente lançou phono 73 (em dois cds e um dvd), o célebre show que a então gravadora polygram promoveu em são paulo, entre 11 e 13 de maio de 1973, com os artistas de seu casting. se você ainda não viu os 35 minutos de filmagens que sobraram daquelas noites separe um tempinho em sua vida atribulada e divirta-se com grandes encontros, loucuras mil e um pouco do melhor da música brasileira (de então e de sempre).


quase impossível conceber uma gravadora (que mais tarde se transformaria na philips e depois em universal) com um elenco absurdamente excelente como esse. e dá-lhe ronnie von, hermeto pascoal, nara leão, mpb-4, odair josé, jair rodrigues, wilson simonal, maria bethânia, gal costa, dominguinhos, toquinho, vinicius de moraes, caetano veloso (pirando progressivamente em "a volta da asa branca", afinal o baiano estava em sua fase araçá azul), jorge ben (suingando loucamente ainda no violão e também com gilberto gil em "jazz potatoes", por exemplo), raul seixas (em performance endiabrada), elis regina (toda em ritmo de tango), sérgio sampaio (sensualizando "eu quero é botar meu bloco na rua"), chico buarque e gilberto gil (que fazem a mais radical versão de "cálice", com direito a microfone de chico cortado pela censura dos milicos, a letra trocada, o escambau).

domingo, 22 de janeiro de 2012

red hot + rio 2, a missão

lembro que quando foi lançado o primeiro disco-tributo produzido pela organização red hot (fighting aids through popular culture) tive o primeiro vislumbre do choque de gerações numa crítica musical. é que o paulo francis, acho que na época estava na folha, ficou puto das calças com o que artistas como jungle brothers e neneh cherry, entre outros, fizeram com clássicos de cole porter no ótimo (não pra ele) red hot + blue (1990, também estavam presentes gente como u2, tom waits, k.d. lang, fine young cannibals e jimmy sommerville). tinha 16 anos e pensei, “olha só, o tiozão não sabe o que tá acontecendo, não tá entendendo nada”. e o projeto ainda tinha uns clipes da pesada dirigidos por wim wenders, jim jarmusch, alex cox, jean-baptiste mondino, jonathan demme, percy adlon, neil jordan, etc.

vinte e um anos se passaram, a ong lançou outros discos – destaque para red hot + rio (1996, sobre bossa nova), onda sonora: red hot + lisbon (1998, sobre portugal, áfrica portuguesa e um pouco de brasil), red hot + riot (2002, sobre fela kuti) e dark was the night (2009) – e no ano passado veio red hot + rio 2 (2011), o décimo sétimo desse projeto surpreendentemente longevo e de alta qualidade. enfim, ouvi o disco duplo (34 músicas) ali por volta de setembro e gostei bastante de muita coisa, mas quando chegou a hora de fazer as listinhas com os melhores do ano não sabia se colocava nos gringos (a produção geral é de lá) ou nos nacionais (afinal a onda do trabalho é rever o tropicalismo e, não contei, mas acho que mais da metade dos artistas envolvidos ou músicas são brasileiros). travei nisso e o disco não entrou em nada, nem entre as músicas. puta sacanagem. então pensei em fazer uma postagem só pra ele como uma espécie de recompensa. ontem, numa passada rápida na fnac pinheiros, vi que tinham lançado aqui (som livre) e que o preço estava bem honesto (22,90). era a deixa e lá fui eu ouvir pela quinta ou sexta vez.

a produção musical de red hot + rio 2 é do brasileiro béco dranoff em parceria com paul heck e john carlin (mario caldato jr. e kassin foram consultores) e a proposta é rever o tropicalismo das mais diversas formas musicais, misturando artistas, brasileiros e gringos, remixes, gerações, clássicos da época e músicas novas, o nosso bom e velho samba do criolo doido. o disco 1 se chama red, enquanto o disco 2 é o hot. não existe nenhuma diferença conceitual perceptível a olhos nus entre um e outro.

alice smith + aloe blacc - "baby" (official music video) from red hot on vimeo

red

essa “baby”, com aloe blacc e alice smith, abre o disco, é uma delícia de ouvir (mesmo com alguns cacoetes eletrônicos lounge do que acabou virando a drum’n’bossa), e tem o plus a mais da presença de blacc, que puta voz, cantando versos caetânicos e com um pandeiro ao fundo. na sequência vem a sempre sensacional “tropicalia”, que o beck lançou no seu mutations (1998), e que aqui ganha o reforço suingado de seu jorge, inclusive cantando uma versão da letra em português. então, de repente, aparece o pessoal do clube da esquina com “um girassol da cor do seu cabelo”, só que cantada pela americana mia doi todd e o sueco-argentino josé gonzález. a linda música de lô e márcio borges é cantada em português (impossível traduzí-la) e sobrevive com dignidade. dá pra ver que eles provavelmente foram os que mais capricharam no “brasileiro” e fizeram um belo arranjo folk, só que com muito mais camadas e texturas. e a música seguiu doce como sempre.

rh loft party: mia doi todd + josé gonzález from red hot on vimeo

coco quadron, a vocalista do duo dinamarquês quadron, é muito simpática, mas acaba destruindo “samba de verão” (marcos valle, que é da segunda geração da bossa nova, pré-tropicalista portanto) com sua tentativa de português (e, com mil diabos, a letra em inglês é até boa e ela não arriscaria o pescoço). a parte musical é um tanto mais lenta, meio barzinho, mas se sustenta. daí vem “boa reza”, canção de vanessa da mata cantada em dueto com seu jorge e com a companhia luxuosa do grupo almaz. não dá pra entender porque, conceitualmente, a música estaria nesse disco “pós-tropicalista”, mas ela é boa demais para se perder por aí com sua pegada afro-brasileira, religião, guitarra massa de lúcio maia e batuque. bem, talvez seja isso.

o soulman john legend aparece com sua “love i’ve never know”e a coloca em ritmo de bossa leve com pandeiro. boa de ouvir, mas sem surpresas. já “nascimento (rebirth) – cena 2” eu não entendi muito bem a proposta, confesso, mas tem aloe blacc novamente, e de um jeito mais solto e moderno, e clara moreno (filha de joyce e nelson angelo) fazendo uns “eparará-pumdê-pumdêé”. é eletrônica em algumas partes e não sei bem o que isso quer dizer. então é a vez de curumin, certeza de som bacana, que faz uma ótima regravação de “ela” (gilberto gil), devidamente remixada pelo produtor americano ticklah (antibalas, easy stal all-stars e dap kings). e a “baby” de aloe blacc e alice smith volta reprocessada como “old dirty baby dub version” pelo produtor canadense doc mckinney. sei lá, não cola muito e nem dub é, na verdade.

uma das boas surpresas do disco é a versão de “um canto de afoxé para o bloco do ilê” feita pelo coletivo superhuman happiness (que tem gente do antibalas, fenomenal handclap band, passion pit, tv on the radio e the roots) com a banda cults, todos americanos. é bem próxima da original verdade seja dita, mas consegue ter uma diversão própria com direito a um delicioso sax safado oitentista que lembra o do mauricio pereira n’os mulheres negras. e do nada aparece um tal de om'mas keith (the sa-ra creative partners) que se derrama cafonamente em “mistérios”, mas como a música é de joyce, e eu tenho lá meus problemas de ouví-la, passei disperso, batido. tudo muda em “aquele abraço” com clima de festão multicultural unindo forró in the dark, brazilian girls e angélique kidjo, que faz um breque de gala rimando na língua que ela fala em benin e que não faço ideia qual seja.

mia doi todd volta com uma versão bem respeitosa de “canto de iemanjá”, quem é um dos clássicos afrosambas de baden e vinicius, o que significa que o tom fica mais solene e quebra o ritmo do disco. que não melhora com “terra”, com o próprio caetano cantando em 1978, e remixada muito discretamente, quase preguiçosamente, pelo prefuse 73 (maior frustração do disco, talvez). aí vem a linda “nu com a minha música”, que caetano lançou no outras palavras (1981), e aqui é cantada com muita delicadeza por marisa monte, devendra banhart e rodrigo amarante. desce que é uma boniteza. e bebel gilberto, muito espertamente (o que tem sido raro nos últimos tempos), faz um “acabou chorare”no estilo menos é mais, fechando um ciclo de quase 40 anos, já que foi ela falando ainda bebê que inspirou o nome da música (joão gilberto ia no sitio dos novos baianos em campo grande, rio de janeiro, e contava histórias de sua filha bebel). pra encerrar o disco vermelho, “dreamworld: marco de canavezes”, parceria de caetano veloso e david byrne, gravada originalmente em onda sonora: red hot + lisbon e uma ótima batucada eletrônica em homenagem a carmen miranda (que nasceu em marco de canaveses, portugal).

rh loft party: beirut from red hot on vimeo

hot

o disco quente começa com essa música aí logo acima. zach condon e seu pessoal do beirut já tocavam “o leãozinho” em shows, então a escolha veio naturalmente e o resultado é um belo caetano melancólico tendo como base um cavaquinho claramente não brasileiro (uma levada meio ukelele). já o pessoal do tha boogie pegou “panis et circensis” e a transformou em um rockinho com timbres parecidos com o strokes (ou seria coldplay?) e nada mais que isso. difícil errar “bat macumba”, principalmente se forem mantidos a psicodelia e o batuque, e os americanos do of montreal ainda por cima contam com a presença guitarrística de sérgio dias (mutantes). tudo em casa.

e olha o clube da esquina novamente! “tudo o que você podia ser”, de lô e márcio borges, surge com marcos valle e a phenomenal handclap band, cuja vocalista laura marin manda um bom português. arranjo acertado com teclados vintage e guitarra distorcida. daí que vem joyce, em carne, osso, voz e “banana”(gravada originalmente em feminina, 1980) e não tem madlib (e um tal de generation match) que salve essa bossa hippie de louvor às coisas naturais brasileiras.

agora, pós-tropicalismo mesmo é reunir marina gasolina (ex-bonde do rolê), o produtor francês secousse (etienne tron) e “freak le boom boom”, clássico pop trash de gretchen. o resultado é sensacional e certeza de sucesso em qualquer pista (e ainda rolou, fora do projeto, um remix mais pesado feito pelo pessoal do cansei de ser sexy). enquanto isso, o sambinha poliglota “tropical affair” me pareceu confuso, meio com cara de publicidade, apesar das fortes presenças de thalma de freitas, money mark (beastie boys) e joão parahyba (trio mocotó). fortemente latina desde seu surgimento em 1967, “soy loco por ti, américa” (gilberto gil e capinan) veio no disco em interpretação de carlinhos brown (ou seria carlito marrón?) com os cubanos dos los van van e órgão de money mark. tudo direitinho, no jeito.

já “roda”, música pré-tropicalista de gilberto gil gravada originalmente por elis regina em 1966, ganha uma nova cara com os ótimos arranjos de sopros da orquestra contemporânea de olinda (e os vocais de maciel salu e tiné) e um ótimo breque rimado sob responsabilidade de emicida. a qualidade continua lá no alto com “berimbau”, outro afrosamba de baden e vinicius só que menos solene, que no disco é cantada lindamente pela cabo-verdiana mayra andrade com acompanhamento suingadão do trio mocotó. outra voz feminina atual e das melhores, a de céu, protagoniza uma ótima “it´s a long way” (do espetacular transa, 1972) acompanhada do produtor apollo nove, joão parahyba, betão aguiar e os djs zegon e squeak e. clean (do projeto n.a.s.a.).

mais pós-tropicalismo no encontro dos pernambucanos dj dolores, otto, fred 04, isaar e chico science (in memoriam) com o cigano punk ucraniano global eugene hutz (gogol bordello). é “a cidade”, que continua muito atual em tempos de pinheirinho, favela do moinho e cracolândia, exemplos recentes de como o poder público (no caso, o governo de são paulo) se une a especulação imobiliária para bater e expulsar viciados e sem-teto, pobres todos, de áreas cobiçadas. a cidade não para, a cidade só cresce, o de cima sobe, o de baixo desce.

javelin + tom zé from javelin javelin on vimeo

taí um pouco do encontro de tom zé, os americanos do javelin e “ogodô, ano 2000”, uma das músicas mais profundamente tropicalistas do baiano e que aqui ficou em boas mãos. é outra canção difícil de ser estragada. como também é o caso da jobiniana “águas de março”, que no disco ganha versão inspirada com fernanda takai e moreno veloso nos vocais e o alemão atom™ (señor coconut) e o japonês toshiyuki yasuda nas programações. não entendi “show me love”, do grupo twin danger de vanessa bley, dentro do conceito do disco. quer dizer, é uma bossinha de tempos atuais, mas falta mistura, falta molejo. então vem rita lee com “pistis sophia”, um lamento sertanejo moderno (muito mutantes) com participação de joão parahyba. e aí o disco quente se encerra com uma faixa bônus, a linda “um dia desses” em dueto de kassin e cibelle (essa música foi gravada originalmente por adriana calcanhotto no disco maré, 2008, e é um poema de torquato neto musicado por kassin). uma música de amor interiorano bem brasileira toda riscada por intervenções eletrônicas. coisa mais linda. diga se não?


discos-tributo são sempre irregulares, impossível ser diferente, mas red hot + rio 2 é repleto de grandes achados e encontros, e faz um bom apanhado do que foi e por onde se encontra o nosso tropicalismo em tempos globais.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

ela toca campainha e sai correndo

encontrei com maria rita em um café chique na rua oscar freire, em são paulo, acho que em outubro de 2005. nossa conversa estampou a capa da tam magazine (spring) de novembro do mesmo ano, com fotos dos bróders da cia. de foto e coisa e tal. mas antes da entrevista acontecer houve uma certa tensão no ar, principalmente por causa dos assessores da cantora, completamente neuróticos pela recente polêmica criada, com aquela leviandade de sempre, pela revista veja (o caso dos ipods distribuidos pela gravadora warner para algumas figuras da imprensa - aqui, "o mensalinho de maria rita", é comentado por luis antônio giron). nada de fazer perguntas sobre o caso, nada de perguntas sobre a vida pessoal, etc. como se eu me interessasse por fofocas, vejam só vocês. só que quando maria rita chegou e o gravador foi ligado tudo isso desapareceu e a conversa rolou muito bem, e ela sempre muito simpática, muito acessível.

nesse tempo, maria rita estava lançado
segundo (warner, 2005), um disco agradável e sonoramente próximo a sua ótima estreia em maria rita (warner, 2003). depois desse nosso encontro fulgaz, a cantora se mudou para o rio de janeiro e caiu no samba. achei o terceiro disco da moça, samba meu (warner, 2007), um tanto chato, talvez pelo excesso de composições de arlindo cruz - eu realmente não gosto da escola cacique de ramos, não tem jeito - e por respeitar muito o cânone carioca do samba (fiz resenhas dos três discos para o gafieiras e os link estão em maria rita, segundo e samba meu). no mais, maria rita, que ontem completou 33 anos, continua uma das melhores cantoras da atualidade. e a vida continua.

A CERTEZA DE SER MARIA RITA

Quando, há dois anos, a cantora Maria Rita surgiu para o grande público foi com a força de um fenômeno natural, um furacão, um terremoto, um vendaval, e em seu rastro brotaram todo tipo de comentários: produto de gravadora, linda, filha da Elis, produto de marketing, maravilhosa, revelação, filha de César Camargo Mariano, um novo sopro de vida da MPB e assim por diante, para todos os gostos. Muita coisa mudou desde então e Maria Rita tanto ganhou quanto perdeu. Ganhou um filho, Antônio. Ganhou uma legião de fãs de todas as idades, e em mais de 30 países, que levaram as vendas de seu disco de estréia a ultrapassarem as 800 mil cópias. Perdeu o amigo e produtor do primeiro CD, Tom Capone, morto em um acidente nos EUA na noite da entrega do Grammy Latino 2004 (onde Maria Rita, que estava lá, levou três prêmios).

O mundo deu muitas voltas e recentemente deu mais uma paradinha para ver a cantora lançar seu esperado segundo disco, e por isso mesmo intitulado de
Segundo (Warner Music). A Maria Rita que se vê hoje não é a estrela distante que se espera, é apenas uma jovem mulher que sofre quando o filho fica doente, cola frases em sua agenda, brinca, grita, fala palavrão e sente uma força inexplicável quando sobe ao palco e enfrenta platéias com desejos e expectativas tão diversas. “Quem sou eu para julgar as interpretações dos outros. também sou uma intérprete”, disse durante a entrevista exclusiva.

O certo é que Maria Rita faz suas escolhas ouvindo a intuição. Foi assim que manteve a sonoridade ao vivo com piano, baixo e bateria dos amigos Tiago Costa, Sylvinho Mazzuca e Cuca Teixeira: “Se eu mudasse falariam que não tenho personalidade e se eu repetisse diriam que estou seguindo uma fórmula”, brincou. Foi assim que voltou a gravar composições de Marcelo Camelo, da banda carioca Los Hermanos, que no primeiro disco emplacou três e agora volta com duas, “Casa pré-fabricada” e a inédita “Despedida”. Foi assim que apostou suas fichas em compositores pouco conhecidos como Rodrigo Maranhão, Edu Tedeschi e Edino Krieger, além de encarar interpretações pessoais dos clássicos “Sobre todas as coisas” (Chico Buarque e Edu Lobo) e “Minha alma (A paz que eu não quero)” (Marcelo Yuka e O Rappa). Foi assim que chamou o ídolo Lenine para co-produzir o disco a seu lado. E foi assim por diante, feliz e certa de suas escolhas, que chegou ao final das gravações de
Segundo.

mãe elis, filha maria rita

Vendo você nos shows, ouvindo você falar, dá para notar uma postura pessoal bastante discreta. Como é ser assim e ter que lidar com um grande esquema de divulgação que exige superexposição?
É difícil, é algo que gera conflitos mesmo, porque eu realmente sou uma pessoa mais envergonhada, mais caseira. Não gosto muito de falar. E toda essa exposição gera muitos incômodos no dia-a-dia... gente tocando a campainha ou telefonando... mas é claro que é uma escolha. Sou uma artista e quero que as pessoas conheçam meu trabalho, mas é preciso colocar limites. Isso é muito importante.
E onde colocar esse limite?
Também é difícil saber porque uma hora tudo bem e outra hora não. A resposta é vaga... porque sim! Mas a gente também tem que pensar que para a pessoa levantar de onde ela está, respirar fundo... porque, enfim, é um ídolo dela ou é alguém que ela admira... e vir falar exige também uma coragem. Mas ao mesmo tempo vejo palavras minhas numa revista e não disse nada daquilo ou... quem tirou esse foto do meu filho? Quem deu autorização? Eu só trabalho com quem me cobra. Não sou preferencial, preferenciável ou prereferenciada. Não quero isso. Quero que respeitem meu trabalho, e as pessoas com quem trabalho, como respeito o trabalho de todo mundo.
E como foi esse aprendizado de lidar com todas essas questões?
Como tudo aconteceu muito rápido no primeiro disco, foi uma coisa meio no susto, não tive muito tempo para digerir. É assim? Então tá! Mas é um aprendizado diário. Chegou um momento na turnê do primeiro disco que não conseguia dormir, não conseguia sair com os amigos, namorar, tava fazendo mal a minha saúde. Foi muito delicado. E ao mesmo tempo você tá no meio disso tudo e não dá pra parar porque tem gente que tá comprando, gente que tá vendendo, gente que tá segurando a onda.


Maria Rita - Cara Valente
Enviado por azvix_1
Mas você esperava que fosse assim? Qual era tua expectativa?
Eu achei, claro, que fosse ter uma procura porque sou filha de dois grandes ídolos da música brasileira e minha mãe tem muitos fãs até hoje. Achei que houvesse uma curiosidade normal. Mas não achei que fosse tanto e que fosse tão rápido. De repente começou a encher o Supremo Musical
[onde Maria Rita começou a cantar ao lado de Chico Pinheiro e Luciana Alves logo que voltou dos Estados Unidos], que tinha 70 lugares. Tivemos que fazer shows extras. Aí mudamos para um outro lugar um pouco maior, o Crowne Plaza. E começou a lotar também. Recebi até uma carta de uma fã dizendo que apanhou na fila porque queria comprar quatro ingressos e a gente tinha limitado em dois por pessoa. Uma loucura. Essa rapidez com que as coisas aconteceram me impressionou. E tenho que entender meu lugar nisso tudo.
Você já fez os shows de lançamento do disco novo em São Paulo e no Rio de Janeiro. Notou alguma diferença no público deste disco para o público da sua estréia?
A gente já notou uma diferença durante a turnê do primeiro disco. O público foi ficando mais jovem. No começo apareceram os fãs da minha mãe, fãs de todas as idades, mas rapidamente isso foi mudando, foram aparecendo jovens, adolescentes e até crianças. As pessoas cantavam as minhas músicas e, juro, nunca ninguém pediu nenhuma música da minha mãe nos shows. Acho que todos logo perceberam que quem estava ali no palco era a Maria Rita.
E como surgiu a idéia do Lenine produzir o disco?
Quando o Tom Capone morreu eu fiquei muito insegura. Foi um baque muito forte porque a gente se entendeu muito rápido e era uma coisa que não precisava de palavras. No olhar a gente se entendia. Tinha muita verdade, muita entrega. E ele virou logo uma referência musical pra mim porque produziu de tudo, MPB, rock, tudo. Foi difícil pensar em um produtor novo. Aí, um dia, o Álvaro [Alencar], que é amigo de infância do Tom e foi engenheiro de som do primeiro disco, disse: “E o Lenine?”. O Lenine? E foi o primeiro nome com quem me senti confortável. Já tinha gravado uma música dele no primeiro disco (“Lavadeira do rio”) e o admiro muito. Senti que esse era o caminho e que tava tudo bem.


Você manteve a mesma sonoridade do primeiro disco no segundo com piano, baixo e bateria. Ao vivo. Foi uma escolha natural?
Pois é, se eu mudasse falariam que não tenho personalidade e se eu repetisse diriam que estou seguindo uma fórmula [risos]. Um dia eu tava folheando uma revista e vi uma propaganda, tinha uma mulher toda poderosa, um fundo branco ao lado, e uma frase que dizia assim: “A intuição é a arma mais poderosa da mulher. Use-a!”. Achei aquilo o máximo, colei na agenda e tudo. Decidi usar minha intuição, meu coração e pensei... porque mudar? Estou com esses músicos há anos, são meus amigos. Eles entendem minha linguagem corporal no palco. A gente se entende muito bem. Segui então minha intuição.
Mas você tem vontade de se envolver com outras sonoridades, outros tipos de formação?
Tenho sim. Gosto muito de metais e uma paixão pelo trompete. Gosto de cordas. Tenho vontade de fazer uns projetos especiais, mas não sei se esse é um nome adequado. Gosto de rock, tenho isso dentro de mim. Quero colocar isso pra fora. Não sou uma bonequinha! Não mesmo. Fico indignada com muitas coisas, com todas essas injustiças sociais, crianças abandonadas na rua, e acho que tem sonoridades que cabem melhor a esse tipo de indignação. O rock, por exemplo.
E você toca algum instrumento?
Campainha [risos]. Adorava tocar campainha e sair correndo [risos]. Mas tenho vontade de aprender algum instrumento sim, mais até do que compor. Tem esse lance de menininha... papai é meu herói... então tenho um lance com piano. Acho piano tão bonito!

sexta-feira, 8 de maio de 2009

ainda miles davis (e com surpresa)

miles davis continua me perseguindo. ontem terminei de assistir miles electric - a different kind of blue (2004), documentário realmente ótimo, com direito a entrevistas com boa parte dos músicos que tocaram com o trompetista na virada das décadas de 1960 para 1970 e muitas cenas de sua apresentação histórica no isle of wight festival em 1970 (airto moreira, impagável, afirma que fica surpreso ao lembrar de detalhes da apresentação, afinal, tava mutcho loco, entre apitos, cuícas, reco-reco, pandeiros e uma infinidade de sons brasileiros injetados naquela loucura funk-progressiva de miles). agora, qual não foi minha surpresa quando aos 31 minutos e 49 segundos do filme, em uma cena muito rápida de platéia, vejo isso.

gilberto gil!!! com sua típica cabecinha de lado, regatinha, black is beautiful e tal. a edição de 1970 do festival aconteceu na época em que gil e caetano estavam exilados na inglaterra. os dois e alguns outros músicos brasileiros fizeram uma apresentação improvisada na abertura do segundo dia do festival (27 de agosto). miles davis subiu ao palco dois dias depois. 600 mil pessoas por todos os lados.

como disse no post anterior, o documentário de murray lerner está no youtube.