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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

yahoo #60

quem gosta e acompanha cinema brasileiro estava ansioso para a estreia em longas de kléber mendonça filho. um tanto por seus inspirados curtas (ficcionais e documentais) e outro por suas brilhantes, e serenas, críticas de cinema no jornal do commercio, incluindo deliciosas coberturas do festival de cannes. o som ao redor é tudo que se podia esperar de seu talento e muito mais. é o tipo de filme que dá o que pensar e fica por dias a fio maturando na cabeça de quem o assiste, melhorando a cada lembrança. e, claro, foi assunto no yahoo. o texto mais recente por lá é o "saudade de cinema de rua" e tem relação com esse.




NEM TODOS ESTÃO SURDOS


Medo. Do que pode acontecer. Do desconhecido. Do escuro. Da rua. De quem está ao lado. De tudo, tudo. Boa parte dos personagens de O Som ao Redor, longa de Kleber Mendonça Filho lançado recentemente nos cinemas, sofre desse mal tão contemporâneo e urbano. Algumas vezes com razão, mas na grande maioria fruto de um emaranhado de paranoias, delírios e preconceitos, muitos preconceitos, individuais e coletivos.

Não existe uma trama clara nessa excelente estreia do pernambucano, autor de curtas sensacionais como Recife Frio e hábil crítico de cinema. Existem pessoas de classe média e seus empregados (porteiro, doméstica, flanelinha, entregador de água etc.), uma rua em Recife perto da Praia da Boa Viagem e um grupo de seguranças particulares que chegam oferecendo... segurança (Contra o quê? Contra quem?). E, claro, um dia após o outro dia.

Tem crianças brincando no playground azulejado do prédio, a patroa que dá esporro na empregada, a moradora de apartamento que reclama porque “anda recebendo sua Veja fora do plástico”, o boyzinho arruaceiro e prepotente, uma reunião de condomínio, o cachorro que não para de latir madrugada afora, um baseado fumado escondido, um banho de mar noturno, adolescentes namorando, um argentino perdido, uma batida de carros. Tudo normal, aparentemente normal. Aos poucos, o filme vai sendo tomado por uma tensão de que algo (ruim) está para acontecer. É o medo dessa gente tomando as mais diferentes formas.


No ótimo texto “Da relação direta entre ter de limpar seu banheiro você mesmo e poder abrir sem medo um Mac Book no ônibus”, Daniel Duclos fala da Holanda onde mora para chegar ao Brasil onde nasceu e à seguinte conclusão: “O curioso é que aqueles brasileiros que se queixam amargamente de limpar o próprio banheiro, elogiam incansavelmente a possibilidade de andar à noite sem medo pelas ruas [de Amsterdam], sem enxergar a relação entre as duas coisas. Violência social não é fruto de pobreza. Violência social é fruto de desigualdade social”.

Só que no Brasil a manutenção da desigualdade – consequentemente da violência e do medo – é um bom negócio para muita gente (não só dá lucro como também elege os coronéis Telhada da vida). E grudado nisso tem o espírito Casa Grande & Senzala que ainda vive arraigado em nossas relações sociais. Arraigado e difuso, afinal hoje em dia existem milhões de senhorzinhos de engenho espalhados pelo país (a diminuição da desigualdade econômica ameniza a social, mas não a resolve).

Não precisa mais ter poder, basta achar que tem. E na rua de O Som ao Redor, como em todo o país, tem um monte de gente que quer manter as coisas como estão com seus grandes e pequenos poderes. Quanto mais desigual, melhor, e o medo é moeda de troca nesse conflito diário entre autoritarismos e subserviências.

O filme critica tudo isso observando, apenas observando. Não levanta bandeiras, não faz discursos. Mas registra inúmeros momentos no qual pessoais normais alimentam o bicho feio (real ou não) que irá lhes assustar quando colocarem o pé na rua. Quem mandou não olhar para o lado. Quem mandou não ouvir.

p.s.: Recomendáveis a leitura desses dois textos sobre o filme, “O som ao meu redor” (Marcelo Negromonte) e “Terror suspenso” (Kiko Dinucci), e a ótima divulgação que o filme tem feito no Facebook.

sábado, 21 de janeiro de 2012

yahoo #24

olhaí a primeira coluna do yahoo no novo esquema semanal ultrapop. sobre esse sentimento que a gente vê por aí no brasil desde tempos imemoriais e que agora, nas janelas de comentários, ganhou ares de arte-bruta. o pessoal pegou mal, claro (aqui). esta semana já rolou o "bbb no dos outros é refresco" e vai saber o que mais pode aparecer por aí.




VIRA-LATA, UM COMPLEXO


Foi na década de 1950, e por causa do futebol, que Nelson Rodrigues falou que o brasileiro sentia um tremendo complexo de vira-lata. A causa era a derrota da seleção para o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950. A volta por cima veio com a vitória bela e histórica em 1958 (e em 1962 e 1970). Entre uma Copa e outra, o brasileiro se escondia pelos cantos, envergonhado da própria existência, “um Narciso às avessas, que cospe na própria imagem”. Mas é claro que essas taças, e as outras duas que vieram depois, não curaram um complexo anterior e tão arraigado nas elites e classe média, e o ufanismo vazio e truculento dos militares também não ajudou muito. E assim muitas pessoas continuaram se lamentando aos berros que viviam num “país subdesenvolvido de merda” com um “povinho de merda”. Bom mesmo é lá fora, povo educado, transporte público de qualidade, mil anos de história e os parques, que parques.


O crescimento econômico dos últimos dez anos criou uma nova classe média, mais dinheiro começou a entrar para mais gente que não os de sempre, e o Brasil passou a ser reconhecido internacionalmente para além de Carmen Miranda, Pelé e carnaval. Sem falar que receberemos uma nova Copa e a primeira edição das Olimpíadas na América do Sul, isto é, muito trabalho pela frente. Enfim, outros orgulhos foram tomando corpo a partir dessa, digamos assim, nova condição, essa nova ordem mundial. Mas não tem jeito, a manada dos descontentes segue na mesma toada de rejeição a tudo que for nosso, mestiço, fora do eixo.


Claro que não estou falando aqui de uma “obrigação de orgulho” ou um “agora, vai!”, muito pelo contrário, afinal o país continua radicalmente desigual e nossas políticas federais, estaduais, municipais e pessoais seguem viciadas em falsa cordialidade e toma lá, dá cá dos tempos da vovozinha. Ou como escreveu Caetano Veloso para Gal Costa cantar: “Neguinho quer justiça e harmonia para se possível todo mundo / Mas a neurose de neguinho vem e estraga tudo”. Estou falando aqui, e cito palavras do colega James Cimino, de que é preciso “construir um orgulho que não precise de slogan”. Um orgulho que seja realista e construído diariamente, sem bandeiras, só vivência.





Lembrei novamente dessas vira-latices nacionais porque recentemente o cantor Michel Teló virou motivo de guerra virtual após o fenômeno de seu sucesso nacional e internacional virar capa da revista Época. Não vou tratar desse assunto aqui – colegas jornalistas como Alex Antunes, Luis Antônio Giron e o companheiro de Yahoo, Pedro Alexandre Sanches, já o fizeram com maestria – porque o que me deixou mais uma vez intrigado foi a repulsa sobre uma das teses da reportagem: Teló reflete os valores da cultura popular brasileira. “Não, não e não, que absurdo”, diziam batendo pé no chão e prendendo respiração. Era o bom e velho complexo de vira-lata em mais uma manifestação 2.0 (no ano passado, A Banda Mais Bonita da Cidade sentiu esse gostinho com as reações ao clipe de “Oração” e escrevi sobre isso na coluna “A banda mais coisinha-bebê do Brasil”).


É como se o Brasil fosse um quintal a ser explorado para conseguir uma graninha e se mudar para algum lugar da Europa, aquilo sim que é terra de gente, pensam os vira-latas. É como se orgulho – que é muito diferente de patriotismo - fosse falta de visão crítica. Muito diferente disso pensa Timpin Pinto, um cara que só não é do Nordeste ou do Norte porque nasceu no Rio Grande do Sul e mora em Curitiba. Dia desses ele soltou, no seu jeito apaixonado e hiperbólico de sempre, que “seremos o novo Império Cultural e que nosso Império será hedonista, lúdico, matriarcal e dionisíaco”. Não iria tão longe nessa animação toda, principalmente sobre a parte do Império, mas tenho certeza que enquanto ainda aprendemos como ser Nação e sociedade, e isso é aprendizado sem fim, podemos ensinar muito mais do que julga nossa vã vira-latice.


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

fela kuti vs. de la soul

cortesia de amerigo gazaway, que juntou o nigeriano pai do afrobeat e o grupo americano de rap no disco fela soul, disponibilizado em streaming e também para download gratuito. saca só o peso (e com direito a participações especiais de redman, mf doom, yummy e gorillaz).

e aqui uma espécie de video-release-amostra-grátis.



sexta-feira, 2 de setembro de 2011

yahoo #13

pois então, minha gente. o décimo terceiro texto da ultra pop marcou uma volta da boa e velha polêmica ao meu cantinho no yahoo, mas jamais imaginaria que o seguinte, "drogas? tô dentro", causaria um rebuliço ainda maior. mas esse aqui trata de misturas nacionais, mashups e um tal de funknejo.

BASTARDO É A MÃE

Misturar ritmos diferentes em uma mesma música não é novidade nem aqui e nem na China. Não é coisa dos dias de hoje e exatamente por isso já foi chamado por vários nomes, de ‘mash mixed’ a ‘bastard pop’, de ‘crossover’ a ‘mashup’. Mas é deste último jeito, em inglês mesmo, que essa mistura ficou conhecida no mundo todo. E é um tanto diferente do bom e velho remix, seu meio-irmão. Enquanto no remix uma música ganha novas roupagens a partir de intervenções de batidas e efeitos criados por DJs e produtores, o mashup é o encontro-colisão de duas músicas já existentes, de preferência o vocal de uma com o instrumental de outra

Quando ainda não existia asfalto para chegar aos mashups, as misturas eram feitas ao vivo, com instrumentos, na raça mesmo. Mas a partir dos anos 1980, e mais radicalmente nos anos 2000, inúmeras ferramentas tecnológicas deixaram tudo mais acessível. E assim surgiram os primeiros fenômenos pop do gênero, com destaque para The Grey Album (2004), no qual o produtor Danger Mouse liquidificou Beatles (The White Album, 1968) e Jay-Z (The Black Album, 2003), e Collision Course (2004) com uma mescla de Linkin Park e Jay-Z feita pelos próprios. O poderoso rapper e maridão de Beyoncé, aliás, é figura fácil nos mashups e mais recentemente foi co-protagonista de Jaydiohead (2009), uma mistura feita pelo produtor Max Tannone de suas rimas com os instrumentais do Radiohead.

E o que isso tem a ver com o Brasil? É que fiquei sabendo que uma coisa chamada “Sou Foda 2” tinha sido feita e era nada menos que uma nova versão de “Sou Foda”, hit malicioso assinado pelos jovens funkeiros do Avassaladores que agora ganhou o apoio da dupla neosertaneja Cácio & Marcos. Nada disso havia me preparado para a música que saiu daquele vídeo e muito menos para o termo ‘funknejo’. Alguns podem achar que “Sou Foda 2” é um crossover, mas eu acho sinceramente que é um mashup “ao vivo”.



Ainda não sei muito bem o que pensar disso. É muito bizarro? É o futuro? Uma coisa não tem nada a ver com a outra? A verdade é que a nova geração que tem revitalizado comercialmente a música sertaneja é a mesma que, ao invés de criar novas canções, apenas recria hits de outros gêneros a seu modo (“Minha Mulher Não Deixa Não” é um das mais disseminadas). Resultado? O feitiço pode muito bem se virar contra os feiticeiros.

Porque essa coisa de misturar, como diria o sábio e saudoso Vicente Matheus, é “uma faca de dois legumes”. Às vezes funciona, noutras desanda. Por exemplo, o pioneiro da cena mashup nacional é o carioca João Brasil que em 2010 se meteu no ousadíssimo projeto “365 mashups” (Isso mesmo! Um por dia!). Ninguém no mundo tentou isso – e muito menos com tantas referências e artistas diferentes - e João Brasil saiu-se muito bem, mesmo com alguns escorregões aqui e acolá. Impossível, em um projeto desse tamanho, chegar ao 100% de aproveitamento. De qualquer forma, quinze dias atrás Brasil reuniu Guilherme de Arantes com Gaiola das Popozudas no divertido “Charme de Dar” e a alquimia funcionou.

Outro artista brasileiro dos mashups e remixes, o enigmático DJ Cremoso vem fazendo fama ao pegar sucessos internacionais dos anos 1980 para cá – de Nirvana a R.E.M., de Major Lazer a Joy Division, etc. - com o objetivo de mergulhá-los no caldeirão do tecnobrega. Já o pessoal da festa Criolina fez um bando de europeus sacolejarem ao som de mashups como “Mosca na Cerveja” (Raul Seixas vs. Chico Science & Nação Zumbi), “Nega do Bebo Sim” (Elizeth Cardoso vs. Marcelo D2) e “Manos e Molhados” (Racionais MCs vs. Secos & Molhados). Bastardos ou não, o que é brega hoje pode ser cult amanhã, e o que é cult hoje pode ser datado ou esquecido depois de amanhã. Só o tempo para julgar se experiências assim sobrevivem e se a posição da rã é um lance e não um romance.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

cruzando músicas

pois então, um produtor de nova york, max tannone, tem feito mashups cabulosos misturando dub com rap, afrobeat com rap, rap com rock, rap com rap, enfim, o diabo! de seus ouvidos e aparelhos sairam trabalhos como jaydiohead (jay-z + radiohead), doublecheck your head (beastie boys + beastie boys), selene (falas do filme lunar + músicas do compositor clint mansell) e a excelente dobradinha mos dub (mos def + dub) e dub kweli (talib kweli + dub). seu mais recente projeto de mashups, ghostfunk, é uma mistura de raps do veterano ghostface killah (wu-tang clam) com sons africanos da pesada de ebo taylor, victor uwaifo, lijadu sisters, rob kanda, honey & the bees band e gyedu blay-ambolley, entre outros. o resultado é bem massa. escute aí logo abaixo e baixe se quiser, pois tannone libera geral.

Ghostfunk by Max Tannone

sábado, 7 de maio de 2011

metrópolis, reino (quase) perdido

com todo trabalho de edição venho escrevendo menos na revista monet, mas nessa edição de maio assinei a matéria de capa (tropa de elite 2, logo mais por aqui), os textos de um ensaio fotográfico sobre a série planeta humano (bbc/discovery) e uma breve retrospectiva histórica do clássico metrópolis (1927), de fritz lang. motivo? a exibição no tcm (dia 23, 19h) do documentário metrópolis refundada, que trata do achado na argentina de uma boa parte do filme que todos julgavam que tinha se perdido para sempre. detalhe: o texto que segue está um pouco maior que na revista, afinal na mesma página tem um box sobre outro documentário, o excelente o inferno de henri-georges clouzot (dia 22, 22h, telecine cult).

cartaz de 2007 feito por bogna otto-wegrzyn, direto do polishposter.com

CLÁSSICO EM OBRAS

Pense em um filme clássico! Pronto. Certeza que a história de sua produção é quase tão interessante e rica quanto seu resultado. Pode ser o caos e a loucura que assombraram
Apocalypse Now (1979); ou a brincadeira exibicionista de um homem muito seguro de si em Cidadão Kane (1941); ou ainda a megalomania romântica durante E o Vento Levou (1939). Mas nada chega aos pés do que aconteceu antes, durante e depois de Metrópolis, a ficção científica dirigida por Fritz Lang que influenciou todo o século 20, de Hitler a Madonna, mas que poucas vezes foi vista, no esplendor de seus 153 minutos e com orquestra ao vivo, como nos primeiros meses do ano de 1927, em Berlim.

Cortadas, retalhadas, com velocidade de exibição alterada, as cópias do filme foram saindo da Alemanha para nunca mais serem as mesmas. Até que em 2008, uma versão com cerca de 20 minutos nunca antes vistos, desde aquela estréia, foi encontrada em Buenos Aires, Argentina. Toda essa história e a descoberta histórica é contada, em mínimos detalhes, no documentário
Metrópolis Refundada. Mas esse é o final feliz de uma história que poderia ter acabado muito mal, como tantas outras dentro desse território, às vezes tão negligenciado, que é a preservação da memória. olha o trailer.



No caso específico de Metrópolis o descaso vem desde a época de seu lançamento. Extremamente caro, visualmente ousado, o filme naufragou nas bilheterias alemãs e quase levou os estúdios UFA à bancarrota. Para arrecadar algum dinheiro extra, a produção foi vendida a Paramount, para distribuição nos Estados Unidos e resto do mundo, e aí o massacre começou. Quase uma hora do filme foi parar no chão da sala de edição, truncando totalmente a história original escrita por Fritz Lang e sua mulher Thea von Harbou (e em uma daquelas ironias do destino, os Estados Unidos mutilaram um filme que começou a ser pensado por Lang justamente após uma visita a Nova York em 1924).

O que era sombrio na trama futurista sobre uma sociedade industrial, no qual ricos frívolos oprimiam pobres automatizados, com direito a um cientista maluco e sua grande obra, uma a robô mulher criada para tomar o lugar de uma “líder revolucionária”, acabou se tornando ingênuo ao focar no amor de um casal (ele, da alta; ela, proletária) servindo como pacificador dessa luta de classes. Posteriormente, Hitler anunciou aos quatro ventos que Lang era o cineasta alemão/ariano por excelência e
Metrópolis um de seus trabalhos preferidos, o que apenas contribuiu para o diretor renegar ainda mais o filme e fugir da Alemanha em 1933 (sua mulher acabou ficando e se filiando aos nazistas). Lang filmou outros quatro longas no país nesse meio tempo, incluindo o igualmente clássico M – O Vampiro de Dusseldorf (1931) e O Testamento de Dr. Mabuse (1933), uma alegoria crítica ao nazifacismo, para então se exilar em Hollywood até sua morte em 1976.

“Não se pode fazer um filme com preocupações sociais em que se diga que o intermediário entre a mão e o cérebro é o coração. Isso é um conto de fadas. (...) Deveria dizer que gosto de
Metrópolis só porque algo que vi na minha imaginação se tornou realidade, mesmo tendo detestado o filme quando o terminei?”, disse um rígido Lang em 1971 numa conversa com Peter Bogdanovich (entrevista essa que presente no livro Afinal, Quem Faz os Filmes?).

E o filme ficou assim, capenga de sentido, mas sempre exuberante visualmente, até que cópias encontradas em cineclubes ao redor do mundo foram reunidas, restauradas, e deram em uma edição com pouco mais de 2 horas que foi exibida com grande pompa em 2001. Todos estavam felizes e ninguém imaginava que outros 20 minutos estavam vendo o tempo passar nas prateleiras do Cineclube de Buenos Aires. O frisson dessa descoberta, com direito a exibições a cinéfilos que não sabiam da existência desses trechos, está em
Metrópolis Refundada (estas novas cópias, acompanhadas da trilha original de Gottfried Huppertz, foram exibidas no mundo todo em 2010, incluindo Rio de Janeiro e São Paulo). Segundo especialistas, atualmente apenas 5 minutos do filme são considerados perdidos, o que não é nada perto do fato de que Metrópolis está muito mais vivo.

p.s.: tão vivo está que é fácil achar imagens do filme misturadas com músicas das mais diversas. separei aqui dois "mashups". o primeiro com a música "time lapse", que o grande michael nyman fez para zoo - um z e dois zeros (1985, peter greenaway) e foi reutilizada no documentário o equilibrista (2008, james marsh). ficou dramático.



a outra é com os igualmente alemães do kraftwerk e ficou mais pop.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

dj waldo squash, a entrevista

como falei no post anterior, "as duas cabeças do eletromelody", a entrevista com maderito e waldo squash rendeu bem e, como sempre, muita coisa ficou de fora do texto que fiz pra vice brasil. segue aqui, praticamente na íntegra, a conversa que tive que waldo. no próximo post, a íntegra de maderito, o alucinado do brasil.

waldo & maderito

o apelido
waldo vem de josivaldo. o apelido waldo squash surgiu quando eu trabalhava no rádio, uns 6 anos atrás. na verdade foi uma brincadeira com um amigo, estávamos conversando sobre esportes e eu disse que gostava de jogar squash. e aí no outro no horário do programa dele, eu estava operando o áudio e ele me apresentou como dj waldo squash... e daí todos naquela rádio começaram a me chamar pelo mesmo nome.

o começo
beleza, vamos lá então pra ficha criminal. eu nasci em muaná, no rio atuá, mas não conheço a cidade não, nunca mais voltei. fica nas proximidades da ilha do marajó. tenho 31 anos. nasci em 1979. fui criado em ananindeua. passei uns 20 anos, aproximadamente, por lá. hoje em dia moro em barcarena, que é uma cidade próxima de belém. é uma cidade muito industrial, tem muita empresa metalúrgica. inclusive, minha outra profissão é mecânico industrial. mas meu último trabalho como mecânico já tem um ano. foi lá em porto velho, fiquei uns seis meses lá, mas senti falta do meu estúdio, dos meus equipamentos. aí vim me embora, larguei.

a música
música começou desde que nasci. meu pai já era apaixonado por música, tinha um sonzinho, uma aparelhagem, como todo mundo aqui tem. a cada passo que você dá aqui você encontra uma aparelhagem. ele montou uma aparelhagem pra ele. quando era pequeno lembro dele me colocar na beira do toca-discos. fui crescendo assim, no meio dos sons, conhecendo equipamentos e tudo mais. ouvindo música, ouvindo, ouvindo, ouvindo, e gostando de tocar, né? acho que já nasci dj. a parte de compasso musical aprendi já maior, mas já tinha isso comigo, mesmo sem saber o que era, porque já nasci ouvindo os compassos.

mas só fui mexer com música mesmo tem uns 5 anos, já próximo de conhecer o maderito. já trabalhava com produção. coloquei umas rádios no ar aqui no interior do pará e fazia produção de comerciais, de vinhetas, essas coisas assim, mas não fazia música. é que fui aprendendo a mexer nos programas e comecei a desenvolver minhas idéias. às vezes ouvia uma música e achava que dava pra fazer outra coisa que ficaria bem melhor, entendeu? então fui aplicando isso em alguns remixes a minha idéia, a minha interpretação das músicas. é o que faço hoje em dia.

três anos atrás conheci o maderito. já tinha uns remixes, mas não eram tão bons assim. de três anos pra cá fui estudando mais, fui conhecendo mais, e hoje a produção tá um pouco melhor. mas pode ficar bem melhor ainda. por causa disso continuo estudando. o estudo nunca para. pra sempre melhorar a qualidade do som no estilo que a gente trabalha. sempre procurando adicionar uma coisinha a mais.

e o eletromelody?
não é tão diferente porque a levada é a mesma da época do brega. o brega que se transformou em pop brega, tecnobrega, tecnomelody, e assim sucessivamente. só que a gente procura fazer o seguinte, fazer uma mistura do ritmo daqui com o geral que a gente ouve, com um pouco do que os baianos fazem, com percussão e tudo mais, um pouco da música pop internacional mesmo. a gente procura colocar um pouco de cada. a gente fez essa mistura e continua fazendo pra ver no que dá. eu não acho tão diferente assim o som. é um pouco mais cheio com outros tipos de instrumentos, mas a levada é a mesma. só é mais eletrônico.

"sinhá pureza", remix de um clássico de pinduca, o rei do carimbó



o trabalho com maderito
geralmente a gente troca idéias pra fazer uma música. a maioria das nossas músicas são músicas de equipes... então, o que é que a gente pede quando uma equipe ou aparelhagem entra em contato com a gente, pedimos uma idéia do que eles querem e aí a gente faz o trabalho em cima disso. eu faço a base e o maderito escreve a letra, entendeu? mas nem sempre a base que faço é a que fica, porque às vezes ele escreve uma letra que fica melhor com outra base, e aí eu já faço a modificação. a gente trabalha dessa forma.

a música do pará
com o avanço da tecnologia e dos programas, os produtores daqui, os belenenses, os paraenses em geral, tiveram mais facilidade de colocar as suas idéias em prática. e a música paraense se transformou em mais vendável, pela qualidade. não só dentro do país, como fora também. acho que a nossa levada, a levada do pará, é contagiante, tem várias formas de dançar, pode ser agarrado, pode ser solto. mas falo isso e não sei se é o costume, porque a gente é acostumado a ouvir o que é daqui.

misturas
tento colocar nas minhas produções também coisas de fora do pará. já incluí samba no “tributo a carmen miranda” e tô pensando em fazer umas coisas com pagode. umas coisas da américa do sul como cumbia. são experiências que a gente está fazendo pra quando sair daqui poder mostrar um pouco da amazônia.

acho interessante fazer uma mistura com a música do pará porque é o que a gente mais gosta de fazer aqui. tem que ter os traços daqui se não a gente vai fugindo da raiz. o que a gente saber fazer melhor é que fazemos aqui.

waldo squash escuta...
gosto muito de ouvir eletrodance, tecnodance, da levada de drum’n’bass, é o tipo de músico que ouço, entendeu? muita coisa de fora no estilo mais pop. na verdade passo o dia todo ouvindo música, toda hora. quando não é no estúdio é no celular. não tem jeito não. eu escuto mais música que assisto televisão, que leio... não, leio muito por causa da internet... mas eu ouço muita música. tudo que estou fazendo é com música.

planos para o futuro
tenho planos pra frente sim, em relação ao trabalho. meu desejo é colocar minha idéias em prática, entendeu? algumas precisam de recursos financeiros pra funcionar, e isso a gente vai fazendo do jeito que dá. são idéias principalmente pras nossas apresentações. durmo pensando nisso. a gente quer rodar pra fora do país.

tem vários artistas que gostaria de trabalhar. alguns daqui do pará, que ainda não trabalhei, mas que são próximos e só não aconteceu a oportunidade. mas de fora... tenho vontade de trabalhar com alguns djs e produtores como o [paulista] alex hunt. ia ser legal trocar idéia com ele.

a estréia em disco da gang do eletro
minha expectativa sobre o disco é a mesma de qualquer artista. quero que ele faça sucesso. por isso a gente vai trabalhar com carinho, pensando no todo, pra que esse disco saia especial e que as pessoas gostem. porque a gente nunca faz música pra nós mesmos. a gente faz pra massa, pro povão que vai pra festa mesmo. e é através da experiência de ver essa galera curtindo que a gente vai trabalhar nesse disco, com o que a gente tem de melhor.


"arrasadora [sanfona mix]"
, remix de um sucesso dos chilenos do comando reggaeton

segunda-feira, 28 de março de 2011

big boi vs. the black keys

muito boa essa mistura feita pelo wick-it the instigator de dois dos melhores discos de 2010 - brothers do the black keys e sir lucious left foot: the son of chico dusty do big boi -, e o mais bacana é poder ouvir the brothers of chico dusty na íntegra...

The Brothers of Chico Dusty (Big Boi vs. The Black Keys) by wick-it

ou então poder baixá-lo de graça e legalmente no bandcamp.


fiquei sabendo via @forlani.

domingo, 13 de março de 2011

domingueira extrema

o negócio é o seguinte: é uma combinação, um mashup caseiro. primeiro, o video de um maluco numa competição bicicleteira de downhill (é isso?) nas pirambeiras de valparaiso, chile. mas não aperte o play ainda. espera.


Untitled from changoman on Vimeo

então, o outro video é o clipe de "eu quero é ver o oco" (rodolfo, canisso e digão), a melhor música da vida dos raimundos e segunda faixa do disco lavô tá novo (warner, 1995). espera mais um pouco.



então... solte o primeiro video tirando o som e depois solte o do raimundos. para turbinar a experiência, coloque o da bicicleta em tela inteira. vai por mim. no mais...

downhill assim não dá!
foto de nacho doce/reuters tirada ontem durante
a "
pedalada pelada" em são paulo

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

internet furacão

a essa altura do campeonato o trenzinho carreta furacão de ribeirão preto já um baita sucesso na internet (e essa onda de gente dançando na rua dá o maior pé, lembram da magaly?). bem, bastaram dois videos com personagens como fofão, mickey, capitão américa e popeye dançando como se não houvesse amanhã. o primeiro tem como trilha "salada mista", da banda djavú, e o segundo traz a sensacional "vem dançar com o mestiço", do mestre leandro lehart.





e o mais lindo é quando os videos são remixados, misturados, bagunçados. foi o que aconteceu com esse mashup sensacional do carreta furacão com "lisztomania" do phoenix. outro (merecido) sucesso de @tiagolyra.



p.s.: no início de 2013 rolou mais um mashup do carreta furacão, desta vez com "one way trigger" do strokes.

    

sábado, 30 de janeiro de 2010

je deteste...

serge gainsbourg, claro! mas isso não é opinião minha, muito pelo contrário. afinal, o pai de charlotte é autor de discos geniais como gainsbourg percussions (philips, 1964), bonnie and clyde (mercury france, 1968) e histoire de melody nelson (light in the attic, 1971). je deteste serge gainsbourg é o título de uma mixtape tributo organizada pelo pessoal do bootlegsfr que joga no liquidificador gainsbourg, rappers franceses e samplers de figuras como michael jackson, offspring, kings of leon, snoop dogg, fatboy slim, nine inch nails e assim por diante. e todas as 19 faixas (14 + 5 de bônus) estão para download gratuito. basta clicar na imagem abaixo. ah, fiquei sabendo dessa parada via @doni.

e ainda: o show gainsbourg imperial, que reuniu, em 2009, a víuva de serge (a atriz jane birkin), caetano veloso, o maestro jean-claude vannier e a orquestra imperial, vai sair em dvd pelo selo sescsp; e semana passada estreou em paris gainsbourg - vie héroïque, de joann sfar, filme-biografia que tem chance de ser interessante (pelo menos, o personagem é). no mais, o matias reuniu uma pancada de videos e músicas do cara lá no trabalho sujo. diversão garantida.