Mostrando postagens com marcador letra e música. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador letra e música. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

letra/música #28

cheguei ao disco de estreia solo do rocha (pra 5ª também ser 5 estrelaspor indicação, acho que no facebook, do emicida. rocha é rapper da zona leste de são paulo, integrante do grupo q.i. alforria, e fez um disco redondinho, cheio de grandes achados nas rimas e beats, e com produção dividida entre rincon sapiência, tico pro e nefasto. tem uma porrada de músicas boas - "paty", "psiu", "destruindo constelações", "festa de arromba", "poesia das lamas" e "redemoinho de março" -, mas "antônimos e sinônimos" é um baita achado. como seria bacana ver uma música dessas ser usada na rede pública de ensino para explicar antônimos, sinônimos, história, política... porra, cabe de tudo nela (tanto que usei em texto no yahoo sobre a cracolândia). saca só.


antônimos e sinônimos 
(rocha miranda)

antônimo de mauricinho é maloquero
sinônimo de estelionato, truta, é banqueiro
antônimo de favela é condomínio 
sinônimo de policia é extermínio
antônimo de maconha, pedra de crack
sinônimo de viciado é piripaque
antônimo de americano, iraquiano 
sinônimo de hipocrisia é vaticano
antônimo de israel é palestina
sinônimo de ouro branco é cocaína
antônimo de adolf hitler é malcolm x
sinônimo de mãe chorando é giroflex

sou b.o., vim dar nó, na maior, pode pá
o pior dos melhor, vindo só pra causá

antônimo de maradona é rei pelé 
sinônimo de africanismo é candomblé 
antônimo de neo-nazi é rastafári
sinônimo de brasil, simba safari
antônimo de alisado, cabelo black
sinônimo de pé de pato é pé de breque
antônimo de toneladas é mililitros
sinônimo de sete palmos, nove milímetros
antônimo de heavy metal, samba raiz
sinônimo de salário mínimo, povo infeliz
antônimo de feira preta é fashion week
sinônimo de favelado é bolchevique

sou b.o., vim dar nó, na maior, pode pá
o pior dos melhor, vindo só pra causá

antônimo de emocore é hip hop
sinônimo de tiroteio é globocop
antônimo de conte lopes é beira mar
sinônimo de traficante é superstar
antônimo de fusquinha é lamborguini
sinônimo de kassab é mussolini 
antônimo de george bush é hugo chavez
sinônimo de hayabusa, aeronaves
antônimo de bbc é al-jazeera
sinônimo de pouca grana é muita ira
antônimo duque caxias, zumbi palmares
sinômino de melhorias, tudo pros ares

sou b.o., vim dar nó, na maior, pode pá
o pior dos melhor, vindo só pra causá

quinta-feira, 23 de maio de 2013

letra/música #27 e transversão #42

foi no blog do blundetto que fiquei sabendo do tributo brassens - echos d'aujourd'hui (fanon records), uma homenagem transglobal ao poeta, cantor e compositor anarquista francês georges brassens. nunca tinha ouvido falar dele, confesso, mas semana passada finalmente achei link para download do disco (aqui ou aqui) e é uma coisa linda. e também surpreendente porque foram reunidos artistas de várias partes do planeta cantando brassens em suas línguas nativas, o que acaba abrindo inúmeras portas para se procurar as versões originais e compará-las, colidí-las, etc. nas 16 faixas aparecem figuras como shawn lee (estados unidos), lianne la havas (inglaterra), grupo canalon de timbiqui (colômbia), las hermanas caronni (argentina), enkhjargal (mongólia), anthony joseph (trinidad), yael naim (israel) e, claro, blundetto (frança). mas então aparece rodrigo amarante cantando "o não-pedido de casamento" e... puxa... que versão, que música espantosamente linda e rebuscada. escuta só.




o não-pedido de casamento
(georges brassens, tradução e adaptação de rodrigo amarante e stephane san juan)

meu bem, por deus, tenho um pedido
não apontemos pro cupido
sua própria flecha
tantos amantes se arriscaram
com seu gozo eles pagaram
tal sacrilégio

uma aliança em cada mão
a jurar ordem de prisão
em domicílio
pro inferno, amélias secas amas
que deixam frias suas camas
pra pilar milho

eu tenho a honra de não te pedir a mão
pra quê firmar no pergaminho essa união?

vênus presa perde o viço
e com o choriço frita o juízo
cai na comida
por nada neste mundo eu vou
despetalar sobre o escargot
a margarida

cai o véu, com ele o encanto
o segredo da sereia, o canto
de Melusine
o batom nas cartas perde a cor
entre uma e outra página do
Nouvelle Cuisine

eu tenho a honra de não te pedir a mão
pra quê firmar no pergaminho essa união?
eu tenho a honra de não te pedir a mão
pra quê firmar no pergaminho essa união?

é muito fácil a gente pensa
largar no fundo da despensa
numa conserva
o belo fruto proibido
perdeu o gosto, foi cozido
não se preserva

de uma empregada eu não preciso
tratado a pão de ló, aviso
não quero nunca ser
como uma noiva eterna intento
a dona dos meus pensamentos
eu sempre ver

eu tenho a honra de não te pedir a mão
pra quê firmar no pergaminho essa união?
eu tenho a honra de não te pedir a mão
pra quê firmar no pergaminho essa união?
eu tenho a honra de não te pedir a mão
pra quê firmar no pergaminho essa união?

amarante, que está para lançar seu primeiro disco solo (cavalo), canta e toca violão acompanhado de berna ceppas (sintetizador), moreno veloso (cello), alberto continentino (baixo) e stephane san juan (percussão). agora veja e escute brassens direto de algum lugar dos anos 1960...



nas buscas por saber e ouvir mais dessa música encontrei ainda uma versão instrumental comandada por eddie "lockjaw" davis (sax tenor) e harry "sweets" edison (trompete) e lançada em 1979.



p.s.: agradecimentos a bebel prates que conseguiu essas informações (banda, tradução e revisão da letra que transcrevi) com o próprio amarante.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

letra/música #26

foi no vídeo de uma festa que conheci a música "carregar". quer dizer, não sabia seu nome, nem de onde vinha e quem cantava (mas as vozes eram familiares e deviam estar próximas porque a festa aconteceu em são paulo). coloquei os versos do refrão no twitter e perguntei, vai saber... não demorou nada pra ter uma resposta e logo de uma das autoras-cantoras, nada menos que lurdez da luz. era uma parceria dela, uma das melhores cantoras e rappers dos últimos tempos e figura recorrente aqui no esforçado, com marietta vital, também conhecida como massarock e a principal voz feminina da cena dub-reggae de são paulo (foi integrante dos grupos afetos e rockers control). 

coincidentemente, as duas lançaram seus excelentes discos de estreia em 2010 e entre mil e um projetos pessoais escreveram "carregar", o primeiro fruto de um projeto chamado mercúrias. a produção é do especialista victor rice (que tocou uma versão mais adubada de "carregar" naquela festa do video). música linda, política e amorosa. confere aí, letra e música.


marietta e lurdez na festa take a ride #6, dezembro de 2010

carregar
(lurdez da luz e marietta vital)

o amor não escolhe cor nem endereço 
não avalia se eu mereço ou se eu deixo a desejar
não escolhe crença, cultura, integra a gente 
mistura e no meu peito 
é o que eu quero carregar (2x)

falo por aqueles que num tem pra onde voltar
que sempre vão seguir sem saber onde vai dar
que pra longe vão ir mas nunca vão chegar
a fincar raíz em terra própria
a história tá gravada na nossa matiz, diz
atravessa a pele é tatuagem cicatriz,
raíz é pé é coração, é mente sã
é retina cristalina sem ter medo do amanhã
inevitável, inexorável, bota cimento e tijolo sobre o vento favorável
invisível é o próximo nível
rude boyz and girls de alma sensível
vão chegar lá

supercapitalismo radical ianque
capaz e perspicaz de atropelar de tanque
raízes e culturas, diversas nuances,
onde mora a origem, onde funde o sangue
amortecimento chega até a própria alma
que esqueceu sua morada de certeza e calma
sentiu quem sabe um dia o impulso, o choque,
mas hoje num arrepia quando ouve o toque

o amor não escolhe cor nem endereço
não avalia se eu mereço ou se eu deixo a desejar
não escolhe crença, cultura, integra a gente, 
mistura e no meu peito
é o que eu quero carregar

atravessa a pele é tatuagem cicatriz,
raíz é pé é coração, é mente sã
é retina cristalina sem ter medo do amanhã
inevitável, inexorável, bota cimento e tijolo sobre o vento favorável
invisível é o próximo nível
rude boyz and girls de alma sensível
vão chegar lá

o amor não escolhe cor nem endereço
não avalia se eu mereço ou se eu deixo a desejar
não escolhe crença, cultura, integra a gente, 
mistura e no meu peito
é o que eu quero carregar (2x)

marietta e lurdez, as mercúrias, em 2014

atualização em 20 de abril de 2015: sim, três anos depois dessa postagem saiu finalmente uma versão oficial dessa lindeza permanentemente atual e agora acompanhada de uma versão instrumental adubada por victor rice.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

letra/música #25

o ano tá acabando, muita coisa acontecendo, e ainda não consegui ouvir com a devida atenção alguns dos últimos lançamentos musicais brasileiros. no entanto, os acontecimentos do início da semana acabaram me dando esse tempo. ouvi mais vezes eddie (veraneio) e china (moto-contínuo), discos que tinham me parecido legais nas primeiras audições e que cresceram bastante; me surpreendi com os cariocas do me & the plant (the romantic journeys of pollen); confirmei que o junio barreto (setembro) é apenas bom, um tanto repetitivo e sem grandes músicas; o wado (samba 808) tá excepcional, bem como o bambas 2 e os instrumentais do bixiga 70 (bixiga 70), caçapa (elefantes na rua nova), arthur de faria & seu conjunto (música para ouvir sentado) e são paulo underground (três cabeças loucuras); karina buhr (longe de onde) continua mandando muito bem; e ainda tenho pela frente autoramas (música crocante), ava (diurno), o agridoce da pitty e celso fonseca & ronaldo bastos (liebe paradiso), entre outros. não ouvi o da marisa monte, por exemplo, e o esperado disco novo da gal costa tá chegando agora aos 47 do segundo tempo para as listas de melhores do ano (daqui há pouco elas chegam por aqui também).

nenhum desses me causou tanto espanto (no bom sentido) quanto o lira (independente, 2011), de lirinha, ex-cordel do fogo encantado. acho que demorei pra ouví-lo por causa exatamente do cordel, um grupo que eu mais respeitava que gostava. me incomodava o tom apocaliptico-profetico e a falta de música, era tudo muito pesado. e o que lirinha iria aprontar sozinho? coloquei o disco pra tocar e logo tomei um tapão nas ideias com a linda faixa de abertura, "ah, se não fosse o amor". poesia, força, sentido pop/rock e um tanto de surpresas. e vieram outras músicas sensacionais como "adebayor", "ela vai dançar" (parceria com fábio trummer, do eddie, e também registrada em veraneio), "noite fria", "sidarta", "memória" e "valete". porra, "valete"!

cantada a três vozes - simplesmente angela ro ro, otto e lirinha -, "valete" é uma canção de amor, de fim de amor, e essas vozes formam uma colcha de retalhos de sensações e pensamentos sobre esse fim. uma sobre a outra, uma comentando a outra, uma loucura de significados. a música, também de lirinha, é épica e dramaticamente romântica, e o produtor pupillo (nação zumbi) a veste de teclados, guitarras com efeitos e percussão da pesada. aliás, a produção de pupillo para o disco é uma maravilha a parte, discreta, simples, cheia de pegada e muito variada. enfim, ouça o disco todo e procure suas próprias surpresas, mas "valete", porra, "valete" é outro nível de mil grau.

foto de caroline bittencourt

valete (josé paes de lira)

angela

vou te contar minha paixão por um valete de paus
e ele vivia aqui na minha mão

lira
vê quanta força há!

angela
até que um dia o vento carregou

lira
carregou, carregou

angela
revirou, suspendeu o meu amor

lira
você quer um coração tonto?

angela
carregou, carregou pra nunca mais voltar

lira
só é preciso soprar, só soprar

otto
menos mal, menos mal
fica o cheiro do perfume que quebrou
fica mais
a saudade é, a verdade é

otto & lira
que plantei e cresceu, vá buscar
eu disse, vá buscar

angela

meu coração se deslocou por um valete de paus

lira
é a carta de um baralho

angela
e ele circula aqui seguindo planos
e os pés descalços entre as armadilhas
e bebe a noite como quem bebe água
levanta o corpo e se quebra em ondas

otto & lira
sei ganhar, sei perder

otto
dentro deste, outro este

otto & lira
desconcerto de papel

otto
não sei nada, não li nada

otto & lira
só joguei e rodei sem parar

lira
escorrer pela tampa e molhar



p.s.: além de otto e angela ro ro, lira conta ainda com as participações cirúrgicas de fernando catatau, maestro forró, lula cortês, duani, luisa maita e junio barreto.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

letra/música #24

sou muito fã de zé miguel wisnik, de sua voz pequena, de suas melodias rebuscadas, de sua poesia lírica e próxima. nem lembro direito como o conheci, mas provavelmente foi via o pessoal do rumo (ná ozzetti, luiz tatit, etc) no final dos anos 1990. sei que quando ouvi seu primeiro disco, josé miguel wisnik (camerati, 1992), fiquei encantado por várias músicas: "se meu mundo cair", "laser", "mundo cruel" e "a primeira vez, mamãe, que eu fui ao cinema", por exemplo. depois conheci seu lado ensaísta e vieram outros discos, os igualmente belos são paulo rio (maianga discos, 2000) e pérolas aos poucos (maianga discos, 2003), e a direção musical de do cóccix até o pescoço (maianga disco, 2003) da elza soares. só depois de tudo isso conheci suas trilhas para os espetáculos de dança do grupo corpo (nazareth, parabelo e onqotô). e é deste último, uma parceria de wisnik com caetano veloso lançada em 2005, que saiu a "mortal loucura", música feita em cima de um soneto de gregório de matos (1636-1695). detalhe: a versão que segue logo abaixo está no recém lançado indivisível (circus produções, 2011), lindo disco duplo que reúne inéditas, regravações, composições não registradas por ele, em arranjos enganosamente simples com pouca instrumentação. ao lado de wisnik em quase todas as músicas, os instrumentistas-amigos arthur nestrovski (violão), marcelo jeneci (piano e acordeon), márcio arantes (baixo) e sergio reze (bateria).

dividindo o indivisível

mortal loucura
(zé miguel wisnik sobre o poema de gregório de matos também conhecido como "no sermão que pregou na madre de deus dom joão franco de oliveira, pondera o poeta a fragilidade humana")

na oração que desaterra... a terra,
quer deus que a quem está o cuidado... dado,
pregue que a vida é emprestado... estado,
mstérios mil que desenterra... enterra.

quem não cuida de si que é terra... erra,
que o alto Rei por afamado... amado,
e quem lhe assiste ao desvelado... lado,
da morte ao ar não desaferra... aferra.

quem do mundo a mortal loucura... cura,
à vontade de deus sagrada... agrada,
firmar-lhe a vida em atadura... dura.

ó voz zelosa que dobrada... brada,
já sei que a flor da formosura... usura,
será no fim desta jornada... nada.




p.s.: e olha aqui o lindo trecho do espetáculo
onqotô (2005) no qual aparece a versão original de "mortal loucura" com wisnik e caetano alternando vocais entre efeitos, ecos e silêncios.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

letra/música #23

ontem a noite, durante a exibição do terceiro programa da série grêmio recreativo arnaldo antunes, pude ouvir uma canção até então inédita pra mim. antes de ser tocada, tulipa ruiz, uma das autoras, disse para arnaldo que era inédita em disco, mas ela e marcelo jeneci, o outro autor, já tinham mostrado em shows. a música começou, dueto de tulipa e jeneci, e foi me pegando de jeito... estávamos em casa eu e carolina e "dia a dia, lado a lado" nos deixou em silêncio, arrebatados, arrepiados... e o final, quando a herança de roberto carlos se mostra mais uma vez determinante na sonoridade de jeneci, deixa bem claro que um novo clássico acabou de nascer.



dia a dia, lado a lado
(tulipa ruiz, marcelo jeneci e gustavo ruiz)

eu sonhei que estava exatamente aqui, olhando pra você
olhando pra você exatamente aqui
'cê não sabe, mas eu tava exatamente aqui, olhando pra você
'cê não sabe, mas eu tava exatamente aqui
pronto para despertar
perto mesmo de explodir
parto para não voltar
tanto para acordar
pronto para estancar
tonto de tanto te ver
perto mesmo de explodir
prestes a saber porque

por que um raio cai?
por que o sol se vai?
se a nuvem vem também
por que você não vem?

eu sonhei que estava exatamente aqui, olhando pra você
olhando pra você exatamente aqui
'cê não sabe, mas eu tava exatamente aqui, olhando pra você
olhando pra você exatamente aqui
pronto para despertar
perto mesmo de explodir
parto para não voltar
pronto para estancar
tanto para acordar
tonto de tanto te ver
perto mesmo de explodir
prestes a saber porque

por que um raio cai?
por que o sol se vai?
se a nuvem vem também
por que você não vem?

por que? por que um raio cai?
por que o sol se vai?
se a nuvem vem também
por que você não vem?

nada haver ficar assim sonhando separado
se no fundo a gente quer o dia a dia, lado a lado
eu não vou deixar você com esse medo de se aproximar
pra ter um fim toda história um dia tem que começar
então me diz por que? por que que um raio cai?
por que que o sol se vai?
se não é pra gente perceber que um milagre assim se faz
por que o sol se vai?

é natural que seja assim
você aí e eu aqui
exatamente aqui

domingo, 15 de maio de 2011

esse besta que te adora

foi a @prisbrasil que lançou o nome da fera: veloso dias. paraense, poeta, cantador e cheio de família e amigos, que em algum fim de semana de 2009 gravou cinco de suas músicas durante um convescote no quintal. montes de latas de cerveja, solzão bonito, os camaradas batucando na mesa de plástico, pessoal mais novo fazendo coro e dançando, um violão, letras debochadas que todos sabem de cor, um humor tiozão, e carimbó, brega, e muita alegria, pura e simples.

os videos foram postados no decorrer da segunda quinzena de agosto daquele ano e até criaram um blog veloso poeta - belém do pará, mais ou menos na mesma época, mas a empreitada não vingou. é isso que sei até o momento. mas basta dar um play aí em qualquer um desses cinco videos/músicas, clicar na opção 'legendas' que fica na barra inferior de cada video, pra ver que diversão assim não tem preço mesmo e que música também serve pra isso. ah, as músicas se chamam, na ordem que aparecem, "o amélio de verdade" (ou "amô bem dizido"), "a tacacazeira", "rainha do bengui", "ervira" e "degradação moral". atenção: existem muitos detalhes impagáveis, tanto nas imagens quanto nos áudios, portanto fique atento.









e a melhor de todas.



degradação moral
(veloso dias)

eu era apenas um pobre biriteiro
não tinha conhecido a tonha
agora além de biriteiro eu passei a fumar
maconha

conheci um macumbeiro que me ensinou um trabalho
e eu fiz esse trabalho para a vida melhorar
agora além de biriteiro, maconheiro e macumbeiro
eu dei para roubar

conheci uma bicha chamada my baby
e por causa dos meus vícios só vive em minha cola
agora a galera da pedreira
tá pensando que eu também sou boiola

pra completar essa situação tão crítica
eu vou falar com o duciomar
eu vou entrar para a política



atualização em maio de 2012: e não é que veloso dias chegou ao grande público via gaby amarantos? é de sua autoria "ex my love", que é a música da abertura da novela cheias de charme e está no disco treme da cantora paraense.


quinta-feira, 3 de março de 2011

letra/música #22

roberto tadeu de sousa, mais conhecido como bebeto, suportou durante muito tempo o estigma de ser um imitador de jorge ben. claro que os frequentadores de bailes de samba rock, principalmente em são paulo na década de 1970, não concordavam nada com isso. e nova gerações que o tem descoberto nos últimos anos também não acreditam nessa história de "jorge ben genérico". bem, basta ouvir o primeiro disco do "rei dos bailes" para ver que de imitação ele não tem nada, mas que jorge é sim uma grande referência no balanço e nas letras surreais do paulistano. não tenho receio algum ao afirmar que bebeto (copacabana, 1975) é um dos grandes discos brasileiros de todos os tempos. onde mais é possível encontrar pedradas como "segura nega" (luis vagner e bebeto), "esse criolo por você se fez poeta" (wando) e "adão você pegou o barco furado" (bebeto)? mas separei outras duas maravilhas bebetísticas e suingantes desse disco para esse letra/música: "poderoso thor" e "morte da sandália de couro" (que tem citação direta ao jorge "charles anjo 45" ben).


poderoso thor
(bebeto)

foram 365 dias perdidos,
8760 horas sem valor
e depois de ter passado tanto tempo
acordei e vi o mundo de outra cor
e hoje eu lamento não ter quem me ensinou
levar a vida alegre a cantar e dar amor
pois quando eu errava ele vinha me falar
mostrar o que era certo, era assim meu velho avô

e lá se foi
como tudo que é bom passa depressa e ele passou também
deixando saudade
poderoso thor
filho de odin
com sua força encantada
me deu alegria demais
e sem querer feriu
o meu coração
pois você partiu
e eu me perdi
na evolução
desse mundo grande, mas me lembrarei do que você me ensinou

pense sempre no futuro
que a vida assim tem mais valor
pense sempre no futuro
que a vida assim tem mais valor

Bebeto - Poderoso Thor by dafnesampaio4

morte da sandália de couro
(bebeto)

sandália de couro morreu no samba
tamanco no samba não morre não
sandália de couro furou sambando
tamanco no samba não fura não

tamanco no samba nasceu malandro
sandália de couro não nasceu não!

no corpo a mente é mais forte
no jogo quem ganha é melhor
na luta quem perde é fraco
no samba tamanco é o bom

sandália de couro morreu no samba
(sandália de couro morreu no samba)
tamanco no samba não morre, não
(adeus, adeus sandália de couro)
sandália de couro furou sambando
(é... adeus sandália)
tamanco no samba não fura não
(tamanco no samba é madeira de lei!)
tamanco no samba nasceu malandro
(tamanco no samba veio do morro)
sandália de couro não nasceu não!

pois como já dizia nosso amigo charles
devagar também é pressa e o apressado come cru
anjo 45, protetor dos francos,
desceu o morro de tamanco e só volta amanhã.

sandália de couro morreu no samba
(adeus sandália de couro)
tamanco no samba não morre, não
(tamanco no samba é madeira de lei!)

Bebeto - Morte da Sandália de Couro by dafnesampaio4

p.s.: o disco de estreia de bebeto pode ser encontrado no blog arquivo do samba rock, mas o cara continua na ativa e ano passado, após seis anos afastado dos estúdios, lançou o bom prazer, eu sou bebeto (emi, 2010). mas relembrei do bebeto após ver ontem um video feito pelo alexandre matias na última terça com bruno morais cantando "morte da sandália de couro" e sendo acompanhado por bluebell, mauricio takara, guizado, maurício fleury e paulo beto.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

letra/música #21

a revolução popular que está acontecendo agora no egito me fez lembrar de várias coisas, desde políticas (como a história se repete em tempos e lugares diferentes) até musicais. e como não sou especialista em mundo árabe e nem em relações internacionais (só posso torcer pelo povo egípcio se livrar de uma vez por todos desse mubarak, outro ditador amigo dos estados unidos) vou de música mesmo. pensou em "walking like an egyptian", sucesso oitentista das bangles? e que tal uma das bandas de fela kuti e de seu filho, seun kuti, a egypt 80? ou então o grande músico salah ragab (1936-2008), sujeito que levou o jazz pro egito em 1968 com sua cairo jazz band? não, não e não. o lance aqui é a ponte aérea bahia-áfrica que existe e persiste lindamente no disco egito madagascar (continental, 1987), o primeiro do olodum. em um álbum radicalmente percussivo e pop, e que tem faixas como "madagascar olodum" (rey zulu), a sensacional "faraó, divindade do egito" é uma injeção nas cadeiras de muito surrealismo e mitologia. afinal de contas, se nem osíris sabe como aconteceu a emersão, imagine nós, pobres mortais. e viva o egito!


faraó, divindade do egito
(luciano gomes)

deuses!
divindade infinita do universo
predominante
esquema mitológico
a ênfase do espírito original
shu!
formará
no éden um ovo cósmico...

a emersão!
nem osíris sabe
como aconteceu
a emersão!
nem osíris sabe
como aconteceu...

a ordem ou submissão
do olho seu
transformou-se
na verdadeira humanidade...

epopéia!
do código de geb
eu falei nut
e nut
gerou as estrelas...

osíris!
proclamou matrimônio com ísis
e o mal seth
irado o assassinou
impera-ar.
hórus levando avante
a vingança do pai
derrotando o império
do mal seth
ao grito da vitória
que nos satisfaz...

cadê?
tutancamom
ei gizé!
akhaenaton
ei gizé!
tutancamom
ei gizé!
akhaenaton...

eu falei faraó
êeeeeh faraó!
é!
eu clamo olodum pelourinho
êeeeeh faraó!
é!
pirâmide
da base do egito
êeeeeh faraó!
é!
eu clamo olodum pelourinho
êeeeeh faraó!

é!
que mara mara
maravilha êh!
egito, egito êh!
é!
que mara mara
maravilha êh!
egito, egito êh!
faraó ó ó ó ó!
faraó ó ó ó ó!

hum! pelourinho
uma pequena comunidade
que porém olodum um dia
em laço de confraternidade
despertai-vos
para cultura egípcia
no brasil
em vez de cabelos trançados
veremos turbantes
de tutancamom...

e nas cabeças
enchem-se de liberdade
o povo negro pede igualdade
deixando de lado
as separações...

cadê?
tutancamom
ei gizé!
akhaenaton
ei gizé!
tutancamom
ei gizé!
akhaenaton...

eu falei faraó!
êeeeeh faraó!
é!
eu clamo olodum pelourinho
êeeeeh faraó!
é!
pirâmide da base do egito
êeeeeh faraó!
é!
eu clamo olodum pelourinho
êeeeeh faraó!

é!
que mara mara
maravilha êh!
egito, egito êh!
egito, egito êh!
é!
que mara mara
maravilha êh!
egito, egito êh!
egito egito ê
faraó ó ó ó ó!
faraó ó ó ó ó!
faraó ó ó ó ó!
faraó ó ó ó ó!
faraó ó ó ó ó!
faraó ó ó ó ó!

Olodum - Faraó, divindade do Egito by dafnesampaio4

p.s.: olha, tem o disco todo pra baixar no blog acervinho, mas na pesquisa que fiz pra colocar algum outro material junto dessa pedrada afro-baiana-descendente achei esse vídeo da margareth menezes cantando em 1987, o mesmo ano do lançamento da música.


segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

letra/música #20

algo sempre me afastou de ouvir serguei. acho que o próprio, talvez. tenho um pouco de vergonha do "espírito roqueiro", um pouco de dó desse derretimento cerebral, nenhum interesse por psicodelia de feira hippie, fora que o bicho é feio de dar nó. então, por causa de um amontoado de preconceitos nunca dei atenção pra sua discografia errática. aí, num dia desses, cruzei caminho com um compacto seu chamado samba salsa (arlequim, 1979). é agora, tem que ser agora, só quatro faixas e tal, título curioso para um disco de roqueiro, vamos lá... bem, como não conheço o serguei-divino-do-rock não posso comparar, mas a primeira impressão foi de uma tentativa (falha) de popularizá-lo numa levada samba-rock (?) festiva. quase tudo dá errado em "te chamei" e "é mais gostoso viver", com ele completamente perdido e exposto (sua voz fica mais fraca do que já é) em meio a batuques ferozes. nada combina mesmo na música que abre e na que encerra o compacto. só que essa desarmonia natural entre o psicodélico e o sambão sem nome (não tem crédito de ninguém na contracapa) quase se resolve, sabe lá deus como, na divertida "devagar também é pressa". mas não era o bastante, algo escapava em algum momento.

então veio "gata na janela" e o balanço se fez. a voz fraca de serguei combinou unha-carne com o ar suplicante e malandro da letra, e enquanto ouvia e reouvia a música mais ela me parecia hit certeiro pra qualquer festinha de samba rock & afins que se preze. no suingue do serguei! quem diria...



gata na janela
(marco araújo e ronaldo ribeiro)

quando aos domingos passeando
eu te vejo na janela
o meu coração bate mais alto
ai que vontade de te amar

tomando uma cerveja eu te vejo
indo linda para a praia
a pele tão macia e bronzeada
ai que vontade de beijar

esse cachorrinho no teu colo
que inveja tenho dele
jão não durmo a noite
não consigo mais esquecer de você

gata na janela
quero ser teu cachorrinho
e os óculos escuros
que te protegem do sol
a saída de banho
que envolve o teu corpinho
gata na janela
não me deixe assim tão só

gata na janela
quero ser teu cachorrinho
e os óculos escuros
que te protegem do sol
a saída de banho
que envolve o teu corpinho
gata na janela
não me deixe assim tão só

gata na janela
quero ser teu cachorrinho
gata na janela
não me deixe assim tão só


Serguei - Gata Na Janela by dafnesampaio4

p.s.: dá pra baixar "gata na janela" aí no player, mas se você quiser saber por seus próprios ouvidos qualquié das outras três faixas do compacto samba salsa, o blog serguei - o divino do rock pode te ajudar.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

nego dito forévis!
ou transversão #37
ou letra/música #19

essa é caixa preta, senhoras e senhores, a ansiosamente aguardada caixa preta de itamar assumpção (selo sesc sp, 2010). pra mim é o lançamento do ano, sem sombra de dúvida. não só porque reúne em nova edição todos os discos de itamar assumpção como solta ao mundo o desfecho da trilogia pretobrás (volumes 2 e 3). nascido em 1949 e morto precocemente em 2003, o paulista-paulistano ainda não teve sua obra devidamente reconhecida dentro do tal cânone da música popular brasileira. itamar ainda é prazer de poucos, ainda é "maldito", o que é coisa das mais injustas levando-se em conta o humor, a invenção e seu afiado e surpreendente sentido pop. essa caixa precisa se espalhar - talvez não fisicamente porque o preço pode assustar (150 paus, mas são 12 discos, e no site do sesc sai por 120 reais) -, porque a música do nego dito serve pra tudo, é como a vida. saudade.

quem ganha mais é quem ouve, porque itamar já é, pode acreditar. e na caixa preta estão
beleléu leléu eu (1980), às próprias custas s.a. (1982, o único disco ao vivo de itamar e que vem com uma faixa inédita, uma versão de "não vou ficar" do tim maia), sampa midnight - isso não vai ficar assim (1983), intercontinental - quem diria? era só o que faltava!!! (1988), bicho de sete cabeças vols. 1, 2 e 3 (1993), ataulfo alves por itamar assumpção - pra sempre agora (1996), pretobrás - porque que eu não pensei nisso antes? (1998) e o já póstumo vasconcelos e assumpção - isso vai dar repercussão (2004). tudo lindo. mas são discos que já ouvi de trás para frente, inúmeras e inúmeras vezes. agora, os inéditos pretobrás II - maldito, vírgula (2010) e pretobrás III - devia ser proibido (2010) trazem uma porrada de novidades e convidados em suas 29 faixas, além do próprio itamar em registros caseiros de voz e violão posteriormente arranjados pelos produtores beto villares (pretobrás II) e paulinho lepetit (pretobrás III). separei aqui alguns destaques desses dois discos e já começo com um transversão.



"todo esse tempo" é o nome dessa música e depois de ouví-la com itamar agora é a vez da versão acelerada e totalmente atual de bnegão. as duas estão no volume dois do pretobrás.



ainda em pretobrás II aparecem outros convidados. seu jorge canta "o tempo todo" e tenho certeza que itamar ficaria orgulhoso da versão desse outro grande artista da música negra brasileira.



e para encerrar os destaques desse volume, elza soares cantando "elza soares", música feita por itamar em sua homenagem. de arrepiar versos como "desde que me entendo por gente / eu sambo, eu faço o que gosto / my soul is black, meu sangue é quente / eu quando gosto, me enrosco", ainda mais com a emoção de elza no final.




já no pretobrás III ouvi algumas músicas que achei que nunca iria possuir registro em disco (já tinha ouvido e vibrado em shows). a divertida "pirex", por exemplo, ótimo exemplo das brincadeiras de itamar com a nossa língua (e que nessa versão traz participação de naná vasconcelos).



outra que já tinha ouvido em shows é "devia ser proibido" (itamar assumpção e alice ruiz). música de rachar o coração feita em homenagem ao poeta paulo leminski (marido de alice e amigo/parceiro de itamar). a letra acabou caindo como uma luva para a ausência de itamar porque "devia ser proibido / uma saudade tão má / de uma pessoa tão boa". participação de zélia duncan, uma das mais aguerridas divulgadoras do nego dito.




e pra encerrar, letra e música de "que tal o impossível", doce, amorosa e lírica, que me lembrou carolina de cara (ela é muito fã de itamar, o que me dá um baita orgulho, porque fui eu que apresentei). cante junto e tente não se emocionar. tente não pensar nela/nele.

que tal o impossível
(itamar assumpção)

que tal se nós dois vivêssemos
do jeito que nós quiséssemos
sem nada que aborrecesse-nos
que tal se tudo tivéssemos

que tal se realizássemos
aquilo que nós sonhássemos
maçãs macias comêssemos
que tal se nós nos beijássemos

que tal se nós dois dormíssemos
olho no olho acordássemos
que tal se nós felicíssimos
que tal se nós dois voássemos

que tal se nós dois pudéssemos
aquilo que desejássemos
que tal se nós dois cantássemos
tocassemos e nós dois mesmos dançássemos

que tal se nós dois partíssemos
que tal se a sós ficássemos
que tal se ao máximo amássemos
que tal se no céu morássemos
que tal
que tal o impossível
que tal
que tal o impossível



foto de 1998, em casa de alzira espíndola, época da gravação do pretobrás; foi durante a única entrevista que fiz dele e que está lá no gafieiras

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

letra/música #18

ney matogrosso é um sujeito e tanto. intérprete sério e porralouca, coerente e constantemente aberto - o mencionei rapidamente na domingueira passada -, ney tem muitas fases, facetas, momentos. mas acho que minhas preferências acabam recaindo sobre sua fase "séria", de discos como pescador de pérolas (cbs, 1987), as aparências enganam (polygram, 1993), olhos de farol (polygram, 1998) e vagabundo (universal, 2004). só que ontem lembrei de uma música que sempre achei muito engraçada e que é de um de seus discos mais populares, pois é (barclay/ariola/universal, 1983), no qual comemorou dez anos de carreira. toda trabalhada em um homoerotismo caboclo amazônico, "cobra manaus" é de eduardo dusek e de luiz carlos góes (escritor, habitual parceiro de dusek e roteirista de filmes como rock estrela e lua de cristal). prestando um pouco mais atenção na letra é fácil ver uma poesia intensa, cheia de imagens fortes, sensual de verdade, mas... eu só acho ela muito divertida, principalmente pelo gritinho sibilante de ney na hora de falar "manauuuussss". pois então.


cobra manaus
(eduardo dusek e luiz carlos góes)

ondeia, ondeia, balança e venha
ondeia, ondeia, balança e venha
ondeia, ondeia, balança e venha
ondeia, ondeia, balança e venha

ela mora debaixo desse cais
ela gosta de moça e de rapaz
te enrola macio num anel
e te cobre de veneno e mel
ela leva pro rio bons e maus
ela passa sua língua em manaus

cobra manaus
cobra manaus
cobra manaus
cobra
(bis)

ondeia, ondeia, balança e venha
ondeia, ondeia, balança e venha
ondeia, ondeia, balança e venha
ondeia, ondeia, balança e venha

é manaus, cobra rio, cobra amante
é a espreita, é o desejo, é o instante
é o pecado com brilho de brilhante
é o desejo da vida sibilante
violenta os barcos nos seus vaus
com o prazer que ela bebe de manaus

cobra manaus
cobra manaus
cobra manaus
cobra
(bis)

é manaus, cobra amiga, cobra fada
que desperta do sono espreguiçada
quando acorda tudo fica diferente
se espreguiça, se estica e estica a gente

cobra manaus
cobra manaus
cobra manaus
cobra
(bis)
Ney Matogrosso - Cobra Manaus by dafnesampaio4

sexta-feira, 23 de julho de 2010

letra/música #17

quem conhece a música de maurício takara sabe que ela é tão instigante quanto complexa e, acima de tudo, instrumental até a raiz do cabelo. então foi uma baita surpresa quando ele lançou seu mais recente trabalho solo, sobre todas e qualquer coisa (desmonta, 2010), com músicas acompanhadas de letras e o próprio baterista (e multiinstrumentista) cantando. o disco é sensacional, um dos melhores entre os cinco que produziu até agora, e entre as faixas destaque total para "rei da cocada", que tem letra de tiago mesquita, um dos mesquita bros. lá do blog do guaciara. diabos, essa letra me faz lembrar muito dos colegas jornalistas e de toda essa mistura de arrogância e servidão que é característica da profissão.

rei da cocada
(m. takara e tiago mesquita)

ainda ainda ainda não tenho nada
mas já sou rei da cocada
com o pouco que ganhei
não tenho nada
mas já sou rei da cocada

vou ver emprego numa loja refinada
ser matéria prima da indústria pesada
virar gasolina ou brinquedo de criança
vou para uma oficina
tapar buraco na estrada

ainda ainda ainda não tenho nada
mas já sou rei da cocada
com o pouco que ganhei
não tenho nada
mas já sou rei da cocada

vou ver emprego numa loja refinada
ser matéria prima da indústria pesada
topo loja da avon
vendo cocaína
não me distingo da manada

serei o que sou
rei da cocada
o que nasci para ser
rei da cocada
não remedio nada, não tem entrelinha
nem me distingo da manada

ainda ainda ainda não tenho nada
mas já sou rei da cocada
com o pouco que ganhei
não tenho nada
mas já sou rei da cocada




p.s.: no disco, takara é acompanhado por guilherme valério (guitarra) e rogério martins (percussão), mas também rolam participações do produtor fernando sanches (baixo) e richard ribeiro (bateria). achei dois videos com o m. takara 3 tocando "rei da cocada". o gravado no ccsp em maio deste ano tem som e imagem melhores (aqui), mas acabei escolhendo o registrado em junho no soma, talvez porque foi lá que comprei o disco, ou pelo video ser mais cru, sei lá.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

letra/música #16

a trilha memorável de um filme tão belo quanto silencioso - é proibido fumar (2009), de anna muylaert - tem um fecho pra lá de dourado (e que, confesso, não conhecia). "dou you like samba?" é composição de marcelo duran e foi lançada em 1973 pelo cantor baiano ciro aguiar, que começou comendo pelas beiradas da jovem guarda e na virada da década de 1960 pra 70 se mudou de mala e cuia para o sambão (mas também participou de uma montagem do musical jesus cristo superstar). ciro continua por aí fazendo shows e comandando programas de rádio na bahia.

ciro mendes de aguiar, baiano da cidade de salvador do ano de 1942

do you like samba?
(marcelo duran)

do you like samba?
i like too
if you love the samba
i love you

pra poder cantar meu samba
eu já estou de perna bamba
de tanto esperar
pra você me entender
até inglês fui aprender
pra me comunicar

do you like samba?
i like too
if you love the samba
i love you

eu conheço muita gente
que querendo ser pra frente
bota a cara para quebrar
compra disco brasileiro
pensando que é estrangeiro
e vai pra casa se esnobar

do you like samba?
i like too
if you love the samba
i love you

tem um tal de cash box
que é um cara não me toques
que faz a programação
vejo a semana inteira
uma novela brasileira
e nunca vi tocar sambão

do you like samba?
i like too
if you love the samba
i love you

por favor não leve a mal
mas não entendo o pessoal
alguém tem que me explicar
ouve rock o ano inteiro
e quando chega fevereiro
vai pra escola desfilar

do you like samba?
i like too
if you love the samba
i love you


domingo, 6 de junho de 2010

domingueira



esse é o rapper brother ali, um dos caras mais interessantes que surgiram no estados unidos nos anos 2000. seu fraseado é limpo, diferente, e os beats maravilhosos, e essa música "tight rope", do sensacional disco us (rhymesayers/warner, 2009), tem tudo a ver com o dia de hoje - aqui em são paulo acontece a parada gay e todos ainda sentem as dores do ataque à #flotilla. é um chamado ao diálogo e à convivência pacífica em um frio mundo de extremos (políticos, religiosos, etc.). ia colocar a letra original aqui, mas acabei achando uma versão traduzida por felipe schmidt, lá do excelente blog boom bap. segue (e qualquer correção, avisem)...

corda apertada
(brother ali)

fria e gelada minnesota, moeda no ombro dele
dormindo mal em um sofá estragado
visitante indesejado em uma cultura diferente
sentindo falta de casa, e ele não pode lutar a guerra civil deles
ouça, soldado, esqueça seguir em frente
prisão estadual ao redor da esquina, os sem-teto estão ainda mais próximos
até as crianças com a mesma cor de pele não querem você
cospem e te insultam porque eles têm estado aqui há mais tempo
ele deixa a casa dele e é certo que os policiais vão abordá-lo
aonde você está indo? de onde você é? alguma arma contigo?
sua família está estressada, você está ficando velho
você não vive do modo que eles viviam lá na somália
é ainda mais difícil ser uma filha
tentando se manter modesta com as pecadoras ao seu redor
onde a roupa errada pode provocar uma úlcera nos seus pais
e se você se cobrir toda as outras crianças vão implicar com você

vivendo em dois mundos com seus olhos fechados
na ponta dos pés numa corda apertada
segurando-se pela sobrevivência
ninguém para culpar, é assim que as coisas são

feriados e você sabe como isso funciona
você tem dois aniversários e dois natais
quanto mais velho você fica mais percebe o quão ruim é isso
eles estão tentando compensar a culpa deles com os presentes que lhe dão
pulando da casa dele para a casa dela
é ruim demais que o casamento não tenha dado certo
agora você não tem a sua casa
papai brigando com mamãe, ambos dizem que me amam
se eu ficar próximo demais de um, o outro começa a agir engraçado
mamãe foi e teve um filho com um pai diferente
você finge que está feliz para agradá-los, mas está realmente triste
vendo em primeira mão aquela família que você nunca vai ter
e você nem é um irmão de verdade, é só metade
precisa juntar os pedaços e seguir em frente
guardar as estórias na cama e saudá-las no telefone
desejando que você fosse crescido e tivesse a liberdade de ir embora

vivendo em dois mundos com seus olhos fechados
na ponta dos pés numa corda apertada
segurando-se pela sobrevivência
ninguém para culpar, é assim que as coisas são

papai era um pastor, mamãe era uma professora de escola dominical
o irmão mais velho era o líder do time de futebol
então só sobrou você para desapontá-los ou desagradá-los
você só está fazendo o que você sente ver naquele
espelho toda vez que você se procura nele
engole as lágrimas dentro daquele sentimento vazio
o garoto dela horrorizado para deixar o mundo entrar
ele tem namoradas, mas não quer uma namorada
ele se retira para onde ele vive a própria vida em segredo
papai diz que as pessoas vão para o inferno por serem
o que ele é, e ele acredita nisso
porque não há chama que não incendeie o suficiente
para superar ser odiado pela forma que você ama
e chora para poder dormir e odeia acordar
este é um mundo frio, gente, nos envergonhemos

vivendo em dois mundos com seus olhos fechados
na ponta dos pés numa corda apertada
segurando-se pela sobrevivência
ninguém para culpar, é assim que as coisas são

sexta-feira, 23 de abril de 2010

letra/música #15

ah, hellcife. foi de lá que saiu recife lo-fi vol. 1 (independente, 2010), coletânea de artistas novos e semi-novos que foi lançado em fevereiro. idealizada pelo músico zeca viana, o disco virtual é uma parceria recife rock, coquetel molotov, trama virtual, revista o grito e agência alavanca. agora, é uma coletânea e sendo assim é irregular. natural. tem coisas interessantes de lulina e júlia says, nomes já conhecidos, e também de gente como bruno souto, rama, d mingus e ex-exus. mas nenhuma bate jalu maranhão e "só nietzsche explica (acadêmico frustrado)", tecnobrega de letra debochadamente erudita. não vou negar, lembrou meu tempo de faculdade nas ciências sociais da usp. clicando na imagem abaixo tem link para baixar o disco.

só nietzsche explica (acadêmico frustrado)
(jalu maranhão, mas não consegui nenhuma confirmação sobre a autoria da música, portanto qualquer ajuda é bemvinda)

sou um acadêmico frustrado
que queria ter a vida de artista
um pós-moderno sequelado
essa injustiça cultural só nietzsche explica

componho sonhos, vendo a prazo
mas o real me vem e cobra, é à vista
tem que existir um resultado
arrumo a trouxa e lavo a roupa no analista

já tentei rené descartes
tentei o lévi-strauss
tentei até o paulo coelho

já tentei santo agostinho
tentei henri wallon
mas nada disso dá dinheiro

tentei sigmundo freud
tentei o lévinas
já tentei ser gustave flaubert

já tentei o karl jung
hipnose com o braüer
nada disso dá mulher

sou um acadêmico frustrado
que queria ter a vida de artista
um pós-moderno sequelado
essa injustiça cultural só nietzsche explica

componho sonhos, vendo a prazo
mas o real me vem e cobra, é à vista
tem que existir um resultado
arrumo a trouxa e lavo a roupa no analista

já tentei ser o karl marx
em protesto estudantil
pras gatinhas de história

já tentei henry thoreau
pra não ser um bom civil
mas nada disso me dá glória

já tentei ser fukuyama
tentei ser adam smith
para entrar na burguesia

já tentei ser bom selvagem
como pregava rousseau
mas nada disso alivia

eu quero mesmo é ser artista
compor feito rimbaud
e encantar o mundo inteiro

ser em banda ou ser solista
cantar feito john lennon
e ganhar muito dinheiro

eu quero ser como joão bosco
pra comprar com o violão
a estadia no cabaret

quero ser a cássia eller
quero ser como a bethânia
pra não me faltar mulher

eu quero ser elis regina
quero ser a rita lee
eu quero ser esta fusão

quero ter a minha glória
quero ver minha memória
bem escrita num refrão

sou um acadêmico frustrado
que queria ter a vida de artista
um pós-moderno sequelado
essa injustiça cultural só nietzsche explica

componho sonhos, vendo a prazo
mas o real me vem e cobra, é à vista
tem que existir um resultado
arrumo a trouxa e lavo a roupa no analista


jalu maranhão - só nietzsche explica (acadêmico frustrado) by dafne47

p.s.: essa música tem uma gravação anterior, igualmente sensacional, assinada pelos míticos the playboys no disco
chega de niilismo (independente, 2008). tem lá no blog discoteca nacional.