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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

50 discos brasileiros de 2014 [e mais 25]

estamos aí no segundo capítulo da retrospectiva musical deste ano. já publiquei aqui a lista com 50 músicas brasileiras e agora é a vez dos discos. são 50 com uma lista bônus de outros 25. coisa pra diabo, eu sei, mas é só um pedacinho dos sons que chegaram a mim. dessa ruma alguns merecem destaque, pois me pegaram mais de um jeito ou outro. é mais ou menos assim...


pedra de sal - EP que é o primeiro de uma trilogia  - chegou agora no final e me derrubou rapidamente. é trabalho de várias belezas e muitas inquietações, alguma dramáticas, e mais um encontro forte de pernambuco [alessandra leão e rodrigo caçapa] e são paulo [kiko dinucci e guilherme kastrup]. e alessandra detona muito [“pedra de sal”, porra, o que é “pedra de sal”?!]. já o que vim fazer aqui é disco novo da alzira, o que me ganha de cara porque ela é uma das minhas cantoras/intérpretes/autoras preferidas de todos os tempos. daí que nesse disco ela canta só itamar assumpção, algumas inéditas, e com uma banda ótima. não é só impossível dar errado como ainda por cima dá muito certo. falando em itamar, o segundo disco de sua filha anelis assumpção, anelis e os amigos imaginários, é diversão do começo ao fim, é adulto e pop, é urbano e leve. anelis tá fazendo um carreira muito massa.


convoque seu buda, o disco de criolo após nó na orelha, corria muitos riscos comparativos e saiu-se muito bem. não tem o ineditismo da reinvenção do rapper e do encontro com Daniel ganjaman, mas tem alguns novos caminhos próprios e justas coerências, além de várias grandes canções. ainda na seara do rap, cruz do elo da corrente é mais uma prova da maturidade do gênero. ousado musicalmente, brasileiro e paulistano na medula, extremamente bem produzido, cruz é uma bela duma pancada. igualmente impactante, goma-laca é o disco do projeto de biancamaria binazzi e ronaldo evangelista com músicas afro-brasileiras gravadas entre as décadas de 1920 e 1950 e rearranjadas por letieres leite. e tudo fica ainda melhor com a escolha acertadíssima dos(as) intérpretes que, não coincidentemente, estão nessa lista também com seus excelentes trabalhos solo [juçara marçal, russo passapusso e lucas santtana – e tem ainda karina buhr, mas que não lançou disco novo esse ano].


chegamos então a juçara marçal e seu encarnado. uma das mais discretas e poderosas cantoras brasileiras, juçara fez de sua estreia solo um aperfeiçoamento natural do trabalho quem tem feito no metá metá: tradições afro-brasileiras sendo rasgadas por guitarras, por uma interpretação segura e pelo presente musical brasileiro. disco impressionante de uma artista idem. coisa boa é também a estreia solo oficial de moreno veloso, após a trilogia que fez com os amigos domenico e kassin, e é seu trabalho mais doce, mais bonito. já o novo nação zumbi pode não ter a pancadaria de outrora, mas os pernambucanos seguem criando músicas ótimas, honrando e muito as duas décadas do mangue beat/bit.


e o racionais mcs? após mais de uma década sem um cd de inéditas, o quarteto lançou cores e valores, um disco-conceito lotado de referências e histórias, um tantinho frustrante pela curta duração, mas as vozes e posturas dos caras continua muito impressionante. com 25 anos de estrada, o racionais é, sem sombra de dúvida, uma das coisas mais importantes da história da música popular brasileira.


finalizando os destaques, dois baianos. russo passapusso, vocalista do baiana system, lançou seu primeiro solo, o lindo paraíso da miragem, que tem reggae, ragga, balanço e muito o que falar e mostrar. o veterano na inquietude tom zé veio com vira lata na via láctea, seu melhor disco em tempos, principalmente porque seus arranjos diferentes, formações instrumentais variadas , e muitas participações interessantes [de criolo a filarmônica de pasárgada, de milton nascimento a kiko dinucci, de caetano veloso a o terno]. e, claro, um leque e tanto de ótimas músicas.

peraí, peraí... últimos destaques. juro! como disse na lista de músicas, continua rolando muito rap bom pra cacete. racionais, criolo e elo da corrente não me deixam mentir. mas vale ressaltar que tem ainda, nessa lista de 50, amiri, rincon sapiência, lurdez da luz, haikaiss e zulumbi aqui de são paulo, o pessoal do r93 de volta redonda e os gaúchos tuty e orquestra celestial do livre arbítrio. 

bom também quando somos pegos no contrapé. foi muito bom ser surpreendido pelos excelentes discos de adriano cintra [animal], alice caymmi [rainha dos raios], celso sim [tremor essencial], ian ramil [ian] e márcia castro [das coisas que surgem], além da descoberta do niteroiense salgueirinho e seu animalia, um disco eletrônico-instrumental bacaníssimo.

segue então, finalmente, a lista com 50 discos brasileiros deste ano segundo o gosto da casa, tudo devidamente linkado para ouví-los na íntegra [e ocasionalmente baixá-los]:

adriano cintra - animal
alessandra leão - pedra de sal EP
alice caymmi - rainha dos raios
amiri - antes, depois
anelis assumpção - anelis e os amigos imaginários
banda do mar - banda do mar
barbara eugênia & chankas - aurora
celso sim - tremor essencial
china - telemática
elo da corrente - cruz
estrelinski e os paulera - leminskanções
fábio trummer - trummer super sub america
filarmônica de pasárgada - rádio lixão
fino coletivo - massagueira
gilberto gil - gilbertos samba
gustavo galo - asa
ian ramil - ian
isaar - todo calor
juçara marçal - encarnado
lucas santtana - sobre noites e dias
lurdez da luz - gana pelo bang
m.takara - puro osso
márcia castro - das coisas que surgem
maurício pereira - pra onde eu que tava indo
mombojó - alexandre
moreno veloso - coisa boa
nação zumbi - nação zumbi
nina becker - minha dolores
o terno - o terno
orquestra celestial do livre arbítrio - o.c.l.a.
racionais mcs - cores e valores
rincon sapiência - sp gueto br EP
romulo fróes - barulho feio
rubinho jacobina - andando no ar
russo passapusso - paraíso da miragem
sacassaia - boca da terra
salgueirinho - animalia
saulo duarte e a unidade - quente
silva - vista pro mar
superlage - superlage
tatá aeroplano - na loucura e na lucidez
zulumbi - zulumbi

e aqui uma lista bônus com outros 25 trabalhos bem bons e que também deixaram suas marcas por aqui:

a banda dos corações partidos - a banda dos corações partidos
a fase rosa - leveza
afroelectro - mocambo EP
ceumar - silencia
de leve - estalactite EP
esdras nogueira - capivara
giancarlo rufatto - cancioneiro
graveola - dois e meio
holger - holger
inquérito - corpo e alma
jaloo - insight EP
judas - nonada
lamber vision - lamber vision
léo cavalcanti - despertador
naná rizinni - lá na naná
nego e - autorretrato
os the darma lóvers - espaço
pipo pegoraro - mergulhar mergulhei
rashid & kamau - seis sons EP
tássia reis - tássia reis EP

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

50 músicas brasileiras de 2014

virou rotina pessoal reclamar de mim mesmo pela cada vez maior dificuldade de fechar listas certeiras com as melhores músicas [ou discos] do ano. uma das razões é que é, de longe, o “produto” que mais consumo em qualidade e quantidade, e como tem muita música boa sendo lançada, vou fazer o quê?! quero mais é mostrar a variedade do que é produzido e do que ouço. então, sem mais desculpas, começo a retrospectiva musical de 2014 com as 50 melhores músicas brasileiras conforme o gosto e os limites da casa [tem, por exemplo, discos que não emplacaram música e vice-versa].


nesse ano resolvi agrupar em “gêneros”, ou em blocos, como preferirem [e aí sim as músicas estarão em ordem alfabética]. e começo com o rap, que é o que mais tenho ouvido nos últimos anos e o que mais tem empurrado a música popular brasileira pra frente. neste bloco estão duas das melhores músicas do ano, “plano de vôo” e “sobre o infinito e outras coisas”.

mais atentos(as) notarão a ausência dos racionais mcs, mas é que, pra mim pelo menos, o poderoso disco deles é mais um conceito que um conjunto de canções [e, portanto, estará na lista dos melhores discos]. quase todo rap da lista é de são paulo, mas tem porto alegre ali, curitiba acolá, são josé dos campos também, e por aí vai. ah, os blocos estão agrupados em playlists e quando tiver link na música é porque não achei no youtube.

“a marvada”, tuty [com rodrigo ogi]
“antônimos e sinônimos”, rocha
“até o fim sampa”, projetonave [com emicida]
“beijinho”, lurdez da luz
“cypher”, amiri [com léo supremacya e napalm]
“desse jeito”, mercúrias
“essa é pra você”, zulumbi
“neguim di kebra parte 2”, rincon sapiência
“plano de vôo”, criolo [com síntese]
“por onde a fonte brota”, orquestra celestial do livre arbítrio
“r & k”, rashid & kamau
“sobre o infinito e outras coisas”, elo da corrente


e tome mais periferia com pancadões e rasteirinhas. nada de funk ostentação, que isso é coisa do passado e tava na cara que o fôlego era curto. mas tem sacanagem e duplo sentido sim, e tem usos muito novos e divertidos da música eletrônica. “patrão”, “passinho do romano” e “perereca suicida” são os destaques.

“patrão”, omulu
“dom dom dom”, mc pedrinho & mc livinho
“na casa do seu zé”, mc britney
“nega bass”, joão brasil
“passinho do romano”, mc dadinho
“perereca suicida”, mc japa


e a mpb? o que fazer com a mpb? ela ainda existe? essa coisa faz sentido? os dois próximos blocos foram divididos por mera formalidade e não existem medalhões da “chamada mpb” em nenhum. quer dizer, nesse tem tom zé, mas tom zé é sempre inquieto e seu cânone é muito pessoal e sempre foge do esperado. seu disco, aliás, é um daqueles difíceis de escolher apenas uma música [mesmo caso de juçara marçal, russo passapusso, anelis assumpção e moreno veloso]. desse bloco, os destaques são “pedra de sal” e “queimando a língua”, coisas lindas e fortes. ah, essa lista mpbística acabou gerando uma mixtape a pedido do hominis canidae/altnewspaper.

“asa”, gustavo galo [com ava rocha]
“casa vazia”, isaar
“filho de santa maria”, estrelinski e os paulera
“inconcluso”, anelis assumpção
“meio dia”, filarmônica de pasárgada
“na menina dos meus olhos”, márcia castro [com mayra andrade]
“não acorde o neném”, moreno veloso
“partículas de amor”, lucas santtana
“pedra de sal”, alessandra leão
“queimando a língua”, juçara marçal
“retrato na praça da sé”, tom zé [com kiko dinucci]
“rosália”, pipo pegoraro
“sem sol”, russo passapusso [com anelis assumpção]
“tupitech”, celso sim
“vozes invisíveis”, graveola


o último bloco é mais rock, mais pop, mais um lance mpb esquema novo, ou não, já que tem carlinhos brown, guilherme arantes, uma instrumental eletrônica e canção com letra em inglês... enfim, tudo uma grande e brasileiríssima confusão. destaques desse bloco vão para “não vai dominar”, “descompasso” e “mais ninguém”.

“bote ao contrário”, o terno
“climb the stairs”, barbara eugênia & chankas
“como é que a gente se ajeita”, fino coletivo
“descompasso”, fábio trummer
“feio”, naná rizinni
“lobo”, salgueirinho
“mais ninguém”, banda do mar
“não vai dominar”, adriano cintra [com guilherme arantes]
“novas auroras”, nação zumbi
“o teu calor”, superlage
“onde somos um”, tatá aeroplano [com barbara eugênia]
“padê digital”, sacassaia
“trapaça”, holger
“vc, o amor e eu”, carlinhos brown [com quésia luz]
“vou vagar meu bem”, galego
“zonzon”, saulo duarte e a unidade

domingo, 12 de maio de 2013

mexidão #09

uma coisa certa nessa vida: tom zé é foda. hoje com 76 anos, o artista segue produzindo a mil por hora, experimentando, olhando e pensando sobre o presente e o futuro da cultura e da música popular, e com bom humor, sem parar, sem parar. as críticas que surgiram com sua participação em uma propaganda da coca-cola o fizeram criar um de seus trabalhos mais interessantes e divertidos dos últimos anos, o EP tribunal do feicebuqui. lá no yahoo falei dessa resposta-musical que ainda contou com a participação de uma boa turma de jovens músicos paulistanos - o terno, emicida, tatá aeroplano, trupe chá de boldo e filarmônica da pasárgada - sob curadoria do jornalista marcus preto. de seus discos dos anos 2000 gosto muito de estudando o pagode e jogos de armar, gosto de estudando a bossa, imprensa cantada e pirulito da ciência, achei danç-êh-sá muito chato e ainda não entendi direito o tropicalismo lixo lógico. só a partir dessa listinha é possível ver o muito que o baiano produziu nos últimos anos e sempre muito intensamente. quer dizer, você pode não entender, pode até não gostar, mas é impossível não respeitar um cara apaixonado como ele e que ainda faz tanto pela música e pelo brasil... após ter lançado tribunal do feicebuqui deu ótima entrevista no programa roda viva e pagou um esporro federal durante show no circo voador (porque alguém jogou um copo de cerveja no palco).


O ARROTO GOSTOSO DE TOM ZÉ

Foi no início de março deste ano que apareceu na TV e na internet uma propaganda da Coca-Cola narrada por Tom Zé. Rapidamente, como sempre nos tempos de hoje, apareceram um tanto de comentários críticos à participação do artista na publicidade do refrigerante. “Tom Zé, seu vendido” foi o mantra repetido ad nauseam nas redes sociais.

O baiano de Irará, 76 anos, é um dos maiores artistas da música brasileira (e, consequentemente, do mundo). Também é um dos mais irrequietos, originais e coerentes. Por tudo isso ele já merecia um pouco de mais maturidade nas críticas, mas Tom Zé nunca fez sucesso (em sucesso leia-se, no caso, dinheiro) na vida, apesar de ser referência para centenas de artistas brasileiros e internacionais. E durante cerca de 15 anos, do final da década de 1970 ao inícios dos anos 1990, passou por profundas dificuldades financeiras que quase o fizeram desistir da carreira.

Mas os mimados da internet se acham no direito de julgar e apontar o dedo – quem destes comprou um disco dele ou foi em shows? – e tanto fizeram que Tom Zé publicou um texto em seu blog. Genuinamente preocupado, afirmou o seguinte: “É curioso que quando fui consultado sobre o anúncio nem pensei nessa probabilidade [das críticas negativas]. No ano passado meu disco [Tropicália Lixo Lógico] fora patrocinado pela Natura e como eu nunca tinha recebido patrocínio desse tipo – nem de nenhum outro – , cara, eu me senti como um artista levado em conta!”.


Não tem nada de errado na propaganda da Coca narrada por Tom Zé. Tem uma graça e um otimismo pelo Brasil que são típicos dele. Mas certos fãs que ainda acreditam que o refrigerante é o “líquido negro do capitalismo” ou algo parecido não lhe perdoaram (e, veja bem, a Natura, que é bem brasileira, não é nada santa). E não adiantou o compositor de clássicos como “Angélica, Augusta, Consolação” falar que o dinheiro ganho será reinvestido em sua própria música (nada de carrões, iate, cobertura de luxo, etc).

“Atualmente sinto paixão pela retomada do projeto dos instrumentos experimentais de 1972. Com a eficiente colaboração do engenheiro Marcelo Blanck, começamos a desenvolver alguma tecnologia, mas com recursos parcos, insuficientes. (...) Aí entrou o anúncio da Coca-Cola que, mesmo sem ela saber, patrocinaria boa parte da pesquisa”, disse no blog. Humildemente ainda perguntou: “Será que o uso dos recursos obtidos com o anúncio muda a avaliação de vocês?”. Olha o tamanho da fofurice e da atenção do sujeito! Eu já teria mandado todo mundo catar coquinho na ladeira.

Só que Tom Zé é mais, muito mais. Nesse meio tempo ele se reuniu com um grupo de jovens artistas de São Paulo (Emicida, O Terno, Tatá Aeroplano, Filamônica de Pasargada e Trupe Chá de Boldo), gravou e acabou de lançar o EP Tribunal do Feicebuqui para dowload gratuito em seu site oficial.

Nas cinco faixas do disco, Tom Zé dá um tapa com luva de pelica nos patrulheiros da vida alheia. Estão lá versos irônicos como “Que é que custava morrer de fome só pra fazer música?” (em “Tom Zé Mané”) ou “O povo, querida, com pedras na mão voltadas contra o imperialismo pagão / E na cerimônia do beija-pé / Papa Francisco perdoa Tom Zé / No Feicebuqui da Santa Sé / Papa Francisco perdoa Tom Zé” (em “Francisco perdoa Tom Zé). É isso, meu caro Tom Zé, arrota melhor quem arrota melhor.


p.s.: seguem abaixo as cinco músicas do tribunal do feicebuqui.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

os 30 discos brasileiros de 2012 e algo mais

bem, a lista de melhores músicas brasileiras do ano já trazia indicações de quais discos ficariam entre os bonzões: as estreias de gaby amarantos, los sebosos postizos, maga bo, oquadro e alvinho lancelotti, e ainda curumin, tulipa ruiz, lucas santtana, letuce, gui amabis, siba e bnegão & os seletores de frequência. discos fortes, variados, alegres, melancólicos e, acima de tudo, repletos de ótimas músicas. mas acho que dois discos resumiriam o ano pra mim: arrocha, o terceiro do paulistano curumin, e treme, a estreia de gaby amarantos.


   
arrocha por seus cruzamentos surpreendentes e orgânicos do batuque afro-brasileiro com música eletrônica, e sem jamais esquecer a necessidade por canções, refrões, pegada, balanço, amor, experiências. e por músicas como “afoxoque”, “selvage”, “passarinho”, “treme terra”, “paris vila matilde”, “doce” e “pra nunca mais”, além da regravação linda de “vestida de prata” (paulinho boca de cantor, 1981) e da parceria com russo passapusso (baiana system).



treme por suas gigantescas possibilidades pop. gaby amarantos conseguiu um feito raro no brasil, pois é, ao mesmo tempo, hype e popularíssima (claro que isso não dura muito). seu disco de estreia, que começou a ser lançado no final de 2011 com o clipe de “xirley”, reúne fernanda takai e dona onete, thalma de freitas e zezé di camargo & luciano, zé cafofinho e veloso dias, kraftwerk e gang do eletro, todo um tsunami de altas e baixas culturas. ah, se um pedacinho da música pop mundial tivesse tanta informação como nas músicas cantadas por gaby... exemplos não faltam, vide “merengue latino”, “eira”, “gemendo”, “pimenta com sal”, “mestiça”, “coração está em pedaços”, “ex mai love”, “galera da laje” e “chuva”.

no mais, segue a lista completa:

alvinho lancelotti (o tempo faz a gente ter esses encantos)
caetano veloso (abraçaço)
café preto (café preto)
céu (caravana sereia bloom)
curumin (arrocha)
dona onete (feitiço caboclo)
dudu tsuda (le son par lui même)
gui amabis (trabalhos carnívoros)
hurtmold (mils crianças)
improvisado trio (interferências)
letuce (manja perene)
los sebosos postizos (interpretam jorge ben jor)
lucas santtana (o deus que devasta mas também cura)
maga bo (quilombo do futuro)
nina becker & marcelo callado (gambito budapeste)
oquadro (oquadro)
otto (the moon 1111)
paulo carvalho (o amor é uma religião)
rodrigo campos (bahia fantástica)
sambanzo (etiópia)
shaw (orquestra simbólica)
siba (avante)
silva (claridão)
síntese (sem cortesia)
thiago pethit (estrela decadente)
tom zé (tropicalismo lixo lógico)
tulipa ruiz (tudo tanto)

dessa lista gostaria de destacar ainda os excelentes e densos discos de rap do carioca-paulistano mc shaw (orquestra simbólica) e dos paulistas do síntese (sem cortesia, e ah, paulistas de são josé dos campos), bem como os novos trabalhos de uma turma muito produtiva de são paulo, bahia fantástica de rodrigo campos e metal metal, do trio juçara marçal, kiko dinucci e thiago frança. este último, saxofonista da banda do criolo, também lançou o belo instrumental etiópia sob o pseudônimo sambanzo (dinucci incluso). falando em instrumental, uma ótima surpresa foi interferências, disco de estreia do improvisado trio (marcelo castilha, meno del picchia e pedro ito). e pra finalizar, outras três estreias muito felizes, café preto (projeto adubado de cannibal do devotos do ódio), claridão (do capixaba indie silva) e le son par lui même (o multifacetado primeiro solo de dudu tsuda, que foi jumbo elektro, cérebro eletrônico, trash pour 4, etc). detalhe: os últimos discos a entrar na lista, tipo 43 do segundo tempo, foram abraçaço de caetano veloso e o extraordinário mils crianças do hurtmold.



MENÇÃO HONROSA - não tem como não falar de alguns ótimos tributos/coletâneas lançados no ano, destacando primeiro os que foram produzidos de forma independente, tais como o duplo re-trato los hermanos (com bárbara eugênia, cícero, dan nakagawa, hidrocor, lula queiroga, érika machado, nevilton, do amor, velhas virgens, tibério azul, banda gentileza, nervoso & os calmantes, etc.), o variadão brasileiros (com pélico cantando cartola, mahmundi de rita lee, bazar pamplona de dorival caymmi, etc.) e o muito excelente jeito felindie (tributo ao raça negra com lulina, amplexos, letuce, vivian benford, harmada, minha pequena soundsystem, etc.). menções honrosas também para o multinacional a tribute do caetano veloso (com beck, chrissie hynde, seu jorge, marcelo camelo, jorge drexler, céu, qinho, momo, tulipa ruiz, mariana aydar, etc.) e o projeto transglobal paraense terruá pará vols. 1 e 2 (com gang do eletro, gaby amarantos, mestres da guitarrada, lia sophia, dona onete, pio lobato, metaleiras da amazônia, etc.)

TEM MAIS SAMBA – nem preciso dizer que rolou muito mais coisa, portanto não custa nada mencionar outros discos interessantes/divertidos/desafiadores lançados neste ano e que passaram pelos ouvidos da casa. alguns emplacaram músicas entre as melhores do ano, mas acabaram não entrando na lista principal de discos. então, se não ouviu, ouça a banda dos corações partidos (a banda dos corações partidos EP), abayomy afrobeat orquestra (abayomy afrobeat orquestra), afroelectro (afroelectro), aíla (trelelê), amplexos (a música da alma), arnaldo antunes, edgard scandurra & toumani diabaté (a curva da cintura), banda uó (motel), beto mejía (abraço), bonde do rolê (tropical/bacanal), caio bosco (caio bosco), domenico & joão brasil (taksi EP), doo doo doo (casa das macacas), filarmônica de pasárgada (o hábito da força), flow mc (sensaflownal), fóssil (mocumentário), holger (ilhabela), jair naves (e você se sente numa cela escura…), kamau (... entre), laura wrona (r.h. volcano), madrid (madrid), mahmundi (efeito das cores EP), mão de oito (um dia que já vem), márcia castro (de pés no chão), marginals (marginals 2), marina de la riva (idílio), mr. catra (com todo respeito ao samba), o terno (66), orquestra contemporânea de olinda (pra ficar), orquestra imperial (fazendo as pazes com o swing), pentágono (manhã), psilosamples (mental surf), qinho (o tempo soa), rafael castro (lembra?), rogerman (o caminho do lobo), sasquat (alfazema), ska maria pastora (as margens do rio doce), sobre a máquina (sobre a máquina), sonic junior (inspire), strobo (quando se perde a inocência), tatá aeroplano (tatá aeroplano), trupe chá de boldo (nave manha), vítor araújo (a/b), volver (próxima estação) e zélia duncan (tudo esclarecido – músicas de itamar assumpção).

domingo, 22 de abril de 2012

tom zé convida...

um dos projetos contemplados no último edital do natura musical, o novo disco de tom zé, tropicália lixo lógico, está sendo gravado e alguns convidados especiais já deram o ar da graça no estúdio do artista baiano: emicida, mallu magalhães, pélico e rodrigo amarante. confira abaixo os encontros em fotos que tirei do instagram do jornalista marcus preto que está acompanhando a gravação.





e tem também uns videos com trechos desses encontros de tom zé com mallu e amarante. olha só.


quarta-feira, 14 de março de 2012

3 na íntegra

se você ainda não ouviu três dos melhores discos lançados nesses primeiros meses de 2012 agora não tem mais desculpa, afinal avante, manja perene e o deus que devasta mas também cura estão inteiros no bom e velho soundcloud. começando então com avante, disco lindo do pernambucano siba, produzido por fernando catatau e que traz o ex-mestre ambrósio de novo tocando guitarra (após anos e anos empunhando uma rabeca). poesia da pesada, sons repletos de surpresas.


já manja perene é o segundo disco do casal letuce (letícia novaes e lucas vasconcelos). financiado no esquema de crowdfunding, o trabalho tem psicodelia, rock, bom humor e algumas canções sensacionais como "areia fina", "cataploft", "sutiã", "insoniazinha", "loteria" e "ninguém muda ninguém".


pra finalizar essa selecta, o recente o deus que devasta mas também cura, quinto disco de lucas santtana, um dos artistas preferidos da casa. discaço cheio de camadas, arranjos finos, participações afiadas (céu, guizado, curumin, rica amabis, kassin, do amor e letieres leite & orkestra rumpilezz, por exemplo) e canções memoráveis como "se pá ska sp", "jogos madrugais", "dia de furar onda no mar", "o deus que devasta mas também cura" (lançada ano passado no disco de estreia de gui amabis) e uma versão de chorar de "músico" (rara parceria de tom zé e os paralamas do sucesso originalmente ouvida no disco severino).

domingo, 22 de janeiro de 2012

red hot + rio 2, a missão

lembro que quando foi lançado o primeiro disco-tributo produzido pela organização red hot (fighting aids through popular culture) tive o primeiro vislumbre do choque de gerações numa crítica musical. é que o paulo francis, acho que na época estava na folha, ficou puto das calças com o que artistas como jungle brothers e neneh cherry, entre outros, fizeram com clássicos de cole porter no ótimo (não pra ele) red hot + blue (1990, também estavam presentes gente como u2, tom waits, k.d. lang, fine young cannibals e jimmy sommerville). tinha 16 anos e pensei, “olha só, o tiozão não sabe o que tá acontecendo, não tá entendendo nada”. e o projeto ainda tinha uns clipes da pesada dirigidos por wim wenders, jim jarmusch, alex cox, jean-baptiste mondino, jonathan demme, percy adlon, neil jordan, etc.

vinte e um anos se passaram, a ong lançou outros discos – destaque para red hot + rio (1996, sobre bossa nova), onda sonora: red hot + lisbon (1998, sobre portugal, áfrica portuguesa e um pouco de brasil), red hot + riot (2002, sobre fela kuti) e dark was the night (2009) – e no ano passado veio red hot + rio 2 (2011), o décimo sétimo desse projeto surpreendentemente longevo e de alta qualidade. enfim, ouvi o disco duplo (34 músicas) ali por volta de setembro e gostei bastante de muita coisa, mas quando chegou a hora de fazer as listinhas com os melhores do ano não sabia se colocava nos gringos (a produção geral é de lá) ou nos nacionais (afinal a onda do trabalho é rever o tropicalismo e, não contei, mas acho que mais da metade dos artistas envolvidos ou músicas são brasileiros). travei nisso e o disco não entrou em nada, nem entre as músicas. puta sacanagem. então pensei em fazer uma postagem só pra ele como uma espécie de recompensa. ontem, numa passada rápida na fnac pinheiros, vi que tinham lançado aqui (som livre) e que o preço estava bem honesto (22,90). era a deixa e lá fui eu ouvir pela quinta ou sexta vez.

a produção musical de red hot + rio 2 é do brasileiro béco dranoff em parceria com paul heck e john carlin (mario caldato jr. e kassin foram consultores) e a proposta é rever o tropicalismo das mais diversas formas musicais, misturando artistas, brasileiros e gringos, remixes, gerações, clássicos da época e músicas novas, o nosso bom e velho samba do criolo doido. o disco 1 se chama red, enquanto o disco 2 é o hot. não existe nenhuma diferença conceitual perceptível a olhos nus entre um e outro.

alice smith + aloe blacc - "baby" (official music video) from red hot on vimeo

red

essa “baby”, com aloe blacc e alice smith, abre o disco, é uma delícia de ouvir (mesmo com alguns cacoetes eletrônicos lounge do que acabou virando a drum’n’bossa), e tem o plus a mais da presença de blacc, que puta voz, cantando versos caetânicos e com um pandeiro ao fundo. na sequência vem a sempre sensacional “tropicalia”, que o beck lançou no seu mutations (1998), e que aqui ganha o reforço suingado de seu jorge, inclusive cantando uma versão da letra em português. então, de repente, aparece o pessoal do clube da esquina com “um girassol da cor do seu cabelo”, só que cantada pela americana mia doi todd e o sueco-argentino josé gonzález. a linda música de lô e márcio borges é cantada em português (impossível traduzí-la) e sobrevive com dignidade. dá pra ver que eles provavelmente foram os que mais capricharam no “brasileiro” e fizeram um belo arranjo folk, só que com muito mais camadas e texturas. e a música seguiu doce como sempre.

rh loft party: mia doi todd + josé gonzález from red hot on vimeo

coco quadron, a vocalista do duo dinamarquês quadron, é muito simpática, mas acaba destruindo “samba de verão” (marcos valle, que é da segunda geração da bossa nova, pré-tropicalista portanto) com sua tentativa de português (e, com mil diabos, a letra em inglês é até boa e ela não arriscaria o pescoço). a parte musical é um tanto mais lenta, meio barzinho, mas se sustenta. daí vem “boa reza”, canção de vanessa da mata cantada em dueto com seu jorge e com a companhia luxuosa do grupo almaz. não dá pra entender porque, conceitualmente, a música estaria nesse disco “pós-tropicalista”, mas ela é boa demais para se perder por aí com sua pegada afro-brasileira, religião, guitarra massa de lúcio maia e batuque. bem, talvez seja isso.

o soulman john legend aparece com sua “love i’ve never know”e a coloca em ritmo de bossa leve com pandeiro. boa de ouvir, mas sem surpresas. já “nascimento (rebirth) – cena 2” eu não entendi muito bem a proposta, confesso, mas tem aloe blacc novamente, e de um jeito mais solto e moderno, e clara moreno (filha de joyce e nelson angelo) fazendo uns “eparará-pumdê-pumdêé”. é eletrônica em algumas partes e não sei bem o que isso quer dizer. então é a vez de curumin, certeza de som bacana, que faz uma ótima regravação de “ela” (gilberto gil), devidamente remixada pelo produtor americano ticklah (antibalas, easy stal all-stars e dap kings). e a “baby” de aloe blacc e alice smith volta reprocessada como “old dirty baby dub version” pelo produtor canadense doc mckinney. sei lá, não cola muito e nem dub é, na verdade.

uma das boas surpresas do disco é a versão de “um canto de afoxé para o bloco do ilê” feita pelo coletivo superhuman happiness (que tem gente do antibalas, fenomenal handclap band, passion pit, tv on the radio e the roots) com a banda cults, todos americanos. é bem próxima da original verdade seja dita, mas consegue ter uma diversão própria com direito a um delicioso sax safado oitentista que lembra o do mauricio pereira n’os mulheres negras. e do nada aparece um tal de om'mas keith (the sa-ra creative partners) que se derrama cafonamente em “mistérios”, mas como a música é de joyce, e eu tenho lá meus problemas de ouví-la, passei disperso, batido. tudo muda em “aquele abraço” com clima de festão multicultural unindo forró in the dark, brazilian girls e angélique kidjo, que faz um breque de gala rimando na língua que ela fala em benin e que não faço ideia qual seja.

mia doi todd volta com uma versão bem respeitosa de “canto de iemanjá”, quem é um dos clássicos afrosambas de baden e vinicius, o que significa que o tom fica mais solene e quebra o ritmo do disco. que não melhora com “terra”, com o próprio caetano cantando em 1978, e remixada muito discretamente, quase preguiçosamente, pelo prefuse 73 (maior frustração do disco, talvez). aí vem a linda “nu com a minha música”, que caetano lançou no outras palavras (1981), e aqui é cantada com muita delicadeza por marisa monte, devendra banhart e rodrigo amarante. desce que é uma boniteza. e bebel gilberto, muito espertamente (o que tem sido raro nos últimos tempos), faz um “acabou chorare”no estilo menos é mais, fechando um ciclo de quase 40 anos, já que foi ela falando ainda bebê que inspirou o nome da música (joão gilberto ia no sitio dos novos baianos em campo grande, rio de janeiro, e contava histórias de sua filha bebel). pra encerrar o disco vermelho, “dreamworld: marco de canavezes”, parceria de caetano veloso e david byrne, gravada originalmente em onda sonora: red hot + lisbon e uma ótima batucada eletrônica em homenagem a carmen miranda (que nasceu em marco de canaveses, portugal).

rh loft party: beirut from red hot on vimeo

hot

o disco quente começa com essa música aí logo acima. zach condon e seu pessoal do beirut já tocavam “o leãozinho” em shows, então a escolha veio naturalmente e o resultado é um belo caetano melancólico tendo como base um cavaquinho claramente não brasileiro (uma levada meio ukelele). já o pessoal do tha boogie pegou “panis et circensis” e a transformou em um rockinho com timbres parecidos com o strokes (ou seria coldplay?) e nada mais que isso. difícil errar “bat macumba”, principalmente se forem mantidos a psicodelia e o batuque, e os americanos do of montreal ainda por cima contam com a presença guitarrística de sérgio dias (mutantes). tudo em casa.

e olha o clube da esquina novamente! “tudo o que você podia ser”, de lô e márcio borges, surge com marcos valle e a phenomenal handclap band, cuja vocalista laura marin manda um bom português. arranjo acertado com teclados vintage e guitarra distorcida. daí que vem joyce, em carne, osso, voz e “banana”(gravada originalmente em feminina, 1980) e não tem madlib (e um tal de generation match) que salve essa bossa hippie de louvor às coisas naturais brasileiras.

agora, pós-tropicalismo mesmo é reunir marina gasolina (ex-bonde do rolê), o produtor francês secousse (etienne tron) e “freak le boom boom”, clássico pop trash de gretchen. o resultado é sensacional e certeza de sucesso em qualquer pista (e ainda rolou, fora do projeto, um remix mais pesado feito pelo pessoal do cansei de ser sexy). enquanto isso, o sambinha poliglota “tropical affair” me pareceu confuso, meio com cara de publicidade, apesar das fortes presenças de thalma de freitas, money mark (beastie boys) e joão parahyba (trio mocotó). fortemente latina desde seu surgimento em 1967, “soy loco por ti, américa” (gilberto gil e capinan) veio no disco em interpretação de carlinhos brown (ou seria carlito marrón?) com os cubanos dos los van van e órgão de money mark. tudo direitinho, no jeito.

já “roda”, música pré-tropicalista de gilberto gil gravada originalmente por elis regina em 1966, ganha uma nova cara com os ótimos arranjos de sopros da orquestra contemporânea de olinda (e os vocais de maciel salu e tiné) e um ótimo breque rimado sob responsabilidade de emicida. a qualidade continua lá no alto com “berimbau”, outro afrosamba de baden e vinicius só que menos solene, que no disco é cantada lindamente pela cabo-verdiana mayra andrade com acompanhamento suingadão do trio mocotó. outra voz feminina atual e das melhores, a de céu, protagoniza uma ótima “it´s a long way” (do espetacular transa, 1972) acompanhada do produtor apollo nove, joão parahyba, betão aguiar e os djs zegon e squeak e. clean (do projeto n.a.s.a.).

mais pós-tropicalismo no encontro dos pernambucanos dj dolores, otto, fred 04, isaar e chico science (in memoriam) com o cigano punk ucraniano global eugene hutz (gogol bordello). é “a cidade”, que continua muito atual em tempos de pinheirinho, favela do moinho e cracolândia, exemplos recentes de como o poder público (no caso, o governo de são paulo) se une a especulação imobiliária para bater e expulsar viciados e sem-teto, pobres todos, de áreas cobiçadas. a cidade não para, a cidade só cresce, o de cima sobe, o de baixo desce.

javelin + tom zé from javelin javelin on vimeo

taí um pouco do encontro de tom zé, os americanos do javelin e “ogodô, ano 2000”, uma das músicas mais profundamente tropicalistas do baiano e que aqui ficou em boas mãos. é outra canção difícil de ser estragada. como também é o caso da jobiniana “águas de março”, que no disco ganha versão inspirada com fernanda takai e moreno veloso nos vocais e o alemão atom™ (señor coconut) e o japonês toshiyuki yasuda nas programações. não entendi “show me love”, do grupo twin danger de vanessa bley, dentro do conceito do disco. quer dizer, é uma bossinha de tempos atuais, mas falta mistura, falta molejo. então vem rita lee com “pistis sophia”, um lamento sertanejo moderno (muito mutantes) com participação de joão parahyba. e aí o disco quente se encerra com uma faixa bônus, a linda “um dia desses” em dueto de kassin e cibelle (essa música foi gravada originalmente por adriana calcanhotto no disco maré, 2008, e é um poema de torquato neto musicado por kassin). uma música de amor interiorano bem brasileira toda riscada por intervenções eletrônicas. coisa mais linda. diga se não?


discos-tributo são sempre irregulares, impossível ser diferente, mas red hot + rio 2 é repleto de grandes achados e encontros, e faz um bom apanhado do que foi e por onde se encontra o nosso tropicalismo em tempos globais.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

tom zé e as calcinhas voadoras

o baiano estava com a macaca em show no rio de janeiro na semana passada e lá pelas tantas pediu para que as moças jogassem calcinhas no palco. enquanto ia recebendo calcinhas-exocets, tom zé fazia uma defesa apaixonada da buceta e de seus cheiros, reunindo napoleão e a própria mãe no raciocínio. o fotógrafo jorge bispo registrou esse momento épico para a sexualidade musical brasileira... performance é pouco. vi esse video no tumblr do @raulramone.



mas como se isso não fosse divertido o bastante, tom zé voltou a são paulo e na área de serviço de sua casa teceu alguns breves comentários sobre cada uma das calcinhas recebidas. e cheirou-as. e deu uma lavadinha. e disse coisas como "essa calcinha tinha uma presença olfativa muito marcante" ou "a pessoalidade do atolamento" ou ainda "as calcinhas estão derramando gotas que podiam servir de cura para grandes males da humanidade". fiquei sabendo desse segundo video pela paula scarpin, jornalista da revista piauí.



'bsolutamente genial.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

tom zé por vincent moon

e começam a sair os primeiros videos feitos pelo francês vincent moon em sua jornada brasileira. tom zé é o primeiro artista contemplado.

collection petites planètes • volume 1 • TOM ZÉ from Vincent Moon / Petites Planètes on Vimeo

collection petites planètes • outtake • TOM ZÉ from Vincent Moon / Petites Planètes on Vimeo

e esses videos também dão início a petites planètes, uma nova série assim definida: "a subjective collection of recordings from the worlds. sonic, visual, cultural. a nomadic label, made on the road by vincent moon and friends".

quinta-feira, 14 de abril de 2011

yahoo #03

os cães ladram e a caravana reggae, podiscrê. enquanto o pessoal me xinga lá no yahoo pela mais recente coluna, "vamos gozar outra vez?" (sobre cinema brasileiro atual e a pornochanchada), coloco aqui a anterior, a que escrevi em defesa do funk carioca. tomei muita pedrada, muita mesmo, porque tem um pessoal com um ódio gigantesco em relação ao funk carioca. apenas defendê-lo é o que basta para ser taxado de desgraçado pra baixo. enfim, loucura total.


NÃO TEM PAPO, NÃO TEM ALÔ

Tinha umas coisas na mente, um plano Ultra Pop. Comecei pela TV (carnavalesca), pulei para o mercado fonográfico (neo sertanejo), e daí iria rumo ao cinema, a rádio e a internet. Refletindo sempre sobre manifestações culturais populares nos mais diversos veículos de comunicação e em tempos diferentes. Só que a música é um assunto que acaba atravessando tudo, não consigo escapar, e as centenas de comentários gerados pela coluna anterior – a do Luan Santana – me chamaram atenção para um gênero que parece personificar para muitos o mais baixo que a humanidade pode chegar. Estou falando do funk carioca, amiguinhas e amiguinhos.

Como aceitar que versos como “Dako é bom / Dako é bom / Calma, minha gente , é só a marca do fogão” possam ser música? E que isso possa ser bom? Pois é, acontece que é isso mesmo. E nem vou falar da importância de Tati Quebra-Barraco ser uma pioneira voz feminina, orgulhosa e ativa em um cenário masculino e machista. O lance aqui é mais fundo, pois Tati é apenas uma das muitas pontas desse jovem gênero musical (cerca de 25 anos, por aí) que ainda segue se batendo com preconceitos internos enquanto é considerado, no exterior e também por aqui, a legítima música eletrônica popular brasileira.



Aí o pessoal começa a espumar de ódio. “Como assim?! Esses funks cariocas só falam de putaria e incitam violência!!! Que cultura é essa?” Antes de entrar no mérito da questão, um aviso: o pessoal costuma confundir as bolas achando que o seu (bom?) gosto é o mais importante, o verdadeiro, o fino. Mas gostar de Cartola ou Adriana Calcanhotto não vai te fazer uma pessoa melhor daqueles que gostam de Mr. Catra ou Bonde da Madrugada (não faltam exemplos de ditadores sanguinários muito chegados a música clássica, e aí?). O que importa mesmo é que, para além dos gostos pessoais, o funk carioca é uma intensa e dinâmica fábrica de alegria, sexo, humor, prazer, dinheiro, críticas sociais, amor e brasilidade a muitos beats por minuto.

“De algum jeito o nosso povo faz das festas uma arte. Com pouco ensino tradicional mesmo pra quem teve escola, é nas festas que a gente inventa um jeito de estudar a vida, uns com os outros”, disse certa vez o carioca Sany Pitbull, um dos DJs mais disputados da recente cena de funk carioca e que transita entre boates de classe média alta de São Paulo e clubes europeus. Essa singela declaração de Sany diz muito sobre a riqueza sem preconceitos de um gênero que pretende então, sem muita elaboração e no calor dos momentos, estudar a vida através da arte da festa. Afinal, é de encontro em encontro que a gente vive e cresce. A única diferença é que no funk os encontros são muito mais suados.



p.s.: o título dessa coluna faz parte do refrão de uma das montagens mais clássicas do funk carioca do final dos anos 1990 e que diz mais ou menos assim “Se trepidar / Se enfraquecer os irmão / E se conspirar / E armar vacilação / E se caguetar / Não tem papo, não tem papo, não tem alô”.