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sábado, 17 de dezembro de 2022

70 músicas e 30 discos brasileiros de 2022

depois que fechei essa lista percebi que neste ano ouvi quase nada fora da minha bolha rap-mpb. não sei porque. estranho. mas não teve quase nada de funks, arrochas, piseiros, pops variados (sertanejo realmente não consigo mesmo). paciência. mas tem 70 músicas aqui, é muita coisa vai.

muitas mulheres, como sempre. Anelis Assumpção, Alaíde Costa, Anitta, Deize Tigrona, Duda Beat, Iara Rennó (com Thalma de Freitas), Illy (em duas faixas, uma como protagonista e outra como convidada), Marina Sena (em duas faixas, mas como coadjuvante de luxo), Juçara Marçal, Larissa Luz, Luedji Luna, Lurdez da Luz, MC Tha, Céu (em duas faixas, uma como parceira e outra como convidada), Tiê, Tulipa Ruiz e Xênia França. e algumas estreantes por aqui, tipo Bruna Alimonda, Pâmela Amaro (com Maíra Freita e Yzalú), Rachel Reis e Victoria dos Santos. 

no mais, ouçam. 

 

A Banda dos Corações Partidos – “Intuição”
Alaíde Costa – “Pessoa-Ilha”
Amiri – “Tudo eu”
Anelis Assumpção – “Pouso de ave rara” (com Josyara)
Anitta – “Gata”
Baco Exu do Blues – “Inimigos”
BaianaSystem – “Catraca”
BK', Marina Sena & JXNV$ - “Se eu não lembrar”
Black Alien – “Pique Peaky Blinders”
Bruna Alimonda – “Canção de cansaço”
Bruno Morais – “Divindade”
Chico Buarque – “Que tal um samba?” (com Hamilton de Holanda)
China – “Deixe-se acreditar” (com Felipe S)
Coruja BC1 – “Auxílio emergencial do rap”
Criolo – “Quem planta amor aqui vai morrer” (com Tropkillaz)
Deize Tigrona – “Ibiza” (prod. Badsista)
Djonga – “Conversa com uma menina branca”
Duda Beat – “Dar uma deitchada”
Edgar – “Bíblia, boi e bala”
Elo da Corrente – “Homens e meninos”
Felipe Cordeiro – “Muita onda” (com Valéria Paiva)
Fernando Catatau – “Quando o dia amanhecer” (com Manoel Cordeiro)
Filarmônica de Pasárgada – “Rios e ruas”
Fióti – “Quando for falar de amor (Summer song)” (com Tuyo)
Froid – “Malandragem”
Gloria Groove – “Pisando fofo” (com Tasha & Tracie)
Iara Rennó & Thalma de Freitas – “Bàbá Orí”
Illy & Marina Sena – “Quente e colorido”
Jefferson Placido – “Música clássica do subúrbio”
João Donato & Céu – “Floriu”
Johnny Hooker – “Cuba”
José Miguel Wisnik – “Estranha religião” (com Marina Wisnik)
Juçara Marçal – “Um choro”
Kamau – “Pacífico”
Larissa Luz & Tropkillaz – “Cupido Erê”
Lucas Santtana – “Vamos ficar na Terra”
Luedji Luna – “3 Marias”
Luisa e os Alquimistas – “El misterio ya está aqui” (com Letrux)
Lurdez da Luz, Tiago Frúgoli & Ivan Conti – “Portal”
Manoel Cordeiro – “Mambo bragantino” (com Kassin, Pupillo e Marlon Sette)
MC Tha – “Figa de Guiné” (com Jongo Dito Ribeiro)
Mundo Livre SA & Doralyce – “Melô das musas empoderadas da Ilha Grande”
Orquestra Raiz – “Distractions”
Os Barões da Pisadinha & Parangolé – “Não que eu vá”
Pabllo Vittar – “Follow me” (com Rina Sawayama)
Pâmela Amaro, Maíra Freitas & Yzalú – “Deixa que eu vou te contar”
Parteum – “O balanço do efeito Dunning-Kruger”
Paulo Miklos – “Do amor não vai sobrar ninguém”
Projetonave & Caco Pontes – “Sétimo selo”
Rachel Reis & Céu – “Brasa”
Rashid – “Linha de frente” (com Amiri e Don L)
Rico Dalasam – “30 semanas”
Rodrigo Campos, Juçara Marçal & Gui Amabis – “Faca”
Russo Passapusso & Antonio Carlos & Jocafi – “Pitanga”
Samuca e a Selva – “Lambe-lambe” (com Illy)
Siloque – “Desidratando”
Surra de Rima – “Faz a linha”
Tatá Aeroplano – “Na beleza da vida”
Thiago Elniño & Tolen – “Dengo Modo Tambor”
Tiê & Adriano Cintra – “Pagar pra ver I”
Tim Bernardes – “BB (Garupa de moto amarela)”
Tom Zé – “Metro Guide”
Trio Shaloshinho – “Que mêda”
Tulipa Ruiz – “Não pira” (com Jonas Sá)
Urias – “Tanto faz”
Victória dos Santos – “Estou velha” (com Rodrigo Campos)
Vitor Ramil – “Rilke Shake”
Wado – “Atiraste uma pedra” (com LoreB)
Xênia França – “Interestelar”
Zudizilla – “Matrix” (com Coruja BC1)
 
e os DISCOS BRASILEIROS de 2022... dentre estes 30 discos, destaques meus para os trabalhos novos das amigas-parceiras-irmãs Iara Rennó (o afro-espetacular Oríkì) e Anelis Assumpção (o femininíssimo Sal), pros raps ferozes de Baco Exu do Blues (QVVJFA?) e Criolo (Sobre Viver), pros veteranos & inquietos Tom Zé (Estudando a Língua Brasileira) e Alaída Costa (O Que Meus Calos Dizem de Mim), pra MC Tha cantando lindezas pouco conhecidas de Alcione (Meu Santo é Forte), pra Vitor Ramil todo em parceria com Angélica Freitas (Avenida Angélica), pros lindos trampos solo de Fernando Catatau (também Fernando Catatau) e Russo Passapusso (Alto da Maravilha, feito junto com os veteranos-referência Antônio Carlos & Jocafi), para as belezas totais de um dos preferidos da casa, José Miguel Wisnik (Vão), pra alegria de Wado (com o solar e auto-explicativo O Disco Mais Feliz do Mundo Vol. 1) e pras múltiplas São Paulos em Tulipa Ruiz (Habilidades Extraordinárias), Bruno Morais (Poder Supremo) e Tim Bernardes (Mil Coisa Invisíveis).

Alaíde Costa – O QUE MEUS CALOS DIZEM DE MIM
Anelis Assumpção - SAL
Anitta – VERSIONS OF ME
Baco Exu do Blues - QVVJFA?
Bruno Morais - PODER SUPREMO
China – CARNAVAL DA VINGANÇA
Criolo - SOBRE VIVER
Djonga - O DONO DO LUGAR
Fernando Catatau - FERNANDO CATATAU
Filarmônica de Pasárgada - PSSP
Iara Rennó - ORÍKÌ
João Donato – SEROTONINA
José Miguel Wisnik - VÃO
Juçara Marçal - EPDEB
Larissa Luz & Tropkillaz - DEUSA DULOV VOL. 1
Luisa e Os Alquimistas - ELIXIR
Manoel Cordeiro, Kassin, Pupillo & Marlon Sette – LEVADAS DE FESTA
MC Tha - MEU SANTO É FORTE
Mundo Livre S/A - WALKING DEAD FOLIA
Rachel Reis - MEU ESQUEMA
Rashid - MOVIMENTO RÁPIDO DOS OLHOS
Rico Dalasam - FIM DAS TENTATIVAS
Rodrigo Campos, Juçara Marçal & Gui Amabis - SAMBAS DO ABSURDO VOL. 2
Russo Passapusso, Antônio Carlos & Jocafi - ALTO DA MARAVILHA
Tatá Aeroplano - NÃO DÁ PRA AGARRAR
Tim Bernardes - MIL COISAS INVISÍVEIS
Tom Zé - ESTUDANDO A LÍNGUA BRASILEIRA
Tulipa Ruiz - HABILIDADES EXTRAORDINÁRIAS
Vitor Ramil - AVENIDA ANGÉLICA
Wado e o Bloco dos Bairros Distantes - O DISCO MAIS FELIZ DO MUNDO VOL. 1


sábado, 29 de dezembro de 2018

60 discos brasileiros de 2018

após os discos gringos é a vez do produto interno bruto e esse ano a nacional também está um pouco menor. como sempre destacarei, em blocos, os preferidos pessoais dentre a lista maior de 60 lançamentos.

a criação de canções, essa instituição brasileira, continua muito bem obrigado. de São Paulo vieram Anelis Assumpção com seu Taurina e Maurício Pereira e o Outono no Sudeste. Anelis vem criando com muito tato e discrição uma belíssima carreira, autoral e pop, e Taurina talvez seja o melhor retrato (até agora) do muito que é capaz (o pai Itamar deve estar tão orgulhoso). enquanto isso, Pereira, velho conhecido da casa, segue mestre total da crônica urbana paulistana e de suas cruas delicadezas.



nesse bloco de canções as surpresas vieram do capixaba Juliano Gauche e do pernambucano Mestre Anderson Miguel. Gauche é artista que acompanho faz um tempinho e até já apareceu em listas passadas, mas nunca me pegou de jeito, faltava alguma coisa. Afastamento, que produziu em parceria com Fernando Catatau, é um disco poderoso, romântico, pop e psicodélico. Anderson Miguel, por outro lado, está no registro da música popular tradicional da Zona da Mata pernambucana, mas a produção de Siba, as participações de Juçara Marçal, Beto Villares e Jorge Du Peixe e sua própria juventude (o mestre tem apenas 22 anos!) fazem de Sonorosa uma moderna revisão das próprias raízes.

então vem o rap, o gênero mais inquieto, inclusivo, diverso e punk de todos (tanto aqui quanto no resto do mundo). nessa seara o baiano Baco Exu do Blues está dominando os holofotes e listas do ano com seu Bluesman, disco mais complexo em sonoridades que sua estreia em Esú, mas também com mais autoreferências, o que pode ser um problema no futuro (até quando se sustenta um universo umbigo?). vale também destacar a malandragem mineira de Djonga em O Menino que Queria Ser Deus, a psicodelia futurista de Edgar em Ultrassom (produzido por Pupillo), as jovens misturas do grupo capixaba Solveris em Vida Clássica e a ousadia conceitual e produção esmerada do veterano Marcelo D2 em Amar é Para os Fortes.


foto de João Wainer na capa de Bluesman de Baco Exu do Blues

e tem medalhões também. Caetano convocou os filhos Moreno, Zeca e Tom Veloso para uma série de shows e daí surgiu o belíssimo Ofertório, cujo repertório costura habilmente produções dos filhos com alguns clássicos do pai. tal qual Caetano, Elza Soares continua cercada de outras gerações (mais novas, claro) e interesse afiado no presente, daí que seu mais recente Deus é Mulher pode não ter o peso e a surpresa do antecessor A Mulher do Fim do Mundo, mas Elza tem o que dizer e cantar e muita força em tudo que faz. e não é que Erasmo Carlos fez praticamente o mesmo no belo Amor é Isso. sob produção de Pupillo, o Tremendão se reuniu a outras gerações tanto nas composições quanto em participações [Emicida, Marcelo Camelo, Nando Reis, Marisa Monte, etc], mas todos e todas lidando com o romantismo gigante gentil que é a sua marca. nesse bloco, menção honrosa para o excelente Jah-Van - Djavan Goes Jamaica, produção de BiD e Fernando Nunes que pegou parte do cancioneiro de Djavan e injetou reggaes, skas e dubs com auxílio de figuras como Criolo, Fernanda Abreu, Arnaldo Antunes, Rincon Sapiência, Zeca Baleiro, Black Alien, Ivete Sangalo e Seu Jorge.



da música popular brasileira ao pop propriamente dito é um pulo e aqui vale destacar o finíssimo pagodão eletrônico soul do baiano ÀTTØØXXÁ em Luvbox, o pancadão veloz do Heavy Baile em Carne de Pescoço e as diversas faces do pop brasileiro de Iza em Dona de Mim e Pabblo Vittar em Não Para Não (que mesmo mais estudado e menos espontâneo que o anterior, Vai Passar Mal, é bem acima da média).



chegando ao fim dos destaques, é a hora dos instrumentais. 2018 trouxe mais um disco potente do grupo paulistano Bixiga 70 em Quebra Cabeça, o retorno das experimentações dos pernambucanos d’A Banda de Joseph Tourton em A Banda de Joseph Tourton e a diversão multigênero do projeto The Universal Mauricio Orchestra, que reuniu pela primeira vez uma ruma de Mauricios (tem Mauricio Pereira e Mauricio Fleury, do Bixiga 70, e ainda Mauricio Badê, Mauricio Bussab, Mauricio Tagliari e Mauricio Takara).


fechando com chave de ouro os destaques da lista, dois discos “infantis” muito especiais: Guitarrada para Bebês, uma produção do guitarrista Félix Robatto (La Pupuña e Gaby Amarantos) que refaz hits paraenses em tom doce de caixa de música, e Iaiá e Os Erês, no qual Iara Rennó cria todo um mundo mágico com influências negras e indígenas, participações de Moreno Veloso, Andreia Dias e Luz Marina, e canções feitas em parcerias com crianças.



segue então a lista completa e em ordem alfabética com links para os discos inteiros no Spotify ou YouTube.

A Banda de Joseph Tourton - A Banda de Joseph Tourton
A Banda dos Corações Partidos - Desamor
Alice Caymmi - Alice
André Abujamra - Omindá
Anelis Assumpção - Taurina
Arnaldo Antunes - RSTUVXZ
ÀTTØØXXÁ - Luvbox
Baco Exu do Blues - Bluesman
Bixiga 70 - Quebra Cabeça
BK' - Gigantes
Cacá Machado - Sibilina
Caetano, Moreno, Zeca e Tom Veloso - Ofertório [Ao Vivo]
Café Preto - Oferenda
Carne Doce - Tônus
Cordel do Fogo Encantado - Viagem ao Coração do Sol
Daniel Groove - Levante
Diomedes Chinaski - Comunista Rico
Drik Barbosa - Espelho
Duda Beat - Sinto Muito
Edgar - Ultrassom
Elza Soares - Deus é Mulher
Erasmo Carlos - Amor é Isso
Félix Robatto - Guitarrada para Bebês
Gal Costa - A Pele do Futuro
Gilberto Gil - OKOKOK
Gui Amabis - Miopia
Heavy Baile - Carne de Pescoço
Iara Rennó - Iaiá e Os Erês
Illy - Vôo Longe
Inquérito - Tungstênio
Juliano Gauche - Afastamento
Karol Conká - Ambulante           
Kassin - Relax
Laura Lavieri - Desastre Solar
Luiza Lian - Azul Moderno
Mahmundi - Para Dias Ruins
Marcelo Cabral - Motor
Maria Beraldo - Cavala
Mauricio Pereira - Outono no Sudeste
Mestre Anderson Miguel - Sonorosa
Mundo Livre SA - Dança dos Não Famosos
Pabblo Vittar - Não Para Não
Quartabê - Lição #2: Dorival
Raphão Alaafin - A Gosto
Rodrigo Campos - 9 Sambas
Romulo Fróes - O Disco das Horas
Saulo Duarte - Avante Delírio
SDDS - SDDS
Silva - Brasileiro
Solveris - Vida Clássica
Tatá Aeroplano - Alma de Gato
The Universal Mauricio Orchestra - The Universal Mauricio Orchestra
Totonho e os Cabra - Samba Luzia Gorda
Verônica Ferriani - Aquário
Wado - Precariado

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

50 discos brasileiros de 2014 [e mais 25]

estamos aí no segundo capítulo da retrospectiva musical deste ano. já publiquei aqui a lista com 50 músicas brasileiras e agora é a vez dos discos. são 50 com uma lista bônus de outros 25. coisa pra diabo, eu sei, mas é só um pedacinho dos sons que chegaram a mim. dessa ruma alguns merecem destaque, pois me pegaram mais de um jeito ou outro. é mais ou menos assim...


pedra de sal - EP que é o primeiro de uma trilogia  - chegou agora no final e me derrubou rapidamente. é trabalho de várias belezas e muitas inquietações, alguma dramáticas, e mais um encontro forte de pernambuco [alessandra leão e rodrigo caçapa] e são paulo [kiko dinucci e guilherme kastrup]. e alessandra detona muito [“pedra de sal”, porra, o que é “pedra de sal”?!]. já o que vim fazer aqui é disco novo da alzira, o que me ganha de cara porque ela é uma das minhas cantoras/intérpretes/autoras preferidas de todos os tempos. daí que nesse disco ela canta só itamar assumpção, algumas inéditas, e com uma banda ótima. não é só impossível dar errado como ainda por cima dá muito certo. falando em itamar, o segundo disco de sua filha anelis assumpção, anelis e os amigos imaginários, é diversão do começo ao fim, é adulto e pop, é urbano e leve. anelis tá fazendo um carreira muito massa.


convoque seu buda, o disco de criolo após nó na orelha, corria muitos riscos comparativos e saiu-se muito bem. não tem o ineditismo da reinvenção do rapper e do encontro com Daniel ganjaman, mas tem alguns novos caminhos próprios e justas coerências, além de várias grandes canções. ainda na seara do rap, cruz do elo da corrente é mais uma prova da maturidade do gênero. ousado musicalmente, brasileiro e paulistano na medula, extremamente bem produzido, cruz é uma bela duma pancada. igualmente impactante, goma-laca é o disco do projeto de biancamaria binazzi e ronaldo evangelista com músicas afro-brasileiras gravadas entre as décadas de 1920 e 1950 e rearranjadas por letieres leite. e tudo fica ainda melhor com a escolha acertadíssima dos(as) intérpretes que, não coincidentemente, estão nessa lista também com seus excelentes trabalhos solo [juçara marçal, russo passapusso e lucas santtana – e tem ainda karina buhr, mas que não lançou disco novo esse ano].


chegamos então a juçara marçal e seu encarnado. uma das mais discretas e poderosas cantoras brasileiras, juçara fez de sua estreia solo um aperfeiçoamento natural do trabalho quem tem feito no metá metá: tradições afro-brasileiras sendo rasgadas por guitarras, por uma interpretação segura e pelo presente musical brasileiro. disco impressionante de uma artista idem. coisa boa é também a estreia solo oficial de moreno veloso, após a trilogia que fez com os amigos domenico e kassin, e é seu trabalho mais doce, mais bonito. já o novo nação zumbi pode não ter a pancadaria de outrora, mas os pernambucanos seguem criando músicas ótimas, honrando e muito as duas décadas do mangue beat/bit.


e o racionais mcs? após mais de uma década sem um cd de inéditas, o quarteto lançou cores e valores, um disco-conceito lotado de referências e histórias, um tantinho frustrante pela curta duração, mas as vozes e posturas dos caras continua muito impressionante. com 25 anos de estrada, o racionais é, sem sombra de dúvida, uma das coisas mais importantes da história da música popular brasileira.


finalizando os destaques, dois baianos. russo passapusso, vocalista do baiana system, lançou seu primeiro solo, o lindo paraíso da miragem, que tem reggae, ragga, balanço e muito o que falar e mostrar. o veterano na inquietude tom zé veio com vira lata na via láctea, seu melhor disco em tempos, principalmente porque seus arranjos diferentes, formações instrumentais variadas , e muitas participações interessantes [de criolo a filarmônica de pasárgada, de milton nascimento a kiko dinucci, de caetano veloso a o terno]. e, claro, um leque e tanto de ótimas músicas.

peraí, peraí... últimos destaques. juro! como disse na lista de músicas, continua rolando muito rap bom pra cacete. racionais, criolo e elo da corrente não me deixam mentir. mas vale ressaltar que tem ainda, nessa lista de 50, amiri, rincon sapiência, lurdez da luz, haikaiss e zulumbi aqui de são paulo, o pessoal do r93 de volta redonda e os gaúchos tuty e orquestra celestial do livre arbítrio. 

bom também quando somos pegos no contrapé. foi muito bom ser surpreendido pelos excelentes discos de adriano cintra [animal], alice caymmi [rainha dos raios], celso sim [tremor essencial], ian ramil [ian] e márcia castro [das coisas que surgem], além da descoberta do niteroiense salgueirinho e seu animalia, um disco eletrônico-instrumental bacaníssimo.

segue então, finalmente, a lista com 50 discos brasileiros deste ano segundo o gosto da casa, tudo devidamente linkado para ouví-los na íntegra [e ocasionalmente baixá-los]:

adriano cintra - animal
alessandra leão - pedra de sal EP
alice caymmi - rainha dos raios
amiri - antes, depois
anelis assumpção - anelis e os amigos imaginários
banda do mar - banda do mar
barbara eugênia & chankas - aurora
celso sim - tremor essencial
china - telemática
elo da corrente - cruz
estrelinski e os paulera - leminskanções
fábio trummer - trummer super sub america
filarmônica de pasárgada - rádio lixão
fino coletivo - massagueira
gilberto gil - gilbertos samba
gustavo galo - asa
ian ramil - ian
isaar - todo calor
juçara marçal - encarnado
lucas santtana - sobre noites e dias
lurdez da luz - gana pelo bang
m.takara - puro osso
márcia castro - das coisas que surgem
maurício pereira - pra onde eu que tava indo
mombojó - alexandre
moreno veloso - coisa boa
nação zumbi - nação zumbi
nina becker - minha dolores
o terno - o terno
orquestra celestial do livre arbítrio - o.c.l.a.
racionais mcs - cores e valores
rincon sapiência - sp gueto br EP
romulo fróes - barulho feio
rubinho jacobina - andando no ar
russo passapusso - paraíso da miragem
sacassaia - boca da terra
salgueirinho - animalia
saulo duarte e a unidade - quente
silva - vista pro mar
superlage - superlage
tatá aeroplano - na loucura e na lucidez
zulumbi - zulumbi

e aqui uma lista bônus com outros 25 trabalhos bem bons e que também deixaram suas marcas por aqui:

a banda dos corações partidos - a banda dos corações partidos
a fase rosa - leveza
afroelectro - mocambo EP
ceumar - silencia
de leve - estalactite EP
esdras nogueira - capivara
giancarlo rufatto - cancioneiro
graveola - dois e meio
holger - holger
inquérito - corpo e alma
jaloo - insight EP
judas - nonada
lamber vision - lamber vision
léo cavalcanti - despertador
naná rizinni - lá na naná
nego e - autorretrato
os the darma lóvers - espaço
pipo pegoraro - mergulhar mergulhei
rashid & kamau - seis sons EP
tássia reis - tássia reis EP

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

50 músicas brasileiras de 2014

virou rotina pessoal reclamar de mim mesmo pela cada vez maior dificuldade de fechar listas certeiras com as melhores músicas [ou discos] do ano. uma das razões é que é, de longe, o “produto” que mais consumo em qualidade e quantidade, e como tem muita música boa sendo lançada, vou fazer o quê?! quero mais é mostrar a variedade do que é produzido e do que ouço. então, sem mais desculpas, começo a retrospectiva musical de 2014 com as 50 melhores músicas brasileiras conforme o gosto e os limites da casa [tem, por exemplo, discos que não emplacaram música e vice-versa].


nesse ano resolvi agrupar em “gêneros”, ou em blocos, como preferirem [e aí sim as músicas estarão em ordem alfabética]. e começo com o rap, que é o que mais tenho ouvido nos últimos anos e o que mais tem empurrado a música popular brasileira pra frente. neste bloco estão duas das melhores músicas do ano, “plano de vôo” e “sobre o infinito e outras coisas”.

mais atentos(as) notarão a ausência dos racionais mcs, mas é que, pra mim pelo menos, o poderoso disco deles é mais um conceito que um conjunto de canções [e, portanto, estará na lista dos melhores discos]. quase todo rap da lista é de são paulo, mas tem porto alegre ali, curitiba acolá, são josé dos campos também, e por aí vai. ah, os blocos estão agrupados em playlists e quando tiver link na música é porque não achei no youtube.

“a marvada”, tuty [com rodrigo ogi]
“antônimos e sinônimos”, rocha
“até o fim sampa”, projetonave [com emicida]
“beijinho”, lurdez da luz
“cypher”, amiri [com léo supremacya e napalm]
“desse jeito”, mercúrias
“essa é pra você”, zulumbi
“neguim di kebra parte 2”, rincon sapiência
“plano de vôo”, criolo [com síntese]
por onde a fonte brota”, orquestra celestial do livre arbítrio
“r & k”, rashid & kamau
“sobre o infinito e outras coisas”, elo da corrente


e tome mais periferia com pancadões e rasteirinhas. nada de funk ostentação, que isso é coisa do passado e tava na cara que o fôlego era curto. mas tem sacanagem e duplo sentido sim, e tem usos muito novos e divertidos da música eletrônica. “patrão”, “passinho do romano” e “perereca suicida” são os destaques.

“patrão”, omulu
“dom dom dom”, mc pedrinho & mc livinho
“na casa do seu zé”, mc britney
“nega bass”, joão brasil
“passinho do romano”, mc dadinho
“perereca suicida”, mc japa


e a mpb? o que fazer com a mpb? ela ainda existe? essa coisa faz sentido? os dois próximos blocos foram divididos por mera formalidade e não existem medalhões da “chamada mpb” em nenhum. quer dizer, nesse tem tom zé, mas tom zé é sempre inquieto e seu cânone é muito pessoal e sempre foge do esperado. seu disco, aliás, é um daqueles difíceis de escolher apenas uma música [mesmo caso de juçara marçal, russo passapusso, anelis assumpção e moreno veloso]. desse bloco, os destaques são “pedra de sal” e “queimando a língua”, coisas lindas e fortes. ah, essa lista mpbística acabou gerando uma mixtape a pedido do hominis canidae/altnewspaper.

“asa”, gustavo galo [com ava rocha]
“casa vazia”, isaar
“filho de santa maria”, estrelinski e os paulera
“inconcluso”, anelis assumpção
meio dia”, filarmônica de pasárgada
“na menina dos meus olhos”, márcia castro [com mayra andrade]
“não acorde o neném”, moreno veloso
“partículas de amor”, lucas santtana
pedra de sal”, alessandra leão
“queimando a língua”, juçara marçal
retrato na praça da sé”, tom zé [com kiko dinucci]
“rosália”, pipo pegoraro
“sem sol”, russo passapusso [com anelis assumpção]
“tupitech”, celso sim
“vozes invisíveis”, graveola


o último bloco é mais rock, mais pop, mais um lance mpb esquema novo, ou não, já que tem carlinhos brown, guilherme arantes, uma instrumental eletrônica e canção com letra em inglês... enfim, tudo uma grande e brasileiríssima confusão. destaques desse bloco vão para “não vai dominar”, “descompasso” e “mais ninguém”.

“bote ao contrário”, o terno
climb the stairs”, barbara eugênia & chankas
“como é que a gente se ajeita”, fino coletivo
“descompasso”, fábio trummer
feio”, naná rizinni
lobo”, salgueirinho
“mais ninguém”, banda do mar
“não vai dominar”, adriano cintra [com guilherme arantes]
“novas auroras”, nação zumbi
o teu calor”, superlage
“onde somos um”, tatá aeroplano [com barbara eugênia]
“padê digital”, sacassaia
trapaça”, holger
“vc, o amor e eu”, carlinhos brown [com quésia luz]
“vou vagar meu bem”, galego
“zonzon”, saulo duarte e a unidade

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

os 25 discos brasileiros de 2011 + bônus

agora chegamos ao brasil, tudo muito mais próximo, mais quente, etc. e tal. sinceramente achei que foi um ano bem bom por essas bandas, infinitamente superior ao ano dos estrangeiros: muita surpresa, vários discos bons de cabo a rabo, variadão de verdade. foi difícil, bati cabeça, mas aqui estão os 25 principais lançamentos brasileiros segundo a gerência.

academia da berlindaolindance (independente)
anelissou suspeita estou sujeita não sou santa (scubidu records)
arthur de faria e seu conjuntomúsica para ouvir sentado (casa de francisca/natura)
bambas 2 (soul city/natura/universal)
bixiga 70 (traquitana discos)
caçapaelefantes na rua nova (garganta records)
criolonó na orelha (matilha cultural)
felipe cordeirokitsch pop cult (independente)
domenicocine privê (coqueiro verde)
gal costarecanto (universal)
gui amabismemórias luso-africanas (independente)
karina buhrlonge de onde (coqueiro verde)
kassinsonhando devagar (coqueiro verde)
kiko dinucci, juçara marçal e thiago françametá metá (desmonta/circus produções)
leandro lehartensaio de escola de samba (independente)
lirinhalira (independente)
marcelo camelotoque dela (universal)
momoserenade of a sailor (pimba/tratore)
pélicoque isso fique entre nós (yb music)
rodrigo ogicrônicas da cidade cinza (independente)
romulo fróes, kiko dinucci, marcelo cabral e rodrigo campospasso torto (yb music/phonobase)
são paulo undergroundtrês cabeças loucuras (submarine records)
seu jorgemúsicas para churrasco vol. 1 (cafuné/universal)
wadosamba 808 (independente)
zé miguel wisnikindivisível (circus produções)

e aí? algum destaque? eu poderia facilmente eleger o nó na orelha do criolo como o disco do ano, afinal foi a grande história musical de 2011 (muita música boa, grandes arranjos, intérprete da pesada e por aí vai), mas resolvi destacar os discos que emplacaram mais músicas na minha memória afetiva: sou suspeita estou sujeita não sou santa, bambas 2, nó na orelha, lira, serenade of a sailor e samba 808.
claro que a história não acaba aí (como visto na lista gringa) e agora seguem outros 15 discos que também merecem (e muito) ser ouvidos.

adriana calcanhottoo micróbio do samba (sony music)
autoramasmúsica crocante (coqueiro verde)
chinamoto contínuo (joinha records/trama virtual)
cida moreiraa dama indigna (jóia moderna)
eddieveraneio (pogo tropical/soul city)
emicidadoozicabraba e a revolução silenciosa (independente)
emiliano castrokanimambo (independente)
mallu magalhãespitanga (agência de música/sony music)
marginals (independente)
marisa monteo que você quer saber de verdade (phonomotor/emi)
me & the plantthe romantic journeys of pollem (independente)
mundo livre s/aas novas lendas da etnia toshi babaa (coqueiro verde)
romulo fróesum labirinto em cada pé (yb music)
savaveversão extendida (independente)
slim rimografia & thiago beatsmais que existir (independente)

não é de hoje que as grandes gravadoras deixaram de frequentar listas como essa de melhores do ano. além de escolherem quase unicamente a saída do mercado, as majors tem lançado cada vez menos, o que deixa espaço livre, escancarado, a novos jeitos de tratar música. já faz um tempinho que os independentes são maioria nas minhas listas, mas de qualquer forma foi surpreendente olhar na lista e ver vários títulos de dois selos “pequenos”: o carioca coqueiro verde e o paulistano yb music. ambos emplacaram discos em todas as categorias, tanto na dos 25 principais, quanto na dos outros 15 e na lista-monstro que agora segue.

agridoce (vigilante/deckdisc); apanhador só (acústico-sucateiro, independente); ava (diurno, warner); azymuth (aurora, far out recordings); blubell (eu sou do tempo em que a gente se telefonava, yb music); bonifrate (um futuro inteiro, independente); caldo de piaba (volume 3, independente); camarones orquestra guitarrística (espionagem industrial, independente); celso fonseca & ronaldo bastos (liebe paradiso, dubas); che (papagaio's fever, somzera/yb music); chico buarque (chico, biscoito fino); chimpanzé clube trio (tudo veio do nada, independente); cícero (músicas de apartamento, independente); copacabana club (tropical splash, st2 records); css (la liberación, v2/universal); daniel peixoto (mastigando humanos, fora do eixo discos); doncesão (bem vindo ao circo, independente); douglas germano (orí, bac discos); eletrofan (day sky/night sky, el sonora/mutant records); elo da corrente (o sonho dourado da família, independente); erasmo carlos (sexo, coqueiro verde); eta carinae (novos sons e tradições mudernizadas, independente); fabio goés (o destino vestido de noiva, phonobase); faria & mori (outro lugar, reco-head records); flávio renegado (minha tribo é o mundo, independente); funk como le gusta (a cura pelo som, radar records); hamilton de holanda & andre mehmari (gismontipascoal, brasilianos); ivor lancellotti (em boas e más companhias, dubas música), jards macalé (jards, biscoito fino); júlia says (violência, independente); junio barreto (setembro, independente); léo cavalcanti (religar, traquitana discos/yb music); literalmente loucas – elas cantam marina lima (jóia moderna); los porongas (o segundo depois do silêncio, baritone records); macaco bong (verdão e verdinho EP, independente); mariana aydar (cavaleiro selvagem aqui te sigo, universal); marina lima (clímax, liberta records); mopho (volume 3, pisces records); naná rizzini (i said, independente); nevilton (de verdade, sombrero/fora do eixo discos); nuda (amarénenhuma, independente); panorama do choro paulistano contemporâneo (pôr do som/atração); pedro luís (tempo de menino, mp,b/universal); pio lobato (café 2, lado p); pipo pegoraro (táxi imã, yb music); projota (não há Lugar melhor no mundo que o nosso lugar, independente); rael da rima (música popular do 3º mundo, trama virtual); rafael castro (rc canta rc EP, traquitana discos); rashid (dádiva e dívida, independente); rubinho troll (stinkin like a brazilian, independente); silva (silva EP, independente); silvério pessoa (no grau, independente); sobrado 112 (sobrado 112 no país da skapolca, oi música); tibério azul (bandarra, joinha records); tiê (a coruja e o coração, warner); tonho crocco (o lado brilhante da lua, momo king records); vanguart (boa parte de mim vai embora, vigilante/deckdisc); xará (além da razão, independente).

alguns adendos se fazem necessários. dessa ruma, dez discos só não entraram nas listas principais porque a concorrência foi pesada (não coincidentemente todos emplacaram músicas entre as melhores como será lido/ouvido na próxima lista). são eles chimpanzé clube trio (tudo veio do nada), cícero (músicas de apartamento), css (la liberación), douglas germano (orí), junio barreto (setembro), pio lobato (café 2), literalmente loucas – elas cantam marina lima, mariana aydar (cavaleiro selvagem aqui te sigo), sobrado 112 (sobrado 112 no país da skapolca) e vanguart (boa parte de mim vai embora).

três discos/artistas foram decepções semi profundas para o que sempre espero deles: o chico de chico buarque (careta, sei lá, não quero falar nisso), o sexo de erasmo carlos (achei o anterior, rock’n’roll, tão mais intenso) e o jards de jards macalé (alguém pode fazê-lo parar de regravar as mesmas de sempre? se ele não fosse tão genial até nas repetições e eu tão fã...)

também me “decepcionei” – assim entre aspas mesmo porque gostei de todos os discos nessa lista, afinal os ruins e os não ouvidos estão em algum outro lugar - com outros três, mas pelas expectativas criadas nos ótimos trabalhos anteriores, os de estréia. esperei mais de blubell (eu sou do tempo em que a gente se telefonava), fabio goés (o destino vestido de noiva) e tiê (a coruja e o coração), mas aí é coisa minha. de qualquer forma listas são aquela coisa: um dia antes ou um dia depois e a ordem das coisas poderia muito bem ser outra.

p.s. 1: não fiz uma seleção de dvds musicais, mas não poderia encerrar esse post sem citar o excelente caixa de ódio – o universo de lupicínio rodrigues (casa de francisca/canal brasil), registro inspirado de shows de arrigo barnabé entortando à la tom waits as músicas de fossa do grande compositor gaúcho.
p.s. 2: também não poderia deixar de mencionar o grande programa musical televisivo de 2011, o grêmio recreativo (apesar que o som brasil da tv globo continua aprontando algumas ótimas surpresas como gaby amarantos na homenagem a zezé di camargo & luciano). mas nesse grêmio comandado por arnaldo antunes aconteceram grandes encontros, misturas inusitadas, novos e velhos hits, tudo muito bem filmado. a lista dos convidados dos dez episódios da primeira temporada é gigante e afiadíssima, mas separei um dos muitos pontos altos do programa. afinal, foi nele que conheci a maviosa "dia a dia, lado a lado", com marcelo jeneci, tulipa ruiz e grande elenco.