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terça-feira, 9 de abril de 2013

mexidão #03

publiquei o terceiro mexidão sobre as declarações homofóbicas de joelma na terça passada e na quarta de manhã surgiu a "bomba" da saída de armário da daniela mercury. não inviabilizou o texto, claro, mas ele teria ficado melhor com a história da daniela. seria um interessante molho a mais. o pedro alexandre sanches acabou aproveitando a deixa e fez o belo "o canto trovejante de daniela mercury". 



JOELMA CALADA É UMA POETA

Para quem conhece Joelma, a voz da Banda Calypso, não foi uma surpresa a entrevista que deu ao jornalista Bruno Astuto da revista Época. Entre um assunto e outro, a cantora afirmou que se tivesse um filho gay “lutaria até a morte para fazer sua conversão”. Não contente em falar na tal “cura” ainda fez uma comparação tão absurda que até Deus deve ter ruborizado. “Já vi muitos se regenerarem. Conheço muitas mães que sofrem por terem filhos gays. É como um drogado tentando se recuperar”.

Mas é isso, não foi uma surpresa porque Joelma é reincidente no assunto preconceito. Em agosto do ano passado, um vídeo amador flagrou a cantora conversando com um fã gay e soltando pérolas como “[Você] vai se converter, vai virar homem, vai casar, ter filhos, vai dar muita alegria para o seu pai e sua mãe”. O fã ainda dá um belo troco – “Eu já dou, do jeito que sou” -, mas Joelma não quer nem saber.

Agora, diante da explosiva (e, felizmente, negativa) repercussão de suas palavras no final de semana , Joelma soltou um comunicado oficial com a velha desculpa que foi mal interpretada, que suas palavras foram distorcidas, aquela coisa toda. Até poderia ser verdade, pois existem jornalistas que são tão canalhas quanto ela é preconceituosa, mas esse vídeo do ano passado e suas declarações posteriores (“Conviver com o erro da pessoa é uma coisa, mas incentivar o erro é errado” ou “Falei em cura porque diversos fãs já me disseram que se livraram do homossexualismo”) confirmam que é isso mesmo que ela pensa. No domingo, em meio ao fogo cruzado, ela até retuitou um fã que disse o seguinte: “Tô contigo na sua opinião sobre os gays. Também acho que ser gay é fogo no cu. Homem nasce pra ser homem e mulher pra ser mulher.” Para bom entendedor...

menos, muito menos joelma

E a liberdade de expressão (gritam seus fãs)? Bem, ela tem todo o direito de falar o que quer, mas também precisa arcar com as consequências de seus atos e falas. Isso é uma democracia. Ninguém é obrigado a aceitar ou gostar de homossexuais ou pitboys ou comediantes de stand up, mas é preciso respeitá-los. Os evangélicos e católicos não são obrigados a aceitar o casamento igualitário (civil), mas nosso Estado é laico e nenhuma religião tem o direito de se meter nesse assunto. É isso que pessoas nocivas como os deputados Marco Feliciano e Jair Bolsonaro não conseguem colocar em suas cabecinhas.

Pode ser que agora esteja acontecendo uma nova onda conservadora (eu acho que é a mesma de sempre, só mais organizada e com microfone na mão, graças a uma imprensa que vive de “polêmicas”), mas também existe uma reação progressista. O médico da família brasileira, Dr. Dráuzio Varella, disse em artigo que “mais antiga do que a roda, a homossexualidade é tão legítima e inevitável quanto a heterossexualidade. Reprimi-la é ato de violência que deve ser punido de forma exemplar, como alguns países fazem com o racismo”. Entendeu Joelma ou quer que Camilla Uckers explique?

sexta-feira, 5 de abril de 2013

mexidão #02

quase pegando o ritmo do mexidão. depois de pepe mujica e deste papa francisco, já rolaram joelma e distribuição de drogas no centro de são paulo. todos muito "polêmicos" e com recordes pessoais de curtidas no facebook e comentário malucos. vamoquevamo.

"o novo papa é tão humilde que faz a brincadeira do 'puxa meu dedo?' com os brothers e solta pum"

FRANCISCO I, SEU HUMILDÃO

Jorge Mario Bergoglio caiu dos céus para a Igreja Católica. Claro que por aqui alguns ficaram chateados com a escolha de um papa argentino, com destaque para o pessoal do Jornal Nacional e da Globo News, que parece que já tinham até gravado uma vinheta com o Galvão Bueno gritando “É Papaaa! É Papaaa!”. Paciência. A verdade é que Bergoglio, ou melhor Francisco I, atendeu as preces de uma igreja enfraquecida por décadas de afastamento de seus fieis. Qual o segredo? Seu estilo.

“O principal a se entender sobre Francisco I é que ele é um conservador populista, ao mesmo estilo de João Paulo II. É um homem de posições conservadoras fortes em questões de doutrina, mas com um toque popular. Prega em estações de trem, nas ruas. Vai até os bairros pobres para rezar. Não espera as pessoas irem até a igreja, vai até elas. Mas a mensagem é absolutamente conservadora. Ele opôs-se ao aborto, à lei do casamento homoafetivo”, explicou o jornalista argentino Horácio Verbitsky em entrevista ao Democracy Now.

Diretamente do Vaticano, Ilze Scamparini adora muito tudo isso e tem arrepios de prazer ao falar que o crucifixo de Francisco I é de aço e não de ouro, que usa transporte público, que recebeu uma camisa do seu time de futebol do coração (San Lorenzo) e que decidiu ficar nos aposentos simples da Casa Santa Marta e não no luxuoso apartamento papal. E dá voltas e volta sobre acusações que o atual papa denunciou colegas jesuítas que acabaram sendo sequestrados e torturados pela ditadura argentina.

"o novo papa é tão humilde que fez uma sessão de flexões depois de comer sozinho um ovo de 500g da cacau show"

Em sua primeira Missa do Crisma, Francisco I afirmou que a Igreja Católica e seus fieis precisam de “pastores com cheiro de ovelha”. Impossível prever se todo esse esforço trará novos frutos católicos nessa batalha de fés, mas certamente é melhor (ou menos pior) um papa que sorri que o outro que quando sorria parecia prestes a ordenar “Fogo!” a um pelotão de fuzilamento.

De qualquer forma, seu conservadorismo era esperado e foi um recado claro para a Argentina que aprovou leis descriminalizando o aborto e legalizando o casamento igualitário (sem falar que nossos vizinhos punem exemplarmente, diferente de nós, os cabeças de sua sangrenta ditadura). Tarde demais, Vaticano! O Estado é laico e por mais que prendam respiração e obstruam votações, a carroça da nossa civilização anda pra frente.

Humilde ou não, a figura do Papa se tornou peça de museu ou um Rei Momo que faz muito barulho por nada. E o Brasil, o país da internet moleque, criou o tumblr Papa Humildão para brincar com essa humildade que é mais fachada que qualquer outra coisa.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

a igreja católica por dentro

prepare-se para saber toda a verdade em 3, 2, 1...



e para quem não conhece este é louis c.k., gênio. fiquei sabendo desta versão legendada hoje via um monte de gente.

sábado, 15 de outubro de 2011

yahoo #16

lá no novo ultrapop já tem texto novo, é o "miss de tudo um pouco", que trata de concursos de beleza um tanto mambembes e seus bafos ultramarinos. e aqui segue o anterior, "ajoelhou tem que dançar", que fiz durante as férias (talvez por isso tenha sido o menor dos textos que já fiz pra coluna). a turma maluca dos comentários até me deu um descanso, muita gente gostou do video da pastora ana lúcia, mas não deixei de ser acusado de fazer "críticas" aos evangélicos (não sei onde viram isso, paciência). só fiz uma pequena correção na versão do texto aqui para o esforçado: pela informação na página do youtube achei que a igreja fosse em madureira (zona norte carioca), mas na verdade é na estrada de madureira que fica em nova iguaçu (baixada fluminense). no mais, agradecimentos ao trabalho sujo de alexandre matias que postou esse video e me salvou no último momento (iria escrever sobre a claudia leitte no rock in rio e foi ótimo não tê-lo feito porque o pedro alexandre sanches mandou muito bem no seu "claudia leitte e os arianos").


AJOELHOU TEM QUE DANÇAR

Música e religião sempre andaram juntas, rostinho colado, desde que o mundo é mundo. Para entrar em transe, elevar o espírito, entrar em contato com algo supremo ou passar uma mensagem, de amor ou fé. Não sou um estudioso do assunto, mas acredito que em todas as religiões criadas pela humanidade a música seja um dos componentes mais importantes e presentes.

Estava eu de férias batendo perna pelo Velho Mundo, mais precisamente Viena, quando entro na Igreja de São Pedro (1733) e me deparo com uma combinação rebuscada de arquitetura barroca e um dos órgãos mais antigos da cidade soltando melodias de Johann Sebastian Bach pelos quatro ventos. Coisa mais linda do mundo, podem pensar alguns, mas eu particularmente não me emociono com música clássica e por isso acabo achando a atmosfera um tanto opressora, intimidante.

De volta ao hotel, poucas horas depois, entro na internet para checar emails e começar a escrever essa coluna e me deparo com um vídeo que consegue, em pouco mais de 8 minutos, fazer com que cantos gregorianos pareçam ranger de portas. Com vocês, Ana Lúcia, pastora e cantora de alguma pequena igreja evangélica na baixada fluminense.



Nunca entendi o temor a Deus em suas diversas manifestações: o peso da culpa judaico-cristã, a sisudez muçulmana e a caretice evangélica, por exemplo. E não é por ser ateu (ai Jesus, polêmica à vista?) que acho isso e sim porque acredito que a espiritualidade deveria ser uma declaração de amor à vida. E amor é alegria, compreensão, respeito, suor e calor.

Foi uma surpresa e tanto – e uma ótima surpresa – ver essa igreja evangélica pegando fogo ao som de um samba reggae acelerado cuja intensidade e os batuques são profundamente devedores ao candomblé. E o pessoal girando e girando como elevados dervixes turcos. Sem falar em Ana Lúcia, uma mistura rascante de Tim Maia e Mr. Catra. Quer dizer, é o famoso samba do crente doido e pra mim isso tudo faz muito sentido.

Gosto desse Deus que dança e gosto ainda mais que ele seja negro e brasileiro.

terça-feira, 19 de julho de 2011

é verdade, podiscrê

via fuck yeah dementia. só podia.

p.s.: e acabei colocando essa imagem no blog só de birra, afinal o censurador bunda mole do facebook não permitiu (disse que era conteúdo previamente sinalizado como abusivo ou algo assim).

sexta-feira, 8 de julho de 2011

yahoo #09

te falar que o corpus christi me fodeu. fiz um texto todo pensado nesse momento em que certas instituições religiosas querem impor uma verdade absoluta, mas o feriado acabou esvaziando o potencial polêmico do meu nono texto para a coluna ultra pop. poucos comentários, quase nenhum xingamento. confesso que senti uma frustração, escrevi querendo sangue... mas bola pra frente e o ultra pop #10 já está no ar ("cê tá rindo do quê?").

JESUS NÃO TEM DENTES NO PAÍS DOS BANGUELAS

Na coluna que escrevi sobre A Banda Mais Bonita da Cidade coloquei um vídeo-paródia que misturava as imagens do clipe da “Oração” com a música “Bonde da Orgia de Travecos”, dos mineiros da UDR, provavelmente um dos trabalhos musicais mais dementes e escrachados da história mundial. Em seus poucos anos de vida durante os anos 2000 – a dupla encerrou atividades em 2008 -, a UDR queria mesmo era incomodar. Muito. Tanto que em “Bonde de Jesus” misturava o Redentor com orgias, drogas, satanismo, violência e o que mais viesse pela frente ou por trás.

Mas ao contrário dos Rafinhas Bastos e Danilos Gentilis da vida, que usam o politicamente incorreto como desculpa para serem preconceituosos, a UDR incomodava até os preconceituosos com seu underground exageradão, hiperbólico até a medula.

Nos dias de hoje, quando grupos religiosos (evangélicos e católicos) se multiplicam no Congresso Nacional com a intenção de ditar o que os outros devem pensar ou fazer, artistas como a UDR são cada vez mais necessários. Respeito muito todas as religiões. Algumas das mais belas obras do mundo foram criadas por causa de Deus. Mas também é verdade que coisas terríveis, mortes e guerras, foram feitas em Seu nome. Por essas e outras não é mais possível aceitar que em pleno século 21, em um Estado laico como o Brasil, grupos religiosos se comportem dessa maneira.

Imaginem vocês ateus organizados e com muita raiva no coração exigindo a demolição de igrejas e a obrigatoriedade das pessoas exercitarem sua fé apenas dentro de casa. Tão violento e sem sentido quanto isso são figuras como o Pastor Silas Malafaia e os deputados Marcos Feliciano (PSC-SP) e João Campos (PSDB-GO), além de uma instituição como a CNBB, virem a público contra direitos civis básicos como a união homoafetiva (entre outros muitos assuntos que não lhes dizem respeito como aborto e drogas porque, repetindo, o Brasil é laico). Se por seus dogmas uma igreja não quer aceitar casais homossexuais, tudo bem, estão no seu direito, mas não venham querer obrigar que toda uma sociedade faça o mesmo (afinal, existem pessoas que acreditam em outras coisas).



Porém, vamos ilustrar essa monstruosidade com uma comparação bastante simples, bem pragmática. Por um lado, os impostos retirados de cidadãos e cidadãs homossexuais ajudam a pagar o salário de congressistas, entre outras coisas. Por outro, igrejas que pregam o preconceito e a intolerância contra eles não pagam impostos. Como pode uma coisa dessas? Isso é um mundo justo?

Então, amiguinhos e amiguinhas, é chegada a hora de dar o troco. Se pessoas religiosas como os citados – e não estou colocando todo mundo no mesmo balaio, até porque Jesus é um ótimo exemplo de compreensão e humanismo – não aceitam a democracia por bem terá que ser, ironia das ironias, por mal! Em um texto sobre a violenta repressão a marcha da maconha em São Paulo escrevi que “viver numa sociedade democrática requer eterno diálogo, é casamento de todos com todos pra vida toda”. E agora acrescento um “aceitando as diferenças”.

Não estou falando aqui de queimar igrejas, censurar pastores, nada disso. Não se paga intolerância com intolerância. Mas o humor, a crítica debochada, podem nos salvar desse absurdo (sem esquecer o ativismo político, claro). Um exemplo recente foi a criação do tumblr Fiscais do Fiofó que disponibiliza e comenta projetos de lei assustadores propostos pela Frente Parlamentar Evangélica. Outro exemplo na internet é o já clássico e divertidíssimo Jesus Manero. Porque, diferentemente desses fiscais da felicidade alheia, Jesus tem mais com o que se preocupar.