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terça-feira, 5 de agosto de 2025

dragão é um bicho voraz

na edição de julho da revista Monet saíram dois textos meus. um sobre a saga Karatê Kid e esse aqui, sobre Como Treinar Seu Dragão, filme que tenho certo carinho, pois a trilogia de animações foi uma das paixões da minha filha em dado momento da primeira infância. e assisti o atual live-action com ela no cinema. pro texto da Monet pesquisei muito sobre a autora dos livros que deram origem a esse universo, a inglesa Cressida Cowell, o que acabou virando o fio narrativo da coisa toda.

DRAGÕES: MODO DE USAR 

Depois de três longas de animações e algumas séries, Como Treinar Seu Dragão ganha carne, osso e computação gráfica em elogiada live-action

Era uma vez uma menina que cresceu passando as férias de verão com a família numa pequena ilha de uma casa só na costa da Escócia. Foi lá que ouviu do pai histórias de vikings que moraram lá mais de 1000 anos antes e de dragões que viviam em cavernas nos penhascos. Também foi lá que essa menina começou a escrever e desenhar suas próprias histórias de vikings e dragões. Tinha 9 ou 10 anos. Seu nome, Cressida Cowell, inglesa que mais tarde tornou-se escritora de livros infantis e infanto-juvenis, ocasionalmente também os ilustrando, até que, aos 37, lançou seu grande sucesso, Como Treinar Seu Dragão. 

Publicado em 2003, o livro apresentou ao mundo Soluço, um jovem viking hesitante em manter a tradição de seu povo em odiar e matar dragões. Principalmente após seu encontro com um dragão poderoso, temperamental e muito amigo, o Banguela. O livro foi um sucesso tão grande que Cressida Cowell expandiu o mundo de Soluço e Banguela por outras 11 publicações (a última, How to Fight a Dragon’s Fury, é de 2015). 

“Eu queria escrever uma história sobre um menino que estava com dificuldade para se ‘encaixar’ com os colegas e corresponder às expectativas do pai. Soluço tem onze anos no início do livro. Acho que é uma idade muito interessante, pois é quando uma criança começa a deixar a infância para trás e entra na adolescência. Nessa idade, as crianças começam a se perguntar que tipo de adulto serão. Soluço é muito diferente do pai, e isso é difícil para ele. As crianças muitas vezes pensam que ‘deveriam’ ser como os pais, e pode levar algum tempo para que percebam que não há problema em ser elas mesmas, em encontrar seu próprio jeito de fazer as coisas”, disse, em seu próprio site, a escritora que começou a escrever profissionalmente aos 33 anos, logo após ter a primeira filha (Maisie). Muitos livros vieram depois e mais dois filhos (Clementina e Alexander). 

ilustração de Cressida Cowell para a edição original de Como Treinar Seu Dragão (2003)

DAS PÁGINAS PARA AS TELONAS E TELINHAS 

No entanto, não muito tempo após seu lançamento, os direitos de adaptação do livro de vikings e dragões de Cressida foram comprados pela DreamWorks, a principal concorrente da Disney em termos de animação, e que em sua primeira década de existência criou três franquias de sucesso: Shrek, Madagascar e Kung Fu Panda. Para fazer do livro uma possível quarta franquia, a DreamWorks contratou Peter Hastings (que recentemente dirigiu Homem Cão), mas sua adaptação muito fiel ao livro mirava um público mais infantil, e o estúdio queria mais. Chamaram então Dean DeBlois e Chris Sanders, a dupla que criou, para a Disney, o bem sucedido Lilo & Stitch (2002), e lhes deu carta branca. 

O livro virou mais uma inspiração para o filme, um ponto de partida. E tudo bem para Cressida Cowell. “Não tenho palavras para descrever o quão emocionante é ver suas criações ganharem vida própria na tela grande. Isso é particularmente importante para mim porque é uma história muito pessoal – Stoico foi baseado no meu pai, e a ilha de Berk é um lugar real onde passei muito tempo na infância – então é profundamente gratificante que a história seja contada no filme com tanto coração e emoção, além de uma animação tão linda”, disse a escritora. 

Aliás, um dos grandes achados do primeiro Como Treinar Seu Dragão foi a consultoria de um diretor de fotografia de filmes “de verdade” para dar mais realismo e profundidade de luz e sombra para a animação. O responsável foi o mestre Roger Deakins, conhecido por seus trabalhos com os irmãos Coen, Sam Mendes e Denis Villeneuve. 

Outro grande achado foi o elenco de vozes: Jay Baruchel faz um Soluço frágil, criativo e bem humorado; Gerard Butler coloca seu vigor espartano no chefe Stoico; America Ferrera coloca pitadas de vigor latino na jovem guerreira Astrid; Craig Ferguson é um perfeito Gobber, o Bocão; além dos coadjuvantes Jonah Hill, Christopher Mintz-Plasse, Kristen Wiig, TJ Miller e David Tennant. 

“Foi incrível assistir ao processo de produção do primeiro filme. Levou sete anos para ser feito, e a arte e a criatividade dos animadores, diretores, roteiristas, sem mencionar os atores, foi tudo realmente impressionante. É um pouco alucinante pensar que uma história que começou na minha cabeça agora está dando prazer a tantas pessoas ao redor do mundo”, afirmou a escritora. E, sem pestanejar, declarou que “tudo nos filmes é fiel ao espírito dos livros, todas as mensagens sobre como precisamos cuidar do meio ambiente, das criaturas selvagens e dos lugares neste belo mundo em que vivemos. E o tipo de líderes de que precisamos, líderes gentis, inteligentes e imaginativos como Soluço, que têm ideias criativas”. 

O mundo daquela menina da ilha cheia de histórias então se expandiu, a partir de 2010, em três longas de animação, cinco curtas e quatro séries de TV/streaming. E agora, em 2025, Como Treinar Seu Dragão ganhou sua primeira versão live-action (novamente sob direção de Dean DeBlois). 

Como Treinar Seu Dragão: o live-action de 2025 vs. a animação de 2010

CARNE, OSSOS E MUITO MAIS 

“Me sinto muito protetor com os personagens e esses mundos. Tenho muito orgulho dos filmes de animação, mas senti que poderia colocar um ponto final nisso, como se esses três atos se tornassem agora uma história maior de amadurecimento”, explicou o cineasta Dean DeBlois para o site da Animation Magazine. Mas a verdade anterior e incontornável é que a DreamWorks pretendia fazer a versão live-action de Dragão com ou sem a presença do cineasta e roteirista canadense. 

Só que DeBlois, muito espertamente, virou a mesa, bateu o pé e disse que só faria se tivesse liberdade criativa e corte final. A jogada foi tão eficiente que a DreamWorks até esqueceu que tinha cogitado em fazer o filme sem ele. DeBlois queria, acima de tudo, defender o legado da trilogia em animação (afinal de contas, o co-criador e co-diretor do primeiro, Chris Sanders, estava em outra e dirigiu posteriormente Os Croods, o live-action O Chamado da Floresta e Robô Selvagem). 

“O primeiro filme foi feito às pressas, e então há coisas que poderíamos ter feito ainda melhor. Então decidimos tratar a animação como ‘nossa mais recente exibição de teste’, e que ainda tínhamos tempo e dinheiro para nos aprofundar um pouco mais nos personagens, para enriquecer a experiência, para tornar as cenas de ação, o voo, mais viscerais, mais imersivos, mas também tornar os relacionamentos dos personagens um pouco mais ricos e profundos. Espero que a experiência seja algo que ecoe a familiaridade e a nostalgia do primeiro filme, mas com mais profundidade”, afirmou DeBlois para o site The Wrap. 

No campo da familiaridade, o cineasta chamou o ator Gerard Butler para novamente ser a voz, a agora também o corpo do grande chefe Stoico, bem como o compositor John Powell (autor das trilhas de todas as três animações). Mas o resto do elenco precisou de gente jovem reunida, com destaque para Mason Thames (O Telefone Preto) como Soluço e Nico Parker (Dumbo e The Last of Us) como Astrid. 

A aposta da DreamWorks no live-action de Como Treinar Seu Dragão é tão grande que todo um parque temático sobre o filme foi recentemente inaugurado no Universal’s Epic Universe, em Orlando, Flórida. E uma sequência do longa já tem data de estreia em 2027. 

Do outro lado do Atlântico, Cressida Cowell acompanha com permanente assombro os desdobramentos daquelas histórias que começou a escrever quando criança. “Sempre fui consultada, recebi roteiros e minha opinião foi solicitada, mas também tentei me distanciar e dizer: ‘Sou uma escritora de livros e vocês são os cineastas’. Às vezes, isso pode ser difícil de fazer, mas acho que essa liberdade pode permitir que outros façam seu melhor trabalho”.

quarta-feira, 12 de março de 2025

ajoelhou tem que rezar

na edição de março da Monet rolou texto sobre Conclave, filme mais recente do diretor suiço-alemão Edward Berger e com um elenco da pesada (Ralph Fiennes, John Lithgow, Stanley Tucci, Isabella Rossellini, etc). pesquisei bastante pra entender a história dos conclaves, seu modus operandi, e mal sabia eu, lá no início de fevereiro quando escrevi, que muito provavelmente teremos um conclave ainda este ano: Papa Francisco anda muito mal de saúde, então pode renunciar ou morrer mesmo. também quando escrevi ainda não tinha acontecido o Oscar, então acrescentei agora menção à estatueta por Melhor Roteiro Adaptado. no mais, boa leitura. e depois veja o filme que é um dos melhores dessa safra.

Ralph Fiennes, o protagonista de Conclave

MIL TRUTAS, MIL TRETAS

Em Conclave, um dos fortes candidatos ao Oscar desse ano, a eleição de um novo papa é o pano de fundo para um thriller sobre mentiras, segredos e poder

Foi em março de 2013 que uma reunião do Colégio de Cardeais transformou o argentino José Mario Bergoglio em Papa Francisco I. Esse encontro de cardeais, convocados ao Vaticano após a renúncia ou morte de um papa, é chamado de conclave e não parecia que veríamos um tão cedo até surgir Conclave, filme do suíço-alemão Edward Berger que ganhou Globo de Ouro de Melhor Roteiro e está indicado em oito categorias no Oscar, incluindo Melhor Filme, Ator, Atriz Coadjuvante e Trilha Sonora [ganhou de Melhor Roteiro Adaptado]. 

Mas se no mundo real, os conclaves são um mistério guardado a sete chaves desde sua criação em 1268, no livro de Robert Harris e em sua adaptação cinematográfica, o evento é terreno fértil para um thriller eclesiástico cheio de politicagens, segredos, mentiras e traições, afinal homens de fé também são seres humanos. E essa bateção de barretes começa, justamente, com a morte de um papa. 

De 15 a 20 dias após a vacância do posto papal, um conclave precisa começar para decidir o novo ocupante. No filme, a coordenação de um dos eventos mais importantes da Igreja Católica é dada ao cardeal Lawrence (Ralph Fiennes) que precisa seguir os ritos e manter o clima numa disputa silenciosamente violenta entre cinco cardeais: o americano progressista Bellini (Stanley Tucci), o italiano conservador Tedesco (Sergio Castellitto), o canadense moderado Tremblay (John Lithgow), o nigeriano conservador Adeyemi (Lucian Msamati) e, de última hora, o azarão mexicano Benítez (Carlos Diehz). Outra peça importante desse jogo é a Irmã Agnes (Isabella Rossellini) que ouve e sabe de tudo, e tem lá suas influências, mesmo sem ter nenhum poder de decisão. 

Durante alguns dias, poucos mais de 120 cardeais votam secretamente buscando um novo papa em comum e as votações se sucedem – às vezes mais de uma vez por dia – até esse nome ser o preferido por dois terços do Colégio de Cardeais. Quando uma eleição é inconclusa, as cédulas de votação são queimadas juntas de uma mistura de perclorato de potássio, antraceno e enxofre e o resultado é uma fumaça escura que sai pelo céu do Vaticano. Porém, quando os cardeais finalmente decidem pelo novo papa, as cédulas vão ao fogo junto a clorato de potássio, lactose e colofónia e a fumaça sai branca. É a fumaça que todo mundo católico aguarda ansiosamente. Detalhe: as cédulas são queimadas em uma estufa construída em 1939 na parte superior da Capela Sistina.  

O grande foco de Conclave está nesses poucos dias de “disputa eleitoral”, nesse processo tão fascinante quanto desconhecido. Pelas óbvias liberdades que toma (não custa lembrar que Conclave é uma obra de ficção), o filme foi duramente criticado por setores mais conservadores da Igreja Católica. Em uma resenha no site americano das Edições Paulinas, um crítico afirma que o longa “ofende ao pegar esse ritual sagrado que supostamente inspira fé, humildade e confiança na providência de Deus e o transforma em um comentário perturbador sobre a fraqueza e ambição humanas”. Já a organização americana Liga Católica pelos Direitos Religiosos e Civis afirmou que Conclave “é mais uma peça de propaganda anticatólica do que uma obra de arte”.  

Ninguém da produção deu muita trela para essas isoladas críticas extremistas. Isabella Rossellini, uma das mais fortes candidatas ao Oscar de Atriz Coadjuvante, estudou em colégio de freiras e falou com tranquilidade para a jornalista Cecília Malan, no Fantástico, que “eu não via diferença entre minha mãe [a lendária atriz Ingrid Bergman], que era uma mulher muito livre, e as freiras, no sentido de que ambas escolheram a vida que queriam viver”. Muito elegantemente, Ralph Fiennes disse ao site RadioTimes.com que “há esse discurso muito interessante que Robert Harris dá ao meu personagem, sobre dúvida, a importância da dúvida, que choca muitos cardeais. Sem dúvida, não há mistério. Sem mistério, não há fé”.  

Muito mais pragmático, o diretor Edward Berger afirmou ao site Hammer to Nail que soube do projeto de adaptar o livro Conclave em conversa com a produtora Tessa Ross e que o roteirista seria Peter Straughan, de O Espião Que Sabia Demais, Frank e O Pintassilgo. “Disse pra ela: ‘Peter Straughan é o melhor escritor do mundo.’ Porque o que ele faz é criar um tipo maravilhoso de enredo, como uma história que dá vontade de virar a página com muitas reviravoltas. Mas também sempre há algo mais profundo por baixo, um motivo do porquê estamos fazendo o filme; uma alma para o filme, como um arco interno. Neste caso, é o arco interno de dúvida do personagem de Ralph Fiennes. Você conhece aquele sentimento de ser oprimido pela dúvida e se sentir liberto por ela. Isso me fez querer fazer o filme, seu discurso sobre a dúvida”. 

Depois, pensado melhor, começou a ver algo em comum entre Conclave e seu filme anterior, Nada de Novo no Front (que lhe lançou ao mundo ao levar 4 Oscar). “Os dois são sobre guerra. Uma é uma guerra física, a Primeira Guerra Mundial; a outra é uma guerra intelectual de mentes, um verdadeiro jogo de xadrez”, afirmou ao Hammer to Nail. Seguindo no mesmo raciocínio, Berger acredita “também que os protagonistas passam por um processo de libertação. Felix, o soldado, começa indo pra guerra com esse entusiasmo, e então passa a ter um sentimento de que foi traído. E lentamente, no final, ele se liberta. Ele encontra sua paz na morte. E igualmente Lawrence encontra sua paz quando abre a janela e deixa o ar voltar para sua vida; ar e luz”. 

Um dos fortes candidatos ao Oscar de 2025, Conclave também ganhou elogios de diretores como Oliver Stone (JFK, Platoon, etc), Paul Schrader (A Marca da Pantera, Fé Corrompida, etc) e Colarie Fargeat (A Substância, outro forte candidato do ano), mas o mais entusiasmado foi Alexander Payne, de Sideways, Nebraska e Os Rejeitados. 

Em artigo para o site da Variety, Payne diz que o diretor Edward Berger usou em Conclave “a mesma imaginação e meticulosidade que ele colocou no grande filme de guerra [Nada de Novo no Front] e foca como um cirurgião em uma história contida sobre as intrigas e esquemas nos bastidores de quando um papa morre. Você simplesmente não consegue acreditar o quão fascinante o filme é - engraçado e cheio de suspense e tão bem escalado e bem atuado. Berger tem a qualidade milagrosa de fazer algo que você nunca esquece que é um filme, mas ao mesmo tempo, é como se você estivesse realmente lá. São filmes muito diferentes, mas compartilham um tema consistente. Ambos são sobre desmascarar instituições poderosas e revelar os egos massivos que dão as cartas para as massas - egos alternadamente nobres e ignóbeis, principalmente o último”.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

oh no, not me

na edição de fevereiro da Revista Monet contribui com dois textos (coisa rara). um foi sobre Babygirl, o filme mais recente da Nicole Kidman, e outro sobre David Bowie, por causa da estreia no canal Curta! de um bom documentário sobre sua música, vida e carreira. consegui nesse do Bowie algo que já tinha feito no do Hermeto Pascoal: entrevistas próprias. e aí a matéria sempre fica com um gosto melhor, mais pessoal. segue então a dita... 

O HOMEM QUE CAIU NA TERRA

David Robert Jones nasceu em 8 de janeiro de 1947 e tornou-se David Bowie em 16 de setembro de 1965 para não ser confundido com Davy Jones (The Monkees). Quando Bowie morreu em 10 de janeiro de 2016, aos 69 anos, ninguém confundiria um dos maiores artistas da cultura mundial com ninguém. Todo esse arco de vida, música e arte é contado com minúcias, entrevistas e muitas imagens de arquivo no documentário Bowie: O Homem Que Mudou o Mundo, uma das principais estreias do mês no Curta! 

“O Bowie mudou o jogo. Ele é Artista com A maiúsculo, um artista completo, que experimentou, viveu, nunca se acomodou e se expressou muito além da música”, explica Liv Brandão, jornalista e editora com passagens pelo jornal O Globo, UOL e Billboard Brasil. “Lembro que não comecei pelos clássicos do Bowie. O primeiro disco que ouvi dele, ainda na adolescência, foi o Earthling [1997], que meu irmão, 9 anos mais velho, tinha em CD. Achei a capa com aquele casacão do Alexander McQueen maneira e coloquei pra tocar. Não liguei muito, confesso. Aos 14 anos ainda não tinha a bagagem necessária pra isso”. 

“Meu amor por ele foi nascer já maior de idade, em festas indies que tocavam ‘Modern Love’ [1983] e ‘Sound and Vision’ [1977], que acabou virando minha preferida dele. Depois disso mergulhei pra saber mais sobre aquele homem fascinante e sua obra maravilhosa”, e Liv Brandão diz tudo quando usa o termo ‘mergulhar’. A obra musical de David Bowie é um recife de corais, diverso e em constante movimento. 

O começo, na adolescência, tocando sax em muitas bandas com repertórios variados. O primeiro disco, artístico e barroco, que saiu em 1967 e pouca gente ouviu. O primeiro sucesso, “Space Oddity”, em 1969, com sua psicodelia contemplativa e inspiração confessa em 2001: Uma Odisséia no Espaço. O hard rock guitarrístico de The Man Who Sold the World em 1970. A levada pop mais quente e pianística de Hunky Dory, lançado no final de 1971, com mais dois hits (“Changes” e “Life on Mars?”). O primeiro personagem, um alienígena andrógino que vira um glam rock star, que virou o mundo de cabeça para baixo em The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, de 1972. 

Bowie seguiu pela década de 1970 firme e inquieto, mas também com problemas no primeiro casamento, com o empresário e muita cocaína. E mesmo assim criou um novo personagem (Thin White Duke) e lançou discos clássicos como Aladdin Sane (1973), Diamond Dogs (1974) e Young Americans (1975), além da trilogia de Berlim composta por Low (1977), “Heroes” (1977) e Lodger (1979). 

“Considero oficialmente que o primeiro disco do David Bowie que escutei foi o Aladdin Sane. Tenho uma vaga lembrança de ouvir antes umas duas músicas dele na Rádio Continental de Porto Alegre em 1973, eu tinha 12 anos, mas só lembro do locutor dizendo o nome. O Aladdin Sane eu escutei mesmo e fiquei fascinado”, relembra Emílio Pacheco, jornalista gaúcho e um dos poucos privilegiados que estiveram presente nas duas únicas passagens de David Bowie pelo Brasil (1990 e 1997). 

Pacheco ouviu todas as mudanças de Bowie nos anos 1970 e também viu sua definitiva ascensão ao estrelato nos anos 1980 a partir do disco Let’s Dance (1983) e de seus cada vez mais frequentes trabalhos como ator (para ficar nos mais conhecidos, Fome de Viver, Furyo – Em Nome da Honra, Absolute Beginners e, acima de tudo, Labirinto). Mas nem tudo foi recebido com a mesma empolgação por fãs como Pacheco. 

“Quando me tornei fã do Bowie esperava que ele nunca mudasse de estilo, que ele continuasse sempre fazendo aquele tipo de rock da fase Ziggy Stardust. E o Bowie mudava radicalmente. E no primeiro momento não vi isso com bons olhos. Hoje, em retrospectiva, acho que uma das importâncias do Bowie foi ter se tornado um artista que nunca se prendeu a nenhum estilo e se recusou a se tornar nostalgia”, diz Pacheco que também confessa que a princípio não gostou de discos como Young Americans e Station to Station, e que atualmente estão entre os preferidos, mas que até hoje não entende Heroes. 

“Fui me acostumando com a ideia que o Bowie era um cara mutante, um camaleão como chamam, né? E fui acompanhando as mudanças dele, com interesse, gostando mais de uns discos que de outros, já sabendo que podia esperar qualquer coisa, porque a marca registrada dele era a imprevisibilidade. Bowie estava sempre surpreendendo”, e assim Pacheco fez as pazes com seu ídolo. Quando anunciaram Bowie no Brasil, em 1990, Pacheco estava preparado. Ou achava que estava. 

“Em 1990 vi um dos shows que ele fez no Brasil, que foi o do saudoso Olympia, em São Paulo, ingressos custando uma fortuna, mas realizei meu sonho de ver o Bowie. Fiquei uma parte do show pensando sem parar que ‘tava mesmo vendo o Bowie em terceira dimensão, com profundidade, que era ele mesmo que estava na minha frente. Que não era um filme. Isso me chamou atenção, coisa de fã”, mas se recompôs e pode curtir um show intimista para fãs que conheciam as músicas dos anos 1970 que cobriam boa parte do setlist. “Ouvi falar que o show da Praça da Apoteose no Rio de Janeiro e os do Parque Antártica, em São Paulo, o público só se animou com as músicas dos anos 80, ‘Let's Dance’, ‘Modern Love’, ‘China Girl’ e ‘Blue Jean’”. 

Sete anos depois, Bowie lançou Earthling, seu experimento com música eletrônica e vigésimo primeiro álbum. Foi na turnê desse disco que o inglês voltou ao Brasil com shows em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. E lá estava, novamente, Emílio Pacheco: “Assisti os três, foram sensacionais. O repertório era mais do momento, mas com algumas músicas mais antigas. Tinha uma pegada mais pesada, mais drum'n'bass, que era o lance dele na época. E o público geral estava mais bem informado e curtiu mais as músicas como um todo, não só aqueles sucessos mais manjados”. Pacheco já escreveu sobre esses shows diversas vezes em seu blog, mas não cansa de relembrar. Bowie segue mudando sua vida (e de outras e outros), música a música.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

100 músicas e 60 discos gringos de 2023

a tradição do esforçado de listas dos melhores sons do ano segue firme e forte e variada. mais uma vez as dividi em nacionais e gringos, com músicas e discos pra cada segmento. dessa vez começo com os gringos e me surpreendi com o crescente número de africanos, afinal quase ¼ das 100 músicas vieram de todos os lados do grande continente, desde o Egito (Nadah El Shazly) a África do Sul (Muzi, Petite Noir e Kamo Mphela), do Mali (Los Chicharrons e os tuaregs Bombino e Tinariwen) a Cabo Verde (Mayra Andrade, Dino D’Santiago e a saudosa Sara Tavares), do Marrocos (ElGrandeToto) a Gana (Amaarae e Alogte Oho), da Nigéria (Bloody Civilian, Nneka, Aunty Rayzor e Olamide) ao Congo (Baloji, DJ Finale e Chrisman), do Quênia (Kabeaushé e MC Yallah) ao Burundi (Theecember). 

um pouco mais de uma dezena dos sons da lista é hispanohablante tipo grandão como Rosalía, Bad Bunny e Kali Uchis (em dose dupla) ou indies do coração como La Yegros, Xenia Rubinos e Chancha Via Circuito, mas a maioria é gente nova no pedaço tais quais La Dame Blanche, Karen y Los Remedios, C. Tangana, Juliana, Mito y Comadre, Montoya e Trueno. 

como sempre, a grande maioria da lista vem da dobradinha EUA-UK, ela também cada vez mais diversa (mas invariavelmente negra né). cabô papo furado. importante aqui é ouvir e reouvir essa centena de músicas que resumem um pouco, pra mim, da música de 2023. tome playlist e, na sequência, a lista completa por ordem alfabética.


100 MÚSICAS GRINGAS DE 2023

Aesop Rock - “Mindful Solutionism”

Aja Monet - “Why My Love”

Al Green - “Perfect Day”

Alogte Oho & His Sounds of Joy - “La Ka Ba'a”

Amaarae - “Counterfeit”

Andrew Bird - “Never Fall Apart”

Animal Collective - “Soul Capturer”

Armani White - “Goated” [ft. Denzel Curry]

Atmosphere - “Talk Talk” [ft. Bat Flower]

Aunty Rayzor - “Nina”

Bacao Rhythm & Steel Band - “How We Do”

Bad Bunny - “Un Preview”

Baloji & Mayra Andrade - “Matrone”

Beck - “Thinking About You”

Beyoncé - “My House”

Björk - “Oral” [ft. Rosalía]

Black Pumas - “More Than a Love Song”

Bloody Civilian - “Come From”

Blur - “The Narcissist”

Bombino - “Ayes Sachen”

Busta Rhymes - “Luxury Life” [ft. Coi Leray]

C. Tangana - “Estrecho/Alvarado”

Chancha Via Circuito - “Amor en Silencio” [ft. Lido Pimienta]

Chlothegod - “UGOMDN”

Chrisman - “Unforgettable” [ft. Tracy The Rapper]

Cotonete - “Day In Day Out” [ft. Leron Thomas]

Daniel Haaksman - “Supervivencia” [ft. Çantamarta]

Dave Okumu & The 7 Generations - “Chapter 4: Cave of Origins”

David Walters - “Soul Tropical”

Dengue Fever - “Silverfish”

Dino D'Santiago & Os Tubarões - “Djonsinho Cabral”

DJ Finale - “Pitschu Debou” [ft. DeBoul & Le Meilleur]

ElGrandeToto - “Weld Laadoul”

El Michels Affair & Black Thought - “Grateful”

Eva B - “Kuch Nahi Hua”

Gorillaz - “Controllah” [ft. MC Bin Laden]

Holy Hive - “The Shame” [ft. El Michels Affair & Fleet Foxes]

Hypnotic Brass Ensemble - “Space” [ft. Yasiin Bey]

JJ Whitefield - “No-Mo-Woa”

Janelle Monáe - “Know Better” [ft. CKay, Seun Kuti & Egypt 80]

Jorja Smith - “Try Me”

Juliana - “Narices Frias”

Jungle - “Us Against The World”

Kabeaushé - “Potassium”

Kali Uchis & Karol G - “Labios Mordidos”

Kali Uchis - “Deserve Me” [ft. Summer Walker]

Kamauu - “The Vibe”

Kamo Mphela, Khalil Harrison & Tyler ICU - “Dalie” [ft. Baby S.O.N]

Karen y Los Remedios - “Mi Gran Dolor”

Kaytranada & Aminé - “Sossaup” [ft. Amaarae]

Keys The Prince - “Oshey”

Kid Cudi - “At The Party” [ft. Pharrell & Travis Scott]

Killer Mike - “Run” [ft. Dave Chappelle & Young Thug]

Konyikeh - “Girls Like Us”

Kylie Minogue - “Padam Padam”

La Dame Blanche - “Mi Negro”

La Yegros - “Donde”

Laliboi - “Buya Embo”

Leyla McCalla & Alynda Segarra - “Zanj”

Liam Bailey - “Dance With Me”

Lido Pimienta - “Ein Sof, Infinito”

Lord Echo - “Woah! There's No Limit”

Los Chicharrons - “Ma Do Nar” [Captain Planet Remix]

Los Yesterdays - “Who Made You You?”

Masego - “Two Sides”

MC Yallah & Debmaster - “Sikwebela”

Mito y Comadre - “Siento Una Pena”

Montoya - “La Danza de Cuenca”

Mick Jenkins - “Sitting Ducks” [ft. Benny The Butcher]

Muva of Earth - “Heaven Hear Me Above”

Muzi - “Milk & Honey” [ft. The Last Skeptik]

Nadah El Shazly - “Bānit”

Nnamdi - “Going Crazy”

Nneka - “Back and Forth”

Noname - “Toxic”

Olamide - “Life Goes On

Petite Noir - “Play”

Pigeon - “Ikanabore”

Priya Ragu - “Black Goose”

Readymade FC - “The Light at the End of the Tunnel” [ft. Queen Kaltoum]

Robin - “0”

Rosalía - “Tuya”

Sampha - “Dancing Circles”

Sara Tavares - “Kurtidu”

Serious Klein - “Peek A Boo”

Sevdaliza - “Nothing Lasts Forever” [ft. Grimes]

Shakira - “El Jefe” [ft. Fuerza Regida]

Sheherazaad – “Mashoor”

Slow J - “Grandeza”

Sol Messiah - “Yan'uwa”

Talib Kweli & Madlib - “Nat Turner” [ft. Seun Kuti & Cassper Nyovest]

Theecember - “Permission”

Tierra Whack - “Chanel Pit”

Tinariwen - “Alghalam Tiglistarha”

Trueno - “Tranky Funky”

Wesley Joseph - “Hiatus”

Whatitdo Archive Group - “The Cashmere Chamber”

Xenia Rubinos & La Brega - “Preciosa”

Yuna - “Glory“

Yussef Dayes - "“Tioga Pass” [ft. Rocco Palladino]

 

60 DISCOS GRINGOS DE 2023

também como sempre, boa parte das melhores músicas do ano vem dos melhores discos do ano. não tem como fugir, mas acho que vale destacar que 15 desses 60 talvez tenham sido os meus preferidos, pois foram os que tiveram tantas músicas que chegou a ser difícil escolher apenas uma. Damon Albarn, por exemplo, assinou mais uma porrada do Gorillaz (Cracker Island) e ainda voltou com o Blur (The Ballad of Darren). dois instrumentais pegaram meus ouvidos de jeito, o carimbenho-germânico BRSB da Bacao Rhythm and Steel Band e o groovadíssimo Puzzled do multinstrumentista JJ Whitefield. sem falar nas minas super poderosas Amaarae, Bloody Civilian, Janelle Monae, Jorja Smith e Kali Uchis, e no poder do rap de Black Thought (em parceria com a banda-que-só-faz-som-foda El Michels Affair), Killer Mike e Mick Jenkins. já Bad Bunny tá naquela fase que não erra uma e com Nadie Sabe Lo Que Va a Pasar Mañana não foi diferente. e por último, a grande surpresa do ano, o maravilhoso Volcano dos ingleses Jungle (que ainda se torna melhor com a série de clipes para cada uma das músicas e que viram um filme lindamente coreografado, dançado e filmado).

putz, preciso muito falar rapidamente de alguns discos que não emplacaram nenhuma faixa na lista de músicas. discos invariavelmente lindos por si e não necessariamente por uma canção ou outra. são viagens que valem muito, como as de André 3000 (New Blue Sun), Blu (Afrika), Captain Planet (Sounds Like Home), Goran Bregovic (The Belly Button of the World), Luzmila Carpio (Inti Watana: El Retorno del Sol), PJ Harvey (I Inside the Old Year Dying) e Surprise Chef (Friendship). mas sem mais delongas, os 60 discos gringos de 2023 à moda da casa (com os devidos links para os discos na íntegra).

Aesop Rock - Integrated Tech Solutions

Aja Monet - When the Poems Do What They Do

Amaarae - Fountain Baby

André 3000 - New Blue Sun

Andrew Bird - Outside Problems

Animal Collective - Isn't it Now?

Arlo Parks - My Soft Machine

Atmosphere - So Many Other Realities Exist Simultaneously

Aurora Dee Raynes - Ribbon Of Hot Plasma

Bacao Rhythm and Steel Band - BRSB

Bad Bunny - Nadie Sabe Lo Que Va a Pasar Mañana

Beirut - Hadsel

Black Pumas - Chronicles of a Diamond

Bloody Civilian - Anger Management

Blu - Afrika

Blur - The Ballad of Darren

Bombino - Sahel

Busta Rhymes - Blockbusta

Captain Planet - Sounds Like Home

Dave Okumu & The 7 Generations - I Came From Love

David Walters - Soul Tropical

Dengue Fever - Ting Mong

Depeche Mode - Memento Mori

El Michels Affair & Black Thought - Glorious Game

Everything But The Girl - Fuse

Goran Bregovic - The Belly Button of the World

Gorillaz - Cracker Island

Janelle Monae - The Age of Pleasure

JJ Whitefield - Puzzled

Jorja Smith - falling or flying

Jungle - Volcano

Kabeaushé - The Comming of Gaze

Kali Uchis - Red Moon in Venus

Kamauu - LACUNA in The House of Mirrors

Karen Jackson - Why Does the Earth Give Us People to Love?

Karen y Los Remedios - Silencio

Karol G - Mañana Será Bonito

Kaytranada & Aminé - Kaytraminé

Kelela - Raven

Killer Mike - Michael

La Dame Blanche - Atómica

Little Dragon - Slugs of Love

Luzmila Carpio - Inti Watana: El Retorno del Sol

Masego - Masego

Mick Jenkins - The Patience

Montoya - El Nido

Muva of Earth - Align With Nature’s Intelligence

Muzi - uMUZI

Noname - Sundial

Olamide - Unruly

Pigeon - Backslider

PJ Harvey - I Inside the Old Year Dying

Priya Ragu - Santhosam

Sampha - Lahai

Slow J - Afro Fado

Surprise Chef - Friendship

Tinariwen - Amatssou

Whatitdo Archive Group - Palace of a Thousand Sounds

Young Fathers - Heavy Heavy

Yussef Dayes - Black Classical Music

sábado, 17 de dezembro de 2022

70 músicas e 30 discos brasileiros de 2022

depois que fechei essa lista percebi que neste ano ouvi quase nada fora da minha bolha rap-mpb. não sei porque. estranho. mas não teve quase nada de funks, arrochas, piseiros, pops variados (sertanejo realmente não consigo mesmo). paciência. mas tem 70 músicas aqui, é muita coisa vai.

muitas mulheres, como sempre. Anelis Assumpção, Alaíde Costa, Anitta, Deize Tigrona, Duda Beat, Iara Rennó (com Thalma de Freitas), Illy (em duas faixas, uma como protagonista e outra como convidada), Marina Sena (em duas faixas, mas como coadjuvante de luxo), Juçara Marçal, Larissa Luz, Luedji Luna, Lurdez da Luz, MC Tha, Céu (em duas faixas, uma como parceira e outra como convidada), Tiê, Tulipa Ruiz e Xênia França. e algumas estreantes por aqui, tipo Bruna Alimonda, Pâmela Amaro (com Maíra Freita e Yzalú), Rachel Reis e Victoria dos Santos. 

no mais, ouçam. 

 

A Banda dos Corações Partidos – “Intuição”
Alaíde Costa – “Pessoa-Ilha”
Amiri – “Tudo eu”
Anelis Assumpção – “Pouso de ave rara” (com Josyara)
Anitta – “Gata”
Baco Exu do Blues – “Inimigos”
BaianaSystem – “Catraca”
BK', Marina Sena & JXNV$ - “Se eu não lembrar”
Black Alien – “Pique Peaky Blinders”
Bruna Alimonda – “Canção de cansaço”
Bruno Morais – “Divindade”
Chico Buarque – “Que tal um samba?” (com Hamilton de Holanda)
China – “Deixe-se acreditar” (com Felipe S)
Coruja BC1 – “Auxílio emergencial do rap”
Criolo – “Quem planta amor aqui vai morrer” (com Tropkillaz)
Deize Tigrona – “Ibiza” (prod. Badsista)
Djonga – “Conversa com uma menina branca”
Duda Beat – “Dar uma deitchada”
Edgar – “Bíblia, boi e bala”
Elo da Corrente – “Homens e meninos”
Felipe Cordeiro – “Muita onda” (com Valéria Paiva)
Fernando Catatau – “Quando o dia amanhecer” (com Manoel Cordeiro)
Filarmônica de Pasárgada – “Rios e ruas”
Fióti – “Quando for falar de amor (Summer song)” (com Tuyo)
Froid – “Malandragem”
Gloria Groove – “Pisando fofo” (com Tasha & Tracie)
Iara Rennó & Thalma de Freitas – “Bàbá Orí”
Illy & Marina Sena – “Quente e colorido”
Jefferson Placido – “Música clássica do subúrbio”
João Donato & Céu – “Floriu”
Johnny Hooker – “Cuba”
José Miguel Wisnik – “Estranha religião” (com Marina Wisnik)
Juçara Marçal – “Um choro”
Kamau – “Pacífico”
Larissa Luz & Tropkillaz – “Cupido Erê”
Lucas Santtana – “Vamos ficar na Terra”
Luedji Luna – “3 Marias”
Luisa e os Alquimistas – “El misterio ya está aqui” (com Letrux)
Lurdez da Luz, Tiago Frúgoli & Ivan Conti – “Portal”
Manoel Cordeiro – “Mambo bragantino” (com Kassin, Pupillo e Marlon Sette)
MC Tha – “Figa de Guiné” (com Jongo Dito Ribeiro)
Mundo Livre SA & Doralyce – “Melô das musas empoderadas da Ilha Grande”
Orquestra Raiz – “Distractions”
Os Barões da Pisadinha & Parangolé – “Não que eu vá”
Pabllo Vittar – “Follow me” (com Rina Sawayama)
Pâmela Amaro, Maíra Freitas & Yzalú – “Deixa que eu vou te contar”
Parteum – “O balanço do efeito Dunning-Kruger”
Paulo Miklos – “Do amor não vai sobrar ninguém”
Projetonave & Caco Pontes – “Sétimo selo”
Rachel Reis & Céu – “Brasa”
Rashid – “Linha de frente” (com Amiri e Don L)
Rico Dalasam – “30 semanas”
Rodrigo Campos, Juçara Marçal & Gui Amabis – “Faca”
Russo Passapusso & Antonio Carlos & Jocafi – “Pitanga”
Samuca e a Selva – “Lambe-lambe” (com Illy)
Siloque – “Desidratando”
Surra de Rima – “Faz a linha”
Tatá Aeroplano – “Na beleza da vida”
Thiago Elniño & Tolen – “Dengo Modo Tambor”
Tiê & Adriano Cintra – “Pagar pra ver I”
Tim Bernardes – “BB (Garupa de moto amarela)”
Tom Zé – “Metro Guide”
Trio Shaloshinho – “Que mêda”
Tulipa Ruiz – “Não pira” (com Jonas Sá)
Urias – “Tanto faz”
Victória dos Santos – “Estou velha” (com Rodrigo Campos)
Vitor Ramil – “Rilke Shake”
Wado – “Atiraste uma pedra” (com LoreB)
Xênia França – “Interestelar”
Zudizilla – “Matrix” (com Coruja BC1)
 
e os DISCOS BRASILEIROS de 2022... dentre estes 30 discos, destaques meus para os trabalhos novos das amigas-parceiras-irmãs Iara Rennó (o afro-espetacular Oríkì) e Anelis Assumpção (o femininíssimo Sal), pros raps ferozes de Baco Exu do Blues (QVVJFA?) e Criolo (Sobre Viver), pros veteranos & inquietos Tom Zé (Estudando a Língua Brasileira) e Alaída Costa (O Que Meus Calos Dizem de Mim), pra MC Tha cantando lindezas pouco conhecidas de Alcione (Meu Santo é Forte), pra Vitor Ramil todo em parceria com Angélica Freitas (Avenida Angélica), pros lindos trampos solo de Fernando Catatau (também Fernando Catatau) e Russo Passapusso (Alto da Maravilha, feito junto com os veteranos-referência Antônio Carlos & Jocafi), para as belezas totais de um dos preferidos da casa, José Miguel Wisnik (Vão), pra alegria de Wado (com o solar e auto-explicativo O Disco Mais Feliz do Mundo Vol. 1) e pras múltiplas São Paulos em Tulipa Ruiz (Habilidades Extraordinárias), Bruno Morais (Poder Supremo) e Tim Bernardes (Mil Coisa Invisíveis).

Alaíde Costa – O QUE MEUS CALOS DIZEM DE MIM
Anelis Assumpção - SAL
Anitta – VERSIONS OF ME
Baco Exu do Blues - QVVJFA?
Bruno Morais - PODER SUPREMO
China – CARNAVAL DA VINGANÇA
Criolo - SOBRE VIVER
Djonga - O DONO DO LUGAR
Fernando Catatau - FERNANDO CATATAU
Filarmônica de Pasárgada - PSSP
Iara Rennó - ORÍKÌ
João Donato – SEROTONINA
José Miguel Wisnik - VÃO
Juçara Marçal - EPDEB
Larissa Luz & Tropkillaz - DEUSA DULOV VOL. 1
Luisa e Os Alquimistas - ELIXIR
Manoel Cordeiro, Kassin, Pupillo & Marlon Sette – LEVADAS DE FESTA
MC Tha - MEU SANTO É FORTE
Mundo Livre S/A - WALKING DEAD FOLIA
Rachel Reis - MEU ESQUEMA
Rashid - MOVIMENTO RÁPIDO DOS OLHOS
Rico Dalasam - FIM DAS TENTATIVAS
Rodrigo Campos, Juçara Marçal & Gui Amabis - SAMBAS DO ABSURDO VOL. 2
Russo Passapusso, Antônio Carlos & Jocafi - ALTO DA MARAVILHA
Tatá Aeroplano - NÃO DÁ PRA AGARRAR
Tim Bernardes - MIL COISAS INVISÍVEIS
Tom Zé - ESTUDANDO A LÍNGUA BRASILEIRA
Tulipa Ruiz - HABILIDADES EXTRAORDINÁRIAS
Vitor Ramil - AVENIDA ANGÉLICA
Wado e o Bloco dos Bairros Distantes - O DISCO MAIS FELIZ DO MUNDO VOL. 1