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domingo, 22 de abril de 2018

ao mestre, com carinho

quando fiquei sabendo da morte do grande nelson pereira do santos, aos bem vividos 89 anos, fui procurar o registro do meu único encontro com ele: uma entrevista para a revista monet em algum momento de 2007 com a deixa da estreia do bastante irregular brasília 18% no canal brasil. estranhamente ainda não tinha colocado aqui no blog, então agora segue o registro da minha conversa com essa pessoa simples, revolucionária, doce e atenta [e autor de clássicos como rio zona norte, rio 40 graus, vidas secas e boca de ouro].

brasília 18% acabaria sendo seu último filme ficcional e de lá pra cá dirigiu apenas três documentários: português, a língua do brasil [2009], a música segundo tom jobim [2012] e a luz do tom [2012], todos citados nessa entrevista.


nelson. pereira. dos santos.

MESTRE É MESTRE

Era um dia da semana como outro qualquer e o Centro do Rio de Janeiro fervilhava sob um céu azul de cartão postal. No labirinto de suas ruas estreitas um cineasta de espírito jovem, mas que no ano que vem completa 80 anos, trabalha sem parar. Nelson Pereira dos Santos é seu nome. Presente no cinema brasileiro desde o final da década de 1940, o paulistano de alma carioca traz em sua bagagem filmes inesquecíveis como Rio Zona Norte, Vidas Secas e Memórias do Cárcere, além de um olhar ao mesmo tempo doce e crítico em relação à realidade nacional. Em 2006, o diretor e roteirista lançou Brasília 18% nos cinemas após uma década produzindo exclusivamente documentários. Sua volta à ficção, uma das estreias do mês no Canal Brasil, é um misto de drama político e história de amor torta ambientada nos labirintos de Brasília com direito a congressistas envolvidos em tramóias, orgias e assassinatos. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência e o cineasta sabe disso há tempos. Leia a seguir a entrevista com Nelson Pereira dos Santos, que além de mestre da sétima arte é, desde 2006, um imortal da Academia Brasileira de Letras [ocupa a cadeira 7 que originalmente foi de um de seus maiores ídolos, Castro Alves].


Carlos Alberto Ricceli e Malu Mader em cena de Brasília 18%


O que é Brasília pra você? Você lembra da primeira vez que foi lá?
Lembro, claro. Eu trabalhava pro Jornal do Brasil na época e fui numa excursão com jornalistas. Vi Brasília, a Esplanada dos Ministérios, aquela terra vermelha e os edifícios todos ainda no esqueleto. Sempre fui fã de tudo que é novidade, então quando surgiu essa história de fazer uma nova capital achei ótimo. Era jovem e acreditei, como muita gente. Depois fui pra Brasília em 1965 trabalhar na UnB e ajudei a montar a primeira faculdade de cinema em uma universidade pública no Brasil. Mas essa história não durou muito e no mesmo ano alguns professores foram demitidos pelos militares e o restante pediu demissão em solidariedade, inclusive eu. Voltei à cidade em 1991 quando foi criado o Polo de Cinema de Brasília, eu era um dos conselheiros, e também por lá, mais ou menos na mesma época, filmei algumas partes de A Terceira Margem do Rio. Tenho uma relação com Brasília desde o começo.

Imagino então que você tenha acumulado um monte de histórias de bastidores da cidade durante todo esse tempo.
Pois é, quem conhece a vida política de Brasília vai lembrar de acontecimentos reais e que no filme parecem ficção. Mas tem outra coisa que é bom lembrar. Essa Brasília do filme é a Brasília da cúpula, do plano piloto, dos que têm acesso ao poder. Não é a Brasília do cidadão comum. É outra cultura.

Como surgiu a ideia de dar nomes de escritores aos personagens do filme?
Na hora de fazer o roteiro, de escrever a história, a gente precisa dar algum nome aos personagens. Aí eu coloco o que primeiro vier na cabeça, depois mudo. Ou então coloco o primeiro nome do ator. Na época, não sei por que, tinha um Olavo Bilac na minha escrivaninha. Depois veio o Gonçalves Dias. E assim foi. Quando acabei o roteiro mandei para alguns amigos. O que foi comum a todas as observações foi essa história dos nomes. Achavam que o público não ia entender. Mas tinha certeza que isso poderia ser interessante, afinal são nomes de pessoas que deram contribuições importantes no plano da arte, da literatura, e esses nomes estão agora em um terreno de absoluta decadência. São grandes nomes em pessoas mesquinhas.

Antes do Brasília 18% você ficou durante dez anos fazendo exclusivamente documentários. Foi uma opção tua? É mais tranquilo fazer documentários do que ficção?
Eu tinha um projeto de ficção muito ambicioso. Era uma reconstituição do Brasil Império e da vida do escritor Castro Alves. Comecei a captação, mas o projeto estava muito caro. Então fui convidado a fazer um documentário sobre o centenário do Gilberto Freyre e joguei tudo que tinha sido investido no Castro Alves para Casa Grande & Senzala, que acabou virando uma série em quatro episódios de uma hora cada. Trabalhei pra dedéu nisso entre 1999 e 2003. Depois apareceu o centenário do Sérgio Buarque de Hollanda [Raízes do Brasil, de 2004]. Mas esta sua observação é válida porque, realmente, em um documentário, você trabalha em cima de fatos históricos comprovados e com uma equipe menor. É mais íntimo e mais barato.

Mas você estava com saudades de fazer ficção?
Ah, sim. Mas houve estranhamentos. Que depois superei, claro. O número de técnicos na equipe aumentou [risos]. É uma subdivisão muito grande, um monte de assistentes. Facilita por um lado, ainda mais com a alta qualidade dos profissionais de hoje. É que não tinha ideia de como pilotar um bonde deste tamanho [risos]. Mas a gente vai aprendendo, né?

E como estão os novos projetos?
Acabei de fazer um filme na Academia Brasileira de Letras intitulado Português, a Língua do Brasil, no qual os acadêmicos falam sobre o português falado no Brasil. E já tenho esquematizada a produção de um documentário sobre o Tom Jobim que será feito no mesmo esquema do Sérgio Buarque de Hollanda. Um filme será um retrato afetivo e o outro será sobre a obra. Quero ver se consigo começar a filmar em setembro para lançar no ano que vem.

Algo mudou em teu prazer de filmar nestes mais de 50 anos de carreira?
Olha, sempre me sinto à vontade quando estou em um set e o momento de filmar é como estivesse de férias. Estou fazendo o que quero fazer. Por exemplo, esse filme que fiz na Academia Brasileira de Letras não tinha roteiro. Tive a ideia e fui filmando. Mas é uma sorte contar com um elenco como esse porque os acadêmicos falam super bem e as opiniões são brilhantes. Tem momentos maravilhosos. Olha aí eu vendendo o peixe de outro filme [risos]. Mas imagine o Sérgio Paulo Rouanet falando sobre o uso da língua ou então o Ariano Suassuna recitando um sermão do Padre Antônio Vieira. E o João Ubaldo Ribeiro, a Nelida Piñon... olha, não percam este filme [risos]! E tudo pelo prazer de filmar. Mas preciso começar a pensar na hora de me aposentar, principalmente agora que tenho um bom lugar para ficar que é a Academia. Tem muita coisa para fazer lá, muito livro para ler. E é preciso de saúde para fazer cinema. Mas também, pensando no Manoel de Oliveira que está com 98 anos e continua filmando, tenho ainda alguma esperança [risos].

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

mexidão #33

nunca me identifiquei direito com o humor cearense, talvez porque só tenha vivido lá até os 9 anos. mas quando vi o trailer de cine holliúdy, longa fenômeno de bilheteria dirigido por haldon halder gomes, parece que fiz as pazes, rolou um reencontro. o sotaque, a velocidade da fala, o deboche, as gírias, tudo é familiar e foi uma delícia ver isso retratado em um filme. não assisti ainda, claro, pois a estratégia de lançamento privilegiou o ceará e a partir dessa sexta, 30 de agosto, o resto do norte e nordeste. sul e sudeste, atrasadões, ficaram para depois. enquanto isso, só posso ficar rindo de rachar com o moleque falando "ô cego ignorante" pro personagem do falcão. posso também, como fiz no yahoo, bater um papinho com o diretor desse filme profundamente cearense.



O CINEMA PARADISO DA FULERAGEM

Por essa pouca gente esperava. Uma comédia independente, sem atores famosos, cearense e com legendas (isso mesmo, legendas pra entender melhor o “cearensês”), pode ser o grande sucesso nacional de 2013, desbancando o atual hit do ano, Minha Mãe é uma Peça. Mesmo que fique em segundo lugar, o longa Cine Holliúdy já é um grande vencedor, afinal estreou na semana passada em alguns cinemas de Fortaleza, Sobral, Maracanaú e Limoeiro do Norte e vendeu 43 mil ingressos em apenas 6 dias (45% do total da bilheteria do Estado). São números impressionantes e que prometem aumentar quando o filme de Haldon Halder Gomes estrear, em 30 de agosto, em outras cidades e capitais do Norte e Nordeste (Sul, Sudeste e Centro Oeste ficarão mais pra frente numa interessante e regionalizada nova estratégia de lançamento).

Rodado em seis semanas e com um orçamento de R$ 1 milhão, Cine Holliúdy é a história de Francisgleydisson (Edmilson Filho), um homem apaixonado por cinema que organiza, junto com a mulher e o filho, exibições improvisadas de filmes em uma cidade no interior do Ceará, na década de 1970. A divertida fauna humana da cidade e as confusões geradas por um projetor quebrado completam o quadro dessa comédia escrachada e profundamente cearense. E as legendas servem para outros Estados entenderem palavras como “catrevagem”, “espilicute”, “bonequeiro”, “cangapé” ou expressões como “tenha nervo”, “do tempo que o King Kong era soim” e “chiba nos possuídos”.

Diretor de filmes de ação (Sunland Heat), terror (The Morgue) e drama espírita (As Mães de Chico Xavier), Haldon Halder Gomes batalhou durantes anos para transformar um curta que fez em 2004 (Cine Holiúdy - O Astista Contra o Cabra do Mal) em um longa que homenageasse as coisas que mais ama na vida: o cinema, o humor e sua terra. E agora está feliz “que só uma porra”. Falaí, macho réi.


Como foram as exibições em Fortaleza?
Sensacionais! Todas as sessões esgotadas horas e dias antes, em todos os cinemas e em todos os horários. As pessoas não saem simplesmente satisfeitas - o que já seria excelente -, mas, sim, militantes do filme. Tenho visitado e aberto sessões diariamente nos cinemas da cidade pra agradecer este carinho.

E sua expectativa pra recepção do filme em outras regiões do Brasil, especialmente Sul e Sudeste?
Também espero uma ótima recepção. O filme já esteve em vários lugares do mundo, e andou pelo Brasil, em festivais, e tem encantado por onde passa. É uma história de amor universal, acima de tudo. Muitos críticos o chamaram de Cinema Paradiso Brasileiro.

Em seus filmes anteriores você trabalhou em gêneros (ação, comédia, terror) e temas (espirituosidade) bastante populares. Que cineastas ou artistas são referências no seu trabalho? Que outros tipos de gêneros você gostaria de trabalhar?
Minha vida sempre foi muito intensa e eclética de universos: luta, surf, futebol, artes plásticas, etc. Quero contar histórias com que me identifico, por isso esta pluralidade. Não tenho tantas referências, sou mais de fazer reverências a muita gente e coisas que gosto, como pintura, músicas, filmes, futebol, etc. Isto sempre está presente nos meus filmes. No momento, quero fazer mais comédias de ação, em parceria com a Downtown Filmes,  e, em seguida, um filme autoral, sobre um pintor no fim da vida, Vermelho Monet.

Haldon Halder Gomes no set de Cine Holliúdy; peguei a foto aqui

Ouvi você falando em outras entrevistas que existe uma procura consciente da sua parte pelo público, pela comunicação com a plateia. O que você acha que os brasileiros querem ver na tela? E como lutar contra Hollywood?
Sim, faço minhas pesquisas empíricas de mercado. Procuro nichos latentes e seus anseios. O cinema nacional precisa saber se posicionar e compreender sua diversidade cultural e regionalização em virtude de suas dimensões continentais e populacionais. Cine Holliúdy está aí pra mostrar ao cinema nacional independente como enfrentar Hollywood.

O que você aprendeu nos seus anos de Estados Unidos em termos de produção e comunicação?
Uni meus conhecimentos em administração de empresas e especialização em marketing a aplicação no cinema, como produção e lançamento. Pude aprender o que eles fazem de melhor e aplicar à nossa realidade, com precisão e cadeia produtiva, sem perder a autoralidade.

O Ceará é muito conhecido por seu humor e seus humoristas. Como você descreveria o humor cearense?
O humor cearense é diferenciado devido a nossa capacidade de saber rir de si, de não ter barreiras para a piada sem medo de perder o amigo. Este exercício diário de humor aguçado nos deixa mais criativos e com timing perfeito pro humor. Tanto é que no Ceará não existe bullying. Nós temos o anti-bullying, que é uma expressão local que diz “Aí dentu!”. Assim, todo mundo tira onda com todo mundo, e assim vivemos um show de humor no cotidiano.

com vocês, o curta cine holiúdy - o astista contra o cabra do mal.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

yahoo #47, um novo começo

pois então... pouco mais de três meses de lapa de baixo (aka istoé) depois, o que era sólido se desmanchou no ar, e voltei ao fantástico e assustador mundo da frilândia. uma das primeiras coisas que fiz foi ligar para o bróder michel blanco para reativar minha coluna no ultrapop (afinal, meu rostinho feio continuava lá no header junto com pedro alexandre sanches e dudu tsuda). delícia voltar a escrever a coluna, saiu tão rápido... e sensacional (pro mal e pro bem) acompanhar novamente as mil e uma loucuras na caixa de comentários. tava com saudades, nem sabia quanto. e o texto de volta deve agradecimentos ao deputado protógenes queiroz e sua delirante cruzada contra o ursinho e a "mensagem" do filme ted, de seth macfarlane.



O URSINHO DA MALDADE CONTRA O MORALISTA MÍOPE

Foi domingo agora, provavelmente em algum normalíssimo cinema de shopping, que o deputado federal Protógenes Queiroz (PC do B/SP) levou seu filho Juan, “o pequeno Juan” de 11 anos, para assistir ao longa norte-americano Ted. Deveria ser um programa divertido, pai e filho juntos, domingão, mas deu tudo errado, pelo menos para Protógenes que ficou absolutamente chocado com o filme e saiu xingando muito no twitter (as aspas logo abaixo estão do jeito que o excelentíssimo digitou). Até agora ninguém sabe o que o menino achou do acontecido.

“Assisti com o pequeno Juan o filme Ted uma cena de apologia às drogas: o ursinho Ted e o seu dono consumindo drogas. Isso é um absurdo! MJ [Ministério da Justiça] deve explicações!”, mas sua raiva santa não se conteve com isso e no dia seguinte aumentou a carga. “Acionarei os meios legais, a fim de impedir que o lixo o filme infanto-juvenil Ted seja exibido nacionalmente e apurar responsabilidades. O filme não esta apropriado para nenhuma faixa etária. Incentivar o consumo de drogas é crime, usando ainda ícones infantis.”

Bem, na minha terra isso tem nome e um nome apenas: censura. Curioso que no mesmo dia, o deputado disse que não concorda “com a restrição a liberdade de expressão” ao comentar uma notícia sobre censura a blog do Estadão.

Curioso também que o político que ficou famoso quando era delegado da Polícia Federal e integrou importantes operações como a que prendeu Law Kin Chong, o maior contrabandista do Brasil, e a complexa Satiagraha, a que encarcerou momentaneamente o banqueiro Daniel Dantas, Celso Pitta e Naji Nahas, não deu uma investigadinha nos antecedentes do filme. Não olhou o trailer, não levou em conta a classificação (“Não recomendado para menores de 16 anos”) e não leu críticas, portanto não ficou sabendo que Ted é o primeiro longa de Seth MacFarlane, mais conhecido por ter criado as animações críticas e debochadas Family Guy, American Dad! e The Cleveland Show. Viu o ursinho no cartaz e achou que estava tudo bem para o pequeno Juan.


No entanto, o pior veio depois. O valente deputado que conseguiu criar as CPIs de Carlinhos Cachoeira e da Privataria Tucana simplesmente não entendeu o filme. Fala de incentivo de uso de drogas justamente quando o ursinho drogado é visto no filme como um vagabundo imaturo. Em uma reportagem no Estadão, Protógenes “disse que o filho perguntou se ele queria ir embora. ‘Respondi que não. Queria ver até onde ia aquele desrespeito.’” Parece o papo clássico de falso moralista. Quer dizer, ou se tem maturidade para falar o que é certo e errado para o seu filho, sem precisar apelar para qualquer tipo de proibição, ou você é um fracasso como pai/educador/cidadão.

Então, a partir de uma indignação conservadora e absolutamente pessoal, o deputado decidiu que seus preconceitos deveriam se estender a todo o país (“#foraFilmeTED das telas do cinema brasileiro. Não aceitamos mais esses enlatados culturais americanos no Brasil”). O filme é bom? Ruim? Aí vai da opinião livre de cada um. A reação, principalmente no twitter, foi rápida, irônica, inclemente e tão poderosa que ele desistiu do banimento do filme e já se contentava com a classificação de impróprio para 18 anos. Ainda deu tempo de soltar um desabafo ontem: “O mundo esta cheio de ursinho Ted”. E em vários lugares do mundo, Teds dos tipos mais variados soltaram risadinhas esfumaçadas.

Felizmente, essa história não vai dar em nada, diferente de outras restrições conservadoras e burras que ainda teimam em aparecer aqui e ali no Brasil (São Paulo, ou Kassabistão de Tucanópolis, está ficando mestre nessas patacoadas). E tomara que o pequeno Juan se saia melhor que o pai.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

caio blat não é mais um menino

taí outro frila que fiz antes da entrada na istoé, dessa vez para a revista de bordo da trip linhas aéreas. caio blat estava em um batidão de entrevistas e a nossa conversa durou pouco mais de dez minutos (por isso não tem nenhum material extra). e foi durante a igualmente breve sessão de fotos para a revista, feitas por érico hiller, que fiz essas que ilustram o perfil.



CRESCENDO NO TRABALHO

Um dos atores que mais trabalha no cinema brasileiro, Caio Blat lança dois longas ao mesmo tempo e comemora a maturidade de seus novos personagens

Caio Blat está cansado. Dormiu pouco, acordou no Rio de Janeiro, pegou ponte aérea e veio até São Paulo para divulgar Uma Longa Viagem, novo longa de Lúcia Murat. Poucas semanas antes estava em outro batidão de entrevistas, dessa vez sobre Xingu, de Cao Hamburger. Sem falar que é pai de um menino de 2 anos, Bento, primeiro fruto de seu casamento com a atriz Maria Ribeiro. Com tudo isso acontecendo ao mesmo tempo, não é surpresa lhe flagrar soltando um ou outro bocejo entre perguntas e respostas.

“Fazer um filme é um esforço tão grande, um desgaste tão descomunal, que normalmente quando termino um me dá vontade de ir para o extremo oposto”, revela sobre as diferenças entre os dois filmes que protagoniza e que chegaram juntos aos cinemas. Xingu é um épico sobre a expedição dos irmãos Villas-Bôas por desconhecidas terras indígenas nos anos 1940, com grande elenco e filmagens em externas. Já Uma Longa Viagem é um documentário pessoal, no qual Blat, sempre sozinho em cenas filmadas dentro de um casarão, interpreta as cartas escritas na década de 1970 pelo irmão da cineasta Lúcia Murat em suas perambulações pelo mundo. Essas cenas se alternam com imagens de arquivo e entrevistas com o próprio Heitor Murat.

“Minha carreira é pautada por essa busca pela diversidade. Quando termino um filme de violência quero fazer um de amor. Quando termino um de amor quero fazer, sei lá, um documentário. Esse é um dos valores que me move”, e por isso acabou desistindo de atuar em A Montanha, de Vicente Ferraz, sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial (Daniel de Oliveira entrou em seu lugar). Seria muito parecido com sua experiência em Xingu e o deixaria outros meses longe do filho pequeno.


Foi assim que ele partiu de uma grande aventura histórica para essa “viagem absolutamente intimista” retirada do baú de memórias de Lúcia Murat e seu irmão Heitor. “Fiquei comovido com o convite porque o material com que ia trabalhar eram cartas muito íntimas com histórias familiares de muita dor, dificuldades, perdas... era como se ela me chamasse para dentro da família.” E lá se foi Blat ser o irmão mais novo, aquele que mandado a Londres para não se meter na luta contra a ditadura – a irmã Lúcia foi torturada e ficou presa por 3 anos e meio – acabou por cair no mundo em busca de sua própria identidade. O que os irmãos descobriram em suas jornadas e o que se perdeu no caminho calaram fundo no ator. “Foi uma surpresa ver uma pessoa que passou por processo tão maluco de adoecimento e alienação se revelar de uma tremenda lucidez e uma auto-ironia muito forte. Não foi à toa que ele queria ir pra Índia, afinal lá os loucos são considerados iluminados. O Heitor questiona nossa sociedade de uma forma muito genial e autêntica.”


Mas Uma Longa Viagem marcou também o reencontro de Blat com uma época que muito lhe interessa e na qual esteve outras vezes, afinal o curta O Quintal dos Guerrilheiros (2005) e os longas O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006) e Batismo de Sangue (2007) também se passam entre o fim da década de 1960 e início dos anos 70. “É que [nessa época] tem essa predisposição de ir para o mundo, de questionar tudo e todos, de querer romper com a família e as instituições, novas formas de consciência, novas formas de comportamento... acho que a minha geração [ele nasceu em 1980] que já cresceu na democracia nunca vai ter a dimensão do que é viver em um país sob a ditadura, de ter que lutar por liberdade de expressão.”

Esse movimento pendular de uma época entender a outra, de uma geração dialogar com outras, sempre o acompanhou. Foi assim com sua paixão pelos livros desde os tempos de criança, começando pelos romances de mistérios e crimes escritos por Agatha Christie (1890-1976) e seguindo pela poesia de Castro Alves (1847-1871) e Álvares de Azevedo (1831-1852). Lendo sempre e trabalhando muito, Blat foi construindo uma carreira variada, com novelas para toda família (Um Anjo Caiu do Céu, Da Cor do Pecado e Caminho das Índias), filmes densos (Lavoura Arcaica, Quanto Vale ou é por Quilo? e Bróder), trabalhos mais leves (O Bem Amado, Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos e As Melhores Coisas do Mundo) e até, espírita que é, longas que versam sobre sua crença (Bezerra de Menezes - O Diário de um Espírito e As Mães de Chico Xavier).

“Comecei muito novo [a atuar] então meus trabalhos se aproveitaram dessas diversas fases. Tinha uma cara de menino, então isso me manteve durante muitos anos fazendo personagens que tinham certa pureza, mas também fiz filmes fortes com diretores com linguagens muito diferentes como Cláudio Assis (Baixio das Bestas) e Hector Babenco (Carandiru), que inclusive não se bicam”, relembra.

Após lançar Xingu e Uma Longa Viagem, Blat aguarda a finalização de Corpo Fechado, o primeiro longa de Luiz Henrique Rios, diretor de novelas da Rede Globo, baseado em contos do livro Sagarana de Guimarães Rosa. Também está filmando A Pele do Cordeiro, novo filme de Paulo Morelli (Cidade dos Homens), e daqui alguns meses voltará a colocar os pés no Projac para atuar em Lado a Lado, novelas da faixa das 6.

“Essa trajetória me enriqueceu muito, ajudou a criar minha própria linguagem e me deu vontade de interferir mais no processo, tanto que dos últimos sete ou oito filmes que fiz também sou produtor associado. Fora que de uns quatro ou cinco anos para cá comecei a interpretar adultos e foi uma conquista importante. Alcancei uma maturidade nos personagens”, explica o jovem adulto que teima em esconder com uma vasta barba sua eterna cara de menino curioso.

domingo, 18 de dezembro de 2011

as canções que você fez pra mim

segue aqui no esforçado o texto que foi minha primeira contribuição ao farofafá, dos camaradas pedro alexandre sanches e eduardo nunomura. é sobre o novo documentário de eduardo coutinho, as canções, que ainda segue em cartaz em poucos cinemas nas cidades de são paulo, rio de janeiro, fortaleza, salvador, porto alegre, brasília e joão pessoa.


NO CORPO DE QUEM CANTA

As Canções, o mais novo documentário de Eduardo Coutinho, estreou na sexta passada em alguns poucos cinemas de algumas poucas cidades e, provavelmente, não fará a boa e surpreendente bilheteria que Edifício Master teve lá em 2002. Não merecia. Só o anúncio que foi colocado para convocar pessoas no Rio de Janeiro para participar do filme (“Alguma música já marcou sua vida? Cante e conte sua história”) já seria uma deixa para se prever que Coutinho levaria o espectador para o terreno dos sentimentos mais populares: amor, perda, traição, saudade, alegria. E isso dá samba, sabemos bem. Ou samba canção. Ocasionalmente bolero. É identificação imediata e não importa idade ou gosto musical (e olha que a faixa etária d’as canções do documentário é alta). Enfim, sucesso. Mas isso não acontecerá com As Canções e sua muita tímida distribuição.

Ao total, 237 pessoas foram entrevistadas pela sempre afiada equipe de Coutinho, 42 foram gravadas e 18 entraram na edição final. O formato do filme é o mesmo de Jogo de Cena (2007) – uma cadeira, um palco, um entrevistado por vez rasgando o peito -, o que acaba lhe conferindo um ar de déjà vu. Mas isso é o de menos, originalidade hoje em dia está nos detalhes ou na construção de algo. O que importa em As Canções são as histórias e suas relações íntimas com a música popular brasileira. Coisa de pele mesmo.

Como a de um músico (tô em dúvida agora sobre a profissão do cara), talvez a mais surpreendente dessa leva. Ele conta sobre seu primeiro casamento que o levou a tocar na Igreja Batista, e da súbita interrupção do mesmo com a morte de sua mulher. Depois a depressão, um novo amor, o segundo casamento, a saída da igreja. Mas acaba lembrando de uma música (“Esmeralda”, bolerão de 1960 cantado por Carlos José) que associa a sua mãe costurando em casa. E começa a chorar copiosamente. Mas sua mãe está bem, viva, 85 anos, não tem nada de errado e ele fica desconcertado sem saber por que chorou desse jeito, com essa música.

Muitas outras histórias aparecem. Doloridas, divertidas, ricas, mas a maioria girando em torno de amores perdidos, por desencontros ou separações. É aí que as músicas de Roberto Carlos (e Erasmo) entram de sola nos corações de alguns entrevistados (“Não se Esqueça de Mim” e “Olha”) e de milhões de brasileiros. Coutinho chegou a afirmar em entrevista recente que o filme todo poderia ter sido feito apenas com Roberto e Erasmo, mas que as negociações de direitos seriam muito problemáticas.

De qualquer forma, entram ainda nesse microcosmo sentimental canções como “Minha Namorada” (Carlos Lyra e Vinícius de Moraes), “Retrato em Branco e Preto” (Tom Jobim e Chico Buarque), “Último Desejo” (Noel Rosa) e as clássicas versões em português das latinas “Fascinação” e “Perfídia”. A música mais nova presente no filme é “Que Nega é Essa?” (Jorge Ben), já que “Pais e Filhos” (Legião Urbana), segundo o próprio realizador, acabou ficando no chão da sala de edição.

E assim, em suas falas e histórias, os personagens vão deixando claro que o romantismo é a faceta mais importante, mais próxima, de sua relação com o cancioneiro popular brasileiro. Músicas servem para lembrar, celebrar ou curar o amor, são terapêuticas em sua essência, e é isso que marca a vida das pessoas (a maioria das histórias do filme são entre mulher X homem, mas também entraram casos de filho X pai e filho X mãe).

Ainda haverá o momento que conseguiremos entender direitinho porque povo tão festivo curte mesmo uma fossa. As Canções, de Eduardo Coutinho, dá uma pista: a música popular é o divã do povão.



Epílogo-diálogo

No sábado a tarde, 10 de dezembro, um dia após a estréia, o colega James Cimino me chamou no facebook perguntando se eu gostava de Coutinho (respondi que sim, claro), porque ele não gostava, tinha escrito uma crítica negativa ao filme e queria saber minha opinião, queria entender porque as pessoas gostavam do cineasta. Então li seu texto, voltei ao bate-papo e, brincando, disse que como ele já tinha me adiantado que não gostava do Coutinho discordei de tudo que ele tinha escrito. Ali, na hora, começamos a discutir o processo dele, as escolhas, mas só depois de assistir o filme à noite tive a confirmação do que, pra mim, era o erro de sua análise.

“Na maioria dos casos, os entrevistados estão apenas expostos ao escárnio público, quando não à piedade coletiva”, diz Cimino sobre os personagens que vão cantando, abrindo e fechando suas feridas publicamente. E isso eu não consigo entender porque vejo aquelas pessoas com muito orgulho de ter essas histórias e de poder contá-las (ou teatralizá-las). Sentir-se constrangido com essa exposição é problema unicamente do espectador.

Tenho certeza que se o estrevistado tivesse se arrependido ou tivesse “apelado”, Coutinho seria o primeiro a cortá-lo (tanto para preservar o filme quanto o personagem, afinal sendo jornalista como Cimino, eu e os camaradas do Farofafá, ele sabe que ‘respeito’ e ‘confiança’ são fundamentais na relação ideal entre entrevistado e entrevistador).

Cimino fala ainda que “ao encadear essas histórias desconexas umas das outras, não apresenta reflexão nenhuma, como se espera de um documentário”. E aí está outro erro. As histórias não são nada desconexas, pois na costura de todos os depoimentos está a ligação íntima entre sentimentos pessoais e sua manifestação musical (o bom e velho “essa música foi feita pra mim”). No mais, um documentário, como qualquer outro filme, não é obrigado a apresentar reflexões, ou o que quer que seja, como “se espera”. As histórias podem ser bem ou mal contadas, e o resto é com a gente.

Pra mim é impossível imaginar Coutinho explorando a miséria humana, como Cimino afirma numa comparação de As Canções com realities shows que apelam para o choro fácil. Em todos os seus filmes que vi – de Cabra Marcado Para Morrer a Moscou, passando por Santo Forte, Babilônia 2000, Edifício Master, Peões, O Fio da Memória e Jogo de Cena –, a emoção é sempre intensa, mas o choro é raro e quando vem é à reboque de uma identificação com a história de uma ou outra pessoa (e não por meio de artifícios).

Coutinho é um antisentimental por natureza, oras bolas, mas seus entrevistados não, e é desse “confronto” que surgem alguns dos melhores momentos de seus filmes. Porque Coutinho não julga e gosta de ouvir, o que faz com que seus entrevistados se sintam livres e confiantes para rasgar o coração diante das câmeras.


o militar aposentado que é um dos 18 entrevistados que entraram
na edição final de as canções

terça-feira, 28 de junho de 2011

nego dito, o doc

olha só o trailer de daquele instante em diante, documentário de rogério velloso sobre itamar assumpção. a pesquisa de conteúdo é do mano mauricio pereira e a estreia, em salas do cinema unibanco, é agora em 8 de julho.



e essa frase de paulinho lepetit - "acho que o sucesso bateu na porta dele muitas vezes e ele... ele não atendia" - é uma das melhores definições sobre o artista itamar assumpção.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

liberalismo ainda que à tardinha

muita coisa aconteceu desde que a marcha da maconha foi brutalmente reprimida pela polícia militar do estado de são paulo, o que acarretou na marcha da liberdade, ocorrida uma semana depois. acho que o assunto e a palavra maconha nunca estiveram tão em uso no país como nessas últimas semanas. isso, em si, foi transformador porque em ambientes repressivos a simples articulação sonora de uma palavra, assim repetidas vezes, pode tirar o medo, o peso, o estigma. mas aconteceram outras coisas.

o stf foi chamado a intervir e disse por acachapante unanimidade o que deveria ser óbvio para qualquer magistrado com dois neurônios e meio: proibir a marcha da maconha é crime contra a liberdade de expressão, um dos bem mais caros de um estado democrático. capisci?

houve outra marcha da liberdade, dessa vez em várias capitais.

estreou nos cinemas o bom documentário quebrando o tabu, de fernando grostein andrade (que antes tinha visto o caetano veloso pelado em coração vagabundo), aquele com fhc ciceroneando uma discussão transglobal sobre alternativas ao proibicionismo, com ênfase na descriminalização e regulação da maconha.



e a revista trip, assumida defensora da causa, fez uma ótima edição temática sobre o “cigarrinho de praia”, com direito a uma longa entrevista com fhc e boas reportagens como a da situação na vizinha argentina (outra vez mais progressista que nosotros). apenas três observações: nada bom usar o título do documentário para chamar para a entrevista do ex-presidente (soou venda casada e a entrevista do bruno torturra é infinitamente melhor que as falas de fhc no filme), deixem de falar com ronaldo laranjeira (aka dr. fruta, que em inúmeras vezes se mostrou uma pessoa preconceituosa e de raciocínio limitado e não há título acadêmico no mundo que me prove o contrário) e muita gente boa ficou de fora das matérias/pautas. no mais, grande trabalho.

quer dizer, momento mais que propício para começar a debater o assunto com o mínimo de maturidade (por parte dos proibicionistas, claro esteja) e acredito que quebrando o tabu tem um papel importante, mesmo com alguns tropeços, na melhora do nível para esse debate. não via cinemas, que pelo jeito sua carreira (ooops) não anda das melhores, mas numa potencial e mais interessante distribuição de seu dvd em escolas da rede pública.

acima de tudo porque é um filme habilmente didático e muito bem ilustrado com dados, além de estar posicionado positivamente sobre a questão das drogas. e o positivo, segundo a linha de pensamento aqui da casa, significa ser favorável a política de redução de danos e descriminalização e regulação, entre outras coisas (o longa trata basicamente da maconha, porque sobre as outras drogas o buraco é mais embaixo). quebrando o tabu e fhc, seu co-autor, desejam sinceramente discutir e entender o assunto, o que é um ganho e tanto para a causa em tempos bicudos de tantas reações neoconservadoras. a presença do tucano, erudito, sério, octogenário, respeitado e paulista fhc também tem um importante valor simbólico, ainda mais quando ele se expõe tão clara e progressistamente sobre um tema “maldito”. mas é isso, se o príncipe fala – “é, gente, esse negócio de combater, essa parada de proibição, deu errado, malzaê
” -, porra, você acredita.

e é isso, o proibicionismo deu errado. a violência aumentou, o consumo aumentou, as rotas do tráfico aumentaram e os grandes cartéis caíram para dar lugar a uma gigante e descentralizada (portanto, sem cara) rede de micros e médios cartéis. a maconha, no meio dessa bagunça, é um droga menor e que causa menos danos a saúde que os legais álcool e tabaco. porque então não tirá-la desse circuito ilegal, retirando assim uma grande quantidade de consumidores do contato com outras drogas (mais pesadas)? essa é uma das teses liberais do filme e que ganha uma ajuda importante por meio de uma constatação econômica: tá dando prejuízo para o estado essa história de proibicionismo, afinal os bilhões gastos por tantos países não estão dando resultado nenhum. fora o singelo fato de que drogas são usadas cotidianamente pela humanidade desde o tempo do zás-trás e que a proibição data somente da primeira metade do século 20 (portanto, não tem nem 100 anos). as pessoas continuarão a usar drogas, proibidas ou não. ah, também se fala rapidamente do uso medicinal. e lá se vão fhc e fernando grostein andrade rumo a amsterdã, lisboa, rio de janeiro e outras cidades – e em diálogos com jimmy carter, bill clinton, paulo coelho, dráuzio varela, etc - na procura de soluções, experiências e questionamentos.



difícil mensurar se o filme chegará aos proibicionistas ou se apenas pregará aos já convertidos, mas é sempre melhor fazer algo do que nada, né não? sua existência, seu contexto, seu momento, sua tese, tudo é importante. mas quebrando o tabu é sobretudo um filme de tese que busca números e falas para comprová-la, o que invariavelmente o transforma em propaganda e lhe deixa com poucas facetas. mas diferente de eduardo escorel, que em crítica mal humorada na revista piauí deu uma desancada no documentário, não procuro eduardo coutinho ou frederick wiseman onde não possa achá-los. um filme não pode ser criticado pelo que ele não se propõe ou entramos na egotrip do crítico.

partindo dessa questão complexa da propaganda gostaria de falar de alguns problemas do documentário. quase todos são decorrentes de sua cara liberal elevada, só que não dá para saber quem é o responsável: se o jovem diretor ou o velho intelectual, ou um pouco de ambos. de qualquer forma, esse liberalismo paternalista coloca todos os usuários de drogas como dependentes necessitados de um tratamento de saúde (isso fica bem claro nas falas de fhc, dráuzio varela e paulo coelho). não se menciona o direito individual, a autonomia de cada cidadão no uso de seu próprio corpo e o uso real de drogas com fins recreativos, religiosos e/ou culturais.

por causa dessa postura, o filme perde a oportunidade de entender porque as pessoas fazem uso de drogas. ao falar com um jovem branco de classe média que enfrenta uma série de perigos na biqueira (tanto por parte dos traficantes quanto dos policiais) para comprar sua maconha, o igualmente jovem cineasta não pergunta o que motiva o garoto a fazê-lo. é para dar risada com os amigos? é para assistir algum filme de ação? é para curtir uma larica total? nada, ele não pergunta qual é o barato.

o filme também não questiona a injustiça social que se esconde nas entrelinhas do proibicionismo mundo afora, afinal são os negros e pobres que continuam sendo majoritariamente presos e mortos nessa roda viva. decorrente dessa constatação, outra pergunta é deixada de lado: quem lucra com o proibicionismo, além dos traficantes? o combate ao tráfico, aliás, aumenta o preço das drogas, aumentando assim o lucro e o interesse comercial.

a discussão ainda está no começo nesse brasilzão conservador, mas a descrimizalização e a regulação da maconha (para uma posterior legalização) devem ser encaradas como os principais objetivos – dentro dessa questã das drogas - para uma sociedade mais igualitária e madura. não dá para fazer tudo de uma vez: o assunto é complicado, a ignorância/hipocrisia é muita e as drogas tem os mais variados usos e diferenças entre si. mas é certo que a proibição não ajuda em nada, só atrapalha. as drogas estão com a gente desde sempre, para o bem e para o mal, como tudo que é nosso. não adianta fugir. somos grandinhos, sabemos o que é certo e errado (e quando não sabemos fazemos merda, independente do jeito ou aditivo). simples assim.



p.s.: gostaria de finalizar com a última resposta de fhc na entrevista dada a trip, justamente sobre um dos lados do assunto não tratados em quebrando o tabu:

“eu desconheço qualquer sociedade que não tenha experiências com suas drogas de preferência. isso tem alguma relação com o transcendental. não é uma experiência religiosa, mas tem algum parentesco. é sair do objetivismo, escapar do que você não consegue escapar, que é a sua carne, da mera matéria. então, claro que não espero que um policial vá encarar nesses termos, mas eu não sou um policial. sou um sociólogo e tenho que pensar nisso. tem gente que tem experiências místicas, uma viagem, um barato espiritual. as pessoas buscam essas coisas. eu estudei umbanda. o que é aquilo? também é uma experiência mística, transcendente. e tem ali tabaco, álcool, no meio de uma tentativa de se comunicar com outro mundo. isso é natural, próprio da experiência humana, eu acho que a gente tem que entender isso com uma visão mais ampla. não estou justificando, mas as pessoas precisam ir em busca de si mesmas. às vezes recorrem à droga como desespero. às vezes recorrem sem desespero, conscientemente. eu acho que temos que encarar como parte da vida. não como algo que temos que eliminar. porque isso não se vai conseguir.”

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

obsessão em primeira pessoa

provavelmente uma das características mais marcantes dos documentários feitos na última década é a narração em primeira pessoa. quase sempre o diretor vai para frente da câmera e começa a exorcizar demônios, revelar intimidades, curar feridas ou tratar de obsessões e, ao mesmo tempo, faz o filme, tudo numa roda viva psicanalítica-metalinguista. talvez esse “subgênero” seja fruto dos reality shows que vem dominando a linguagem da tv/cinema, talvez os grandes temas agora sejam pessoais, mas isso é outra história. é que assisti recentemente dois documentários que não só possuem esse tipo de narração do diretor (sobre algum tema muito próximo) como também outras recorrências bem curiosas. winnebago man e best worst movie são de 2009, foram feitos por diretores estreantes norte-americanos e tratam de desdobramentos atuais de situações que ocorreram em 1989. mas tem mais...

o primeiro que assisti foi winnebago man, de ben steinbauer, no qual o diretor corre atrás de uma obsessão pessoal, que logo descobre não ser apenas dele e sim de toda uma geração, e que atende pelo apelido de “winnebago man”, “the angriest man on earth” ou, para ser mais preciso, jack rebney. em 1989, rebney fez uma série de comerciais/institucionais da winnebago, uma empresa que ainda existe e faz carrões-trailers (que lá são chamados de "rv", recreational vehicle). tudo bem, tudo certo, só que alguém da equipe fez uma cópia do material bruto das gravações, no qual despontavam os erros e um rebney completamente frustrado com a produção fuleira, o calor, as moscas e as próprias dificuldades em decorar o texto. e o sujeito, que devia ter quase 60 anos na época, soltava o verbo e xingava e xingava deus e o mundo. isso foi parar na tv no início da década de 1990 em programas de videocassetadas e depois teve uma sobrevida no youtube em meados dos anos 2000 (na verdade, “winnebago man” conquistou mais de uma geração). steinbauer adorava esses videos, que foram devidamente gravados numa fita vhs e exibidos a familiares, amigos e namoradas. até que crescido resolveu saber o que aconteceu com o seu “herói”. olha o trailer aí...



o documentário é sobre essa busca, mas principalmente sobre o encontro de steinbauer e rebney. o senhor de 76 anos não quer saber dessa história de “winnebago man” e celebridade virtual, vive sozinho e sem filhos em um parque no norte da califórnia e tem umas ideias bem loucas sobre a derrocada dos estados unidos pelas mãos de oportunistas como dick cheney (o vice-presidente de george w. bush), karl rove, donald rumsfeld e toda aquela patota sangue bom. por outro lado, steinbauer tem o desejo não muito secreto de que rebney fale com seus fãs de hoje (tanto pelo documentário quanto em apresentações ao vivo para fãs) como o “personagem”. rebney se nega e começa a atormentá-lo com as tais teorias conspiratórias até que uma súbita perda de visão muda o rumo da história. fragilizado e carente, rebney aceita ir aos seus fãs e, para sua surpresa, se vê feliz com a carinhosa acolhida dos nerds em exibições lotadas e as inúmeras paródias mundo afora. claro que steinbauer não se limita ao seu ponto de vista e ao de rebney e vai atrás da equipe que filmou os vídeos originais, outras pessoas que viraram sucesso involuntário na internet, o melhor amigo e admiradores (conhecidos ou não). camadas mais camadas são acrescentadas em filme que consegue ser tão autoirônico quanto seu personagem, acabando, portanto, com uma de suas falas mais conhecidas: “you believe in any of that shit?” (outras são “it ain’t worth it. not this shit. it ain’t fuckin’ worth it” e “i don’t want any more bullshit anytime during the day from anyone… and that includes me”, todas presentes nessa compilação definitiva logo abaixo).



depois veio best worst movie, de michael stephenson, que trata das filmagens e das pessoas envolvidas na produção do “pior filme do mundo”: troll 2. rodado em algum cafundó do estado de utah no ano de 1989 e lançado um ano depois, troll 2 marcou o bizarro encontro de um cineasta italiano falastrão (claudio fragasso) com um elenco de atores amadores e não-atores do interiorzão norte-americano, em meio a confusões entre línguas e um roteiro sem pé nem cabeça (e que não tem nenhuma relação com troll - o mundo do espanto, lançado quatro anos antes). só para dar uma ideia (mas desculpem aí qualquer pisada de bola, pois foi o que deu para entender pelo documentário, ainda não tive senso de humor o bastante para esse clássico trash), o filme é sobre uma família americana clássica (pai, mãe, filha adolescente e filho moleque) que chega a uma cidadezinha com uma população bem estranha. e então na verdade a família está cercada por trolls-meio-que-vampiros-mas-também-vegetarianos que dão uma bebidinha para os humanos, que se transformam em árvores, e depois os trolls os comem. e tem o fantasma do avô que ajuda o menino, e muitas mortes, gritos e frases ganchudas nonsense como “you can’t piss on hospitality!”. deu pra entender? olha só o trailer do “pior filme do mundo”.



ah, o grande herói é o pai louro interpretado por george hardy, um atlético canastrão boa praça (típico e sorridente capitão do time de futebol americano da escola) que anos depois se tornou um bem sucedido dentista na pequena alexander city, no estado do alabama. hardy é o protagonista do documentário. é a partir de sua vida no presente, do seu passado, do sonho de ser ator e da sua surpresa com o culto ao filme que se aglutinam os destinos dos outros envolvidos na produção. o que aconteceu com o povo maluco que fez esse longa? o que troll 2 significou na vida deles? como eles veem esse culto surgido nos últimos anos? só que um detalhe que muda tudo nesse documentário: seu diretor, michael stephenson, estava no elenco como o menino herói protagonista. o acerto de contas também é dele.

boa parte do documentário gira na busca e reunião do maior número possível de pessoas que fizeram troll 2. e eles(as) são achados(as), quase sempre de forma melancólica, e boa parte comparece a animadas exibições lotadas para fãs (mas também a alguns micos). porém, tensões antigas ressurgem no encontro do elenco com o diretor italiano, que parece se levar muito mais a sério do que deveria e se comunica no melhor estilo latino agressivo. agora, uma das coisas mais tocantes no documentário é ver que todos os envolvidos, até o italiano mitômano e sua mulher perua roteirista, estavam sinceramente dando o melhor de si para o filme, seriamente. segundo stephenson, essa honestidade é uma das razões pelo filme ter virado motivo de culto (ele sabe, claro, que o humor involuntário é a principal). olha o trailer do documentário.



tanto em winnebago man quanto em best worst movie, os personagens principais não conseguem esconder a surpresa em relação ao culto, por um bando de malucos desconhecidos, sobre esses momentos de frustração e constrangimento que passaram tempos atrás (e que, provavelmente, gostariam de esquecer porque depois deles nada deu muito certo na vida de quase todos). também em ambos, o diretor-sujeito e seus personagens-reais entram em franco e escancarado conflito. e, acima de tudo, os dois longas trabalham com doses maciças de material humano do mais profundo com encontros e reecontros muito reveladores. fora o confronto inevitável daquilo que sonhamos com o que efetivamente conseguimos nos tornar. são dramas e comédias surpreendentes, daquele jeito que só a realidade pode criar.

resta saber se documentaristas que começam assim tão bem em produções pessoais conseguem dar o salto rumo a temas não-umbilicais em produções futuras. isso também é crescer, diria o sábio. segundo o imdb, ben steinbauer está filmando brute force (pseudônimo de stephen friedland, compositor dos anos 1960 que teve fãs como john lennon e george harrison), enquanto michael stephenson ainda não tem novidades.

texto escrito ao som de shawn lee (hookep up classics), duke ellington (three suites), mamma cadela (mamma cadela e a geração espontânea) e igor boxx (breslau).

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

paráceará e vice-versa

foi ontem, lá no urbe, que vi o trailerzão do documentário piranha, o carimbó no ceará e já deu aquele comichão. carimbó, guitarrada, pará e ceará, tanta coisa boa junta e ao mesmo tempo, além dessa história do carimbó no ceará que não sabia e as participações de mestre vieira, aldo sena e pinduca (e mano chao!). a direção é do meu conterrâneo tibico brasil, tem participação do dj guga de castro na produção e deve sair em algum momento de 2011, pois segundo matéria n'o povo o filme está em fase de captação de recursos.



e o tibico ainda colocou outro pedacinho precioso do documentário. aldo sena fazendo uma versão veloz da sua "lambada complicada".


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

malditos sejam...

trailer do documentário malditos cartunistas (2010), da dupla daniel garcia e daniel paiva, que traça um panorama da profissão da ditadura até os dias de hoje. certeza que vai ser divertido, ainda mais com depoimentos potencialmente impagáveis de gente como angeli, allan sieber, lourenço mutarelli, arnaldo branco, laerte e o saudoso glauco.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

a música perdida do cambodja

outro documentário imperdível chegando na praça. don't think i've forgotten (cambodia's lost rock and roll) (2010) trata de uma das muitas vítimas da ditadura genocida do khmer vermelho naquele país do sudeste asiático: o rock. existia uma cena musical efervescente durante a década de 1960, mas a guerra do vietnã ali do lado e um consequente bombardeio americano ao país (porque existiam vietcongues que entravam pela floresta) levaram ao poder o "comunista" pol pot. nada mais foi o mesmo e cerca de 3 milhões de pessoas (1/3 da população) foram assassinadas, a maioria monges, professores, médicos e artistas. o longa é de john pirozzi, que já havia visitado o cambodja para filmar sleepwalking through the mekong (2007), um documentário que acompanhou a primeira turnê da banda americana dengue fever por lá (a vocalista chhom nimol é local).



e enquanto o documentário não chega por aqui (cinema? duvido. dvd? duvido. torrent? yeah) vale e muito conhecer algumas músicas que sobreviveram ao genocídio. baixei no blog id reverberations o disco cambodian rocks (parallel world records, 1996) que tem gente da pesada como ros sereysothea, liev tuk, yol aularong e sinn sisamouth, em músicas gravadas entre 1967 e 1971. dá pra baixar aqui.

elasticidade em três acordes

p.s. em 16 de dezembro de 2010: falando em música do cambodja acabei encontrando na grande floresta de possibilidades musicais do la blogotheque um video muito bacana - mais documentário que musical - protagonizado por kong nay, o "ray charles do cambodja". a história desse video está aqui, mas o principal você pode assistir logo mais...

Take Away Show #111 _ KONG NAY from La Blogotheque on Vimeo


segunda-feira, 16 de agosto de 2010

skateboarding is not a crime (parte 2)

um outro documentário sobre skate está prestes a chegar entre nós. enquanto o média dirty money (2010), já falado por aqui, tratava de um período específico (final dos anos 1980 e início dos anos 90) e na cidade de são paulo, o longa vida sobre rodas (ainda sem data de lançamento) traça um painel mais amplo sobre o esporte no brasil. a direção é de daniel baccaro, a trilha é assinada pelos irmãos daniel ganjaman e mauricio takara, e o trailer está aqui.