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segunda-feira, 9 de setembro de 2013

troca troca (musicalmente falando)

de volta à revista da gol, agora na edição de setembro saiu uma matéria sobre o disco mundo livre s.a. vs. nação zumbi, com aspas de fred 04 e jorge du peixe (em boas, mesmo que breves, conversas por telefone). achei que o disco seria bom, não tinha dúvidas sobre isso, mas me surpreendi com a liberdade e originalidade de todas as versões, e de como o jeito de uma banda se misturou com as músicas da outra (e vice-versa, etc). as minhas preferidas foram mundo livre de "a praieira", "rios, pontes e overdrives" e "samba makossa" e nação de "bolo de ameixa", "musa da ilha grande" e "o velho james brouse já dizia". 



O MANGUE NÃO PARA

Mundo Livre e Nação Zumbi refazem clássicos um do outro em disco que celebra a atualidade e o poder musical do movimento mangue beat

Pouco se falou, mas em 2012 se completaram 20 anos desde que um bando de caranguejos com cérebro enfiou antenas parabólicas na lama. A antena rodou meio mundo, mas continua lá, firme e forte, e tanto é verdade que as duas principais bandas do mangue beat continuam ativas e acabaram de se reunir em um excelente tributo ao movimento (ou seja, a eles próprios). É que o disco Mundo Livre S.A. vs. Nação Zumbi tem 14 faixas e em sua primeira metade, a banda liderada por Fred ZeroQuatro refaz clássicos dos amigos como “A Praieira” e “Samba Makossa”. Na segunda parte, é a vez do grupo de Jorge Du Peixe devolver a cortesia em versões de “Bolo de Ameixa” e “Musa da Ilha Grande”. Todas continuam fundamentais, mas a surpresa é que também parecem atuais, novinhas em folha.

“O mangue beat é um movimento conhecido pela diversidade, não existe uma sonoridade padrão. E o Nação tem um som próprio, um som forte. Eles podem tocar qualquer coisa que vai parecer Nação. É um som complicado de simular, então a gente tentou fazer com que as músicas deles soassem como a gente tivesse acabado de fazer, como se fossem nossa [risos]”, afirmou Fred ZeroQuatro após lembrar de um show em 1994, no Rio de Janeiro, no qual foi chamado de emergência para substituir o guitarrista Lúcio Maia, do então Chico Science & Nação Zumbi. Outra lembrança que o ajudou neste projeto foi a Orquestra Manguefônica, uma big band formada pelos dois grupos e que fez uma série de shows na segunda metade dos anos 2000.

“A gente tomou um cuidado muito grande para não tirar a essência das músicas do Mundo Livre porque somos fãs também. Ao mesmo tempo queríamos mostrar que são músicas elásticas e que podem trazer novidades. Fizemos versões em estados alterados e elas superaram nossas expectativas também [risos]”, disse Jorge Du Peixe, que também declarou que o próximo disco de estúdio do Nação Zumbi sai em 2014 após um longo recesso da banda para projetos pessoais de seus integrantes. Certeza que o mangue nunca deixará de nos surpreender.


FILHOTES DE CARANGUEJO 
Líderes das duas bandas indicam herdeiros do manguebeat

FRED ZEROQUATRO: “Não tenho mais aquela energia pra acompanhar tudo, mas sou muito fã do Eddie, que é de uma segunda geração do mangue beat. Entre os mais recentes destacaria a Academia da Berlinda, a Catarina Dee Jah e a Orquestra Contemporânea de Olinda. Tem muita coisa acontecendo, melhor mesmo acompanhar blogs como o Recife Rock e o Coquetel Molotov”.


JORGE DU PEIXE: “Prefiro falar de Brasil porque o mangue beat ajudou o país a se reconhecer cantando a nossa língua. E tem muita referência boa aqui, e gente nova cheia de ideias. Tem que colocar essa meninada pra se coçar como tenho feito com meu filho [Ramon Lira] e minha nora [Louise Taynã, filha de Chico Science] no Afrobombas. É que tudo influencia tudo, basta abrir os ouvidos”.

p.s.: tem ainda esse video curto com bastidores do nação gravando "livre iniciativa".


atualização: saiu o clipe com o nação zumbi tocando "musa da ilha grande". imagens de estúdio durante a gravação, na verdade, e os tambores/percussão não aparecem (parece que o nação virou um quarteto com jorge du peixe, lúcio maia, dengue e pupillo).



quinta-feira, 6 de junho de 2013

marcelo D2, o imparável

mais um perfil grande e bacana pra revista da gol, e dessa vez com marcelo D2, sujeito rapper que eu ainda não tinha entrevistado. conversamos por cerca de uma hora na loja temporária que abriu na galeria ouro fino, nos jardins, após as fotos tiradas por alex batista que ilustram o perfil. como todo bom carioca, D2 fala com desenvoltura, franqueza e humor, e fala de tudo. o resultado foge do papo manjado para lançar trabalho novo (no caso, o bom nada pode me parar) e tem uma parte que me interessou pessoalmente que é a sua visão sobre o passado, o presente e o futuro do rap brasileiro (e da sua contribuição nele). e aqui no esforçado, como sempre, uma versão um pouco maior da que foi impressa e com fotos que tirei durante o encontro.



LIBERDADE É PRA QUEM TEM

Comemorando 20 anos de carreira, e 15 do primeiro trabalho solo, Marcelo D2 lança Nada Pode Me Parar e em entrevista exclusiva fala sobre família, a volta do Planet Hemp e a boa fase do rap brasileiro

Rua Augusta, São Paulo, 4h20 da tarde. Marcelo D2 arruma o boné para cobrir o cabelo que está crescendo absolutamente fora de controle e já com vários fios brancos. Não aparenta 45 anos, principalmente vestido assim de bermuda e tênis, mas basta o fotógrafo pedir que se agache diante de um mural desenhado pelo amigo Flip para seus ossos reclamarem. Nessa hora o título do novo disco do rapper, Nada Pode Me Parar, faz um sentido todo especial e ele ri da situação.

De tempos em tempos a sessão de fotos é interrompida por fãs querendo levar uma lembrança, dar um abraço, fazer alguma piada, e D2 atende a todas e todos. Os tipos que o abordam são os mais diversos: de uma grávida a um jovem engravatado, passando por seguranças dentro de um carro-forte e um bêbado carregando um velocípede. Alguns o conhecem desde os tempos do Planet Hemp, mas uma boa parte já o acompanha na sua procura pela batida perfeita na mistura de rap com samba.

“Já vi que vai ter um monte de gente falando que o Nada Pode Me Parar é a minha volta ao rap, muito por causa do disco cantando Bezerra da Silva [lançado em 2010], mas eu nunca saí do rap! É engraçado isso porque pro rap eu sou do samba e pro samba eu sou do rap [risos]. A verdade é que o disco do Bezerra me deu confiança pra cantar e acabei me aprofundando bastante no samba, quero ir mais fundo até, mas sou do rap e queria que esse fosse um disco de rap”, diz sobre seu sexto trabalho com inéditas exatos 15 anos após sua estreia solo em Eu Tiro é Onda.

D2 está em São Paulo para lançar uma loja temporária com roupas de sua marca Manifesto 33 1/3 (até então vendida apenas em estabelecimentos multimarcas), shapes de skate, isqueiros, copos americanos, fones de ouvido, bonés e outros produtos relacionados ao seu novo disco (sua ideia é levar a loja junto com a turnê no segundo semestre). A abertura acontecerá em dois dias e já está quase tudo pronto, com direito a neon na parede (“Cara, acho que só montei essa loja por causa do neon! Sempre quis ter um neon!”, confessa e gargalha). Após a segunda e última rodada de fotos para ilustrar esta reportagem ele pode então se esparramar no sofá, abrir uma cerveja e falar tranquilamente.


“O título do disco veio de uma lembrança de quando morava numa kitchenette no Catete com o Skunk [um dos fundadores do Planet Hemp, morto precocemente em 1994]. Tinha uma frase pixada no quarto... ‘Eu já caí no chão só que me levantei / Eu faço meu sistema, / Eu dito a minha lei! / Nada pode me parar’, que é um dos versos de um rap do Thaíde & DJ Hum. Era um hino pra gente. Algumas pessoas ficaram incomodadas com o título, mas eu adoro porque acho que tem aquela arrogância boa do rap”, e de vez em quando D2 olha para a TV da loja, no qual são exibidos os clipes que a cineasta Gandja Monteiro fez para todas as 15 faixas do disco.

No telão aparecem cenas de D2 em Nova York, Amsterdam, Los Angeles, Rio de Janeiro, Recife e Luanda, um pouco da grande jornada global que foi a gravação de Nada Pode Me Parar. “Foi com certeza o disco mais longo da minha carreira. Comecei no carnaval de 2011 em Florianópolis e o processo todo levou um ano e pouquinho. Ser um disco assim road movie aconteceu naturalmente porque fui gravando em lugares onde estava indo ou que achava interessante fazer algo”.

Entre escolhas e oportunidades internacionais, o carioca gravou “Na Veia” com banda completa no lendário estúdio Electric Lady criado por Jimi Hendrix em Nova York, convidou os espanhóis do Cooking Soul (que já trabalharam com Jay-Z e Kanye West) para produzir “MD2”, conheceu o cantor Aloe Blacc que acabou participando de “Danger Zone”, e registrou “Vou Por Aí” com o amigo Mário Caldato Jr. (Beastie Boys) em Los Angeles por causa do livro On The Road de Jack Kerouac. Ainda contou com as presenças do trio californiano Pac Div e da cantora nova-iorquina Joya Bravo.

No Brasil, com exceção do amigo de longa data DJ Nuts, o rapper acabou se cercando mais uma vez de uma nova geração: Nave, Renan Saman e os conterrâneos Papatinho e Batoré (ConeCrew), Akira Presidente e Hélio Bentes (Ponto de Equilíbrio). E, claro, o filho mais velho Stephan, cada vez mais atuante. “Me sinto renovado trabalhando com eles, parece que sou eu dez anos atrás. Eles tem o gás que acho necessário e importante pro disco e pra mim”.

O exemplo de Nave é revelador desse bom trânsito que D2 tem entre gerações. O curitibano tinha 22 anos em 2005 e estava começando a produzir bases quando recebeu a ligação do já popstar rapper carioca. “Não acreditei na hora, achei que era trote, mas era ele mesmo e foi louco porque ele e o Planet Hemp foram a minha maior influência em termos de rap brasileiro”, relembra Nave. Hoje, três discos e 11 parcerias depois [quatro neste Nada Pode Me Parar], diz que D2 “alcançou um nível de amadurecimento artístico, um equilíbrio entre simplicidade e sofisticação, que qualquer um reconhece e sabe o que ele está fazendo, desde a minha tia até um criança de 7 anos”.


Voltando ao Nada Pode Me Parar, se o processo de gravação foi repleto de milhagens, novos e velhos amigos, a pós-produção reservou algumas surpresas. “Pra lançar o disco acabou demorando mais um ano porque tive problemas com samples [trechos de músicas]. Acabei tirando muita coisa porque não consegui autorização. Esse foi o lado ruim. O bom da demora foram os shows do Planet Hemp”, e lembra que a banda, celebrando duas décadas de seu surgimento, ainda fará dois ou três shows esse ano. De certo mesmo um no Central Park, em Nova York, e outro no Festival Lollapalooza, em Chicago.

“Posso te listar umas dez coisas legais dessa volta, mas o mais legal mesmo foi a gente voltar a se falar. Colocou as coisas em seus devidos lugares. Sei agora o que é do Planet Hemp e o que é do meu trabalho solo. As coisas ficaram mais claras pra mim. E foi revigorante tocar Planet depois de dez anos parado, foi f***, foi demais!”, e mata, em um gole só, o resto da cerveja e pede licença. “Cara, preciso ir ali no banheiro se não vou começar a responder rapidão tipo ‘sim’, ‘não’, ‘pode ser’, ‘com certeza’ [risos]”.


Volta então aliviado e propõe mais uma rodada de saideira. “Aproveito mais hoje em dia que antigamente. Tenho mais de 40 anos, quatro filhos – Stephan (21), Lourdes (13), Luca (11) e Maria Joana (8) – , estou casado há 13 anos, não dá mais pra ser aquela coisa doidona do tempo do Planet Hemp. A família me ajudou nisso também. Sempre fui um pai carinhoso, mas não era presente. Nunca fiz com o Stephan o que faço com os mais novos de acordar zumbi às 6 da manhã pra levar na escola. Nos últimos anos, finalmente, me tornei um pai de verdade”.

Para melhorar ainda mais o humor de D2, o ótimo momento pessoal vive em harmonia com a cidade que tanto ama e que é cantada em rimas e beats em “Rio”, uma das faixas de Nada Pode Me Parar. “Sem hipocrisia nenhuma... hoje tenho dinheiro, moro bem, então a cidade está boa pra mim [risos], mas percebi que o carioca voltou a gostar muito da cidade. Não gosto de elogiar ninguém, sou contra tudo e contra todos, mas acho que a política de segurança tem sido feita de uma forma interessante... porra, o Rio voltou a ter carnaval de rua, que é demais, um monte de gente bonita na rua e não precisa comprar abadá pra participar... tenho gostado da cidade, mas é também outro momento meu nela”.


Positivo e operante na cultura hip hop há 20 anos, D2 tem ainda acompanhado com curiosidade e interesse a renovação do rap nacional, além de ter ideias bem claras de alguém quem está por dentro dessa história toda. “Acho que o rap demorou pra se renovar no Brasil. Teve uma década ou até mais que todo mundo só queria ser Racionais, sem ser culpa deles, lógico. Racionais é Racionais, é bom pra c******, mas eles são eles. Nessa época estava fazendo outra coisa, mas aquilo me incomodava pra caramba, parecia uma igreja”.

O que D2 está falando, entre um gole e outro, é da liberdade que o hip hop, e consequentemente o rap, contém em sua essência e que não pode e nem deve ser parada por nada neste mundo. “O rap é uma música urbana que se apropria das outras, não pode ser puro, não pode ter uma cara só, e esses moleques novos tem essa liberdade de fazer a sua parada, cada um no seu papel. Tem a loucura da ConeCrew, a sabedoria do Emicida, a vontade de experimentar do Criolo, e por aí vai”. Mas, modéstia às favas, sabe que contribuiu e muito para esse estado das coisas.

“Hoje em dia essa mistura de rap com samba tá mais atual que na época que comecei a fazer, quinze anos atrás. Sinceramente não vejo como o rap brasileiro possa ser uma música respeitada sem usar elementos brasileiros. Isso é uma coisa. Só que acho que o rap ainda é turminha... gostaria muito ver minha tia ouvindo rap, por exemplo... quer dizer, ainda tem um caminho longo para o rap ser popular como um Zeca Pagodinho, mas hoje vejo o caminho mais aberto”, e mata a terceira cerveja, hora de ir embora. Em entrevista por telefone, Pagodinho retribui a gentileza: “Temos a mesma levada de partideiro, essa coisa da rima e do improviso. Ele tem carisma, é inteligente, e fala a nossa língua, fala da nossa realidade e denuncia através das músicas dele coisas que muita gente não sabe”.

O dia seguinte reserva ao rapper-partideiro alguns móveis para arrastar, quadros para pregar e, talvez, uma festa. Sorri com a lembrança dessa agenda. “Quando ficar maduro a gente volta a falar sobre essa parada da maturidade”.





BOX - D2, um bom driblador

Apaixonado por futebol e flamenguista doente, Marcelo D2 já fez até rap homenageando o ex-jogador Ronaldo Fenômeno (“Sou Ronaldo”), atual membro do comitê organizador da Copa do Mundo FIFA de 2014. Sobre o evento e a Copa das Confederações, que começa agora em junho, tem uma posição bastante clara e realista. “O que você prefere? 100 % de nada ou 50 % de alguma coisa? A Copa é meio isso. Acho que vai ser uma coisa importante pra caramba pro brasileiro e o brasileiro gosta de se sentir importante. A gente tá num momento f***, todo mundo viajando, o dinheiro tá forte, a autoestima tá boa, e acho que a Copa veio num momento perfeito com o Brasil tentado se arrumar. E cada um que se vire com isso. Quer fingir que não tá sendo enganado e continuar ficar assistindo sua TV de plasma? Fica aí. Quer fazer disso uma oportunidade e crescer realmente? Taí também. Acho que a gente vive um bom momento. Tem coisa pra consertar? Pra c******! Por isso que digo que o Brasil é um país ótimo pra fazer rap. Quer mais assunto pra rapper do que aqui?”, afirma.

terça-feira, 9 de abril de 2013

o que é que a bárbara tem?

agora na edição de abril da revista da gol saiu uma reportagem ligeira que fiz sobre o disco novo da cantora e compositora bárbara eugênia (é o que temos). pena que não rolou mais espaço porque a entrevista que aconteceu em uma padaria na vila madalena rendeu mais que as risadas e os sucos tomados. mas aqui no esforçado, meu-amiguinho-minha-amiguinha, sempre tem mais, e logo após o texto e o streaming do disco dá pra conferir o resto da conversa e algumas fotos roubadas entre perguntas e respostas. e o disco? é o que temos, produzido por edgard scandurra e clayton martin, é interessante, variado, romântico, bem humorado e atual. traz uma cantora-compositora mais segura e um punhado de músicas ótimas. destaque absoluto para "ugabuga feelings" (que a princípio me chamou atenção por causa de uma referência a "você passa eu acho graça"), "you wish, you get it" e a arrebatadora "roupa suja", dueto-hit com pélico. a estreia de bárbara em journal de bad, produzido por dustan gallas e junior boca, já era bastante promissora ("drop the bombs", "agradecimento", "o oposto do osso", etc.), mas ela realmente tem muito mais a mostrar. basta ouví-la.



LIVRE, LEVE E SOLTA

Uma das vozes mais interessantes da atual música popular brasileira está com trabalho novo na praça. É o que Temos é o segundo disco de Bárbara Eugênia, cantora e compositora nascida em Niterói, criada no Rio de Janeiro e radicada em São Paulo. “Comecei a pensar nesse disco uns dois anos atrás, mais ou menos na época que escutei Amador do Adanowsky, que foi um disco que mudou minha vida. Ele fala de buscar uma coisa maior, amor, coisas boas. É um disco totalmente hippie e vi que estava muito descolada desse meu lado meu, e de uma coisa mais espiritualizada. Foi super transformador pra mim. Aí fiquei pensando que queria um disco que fosse mais pra esse lado, cheio de canções, e com mensagens positivas”, explicou. E assim nasceram as 11 faixas do disco com sonoridades que variam da psicodelia ao iê iê iê, do bolero ao folk, com destaque para os duetos-parcerias com Pélico (“Roupa suja”) e Tatá Aeroplano (“Não tenho medo da chuva e não fico só”), a regravação de um clássico de Diana (“Porque brigamos?”) e as divertidas “Ugabuga feelings” e “You wish, you get it”. “Acho que no meu primeiro disco [Journal de Bad, 2010] tinha uma coisa mais carregada nos rompimentos, no amor, em tudo, e nesse disco, mesmo quando trata disso, tem mais piada, não se leva tão a sério”, confessa e ri, tímida, provavelmente lembrando de coisas que só ela sabe (e agora canta).



"A mudança não foi pelas pessoas e sim pelas circunstâncias da vida, porque quando fiz meu primeiro disco [Journal de Bad] tinha acabado de começar a cantar. Estava fazendo shows pouco mais de um ano antes. Então não sabia nada de nada e estava muito feliz de gravar um disco."

"Esse disco novo já estava meio pronto na minha cabeça. Quando a gente começou a ensaiar e a tirar os arranjos eu já sabia o que queria. Então coordenei.. meio que de certo produzi junto porque escolhi tudo o que queria. Essa música eu quero assim, essa outra eu quero assim... nessa eu quero o Guizado, nessa outra quero o Chankas, e foi assim... foi um disco que dominei totalmente. É um disco muito mais meu, apesar de ter sido feito em conjunto com a banda e deles serem muito meus amigos. Quer dizer, eles me ajudaram a chegar aonde eu queria. Eu tenho ideias, mas não sei executar. Mal toco violão. Então preciso muito deles pra chegar onde quero, pra fazer acontecer. O primeiro eu não sabia o que queria, mas sei que gostei, que ficou lindo, que amei. Mas tem essa diferença que é bem grande."

"Comecei a pensar nesse disco uns dois anos atrás. Mais ou menos na época que escutei o segundo disco do Adanowsky [Amador, 2011], que foi um disco que mudou minha vida num grau muito forte [ela acabou gravando “Sozinha”, uma versão dela mesmo de “Me siento solo]. Ele fala de buscar uma coisa maior, de amor, da vida, de coisas boas, é um disco totalmente hippie e eu vi que tava muito descolada desse lado meu, e da canção, e de uma coisa mais espiritualizada. Foi super transformador pra mim. Aí fiquei pensando que queria um disco que fosse mais pra esse lado, um disco de canções, com mensagens positivas."



"“Coração” é uma música super otimista. A gente escolheu ela pra começar porque sintetiza bem o disco. Não é mais lenta, nem a mais animada, nem a mais alegre, nem a mais triste. É uma música que engloba tudo isso e tem uma ‘buena onda’ ali. A Diana [“Porque brigamos?”] é aquela coisa... sou muito fã da Diana e nos show costumava cantar “Meu lamento”, mas aí fiz “Porque brigamos?” no [programa] Som Brasil e o Odair José estava lá, ele era um dos homenageados, e ele disse que eu tinha que gravar essa música. Eu me identifico muito com essa música, óbvio, porque já passei por situações assim e sinto as coisas assim. Eu faria uma música nesse estilo. Acho que no meu primeiro disco tinha uma coisa mais carregada nos rompimentos, no amor, em tudo, e nesse disco, mesmo quando trata disso, tem mais piada, não se leva tão a sério."

"E tem o bolero, “O peso dos erros”, que é uma música muito pessoal, mas não é sobre uma relação, nem sobre questões românticas, é uma outra coisa. Essa é a música mais densa do disco, gosto muito da letra dela, acho que é a minha favorita. E mesmo nela tem uma mensagem positiva. Quero que a pessoa melhore. Acho que mesmo que fale de rompimentos no disco dessa vez é com uma visão menos fatalista, menos pessimista das coisas."

"Fiz “You wish, you get it” nos 45 minutos do segundo tempo… duas músicas não tinham dado certo, não queria fazer mais uma versão, e até tinha umas músicas mais antigas, mas não queria... aí sentei em casa, comecei a ouvir Devendra Banhart, fiz uma vodka com suco de laranja [risos], fiquei lá e teve uma música que me inspirou... é isso! Comecei a escrever e fiz a música em 15 minutos. Cheguei com ela no último dia de gravação na Casa do Mancha. Fiquei muito feliz de encerrar o disco com ela, que é um rock pra cima e com uma mensagem otimista."

"Escrevi “Ugabuga feelings” em 2010 ou 2009 e ficou guardada, não sabia muito o que fazer. Aí cheguei pro pessoal e falei que tinha um axé [risos], vamos ver o que a gente faz com esse axé, porque ela é um axé, né? Total. Se a Ivete Sangalo quiser gravar ficarei feliz. Seria lindo. Aí a gente transformou em um rock, o Clayton usou Bo Diddley como referência pruma pegada mais primitiva."



"Minha voz melhorou bastante. A prática, a tal da cancha, mais soltura, segurança... tô experimentando mais. Antigamente não conseguia abrir voz comigo mesmo. No primeiro disco não tem isso. Não é porque não quisesse e sim porque não conseguia. Agora já consigo e fiz várias vezes no disco. Tenho certeza que melhorei muito e que ainda vou melhorar muito mais. Como compositora também [melhorei]... Journal de Bad foram dez anos de histórias, tem música que escrevi com 18, 19 anos, então é muita história... agora tá tudo mais fácil e ando muito inspirada. Desde o ano passado que tenho escrito bastante. Já tô fazendo um disco novo, em parceria com o Chankas, e está ficando foda. Enfim, tenho escrito muito e com a facilidade de pegar uma letra que não tava terminada e terminar, pegar um pedaço de uma e juntar com outra... estou brincando mais, experimentando..."

"Estou muito afim de fazer mais isso esse ano, trabalhar com outras pessoas... o Tatá Aeroplano, por exemplo... a gente tem uma ligação muito forte, a gente sempre fica muito feliz cantando juntos, e somos muito parceiros, temos ideias parecidas, somos amigos há muito tempo." 



p.s.: ano passado, bárbara registrou uma versão acústica "i wonder" em sua participação no projeto in.casa. no disco é o que temos, a música ganhou uma pegada country com o acompanhamento de mustache & os apaches.

segunda-feira, 11 de março de 2013

naldo ou naldo benny, pra mim tanto faz

após uma entrevista com lia sophia e uma breve reportagem sobre a série "cidades ilustradas" na edição de fevereiro da revista da gol, fiz agora pra de março um longo perfil do cantor naldo (naldo benny). a entrevista aconteceu na tarde da sexta de carnaval lá na fundição progresso, no rio de janeiro, e a noite fui ver um show seu no clube monte líbano, na lagoa rodrigo de freitas. pessoalmente não gosto do som dele, acho que falta uma sujeira aqui e ali, mas é impressionante ver o tanto que o cara deu duro, além de ser trabalhador, obstinado e sério, até colher os frutos, os muitos frutos, nesse seu momento de sucesso (e ainda é gente boa). como sempre, a versão no esforçado é maior que a publicada, mas tenho que agradecer a thiago lotufo, que tanto me chamou pra fazer o perfil como fez uma ótima edição. ah, e as fotos que tirei foram feitas durante o trabalho do marcelo corrêa, autor dos retratos do cantor que estampam a revista.



E ELE QUER MAIS

Sucesso absoluto do verão com músicas como “Amor de Chocolate”, o carioca Naldo, agora Naldo Benny, prepara-se para dominar o mundo com sua mistura de funk, pop e calor da noite

O sorriso de Naldo chega antes de seu próprio dono e motivos não lhe faltam. É o seu cartão de visitas, sua bandeira, a música que faz e, de um ano para cá, seu estrondoso sucesso. Neste verão foi simplesmente impossível andar em qualquer cidade brasileira sem ouvi-lo cantar “uísque ou água de coco, pra mim tanto faz”. De postos de gasolina a coberturas, de bailes de debutantes no interior a barracas de praia, tanto faz. E o carioca diz que isso é só começo, que tem muito chão pela frente e muita coisa para acontecer.

Quando a reportagem da Gol encontrou com o cantor, na tarde da sexta-feira de carnaval, ele estava voltando de Salvador e nos dias seguintes iria encarar um novo batidão de shows (de 2 a 4 por noite e às vezes em cidades e estados diferentes), encontrar com Will Smith e Kanye West no Rio de Janeiro, e participar de um arrastão com Ivete Sangalo e Gaby Amarantos, novamente em Salvador. E o sorrisão lá, fácil, grande, querendo mais.

Mas antes da conversa, a sessão de fotos. O palco da vez é a Fundição Progresso, lugar que frequentou quando fez aulas de movimentos de solo no espaço da Intrépida Trupe. Cuidadoso com a aparência e muito consciente de seus movimentos, o garoto que nasceu em Bonsucesso e cresceu no Complexo da Maré sabe como e de que jeito quer aparecer. Adora usar tênis, por exemplo. É seu objeto de consumo preferido e contabiliza cerca de 350 pares em casa, todos impecáveis. “Uso, chego em casa, limpo e guardo”, diz enquanto pega emprestado o tênis de seu produtor, Thiago Rodrigues, pois justamente naquele dia calçava uma sapatilha. No entanto, antes de colocar no pé não resiste e acaba dando uma esfregadinha. “Eu já gosto de tênis marcado”, diz o produtor se divertindo com a mania de Naldo.



Enquanto as fotos são feitas nos inúmeros cenários possíveis da Fundição chega Rique Silva, produtor geral e irmão do cantor, com mais alguns acessórios. Quatro anos mais novo, Rique começou a trabalhar ainda no tempo de Naldo & Lula, e a dupla já fazia algum sucesso no Rio de Janeiro quando, em 2008, Lula foi assassinado. Nascido Jorge Luiz da Silva, Lula era dois anos mais novo que Naldo e outros dois mais velho que Rique, bem irmão do meio mesmo, e sempre foi considerado o mais brincalhão da família. 

Os dois cantavam juntos desde os 15 anos e ambos começaram, ainda crianças, na Assembleia de Deus que os pais sempre frequentaram. O gosto por black music e os ídolos eternos Stevie Wonder e Michael Jackson também os uniam, mas foi pelo funk carioca, ritmo mais próximo e acessível, que entraram na música. Só que não queriam cantar “proibidões” (funks feitos para facções criminosas) e sabiam que podiam colocar sensualidade em suas letras sem apelar para vulgaridade. Restava procurar qual caminho e trabalhar duro em busca de uma carreira e não apenas uma música de sucesso.

A sorte dos irmãos mudou quando em 2005 a música “Tá Surdo” entrou numa das disputadas coletâneas do veterano DJ Marlboro. Daí surgiram convites para TV, elogios de Ivete Sangalo, clipes e shows, muitos shows, principalmente no Rio de Janeiro. Naldo, que quase desistiu da carreira após a tragédia, chama hoje o irmão de “meu anjo bom”.

“A gente tem uma base familiar muito forte, nossos pais sempre nos mantiveram unidos, e tem a nossa fé também. Acho que essas são algumas razões do sucesso do Naldo. E tem essa roupagem nova que ele deu ao funk, mais puxada para o pop. Quer dizer, nós sempre buscamos o sucesso, mas nunca imaginei que fosse acontecer desse jeito. Assusta um pouco”, explica Rique. 



A tal roupagem nova a que se refere o irmão-produtor ganhou contornos mais claros quando Na Veia, a estreia solo de Naldo, foi lançado de forma independente em 2009 como uma espécie de homenagem ao irmão. O disco trouxe material que vinha sendo trabalhado desde os tempos da dupla, mas de um jeito mais eletrônico e festeiro. E quando começaram os shows houve bastante investimento na dança e em coreografias, uma sugestão de Lula para incrementar o espetáculo. “O gancho dele é o de ser um romântico tipo Buchecha, machão tipo MC Leozinho, e meio ostentador estilo gangsta rap. Nessa pegada do romantismo acho que ele acaba fazendo uma mistura com o pagode mais romântico e o sertanejo. Ou seja, joga num campo que tem muitos admiradores”, explica o jornalista Pedro Alexandre Sanches sobre as variadas misturas do cantor.

As fotos acabam e é hora de Naldo falar. Sempre acompanhado da namorada Ellen Cardoso, a Mulher Moranguinho, ele não aparenta nenhum sinal de cansaço. “Sempre tive certeza que quando meu trabalho conseguisse chegar até o povo, o sucesso aconteceria. Sempre fui muito dedicado, trabalhei muito e sou completamente alucinado pelo palco e pela música. Acho que isso é que não me faz me deslumbrar. Estou sempre pensando no trabalho e em como melhorá-lo”, diz o novo popstar brasileiro que já foi ajudante de feirante, engraxate e segurança de supermercado.

Como disse o irmão Rique logo acima, a coesão familiar teve um papel fundamental nessa perseguição determinada de Naldo pelo sonho de uma carreira musical. A mãe Ivonete vendia produtos cosméticos pra ajudar a pagar seus estudos de canto, as irmãs tomavam conta de Pablo, o filho de 15 anos do cantor resultado de um namorico adolescente, e o pai Manoel, soldador elétrico, lhe dava conselhos que traz até hoje no coração. 

“Ele me disse uma vez que ‘em pelo menos uma coisa na vida se você não for o melhor tem que tentar ser’. Já dá minha mãe trouxe a fé em Deus para o meu dia-a-dia. E dos dois, o respeito e o carinho pelo próximo. Independente do sucesso, carrego dentro de mim esse respeito pelo ser humano”, e nessa hora Naldo lembra quando ganhou o DVD de Ouro (25 mil cópias) pelo Na Veia Tour em janeiro deste ano. Antes de entrar no palco do Citibank Hall, no Rio de Janeiro, sua mãe lhe puxou de canto e disse, com os olhos cheios de lágrimas, que sempre acreditou nele. Pausa para recuperar o fôlego.

“Ah, tenho orgulho mesmo”, diz Dona Ivonete ao telefone. “Ele sempre foi muito honesto, muito trabalhador, e sempre buscou esse sonho com aquele sorrisão bonito. Agorinha mesmo estava fazendo unha na varanda e começou a tocar na vizinha uma música do Naldo & Lula... [e começa a cantarolar] ‘Não sei se sou / O cara que você sonhou / Você precisa acreditar / Não gosto de te ver chorar’... fiquei emocionada. Gosto das músicas também, viu? Só tem umas letras que eu mudaria um pouquinho”, e ri timidamente. Está falando de “Exagerado”, mais especificamente do verso “Falar besteiras no ouvido até você gozar”. Ela trocaria facilmente a última palavra por “pirar” e quando Naldo canta a música na TV ele faz o mesmo.



“Pra minha família nunca houve problema entre as letras mais quentes e a religião. Eles sempre entenderam isso. Sabe que até mostrei minhas músicas para um pastor da minha igreja? Ele disse que não tinha nada de mais, que amor é coisa de Deus”, explica Naldo. Entre as músicas mais “quentes” de seu repertório estão “Exagerado”, “Amor de Chocolate”, “Chantilly” e “Sem Sutiã”, mas também existe espaço para o romantismo de “Meu Corpo Quer Você” (música que, em dueto com Preta Gil, entrou na trilha da novela Salve Jorge).

Só que entre esses dois pólos, a dança acaba aumentando ainda mais o calor das letras (inclusive das românticas). “Quero falar de amor sim, mas também de coisas que rolam na noite e entre quatro paredes. Hoje tenho mais liberdade e quero colocar músicas mais românticas no CD e DVD que lançarei no meio do ano. Mas pra pista não tem jeito, tem que fazer algo mais quente, mais pesado”, confessa. 

Seu próximo trabalho se chamará Benny e será o primeiro assinado por Naldo Benny, seu novo nome artístico pensado para o mercado internacional. Nesse caminho já deu outros dois passos: uma versão em espanhol de “Exagerado” e a participação do rapper norte-americano Fat Joe em “Se Joga”. “Hoje consigo brincar com os universos do funk e do pop. E isso é um som para o mundo. Li que ‘Benny’ em hebraico quer dizer justo, bendito, abençoado, e achei que tinha tudo a ver com essa história mais moderna”, e os olhos brilham ao falar que se programou este ano para três viagens aos Estados Unidos. Em duas se apresentará e em outra conhecerá, via o novo amigo Fat Joe, Chris Brown e Snoop Dogg. O sonho de parcerias com alguns de seus maiores ídolos está cada vez mais próximo.

Logo ali ao lado, por toda Lapa e Rio de Janeiro, o carnaval pega fogo e Naldo tem dois shows à noite. O segundo, com banda e dançarinos, é em um clube tradicional na Lagoa Rodrigo de Freitas, o público previsto é de 4 mil pessoas e os ingressos estão esgotados. “Nunca tive medo de nada. Eu quero o Grammy, a carreira internacional, e vou conseguir. Sei que vai ser trabalhoso e exigir muito de mim. Mas não tenho medo não.” Will Smith que o diga, afinal, dias depois, presenciou Naldo ser adorado e cantado histericamente por centenas de fãs que nem deram bola para o astro norte-americano.

Agora, se Naldo não tem medo de tamanha ousadia internacional obviamente não temeria esse seu público novo de classe média alta e seus cercadinhos VIP. Então, quando sobe ao palco, trata logo de hipnotizar a todos com sua eletricidade e uma saraivada de hits. Mas também faz questão de bater no peito suas origens e canta alto um hino para muitos brasileiros como ele: “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci”. Em seu caso, com um Grammy à tiracolo.



p.s.: abaixo, o texto nas sete páginas da revista.





sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

cheiro de floresta, luz de cidade

taí minha outra contribuição pra edição de fevereiro da revista da gol, uma entrevista com a cantora lia sophia. só lamentei que o chamado para a matéria tenha surgido poucos dias depois d'eu ter voltado de belém. teria sido ótimo entrevistá-la em casa (como sempre, o batepapo aqui tá maior do que o da revista). de resto, conversa ótima, divertida, super franca. lembro bem da minha primeira impressão quando ouvi lia cantando "ai, menina" no terruá pará: "se os mariozinhos rochas da globo fossem espertos de verdade pegavam essa música correndo pra colocar em trilha de novela". cerca de um ano depois lá estava lia embalando personagens globais. novos ventos talvez.


foto de luiz braga

A MENINA QUER CANTAR

Uma das revelações da nova música paraense, Lia Sophia emplacou música em novela e agora quer mostrar mais de sua mistura sonora de floresta e cidade

Ela surgiu no canto esquerdo do palco, girando e girando, toda de branco. Estava de saia rodada, claro, e todo o Auditório Ibirapuera, em São Paulo, parou para ouví-la cantar. Foi ali, na segunda edição do festival Terruá Pará, em junho de 2011, que uma das cantoras paraenses mais interessantes da atualidade foi apresentada ao eixo Rio-SP. Mas Lia Sophia não era uma estreante, longe disso.

Nascida na Guiana Francesa, criada em Macapá e formada e radicada em Belém, Lia Sophia já possuía três discos na bagagem – Livre (2005), Castelo de Luz (2008) e Amor Amor (2009) – quando decidiu explorar outros mares. E tudo deu muito certo, desde uma música em trilha de novela (“Ai, Menina” em Amor Eterno Amor), com direito a participação em um dos capítulos, muitos shows e chuvas de elogios da crítica especializada.

Essa música, aliás, será o carro-chefe de seu quarto álbum solo, que sairá ainda neste primeiro semestre com patrocínio da Natura Musical e produção de Félix Robatto (La Pupuña e Gaby Amarantos) em parceria com a própria cantora. “O disco tá ficando com um cheiro de floresta e com a luminosidade da cidade”, afirma Lia, que também compõe e toca violão desde os 9 anos de idade. Quem já conhece sua mistura de pop, mpb, música caribenha, carimbó, brega e guitarrada sabe que um dos discos do ano está prestes a nascer.



Você é de uma família de músicos, sua mãe foi cantora de rádio, e mesmo assim ganhar a vida com música não era visto com bons olhos em sua casa. Ao mesmo tempo você cantava em igreja e aprendeu a tocar violão. Qual era o receio deles?  Naquela época, o que era música pra você?
Na minha casa a música sempre esteve presente, com duas funções bem distintas, uma era a de louvar a Deus – caminho por onde eu e meus irmãos seguimos, na infância e adolescência, na igreja – e a outra era a de alegrar as festas que meus pais faziam em casa, e eram muitas [risos]. Não se ouvia música que não fosse pra dançar. Chico Buarque, Caetano Veloso, João Gilberto e Maria Bethânia, nem pensar! Até os meus 17 anos de idade, eu não conhecia esses artistas, até já tinha ouvido alguma coisa, mas muito pouco mesmo. Boleros, bregas, zouks, carimbós, merengues, era isso que rolava. Meus pais não viam na música uma profissão segura, rentável, temiam que eu ou meus irmãos nos perdêssemos nos bares da vida, sem ter uma segurança financeira. Ironicamente, comecei a aprender violão por imposição de minha mãe, que sempre quis tocar e nunca teve a chance de estudar. Eu não queria tocar violão, machucava os meus dedos, e tinha apenas 9, queria fazer outras coisas. Mas quando toquei a primeira música que aprendi ao violão (“Pobre Menina”, Leno e Lílian) recebi muitos elogios, aplausos, foi um momento mágico, me apaixonei. Daí por diante passei a dormir abraçada com o violão ouvindo a rádio e tentando tocar tudo o que ouvia. Nessa época, e ainda hoje, a música é pra mim, uma forma de me aproximar de Deus. Me faz estar próximo do que é divino. Tocar um instrumento, compor uma canção, cantá-la, me faz sentir divina, criando algo novo e único. 

Imagino que sua mudança pra Belém para fazer faculdade tenha sido libertadora. Como a música foi entrando na sua vida nessa época? Teve algo de revolta com a família ou foi mais tranquilo? O que fazia teus ouvidos na época?
A mudança pra Belém era uma necessidade, pois em Macapá os cursos universitários eram muito limitados, não havia muita opção.  Nesse momento não foi nada libertador pra mim. Belém era a cidade grande, onde eu não conhecia ninguém, teria que aprender a andar de ônibus, fazer minha própria comida, cuidar de mim e ainda provar que era capaz de passar em uma prova de vestibular onde a concorrência era de 25 pra 1! Foi na verdade apavorante! [risos] Só hoje eu consigo ver como foi libertador! Me formei em Psicologia pela UFPA [Universidade Federal do Pará] mas nunca atuei na área. É que a música sempre esteve na minha vida e a necessidade de independência acabou me levando pra esse caminho. Comecei tocando em bares, depois fui para dentro dos teatros, os discos vieram, os shows foram aumentando, essa paixão toda me dominando [risos]… e a música se tornou a minha profissão. Com a qual conquistei respeito, construí a minha vida, com a qual me mantenho, enfim ultrapassando os limites e quebrando todos os preconceitos que a mim foram impostos e ensinados. É claro que nesse novo caminho escolhido, logo no início, tive sim alguns estranhamentos com meus pais, eles não botavam fé, mas foram mudando de opinião com as minhas vitórias. Nessa época ouvia muito Chico Buarque, João Gilberto, Marisa Monte, Gal Costa, Caetano Veloso… isso tudo me ajudou a começar a compor minhas primeiras canções.   

Como você vê hoje, com cerca de 10 anos de carreira, esse seu começo? Foi fácil ou difícil, e como foi, construir sua própria personalidade musical? E o lado compositora?
Esse começo foi difícil. Tocar em bar não é fácil, embora seja uma super escola para um artista, os cachês são muito baixos, as condições de equipamentos de som são péssimas, o repertório tem que ser bastante eclético para agradar ao público, nem sempre se toca só o que se gosta… e tudo bem, aprendi muito nessa época. Aprendi a cantar com muita alegria e prazer, sempre, mesmo em condições adversas, aprendi a respeitar e a valorizar o público que me assiste, aprendi a ser profissional. A minha personalidade musical foi se construindo nesse caminho, as minhas influências musicais da infância foram se misturando as novas descobertas, e as minhas composições deixam bem claro isso. Hoje acho que estou vivendo um momento de maturidade musical. Sei muito bem o que quero compor, cantar, como quero que soe e me envolvo na produção do meu trabalho em todas as etapas. A composição é um trabalho diário, com o qual eu tendo ser bem disciplinada, tiro sempre 2 a 3 horas diárias para trabalhar compondo, não costumo viver dos momentos de inspiração, quando eles acontecem, ótimo, senão acontecem, trabalho do mesmo jeito.


lia no show coletivo "terruá pará"

Nos últimos anos, a música paraense se tornou a bola da vez em termos de sucesso e encantamento nacional. Como você acha que isso aconteceu? O que tem a música paraense de mais interessante? O que você mais gosta pessoalmente nela?
Uma série de fatores favoreceu a música paraense, entre eles, as leis de incentivo estadual e municipal, palcos de diversos festivais de música produzidos aqui e pelo Brasil onde esses artistas puderam expandir seus públicos, a autopropaganda na internet e suas redes sociais, etc. Mas acho que essa é uma construção de muitos anos, e fazem parte dela, artistas que mesmo não inseridos diretamente neste momento, ajudaram para que isso seja possível agora. Artistas como Pinduca, Fafá de Belém, Nilson Chaves, Banda Calypso, e muitos compositores de Brega dos anos 1980 e 90, que a muito custo e sem esses fatores acima citados conseguiram levar para o Brasil um pouco da diversidade da música paraense. O que tem de mais interessante na música produzida aqui é a diversidade. Diversidade de influências, de sonoridades, de ritmos. Somos influenciados pela música do Caribe, que desde os anos 50 chegava por aqui pelas ondas do rádio, como o merengue, o calypso, o zouk, pela música africana dos quilombolas como o lundu e o carimbo, pela música indígena, e mais recentemente a música eletrônica. O que mais gosto na música produzida no Pará é a possibilidade de subverter os conceitos e poder fazer música com liberdade. É possível misturar música clássica com carimbó, ou rock com brega, merengue com jazz, e tudo bem, a música feita aqui tem uma identidade única. 


lia e a conterrânea gaby amarantos

E como você vê essa geração que você faz parte e que tem tanto o pessoal que pode ser rotulado como MPB (você, Luê, Felipe Cordeiro, etc.), gente que veio das aparelhagens (Gaby Amarantos, Gang do Eletro) e gente da velha guarda (carimbó, guitarrada, Dona Onete)?
É difícil rotular a música produzida no Pará. É possível perceber um pouco da música de cada um misturada a música do outro, mesmo assim são trabalhos muito diferentes. O carimbó que eu faço é diferente do carimbó que a Dona Onete faz, assim como o tecnobrega da Gaby é diferente do que faz a Gang. 

Emplacar música em trilha sonora de novela da Globo muda a vida do artista? Como foi essa experiência?
Muda um pouco sim. É claro que toda a visibilidade que a novela traz dá muitas possibilidades para o artista divulgar o seu trabalho ainda melhor. Mas é claro que isso depende muita coisa. Se a música foi bem tocada na novela, se o artista está preparado, bem assessorado para aproveitar esse momento, se tem um trabalho sólido para mostrar a partir daí, se esse artista tem um público que mantenha os seus shows e a sua agenda, enfim, a novela é apenas mais um passo na carreira de qualquer artista. Para mim foi uma surpresa muito feliz ter uma música em uma novela. Segundo o diretor, minha música foi descoberta em uma rede social na internet, através da produção que fazia pesquisas para compor a trilha musical. Eu havia gravado a música “Ai, Menina” em um disco promocional que enviei para várias rádios públicas, jornalistas, produtores, festivais, além de colocar para download na internet. Acabei colhendo frutos incríveis! A música foi parar na novela e eu, em uma cena da novela cantando o carimbó que virou hit. A música está sendo tocando em diversas rádios do país, cantada pela Timbalada, Preta Gil, Gaby Amarantos, foi a música mais executada na quadra junina no Pará, enfim, uma benção pra mim. A propósito, tenho feito isso há anos. Envio pelos Correios os meus discos para um mailing de contatos que consegui juntar em todos esses anos de carreira, que vão desde jornalistas, produtores, revistas, rádios. Já cheguei a gastar quase 3 mil reais com postagem de correios de uma só vez, acreditando que essa semente frutificaria. E frutificou! Meus discos tocam em lugares pra onde nunca fui. Ainda. 



Como estão os preparativos de próximo disco solo? Quais as novidades e diferenças deste trabalho para os anteriores?
Esse será o quarto álbum, e está sendo produzido por Félix Robatto e co-produzido por mim. Deverá ser lançado até abril deste ano. Já estamos no processo final das gravações e depois partiremos para a mixagem e finalização. Esse disco vem com uma linguagem contemporânea que traz as raízes da música paraense em muitas de suas vertentes. A ideia é mostrar toda a latinidade amazônica de maneira moderna misturando várias influências rítmicas do carimbó, da guitarrada, do zouk, o marabaixo com pitadas de elementos eletrônicos. O álbum traz uma brasilidade própria da região norte e nova para o Brasil. O repertório é composto em 70% de composições minhas em parceria com outros artistas, mas terá também regravações nacionais e locais. O disco tá ficando com um cheiro de floresta e com a luminosidade da cidade.

p.s.: depois vi que lia reviveu seus tempos de barzinho em sua participação no programa som brasil (tv globo). o repertório? "a lua e eu" (cassiano), "noite do prazer" (brylho, com participação de cláudio zolli) e "bye bye tristeza" (sandra de sá).

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

tudo é viagem

comecei o ano fazendo uns trabalhos bacanas pra revista da gol. agora na edição de fevereiro saíram dois, este sobre lançamentos da série cidades ilustradas (casa 21) - a conversa com os irmãos fábio moon e gabriel bá foi por email e com o lourenço mutarelli por telefone - e uma entrevista com a cantora paraense lia sophia que já coloco aqui. e tem mais coisa pela frente. ah, e como sempre, a versão aqui é ligeiramente maior do que a editada.


autoretratos


DE FORA PRA DENTRO

Série 'Cidades Ilustradas' lança álbuns nos quais os ilustradores Lourenço Mutarelli e os irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá viram e descobriram nas cidades de Manaus e São Luís, respectivamente

Quem viaja, sabe. Muitas vezes um olhar estrangeiro, de fora, revela mais sobre uma cidade do que os que nasceram nela podem imaginar. Pensando nisto, e tendo como referência os cadernos de viagens que europeus fizeram nos tempos do Brasil Colônia e Império, a editora Casa 21 deu início, em 2001, a série Cidades Ilustradas. O primeiro álbum trouxe o Rio de Janeiro segundo o traço e o bom humor do francês Jano e acabou resultando ainda em um premiado documentário (Rio de Jano).

“A escolha de Jano deveu-se ao fato dele ser um artista viajante - esteve na África e Índia onde produziu dois lindos álbuns. (...) Em geral, escolhemos um autor com perfil de artista viajante, avaliamos o seu traço e tentamos uma aproximação com uma determinada cidade”, explicou Roberto Ribeiro, diretor e editor da Casa 21.

De lá para cá outras cidades brasileiras foram esquadrinhadas pela série: São Paulo pelo inglês David Lloyd, Belo Horizonte pelo espanhol Miguelanxo Prado, Brasília pelo gaúcho Edgar Vasques, Curitiba pelo carioca César Lobo, Florianópolis pelo gaúcho Guazzelli, Belém pelo francês Jean-Claude Denis, Porto Alegre pelo argentino Carlos Nine, Salvador pelo fluminense Marcelo Quintanilha, Niterói pelo gaúcho Joaquim Fonseca e as Cidades do Ouro por Lelis, que também é mineiro, mas de Montes Claros.

As viagens da vez ficaram por conta dos paulistanos Fábio Moon e Gabriel Bá, que foram para São Luís, e Lourenço Mutarelli, que esteve em Manaus. “Estamos pensando realizar em 2013 um livro sobre Recife. Ainda não escolhemos o autor, mas seguramente não será brasileiro”, conclui Ribeiro.



SÃO LUÍS POR FÁBIO MOON E GABRIEL BÁ

“A gente não conhecia praticamente nada.  Sabia que era a capital do Maranhão, terra do Sarney, e conhecia o trabalho do Zeca Baleiro e do Ferreira Gullar, mas não sabia que eles eram de São Luís. Nos nove dias que passamos lá, além de passear por lugares de interesse histórico, participamos um pouco da vida cultural da cidade, encontrando pessoas em bares, restaurantes, descobrindo o que o povo gosta de fazer à noite para relaxar e se divertir. Uma coisa que nos surpreendeu foi o calor. Acho que essa temperatura influencia o ritmo da vida do povo, sempre procurando sombra, mais lentos durante o dia, mais agitados à noite.

Numa caminhada pelo centro histórico você passa por edifícios, fontes e praças que preservam séculos de história nas fachadas, e encontra os mais diversos museus, de arte, de história e folclore, de cultura negra, onde a história é preservada e difundida. Ah, e quem puder visitar a cidade durante a festa do Bumba meu Boi [junho e julho] não se arrependerá. Vimos os ensaios finais e já achamos o máximo. 

São Luís é uma bela, rica em história e tradições, embora um pouco maltratada, precisando de um pouco mais de atenção na conservação do seu patrimônio. É também quente, cheia de um povo curioso, interessado, falante.”



MANAUS POR LOURENÇO MUTARELLI

“Estive em Manaus em 1999 para fazer uma palestra em um evento de quadrinhos. Adorei a cidade e, principalmente, as pessoas. Passei uns 5 ou 7 dias, não lembro direito. Foi uma experiência incrível. Mas tenho a pele muito clara, não aguento calor e umidade. Quando o pessoal da Casa 21 me chamou para fazer esse livro sobre Manaus minha única condição foi de não voltar lá. Fiz remotamente com ajuda das minhas memórias, de algumas fotos que tirei e de outras de um profissional. Sei que é horrível falar isso, mas não tinha condições mesmo.

Mas nessa vez que fui andei bastante na cidade e encontrei pessoas muito interessantes, gente que tenho contato até hoje, e são pessoas que fazem uma cidade, né? Comi pratos típicos e conheci pontos turísticos como o porto, o mercado e o Teatro Amazonas, que é muito mais bonito ao vivo que nas fotos. Aliás, a cidade toda é mais bonita que eu imaginava e tem um lado urbano muito forte que as pessoas de fora não fazem ideia. Teve uma noite que assisti ao show de uma banda cover do Velvet Underground. Só não pude ir pra floresta porque o convite chegou em cima da hora e não deu tempo de tomar as vacinas.”

p.s.: e aqui como ficou na página.


segunda-feira, 16 de abril de 2012

vermelho, o assistente e filho

o pessoal da revista da gol já tinha me chamado para fazer a junket de homens de preto 3 lá no rio de janeiro, mas por causa da estreia do filme, esse perfil do ator bruno fagundes acabou sendo publicado antes. a deixa foi a estreia em são paulo de vermelho, sua primeira experiência teatral contracenando com o pai antônio fagundes. muito pé no chão, o jovem bruno foi entrevista surpreendentemente boa e ainda consegui emplacar fagundes pai em outra pauta que subirá logo mais.


foto joão caldas

SEM PRESSA

Filho de Antônio Fagundes e Mara Carvalho, Bruno Fagundes divide o palco com o pai pela primeira vez com a responsabilidade de ser única e exclusivamente ele mesmo

O ditado é velho, mas continua assombrando intermináveis gerações. “Filho de peixe, peixinho é”, sussurram à boca pequena. Bruno Fagundes não quer saber de peixe, peixinho, nada disso. Ele quer mesmo é trabalhar com o que mais ama: atuar. Mas tudo a seu tempo e de seu jeito. “Meus pais sempre me avisaram que não adiantar ter ansiedade porque na nossa profissão a gente precisa ter vida”, diz entre goles de água.

Bruno é jovem, porém a naturalidade com que encarou o trabalho dos pais atores lhe deu certeza, desde os 13 anos, que era por esse caminho que queria seguir. Nos dez anos seguintes já mostrou sua cara na TV (Negócio da China), no cinema (Bellini e os Demônios) e no teatro (interpretando de Shakespeare a Nelson Rodrigues). E é agora, mais uma vez no palco, que prepara o que considera um marco pessoal de virada na carreira e o primeiro encontro dramatúrgico com o pai.

Escrita pelo norte-americano John Logan e sucesso na Broadway, a peça Vermelho trata da relação de trabalho, amizade, competição e amor à arte entre o pintor Mark Rothko (1903-1970) e seu assistente. Rothko é interpretado por Antônio Fagundes. Ken, o assistente fictício, é vivido por Bruno. “Estou muito animado com o que está por vir, e muito seguro também”, responde, olhos brilhando, sobre a peça que segue em cartaz até julho em São Paulo.


Vermelho não é a primeira vez que você e seu pai trabalham juntos...
A gente fez um Carga Pesada juntos [em 2006], mas foi uma participação pequena e eu ainda estava um pouco perdido. Foi a primeira vez que a gente trabalhou juntos de verdade, mas essa peça tem proporções completamente diferentes, não só de personagem, como também de visibilidade e maturidade. Então considero essa nossa primeira vez.

E como essa peça surgiu na vida de vocês?
Há muito tempo estava procurando um texto e tenho uma amiga, Raquel Ripani, que foi para Nova York anos atrás e viu Vermelho na Broadway. Ficou enlouquecida com a peça, comprou o livrinho e me ligou, ‘Bruno, achei uma peça pra você fazer com o seu pai’. Aliás, ela acabou traduzindo para o português. Ao mesmo tempo meu pai estava em cartaz com Restos e a agente literária que representa o [dramaturgo] John Logan mandou o texto para ele. Aí ele me ligou pra contar a peça, e fui falando da que a Raquel tinha me dado, e quando a gente viu era a mesma. Então, a peça é que achou a gente e não o contrário.

O que mais te interessou em Vermelho?
O que achei incrível é como o texto é bem amarrado, tem uma estrutura simples e muitos níveis de leitura. Tem a discussão sobre arte e apreciação da arte. Tem a relação entre Mark Rothko e seu assistente, que é uma coisa mestre e pupilo, pai e filho, de amizade, mas também de embate ideológico. Quando acabei de ler estava sem ar. Acho que todo mundo que trabalha com arte ou é apaixonado por arte vai se identificar com a peça.

Comparações com o seu pai. Isso ainda te dá alguma ansiedade ou já está resolvido?
Convivo com isso desde que nasci. As pessoas sempre esperaram de mim o melhor dele, mas não tenho de vida o que ele tem de profissão, então quem pensa assim está se enganando. E tem outra, se eu não conquistar meu espaço pelas minhas próprias pernas não vai adiantar ser filho de ninguém. Posso fazer uma novela aqui, uma peça ali e depois sumir. Não é isso que quero. Quero construir uma carreira sólida. Quero viver disso, entende? Então estou indo aos poucos.

Qual é o barato de atuar?
Quando comecei não saberia dizer, mas hoje eu sei. Acho que a nossa profissão é mágica mesmo. Pegar um texto e tirar uma vida disso. Fazer do seu jeito e dar um entendimento que pode vir a emocionar uma pessoa. Ter essa disponibilidade de esquecer a sua vida e viver a vida de outra pessoa, isso eu acho mágico. É isso que me fascina.



Antônio e Bruno Fagundes: Vermelho from Monstro Filmes 

e segue abaixo uma faixa bônus dessa entrevista que acabou não entrando na edição final.


Seus pais te incentivaram a atuar? Ou a princípio...
Bem, eles deixaram que eu tomasse minhas decisões sozinho. Se eu quisesse ser dentista teriam me dado apoio. Tenho três irmãos do primeiro casamento do meu pai e nenhum é ator. Acho que foi até uma surpresa o último ser ator. “Você tem certeza? Seus irmãos foram mais espertos!” [risos] E eu fui desenvolvendo essa paixão, ainda sem saber onde encaixar. Com uns 13 anos fiz um curso livre, daqueles que tem uma montagem no final, e me apaixonei. Decidi então fazer um curso profissionalizante, um curso técnico de teatro, lá no Incena. E fui me apaixonando cada vez mais. Mesmo assim fiz uma faculdade que não tinha nada a ver com isso... Relações Públicas [risos].


Você tem mais experiência em teatro, mas já atuou em cinema e TV. Para um ator, o que tem mais de interessante a se aprender em cada uma dessas mídias?
O teatro te dá uma base que é a do exercício. A gente está ensaiando há dois meses e nos últimos 15 dias estamos fazendo corrido, a peça inteira. Então em um dia posso trabalhar uma mão numa determinada cena, em outro dia trabalho outra coisa, e vou juntando as peças. Você vira um especialista nas suas dificuldades. Esse tempo pra desenvolver, esse exercício, só o teatro dá. E isso continua quando a peça entra em cartaz. Dá pra arriscar assim. Já na televisão o negócio é ter velocidade, rapidez de raciocínio. É já chegar meio pronto. Televisão não tem ensaio e isso também é um desafio. O cinema é um pouco dos dois. Tem ensaio, mas não tanto quanto o teatro. É uma coisa mais artesanal, mais meticulosa, sutil. São diferenças que se complementam. Se você conseguir resultados rápidos no teatro você consegue na televisão e isso pode te fazer se dar bem no cinema. Os três juntos são uma força grande.


Imagino que você agora esteja bastante focado na peça, mas tem algo mais caminhando, algum outro interesse mais pra frente?
No final do ano passado fiz um show e esse lado de cantor é uma coisa que venho desenvolvendo. Já tinha rolado um convite no passado, mas não me sentia pronto e essa vida louca me trouxe de volta essa oportunidade. Quando eu vi já estava com data marcada, 15 músicas no repertório, de Elvis Presley a Lenine, passando por Michael Jackson e Lady Gaga, mas com estilo big band de jazz, sabe? Foi muito bom. E ninguém sabia, muita gente ficou surpresa porque só o meu professor de canto sabia que eu cantava. E de repente eu estava lá com um show, uma banda excelente, com músicos maravilhosos que me ajudaram muito. Esse é um projeto que nunca quero abandonar, porque além de me dar um prazer absurdo também me acrescenta como ator, porque ou um apaixonado por musicais, gosto muito desse mercado e quero manter paralelo. Então, quem sabe depois da estreia faço outro show.