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terça-feira, 12 de julho de 2016

o fantasma dos que não conseguiram

perto da ilha onde fica a estátua da liberdade, em nova york, existe uma outra pequena ilha: ellis. de 1892 a 1954, ellis foi a principal entrada para imigrantes do mundo todo rumo ao "sonho americano" [estima-se que nestes 62 anos cerca de 12 milhões de pessoas passaram por lá e que 40% da atual população norte-americana possua pelo menos um ancestral que tenha cruzado seus portões]. a ilha foi durante muito tempo sinônimo de esperança e quem não se lembra do menino vito andolini que foi renomeado vito corleone, em 'poderoso chefão 2', justamente na sua chegada a ellis? vito chegou muito doente, como era comum na época após tantos dias no mar e com tão pouca comida, e permaneceu um tempo em ellis até receber alta. mas vito conseguiu colocar seus pés na tão sonhada américa. muitas e muitos não [geralmente por motivos de saúde].

em outubro de 2015, o artista plástico francês JR lançou o curta 'ellis', uma tocante homenagem aos que não conseguiram. com roteiro baseado em relatos reais assinado por eric roth ['forrest gump', 'munique', 'ali', 'benjamin button', etc.] e a presença, em corpo e voz, de robert de niro, o curta é um passeio bonito e dolorido pelas dependências do hospital da ilha e pelas intervenções que JR fez em 2014 a partir de fotos de anônimos sonhadores que passaram por lá. olha só.



"are you talking to me?"

aqui, algumas imagens de 'unframed', o trabalho que JR fez no hospital da ilha ellis. o hospital é aberto a visitação - acho que é a única parte aberta da ilha - e 'unframed' é uma exposição permanente.





p.s.: a trilha do curta, assinada por yoann "woodkid" lemoine [que também dirigiu clipes para katy perry, taylor swift, moby, john legend, drake e lana del rey] e nils frahm está no exystence, com direito ao monólogo de robert de niro.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

lugar de arte é na rua

essa hora ia chegar, claro. sobre street art só tinha feito um perfil (osgêmeos, 2006) e tratado do assunto numa coluna do yahoo ("arte que desmancha no ar", 2012). então veio o convite da audi magazine para o terceiro frila pra revista e a ideia era falar de quatro cidades que são referências na street art mundial: nova york, são paulo, londres e berlim. e falar com algumas pessoas. e fazer um painel histórico. acho que ficou divertido. agradecimentos a décio galina (que me passou mais uma ótima pauta) e edmundo clairefont (que editou o texto na revista), e também a alex senna, ignacio aronovich e william baglione pelas aspas alcançadas. aqui, como sempre, vai o texto que mandei, sem revisões e edições (daqui pra lá, a única grande diferença está na parte de nova york, que edmundo editou muito bem e ficou mais completo).


QUATRO CAPITAIS DA ARTE DE RUA NO MUNDO

O que é preciso para uma cidade se tornar referência na street art? Saiba um pouco das histórias de Nova York, São Paulo, Londres e Berlim, e alguns de seus personagens

Banksy e Osgêmeos em Nova York

NOVA YORK

No princípio era Nova York, cidade que deu régua, compasso e muitos motivos para que, nos anos 1970, a arte de rua surgisse como uma colorida expressão de revolta contra a degradação urbana e a falta de perspectivas. Um dos pilares do igualmente nascente movimento hip hop, o grafite apareceu primeiro em pichações nos muros, metrôs e trens. Eram jovens como Tracy 168 e Kase 2 afirmando seus próprios nomes em versões estilizadas (tags) diante de uma cidade que não lhes dava a mínima e também sobre rivais de outros bairros e turmas.

Na virada para a década de 1980, a pichação foi se sofisticando a partir do trabalho de artistas como Lee Quiñones, Dondi e Fab 5Freddy. Difundidos por eles, novos tipos de letras (“wild style”) e usos de sprays variados fizeram com que o grafite cruzasse fronteiras e começasse a influenciar artistas que não vieram das ruas, tais como Jean-Michel Basquiat e KeithHaring. Apadrinhados pelo papa da pop art Andy Warhol, Basquiat e Haring foram então os pioneiros a entrarem no circuito das galerias de arte, mas suas mortes precoces, em 1988 e 1990 respectivamente, interromperam um ciclo de reconhecimento que estava apenas começando (e que só voltaria, dessa vez com força total, em Londres nos anos 2000).

A partir dos anos 1990, novas técnicas (adesivos, lambe-lambes e estêncil) se uniram aos incontornáveis sprays atraindo novas gerações para as ruas. “Por sua importância histórica para a arte urbana, Nova York continua recebendo grafiteiros do mundo inteiro e apesar da repressão existe uma cena muito forte com lugares que viraram pontos turísticos”, explica Ignacio Aronovich, fotógrafo, jornalista e criador do site Lost Art. Um dos pontos turísticos mais célebres é o Five Pointz, localizado em Long Island, e que está sendo ameaçado de demolição pela voraz especulação imobiliária. Outras áreas procuradas estão no SoHo, Chelsea, Harlem e Brooklyn.

Nos anos 2000, os artistas de rua nascidos ou baseados em Nova York viram a cena ser incorporada pelo mainstream e o que era considerado vandalismo em outros tempos passou a ilustrar capas de discos, posters de filmes de Hollywood, roupas e até campanhas presidenciais (“Hope”, arte feita por Shepard Fairey, que ficou conhecido por seu “Obey”, foi usada pela campanha de Barack Obama em 2008). As ruas continuam sendo o palco ideal para artistas falarem, das formas mais diversas, sobre o mundo de hoje, e o complexo tabuleiro de Nova York ainda é uma de suas melhores traduções.

Rui Amaral em São Paulo

SÃO PAULO

Cidade feia, cinza, degradada. A gigantesca São Paulo pode ser tudo isso à primeira vista, mas basta dar um pouco de atenção a suas quebradas para ver que é exatamente essa sujeira, essa exclusão do humano nos espaços públicos, que a torna uma das mais instigantes galerias de arte de rua do mundo. Essa história não é de hoje, e vem lá desde os anos 1980 com o surgimento de artistas como Osgêmeos, Speto, Vitché, Rui Amaral e Binho, todos com algum tipo de ligação com a pichação e as cenas de rap e skate da cidade. Em comum, muitas cores e figuras humanas estilizadas.

Na década seguinte veio mais uma leva, dessa vez capitaneada por figuras como Herbert Baglione, Onesto, Zezão, Nunca e Stephan “Calma” Doitschinoff. Foi o tempo de novas experimentações que iam do expressionismo de Baglione ao abstracionismo azulado de Zezão. Também é dessa época Eduardo Kobra que, com o passar do tempo, tornou-se um dos muralistas mais pops da cidade.

A evolução de estilos e a variedade de propostas deram mais um salto nos anos 2000 com a proliferação da internet e a possibilidade de compartilhar rapidamente os registros das intervenções (é sempre bom lembrar que uma das essências da arte de rua é seu curto tempo de vida). Então se juntaram ao grupo jovens artistas como Crânio, Magrela, Treco, Chivitz, Flip e Alex Senna, com estilos bem diferentes e discursos muito pessoais sobre a cidade. Destoando um pouco, mas da mesma geração, Alexandre Orion passou a criar obras que são fotografias de seus grafites e estêncils se relacionando com as pessoas da cidade. Tudo muito novo e cheio de possibilidades.

O paulistano Senna, por exemplo, começou a desenhar nas ruas apenas em 2006, mas já possui um invejável currículo tanto no Brasil quanto no mundo. “Andar na rua é como estar em uma grande galeria”, diz Senna. Só que o artista que assinou trabalhos para grandes marcas como Nike e Hermés vê uma particularidade nas ruas paulistanas. “Talvez as pessoas não saibam, mas São Paulo é com certeza a meca do grafite. A liberdade, os estilos diferentes e a criatividade que existe aqui não tem em lugar nenhum. São Paulo é cheia de pichações e grafite, a cidade é inteira rabiscada, o que de certa forma mostra o quanto as pessoas sentem a necessidade de se expressar”.

No entanto, William Baglione – criador da Society Under Construction (SUC), produtora que toca trabalhos comerciais e curadorias independentes com artistas de rua brasileiros – faz uma ressalva sobre a cidade. “Temos grandes artistas, com excelente técnica e conteúdo, e temos também muito muro pra pintar. Mas não temos um mercado maduro dessa nova arte contemporânea porque ainda existe preconceito por parte das instituições públicas e privadas”. Sem esse mercado consolidado, os artistas locais aproveitam a cidade como portfolio para emplacarem trabalhos remunerados nos Estados Unidos e Europa. Mas só mesmo em São Paulo existe o Beco do Batman, o Museu Aberto de Arte Urbana e a Bienal do Grafite (que agora, no início do ano, teve sua segunda edição). É que cabe muita cor nessa cidade.

Crânio e Alex Senna em Londres

LONDRES

A ligação íntima e explosiva entre o hip hop, o grafite e uma juventude periférica sem perspectivas que deu origem a arte de rua em Nova York no final dos anos 1970 chegou a Londres no início dos anos 1980. Também como em Nova York (e São Paulo), a cena londrina começou com pichações em muros, metrôs e trens. Só que a repressão do Estado de Sua Majestade foi tão forte no final da década de 1980 que acabou atrasando o crescente movimento da arte de rua inglesa e jogou artistas como Robbo e Mode 2 em um limbo por anos.

Outra cidade muito importante na cena foi, e ainda é, Bristol, terra natal do célebre Banksy, que se mudou para Londres durante os anos 1990. Foi na capital que ele deixou de lado o grafite e as pichações, e passou a se aperfeiçoar na técnica do estêncil porque era mais rápido de fazer e podia ser reproduzido facilmente em outros lugares. O calculado anonimato de Banksy acabou lhe trazendo ainda um grande número de fãs que passaram a acompanhá-lo, registrando e compartilhando febrilmente na internet suas ações pela cidade (e, logo depois, pelo mundo). O sucesso de suas ações guerrilheiras e da crítica sócio-política de sua arte de rua (ácida e pop ao mesmo tempo) começou a chamar atenção no início dos anos 2000 e durante o correr da década mudou para sempre o mundo da arte de rua em Londres e no mundo. O negócio ficou tão sério que paredes com seus grafites passaram a ser retiradas de seu lugar de origem para serem vendidas em leilões ou no mercado negro.

Por causa de Banksy, Londres se tornou o centro mundial da arte de rua nesse início de século 21, com direito a grafiteiros do mundo todo sendo disputados por galerias, como foi o caso dos brasileiros Osgêmeos e Nunca e suas gigantescas intervenções no renomado Tate Modern em 2008.

O paulistano Alex Senna esteve recentemente na cidade e foi só elogios. “A cidade acolhe muito bem os artistas de rua, e as pessoas se esforçam muito e te ajudam pra que você pinte lá. Quando cheguei não tinha nenhum muro na manga e mesmo assim fiz umas 30 pinturas”. Porém, ah, porém, Senna também constatou que a cena londrina é um pouco confusa, e devido ao sucesso de Banksy, existem muitas pessoas envolvidas que não são artistas. “Londres tem gente de todo o mundo querendo pintar. No centro da cidade ou nos lugares mais populares, os trabalhos não duram muito. É diferente de São Paulo. Quando digo que a cena está um pouco confusa é porque pra mim street art é feita de amor, liberdade, atitude e respeito. Estão tirando a atitude e o respeito de lá, então se você quer que seu trabalho dure tem que ir pra fora do centro”.

Mesmo com tanta competitividade, ou talvez exatamente por isso, Londres é uma das poucas cidades do mundo que possui roteiros turísticos exclusivamente sobre arte de rua.

Thierry Noir em Berlim

BERLIM

Durante mais de quatro décadas, Berlim foi uma cidade dividida. De um lado, a parte ocidental, capitalista. Do outro, a oriental, socialista. E, a partir de 1961, um longo, alto e muito vigiado muro de concreto rachou a cidade literalmente no meio. A arte de rua berlinense começou no lado ocidental com muitos grafites e pichações que criticavam em várias línguas a própria existência de tão vergonhoso muro. Não era possível fazer o mesmo no lado oriental.

Mas com queda do muro em 1989, a arte de rua na cidade tomou novos rumos e jovens artistas alemães se mudaram de mala e cuia para o lado oriental da cidade, muito mais barato e um tanto degradado pela crise econômica que ajudou a derrubar o regime socialista. Então, de uma hora para a outra, Berlim se tornou um grande museu de arte a céu aberto, com destaque para o East Side Gallery, uma parte preservada do muro que se transformou em patrimônio da humanidade pelo colorido do francês radicado na cidade Thierry Noir.

No decorrer dos anos 1990 e 2000, uma grande variedade de artistas espalhou seus trabalhos pela cidade, apesar da costumeira repressão policial. Daí que apareceu um tanto de tudo: dos personagens simples e irônicos grafitados por Mein Lieber Prost até os estêncils críticos feitos por Alias e XOOOOX, passando pelos divertidos lambe-lambes de El Bocho, os icônicos Yellow Fists, as instalações do coletivo Bosso Fataka e o enigmático trabalho de um dos pioneiros da arte da urbana de Berlim, Tower.

As coisas melhoraram um pouco em 2005 quando Berlim foi declarada pela UNESCO como a “Cidade do Design”, fato que deu a artistas locais e visitantes um apoio maior contra a vandalização do poder público (como em quase todos os lugares do mundo, o Estado alemão prefere manter a cidade cinza). Surgiram assim grandes obras de artistas como Banksy e o italiano Blu que se tornaram parada obrigatória para um novo e crescente tipo de turismo, o da arte de rua.

“O muro foi um fator importante para a história artística da cidade, mas a explosão de arte urbana após a reunificação foi o que fez Berlim entrar na mira do mundo. Kreuzberg, por exemplo, é o meu bairro favorito para ver arte de rua”, explica o brasileiro Ignacio Aronovich, que participou de uma exposição coletiva na cidade, em 2003, ao lado de Banksy e dos norte-americanos Swoon e Shepard Fairey. Outros bairros famosos por suas artes de rua são Mitte, Prenzlauer Berg e Friedrichshain. Em comum a todos esses lugares e a todos os artistas que passam por Berlim, uma vontade de experimentar e olhar para o futuro.




domingo, 6 de outubro de 2013

o encontro de banksy com o youtube

o inglês banksy está passando o mês de outubro numa residência artística em nova york intitulada "better out than in" ('melhor fora que dentro') e está usando seu site oficial para divulgar as ações. 




já rolaram stencils-grafites bem irônicos como estes acima, acompanhados no site de engraçadíssimos comentários-guias em áudio, e um caminhão transformado em jardim ambulante. mas neste domingo, 6 de outubro, apareceu esse vídeo que marca a estreia do canal oficial de banksy no youtube.



a zuera de banksy não tem limites.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

gaby is crazy for you

atualmente, gaby amarantos está malhando, fazendo regime e cuidando da saúde em horário nobre, mais precisamente no quadro 'medida certa - a disputa' (sua participação, aliás, gerou uma série daquelas microindignações virtuais, devidamente destruídas por nina lemos em "liberdade para preta gil e gaby amarantos"). só que a partir do dia 19 desse mês, às 19h no canal bis, a paraense estará em um reality show bem diferente. filmado na segunda quinzena de julho desse ano, gaby gringa é uma série em dez episódios que acompanha passeios, encontros musicais, descobertas e frios na barriga da artista em sua primeira miniturnê internacional (nova york, londres, bristol e antuérpia). bati um papinho virtual com a moça pouco após sua volta e antes da entrada no 'medida certa'. saiu na monet agora de setembro. ah, e as fotos que ilustram esta postagem foram tiradas durante um divertido encontro com ela em belém, no início de janeiro deste ano. não emplaquei a pauta sobre a gravação de um comercial, mas a conversa foi ótima (não transcrevi até hoje, mals) e a noite tão boa quanto.


DISSERAM QUE ELA VOLTOU MAIS PARAENSE AINDA

Desde que lançou, há dois anos, a primeira música (“Xirley”) de seu disco de estreia, Gaby Amarantos não sossegou o facho. Talvez tenha sido por causa do feitiço do café que ela coou na calcinha da música popular brasileira, mas o fato é que o disco Treme foi eleito um dos melhores de 2012 pela crítica especializada e Gaby emplacou uma canção (“Ex-Mai Love”) numa abertura de novela global, além de encarar muitos shows, matérias e aparições televisivas para todos os tipos de públicos país afora. Agora é a vez da orgulhosa paraense, que acabou de fazer 35 anos, ganhar o mundo, ou pelo menos parte dele, no especial Gaby Gringa.

Filmado em julho durante a miniturnê internacional que levou a cantora a países como Estados Unidos (Nova York), Inglaterra (Londres e Bristol) e Bélgica (Antuérpia), Gaby Gringa foi dirigido e produzido por Tatiana Issa e Rafael Alvarez, a mesma dupla do premiado documentário Dzi Croquetes. “[O programa] vai trazer um mix de irreverências, porque sou uma comediante por natureza e causei muito nos ‘States’, e momentos emocionantes como cantar ‘Aquarela Brasileira’ no Birdland, onde Billie Holiday foi consagrada, e visitar o Apollo Theater, palco de shows históricos de James Brown e Michael Jackson. Também rolaram encontros musicais inusitados com artistas do Brooklyn e Harlem e alguns brasileiros bem conhecidos. Cada encontro, uma emoção diferente”, explicou Gaby, já de volta a sua casa no Jurunas, bairro periférico de Belém.


Os brasileiros a quem Gaby se refere vão de Seu Jorge ao rapper Emicida, passado por Tulipa Ruiz, Lucas Santtana, Maria Gadú, Pretinho da Serrinha e a banda Graveola. Alguns desses encontros aconteceram em situações intimistas, na rua ou em um parque, e outros em grandes shows como o Brasil Summerfest, no Central Park. “A receptividade foi melhor do que imaginava, mas tinha certeza que algo maravilhoso estava reservado pra mim por lá. Sei o potencial do que faço e o fato das pessoas lá fora não atentarem para o significado da palavra ‘brega’ faria com que esse público ouvisse a música livre de qualquer preconceito”. Um público livre de preconceitos como ela própria.

“Essa viagem me agregou muita bagagem cultural e me fez levar a cultura do meu país para outros mundos. Isso me fez ver tudo, vida, carreira, com outros olhos”. Gaby Gringa é, portanto, o retrato de um momento especial de uma artista que nasceu nas festas de aparelhagem no Norte do Brasil e que agora mostra toda sua força pop miscigenada a um novo público.


Enquanto prepara o segundo disco, que só deve ser lançado em 2014, Gaby também comemora a descoberta do seu lado atriz. No primeiro semestre protagonizou o episódio de estreia da série Contos do Edgar (Fox) e em novembro estará nos cinemas em Super Crô – O Filme. Mas certamente 2013 ficará marcado na sua memória, e na sua carreira, como o ano que deu os primeiros passos do projeto de dominação mundial Gaby Gringa. “Todos os lugares [retratados no programa] foram especiais. Sabe aquele trabalho que você faz se arrepiando a cada passo? Foi assim. Nós nos emocionávamos a cada ato e chorei muito ao cantar ‘Como Nossos Pais’ [de Belchior] em homenagem aos meus pais que são heróis pra mim, e ‘The Very Thought of You’ da Billie Holiday. As pessoas vão se surpreender me assistindo cantar músicas que jamais imaginariam que eu flertasse. Mas o que quero mesmo é continuar fazendo o mundo e o Brasil tremerem com a alegria do Pará”. Sossegar o facho é uma expressão que não está em seu dicionário.

p.s. 1: olha só a reportagem em página dupla na monet.



p.s. 2: e aqui o clipe de "gemendo" gravado na galeria/ateliê do artista plástico kenny scharf durante a passagem de gaby por nova york.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

vermelho é a cor

ano interessantíssimo esse 2011 com revoltas democráticas pelo mundo árabe, o quebra-quebra de londres e agora essa ocupação em várias cidades dos estados unidos (mais informações no site oficial do occupy wall street), sem falar nas nossas marchas da maconha, da liberdade e tantas outras ocupações de espaços públicos (esse é o segredo, essa é a chave). na segunda, dia 10 de outubro, o filósofo esloveno slavoj zizek esteve na liberty plaza, em nova york, condensou algumas de suas mais conhecidas teorias recentes e disparou um discurso muito bom sobre o presente, o futuro e o estado das coisas. a tradução abaixo é de rogério bettoni, feita para o blog da boitempo editorial. também é possível ver o homem em ação no meio da galera em inúmeros videos espalhados pelo youtube (por exemplo nessa trilogia aqui parte 1, parte 2 e parte 3).


A TINTA VERMELHA
por Slavoj Zizek


Não se apaixonem por si mesmos, nem pelo momento agradável que estamos tendo aqui. Carnavais custam muito pouco – o verdadeiro teste de seu valor é o que permanece no dia seguinte, ou a maneira como nossa vida normal e cotidiana será modificada. Apaixone-se pelo trabalho duro e paciente – somos o início, não o fim. Nossa mensagem básica é: o tabu já foi rompido, não vivemos no melhor mundo possível, temos a permissão e a obrigação de pensar em alternativas. Há um longo caminho pela frente, e em pouco tempo teremos de enfrentar questões realmente difíceis – questões não sobre aquilo que não queremos, mas sobre aquilo que QUEREMOS. Qual organização social pode substituir o capitalismo vigente? De quais tipos de líderes nós precisamos? As alternativas do século XX obviamente não servem.

Então não culpe o povo e suas atitudes: o problema não é a corrupção ou a ganância, mas o sistema que nos incita a sermos corruptos. A solução não é o lema “Main Street, not Wall Street”, mas sim mudar o sistema em que a Main Street não funciona sem o Wall Street. Tenham cuidado não só com os inimigos, mas também com falsos amigos que fingem nos apoiar e já fazem de tudo para diluir nosso protesto. Da mesma maneira que compramos café sem cafeína, cerveja sem álcool e sorvete sem gordura, eles tentarão transformar isto aqui em um protesto moral inofensivo. Mas a razão de estarmos reunidos é o fato de já termos tido o bastante de um mundo onde reciclar latas de Coca-Cola, dar alguns dólares para a caridade ou comprar um cappuccino da Starbucks que tem 1% da renda revertida para problemas do Terceiro Mundo é o suficiente para nos fazer sentir bem. Depois de terceirizar o trabalho, depois de terceirizar a tortura, depois que as agências matrimoniais começaram a terceirizar até nossos encontros, é que percebemos que, há muito tempo, também permitimos que nossos engajamentos políticos sejam terceirizados – mas agora nós os queremos de volta.


Dirão que somos “não americanos”. Mas quando fundamentalistas conservadores nos disserem que os Estados Unidos são uma nação cristã, lembrem-se do que é o Cristianismo: o Espírito Santo, a comunidade livre e igualitária de fiéis unidos pelo amor. Nós, aqui, somos o Espírito Santo, enquanto em Wall Street eles são pagãos que adoram falsos ídolos.


Dirão que somos violentos, que nossa linguagem é violenta, referindo-se à ocupação e assim por diante. Sim, somos violentos, mas somente no mesmo sentido em que Mahatma Gandhi foi violento. Somos violentos porque queremos dar um basta no modo como as coisas andam – mas o que significa essa violência puramente simbólica quando comparada à violência necessária para sustentar o funcionamento constante do sistema capitalista global?


Seremos chamados de perdedores – mas os verdadeiros perdedores não estariam lá em Wall Street, os que se safaram com a ajuda de centenas de bilhões do nosso dinheiro? Vocês são chamados de socialistas, mas nos Estados Unidos já existe o socialismo para os ricos. Eles dirão que vocês não respeitam a propriedade privada, mas as especulações de Wall Street que levaram à queda de 2008 foram mais responsáveis pela extinção de propriedades privadas obtidas a duras penas do que se estivéssemos destruindo-as agora, dia e noite – pense nas centenas de casas hipotecadas…


Nós não somos comunistas, se o comunismo significa o sistema que merecidamente entrou em colapso em 1990 – e lembrem-se de que os comunistas que ainda detêm o poder atualmente governam o mais implacável dos capitalismos (na China). O sucesso do capitalismo chinês liderado pelo comunismo é um sinal abominável de que o casamento entre o capitalismo e a democracia está próximo do divórcio. Nós somos comunistas em um sentido apenas: nós nos importamos com os bens comuns – os da natureza, do conhecimento – que estão ameaçados pelo sistema.


Eles dirão que vocês estão sonhando, mas os verdadeiros sonhadores são os que pensam que as coisas podem continuar sendo o que são por um tempo indefinido, assim como ocorre com as mudanças cosméticas. Nós não estamos sonhando; nós acordamos de um sonho que está se transformando em pesadelo. Não estamos destruindo nada; somos apenas testemunhas de como o sistema está gradualmente destruindo a si próprio. Todos nós conhecemos a cena clássica dos desenhos animados: o gato chega à beira do precipício e continua caminhando, ignorando o fato de que não há chão sob suas patas; ele só começa a cair quando olha para baixo e vê o abismo. O que estamos fazendo é simplesmente levar os que estão no poder a olhar para baixo…


Então, a mudança é realmente possível? Hoje, o possível e o impossível são dispostos de maneira estranha. Nos domínios da liberdade pessoal e da tecnologia científica, o impossível está se tornando cada vez mais possível (ou pelo menos é o que nos dizem): “nada é impossível”, podemos ter sexo em suas mais perversas variações; arquivos inteiros de músicas, filmes e seriados de TV estão disponíveis para download; a viagem espacial está à venda para quem tiver dinheiro; podemos melhorar nossas habilidades físicas e psíquicas por meio de intervenções no genoma, e até mesmo realizar o sonho tecnognóstico de atingir a imortalidade transformando nossa identidade em um programa de computador. Por outro lado, no domínio das relações econômicas e sociais, somos bombardeados o tempo todo por um discurso do “você não pode” se envolver em atos políticos coletivos (que necessariamente terminam no terror totalitário), ou aderir ao antigo Estado de bem-estar social (ele nos transforma em não competitivos e leva à crise econômica), ou se isolar do mercado global etc. Quando medidas de austeridade são impostas, dizem-nos repetidas vezes que se trata apenas do que tem de ser feito. Quem sabe não chegou a hora de inverter as coordenadas do que é possível e impossível? Quem sabe não podemos ter mais solidariedade e assistência médica, já que não somos imortais?


Em meados de abril de 2011, a mídia revelou que o governo chinês havia proibido a exibição, em cinemas e na TV, de filmes que falassem de viagens no tempo e histórias paralelas, argumentando que elas trazem frivolidade para questões históricas sérias – até mesmo a fuga fictícia para uma realidade alternativa é considerada perigosa demais. Nós, do mundo Ocidental liberal, não precisamos de uma proibição tão explícita: a ideologia exerce poder material suficiente para evitar que narrativas históricas alternativas sejam interpretadas com o mínimo de seriedade. Para nós é fácil imaginar o fim do mundo – vide os inúmeros filmes apocalípticos –, mas não o fim do capitalismo.

Em uma velha piada da antiga República Democrática Alemã, um trabalhador alemão consegue um emprego na Sibéria; sabendo que todas as suas correspondências serão lidas pelos censores, ele diz para os amigos: “Vamos combinar um código: se vocês receberem uma carta minha escrita com tinta azul, ela é verdadeira; se a tinta for vermelha, é falsa”. Depois de um mês, os amigos receberam a primeira carta, escrita em azul: “Tudo é uma maravilha por aqui: os estoques estão cheios, a comida é abundante, os apartamentos são amplos e aquecidos, os cinemas exibem filmes ocidentais, há mulheres lindas prontas para um romance – a única coisa que não temos é tinta vermelha.” E essa situação, não é a mesma que vivemos até hoje? Temos toda a liberdade que desejamos – a única coisa que falta é a “tinta vermelha”: nós nos “sentimos livres” porque somos desprovidos da linguagem para articular nossa falta de liberdade. O que a falta de tinta vermelha significa é que, hoje, todos os principais termos que usamos para designar o conflito atual – “guerra ao terror”, “democracia e liberdade”, “direitos humanos” etc. etc. – são termos FALSOS que mistificam nossa percepção da situação em vez de permitir que pensemos nela. Você, que está aqui presente, está dando a todos nós tinta vermelha.
dica para trilha sonora: "put some red on it", música nova de spoek mathambo em versão remixada pelo shabazz palaces.
Spoek Mathambo - Put Some Red On It (Shabazz Palaces Remix) by Voler

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

racistas. eles?

taí uma das melhores coisas de 2010, o trio das racist, que lançou duas mixtapes da pesada nesse ano, uma em março (shut up, dude) e outra em setembro (sit down, man). fiquei sabendo dessa segunda antes da primeira e depois corri atrás do prejuízo. a bagunça transglobal de referências nas rimas e batidas, o humor afiado, pop e debochado, a crítica política, tudo faz com que o encontro de victor vazquez, himanshu suri e ashok kondabolu seja uma das melhores novidades a surgir no sempre inquieto brooklyn novaiorquino. olha só os maninhos se divertindo horrores pelas ruas do bairro no clipe tosco da sensacional "ek shaneesh".



outra faixa de shut up, dude é "who's that? brooown!", que ganhou um clipe naquele formato sega que tanto anda na moda.



mas é claro que tem muito mais sons em shut up, dude e você pode conferir tudo aqui no soundcloud do pessoal. não sei bem o porquê, mas
"who's that? brooown!" não está no set abaixo.

Mishka Presents Das Racist - Shut Up, Dude Mixtape by dasracist

sit down, man, a segunda mixtape do das racist é igualmente muito boa e conta com produções de figuras como diplo ("you can sell anything") e roc marciano, inspirações em the doors, quincy jones, jay-z, the very best, enfim, uma porrada de coisas. o pessoal do hypetrak disponibilizou a bagaça. escuta só (e outra faixa, "people are strange", está faltando aí embaixo, e deve ser por algum motivo de direitos e coisa e tal).

Das Racist - Sit Down, Man Mixtape by Hypetrak