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sábado, 29 de dezembro de 2018

60 discos brasileiros de 2018

após os discos gringos é a vez do produto interno bruto e esse ano a nacional também está um pouco menor. como sempre destacarei, em blocos, os preferidos pessoais dentre a lista maior de 60 lançamentos.

a criação de canções, essa instituição brasileira, continua muito bem obrigado. de São Paulo vieram Anelis Assumpção com seu Taurina e Maurício Pereira e o Outono no Sudeste. Anelis vem criando com muito tato e discrição uma belíssima carreira, autoral e pop, e Taurina talvez seja o melhor retrato (até agora) do muito que é capaz (o pai Itamar deve estar tão orgulhoso). enquanto isso, Pereira, velho conhecido da casa, segue mestre total da crônica urbana paulistana e de suas cruas delicadezas.



nesse bloco de canções as surpresas vieram do capixaba Juliano Gauche e do pernambucano Mestre Anderson Miguel. Gauche é artista que acompanho faz um tempinho e até já apareceu em listas passadas, mas nunca me pegou de jeito, faltava alguma coisa. Afastamento, que produziu em parceria com Fernando Catatau, é um disco poderoso, romântico, pop e psicodélico. Anderson Miguel, por outro lado, está no registro da música popular tradicional da Zona da Mata pernambucana, mas a produção de Siba, as participações de Juçara Marçal, Beto Villares e Jorge Du Peixe e sua própria juventude (o mestre tem apenas 22 anos!) fazem de Sonorosa uma moderna revisão das próprias raízes.

então vem o rap, o gênero mais inquieto, inclusivo, diverso e punk de todos (tanto aqui quanto no resto do mundo). nessa seara o baiano Baco Exu do Blues está dominando os holofotes e listas do ano com seu Bluesman, disco mais complexo em sonoridades que sua estreia em Esú, mas também com mais autoreferências, o que pode ser um problema no futuro (até quando se sustenta um universo umbigo?). vale também destacar a malandragem mineira de Djonga em O Menino que Queria Ser Deus, a psicodelia futurista de Edgar em Ultrassom (produzido por Pupillo), as jovens misturas do grupo capixaba Solveris em Vida Clássica e a ousadia conceitual e produção esmerada do veterano Marcelo D2 em Amar é Para os Fortes.


foto de João Wainer na capa de Bluesman de Baco Exu do Blues

e tem medalhões também. Caetano convocou os filhos Moreno, Zeca e Tom Veloso para uma série de shows e daí surgiu o belíssimo Ofertório, cujo repertório costura habilmente produções dos filhos com alguns clássicos do pai. tal qual Caetano, Elza Soares continua cercada de outras gerações (mais novas, claro) e interesse afiado no presente, daí que seu mais recente Deus é Mulher pode não ter o peso e a surpresa do antecessor A Mulher do Fim do Mundo, mas Elza tem o que dizer e cantar e muita força em tudo que faz. e não é que Erasmo Carlos fez praticamente o mesmo no belo Amor é Isso. sob produção de Pupillo, o Tremendão se reuniu a outras gerações tanto nas composições quanto em participações [Emicida, Marcelo Camelo, Nando Reis, Marisa Monte, etc], mas todos e todas lidando com o romantismo gigante gentil que é a sua marca. nesse bloco, menção honrosa para o excelente Jah-Van - Djavan Goes Jamaica, produção de BiD e Fernando Nunes que pegou parte do cancioneiro de Djavan e injetou reggaes, skas e dubs com auxílio de figuras como Criolo, Fernanda Abreu, Arnaldo Antunes, Rincon Sapiência, Zeca Baleiro, Black Alien, Ivete Sangalo e Seu Jorge.



da música popular brasileira ao pop propriamente dito é um pulo e aqui vale destacar o finíssimo pagodão eletrônico soul do baiano ÀTTØØXXÁ em Luvbox, o pancadão veloz do Heavy Baile em Carne de Pescoço e as diversas faces do pop brasileiro de Iza em Dona de Mim e Pabblo Vittar em Não Para Não (que mesmo mais estudado e menos espontâneo que o anterior, Vai Passar Mal, é bem acima da média).



chegando ao fim dos destaques, é a hora dos instrumentais. 2018 trouxe mais um disco potente do grupo paulistano Bixiga 70 em Quebra Cabeça, o retorno das experimentações dos pernambucanos d’A Banda de Joseph Tourton em A Banda de Joseph Tourton e a diversão multigênero do projeto The Universal Mauricio Orchestra, que reuniu pela primeira vez uma ruma de Mauricios (tem Mauricio Pereira e Mauricio Fleury, do Bixiga 70, e ainda Mauricio Badê, Mauricio Bussab, Mauricio Tagliari e Mauricio Takara).


fechando com chave de ouro os destaques da lista, dois discos “infantis” muito especiais: Guitarrada para Bebês, uma produção do guitarrista Félix Robatto (La Pupuña e Gaby Amarantos) que refaz hits paraenses em tom doce de caixa de música, e Iaiá e Os Erês, no qual Iara Rennó cria todo um mundo mágico com influências negras e indígenas, participações de Moreno Veloso, Andreia Dias e Luz Marina, e canções feitas em parcerias com crianças.



segue então a lista completa e em ordem alfabética com links para os discos inteiros no Spotify ou YouTube.

A Banda de Joseph Tourton - A Banda de Joseph Tourton
A Banda dos Corações Partidos - Desamor
Alice Caymmi - Alice
André Abujamra - Omindá
Anelis Assumpção - Taurina
Arnaldo Antunes - RSTUVXZ
ÀTTØØXXÁ - Luvbox
Baco Exu do Blues - Bluesman
Bixiga 70 - Quebra Cabeça
BK' - Gigantes
Cacá Machado - Sibilina
Caetano, Moreno, Zeca e Tom Veloso - Ofertório [Ao Vivo]
Café Preto - Oferenda
Carne Doce - Tônus
Cordel do Fogo Encantado - Viagem ao Coração do Sol
Daniel Groove - Levante
Diomedes Chinaski - Comunista Rico
Drik Barbosa - Espelho
Duda Beat - Sinto Muito
Edgar - Ultrassom
Elza Soares - Deus é Mulher
Erasmo Carlos - Amor é Isso
Félix Robatto - Guitarrada para Bebês
Gal Costa - A Pele do Futuro
Gilberto Gil - OKOKOK
Gui Amabis - Miopia
Heavy Baile - Carne de Pescoço
Iara Rennó - Iaiá e Os Erês
Illy - Vôo Longe
Inquérito - Tungstênio
Juliano Gauche - Afastamento
Karol Conká - Ambulante           
Kassin - Relax
Laura Lavieri - Desastre Solar
Luiza Lian - Azul Moderno
Mahmundi - Para Dias Ruins
Marcelo Cabral - Motor
Maria Beraldo - Cavala
Mauricio Pereira - Outono no Sudeste
Mestre Anderson Miguel - Sonorosa
Mundo Livre SA - Dança dos Não Famosos
Pabblo Vittar - Não Para Não
Quartabê - Lição #2: Dorival
Raphão Alaafin - A Gosto
Rodrigo Campos - 9 Sambas
Romulo Fróes - O Disco das Horas
Saulo Duarte - Avante Delírio
SDDS - SDDS
Silva - Brasileiro
Solveris - Vida Clássica
Tatá Aeroplano - Alma de Gato
The Universal Mauricio Orchestra - The Universal Mauricio Orchestra
Totonho e os Cabra - Samba Luzia Gorda
Verônica Ferriani - Aquário
Wado - Precariado

terça-feira, 4 de novembro de 2014

notas aleatórias sobre um grande show

foi uma grande e longa noite no teatro municipal. a terceira edição do 'casa de francisco em concerto' pareceu uma peça do teatro oficina: cinco horas, dois intervalos, um monte de artistas no palco; só faltou gente pelada.

dividido em 3 partes, o show começou com um bloco levado por benjamin taubkin. foi o mais longo e, pra mim, o único com momentos chatos. ótimas participações de felipe cordeiro com o pai manoel cordeiro, marcelo pretto, pau brasil e mani padmé trio. teve também renato braz, que é um sujeito que me dá vontade de morrer, e alaíde costa que fez uma versão muito falha e só no gogó de villa-lobos. 

o segundo bloco, capitaneado por arrigo barnabé, teve uma cara de vanguarda paulistana. rolaram grandes momentos com cida moreira, zé miguel wisnik, cacá machado, ná ozzetti, celso sim, isca de polícia e maurício pereira com daniel szafran [que lindo foi ouvir "um dia útil" no teatro municipal]. 

o terceiro, mais atual e interessante, veio com kiko dinucci. e lá vieram os amigos romulo froés, rodrigo campos e marcelo cabral [passo torto], thiago frança e juçara marçal [metá metá], a juçara detonando solo, etc. e ainda teve alessandra leão cantando a música mais bonita da noite ["pedra de sal"] junto com rodrigo caçapa e manu maltez. o encerramento épico veio com o trio emicida, rodrigo campos e thiago frança [do espetacular show que já falei aqui] e então o metá metá se juntou.


emicida + metá metá

lá pelo final, antes do metá metá se reunir a emicida, kiko dinucci fez um breve discurso pra casa de francisca e agradeceu a presença do prefeito fernando haddad, que foi muito ovacionado.

ao fim & ao cabo, a noite foi ótima, apesar do cansaço de cinco horas, da confusão de algumas passagens de um artista pro outro, do roteiro também ocasionalmente confuso e da falta de um mestre de cerimônias que apresentasse os músicos e preenchesse os vazios.


uma parte do elenco do show agradecendo ao final

de qualquer forma, vida longa a casa de francisca! que venham novos, grandes e pequenos shows.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

transversão #41

não lembro quando ouvi “marcianita” pela primeira vez. acho que ela tá naquele rol de músicas que sempre existiram, sempre tocaram, e não se sabe direito como surgiram (nem no mundo, muito menos pra si). mas sei muito bem quando ela definitivamente entrou na minha lista de preferidas: durante os shows que o mauricio pereira fez no início dos anos 2000 e que resultaram no disco as canções que você já assobiou (2003). foi então que descobri a gravação do sérgio murilo (1960), a do caetano com os mutantes (1968), uma do raul seixas (1973), outra da gal costa (2002) e recuperei a memória de uma do grupo rumo (1992).

recentemente, e com certo atraso, ouvi a que jussara silveira gravou no disco ame ou se mande (2011) e chapei novamente. que versão linda e divertida! fui então pesquisar a origem da música e me surpreendi com as poucas informações. consegui descobrir que “marcianita” é uma composição de josé imperatore marcone e galvarino villota alderete, chilenos até onde sei, e foi lançada em 1959 (até poucos dias atrás nunca tinha ouvido nenhuma interpretação em espanhol). de bate pronto fez muito sucesso na argentina na voz de billy cafaro e no ano seguinte ganhou uma versão em português assinada por fernando césar que estourou com sérgio murilo. a partir daí ganhou inúmeras versões por aqui (e também em portugal com daniel bacelar, por exemplo).

nessa volta a seção transversão após tantos meses de silêncio (a última foi em julho do ano passado com “maria bethânia” de caetano) separei algumas das minhas versões preferidas dessa lindeza que é “marcianita”. começando com o argentino billy cafaro e os chilenos do grupo los flamingos, ambos em 1959.



então chegamos ao brasil e logo de cara sérgio murilo quebra tudo numa versão cool, sofisticadíssima, pré-jovem guarda.


queria colocar a do caetano com os mutantes, mas não achei nenhuma opção para incorporar. tristeza, viu? então agora é a vez das totalmente excelentes (e paulistanas) gravações do grupo rumo e de maurício pereira.




e, finalmente, jussara silveira em sua interpretação cristalina e deliciosa, acompanhada por sacha amback e marco costa.


pra encerrar essa postagem uma gravação que achei nessas buscas e que me impressionou bastante. gravada em 2012, essa “marcianita” traz ana clara cantando acompanhada pelo trio molho negro e por felipe cordeiro, todos paraenses. baita versão, mais pesada e pop, e com uma parte em espanhol levada no tecnobrega.



p.s.: e ainda tem os trapalhões (sim, isso mesmo, os trapalhões numa versão absolutamente fuleira), bobby di carloalípio martins, léo jaime, o “marcianito” de sueli, e uma recentíssima do felipe cordeiro, etc. 

sábado, 5 de janeiro de 2013

foi bonita a festa, pá

cultura livre é um daqueles raros espaços para a boa e nova música popular brasileira no rádio e na tv. comandado com graça e interesse por roberta martinelli, o programa ganhou uma promoção e tanto ao ser transformado em um especial de quase duas horas no réveillon da tv cultura. e ele está disponível na íntegra no youtube. olha só que belezura de atrações (tendo o terno como banda de apoio)...

o terno – “zé, assassino compulsivo”
barbara eugênia – “por aí”
barbara eugênia & tatá aeroplano – “sinta o gole quente do café que eu fiz pra ti tomar”
tatá aeroplano – “tudo parado na city”
filipe catto – “adoração”
pélico – “recado” (com tony berchmans)
tulipa ruiz – “script”
márcia castro – “29 beijos”
karina buhr – “não me tanto”
rafael castro – “pra vender mais, agradar mais, se falar mais”
kiko dinucci – “lizete”
todo mundo – “gente aberta” (erasmo carlos)
rael – “caminho” (com carlos café e dj will)
felipe cordeiro – “legal e ilegal” (com manoel cordeiro)
léo cavalcanti – “sonho parasita”
laura lavieri – “quem nasceu”
blubell – “protesto”
letuce & blubell – “que se chama amor”
letuce – “insoniazinha”
juçara marçal – “morto”
maurício pereira & juçara marçal – “trovoa”
maurício pereira – “compromisso”
o terno – “66”

segunda-feira, 26 de março de 2012

os mulheres negras, ano 2012

eles estão de volta por ali, por aqui, em todo lugar (só você que não tá vendo?)... saca só essa instrumental novinha em folha com pitadinhas do "bolero" de ravel aqui, do "carinhoso" do pixinguinha acolá...





e mauricio pereira e andré abujamra, enquanto os mulheres negras, farão shows em curitiba (maio) e rio de janeiro (junho). e fica a torcida para, de repente, um disco novo.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

yahoo #26

não consegui acabar esse texto para o dia do aniversário de são paulo (25 de janeiro) e saiu um dia depois, mas não acho que foi por isso que teve tão pouca repercussão. não importa, achei que ficou legal e tem umas coisas aí que venho pensando faz tempo. enfim, o show não pode parar e já está no ar "o país da internet moleque", sobre a bem humorada relação dos brasileiros com o tumblr. simbora.

de vez em quando chamo são paulo de gotham city (não é exclusividade minha, claro) e foi sensacional ver esse foto com batman como motorista de busão. ainda mais porque é em fortaleza, minha terra natal. tudo em casa.


SÃO PAULO, VELHA E LOUCA

Tudo em São Paulo é um pouco torto. Cheio de ramificações e um pouco torto, fora do lugar. Com a música não seria diferente. Talvez sejam misturas demais, ou uma combinação peculiar de seriedade com humor autodepreciativo, mas o fato é que poucos artistas (nativos ou não) da cidade se tornaram conhecidos em todo o país (cidade que, aliás, fez ontem 458 anos). Lembro agora de cabeça, e claro que tem mais gente, da Inezita Barroso na década de 1950, d’Os Mutantes no fim dos anos 1960, de Adoniran Barbosa e Os Demônios da Garoa, tardiamente, nos 70, das bandas Titãs, Ira!, Ultraje a Rigor e RPM na década de 80, do rap dos Racionais MCs e do pagode de Exaltasamba, Art Popular e Raça Negra nos 90. Cada uma dessas histórias é diferente da outra, mas todas são profundamente paulistanas. De qualquer forma é pouco perto da enorme quantidade de sucessos musicais brasileiros.

Procurar entender isso, sacar que intensa não-identidade musical é essa que o país às vezes compra e muitas vezes não, acabou virando interesse pessoal desde que comecei a viver aqui em 1994. Mas quando passei de ouvinte amador a profissional – em 2001 fundei com um grupo de amigos o site Gafieiras, com grandes entrevistas musicais, no qual fiquei por uma década –, o que era obsessão leve ficou preocupação aguda.

Então fui acionando túneis do tempo e viajando pelos sambas de Paulo Vanzolini, Geraldo Filme, Eduardo Gudin e Germano Mathias, pelo balanço do Trio Mocotó, Skowa e Branca di Neve, pelas experimentações de Arrigo Barnabé e Rumo (a turma de Ná Ozzetti e Luiz Tatit), pelo rock de Fellini, Akira S e Violeta de Outono, e muito muito rap (Thaide & DJ Hum, Athalyba e a Firma, etc). Até punk. Nessa época já conhecia bem a dupla Mauricio Pereira e André Abujamra (Os Mulheres Negras) e Itamar Assumpção, outras caras cruciais de São Paulo. Quer dizer, só esse pouco mencionado dá uma boa ideia de que é impossível fazer um retrato-falado da música negra, branca, atonal, pop, caipira e o diabo a quatro dessa cidade.


Por isso falei de “não-identidade” e também por causa de um dos textos que mais me fez entender o que é a música popular de São Paulo, e que foi publicado pela Folha de S. Paulo em julho de 2001 (olha o ano do astronauta libertado de Tom Zé, o baiano paulistano, e Mutantes de novo). Nele, o professor e compositor Zé Miguel Wisnik disse que “com exceção da música caipira, guardada tradicionalmente na voz encorpada e reta de Inezita Barroso, em São Paulo não se criaram os gêneros. Aqui eles se encontram, se misturam, se desmancham, são processados e reprocessados e tratados muitas vezes com aquela distância relativizante de que se investem as coisas quando elas são sabidamente de empréstimo”. Tudo é aqui, nada é daqui (nem falarei da grande quantidade de músicos de fora de São Paulo que fizeram seu trabalho na cidade; isso é um grande capítulo à parte).

A impressão que tenho é que em cidades como Salvador, Rio de Janeiro, Recife, Porto Alegre e Belém, os sons e o ritmo vem antes de tudo, muito antes do verbo. Um exemplo singelo: poucas coisas são tão cariocas quanto um mineiro radicado no Rio. Em São Paulo não. Tudo existe fora, antes, e é nela que tudo se mistura. Não é um rosto fácil de identificar. Nem de gostar também. Daí talvez nasça certa dificuldade do Brasil com a música de São Paulo e, ao mesmo tempo, um fascínio de artistas de tudo que é canto com essa enorme variedade de possibilidades. Em alguns lugares isso se chama liberdade, n’outros é caos mesmo.

Todo esse acúmulo de histórias, desenraizamentos, experiências, paixões, horrores e vivências gerou nos anos 2000 uma das gerações de músicos mais interessantes e (ainda mais) diversas da história de São Paulo. É a terra que continua quebrando o samba no trabalho de artistas como Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Romulo Fróes e Douglas Germano. É onde o rap ganhou corpo e força com gente como Criolo, Emicida, Lurdez da Luz, Rodrigo Ogi, Flora Matos e CaGeBe. É nela que a música instrumental perdeu o medo de ser, de alguma forma, pop e experimental (vide Hurtmold, MarginalS, Bixiga 70 e Guizado). É por onde escoam as novas vozes femininas de Tulipa Ruiz, Anelis Assumpção, Céu, Andreia Dias, Mariana Aydar, Iara Rennó, Luisa Maita e Mallu Magalhães. Falei do balanço moderno de Curumin ou do lirismo de um dos maiores descendentes de Roberto Carlos, o cantor e compositor Marcelo Jeneci? Ora pois, estou falando agora e só arranhando a pontinha desse Minhocão.

Não dá para prever quem deles(as) serão os novos Mutantes, as novas Inezitas, direto da Terra da Garoa para o Brasil (será que é preciso?). Por outro lado, o sucesso de hoje também não é o mesmo do tempo das gravadoras e discos de ouro. Enquanto isso, São Paulo continuará sendo...


p.s. 1: pouco antes de começar a escrever esse texto vi o clipe mais recente de Mallu Magalhães (“Velha e Louca”) e, de repente, a letra da música, tão confessional do atual estado de espírito da cantora, me pareceu uma ótima descrição de São Paulo. Acabou inspirando o título da coluna. “Pode falar que eu não ligo, / Agora, amigo, / Eu tô em outra, / Eu tô ficando velha, / Eu tô ficando louca / (...) / Pode falar, não importa / O que eu tenho de torta, / Eu tenho de feliz, / Eu vou cambaleando / De perna bamba e solta”, canta a ex-menina.

p.s. 2: dias após publicar o texto no Yahoo veio a notícia da morte súbita do diretor desse clipe da Mallu. Paulo Gandra tinha 28 anos e estava em Londres. 

p.s. 3: também após a publicação do texto fiquei sabendo da existência desse vídeo com Criolo cantando Itamar Assumpção e lamentei não ter colocado lá no Yahoo. Depois vi que não ia ter jeito mesmo. Precisava de uma música/video que mostrasse bem claramente o humor paulistano (nada melhor que Mulheres Negras) e não podia ficar sem o clipe da Mallu (afinal, foi a música que deu o título à coluna). Mas aqui a história pode ser reescrita, então escutem só Criolo cantando "O tempo todo", que surgiu na Caixa Preta em interpretação de Seu Jorge.

terça-feira, 28 de junho de 2011

nego dito, o doc

olha só o trailer de daquele instante em diante, documentário de rogério velloso sobre itamar assumpção. a pesquisa de conteúdo é do mano mauricio pereira e a estreia, em salas do cinema unibanco, é agora em 8 de julho.



e essa frase de paulinho lepetit - "acho que o sucesso bateu na porta dele muitas vezes e ele... ele não atendia" - é uma das melhores definições sobre o artista itamar assumpção.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

"é duro ser preto"

foi o que disseram/cantaram mauricio pereira e andré abujamra, os mulheres negras, na música "eu vi", do disco música e ciência (warner, 1988). tudo continua muito atual.



um salve pro @alpn00 que colocou o link desse video que eu nunca tinha achado.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

um abraço pro sérgio murilo



é que ele completa 69 anos hoje e "marcianita", uma das músicas mais legais do seu repertório, está fazendo 50 anos. ainda pré-jovem guarda, a música é da dupla josé imperatore marcone e galvarino villota alderete (espanhóis? mexicanos? não consegui descobrir) e ganhou uma versão em português assinada por fernando césar (e gravada com muito sucesso por sérgio murilo em 1960, enquanto essa versão acima já é dos anos 1970). de lá pra cá, "marcianita" já ganhou versões de figuras como bobby di carlo, caetano veloso & os mutantes, raul seixas, léo jaime, leno, jussara silveira, grupo rumo, portinho, gal costa e até os trapalhões. mas escolhi o sensacional registro ao vivo feito por mauricio pereira para o disco canções que um dia você já assobiou vol. 1 (lua musica, 2003).

sexta-feira, 24 de julho de 2009

"os não-humanos não são computáveis"

dia de folga tem dessas coisas... pelo twitter do ritchie vi essa entrevista ótima d'os mulheres negras pro jô soares em 1988, um pouco antes do lançamento do primeiro disco (música e ciência) da dupla formado por mauricio pereira e andré abujamra. imagine só, penteados malucos, roupas idem, luma de oliveira na platéia, fita k-7, um jô quase simpático e os mulheres anarquizando daquele jeito deles (impagável o momento em que o pereira diz que o fanzine oficial do grupo, o 20908, pode ser pirateado a vontade, muito antes do creative commons). segue a entrevista em três partes.

parte 1


parte 2


parte 3

domingo, 19 de abril de 2009

domingueira

ah, os mulheres negras. como gosto desses caras. não lembro como os conheci, mas morava em ribeirão preto na época, final da década de 1980, começos dos 90. lembro também de uma minissérie doidona feita pela globo (sampa) que teve trilha assinada por eles. com certeza foram muito importantes pr'uma imagem de são paulo, a cidade, que estava sendo criada na minha cachola, junto com titãs, ira!, ultraje a rigor e novelas da globo como vereda tropical. acho que nessa época não fazia ideia que são paulo seria o meu futuro, a minha cidade. agora, para minha surpresa, e um pouco antes deles anunciarem o fim da dupla, os mulheres negras aportaram em ribeirão preto, acho que em 1991. e lá se fui eu com o mano fernando. puta show. até pouco tempo atrás ainda guardava o ingresso. e tenho, claro, os dois discos: música e ciência (1988) e música serve para isso (1990).

continuei acompanhando a carreira de ambos, e ainda mais de perto depois que vim pra são em 1994. vieram os primeiros discos solo do mauricio pereira e o karnak do andré abujamra, fui em shows e acabei os conhecendo pessoalmente via gafieiras. dois caras muito bacanas, engraçados, francos e nada "artistas", mas confesso que meu interesse pelo pereira se manteve firme e forte, enquanto pelo abujamra foi diminuindo já no finalzinho do karnak (as letras do abujamra, que é um grande músico, começaram a me constranger de alguma forma, principalmente pela ingenuidade de suas mensagens).

agora, com vocês, "sub", uma versão genial e paulistaníssima de "yellow submarine".



p.s.: já ia esquecendo... as entrevistas que mauricio pereira e andré abujamra deram ao gafieiras estão aí nos links.