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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

muros de mais, pontes de menos

só vi agora que um dos melhores documentários brasileiros dos últimos tempos, o média a ponte (2006-08), de roberto t. oliveira e joão wainer, está na íntegra na internet. traz depoimentos de mano brown, do escritor ferréz e da educadora dagmar garroux, fundadora da casa do zezinho. a trilha é da dupla zé gonzales e daniel ganjaman.


e tem no site da revista trip uma boa entrevista, de 2008, com wainer.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

jornalismo musical, esse desconhecido

foi nos meus tempos de gafieiras que comecei a perder o interesse em fazer crítica musical. geralmente gosto de ler, e mesmo quando não concordo acho interessante, mas comecei a achar bobo (eu) falar se um trabalho era bom ou não. em um mundo tão cheio de opiniões - os críticos, na maioria das vezes e em todas as áreas, disfarçam opiniões pessoais com objetividade jornalística - achei que era mais interessante falar com o artista, tratar de suas referências, de seu trabalho, e deixar para o leitor ter suas próprias opiniões em vez de sair adjetivando por aí. claro que minhas opiniões também apareciam aqui e aqui, nas entrelinhas do texto (não existe objetividade, pronto), mas aquilo já não era crítica musical. e assim meu coração acalmou. muito bem.

umas duas semanas atrás fui convidado, e nem lembro mais por quem, a participar de uma comunidade da bizz (a falecida revista da abril que colaborei uma vez em sua última encarnação; foi o texto 'conexão entre o morro e o asfalto') no facebook. sabia que a comunidade da bizz no orkut era (e acho que ainda é) bastante intensa, mas depois de uns três dias nessa do facebook simplesmente desisti e saí. muita egotrip de jornalista, papinho furado, polêmica vazia, briga de turminhas, fofoca. "brinquedo de menino", segundo bia abramo (@biawabramo). "ufc de jornalistas musicais" nas palavras de nina lemos (@ninalemos).

mais ou menos ao mesmo tempo, o pedro alexandre sanches escreveu no farofafá o texto "criolo, o esqueleto do hype" e o circo de jornalistas musicais pegou fogo. para quem não é desse mundo (99,999% do brasil), uma breve contextualização. nó na orelha, o segundo disco do mc paulistano, foi saudado por muita gente como o disco do ano e seu autor, criolo, começou a aparecer em tudo que é lugar. com o hype veio seu irmão gêmeo, o antihype. ambos apaixonados, assertivos, totais. e nesse texto, o pedro tentou entender o fenômeno, o que era e o que não era "moda", para então chegar à música (que, segundo ele, e concordo com isso, quase sempre foi esquecida nas avaliações; apenas ser pró ou contra bastava).
daniel ganjaman (@danielganjaman), co-produtor do disco do criolo e um dos linhas de frente dessa história, elogiou o texto do pedro (@pdralex) e os dois começaram um diálogo interessante no twitter, mas fernanda couto (@sete8), assessora de imprensa do artista (e de tulipa ruiz, marcelo jeneci, etc) acabou atravessando o samba e alfinetou o jornalista ao afirmar que ele não podia julgá-lo sem também ter visto sua performance no palco. nas entrelinhas desse quiprocó, nos ditos e não-ditos, a velha rixa entre imprensa e artistas. mas nesse caso específico do criolo era uma briga que vinha acontecendo nos bastidores (hype X antihype) e que acabou vindo a tona a partir desse texto.

o bicho pegou lá no facebook e foi exatamente nessa hora que saí da comunidade. não queria saber. já tinha lido muitas resenhas, reportagens e avaliações sobre o nó na orelha. algumas entrevistas também. fora inúmeras conversas (reais e virtuais) com gente de dentro e fora da cena rapper paulistana. gosto imensamente do disco. não sei se o criolo vai emplacar como artista (e não é uma capa da serafina, suplemento descolado da folha de s. paulo, ou um dueto com caetano veloso no vmb que fará isso acontecer), mas tenho certeza que nó na orelha é um disco que vai entrar para a história. a versatilidade vocal, o carisma e as letras fortes e lotadas de referências de criolo, a produção e os arranjos inspirados de ganjaman, marcelo cabral e banda. é um grande disco de gênero indefinido porque não é rap, mas é do rap que vem toda sua essência. é ótima música popular (negra, branca, índia) brasileira. mas isso sou apenas eu dizendo, cê tá me entendendo?

mas quando achei que tinha saído, "eles" me puxaram de novo. foi no sábado que @igordisco (que também escreveu sobre aqui) me passou o link para um texto do daniel ganjaman espinafrando o jornalismo musical brasileiro a partir da comunidade da bizz no facebook. ele compilou uma série de frases polêmicas, quase todas de josé flávio jr. (bravo) e algumas poucas de alex antunes, tirou algumas fora de contexto, deu aquela generalizada e desceu o pau. algumas de suas críticas são bastante pertinentes, principalmente quando fala de leviandade de certas avaliações (polêmica gera audiência, todo mundo sabe), mas seu jeito irônico-agressivo acaba deixando transparecer uma dificuldade para lidar com críticas (negativas). sem falar no velho chavão, pretensamente deslegitimador, de que todo crítico é um artista frustrado ou então de que ele "apenas" escreve, não cria.

logo depois, o marcelo santiago (@meiodesligado) postou no blog meio desligado sua avaliação pessoal (bastante ponderada) do evento e uns printscreens com a continuação desse bate-boca, agora com as principais partes envolvidas (ganjaman, alex antunes e flávio jr.), lá no facebook. tiroteio pra lá, tiroteio pra cá e se de alguma forma eu também não estivesse envolvido nessa história (ossos do ofício) teria uma preguiça desgraçada de entendê-la, principalmente por questões escancaradamente pessoais entre ganjaman e flavio jr. isso me fez lembrar uma frase do livro de anthony bourdain (ao ponto) que estou lendo: "usar a função de crítico para resolver pendências pessoais o coloca no mesmo pântano interesseiro de seus colegas que usam o poder para obter vantagens pessoais". isso vale para ambos os lados e dá pano pr'algumas reflexões.

não acredito que o jornalismo musical - essa "especialização" criada no final da década de 1960 - no brasil vá mal. acho que estamos passando por uma entressafra. os "revolucionários" das décadas de 1980 e 90 já andam meio barrigudos, mal humorados e ocasionalmente perdidos nesse mundo novo descentralizado, sem certezas. a garotada dos anos 2000 ainda precisa descobrir que música não é tudo. mas também existem pessoas de gerações distintas que já se ligaram nisso e que mesmo assim mantém aquele tesão, aquela curiosidade pelo que é produzido ontem e hoje, aqui e no mundo, e pra além de seus gostos pessoais. agora, pra mim, curiosidade e tesão são diferentes de deslumbramento e tendência. e sinceridade é mais interessante que cinismo. no mais, tem espaço pra tudo nesse mundo e é assim que tem que ser. e cada um que faça o seu filtro, que busque sua turma. como eu nunca fui de turmas...

também não acho que artistas independentes (e sua entourage) sejam coisinhas puras de deus e nem os jornalistas demônios armados de iphones. a coisa não funciona assim. todo mundo pode ser alvo de críticas ou piadas. resta saber se são boas ou não, e se você aí sabe lidar com isso. "se nem jesus agradou a todos", diria algum comentarista ululante de grandes portais.

agora, pra encerrar, que esse texto já ficou mais longo que deveria, gostaria de falar um pouquinho sobre uma das acusações do antihype criolo: a do lobby na imprensa. acho que já passou da hora de encararmos o lobby como uma coisa natural do sistema. e quando digo lobby não me refiro a jabá. tentar vender seu peixe é uma coisa. empurrá-lo contra a vontade de outrem é diferente. quer dizer, é tão imaturo fingir indignação com a existência de algo que efetivamente existe (e que, a princípio, não é errado), fora que é ingênuo achar que a grande mídia e interesses privados estão criando um monstro-produto. a grande mídia não consegue nem mais eleger presidentes, um assunto que lhes interessa diretamente, quanto mais artistas pop. fora que o tal sucesso de criolo é totalmente entre aspas. 95% do país não sabe que ele existe e ainda mais pessoas não estão nem aí para o que o andré forastieri pensa dele.

falta humildade. falta interesse. falta voltar pra rua e abrir os ouvidos. falta discutir com pessoas diferentes. sobra se esparramar na redação à espera dos discos mandados pelas assessorias ou de link exclusivos. sobra a correria para ser o primeiro a falar da novidade da hora nas redes sociais. nesse universo umbigo quem mais perde são os jornalistas que, pouco a pouco, se vêem escrevendo para seus 13 amigos de cerveja e por alguns míseros 'curtir' no facebook. exatamante como talvez eu esteja fazendo agora...

damn!

atualização em 20 de setembro: e fernanda couto e daniel ganjaman fizeram ressalvas e comentários sobre o texto na janela de comentários, mas resolvi colocar aqui também pra enriquecer a discussão e não deixar "escondido" na janela de comentários. seguem...

fernanda couto: "oi Dafne, só corrigindo, não "atravessei" nenhuma conversa entre PAS e Ganja, até porque quando direcionei uma pergunta ao PAS no sábado de manhã, Ganja não estava nem online. questionei se PAS já tinha assistido a um show e ele respondeu que não."

daniel ganjaman: "Olá, Dafne. Gostei do seu texto e apesar de discordar de certos pontos, fico feliz de ver o assunto sendo discutido assim, abertamente. Gostaria de incluir algumas ressalvas, se me permitir.

A Fernanda Couto tem toda razão de fazer a correção, já que a conversa entre ela e o PAS foi "atravessada" por mim, e não o contrário. A discussão no caso tinha foco muito mais na capa da Serafina do que um confronto entre hype X antihype. Achei pertinente dar essa atravessada pois percebi que haviam outros pontos na conversa dos dois, em função do envolvimento da Fernanda com o trabalho e a posição "antifolha" que o Pedro faz questão de ressaltar sempre que tem a oportunidade. Na minha opinião, isso de certa forma deslegitimava um pouco os discursos, mas achei tudo super saudável e natural.

Em relação ao meu texto, gostaria só de deixar claro que não disse em momento algum que "todo crítico é um artista frustrado". É fato que um trabalho depende do outro, mas acho que essa forma comum de encarar o assunto diminui (e muito) a discussão. Críticas construtivas são sempre bem vindas e os textos que mais gostei sobre o trabalho do Criolo foram também os únicos que apontaram os defeitos do disco, escritos pelo próprio PAS (para o portal ig) e pelo Arthur Dantas (para a revista +Soma). O que eu questiono ali não são críticas. São todos os pontos também apontados por você no texto, como "egotrip de jornalista, papinho furado, polêmica vazia, briga de turminhas, fofoca".

No mais, concordo com oque você falou e aceito também suas críticas ao meu texto de forma construtiva, como deve ser. Abs! Daniel Ganjaman"

sábado, 30 de abril de 2011

fique atento! criolo no microfone!

só se você esteve fora do ar na semana. só assim pode não ter cruzado com alguma coisa-notícia-dica relacionada ao paulistano criolo e seu segundo disco, nó na orelha, que foi liberado para download gratuito pelo próprio (agora em maio saem as versões em cd e vinil). se você não ouviu nada a respeito fique atento porque logo vai ter gente aí do seu lado falando que é o disco do ano, que o cara detona, numa corrente daquelas que vira onda grande, unanimidade surpreendente e nada burra. fique atento!

alguns meses atrás um dos produtores do disco, daniel ganjaman colocou em seu soundcloud três aperitivos do disco: o rap forte "grajauex", a balançante e malandra "subirusdoistiozin" e a soul "não existe amor em sp". aí já deu pra sacar que um dos comandantes da lendária rinha dos mcs de são paulo, e que em 2006 estreou com o convencional ainda há tempo, tinha mudado. o rap continuava ali nas suas músicas, mas de repente aquele rap era uma canção! com cara de clássico, "não existe amor em sp" é um bom exemplo de que o tema da cidade, tão caro ao rap, está ali, mas sob violinos, batidas e sentimentos soul. quando as outras sete faixas de nó na orelha caíram oficialmente na rede no início da semana, a variedade de caras e sons de criolo se mostrou ainda maior e melhor (com ajuda de ganjaman e marcelo cabral, do trio marginals, o outro produtor). escuta só o disco todo aí embaixo e me diz se estou mentindo.

Criolo - Nó Na Orelha by PoesiaRitmada

o disco começa com "bogotá" em ritmo de afrobeat, mas tem afrosamba em "mariô" (parceria com kiko dinucci), reggae adubado em "samba sambei", bolerão setentista em "freguês da meia noite", mais rap em "sucrilhos", orientalidades em "lion man" e o sambão divertido "linha de frente", com direito a uma turma da mônica do asfalto. sem parecer esquizofrênico, e muito menos oportunista, a variedade de vozes e ritmos de criolo é toda natural, absolutamente autêntica, fazendo de nó na orelha um microcosmos de achados e possibilidades para o rap e a canção brasileira. são as coisas que se ouve saindo do jeito que se sente. e sem as amarras de um gênero. afinal, quem disse que um rapper não pode fazer um bolero?

mas essas dez faixas são apenas um pedacinho de sua produção. parece que o sujeito está compondo como quem respira. então separei aqui videos de outras músicas. começando com uma homenagem a "cálice", aquela mesmo cantada por chico buarque e milton nascimento.



ou então "pra quê cerol?", numa versão ao vivo, rap meio punk e meio jazz com participações de lurdez da luz e os marginals.



e encerrando com a nordestina "lantejoula", dedicada aos seus pais cearenses (e como meus pais, como eu, também são cearenses, aproveito e dedico também a eles).



e o sujeito tem uma presença de palco que vou te falar...

p.s.: vale ler as resenhas do camilo rocha no bate estaca e a do velot wamba na + soma, e a reportagem do pedro alexandre sanches.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

skateboarding is not a crime (parte 2)

um outro documentário sobre skate está prestes a chegar entre nós. enquanto o média dirty money (2010), já falado por aqui, tratava de um período específico (final dos anos 1980 e início dos anos 90) e na cidade de são paulo, o longa vida sobre rodas (ainda sem data de lançamento) traça um painel mais amplo sobre o esporte no brasil. a direção é de daniel baccaro, a trilha é assinada pelos irmãos daniel ganjaman e mauricio takara, e o trailer está aqui.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

por trás do ponta de lança africano

taí, em 3 partes, o documentário sobre os bastidores da gravação da versão 2010 de "umbabarauma", aquela mesma com jorge ben, mano brown, as negresko sis (thalma, céu e anelis), duani, pupillo e o diabo a quatro. muitas histórias, muitos sons, grande encontro.





segunda-feira, 14 de junho de 2010

no lugar onde a coruja dorme

quinze dias depois do anunciado aqui, e em toda rede, a versão 2010 de "ponta de lança africano (umbabarauma)" ganhou clipe e começou a ser vendida online no terra sonora, com toda renda revertida para o capão redondo futebol clube, projeto social comandado pelo rapper mano brown. o clipe foi lançado oficialmente ontem no fantástico, mas numa versão escandalosamente cortada. foi uma vergonha, mais um exemplo que o programa global não consegue trabalhar com material que vem de fora (tem que cortar pra se adequar à grade e coisa e tal). desperdiçaram um belo material exclusivo e que já conta com um belo público de seguidores. duvida? basta fazer uma pesquisa usando a tag #umbabarauma.



mas agora, finalmente ouvindo a música do começo ao fim, deu pra tirar algumas conclusões. o grande achado dessa versão é a presença de mano brown. e não muito mais que isso. a parte do jorge - e até os vocais das negresko sis - é praticamente igual a versão original, o que não acrescenta muito (claro que é uma música poderosa e pelo menos isso não mudou). mas sabe que fiquei com a impressão que o rap do mano brown vai perdendo fôlego, se esticando, do meio pra frente, e meio que acaba do nada, numa espécia de anti-clímax. mas nada disso tiro o brilho dessa reunião inédita. então, bola pra frente.

segunda-feira, 29 de março de 2010

compromisso

em janeiro se completou 7 anos sem sabotage (1973-2003). outro rapper nascido no mesmo ano, o niteroiense speedfreaks, morreu agora, dia 26 de março. os dois foram assassinados em circunstâncias estranhas. nunca se descobriu quem matou sabotage e o mesmo provavelmente irá acontecer com speed. não interessa saber a razão da morte deles, é coisa de todo dia, é feio, é seco e duro. interessa o espetáculo, o extraordinário, o sentimental, os fogos de artifício, o link ao vivo. ainda temos muito chão pela frente, muito o que aprender. sorte de quem acredita em um mundo melhor e que existe mais gente que acredita em um mundo melhor (paratodos). vamulá.

ainda com a notícia do assassinato do speed na cabeça - que era um cara com muito talento e coisas para mostrar, mas que eu acompanhava meio de longe, gostava, mas não passava muito disso - voltei a lembrar do sabotage. outro cara que ainda tinha muito o que rimar (viver). um cara que tenho certeza faria revoluções na música popular brasileira (vide "dama tereza"). aí, lá no twitter do daniel ganjaman (instituto), fiquei sabendo de uma espécie de trailer do disco póstumo do sabotage que ele está produzindo e será lançado no segundo semestre desse ano. ouça sabotage, sempre.



e ouça speedfreaks também. lá no original pinheiros style tem o primeiro disco dele, expresso (independente, 2001), no canal dele no youtube tem vários videos e de lá peguei a crua "você morreu", com participação do bnegão.



a gente tem que ouvir a rua, a gente tem que ouvir.