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segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

150 músicas e 50 discos de 2021

ano difícil da porra esse 2021. ano que fez 2020 parecer uma viagem de cruzeiro. certamente ouvi menos música e muito certamente ouvi menos discos inteiros de cabo a rabo e com atenção. tempos atrás eram quatro listas (músicas e discos brasileiros, músicas e discos gringos), ano passado caiu pra duas (músicas brasileiras e gringas) e agora fiz apenas uma juntando brasileiras e gringas tudo misturado (mas em ordem alfabética rsrsrs). 

e como tá tudo diferente mesmo, este ano abri uma exceção que nunca havia feito desde o começo das minhas listas em 2009: coloquei mais de uma música do mesmo disco; afinal, os trabalhos absolutamente fantásticos de três mulheres – Gaby Amarantos, Juçara Marçal e Little Simz – não me deram opção (e mesmo assim foi difícil fechar em duas). outras minas conhecidas da casa também botaram pra quebrar, tais como Aíla, Alessandra Leão, Alice Caymmi, Céu, Duda Beat, Flora Matos, Iara Rennó, Jorja Smith, Larissa Luz, Luana Carvalho, Mallu Magalhães, Nneka, Rosalía, St. Vincent, Tássia Reis, Xenia Rubinos e Yendry (e as estreantes Ana Flor de Carvalho, Duda Brack, Jadsa, Kimberose, La Dame Blanche e o fenômeno Marina Sena). como já venho repetindo nos últimos anos, as minas tem sido responsáveis pelas músicas mais interessantes e invariavelmente também são compositoras e produtoras.

dos manos preciso destacar algumas que foram muito trilha do meu ano: a espetacular "Cotidiano" do Rincon Sapiência; "Calling England Home" do Anthony Joseph (combinação foda de ethio jazz com spoken poetry); "Linda" d'Os Amantes (encontro de Jaloo com a dupla Strobo); a porrada de "Cleane" do Criolo; "Fim de festa" do saudoso Itamar Assumpção via Arnaldo Antunes e Vitor Araújo; "Me espera", o hit veraneio ijexá oitentista de Múlu (ex-DJ Omulu) com vocais de Letrux; as doçuras de "O tempo e o vento" de Roger W. Lima, "I Can't Wait" de Rodrigo Amarante, "Estrangeiro" de Rico Dalasan; os balanços poderosos de "Hustle" do Sons of Kemet, "Reza forte" do Baiana System & BNegão, "Santé" do Stromae, "Poke it Out" de Wale & J. Cole e "Brasa" do Saulo Duarte (com participação de Thalma de Freitas); e por último, o brega e o piseiro e vice versa de "Aquelas coisas" de João Gomes, "Amante de aluguel" de Johnny Hooker e "Unha de gel" d'Os Barões da Pisadinha. 

taí playlist com as 110 músicas. só o fino, né por nada não.

Aíla - Tô de Onda (feat. Rincon Sapiência)

Alessandra Leão - Borda da Pele

Alewya - Ethiopia

Alice Caymmi - Serpente

Amaarae - Sad Girlz Luv Money (feat. Moliy)

Amaro Freitas - Sankofa

Ana Flor de Carvalho - Delito

Anchorsong - Remedy

Anitta - Girl From Rio

Anthony Joseph - Calling England Home

Arnaldo Antunes & Vitor Araújo - Fim de Festa

Atmosphere - Crumbs (feat. Evidence & Muja Messiah)

Bacao Rhythm & Steel Band - Raise It Up

BaianaSystem - Reza Forte (feat. BNegão)

Bárbara Eugênia - Hold me Now

Bomba Estéreo & Leonel García - Como Lo Pedí

Bonbon Vodou - Fonkèr

Bonobo - Shadows (feat. Jordan Rakei)

Bruno Mars, Anderson Paak & Silk Sonic - Smokin Out The Window

Carolina Deslandes - Eco

Céu - I Don’t Know

Cindy Sanyu & Mungo's Hi Fi - Pull Up On Mi Bumpa

Cochemea - Mimbreños

Coruja BC1 - O Piano (feat. Margareth Menezes & Jonathan Ferr)

Criolo & Tropkillaz - Cleane

Don L - Na Batida da Procura Perfeita

Duda Beat - Nem um Pouquinho (feat. Trevo)

Duda Brack & Ney Matogrosso - Ouro Lata (feat. BaianaSystem)

El Michels Affair & Liam Bailey - Awkward (Take 2)

FaceSoul - Grow (Freestyle)

Felipe Cordeiro - Flecha

Felipe S - Liberta (feat. Barbarelli)

Filarmônica de Pasárgada - Rios e Ruas

Flora Matos - Chá de maçã

Gaby Amarantos - Amor pra Recordar (feat. Liniker)

Gaby Amarantos - Última Lágrima (feat. Elza Soares, Alcione & Dona Onete)

GIO - Joias

Gloria Groove - A Queda

Gustavo Pontual - Minha Onda (feat. Kael Semlote)

Heavy Baile & ÀTTØØXXÁ - Raposa Love

Homeboy Sandman - Go Hard

IAMDDB - JGL

Iara Rennó - Quase Amar

Ibeyi - Made of Gold (feat. Pa Salieu)

J. Cole - a m a r i

Jadsa - Run, Baby

Jesse Boykins III - No Love Without You

João Brasil - Funk Lento

João Donato & Jard Macalé - Cururu

João Gomes & Tarcísio do Acordeon - Aquelas Coisas

Johnny Hooker - Amante de Aluguel

Jorja Smith - Bussdown (feat. Shaybo)

Juçara Marçal - Crash

Juçara Marçal - Vi de Relance a Coroa

Kaytranada - $payforhaiti (feat. Mach-Hommy)

Kimberose - Pull Me Down

La Dame Blanche – Veneno

Larissa Luz - Afrodate (Dreadlov)

Lex Amor - Ruckus

Little Simz - I Love You, I Hate You

Little Simz - Point and Kill (feat. Obongjayar)

Lizzo - Rumors (feat. Cardi B)

L'Orange & Namir Blade - Corner Store Scandal

Los Yesterdays - Nobody's Clown

Luana Carvalho - Mainha

Luísa e os Alquimistas - I Love You Lulu (feat MC Tchelinho)

Major Lazer & Ludmilla - Pra te Machucar (feat. ÀTTØØXXÁ & Suku Ward)

Mallu Magalhães - América Latina

Marcelo Jeneci - Vem Vem (feat. Muse Maya)

Marina Sena - Me Toca

Masego - Mystery Lady (Sego’s Remix)

Menahan Street Band - The Duke

Meridian Brothers & Conjunto Media Luna - En Teusaquillo te Pueden Partir la Cara

Mick Jenkins - Contacts

Moonchild Sanelly - Undumpable

Mulú & Letrux - Me Espera

Mundo Livre S/A - Baile Infectado

Muzi - Interblaktic

niLL - Control (feat. DijahSB)

Nneka - With You

Onda Vaga - Deja

OQuadro - Asas (feat. Jorge Du Peixe)

Os Amantes (Jaloo & Strobo) - Linda

Os Barões da Pisadinha - Unha de Gel (Remix com Grave)

Owiny Sigoma Band - Changamooka

Pongo - Bruxos

Princess Nokia - Boys Are From Mars (feat. Yung Baby Tate)

Rico Dalasam - Estrangeiro

Rincon Sapiência - Cotidiano

Rodrigo Amarante - I Can't Wait

Roger W. Lima - O Tempo & O Vento (feat. Apollo 9)

Rosalía - La Fama (feat. The Weeknd)

Saulo Duarte - Brasa (feat. Thalma de Freitas)

serpentwithfeet - Amir

Sombra & Valério - Onde Orbitamos

Sons Of Kemet - Hustle (feat. Kojey Radical)

Sopico - Nuage

St. Vincent - Down

Stromae - Santé

Tamara Franklin - Fugio

Tank And The Bangas - Big (feat. Big Freedia)

Tássia Reis & Djonga - Ostentação da Cultura

The Brkn Record - Assimilation (feat. Dylema)

Tierra Whack - Stand Up

Tobe Nwigwe - Fye Fye (feat. Fat Nwigwe)

Wale - Poke It Out (feat. J. Cole)

Wayne Snow - Figurine

Xenia Rubinos - Don't Put Me In Red

Yendry - Ya

Zé Cafofinho - Bacuri (feat. Bárbara Eugênia)

ATUALIZAÇÃO: acabei não aguentando e fiz uma lista secundária com mais 40 músicas. algumas não entraram por pouco na primeira, outras eu esqueci e outras ouvi só agora aos 47 do segundo tempo. segue abaixo a lista e na sequência a playlist.

Agnes Nunes - Vish 

Aminé - Charmander

Arlo Parks - Portra 400

BADBADNOTGOOD - Love Proceeding

Botika - Carnívora (feat. Alice Caymmi)

Caetano Veloso - Pardo

César Lacerda - Parece Pouco (feat. Xênia França)

Common - When We Move (feat. Black Thought & Seun Kuti)

Damon Albarn - The Cormorant

Emicida - São Pixinguinha

Erika de Casier - Make My Day

Esty - 7heaven

Flo Milli - Ice Baby

Greentea Peng - Nah It Ain't The Same

Hiatus Kaiyote - And We Go Gentle

Jazmine Sullivan - Pick Up Your Feelings

Jorge Du Peixe - Sanfona Sentida

Khruangbin & Leon Bridges - B-Side

Laís de Assis - Terra Vermelha

Los Retros - Amtrak

Lulina & Hurso - Uma Tela do Bob Ross

Marlowe (L'Orange & Solemn Brigham) - Small Business

MC Carol - Mulher do Borogodó

Meia Banda - Ipê (feat. Moreno Veloso & Iba Sales Huni Kuin)

Nas - Nobody (feat. Ms. Lauryn Hill)

Nightmares On Wax - Breathe In (feat. OSHUN)

Noname - Rainforest

Nova Malandragem - Moanin

Pabllo Vittar - Triste com T 

Pat Kalla & Le Super Mojo - Cumbia de Paris

Rejjie Snow - Arigato

Rockers Control - Nine Out Of Ten

Rodrigo Campos - Deixa a Noite (feat. Verônica Ferriani)

Santa Salut - Un Altre Peto

Skepta - Nirvana (feat. J Balvin)

Thiago França - O Futuro Um Dia Volta

Tommy Guerrero - By the Sea at the End of the World

Tony Allen - Stumbling Down (feat. Sampa The Great)

Vince Staples - Are You With That?

Yebba - Far Away (feat. A$AP Rocky)


muita música, muita gente, muitas línguas e sons né. mas não custa deixar o registro de alguns discos do ano. uns emplacaram músicas na lista acima, outros não, e nada disso importa porque são todos discos fundamentais pra se entender um pouco do que aconteceu musical e humanamente no mundo em 2021 (em caps locko os meus preferidos pessoais. 

Aíla - Sentimental

ALESSANDRA LEÃO - ACESA

ALICE CAYMMI - IMACULADA

AMARO FREITAS - SANKOFA

ANTHONY JOSEPH - THE RICH ARE ONLY DEFEATED WHEN RUNNING FOR THEIR LIVES

ARNALDO ANTUNES & VITOR ARAÚJO - LÁGRIMAS NO MAR

Atmosphere - Word?

BACAO RHYTHM & STEEL BAND - EXPANSIONS

Badsista - Gueto Elegance

BAIANASYSTEM - OXEAXEEXU

BOMBA ESTÉREO - DEJA

Bonbon Vodou - Cimetière Créole

Bruno Mars, Anderson Paak & Silk Sonic - An Evening With Silk Sonic

Caetano Veloso - Meu Coco

CÉU - UM GOSTO DE SOL

COCHEMEA - VOL. 2: BACA SEWA

CORUJA BC1 - BRASIL FUTURISTA

Curtis Harding - If Words Were Flowers

Damon Albarn - The Nearer The Fountain, More Pure The Stream Flows

DON L - ROTEIRO PRA AINOUZ VOL. 2

DUDA BEAT - TE AMO LÁ FORA

Duda Brack - Caco de Vidro

El Michels Affair - Yeti Season

El Michels Affair & Liam Bailey - Ekundayo Inversions

Flora Matos - Flora de Controle

GABY AMARANTOS - PURAKÊ

Gorillaz - Meanwhile... EP

Homeboy Sandman - Anjelitu EP

IARA RENNÓ - PRA TE ABRAÇAR

J. Cole - The Off-Season

Jadsa - Olho de Vidro

JOÃO DONATO & JARD MACALÉ - SÍNTESE DO LANCE

JUÇARA MARÇAL - DELTA ESTÁCIO BLUES

Leon Bridges - Gold-Diggers Sound

LITTLE SIMZ - SOMETIMES I MIGHT BE INTROVERT

Lulina - Wi-Sci-Fi

Mallu Magalhães - Esperança

Marina Sena - De Primeira

Menahan Street Band - The Exciting Sounds of Menahan Street Band

Meridian Brothers - Paz en la Tierra

OQUADRO - PRETO SEM AÇUCAR

Os Amantes (Jaloo & Strobo) - Os Amantes

Rico Dalasan - Dolores Dala Guardião do Alívio

Rodrigo Amarante - Drama

Romulo Fróes - Aquele Nenhum / Ó Nóis

Saulo Duarte - Lumina EP

SONS OF KEMET - BLACK TO THE FUTURE

St. Vincent - Daddy’s Home

THE BRKN RECORD - THE ARCHITECTURE OF OPPRESION PART 1

Xenia Rubinos - Una Rosa

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

yahoo #49

12 de outubro, dia das crianças. queria ter feito uma coisinha mais leve, mas só consegui pensar nesse debate ainda em aberto sobre a proibição da publicidade infantil. foi o bróder fernando de almeida que me mostrou ano passado o documentário "criança, alma do negócio" que encerra esse novo texto pro yahoo, mas que acabou sendo meu ponto de partida para tentar refletir sobre o assunto (então já dá pra sacar qual meu lado da história). depois que foi publicado fiquei com uma sensação de muitas pontas soltas, mas o bagulho é complexo mesmo. 


VINDE A MIM AS CRIANCINHAS CONSUMIDORAS

Fui criança no final dos anos 1970, início dos anos 1980. Um tanto em Fortaleza e outro tanto no Rio de Janeiro. Tudo era muito diferente então – tinha até um lance chamado “ditadura militar”, vejam só vocês – e com a infância não seria diferente. A equação era mais ou menos a seguinte: mais rua, menos brinquedos, menos TV.

Sobre os brinquedos, a família não tinha muita grana e não existia lá muita variedade. Sobre a TV, não havia muita programação infantil na TV aberta. Não era bem uma questão de escolha e mais de adequação à realidade, mas acabava estimulando a imaginação e jogando as crianças pra brincarem umas com outras na rua.

O tempo passou e só voltei a ter contato com a “infância” quando familiares, amigas e amigos começaram a ter seus próprios filhos. Descobri que crianças continuam iguais, mas a infância no século 21 é muito outra (ah vá?). O primeiro sinal é muito menos rua pra brincar. O shopping e a própria casa, representada por TV e internet (esta apenas na segunda infância), entraram em seu lugar.

Os brinquedos (e games) ganharam uma sofisticação e uma variedade tão absurdas que deixariam em estado de choque qualquer criança de décadas passadas. Só que também possuem tanta informação que deixam menos espaço para crianças forjarem seu próprio imaginário. Já está tudo ali, e para a criança resta apenas a ação, o ‘play’. Já a TV, bem, a TV tomou todos os espaços. Ela hoje é entretenimento, berçário, rua, educação, babá, conforto, segurança, cultura, comodismo, estímulo e por aí vai.


Mas ó, não adianta ficar de chororô pela infância perdida de outros carnavais porque as coisas sempre mudam, é sempre assim. E cada geração tem sua própria cota de acertos e erros. A TV, por exemplo, é responsável hoje por crianças de 2 e 3 anos terem um impressionante e vasto vocabulário (às vezes, bilíngue). Por outro lado, seus comerciais geram cabos-de-guerra entre pais e filhos.

Apetitosos objetos de desejo, muitos criados junto com atrações televisivas, são esfregados nas caras das crianças a cada 30 segundos. Qual criança não quer tudo? Que pai ou mãe consegue dar tanto? Lembrando ainda que uma pesquisa do Ibope de 2007 mostrou que crianças brasileiras, entre 4 e 11 anos, passam em média 5 horas por dia em frente à TV (contra 4 horas na escola), isso é uma batalha perdida. Ainda mais em um tempo no qual pais fazem de tudo para não frustrar seus filhos (uma bobagem, afinal frustração faz parte da vida, amadurece).

Criado em 2001 pelo deputado federal Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR), o Projeto de Lei 5921 “proíbe a publicidade/propaganda para a venda de produtos infantis”, mas pouco mais de dez anos depois ainda não chegou à votação no plenário. A Associação Brasileira de Agências de Publicidade obviamente esperneou e criou a campanha “Somos Todos Responsáveis”, na qual enfileira uma série de depoimentos de anônimos e “especialistas” (advogados, publicitários, políticos, apresentadores de TV, etc.). Falam de inconstitucionalidade, cerceamento da liberdade de expressão, não-tutelamento do Estado, o fim da programação infantil por falta do dinheiro dos comerciais, já existe uma agência regulamentadora (Conar) e coisa e tal.

Não falam, claro, dos problemas levantados por movimentos como o “Publicidade Infantil Não” e o Instituto Alana: ansiedade, estresse familiar, obesidade, violência e tortura psicológica, entre outros, todos decorrentes de estímulos publicitários ao consumo. Esquecem ainda que o Estado tem sim (ou deve ter) responsabilidade sobre questões sociais. Tal debate sugere três alternativas: a proibição, uma regulamentação mais rígida ou deixar como está. Assunto quente, necessário. Só não dá pra deixar os publicitários venderem, mais uma vez, gato por lebre.

terça-feira, 31 de julho de 2012

o corpo ainda é pouco

no meio dessas novas correrias na istoé esqueci de colocar o último frila que fiz antes de ir pras bandas da lapa de baixo. foi pra revista voetrip esse perfil dos quatro titãs restantes na atual conjuntura 2012, com um pé no passado (reedição luxuosa do clássico cabeça dinossauro nos 30 anos de estrada) e olhos no futuro (começando disco novo, mas ironicamente o site oficial está surrealmente desatualizado). e na urgência de tudo e todos foi por email mesmo. paciência, iracema, paciência. de resto, as fotos que ilustram essa postagem são reproduções celulares de detalhes dos retratos feitos por kiko ferrite.


O PULSO AINDA PULSA

No começo eram nove. Ficaram famosos como oito. Mas agora, 30 anos após seu nascimento, os Titãs são quatro. Não é pouca coisa no eternamente jovem mundo do rock, principalmente se for levado em conta que o grupo segue produzindo material novo e lotando shows. Por essas e outras, os titânicos Paulo Miklos, Sérgio Britto, Branco Mello e Tony Bellotto estão comemorando a data redonda em alto estilo com a reedição, e consequentes apresentações, de Cabeça Dinossauro (1986), o terceiro e mais célebre de todos os trabalhos dos paulistanos.

“Vamos fazer a turnê do Cabeça Dinossauro neste primeiro semestre e, no segundo, seis shows com os ex-Titãs Arnaldo Antunes e Charles. Gavin. O Nando Reis não tem disponibilidade de datas. Para 2013 estamos preparando um disco de inéditas, rápido e pesado, mas com uma certa brasilidade. Um cruzamento entre Cabeça e Õ Blésq Blom. Vamos ver no que vai dar”, explicou Britto.

Futuro, presente e passado vivem se encontrando na trajetória do grupo, mas a oportunidade de reviver e compartilhar a glória criativa e cheia de energia do então octeto tem sido uma fonte de surpresas. É que agora os novos e velhos fãs podem ouvir o disco original remasterizado e, pela primeira vez, a demotape com as versões cruas de clássicos como “Família”, “Homem primata”, “Igreja” e “Polícia”, além da inédita “Vai pra rua” (“Porrada” entrou em seu lugar no disco). “Nessa demo que gravamos em dois dias o que chamou atenção foi a sonoridade crua, com arranjos diretos e contundentes que já havíamos concebidos antes da gravação e que foram potencializados na produção do disco [a cargo de Liminha]”, relembrou Mello.

O Titãs já era bastante conhecido na época – as rádios tocavam “Sonífera ilha”, “Televisão” e “Insensível”, músicas dos dois discos anteriores -, mas os oito rapazes ainda não tinham conseguido registrar o peso sonoro que viam em si mesmos. Tudo mudaria em novembro de 1985 com a prisão de Tony Bellotto e Arnaldo Antunes (o primeiro por porte e o segundo por porte e tráfico de heroína, o que acabou fazendo com ficasse um mês na cadeia). As traumáticas experiências da prisão, da violência policial, do moralismo da sociedade e dos meios de comunicação deram um caráter de urgência ao conteúdo do novo disco.

“No ano em que lançamos o Cabeça, os Paralamas lançaram Selvagem? e o Legião Urbana, o Dois. São três discos antológicos, cheios de qualidades, mas completamente diferentes entre si. O Cabeça é a ponta mais ácida e virulenta dessa tríade e talvez por isso mesmo seja um fenômeno mais raro ainda no panorama geral da música popular brasileira. Acho que um disco assim, barulhento, com palavrões, cheio de atitude e contestação ainda é coisa muito rara no mainstream”, disse Britto.

E todo esse barulho, toda a crítica social das 13 faixas do disco, caiu como uma luva naquele momento de redemocratização brasileira. Para se ter uma ideia, nem as multas pela veiculação dos palavrões de “Bichos escrotos” impediram as rádios de tocarem (muito) a música e o disco acabou vendendo mais de 250 mil cópias. “Tenho a lembrança que éramos muito jovens, fazendo a nossa música, descobrindo o Brasil e já com a certeza de que era isso que queríamos pras nossas vidas. Deu pra perceber o quanto estávamos sintonizados e afiados para realizar esse disco”, vangloria-se Mello.


Cabeça Dinossauro é o primeiro disco titânico a sair nesse formato luxuoso. Outros álbuns que o grupo lançou pela Warner terão o mesmo fim e os mais esperados são Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas (1987) e Õ Blésq Blom (1989). “Temos muito material extra. Fitas demo ou caseiras feitas antes de cada disco com o material ainda recém arranjado, em estado bruto. E muito material gravado em ensaios. Pretendemos escolher com cuidado entre estes arquivos o que pode ser lançado em futuras edições especiais”, diz Miklos, muito preocupado com a qualidade e relevância do material a ser lançado, mas acima de tudo, animado.

Por outro lado, essas olhadelas no passado protagonizadas pelos remanescentes acabam revivendo as saídas de Arnaldo Antunes (1992), Nando Reis (2002) e Charles Gavin (2010), além da morte de Marcelo Fromer (2001). Com a palavra, o guitarrista Tony Bellotto: “A saída de um ou mais integrantes muda muita coisa em uma banda. Quando algumas pessoas decidem formar um grupo e tocar é por que elas têm química. Não é à toa que a maioria das bandas acaba ou se desconfigura quando alguém decide sair. No caso dos Titãs, cada saída foi triste, mas a morte do Marcelo [Fromer] foi, sem dúvida, o momento mais doloroso que enfrentamos. É sempre difícil superar perdas, ainda mais neste caso.”

E eles superaram, seguiram em frente, porque o show não pode parar e ainda tem muita química para rolar. “Somos um grupo sui generis, com compositores e cantores. Essa característica nos favorece musicalmente. Sempre soubemos ocupar o vazio deixado, nunca ficou um buraco na questão da sonoridade. Mas é claro que as amizades sempre fazem muita falta”, completa Bellotto.


O fato de todos os integrantes conseguirem tocar seus projetos pessoais ajudou a manter acesa a chama dos encontros titânicos: Bellotto se mostrou um hábil escritor de livros policiais; Miklos ganhou fama como ator (O Invasor, É Proibido Fumar e até uma novela, Bang Bang); Mello assinou projetos infantis como Eu e Meu Guarda-Chuva; e Britto encampou novas sonoridades em seus discos solo no decorrer dos anos 2000.

Envelhecer dentro do rock também não é um problema para nenhum dos quatro, que já estão na altura de seus 50 e poucos anos. “O que muda com o passar do tempo são outros aspectos da vida, o lado pessoal e as atitudes. Claro que fazer rock estará sempre ligado a uma ideia de juventude, mas quando estamos juntos parece que somos ainda aquele bando de garotos que se reuniu pela primeira vez para tocar. O espírito continua o mesmo”, reflete Bellotto.

Miklos concorda com o amigo de tempos de colégio, mas vai mais fundo na diversão e se define como um Titã revigorado, positivo e operante. “Atingimos outro patamar depois de mais uma mutação na formação da banda. Estamos nos divertindo como nunca e isto está muito evidente para o público. Esta excursão comemorativa do Cabeça Dinossauro está nos trazendo muitas alegrias. Casas cheias e o encontro carinhoso com os fãs. É muito bom comemorar com rock’n’roll e encontrar as pessoas em meio a toda essa energia”, resume Miklos, titã de corpo presente.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

arnaldo antunes convida...

ontem rolou a segunda noite de gravação do novo programa da mtv, o grêmio recreativo arnaldo antunes, uma séries de dez shows que começa a ser televisionado mensalmente a partir de 31 de março (e a direção é do bróder roger carlomagno, o talentoso pai de alice). cada episódio traz um bando de convidados diferentes e enquanto o primeiro veio com seu jorge, hyldon, céu, edgard scandurra e karina buhr, esse segundo trouxe odair josé, paulo miklos, cidadão instigado e barbara eugênia e otto. o integrante mais pernambucano do corjacast, o digníssimo valtinho silva (@valtersil) esteve lá ontem e conta um pouquinho do que aconteceu, com direito a um flagrante celular. no(s) próximo(s), eu vou, não quero nem saber...

régis damasceno (cidadão instigado), paulo miklos, barbara eugênia,
arnaldo antunes e odair josé


Pense numa reunião de músicos com a banda cearense Cidadão Instigado, o pernambucano Otto, a carioca (radicada em Sampa) Bárbara Eugênia, o titã Paulo Miklos e o outrora chamado de brega, e agora ídolo dos alternativos, Odair José. Junte toda esta galera ao redor do anfitrião e ex-titã e só podia dar no Grêmio Recreativo. Ontem, dia 22 de fevereiro, foi gravado o segundo programa no Inferno Club, no baixo Augusta.

A boa sacada do programa é a informalidade. Arnaldo Antunes se sente bem à vontade para conduzir o programa, quem participa como destaque, depois continua no programa, faz backing vocal ou toca para o próximo e por aí vai, então tenha paciência para ouvir as ótimas desafinações de Catatau em "Doido", e na sequência um dueto dele com Barbara Eugênia em "Tempo" vai te deixar suspenso. A moça, aliás, promete muito, performance estilo Jane Birkin e repertório bem original.

Otto, o bárbaro, impagável, performance genial, e para a família ficar ainda mais reunida, Paulo Miklos e Arnaldo invocam sucessos da época áurea do Titãs: "Pavimentação" numa performance que James Brown aprovaria e "Televisão" (o Cride, fala pra mãe...).

Depois disso, o grande tributo ao convidado da noite. Odair José vem desfilar pérolas como "Eu vou tirar você deste lugar" e "A noite mais linda do mundo" num clima de grand finale apoteótico para delírio geral. Só faltaram nossos pais e mães na platéia para aprovarem o resultado.


quarta-feira, 20 de outubro de 2010

ô lá em casa

acabei perdendo a estreia do especial ao vivo lá em casa, que o arnaldo antunes fez em parceria com o canal vh1. o repertório é baseado no excelente disco iê iê iê (rosa celeste, 2009) e o cenário é o quintal/edícula da casa de arnaldo em são paulo, com direito a convidados como erasmo carlos, jorge ben, demônios da garoa e fernando catatau (além de uma banda com marcelo jeneci, chico salem, betão aguiar, curumin e edgard scandurra). ah, e direção de andrucha waddington. enfim, tudo pra dar certo. e pelos primeiros videos que assisti, das músicas "a casa é sua" e "meu coração", e do encerramento que peguei por acaso (com o samba "vou festejar" do jorge aragão!), parece que o show/especial é ainda melhor do que esperava. e também sairá em dvd no mês que vem. ouve/vê só.





e no canal natura musical no youtube achei bastidores da participação de jorge ben. no show cantam "as árvores", parceria rara de arnaldo e jorge que foi gravada pelo ex-titã no disco um som (bmg, 1998).



no mesmo canal dei de cara com arnaldo e erasmo carlos fazendo uma versão lindinha de "sou uma criança, não entendo nada".



p.s.: no link os horários das reapresentações no canal 89 (net).

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

uma balada, um frevo e uma animação

primeiro clipe do novo, e totalmente excelente, disco de arnaldo antunes (iê iê iê). a música se chama "longe" e é parceria de arnaldo com marcelo jeneci e betão aguiar. pegue o lenço e aumente o som.



os moleques d'a banda de joseph tourton são de recife e finalmente estão preparando a estreia em disco (sob produção do pessoal do mombojó), após muito buchicho na internet e shows disputados em são paulo. a maioria de suas músicas (rocks?) é instrumental, mas essa aqui, "frevo do preguiçoso", é cantada e com muito bom humor. cortesia do pessoal do música de bolso.



e pra encerrar, uma bela animação que vi lá no URBe. se chama "the meaning of life" e é de um tal de vytautas alechnavicius (russo?). a música é do malucão do aphex twin.

the Meaning of Life - stop motion from Vytautas Alechnavicius on Vimeo.