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segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

65 discos brasileiros de 2015

já rolaram os discos e músicas gringas de 2015, então agora é a vez de falar daqui, de listar o que mais gostei do que ouvi aqui: artistas novos se firmando, iniciantes cheios de gás e voz, medalhões inquietos, um pouco mais da nossa costumeira efervescência musical. acabei fechando a minha lista [sempre e cada vez mais] inclusiva com 65 discos, mas destacarei 17 que estiveram mais muito mais próximos. pra facilitar minha vida separei esses 17 em 3 blocos: os raps, as mina e os mano.

ogi, emicida, instituto, black alien, bnegão, síntese & cia

os rap – tal e qual a gringolândia, o rap também é no brasil o gênero que tem mostrado mais originalidade, mais vontade de falar de assuntos diversos e urgentes, e de se misturar sem medos. isso, claro, não é de hoje, mas seis discos lançados este ano são prova clara que o rap brasileiro cresceu de uma forma absolutamente inequívoca. por exemplo rá!, o segundo disco do grande cronista paulistano rodrigo ogi, que é um passeio veloz e afiado pelos humores da cidade. e tem ainda samba e muita vida, e ocasionalmente sangue, em suas rimas. já sobre crianças, quadris, pesadelos e lições de casa, de emicida, a grande jovem estrela do gênero, é uma maravilha de diversa atualidade: é família, pop, pesado e ativista, tudo ao mesmo tempo, e com uma delicadeza e equilíbrio de dar inveja a muito veterano. 

transmutação e babylon by gus vol. II, dos contemporâneos, cariocas e ex-companheiros de planet hemp, bnegão e black alien, são produções extremamente bem acabadas, divertidas e com pegada [e como é bom ver e ouvir black alien de novo].

a volta do instituto, após 14 anos de sua estreia, com violar é outra prova de como o rap se tornou predominante e incontornável. até as músicas instrumentais do disco parecem rap, mas como se isso não bastasse, tem criolo, bnegão, karol conká, sombra e uma linda pérola póstuma de sabotage.

então, pra finalizar esse bloco de rap, um trabalho que entrou aos 48 do segundo tempo, síntese, akilez, kiko dinucci e thiago frança. encontro poderoso e ofegante esse do rapper de são josé dos campos com o produtor curitibano, o guitarrista guarulhense e o saxofonista mineiro [nada mais paulistano que isso]. síntese continua firme com um dos rappers mais originais da atualidade, apesar dos arroubos religiosos [ou devido a eles?].

elza, gal, alessandra, karina, letuce e tulipa

as mina – duas veteranas abrem esse bloco com discos absurdos de lindos. a mulher do fim do mundo é o encontro de elza soares com composições e músicos muito atuais e de são paulo. é trabalho poderoso, negro, rasgado, torto, sexual, melancólico e surpreendente. estratosférica é gal costa tinindo em delicadezas e com repertório também todo de inéditas. duas grandes mulheres artistas inquietas e atentas.

a jovem guarda feminina tem um tanto de pernambuco via são paulo com selvática, o mais regular e bonito disco de karina buhr, e os fortes e carnais eps aço e língua de alessandra leão [karina e alessandra foram companheiras de comadre fulozinha]. tem também rio de janeiro com estilhaça, o terceiro disco de letuce e que traz a cantora e compositora letícia novaes ainda à flor da pele, mas também conseguindo ser menos estritamente confessional e mais universal. pra encerrar o bloco, dancê, o mais recente, alegre e solto trabalho de tulipa ruiz.

jaloo, siba, lira, cidadão instigado e rodrigo campos

os mano – a grande surpresa deste ano, entre os manos, foi o #1 de jaloo. conhecido por seus remixes tecnobregas, o paraense fez um belíssimo, doce e dançante disco autoral. gosto de jaloo tem tempo, mas realmente não esperava um disco com tantas músicas tão bonitas. no mais, os feras de sempre aprontando mil e uma confusões: fortaleza, o quarto disco do cidadão instigado, é o que existe de melhor e mais pulsante no rock nacional; de baile solto do siba tem pernambuco, áfrica, guitarra e muitas outras coisas tão boas quanto; o igualmente pernambucano lira lançou seu segundo disco solo, o labirinto e o desmantelo, e sua poesia está cada vez mais apurada e dolorida; por último e não menos importante, o delicado conversas com toshiro, terceiro e mais maduro disco de rodrigo campos.

aqui, a lista completa com os 65 discos:

aláfia - corpura
alessandra leão – aço/língua EPs
amplexos - sendeiro
andreia dias - prisioneira do amor
as bahias e a cozinha mineira - mulher
barbara eugênia - frou frou
bixiga 70 - III
bnegão & seletores de frequência - transmutação
boogarins - manual
cícero - a praia
cidadão instigado - fortaleza
daniel groove - romance pra depois
diogo strausz - spectrum vol. 1
eddie - morte e vida
fabio góes - zonzo
frito sampler - aladins bakunins
gal costa - estratosférica
gui amabis - ruivo em sangue
hélio flanders - uma temporada fora de mim
iconili - piacó
instituto - violar
jaloo - #1
juçara marçal e cadu tenório - anganga
karina buhr - selvática
karine alexandrino - mulher tombada
letuce - estilhaça
liniker - cru EP
mariana aydar - pedaço duma asa
metá metá - metá metá EP
ná ozzetti e zé miguel wisnik - ná e zé
ná ozzetti & passo torto - thiago frança
odair josé - dia 16
orquestra brasileira de música jamaicana - obmj ataca!
orquestra raiz - as américas
pélico - euforia
qinho - ímpar
rafael castro - um chopp e um sundae
raphão alaafin - eu gosto
rodrigo campos - conversas com toshiro
rodrigo ogi - rá!
romulo froés - por elas sem elas
silva - júpiter
space charanga - r.a.n. (rhythm and noise)
thiago ramil - leve embora
trupe chá de boldo - presente
tulipa ruiz - dancê
vicente barreto - cambaco
vitrola sintética - sintético
wado - 1977
zé manoel - canção e silêncio
zé pi - rizar
síntese, akilez, kiko dinucci & thiago frança

segunda-feira, 24 de junho de 2013

redesenhando macalé

o blog banda desenhada faz aniversário de dois anos de vida e quem ganha presente é você! ou eu. ou nós. ou todos. disponível para download gratuitoe volto pra curtir é um tributo a jards macalé tendo seu disco de estreia, lançado originalmente em 1972, como bússola conceitual. estão lá suas dez faixas mais o hit “vapor barato”  que gal costa gravou em 1971 e jards somente em 1998 (no disco o q faço é música), interpretados por jovens artistas de várias partes do país sob curadoria de márcio bulk (o idealizador da banda desenhada). olha a capa do disco de jards, um dos melhores da música brasileira.


como todo tributo que se preze, e volto pra curtir é irregular e cada ouvinte terá suas preferidas. gostei de “farinha do desprezo” do letuce, “let's play that” do metá metá, “mal secreto” do apanhador só (música que deu nome ao esforçado e, portanto, tem um importante valor sentimental aqui por essas bandas), “revendo amigos” de márcia castro e das versões mínimas de “78 rotações” de arícia mess e “movimento dos barcos” de bruno cosentino & marcos campelo. não gostei de “vapor barato” das garotas suecas, “hotel das estrelas” de léo cavalcanti e “meu amor me agarra & geme & treme & chora & mata” do filipe catto & pipo pegoraro. no disco original de jards existem dois covers numa faixa só, “farrapo humano” (luiz melodia) e “a morte” (gilberto gil), que no tributo viraram faixas independentes interpretadas por rafael castro (com tulipa ruiz nos vocais) e ava rocha, respectivamente. gostei de ambas, mas ainda tenho problemas com ava, algo cerebral demais me incomoda no seu canto. mas baixe o tributo e tire suas próprias conclusões. jards nunca é demais.

sábado, 5 de janeiro de 2013

foi bonita a festa, pá

cultura livre é um daqueles raros espaços para a boa e nova música popular brasileira no rádio e na tv. comandado com graça e interesse por roberta martinelli, o programa ganhou uma promoção e tanto ao ser transformado em um especial de quase duas horas no réveillon da tv cultura. e ele está disponível na íntegra no youtube. olha só que belezura de atrações (tendo o terno como banda de apoio)...

o terno – “zé, assassino compulsivo”
barbara eugênia – “por aí”
barbara eugênia & tatá aeroplano – “sinta o gole quente do café que eu fiz pra ti tomar”
tatá aeroplano – “tudo parado na city”
filipe catto – “adoração”
pélico – “recado” (com tony berchmans)
tulipa ruiz – “script”
márcia castro – “29 beijos”
karina buhr – “não me tanto”
rafael castro – “pra vender mais, agradar mais, se falar mais”
kiko dinucci – “lizete”
todo mundo – “gente aberta” (erasmo carlos)
rael – “caminho” (com carlos café e dj will)
felipe cordeiro – “legal e ilegal” (com manoel cordeiro)
léo cavalcanti – “sonho parasita”
laura lavieri – “quem nasceu”
blubell – “protesto”
letuce & blubell – “que se chama amor”
letuce – “insoniazinha”
juçara marçal – “morto”
maurício pereira & juçara marçal – “trovoa”
maurício pereira – “compromisso”
o terno – “66”

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

os 30 clipes brasileiros de 2012 e muito mais

não sei se fui eu que prestei mais atenção ou se este ano, especialmente, houve uma grande e muito boa produção de clipes nacionais. tanto que alguns que aparecem na lista abaixo foram postados aqui no esforçado no decorrer do ano. e tem de tudo, caseiros e superproduções, do digital ao super 8, com mais roteiro ou sem roteiro nenhum, com humor ou sérios pra cacete, de tudo quanto é canto do brasil, quase todos produzidos na raça. vale destacar ainda o nome de alguns diretores e diretoras com trabalhos bacanas na área: ricardo spencer, fred ouro preto, lírio ferreira, vera egito, felipe rocha, daniel lisboa, vivi amaral, rabu gonsales, del reginato, toddy ivon e a dupla autumn sonnichsen & erica gonsales (do clipe de “sangue é champanhe”, talvez o melhor do ano).


banda gentileza - “quem me dera
bnegão & os seletores de frequência - “alteração (éa!)
bonde do rolê - “kilo
caio bosco - “mendigos de amor
cone crew diretoria - “chama os mulekes
domenico - “cine privê
don l. & flora matos - “sangue é champanhe
doo doo doo - “carnaval no fogo
edi rock & seu jorge - “that's my way
emicida - “zica, vai lá” (também no primeiro semestre lançou “dedo na ferida”, vídeo cru e preto & branco)
felipe cordeiro - “legal e ilegal
filarmônica de pasárgada - “o seu tipo
flow mc - “o quartinho obscuro” (música de sua mixtape de 2011, enquanto a desse ano trouxe o clipe de “por que”)
gui amabis - “pena mais que perfeita
haikaiss - “camaleão” (no começo do ano os rappers lançaram também o clipe de “existência”, bem mais prosaico)
junio barreto - “passione
lirinha, angela rô rô & otto - “valete” (e ainda “ah se não fosse o amor” e “sistema lacrimal”)
lucas santtana - “o deus que devasta mas também cura” (outras música do excelente disco de lucas, “para onde irá essa noite?”, também ganhou clipe)
lurdez da luz - “levante
mallu magalhães - “velha e louca” (outras duas músicas do seu disco de 2011, “sambinha bom” e “baby i'm sure”, ganharam vídeos, sendo que o último feito pelo maridão marcelo camelo)
marcelo jeneci - “pra sonhar
max b.o. - “fábrica de rap
negro leo - “jovem tirano príncipe besta
o terno - “66
racionais mcs - “mil faces de um homem leal (marighella)” (prestes a lançar mais um esperado disco de inéditas, o quarteto também lançou o clipe de “mente do vilão”)
silva - “a visita
thiago pethit - “pas de deux” (e, pouco antes, lançou outro clipe de uma música do seu primeiro disco, “não se vá”)
tono - “samba do blackberry
tulipa ruiz - “é” (também rolou um clipe caseiro de “memória fora de hora”, música que gravou no tributo à marina lima lançado em 2011)
vanguart - “mi vida eres tu

MENÇÃO HONROSA #01. sou fã assumido do letuce e o segundo disco (manja perene) da dupla-casal deixou marcas profundas em mim e no meu ano de 2012. mas tem outra coisa admirável neles: seus vídeos caseiros. imagens de viagens, do cotidiano, um ultrassom, coisas da internet, gif animados, qualquer coisa vira clipe e assim sendo nasceram os vídeos de “areia fina”, “medo de baleia”, “ninguém muda ninguém”, “sempre tive perna” e “loteria”.

MENÇÃO HONROSA #02. não gosto de funk ostentação e acho os clipes tão repetitivos quanto as músicas, mas é admirável o trabalho de konrad “kondzilla” dantas. o cara criou e ampliou, em apenas dois anos, todo o imaginário visual de um gênero musical crescentemente popular.

MENÇÃO HONROSA #03. fora os clipes produzidos pelos próprios artistas também rolam outros que aparecem em séries independentes ou patrocinadas na internet e em programas de tv. destaco aqui a segunda temporada da série compacto, a estreia da versão brasileira de meet the legends (com emicida & wilson das neves, elza soares & garotas suecas, luiz melodia & karol konká, jards macalé & dorgas, jorge mautner & tulipa ruiz), o inescapável música de bolso (mesmo que atualizando menos), o inspirado don’t touch my karaoke, o projeto in.casa (com gente como barbara eugênia, pélico e romulo fróes cantando acusticamente em suas próprias casas) e os programas televisivos cada canto (canal brasil), cantoras do brasil (canal brasil) e som brasil (tv globo).

MUITO MAIS QUADROS POR SEGUNDO. e dá-lhe autoramas (“abstrai”), barbara eugênia & tatá aeroplano (“dos pés”), cabes mc (“não nasci pra ensinar”), céu (“retrovisor”), chimpanzé clube trio (“tira essa pessoa da minha vida”), cícero (“ponto cego”), clarice falcão (“oitavo andar”), criolo (“mariô”), funkero (chapa quente”), grandphone vancouver (“miss me”), jamés ventura (“odeio político”), japan bondage (“japan bondage”), kamau (“21/12” e (eu quero) mais”), karina buhr (“amor brando”), karol conká (“corre, corre erê”), kassin (“fora de área”), léo cavalcanti & tulipa ruiz (“sem (des)esperar”), lívia cruz (“não foi em vão”), lucy and the popsonics (“eu vou casar com um cosmonauta”), madrid (“sad song” e “siblings”), malbec (calo”), marcelo camelo (“vermelho”), marcelo d2, sain e helio bentes (“eu já sabia”), márcia castro & helio flanders (“29 beijos”, e márcia esteve ainda no divertido “de pés no chão”), marina wisnik (“na rua agora”), molho negro (“aparelhagem de apartamento”), mv bill (o soldado que fica”), ogi (“eu me perdi na madrugada” e “profissão perigo”), ordinária hit (“patrão”), psilosamples (“no canto da cidade”), rashid (“r.a.p.”), rita lee (“reza”), savave (“tá suave”), shaw (“a área”), slim rimografia & thiago beats (“limpe seu próprio quintal”), sobre a máquina (“oito”), sonic junior (“inflamável”), super stereo surf (“clipe vertical”), supercordas (“índico de estrelas”), terra preta (“nasce, cresce e morre”), trupe chá de boldo (“na garrafa”), vivendo do ócio (“nostalgia”) e xis (“entre o amor e o ódio”).

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

yahoo #57

desdobramento estratégico da lista de melhores músicas brasileiras do ano publicada aqui, a coluna da semana passada no yahoo foi uma selecta de dez canções que imaginei serem interessantes para mostrar pro leitor de lá. qual não foi minha surpresa quando começaram a rolar vários comentários detonando o gosto dessa "estagiária ridícula"!? o yahoo é isso, um pescotapa no ego.



10 MÚSICAS QUE VOCÊ DEVERIA TER OUVIDO EM 2012

Fim de ano é tempo de listas, só que dessa vez resolvi fazer algo diferente. Separei 10 músicas brasileiras da lista de 50 que publiquei no meu blog pessoal, o Esforçado. Não porque sejam melhores que as outras 40, mas por serem ótimos exemplos para os comentaristas apocalípticos aqui do Yahoo! que a música brasileira anda muito bem, obrigado. Quem só consome música através de TV e rádio pode até achar que o país anda “perdido”, na mesma. Não existe muita oferta mesmo. É que as coisas do mundo estão na internet, minha nega. Basta ter um pouco de curiosidade. Escuta só.

Lado A – O coração

1) “Se assim quiser” (Mahmundi)


Mahmundi é pseudônimo do trio liderado pela cantora e compositora Marcela Vale, carioca de 25 anos. “Se assim quiser” está em seu trabalho de estreia, o EP Efeito das Cores. Tecladinhos saídos diretamente dos anos 1980 se juntam docemente com programações eletrônicas em clima de fim de tarde. E Marcela só cantando coisa boa de fazer. Autoajuda deveria ser assim.

2) “Alegria da gente” (Alvinho Lancellotti)


Filho do compositor Ivor Lancellotti, parceiro de bambas como João Nogueira, Paulo César Pinheiro e Leci Brandão, Alvinho começou a cantar e mostrar suas músicas no grupo Fino Coletivo e só agora estreou solo em O Tempo Faz a Gente Ter Esses Encantos. O título do disco, aliás, é um dos versos de “Alegria da gente”, sambinha espertíssimo, moderno e tradicional, que só poderia ter sido feito sob o efeito da alegria solar do Rio de Janeiro.

3) “Areia fina” (Letuce)


Em quase todas as músicas do Letuce quem canta lindamente é Letícia Novaes, mas esta, especialmente, traz os vocais do guitarrista Lucas Vasconcellos, parceiro de Letícia de música, vida e vice-versa. Música de Manja Perene, segundo disco do casal carioca, “Areia fina” é um rock cheio de climas sobre as descobertas, algumas doloridas, do amor.

4) “A carta de amor” (A Banda dos Corações Partidos)


Marchinha dramática sobre amores perdidos, “A carta de amor” é também uma ótima porta de entrada para o som desse grupo de Aracaju, Sergipe. Tem também brega na mistura, fator recorrente na nova música feita no Norte-Nordeste, e a ótima voz de Diane Velôso.

5) “Poder da sedução” (Dona Onete)


Do alto seus 73 anos, a cantora paraense costuma ser comparada a Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus e Omara Portuondo, mas em seu disco de estreia (Feitiço Caboclo) é possível ouvir todo seu brilho próprio. Dona Onete passeia por carimbós maliciosos como “Jamburana” e lindas baladas bregas como essa “Poder da sedução”, que é também tango com pitadas eletrônicas em meio a lamentos de cabaré amazônico.

Lado B – Os quadris

1) “Pode para” (Flow MC)


Uma das revelações do jovem rap paulistano, Flow MC é também um dos organizadores da tradicional Batalha de MCs do Santa Cruz e “Pode para” está em sua terceira mixtape, SensaFLOWnal. Os samples de “Abrigo de vagabundos” (Adoniran Barbosa), em gravação do Demônios da Garoa, são apenas o começo de um surpreendente e novo cruzamento de rap com samba (paulista). E o sujeito ainda possui humor e um fraseado afiadíssimo.

2) “O mundo (Panela de pressão)” (BNegão & Os Seletores de Frequência)



Nove anos separam a estreia solo de BNegão em Enxugando Gelo deste recente e igualmente ótimo disco Sintoniza Lá. Entre muitas canções cheias de suingue e politização destaque para “O mundo (Panela de pressão)”, uma mistura de funk, rap, rock e afoxé sobre as encruzilhadas desse mundão grande sem porteira.

3) “Afoxoque” (Curumin, com participação de Russo Passapusso)


Música de Arrocha, um dos melhores discos do ano e o terceiro trabalho solo do multiinstrumentista, cantor e compositor paulistano. Influências africanas misturadas com programações eletrônicas dão o tom de uma poética e poderosa canção de protesto feita em parceria com Russo Passapusso, vocalista do Baiana System.


4) “Exu parade” (Otto)


Otto talvez seja o mais conhecido dessa lista, afinal começou no Mundo Livre S/A nos anos 1990 e depois construiu sólida carreira solo (dois anos atrás emplacou “Crua” em trilha de novela global). “Exu parade” está em seu quinto disco, The Moon 1111, e é uma pedrada das mais dançantes do cancioneiro do pernambucano. Pop, batuque, música eletrônica e celebração em alta velocidade.

5) “Piloto de fuga” (Maga Bo, com participações de Funkero e BNegão)


Disco de estreia do produtor americano que vive desde 1999 no Rio de Janeiro, Quilombo do Futuro é uma impressionante mistura de ritmos nordestinos, música eletrônica, africanidades e pancadões. Entre as muitas e ótimas faixas destaque para “Piloto de fuga”, uma prova da relevância e do poder sonoro do funk carioca. Sem falar na vontade louca que dá de sair dirigindo pela cidade (qualquer cidade, estrada).

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

os 30 discos brasileiros de 2012 e algo mais

bem, a lista de melhores músicas brasileiras do ano já trazia indicações de quais discos ficariam entre os bonzões: as estreias de gaby amarantos, los sebosos postizos, maga bo, oquadro e alvinho lancelotti, e ainda curumin, tulipa ruiz, lucas santtana, letuce, gui amabis, siba e bnegão & os seletores de frequência. discos fortes, variados, alegres, melancólicos e, acima de tudo, repletos de ótimas músicas. mas acho que dois discos resumiriam o ano pra mim: arrocha, o terceiro do paulistano curumin, e treme, a estreia de gaby amarantos.


   
arrocha por seus cruzamentos surpreendentes e orgânicos do batuque afro-brasileiro com música eletrônica, e sem jamais esquecer a necessidade por canções, refrões, pegada, balanço, amor, experiências. e por músicas como “afoxoque”, “selvage”, “passarinho”, “treme terra”, “paris vila matilde”, “doce” e “pra nunca mais”, além da regravação linda de “vestida de prata” (paulinho boca de cantor, 1981) e da parceria com russo passapusso (baiana system).



treme por suas gigantescas possibilidades pop. gaby amarantos conseguiu um feito raro no brasil, pois é, ao mesmo tempo, hype e popularíssima (claro que isso não dura muito). seu disco de estreia, que começou a ser lançado no final de 2011 com o clipe de “xirley”, reúne fernanda takai e dona onete, thalma de freitas e zezé di camargo & luciano, zé cafofinho e veloso dias, kraftwerk e gang do eletro, todo um tsunami de altas e baixas culturas. ah, se um pedacinho da música pop mundial tivesse tanta informação como nas músicas cantadas por gaby... exemplos não faltam, vide “merengue latino”, “eira”, “gemendo”, “pimenta com sal”, “mestiça”, “coração está em pedaços”, “ex mai love”, “galera da laje” e “chuva”.

no mais, segue a lista completa:

alvinho lancelotti (o tempo faz a gente ter esses encantos)
caetano veloso (abraçaço)
café preto (café preto)
céu (caravana sereia bloom)
curumin (arrocha)
dona onete (feitiço caboclo)
dudu tsuda (le son par lui même)
gui amabis (trabalhos carnívoros)
hurtmold (mils crianças)
improvisado trio (interferências)
letuce (manja perene)
los sebosos postizos (interpretam jorge ben jor)
lucas santtana (o deus que devasta mas também cura)
maga bo (quilombo do futuro)
nina becker & marcelo callado (gambito budapeste)
oquadro (oquadro)
otto (the moon 1111)
paulo carvalho (o amor é uma religião)
rodrigo campos (bahia fantástica)
sambanzo (etiópia)
shaw (orquestra simbólica)
siba (avante)
silva (claridão)
síntese (sem cortesia)
thiago pethit (estrela decadente)
tom zé (tropicalismo lixo lógico)
tulipa ruiz (tudo tanto)

dessa lista gostaria de destacar ainda os excelentes e densos discos de rap do carioca-paulistano mc shaw (orquestra simbólica) e dos paulistas do síntese (sem cortesia, e ah, paulistas de são josé dos campos), bem como os novos trabalhos de uma turma muito produtiva de são paulo, bahia fantástica de rodrigo campos e metal metal, do trio juçara marçal, kiko dinucci e thiago frança. este último, saxofonista da banda do criolo, também lançou o belo instrumental etiópia sob o pseudônimo sambanzo (dinucci incluso). falando em instrumental, uma ótima surpresa foi interferências, disco de estreia do improvisado trio (marcelo castilha, meno del picchia e pedro ito). e pra finalizar, outras três estreias muito felizes, café preto (projeto adubado de cannibal do devotos do ódio), claridão (do capixaba indie silva) e le son par lui même (o multifacetado primeiro solo de dudu tsuda, que foi jumbo elektro, cérebro eletrônico, trash pour 4, etc). detalhe: os últimos discos a entrar na lista, tipo 43 do segundo tempo, foram abraçaço de caetano veloso e o extraordinário mils crianças do hurtmold.



MENÇÃO HONROSA - não tem como não falar de alguns ótimos tributos/coletâneas lançados no ano, destacando primeiro os que foram produzidos de forma independente, tais como o duplo re-trato los hermanos (com bárbara eugênia, cícero, dan nakagawa, hidrocor, lula queiroga, érika machado, nevilton, do amor, velhas virgens, tibério azul, banda gentileza, nervoso & os calmantes, etc.), o variadão brasileiros (com pélico cantando cartola, mahmundi de rita lee, bazar pamplona de dorival caymmi, etc.) e o muito excelente jeito felindie (tributo ao raça negra com lulina, amplexos, letuce, vivian benford, harmada, minha pequena soundsystem, etc.). menções honrosas também para o multinacional a tribute do caetano veloso (com beck, chrissie hynde, seu jorge, marcelo camelo, jorge drexler, céu, qinho, momo, tulipa ruiz, mariana aydar, etc.) e o projeto transglobal paraense terruá pará vols. 1 e 2 (com gang do eletro, gaby amarantos, mestres da guitarrada, lia sophia, dona onete, pio lobato, metaleiras da amazônia, etc.)

TEM MAIS SAMBA – nem preciso dizer que rolou muito mais coisa, portanto não custa nada mencionar outros discos interessantes/divertidos/desafiadores lançados neste ano e que passaram pelos ouvidos da casa. alguns emplacaram músicas entre as melhores do ano, mas acabaram não entrando na lista principal de discos. então, se não ouviu, ouça a banda dos corações partidos (a banda dos corações partidos EP), abayomy afrobeat orquestra (abayomy afrobeat orquestra), afroelectro (afroelectro), aíla (trelelê), amplexos (a música da alma), arnaldo antunes, edgard scandurra & toumani diabaté (a curva da cintura), banda uó (motel), beto mejía (abraço), bonde do rolê (tropical/bacanal), caio bosco (caio bosco), domenico & joão brasil (taksi EP), doo doo doo (casa das macacas), filarmônica de pasárgada (o hábito da força), flow mc (sensaflownal), fóssil (mocumentário), holger (ilhabela), jair naves (e você se sente numa cela escura…), kamau (... entre), laura wrona (r.h. volcano), madrid (madrid), mahmundi (efeito das cores EP), mão de oito (um dia que já vem), márcia castro (de pés no chão), marginals (marginals 2), marina de la riva (idílio), mr. catra (com todo respeito ao samba), o terno (66), orquestra contemporânea de olinda (pra ficar), orquestra imperial (fazendo as pazes com o swing), pentágono (manhã), psilosamples (mental surf), qinho (o tempo soa), rafael castro (lembra?), rogerman (o caminho do lobo), sasquat (alfazema), ska maria pastora (as margens do rio doce), sobre a máquina (sobre a máquina), sonic junior (inspire), strobo (quando se perde a inocência), tatá aeroplano (tatá aeroplano), trupe chá de boldo (nave manha), vítor araújo (a/b), volver (próxima estação) e zélia duncan (tudo esclarecido – músicas de itamar assumpção).

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

as 30 + 20 músicas brasileiras de 2012

começo a temporada de retrospectivas aqui no esforçado com as melhores músicas brasileiras do ano segundo a humilde opinião da casa. ainda rolarão por aqui os melhores discos e clipes nacionais, e discos e músicas da gringolândia (também conhecida como resto do mundo). a categoria ‘clipes nacionais’ é a novidade dessa retrospectiva porque achei um ano excepcional na produção audiovisual, muita coisa boa mesmo e nos gêneros mais variados. de resto, a única diferença é que aumentaram um pouco mais o tanto de escolhidos. na retrospectiva de 2009 foram 10, já em 2010 e 2011 o número aumentou para 25. agora são 30.

de alguns discos – que, não coincidentemente, estão entre os melhores do ano – foi particularmente difícil escolher apenas uma música. isso aconteceu nos discos de alvinho lancellotti (o tempo faz a gente ter esses encantos), bnegão & os seletores de frequência (sintoniza lá), céu (caravana sereia bloom), curumin (arrocha), gaby amarantos (treme), gui amabis (trabalhos carnívoros), letuce (manja perene), los sebosos postizos (interpretam jorge ben jor), lucas santtana (o deus que devasta mas também cura), maga bo (quilombo do futuro), oquadro (oquadro), siba (avante) e tulipa ruiz (tudo tanto). nessa horas a gente precisa ser forte, engole o choro moleque. afinal de contas, a vida é ‘escolhas’ e listas são fotografias de um instante. bola pra frente.

como é de praxe aqui não tem essa coisa de primeiro, segundo, terceiro lugar. assino embaixo do pessoal do hominis canidae que, em um email pedindo listas pessoais de seus colaboradores/amigos/colegas, afirmaram que eram “discipulos do satanique samba trio e achamos que ordenar é apenas mais uma pratica cristã ultrapassada”. segue a lista.

a banda dos corações partidos - “a carta de amor
afroelectro - “pra sonhar
alvinho lancellotti - “alegria da gente
beto mejia - “vermelho
bnegão & os seletores de frequência - “o mundo (panela de pressão)
caetano veloso - “um abraçaço
céu - “baile de ilusão
curumin & russo passapusso - “afoxoque
don l & flora matos - “enquanto acaba
dona onete - “poder da sedução
edi rock & seu jorge - “that’s my way
flow mc - “pode para
gaby amarantos - “merengue latino
gui amabis - “tiro
letuce - “areia fina
los sebosos postizos - “toda colorida
lucas santtana - “músico
maga bo, funkero & bnegão - “piloto de fuga
mahmundi - “se assim quiser
mão de oito & marcela bellas - “acorda
nina becker & marcelo callado - “armei a rede
oquadro - “balançuquadro
otto - “exu parade
paulo carvalho - “sóis
siba - “preparando o salto
silva - “a visita
tulipa ruiz - “cada voz
volver - “mangue beatle

mas tem muita coisa, muitos sons bons. e naquela linha inclusiva do blog fiz ainda um segunda lista com outras 20 músicas.

amplexos making love
banda uó & luiz caldas - “beija flor
bonde do rolê - “kilo
café preto - “nem se, nem dó
caio bosco - “mendigos de amor
doo doo doo - “carnaval no fogo
filarmônica de pasárgada - “o seu tipo
lurdez da luz - “levante
márcia castro - “de pés no chão
negro leo - “jovem tirano príncipe besta
o terno - “66
orquestra contemporânea de olinda - “mar azul
qinho - “o tempo soa
rafael castro & pélico - “marítima
roberta sá - “no arrebol
rodrigo campos & criolo - “ribeirão
sasquat - “homem guaracheiro
shaw - “coração
síntese - “se escute
tatá aeroplano - “par de tapas que doeu em mim” 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

com esse jeito faz o que quer de mim

idealizado e produzido pelo jornalista jorge wagner (e lançado pelo fita bruta), o ótimo tributo jeito felindie presta homenagem ao cancioneiro romântico pagodeiro do raça negra. no facebook, wagner declarou o seguinte:

“por uma série de fatores, o ano de 2009 ainda figura como o pior da minha vida. e como todos nós precisamos de marcos vez em quando, eu torcia para que aquele ano acabasse. nessa torcida, fui convidado por uma amiga para ver a entrada de 2010 em rio das ostras, com ela, alguns de seus amigos e familiares. a trilha sonora desses dias foi uma só: o dvd de 25 anos do raça negra, uma banda onipresente na minha infância, mas com a qual não tinha mais contato desde a metade da adolescencia. percebendo que após tanto tempo, ainda era capaz de lembrar letras e melodias inteiras, sorri... e cantei.

ao longo de todo o ano seguinte (quando, de fato, as coisas começaram a mudar), o assunto ‘canções que o tempo não apagou’ voltou à pauta algunas vezes - fosse com o pagode versions ou com as gravações de sertanejo feitas pelo rufatto. e continuou aparecendo em 2011, com aquela guria que ria descrente e perguntava: "vocês realmente gostam dessas coisas?!"; com a audição dos ep de ‘couves’ da letuce, com uma ida ao boliche em vassouras com amigos, com um show da orquestra superpopular numa praça da cidade onde eu e um dos membros do grupo crescemos e regulamos série na escola.

esse projeto é fruto dessas histórias, dessas ideias, em comum com outras histórias e outras ideias de pessoas que admitem não terem crescido ouvindo beatles ou chico buarque. criticado, admirado e com uma repercussão absurdamente maior do que a que imaginei, ele está aqui, pronto.”


se você esteve vivo e atuante nos anos 1990 é impossível não conhecer pelos menos alguns desses hits de luiz carlos & cia. e o jeito felindie reúne versões inspiradíssimas de clássicos como “cigana” (lulina), “cheia de manias” (vivian benford), “maravilha” (giancarlo ruffato), “jeito felino” (letuce), “você não sabe de mim” (radioviernes), “é tarde demais” (harmada), “quando te encontrei” (amplexos) e “me leva junto com você” (orquestra superpopular).



atualização em abril de 2013: finalmente saiu um ótimo minidoc oficial sobre os bastidores do jeito felindie.