quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

questão de educação

do segundo semestre de 2023 até o início deste ano de 2026 já colaborei com a Forbes Brasil umas 18 vezes. a primeira foi uma grande reportagem sobre consultorias financeiras e depois se seguiram muitas participações escrevendo perfis em especiais da revista como Under 30, Top Creators, etc. e teve essa ótima entrevista que fiz com Denise Aguiar Alvarez, presidente da Fundação Bradesco, e que foi publicada em abril de 2025 (segue atual, como quase toda entrevista que faço). segue a conversa na íntegra.

Denise Aguiar Alvarez em sua casa [fotos de Marcus Steinmeyer]

O CONSTANTE DESAFIO DA EDUCAÇÃO

Há quase 40 anos liderando a Fundação Bradesco, Denise Aguiar Alvarez quer ampliar o sonho de seu avô de transformar vidas

Uma das primeiras lembranças de Denise Aguiar Alvarez, 67, são passeios de mãos dadas com seu avô, Amador Aguiar, pela Cidade de Deus, bairro de Osasco, Grande São Paulo. Ela tinha por volta de 3 anos e era a primeira neta do fundador do Bradesco (1943) e da Fundação Bradesco (1956), cujas sedes ficam até hoje na Cidade de Deus paulista. Mas o que era extensão da sua casa, um playground diferente, virou trabalho e jeito de ver o mundo depois de tanta insistência do avô. “Ele falava pra todos que iam visitá-lo: essa aqui é a minha neta, ela vai tomar conta da Fundação”, afirmou Denise em entrevista para a Forbes Brasil.

Desde 1986, quando se tornou diretora da Fundação Bradesco aos 28 anos, ela é responsável por levar o sonho de seu avô adiante, capitaneando o maior projeto de investimento social privado do Brasil. Para ser ter uma dimensão do feito, nos últimos dez anos, a Fundação Bradesco investiu R$ 9,5 bilhões em educação – sendo que R$ 894,5 milhões apenas em 2023 e cerca de R$ 1,4 bilhão em 2024. É um orçamento gigantesco espalhado por 40 unidades escolares, presentes em todos os estados brasileiros, e beneficiando mais de 42 mil alunos nos 13 anos da educação básica (sem falar na Educação de Jovens e Adultos e nos cursos de Formação Inicial Continuada). É um sonho grande que Denise faz crescer um pouco mais a cada ano que passa.

 

Antes de chegarmos à Fundação Bradesco, queria saber se você se lembra o que queria ser quando crescer?

Se eu falar você não vai acreditar. 

Pode falar.

Queria ser dona de casa. Eu me lembro falando isso no colégio. Estudei em um colégio de freiras e até elas ficavam olhando e achando um absurdo. 

O que era aspiracional em ser dona de casa?

Acho que era fazer tudo muito bem feito, cuidar muito bem da casa, dos filhos, essas coisas. Mas isso eu era muito menina. Depois, quando já estava no ensino médio, lembro que as professoras pediram para algumas meninas, eu inclusive, irem ao nono ano explicar o que era o ensino médio. Fiquei muito impactada com aquilo, porque a gente chegou lá, e as meninas não deixavam a gente falar. Aquilo ficou muito na minha cabeça, não conseguia parar de imaginar no que aquelas meninas estavam pensando. E isso meio que permeou um pouco a minha vida, porque quando fui fazer pedagogia, o que mais queria estudar era como a criança pensava, como o adolescente pensava. 

Então chega o temido momento da faculdade onde você tem que decidir o que vai ser para o resto da vida...

Foi um horror porque estudei minha vida toda em um colégio só de meninas. E, pasme você, entrei em Ciências Sociais na PUC em 1977, o ano que a universidade foi invadida pelos militares. Era um outro mundo pra mim, concorda? Teve toda essa violência, mas o curso também foi exatamente o contrário do que imaginava. Era professora de sociologia falando que metade da classe não ia aguentar até o meio do ano. Era texto obrigatório em espanhol que ninguém dominava. Era aluno que não deixava professor entrar. Pensava comigo que não ia conseguir sobreviver àquilo. Não tinha ideia do que estava fazendo ali. Então encontrei uma colega da escola e fui com ela ver uma aula do curso de pedagogia. E gostei. Era um curso muito bom. Foi assim, meio aleatoriamente, que cheguei à pedagogia. 

Nessa sua experiência cursando pedagogia, fazendo faculdade, teve alguma coisa que você carrega até hoje? Alguma coisa que te ajudou na sua trajetória?

Não muito, porque era um curso muito teórico, entendeu? Quando me formei decidi que queria muito aprender inglês. Aí, o que fiz? Fui morar em Nova York, morei lá um ano fazendo curso de inglês. Depois fui na Universidade de Nova York, a NYU, procurando algum curso em educação. O cara disse que só tinha mestrado. Eu falei, mestrado? Meu Deus, nunca pensei em fazer mestrado. Na NYU, foi diferente porque era um curso muito mais pé no chão, muito mais da realidade do ensino, da aprendizagem, dos professores. 

Como foi a escolha do que você ia falar no mestrado?

Escolhi exatamente sobre o que mais gosto: infância e ensino básico. Tinha que fazer um trabalho muito grande de pesquisa e fiquei indo, por quase seis meses, a um espaço embaixo de uma igreja perto da NYU. Era um espaço bem amplo, como se fosse uma brinquedoteca, cheio de colchões, e onde as mães iam com suas crianças. Crianças de um ano ou dois. Ia lá e não podia falar, tinha que apenas observar. Juntei essa observação a uma outra pesquisa que estava fazendo sobre a [primatologista e antropóloga] Jane Goodall e foi muito interessante ver as similaridades entre humanos e chimpanzés. E também uma grande diferença: os chimpanzés não batem nos seus filhotes. Esse período da NYU durou quase três dos cinco anos que morei em Nova York. 

Nessa época da NYU, nessa volta, ou mesmo antes, você já estava fazendo alguma coisa no Bradesco?

Sou a neta mais velha, e a vida inteira minha mãe morou vizinha ao meu avô. Então, a gente tinha um contato muito próximo, muito grande. Via meu avô diariamente, e sempre frequentei muito o banco. O banco era uma extensão da minha casa. Então, quando estava no Brasil, meu avô me chamava para vir almoçar aqui e conversar. Se ele tivesse visita, de amigos a ministros de Estado, ele falava, essa aqui é a minha neta, ela vai tomar conta da Fundação. Ele falava isso pra todo mundo. Só respondia: não sei se quero isso, não sei se gosto dessa Fundação. Queria continuar estudando, queria fazer um doutorado na França. E ele insistia, você tem que vir, você tem que vir. Ele insistiu tanto que falei tudo bem, vou ficar um ano aqui na escola, mas com uma condição, não é para ninguém saber que sou sua neta. Realmente ninguém ficou sabendo, só a diretora da escola e a orientadora com quem trabalhava direto. Fiquei um ano e gostei. 

O que você fazia?

Fiquei na pré-escola e educação infantil. É uma escola muito grande. Pra você ter uma ideia, na educação infantil tem 420 crianças. E eu fazia de tudo. Cheguei a levar criança em ambulatório porque tinha se machucado, ajudava na cozinha, arrumei um dia o gás, ajudava ou substituía professoras. E aí um dia cheguei para a orientadora, que é minha amiga até hoje, falei, escuta, eu podia fazer um trabalho com as crianças que estão um pouco mais atrasadas? Ah, pode fazer o que você quiser. Então reunia essas crianças, ficava com elas, conversando, acompanhando, e em um mês elas já estavam iguais a todo mundo. Tinha que prestar muita atenção em cada criança, e procurar entender qual era a questão com cada uma. E daí, depois que fiquei um ano, meu avô virou para mim e falou, então você vai ficar né. E já me deu o cargo que tenho até hoje. 

Você entrou oficialmente na Fundação Bradesco em 1986. Tinha por volta de 28 anos. Como foi, de repente, estar com um cargo importante numa fundação que já tinha três décadas de existência. Como foi esse começo?

Ninguém precisou me falar, mas tinha total noção que ia ser muito difícil, porque era neta do fundador e porque era mulher. Agora, em educação, tem uma questão que é mais difícil ainda. Quando a pessoa é nova, eles acham que você não sabe nada, porque, em educação, conta muito a experiência que a pessoa tem, entendeu? Então, você imagine que na década de 1980, eu com essa idade, tomando conta disso tudo, ninguém dava a bola. A pessoa já entrava na minha sala falando que a idade que eu tinha era o tempo que ela trabalhava na Fundação. 

Teve algum momento nesse início que te deu certeza do que estava fazendo?

Olha, não sei se teve um momento porque demorou, sem brincadeira, uns 20 anos. Todo mundo via que eu tinha mais conhecimento, mas para entenderem ou acreditarem que ia dar certo o que estava propondo, isso foi demorado. Mas olha, vou falar para você, nunca fiquei batendo de frente, nunca. Digamos que tenho bastante paciência. 

Mas 20 anos é bastante tempo mesmo com tanta paciência...

Sabe em quem pensava? Nos alunos. Penso neles sempre, até hoje. E sempre tive muita noção da importância do meu avô nessa instituição e no porquê ele tinha me colocado nela. Isso meio que me norteou a permanecer na Fundação até hoje. 

E porque você acha que seu avô te colocou na Fundação Bradesco?

Acho que ele me conhecia melhor do que eu mesma. 

O que pessoalmente te dava a certeza de que, uma hora, você seria compreendida e respeitada?

Olha, eu me comprometi com meu avô a assumir isso, entendeu? Isso ficou comigo e não voltaria atrás. Pode vir todo mundo aqui fazer o que for que não iria desistir. Sou muito focada e tenho muito compromisso com o que falo. Tudo isso me dava essa certeza. 

Como você acha que, em seu início dos anos 1950, a Fundação Bradesco via a educação? E como via nos anos 1980, quando você entrou? E agora? Houve alguma transformação nesse entendimento sobre educação?

Porque meu avô teve essa ideia da Fundação? Porque era um momento onde não tinha escola pública para todas as crianças no país. Por isso que ele começou com essa coisa de colocar escola onde não tinha, tipo no interior do Pará, em Tocantins, uma escola fazenda no meio do Mato Grosso do Sul. E escolas de qualidade, de alto padrão. Depois veio a universalização da escola, da educação para todas as crianças brasileiras, mais ou menos na década de 1980. Em termos curriculares não mudou muito não porque o maior desafio foi sempre manter a qualidade educacional e a infraestrutura das nossas escolas que, invariavelmente, ficam em lugares distantes. Atualmente temos 40 escolas espalhadas em todos os estados brasileiros e continuamos mantendo o foco em educação de qualidade.

No ano que vem [2026], a Fundação Bradesco completa 70 anos, então é uma instituição sólida, uma máquina bem azeitada. Você consegue ver alguma coisa no futuro que seja um desafio para essa estrutura educacional de vocês?

Olha, vou falar para você que acho que o grande desafio não é para a Fundação, é para o país todo, e é sobre a qualidade desses profissionais que estão na linha de frente nas escolas, entendeu? E a qualidade desse profissional, ao longo desses muitos anos que estou na Fundação, acho que não melhorou muito. Esse é um grande desafio para o Brasil: investir na formação do professor. Sem falar que em um país tão grande é preciso saber lidar com inúmeras diferenças culturais. A verdade é que trabalhar em escola é um desafio. Porque vai muito além de ensinar língua portuguesa e matemática. Implica nas relações interpessoais e pessoais dos alunos entre si. E o professor, o orientador, todo mundo que está na escola, tem que estar muito alerta para isso. Com o tipo de aluno que a gente atende, muita coisa vem à tona na escola, sabe? É incrível como tudo o que acontece de abuso, de agressão, de tudo na casa, o aluno leva para a escola e conta. Ele pede socorro. Então, eles veem a escola da Fundação Bradesco como um lugar seguro.

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