domingo, 18 de fevereiro de 2018

tempestade, ímpeto e coceira no hímen

foi em outubro do ano passado que conversei durante pouco mais de duas horas com a poeta e tradutora angélica freitas. a entrevista está agora nas bancas na revista conhecimento prático - literatura, da editora escala, e tudo começou com um convite do lucas de sena lima que me chamou para tocar uma grande entrevista para essa edição - algo que daria umas seis páginas. fomos pensando em nomes atuais, e várias possibilidades interessantes surgiram, mas angélica freitas logo se destacou. lembro que alguns poucos anos atrás li um útero é do tamanho de um punho e fiquei muito impressionado com a força, a leveza e o humor dos versos da gaúcha. pessoalmente, angélica é mais séria e tímida. e a entrevista, que segue aqui na íntegra, caminha lindamente por esse dois polos.


VALE A PENA SER POETA

O que é poesia? Do que se alimenta? Como se reproduz? A premiada poeta Angélica Freitas respondeu essas e outras perguntas em uma conversa longa, sem rimas ou métrica
  
Um liquidificador fazendo sucos de laranja. Louças batendo umas nas outras empilhadas na pia e, posteriormente, sendo lavadas. Colherinhas mexendo cafés. Algumas notificações de celular. O plim plim da Sessão da Tarde a exibir, vejam só vocês, ‘O Diário da Princesa’. Esses foram alguns dos sons que acompanharam as duas horas de conversa com a poeta e tradutora Angélica Freitas em uma padaria perto de sua casa, no bairro paulistano da Água Branca.

Com apenas dois livros publicados – Rilke Shake é de 2007 e o premiado um útero é do tamanho de um punho é de 2013 e ganhou nova edição pela Cia. das Letras em 2017 –, a gaúcha de Pelotas é uma das mais festejadas autoras da atual safra literária nacional e já prepara seu terceiro livro de poesias. Tímida, 44 anos e fascinada por mecanismos de busca na internet, Angélica Freitas passou toda entrevista acompanhada de uma garrafa de água com gás e um café coado médio com um pouquinho de água que ela não tomou até o fim.


ilustração da capa da nova edição de 
um útero é do tamanho de um punho

Você fez e faz muita coisa. Poeta, tradutora, jornalista, dá oficinas... dessas coisas todas e de outras mais, o que você é agora?
Eu escrevo poesia, mas esse ato de escrever poesia não é uma coisa que me sustente economicamente. Antes estava em Pelotas, morava em um apartamento que é da minha família, então não tinha muitos gastos. Mas aqui em São Paulo desempenho algumas funções: dou oficinas de poesia, laboratórios na verdade, porque gosto da ideia de experimentação, e traduzo também, do inglês e do espanhol. Agora, por exemplo, estou em um projeto longo de tradução dos diários da Virginia Woolf pra Editora Rocco e vou começar um de quadrinhos pra Editora Todavia. Participo também de debates no Sesc, circuitos de literatura e encontros literários, e isso também é uma fonte de renda pra muita gente que escreve. Então tenho meu trabalho de criação em poesia e esses outros que me dão o ganha pão. Não vivo de poesia, mas vivo de literatura.

Como é dar oficinas de poesia? Você fala sobre como escrever poesia ou como traduzir o mundo em poesia? Qual é a tua abordagem?
Entendo poesia como uma forma de investigação. Também é possível fazer isso em prosa na forma de ensaio, investigando e aprofundando um assunto. Mas acho que a poesia te dá mais liberdade de experimentar a linguagem do que em um texto em prosa, que é mais pensada pra comunicar. Na poesia você ao mesmo tempo investiga o mundo e investiga a linguagem.

E o que é poesia?
É muito difícil definir poesia. O que a poesia tem? Poesia tem métrica. Mas também é possível escrever um texto em prosa metrificado. Poesia tem rima. Mas também posso escrever um texto em prosa rimado. O Marcelino Freire, por exemplo, faz muito isso. Acaba virando uma coisa meio tautológica: poesia é aquilo que funciona como poesia. Tem certo mistério nisso. Existem várias definições de poesia que podem ser válidas e que tu pode concordar com elas em um determinado período da tua vida. O [Paulo] Leminski, no primeiro poema do livro ‘La Vien em Close’, lista uma série de definições clássicas que vão desde Ezra Pound a Fernando Pessoa e encerra com uma dele próprio, “Poesia é a liberdade da minha linguagem”. Sempre gostei dessa ideia, mas recentemente me dei conta que essas definições são muito eurocêntricas e que não tem de nenhuma mulher. Então, quando a gente fala de poesia a gente tá falando de qual? Nos laboratórios que faço quero pegar leve. Não quero impor nenhuma ideia de poesia. Muito pelo contrário. Faço as pessoas verem que as pessoas tem que pensar nisso como uma prática de escrita. É como tocar um instrumento ou desenhar, tem que praticar. Minha função como pessoa que dá laboratórios é incentivar pessoas a escreverem pra tentar achar o seu caminho. É bem aberto, bem livre e bem horizontal.

E o que você aprendeu com essas oficinas?
É um frescor renovado porque tenho que ouvir os poemas e pensar poesia com eles, então é algo que me atualiza constantemente. É uma maneira de pensar o que faço, pensar os meus procedimentos e, de repente, ver algo que fazia e que agora não funciona mais, sabe?

Na escrita mesmo?
É. Ou que quero fazer outras coisas. Tenho uma maneira de escrever que me acompanha faz um tempo. Escrevo de manhã. Sou uma pessoa matutina. Quando acordo minha cabeça funciona melhor, então acordo, passo um café e começo a escrever. A quantidade de tempo que vou passar nisso, escrevendo, varia. Às vezes paro, pego um livro ou entro na internet, cada dia é uma coisa. O que não muda é que sempre escrevo em cadernos e que quanto mais escrevo poemas, mais eles saem. Entendo muito como um exercício porque não publico tudo que escrevo. Na realidade o que gosto de fazer mesmo é encher cadernos. Tenho uma grande satisfação em começar e terminar cadernos, então compro uns fininhos [risos]. Encho cadernos, guardo numa pilha e uns meses depois retomo alguns, leio e vejo o que posso mexer, o que está legal, o que passo a limpo pro computador. Mas também tenho cadernos que nunca passei nada a limpo. Tem coisas que não lembro que escrevi. Sabe quando tua mão adormece e tu pensa que é mão de outra pessoa? É uma vibe meio assim. Acho essa situação interessante.


Você tem dois livros publicados e está preparando um terceiro. Como é o seu processo para fechar um livro de poesia? Tem coisas em comum entre Rilke Shake, útero e esse terceiro? Ou cada um é uma história diferente?
É aquela história: quando tu não consegue mais olhar pr’aquele negócio é que ele tá pronto. Mas no Rilke Shake, como foi o primeiro, eu tinha bastante material, então juntei alguns poemas que achei que tinham alguma afinidade estética entre si. Foi um apanhado.

O Rilke Shake foi uma mixtape então?
Isso mesmo, bem pensado. Foi como uma mixtape que tu coloca uma música e depois outra que tem a ver, e vai pensando um encadeamento das coisas. Já o útero foi um projeto de escrita mesmo. Eu queria escrever sobre mulheres. Passei um ano e pouco só escrevendo esse livro. Foi todo um processo pra chegar aos poemas. Pesquisei muito, usei bastante a internet e o Google está no livro porque fiz alguns poemas usando pesquisas que fiz nele sobre mulheres. Foi uma investigação sobre os meus limites de expressão com a poesia. Foi diferente.

E esse terceiro, em termos de processo, ele está mais próximo de um ou de outro? Ou já é outra coisa?
Gosto de escrever séries de poemas e acho que meus poemas que tem mais força estão dentro de séries. Acho que eles ganham força pela repetição ou pela somatória. Então esse terceiro vai reunir algumas séries que fiz pra serem uma espécie de performance. Foram escritos pensando em serem falados. Alguns já até apresentei com minha namorada, que é musicista – o nome dela é Juliana Perdigão –, e ela fez a parte sonora, umas interferências, e musicou alguns poemas. E tem também uns poemas soltos que fui escrevendo ao longo do tempo. Então, o processo desse próximo livro é como se fosse uma mistura dos anteriores.

Você lembra as primeiras coisas que escreveu?
Eu era muito pequena. Quando tinha 9 anos ganhei uma enciclopédia de uma tia porque todo mundo da minha família sabia que eu gostava de ler. Acho que se chamava O Mundo da Criança. E ela tinha um tomo que era sobre poesia e eu li aquilo e achei os poemas tão legais, e eram engraçados e tinham jogos com palavras. Gostei tanto que comecei a escrever meus próprios poemas, foi meio natural. Não lembro qual foi a primeira coisa que escrevi, mas certamente tinha a ver com o âmbito doméstico, família.

E era poesia.
Versinhos, né. Tinha essa coisa de rimar, de fazer jogo com as palavras, e humor. Era uma coisa brincalhona. Acho que associei poesia com fazer rir. Foi assim que ela entrou no meu sistema porque vi que tinha esse poder, de ser divertida, de ser surpreendente.

O que é uma associação bem diferente do que se costuma fazer na adolescência, que é uma coisa mais auto centrada, sofrida, ninguém me entende...
Tem isso também. Passei por isso na adolescência. Adorava aquele movimento romântico alemão, o 'Tempestade e Ímpeto' [Goethe e Schiller são os principais nomes desse movimento]. Nooossa, é isso que eu quero! [risos] Mas lembro que também aos 15 eu li Ana Cristina César e foi como uma bomba porque não era nada daquilo. Era um registro muito estranho porque não parecia poesia, tinha aquele lance dos diários dela. Eu ficava lendo aquilo e não entendia, mas me fascinava. Tinha coisas como “Acordei com coceira no hímen” [risos]. Isso sim é Tempestade e Ímpeto, né? [risos]. Ou então “As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios”. Umas coisas loucas assim. Ana Cristina César foi uma coisa que entrou pra quebrar tudo mesmo e foi mudando o meu jeito de escrever. Mudou o registro totalmente. Aí comecei a procurar coisas parecidas.

Você foi procurando sua turma?
Sim, fui procurando pessoas que me dissessem coisas: Allen Ginsberg, Walt Whitman, William Carlos Williams, Gertrude Stein, Elizabeth Bishop, Ledusha, uma coisa levando a outra... fui procurando quem me provocasse.


Voltando pra sua biografia. Você saiu de Pelotas pra fazer faculdade?
É, saí de Pelotas pra ir pra Porto Alegre pra fazer faculdade de jornalismo. Tinha começado Letras em Pelotas, mas não gostei, achei muito chato. Também não dei muita chance. Foi um ano só. Mas como eu gostava de viajar e gostava de escrever achei que o caminho era jornalismo [risos]. Não pensei muito. Fiz jornalismo em Porto Alegre e depois de me formar, em 2000, entrei no curso de Jornalismo Aplicado no Estadão. Durante o curso fui pensando que talvez aquilo não fosse pra mim e que nunca conseguiria um emprego de jornalista, mas um amigo estava na Folha de S. Paulo e me falou desse curso. Não pensava em morar em São Paulo e não tinha como me manter, mas minha mãe me ajudou, fiz o curso e depois vim trabalhar no Estadão, que foi uma coisa que mudou minha vida. Porque eu era muito bicho do mato e no trabalho aprendi a fazer perguntas, perdi a vergonha de falar com as pessoas e tem essa coisa de ter que escrever. Não tem isso de vou deixar pra depois, não tem bloqueio. Chegou da rua, senta, escreve e entrega. Isso foi muito importante.

Quanto tempo você ficou no Estadão?
Quatro anos, de 2000 a 2004. Comecei na seção de cartas dos leitores, cobrindo férias, e naquela época ainda tinha carta. Tinha que organizar por temas e transcrever. Depois fui pra um caderno que não existe mais chamado ‘Seu Bairro’. Eu cobria Zona Leste. Saí de Pelotas pra Mooca [risos]. Foi muito divertido. Então fui convidada pra editoria de Política. Qualquer jornalista daria pulos de alegria, e isso foi em 2002, ano de eleições, e eu até aceitei, mas fui profundamente infeliz ali. Eu não era repórter e sim fechadora de textos e odiava muito aquilo. Depois consegui voltar pra reportagem em Cidades. Tinha uma adrenalina no trabalho do jornal que eu gostava e me ajudou a perder um pouco da timidez. Acabei saindo do Estadão porque apareceu uma vaga numa revista de telecomunicações e que tinha horários mais decentes, finais de semana, Natal, Reveillon. Mas eu queria mesmo era escrever poesia e chegou uma hora que precisei decidir, então caí fora do jornalismo em 2006.

A poesia foi te acompanhando no decorrer dessa experiência jornalística?
Sim. Eu sempre escrevi. Meu primeiro blog foi em 2001. Depois fechei esse e abri outro um ano depois. Esse segundo durou até 2010 ou 2011. Os blogs tinham uma linguagem, que era diferente da linguagem das redes sociais. Lembro do pessoal do Sul que fazia o Cardoso Online... a Clarah Averbuck, que acho que influenciou muita gente, o Daniel Galera, o Daniel Pellizzari. O meu jeito de escrever também mudou nessa época porque escrevia poemas direto no publicador do blog. Era essa coisa de publicar na hora e eu gostava disso. E tinha a prática. Pra mim, pra minha poesia, foi importante. Eu fazia poemas pra caberem na tela do computador, era uma coisa imediata e me botava em contato com outras pessoas que escreviam. Então tinha um retorno quase instantâneo e isso era uma coisa nova, né? Com os blogs a coisa ficou mais democrática, mais horizontal mesmo. Não tinha aquela pessoa que ficava no portão dizendo “Tu entra! Tu não!”.

Pelotas, Porto Alegre, São Paulo... em quantas cidades você já morou? E o que essas cidades te deixaram?
Que morei mesmo foi em Pelotas, Porto Alegre e São Paulo. Morei também dois anos na Argentina numa cidade chamada Bahía Blanca, que fica na província de Buenos Aires. Passei também umas temporadas na Holanda, na Escócia, mas nesses lugares eu sabia que ia embora. É difícil dizer o que elas me deixaram. São Paulo me deu mais velocidade, essa urgência de escrever, de publicar. É uma cidade que tem um ritmo que me levou a escrever mais. Porto Alegre me mostrou algumas leituras novas. Mas tem uma coisa: acho que não consigo morar muito tempo em um lugar porque quando dá uns 6 anos eu já fico querendo ir pra outro lugar. Mas gosto muito de São Paulo. Eu me sinto mais em casa aqui do que em Porto Alegre. Já Pelotas é a cidade que eu nasci, né? Saí dela pra fazer faculdade em 1994 e voltei em 2006. Depois teve essa fase na Argentina e voltei novamente em 2010, e fiquei lá até o início de 2017. É interessante voltar pra cidade que tu nasceu pra tentar se entender.

Como foram essas voltas?
Quando decidi largar o emprego de jornalista pra me dedicar à poesia eu voltei pra casa da minha família, voltei pra casa da minha mãe. Depois, na outra volta em 2010, também. Só que minha mãe morreu em 2015 e isso me soltou um pouco da cidade. Ela que me prendia a Pelotas. Tenho uma irmã que mora lá, mas minha ligação com a cidade era a minha mãe. Pelotas é a minha casa, mas é uma relação que tem algum conflito também. Mas foi importante ter voltado. Meu segundo livro, o útero, escrevi quase todo lá e quero acreditar que tem a ver com o lugar. Ter nascido no interior do Rio Grande do Sul me moldou linguística e afetivamente. A maneira como argumento as coisas, como construo as frases, tem a ver com essa coisa de ser do Sul, que é mais frio, mais fechado, mais melancólico.


acabei esquecendo de falar com angélica da experiência de escrever 
o roteiro pra hq guadalupe [quadrinhos na cia.], desenhada por odyr

Mudando um pouco de assunto. É muito comum ver em entrevistas com poetas mulheres ou escritoras perguntas como ‘Existe uma poesia feminina? Existe uma literatura feminina?’. E esse tipo de pergunta não é feita para homens. Isso te incomoda?
Por um lado, quando se põe um rótulo de literatura feminina em um livro parece que tu tá direcionando ele pra um público feminino e que não interessaria aos homens. Por outro lado, a gente precisa entender o que é a literatura feita por mulheres e quais são as coisas que são diferentes, entendeu? Porque ninguém sabe direito o que é o feminino. O feminino é todo um universo construído e se construindo. O útero, por exemplo, não poderia ter sido escrito por um cara. Seria outro livro. Um cara não ia falar do útero, seria meio forçado. Tem uma maneira de dizer as coisas que só uma mulher poderia ter feito. Enfim, escrevi um livro sobre mulheres, mas sou lida por homens também. Aliás, os primeiros leitores de útero foram homens.

Uma coisa é a produção, outra coisa é a recepção.
Isso, o rótulo pode ser prejudicial a partir do momento que você fala que é uma literatura de mulherzinha. Porque não existe uma literatura masculina, né? Tem autores que possuem um universo mais masculino, mas é tudo literatura. Por outro lado, não precisa ter muita pressa pra negar uma literatura feminina porque aí a gente não faz uma reflexão sobre o que as mulheres trazem pra literatura. São vivências diferentes. Acho que o jeito como me comunico, como articulo as frases, tem muito a ver com o fato de ter nascido no Rio Grande do Sul, com o fato de ter nascido na família que nasci – meu pai era muito rígido, tinha isso de impor respeito e aquela coisa de ‘adulto fala, criança cala’ –, então não tem como tudo isso não te moldar, entendeu? A maneira como eu tinha de me comunicar era escolhendo muito bem as palavras e da maneira mais eficaz possível. E também por eu ser lésbica e ter crescido no interior do Rio Grande do Sul nos anos 1980, o que não foi nada fácil, tinha essa coisa do não-dito, de não pode falar, isso também influenciou a minha maneira de escrever e a ser mais direta no que escrevo. Nos meus livros não tem muita palavra sobrando, tudo é mais compacto. Acho que tudo isso tem a ver com o fato de eu ser uma mulher, lésbica, gaúcha, que nasceu nos anos 1970. Uma pessoa assim que nasceu nos anos 1990 não tem essas mesmas questões. Mas a gente precisa sacar os elementos que as mulheres trazem. Será que é tudo igual mesmo?

No útero, a questão feminina, ser mulher, é a razão da existência dos poemas. Mas é algo que você pensa todo dia?
Olha, tu chega num nível de consciência que tu não tem volta. Não tem volta. Ser mulher... tu passa por uma série de situações... às vezes é muito difícil. Ter um corpo de mulher e sair na rua é uma experiência bem diferente de ser um homem. E os caras poderiam se dar conta, mas não se dão. Certos comportamentos muito arraigados...

Quem está em lugar de privilégio não pensa que está em um lugar de privilégio. Vê como certo, como um direito natural.
Verdade. E mesmo uma mulher... uma mulher branca está em um lugar de privilégio em relação a uma mulher negra. Ou uma mulher cis é privilegiada em relação a uma mulher trans. De qualquer forma, não é muito privilégio ser mulher. Por exemplo, numa discussão com um homem tem uma chance alta dele não te levar a sério, e te infantilizar. “Ah, ela tá bravinha”. Ter que ter muita paciência e ser bem didática.

E o ambiente literário? É conservador ou não?
Tem de tudo. Tem pessoas que são muito conservadoras, que se apegam a ideias de poesia, a determinadas características que definem o que e o que não é poesia. Mas também tem gente que está criando muito livremente e as pessoas entendem que cada pessoa tem o seu trabalho, suas questões, suas investigações. Nunca tive problemas. Ter resenha negativa, por exemplo, não considero um problema. Tem gente que acha que o que faço não é poesia, mas se você ver o que essas pessoas entendem por poesia, eu realmente não faço aquilo. Poesia pra mim é algo muito grande, e não me interessa de maneira nenhuma restringir. Se essa fronteira se expande, tanto melhor. Não tenho essa preocupação – que acho que é muito masculina – com o cânone. O que é cânone? É uma maneira de tu localizar as obras mais importantes do mundo que a gente vive. Harold Bloom põe o Shakespeare no centro e pra mim, ok. Só acho que poderiam ter outras coisas. Uma mulher no centro do cânone, ou um homem não branco...

Poderia ser um centro expandido, né?
Exato. Essa preocupação com o cânone, de pertencer a uma linhagem... eu pertenço a uma linhagem que vem de Safo de Lesbos [risos], passando por Angela Ro Ro, Cássia Eller [risos], essas minas todas, e aqui estou eu. Não é uma preocupação minha. Mulher sabe que o filho é dela, que saiu dela, não acho que essa história de linhagem seja uma preocupação de mulher. Talvez se a gente tivesse mais interesse por literaturas não ocidentais, como a nossa poesia poderia ser diferente, né? Acho que a gente precisa encontrar outras maneiras de se criar conhecimento, de ler, maneiras não tão masculinas de fazer as coisas. Acho que pode ser interessante.

p.s.: "Stradivarius", poema de Angélica publicado em seu primeiro livro [Rilke Shake] foi musicado pelo conterrâneo Vitor Ramil e lançado no disco Campos Neutrais.

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