quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

90 músicas gringas de 2015

após a lista dos melhores discos gringos do ano, nada mais natural que a de músicas né não. acabei meio que sem querer fechando também no número 90. coisa pra diabo, muitos sons, e esse número podia facilmente ser maior, pois tem artistas aí - kendrick, blur, dj vadim & sena, drake, ibeyi, son little, etc - que poderiam emplacar 3 ou 4. também é fácil notar que a lista tem muito rap e, nunca é demais repetir, a razão é simples: o rap é foda [e tá cada vez mais foda em todos os níveis, do político ao musical, das misturas à tradição, e em vários lugares do mundo].

sinceramente não saberia dizer qual ou quais músicas do ano. tem 3 hits globais na minha lista - “uptown funk” [mark ronson & bruno mars], “bitch better have my money” [rihanna] e “hotline bling” [drake] - e tem canções sensacionais de veteranas(os) em plena atividade - madonna, ghostface killah, blur, missy elliott, erykah badu, giorgio moroder, lauryn hill, prince e public enemy. tem também um punhado bom de novinhas e novinhos mostrando que as novas gerações não deixarão a música cair na mesmice, tais como alessia cara, bishop neru, don monique, dope saint jude, le1f, leon bridges, lianne la havas, lizzo, nicola cruz, nozinja, pell, rae sremmurd, raury, shamir e the internet.

então, sem mais delongas e na ordem alfabética, as 90 melhores músicas de 2015 segundo os padrões da casa.

a$ap rocky - "excuse me"
action bronson - "actin' crazy"
alabama shakes - "shoegaze"
alessia cara - "here"
am & shawn lee - "persuasion"
andreya triana - "gold"
badbadnotgood & ghostface killah - "six degrees" [feat. danny brown]
beirut - "no no no"
bishop nehru - "manssin" [feat. que hampton]
blueprint - "the talented tenth"
bomba estereo - "caderas"
cee-lo green - "mother may i"
dengue fever - "taxi dancer"
disiz - "abuzeur"
dj vadim & sena - "give more pt. 2" [feat. syross the virus]
don monique - "drown"
dope saint jude - "keep in touch" [feat. angel-ho]
drake - "hotline bling"
erykah badu - "phone down"
future - "where ya at" [feat. drake]
ghostpoet - "yes, i helped you pack" [feat. etta bond]
giorgio moroder - "tom’s diner" [feat. britney spears]
heems - "sometimes" [feat. hannibal buress & eric andre]
ibeyi - "stranger/lover"
jamie xx - "i know there's gonna be (good times)" [feat. young thug & popcaan]
joey bada$$ - "like me" [feat. bj the chicago kid]
kendrick lamar - "king kunta"
lauryn hill - "feeling good"
le1f - "umami/water"
leon bridges - "smooth sailin"
lianne la havas - "unstoppable"
lil b & chance the rapper - "we rare"
lizzo - "ain’t i"
l'orange & kool keith - "upwards. to space!"
m.i.a. - "borders"
madonna - "unapologetic bitch"
major lazer - "too original" [feat. elliphant & jovi rockwell]
mark ronson - "uptown funk" [feat. bruno mars]
mick jenkins - "your love"
miley cyrus - "cyrus skies"
missy elliott - "wtf (where they from)" [feat. pharrell williams]
murs - "the worst"
nicola cruz – "colibria"
nneka - "book of job"
nozinja - "baby do u feel me"
panda bear - "mr. noah"
pell - "queso"
people under the stairs - "runaway" [feat. greg nice]
petite noir - "mdr"
prince - "ain't about to stop" [feat. rita ora]
public enemy - "mine again"
rae sremmurd - "throw sum mo" [feat. nicki minaj & young thug]
raekwon - "i got money" [feat. asap rocky]
ratatat - "drift"
raury - "crystal express"
rdgldgrn - "runnin away"
roots manuva - "don't breathe out"
sadat x - "never left" [feat. tony mays]
shamir - "in for the kill"
son little - "go blue blood red"
songhoy blues - "sekou oumarou"
sons of kemet - "play mass"
sts & rjd2 - "monsters under my bed"
talib kweli & 9th wonder - "every ghetto" [feat. rapsody]
the arcs - "outta my mind"
the breathing effect - "fireflies"
the internet - "get away"
the lions - "the magnificent dance" [feat. black shakespeare]
the mighty mocambos - "road to earth" [feat. peter thomas]
the selecter - "karma"
the skints - "my war"
the souljazz orchestra - "courage"
the very best - "let go"
the weeknd - "can't feel my face"
toro y moi - "lilly"
travis scott - "antidote"
wiley - "chasing the art"
young fathers - "rain or shine"
young thug - "can't tell" [feat. t.i. & boosie badazz]

e a laíssa, do era segunda, fez o favorzão de fazer uma playlist gigante no youtube. das 90 músicas, 83 estão na plataforma. as 7 restantes estão logo na sequência, com destaque para a poderosa “hell you talmbout”, um grito liderado por janelle monáe contra a constante morte de negros(as) pela força policial norte-americana.


janelle monáe, deep cotton, st. beauty, jidenna, roman gianarthur & george 2.0 - "hell you talmbout"
los crema paraiso - "la luz se apaga" [feat. juan rivas]
opio & free the robots - "opiopia"
owiny sigoma band - "nairobi (too hot)"
pat thomas & kwashibu area band - "odo adaada"
quantic - "bicycle ride"

the electric peanut butter company - "mister pink"

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

90 discos gringos de 2015

mais um ano cheio de muita música boa, mais um ano repleto de excelentes artistas iniciantes e veteranos a toda velocidade. a tradicional retrospectiva musical aqui do esforçado começa este ano com os melhores discos gringos e não tive escolha a não ser mais uma vez bastante inclusivo e fechei a lista com 90 álbuns [e poderia ter mais].

pra facilitar o texto – e entender melhor o que mais gostei da produção deste ano – acabei dividindo esses 90 discos em quatro blocos [rap, instrumentais, pop-rock-soul-eletrônico e mundão]. e vou começar com o rap, o gênero que vem trazendo cada vez mais coisas novas e instigantes para nossos ouvidos e cabeças. pouco mais de um terço da lista é do rap, com direito a to pimp a butterfly, de kendrick lamar, disparado um dos melhores, mais fortes e complexos discos do ano, e ainda o poderoso white men are black men too [young fathers], if you’re reading this it’s too late [drake, cada vez mais afiado] e a surpresa de summertime '06 [vince staples]. mas ainda teve o retorno do dr. dre, os incansáveis ghostface killah, snoop dogg e public enemy, a originalidade inglesa de roots manuva e ghostpoet e o poder das minas erykah badu e georgia anne muldrow. seguem então meus destaques do rap gringo [majoritariamente norte-americano, obviamente], em ordem alfabética...

kendrick lamar, young fathers, drake e vince staples

action bronson - mr. wonderful
adrian younge & ghostface killah - 12 reasons to die II
alchemist - israeli salad
badbadnotgood & ghostface killah - sour soul
blueprint - king no crown
dr. dre - compton
drake - if you’re reading this it’s too late
georgia anne muldrow - thoughtiverse unmarred
ghostpoet - shedding skin
heems - eat pray thug
joey bada$$ - b4.da.$$
kendrick lamar - to pimp a butterfly
kid cudi - speedin bullet 2 heaven
le1f - riot boi
l'orange & kool keith - time? astonishing!
opio & free the robots - sempervirens
public enemy - man plans god laughs
rae sremmurd - sremmlife
rdgldgrn - rdgldgrn lp 2
roots manuva - bleeds
sadat x - never left
snoop dogg - bush
sts & rjd2 - sts & rjd2
talib kweli & 9th wonder - indie 500
tyler the creator - cherry bomb
vince staples - summertime '06
young fathers - white men are black men too
young thug - barter 6

sons of kemet e kamasi washington

então chega a hora dos sons instrumentais e o mundo se abre com os colombianos do romperayo [que tem gente do projeto ondatrópica e do meridian brothers], o finlandês jimi tenor, o francês pascal comelade, os canadenses da souljazz orchestra, e tem jazz [joshua redman acompanhado do the bad plus], rock [ratatat], interpretações de john zorn [forró in the dark], mas meus destaques pessoais, o que mais bateu aqui, foram os impressionantes lest we forget what we came here to do [dos ingleses sons of kemet] e the epic [ousado & duplo disco de estreia do saxofonista kamasi washington que, não coincidentemente, também toca no disco de kendrick lamar].

andrew bird - echolocations: canyon
forró in the dark - forró in the dark plays zorn
jimi tenor & umo - mysterium magnum
joshua redman & the bad plus - the bad plus joshua redman
kamasi washington - the epic
pascal comelade & les limiñanas - traite de guitarres triolectiques
ratatat - magnifique
romperayo - romperayo
the electric peanut butter company - trans-atlantic psych classics vol.1
the souljazz orchestra - resistance

blur, panda bear, son little e ibeyi

o outro terço dessa lista é composto por um grande bloco reunindo pop, rock, soul, eletrônica e dub/reggae. tem novos trabalhos de pratas da casa como björk, beirut, cee lo green, dj vadim, madonna, major lazer, mark ronson, prince, sharon jones & the dap-kings, shawn lee, the arcs [grupo novo de uma das metades do black keys], the lions, the skints e toro y moi. e não tenho como não falar da boa surpresa que foi miley cyrus e seu disco lisérgico produzido pelo flaming lips.

mas desse bloco os destaques pessoais, álbuns que me acompanharam muitas vezes durante o ano, foram the magic whip [blur], disco lindo lindo que é muito mais cheios de camadas que grande parte da produção contemporânea pop/rock, e as psicodelias eletrônicas de panda bear meets the grim reaper [panda bear ou noah lennox, uma das cabeças do animal collective]. sem falar nas belezuras ouvidas nas estreias da irmãs ibeyi e de son little. que discos, que discos.

alabama shakes - sound & color
andreya triana - giants
beirut - no no no
björk - vulnicura
cee lo green - heart blanche
dj vadim & sena - grow slow
ibeyi - ibeyi
jamie xx - in colour
leon bridges - coming home
lianne la havas - blood
madonna - rebel heart
major lazer - peace is the mission
mark ronson - uptown special
panda bear - panda bear meets the grim reaper
prince - hitnrun phase one
raury - all we need
shamir - ratchet
sharon jones & the dap-kings - it's a holiday soul party
shawn lee & am - outlines
son little - son little
the arcs - yours, dreamily
the breathing effect - mars is a very bad place for love  
the lions - soul riot
the selecter - subculture
the very best - makes a king
the weeknd - beauty behind the madness
toro y moi - what for?

petite noir, dengue fever, bomba estéreo e dexter story 

mesmo com a vasta internet, o mundo anglocêntrico ainda permanece muito mais familiar a todos nós. mas basta ficar atento que esse mundão tem muita coisa pra mostrar, ainda mais em termos de música. aqui nessa lista tem colômbia [bomba estéreo], venezuela [los crema paraiso], peru [kanaku y el tigre], argentina [nicola cruz], síria [omar souleyman], congo [mbongwana star], mali [songhoy blues], gana [pat thomas], nigéria/alemanha [nneka], quênia/inglaterra [owiny sigoma band], cambodja/estados unidos [dengue fever], estados unidos/etiópia [dexter story], índia, Inglaterra/israel [o encontro de shye ben tzur, jonny greenwood – do radiohead – e o grupo rajasthan express] e áfrica do sul [nozinja, petite noir e fantasma, grupo liderado por spoek mathambo].

mas de todos esses álbuns, os meus destaques vão para o belo e sensacional la vie est belle [petite noir] com sua mistura irrotulável de pop, eletrônica e experimentalismos regionais; pro climão ethiojazz de wondem [dexter story]; pra alegria dançante de amanecer [bomba estéreo]; e pra maviosa surf music cambodjana de the deepest lake [dengue fever].

bomba estéreo - amanecer
dengue fever - the deepest lake
dexter story - wondem
fantasma - free love
kanaku y el tigre - quema quema quema
los crema paraiso - de pelicula
mbongwana star - from kinshasa
nicola cruz - prender el alma
nneka - my fairy tales
nozinja - nozinja lodge
omar souleyman - bahdeni nami
owiny sigoma band - nyanza
petite noir - la vie est belle
shye ben tzur, jonny greenwood and the rajasthan express - junun
songhoy blues - music in exile
pat thomas & kwashibu area band - pat thomas & kwashibu area band

e nos próximos dias, as listas de melhores músicas gringas, discos e músicas nacionais. tem coisa boa pra dedéu.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

"my soul is black, meu sangue é quente"

show lindo, poderoso, político, afetivo, cheio de emoções e distorções esse 'a mulher do fim do mundo' da grande gigante elza soares. ela ali no alto de seu trono, frágil e poderosa, entra com tudo nas músicas do disco, algumas difíceis ("benedita", celso sim e pepê mata machado, com participação de celso) ou épicas ("o canal", rodrigo campos), rasgadas ("dança", cacá machado e romulo fróes) ou das ruas ("firmeza?!, rodrigo campos), sambas punk ("pra fuder", kiko dinucci) ou apocalípticas ("luz vermelha", kiko dinucci e clima), espelhos ("a mulher do fim do mundo", romulo fróes e alice coutinho) ou conscientes ("maria da vila matilde", douglas germano). e assim vai, voz tinindo.



e acompanhada de uma puta banda (guilherme kastrup, rodrigo campos, rafa barreto, marcelo cabral e da lua com metais e sopros do bixiga 70 e quarteto de cordas) e uns arranjos tão fiéis ao disco, um dos grandes desse ano, quanto potentes ao vivo. tudo também muito paulistano, tirando beleza e urgência de sujeiras e distorções.

além das músicas inéditas, quatro de seu passado: a já clássica "a carne" (seu jorge, marcelo yuka e ulisses cappelletti), uma arrepiante "malandro" (jorge aragão) e, nos bis, "volta por cima" (paulo vanzolini) e "pressentimento" (elton medeiros).

ela disse, do alto de seus 78 anos, que queria um disco com sexo e negritude. não só conseguiu, em disco e no show, como foi além mostrando que a atual fragilidade física não é páreo pra sua energia inquieta de artista mulher negra.



e foi lindo vê-la feliz sendo aplaudida de pé em vários momentos e amada de muitas formas em um show absolutamente arrebatador, de abrir sorrisos e chorar repetidas vezes (eu chorei pelo menos duas vezes, carolina outras tantas), de pensar e se incomodar, de se enroscar e ser repelido(a). foi um show tipo viver mesmo, no que tem de mais lindo e perturbador. elza soares da vida, diria itamar assumpção. e que bom, que importante, que a gente tenha percebido que temos muita sorte de ter e ser elza.



p.s.: acho, só acho, que teria sido muito foda ela cantar "elza soares" do itamar assumpção.

sábado, 13 de junho de 2015

o 'les miserables' do brega

pode substituir 'les miserables' por 'os guardas chuvas do amor' ou 'sweeney todd' ou qualquer outro filme musical todo cantado, pois sampleados, websérie da platô produções, tem justamente a pretensão de contar uma(s) história(s) costurando apenas hits do brega e tecnobrega paraense, sem diálogos falados. acabou de sair o primeiro episódio e nele estão a atriz betty dopazo [a vilã do impagável curta encantada do brega], o lendário wanderley andrade e as celebs leona vingativa e aleijada hipócrita [da saga leona vingativa]. bem divertido, profundamente paraense [making of aqui].



no final aparecem as músicas usadas - lembrando que a produção musical é do will love, da gang do eletro - e resolvi replicar aqui com links para suas versões originais. são elas: "eu te amo meu amor" [frankito lopes], "você vacilou" [irmãos metralha], "um drink no bar" [banda conexão] e "conquista" [wanderley andrade]. 

então vem o segundo episódio com suanny batidão [banda anjos do melody] e a dupla will love e waldo squash [gang do eletro], e as músicas "lá vem o corno" [banda viper], "ultra som" [banda ravelly], "nego lindo" [lene bandeira] e "rupinol" [marinho]. 



já o terceiro episódio é estrelado por nanna reis, félix robatto, letícia moura, may souza [banda ar-15] e renan sanches [banda ark]; e as músicas são "galera da golada" [viviane batidão], "quem vai querer" [banda katrina], "varejeira/cisca varejeira" [banda voo livre/banda xeiro verde] e "gringo lindo" [banda floresta nativa].



o quarto tem thaciane pantoja [banda batidão do melody] e o lendário tony brasil levando as músicas "tic tic tac" [banda amazonas], "meu amor é todo seu" [banda sayonara], "bole rebole" [banda los bregas] e "volte logo meu amor" [nelsinho rodrigues e aninha]. e mais do ver-o-peso, o set mais característico e recorrente da cidade de belém.



finalizando a websérie - foi anunciado que esta foi a primeira temporada, então tem mais por aí em 2016 -, aparecem keila gentil [gang do eletro], viviane batidão, rebeca lindsay, valéria paiva [banda fruto sensual], edilson moreno e billy brasil. e mais uma porrada de músicas de épocas diferentes do brega paraense: "ao pôr do sol" [teddy max], "declaração de amor" [banda sayonara], "xirley" [gaby amarantos], "na balada pop" [banda maria eugênia], "brega da marmita" [jurandir], "luxuoso jacksom" [banda fruto sensual], "ouro negro" [skema dance], "traficante do amor" [wanderley andrade], "piranha do banheiro" [aparelhagens], "pra me conquistar" [banda calypso] e "melô do ladrão" [wanderley andrade]. 

como não poderia deixar de ser, sampleados acaba numa grande festa de aparelhagem ao som dos versos 'eu vou samplear, eu vou te roubar' [versos de "xirley" e uma espécie de resumo de intenções do tecnobrega paraense].



e aqui uma série de mixagens, assinadas por will love, com as músicas dos cinco episódios.

domingo, 31 de maio de 2015

plataforma brasileira de política de drogas

aconteceu nesta semana, no salão nobre do largo são francisco em são paulo, o lançamento da plataforma brasileira de política de drogas, mais um importante passo na luta contra o estúpido proibicionismo que vem, entre outros danos, matando e encarcerando a juventude pobre e negra do brasil, dos estados unidos e de tantos outros países. esse é um tema muito caro a mim e fui acompanhar o lançamento por também ter amigos envolvidos - um salve aí pro bróder maurício fiore. foi uma noite com vários discursos fortes, urgentes, necessários, mas o de abertura, proferido pelo advogado cristiano maronna, secretário executivo da plataforma, resume muito bem toda violência ignorante do proibicionismo e a necessidade urgente por mais reflexões, alternativas e liberdades. saca só.


"É com muito orgulho que lançamos nossa Plataforma Brasileira de Política de Drogas. E não haveria lugar mais apropriado para isso do que a quase bicentenária Faculdade de Direito do Largo São Francisco, alma mater das liberdades, morada da amizade e da alegria.

São diversos os caminhos que nos trouxeram a este momento histórico. Muitos caminhamos juntos há tempos. Com outros, ainda estamos acertando o passo para seguirmos juntos ao mesmo destino. E ainda queremos encontrar outros para fortalecer nossa caminhada, porque temos certeza de que já não é possível ignorar a situação trágica que vivemos. Todos. Os que usam e também os que não usam drogas.

Somos moradores e moradoras de favelas e das periferias que convivem com a morte de familiares e amigos em uma guerra cujo sentido não se pode compreender. Somos médicos e médicas que querem tratar pacientes com o remédio adequado para suas enfermidades. Somos militantes de movimentos sociais na luta contra o genocídio da juventude, principalmente da juventude negra, nas cidades brasileiras. Somos cientistas cujas pesquisas com substâncias ilegais estão interditadas pela guerra ás drogas e que percebem que os males causados pela proibição são muito maiores do que aqueles que as drogas podem causar. Somos usuários e usuárias de drogas ilícitas que não aceitam a tutela autoritária e hipócrita do estado sobre corpos e mentes, que não aceitam a exposição a um mercado clandestino de drogas sem nenhum controle sanitário, que não aceitam os abusos policiais. Somos profissionais de saúde e ativistas antimanicomiais que percebem que os usuários problemáticos de drogas são alvo de tratamentos desumanos e cruéis, centrados no encarceramento e no interesse mercantil. Somos cientistas sociais que identificam na guerra às drogas uma guerra contra os mais pobres e os grupos historicamente discriminados. Somos os growers que rompem os vínculos com o crime organizado por intermédio do autocultivo e que sofrem implacável perseguição por parte dos agentes da repressão estatal. Somos os negros e negras que moram nas periferias e que ao serem flagrados com drogas são enquadrados como traficantes, a despeito da pequena quantidade da substância apreendida. Somos as mulheres que carregam drogas em seus corpos nas visitas a parentes e amigos presos e que acabam presas também. Somos aqueles chamados de “zumbis” nos lugares degradados das cidades, cujas vidas de sofrimento e privação são esquecidas para que simplisticamente nos vejam como vítimas de uma substância. Enfim, somos todos os cidadãos e cidadãs que sofrem com o crime e com a corrupção e que vêem policiais matarem e morrerem sem alterar em nada o mercado de drogas ilícitas.

Queremos conviver pacificamente com substâncias capazes de alterar a consciência ordinária. Queremos um cenário de regulação responsável para as substâncias capazes de causar prejuízo à saúde. Queremos informações verdadeiras e cientificamente embasadas, aptas a educar a população respeito do consumo de drogas. Queremos que o usuário de drogas seja visto não como um doente, mas como um sujeito de direitos.

Uma política de drogas deve garantir e promover direitos, não excluí-los. Por isso combatemos a massificação da internação forçada para usuários problemáticos e repudiamos o repasse de recursos públicos a comunidades terapêuticas e religiosas. Basta de uma política de drogas bipolar, que demoniza uma substância com comprovadas propriedades terapêuticas, como a cannabis, e negligencia os danos causados pelas bebidas alcoólicas, cuja propaganda é, ainda hoje e inacreditavelmente, permitida, estimulando o consumo desta substância extremamente perigosa e que pode inclusive levar à morte por overdose.

A Plataforma Brasileira de Política de Drogas surge como construção essencialmente coletiva em função desta realidade que precisa ser transformada. Temos a missão de fortalecer todos os atores que se percebem afetados pela política de drogas atual e que lutam por mudanças. Resultado de uma articulação que vem sendo feita nos últimos anos, reunimos organizações de todo o país e que atuam em diferentes áreas, saúde, justiça, direitos humanos, redução de danos, combate ao racismo, ao machismo, à homofobia. Ajudamos a organizar o Congresso Internacional de Drogas, em 2013 e percebemos a importância de articular uma ação conjunta  que potencialize a atuação de nossos membros. Percebemos também que o Brasil precisa ser parte do movimento global de questionamento do paradigma proibicionista e da insana guerra às drogas e que temos uma chance importante na reunião exclusiva da Assembleia da ONU sobre o tema que acontecerá no ano que vem, a UNGASS 2016. Contamos, para isso, com a parceria de membros da Plataforma, como a Conectas, a Reduc, a ABGLT e o Instituto Igarapé. Também fazem parte da Plataforma: Centro de Referência Sobre Drogas e Vulnerabilidades Associadas (CRR/FCE/UNB); Instituto Terra, Trabalho e Cidadania (ITTC); Associação Brasileira de Estudos Sociais do Uso de Psicoativos (ABESUP); Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Travestis e Transexuais (ABGLT); Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos Sobre Drogas (ABRAMD); Associação Brasileira de Redução de Danos (ABORDA); Associação Brasileira de Saúde Mental (ABRASME); Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO); Associação Juízes para a Democracia (AJD); Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (CEBES); Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID-UNIFESP); Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESEC) da Universidade Cândido Mendes; Conectas Direitos Humanos; Centro de Direitos Humanos e Educação Popular (CDHEP); Growroom; Grupo de Pesquisas em Política de Drogas e Direitos Humanos da UFRJ; Grupo de Trabalho do Programa Álcool, Crack e Outras Drogas da Fundação Oswaldo Cruz; Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM); Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD); Instituto Igarapé; Instituto Sou da Paz; Rede Pense Livre; Laboratório de Estudos Interdisciplinares Sobre Psicoativos da Unicamp (LEIPSI); Núcleo de Estudos Interdisciplinares Sobre Psicoativos (NEIP); Observatório Baiano Sobre Substâncias Psicoativas (CETAD); Plantando Consciência; Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo (PROAD-UNIFESP); Rede Brasileira de Redução de Danos e Direitos Humanos (REDUC); Rede Cidade Fala; Rede Latinoamericana de Pessoas que Usam Drogas (LANPUD). Fazem parte do Conselho Consultivo da Plataforma: Antonio Lancetti; Antonio Nery; Aldo Zaiden; Beatriz Vargas; Bia Labate; Dartiu Xavier da Silveira; Denis Russo Burgierman; Edward Macrae; Elisaldo Carlini; Henrique Carneiro; Ilona Szabó; José Henrique Torres; Julita Lemgruber; Luciana Boiteux; Luiz Eduardo Soares; Maurides Ribeiro; Maria Rita Kehl; Paulo Amarante; Salo de Carvalho; Sidarta Ribeiro; Sueli Carneiro; Sérgio Salomão Shecaira.

E hoje temos também o lançamento em São Paulo da campanha “Daproibição nasce o tráfico”, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), da Universidade Cândido Mendes, sob a liderança de Julita Lemgruber. A campanha, realizada por meio de cartuns dos mais importantes cartunistas brasileiros, chama à atenção para a irracionalidade da guerra às drogas. No Rio de Janeiro, os cartuns foram exibidos nos ônibus por aproximadamente um mês. Em São Paulo, os ônibus começaram a circular com os cartuns no dia de ontem, mas hoje Julita recebeu uma ligação da empresa que comercializa propaganda em ônibus intermunicipais, informando que os cartuns serão retirados dos ônibus porque fazem apologia às drogas. Parece piada, mas não é. É censura gerada pela ignorância que se alimenta da intolerância proibicionista. Alguém já disse que no Brasil o realismo fantástico não pegou porque a realidade faz concorrência desleal.


Outro exemplo clássico: em São Paulo, a Marcha da Maconha, realizada todos os anos em mais de quinhentas cidades ao redor do globo, foi sistematicamente proibida, mercê de decisões judiciais proferidas pelo Tribunal de Justiça, sempre em atendimento a pedidos formulados pelo Ministério Público, sob o pífio argumento de que postular a reforma da política de drogas se confunde com a apologia ao crime e o estímulo ao consumo de drogas. Foi necessário que a Suprema Corte se manifestasse para dizer o óbvio: liberdade de manifestação inclui o direito de pedir mudanças na lei de drogas.


Por aí se percebe a dificuldade de debater política de drogas em bases racionais, dada a tradição autoritária da nossa sociedade e o fundamentalismo que permeia o paradigma proibicionista.  


Estamos todas e todos aqui reunidos, membros e parceiros da Plataforma, porque cada um de nós, em algum momento, individualmente ou em nome das organizações-membro, decidimos assumir a responsabilidade pelos diversos problemas que a guerra às drogas causa à nossa sociedade.

É com o peso dessa responsabilidade e com a pressa para salvar cada uma dessas vidas que iniciamos os trabalhos da Plataforma. E, por isso, nos dispomos a dialogar com os diversos meios de comunicação para ajudar a qualificar o debate e a informar sobre os reais danos causados pelas drogas e pela política de drogas. Vamos impulsionar e articular pesquisadores para que tenhamos mais conhecimento sobre o tema. Vamos aos gabinetes de parlamentares, autoridades e suas assessorias apresentar dados e argumentos que embasem propostas de mudança na política de drogas do Brasil. Vamos dialogar com diversos movimentos sociais e organizações políticas para fortalecer nossa capacidade de mudança. Temos um compromisso com o resultado da nossa ação política, pois ela deve ser capaz de responder aos problemas identificados. Ao mesmo tempo, temos a responsabilidade de potencializar ações já iniciadas pelas organizações que compõem a Plataforma, identificando oportunidades de parcerias e apoios. A dificuldade da tarefa não nos desanima, antes o contrário: estamos mais motivados do que nunca, porque sabemos que estamos combatendo o bom combate. O tabu moral que tornou possível o surgimento da proibição tem a ver com uma mentalidade medievalesca, a qual, em pleno século XXI, não tem mais lugar. Passou da hora de varrer a proibição para o limbo da história.

Precisamos botar um fim nessa guerra. Há um antigo brocardo latino que diz:  si vis paccem, parabellum, que significa “se queres a paz, prepara-te para a guerra”. É tempo de subverter essa lógica: não queremos mais guerra, queremos paz. A paz que existia na relação ancestral entre seres humanos e substâncias psicoativas e que foi rompida há aproximadamente cem anos deve ser restaurada. Basta! Não se constrói paz com guerra. A paz armada é apenas uma contradictio in adjecto. Paz significa ausência de guerra. Paz significa respeito a estilos de vida contramajoritários. Paz significa diversidade. Paz significa mais tolerância e menos ordem. É isso que nós queremos."   

p.s. 1: agradeço ao guilherme werneck, coordenador de comunicação da plataforma, por ter me enviado o discurso de maronna.

p.s. 2: aqui tem a cobertura fotográfica do evento.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

diz aí letterman o que cê vai fazer

ontem foi ao ar o último dos 6028 programas – em 33 anos – apresentados por david letterman. é, sem sombra de dúvida, o fim de uma era, mas certeza que ele nunca aceitaria uma afirmação tão categórica e muito menos o fato de que é uma das figuras mais influentes da cultura popular mundial do final do século 20, mais até que o comediante mentor de sua geração, johnny carson.

e não é por [falsa] humildade ou discrição. é que tudo parece natural na sua ocasional rabugice, no humor auto depreciativo, na absoluta gratuidade nonsense de alguns quadros ou intervenções, no interesse genuíno por boas e engraçadas histórias de outras pessoas, na aversão pelo show business, etc. tudo isso era e continua moderno mesmo que já tenha sido assimilado por gerações mais novas.

não lembro quando comecei a acompanhar letterman. deve ter sido em algum lugar do final dos anos 1990. mas imediatamente me identifiquei com seu tipo de entrevistas, mais pra conversas sobre assuntos aparentemente triviais [e que mudaram de estilo, ficaram mais leves, após a cirurgia cardíaca no início dos anos 2000], e com seu humor ácido.

seu último top 10 – uma das marcas mais duradouras do programa e que começou em 1985 com “top 10 things that almost rhyme with peas” – é um belo resumo das melhores qualidades de letterman, de seus roteiristas e do programa [que será comandado, a partir de setembro, pelo genial stephen colbert, uma das melhores substituições da história da tv]. com vocês, dez coisas que que sempre quis falar pro dave que, no caso, são alec baldwin, barbara walters, steve martin, jerry seinfeld, jim carrey, cris rock, julia louis dreyfuss, peyton manning, tina fey e bill murray.


mas o último programa começou assim, cheio de moral, com a presença de três ex-presidentes americanos [bush pai, clinton e bush filho] e obama.


no canal do late show no youtube tem um monte de coisas recentes e do passado. vale muito a pena passar horas e horas nele e se divertir com excelentes e/ou históricos números musicais [aqui o rap], algumas pegadinhas sensacionais, coisas sendo arremessadas do alto do prédio do ed sullivan theatre e top 10 maravilhosos como esse estrelado por barry white.  


torço muito para que letterman não se aposente totalmente e que ainda apronte coisas simples e geniais como seinfeld tem feito com a série comedians in cars getting coffee [foi demais o encontro deles, aqui]. seu humor e sua inteligência são necessários demais, ainda mais neste ano que jon stewart também deixará o daily show. de qualquer forma, muito muito obrigado, dave. 


quarta-feira, 1 de abril de 2015

todos os clipes de stromae [e mais um show]

conheci a música do belga stromae em 2010 num coffeshop em amsterdã [história aqui] e adorei de cara seu rap-pop-eurodance-electro-etc. cinco anos e dois discos depois a admiração e o interesse por seu trabalho só aumentaram. ele, que já é artista grande na europa continental, agora está começando uma invasão aos estados unidos e foram shows recentes lá [south by southwest] e aqui [back 2 black] que reativaram minha memória afetiva. ah, teve também o lançamento de um novo clipe, o sensacionalíssimo "carmen", e por isso que resolvi fazer um apanhado de todos os seus clipes alto nível. saca só...

do primeiro disco [cheese, 2010] nasceram "alors on danse", "te quiero", "je cours" e "peace or violence".









do segundo disco [racine carrée, 2013] vieram "papaoutai", "formidable", "tout les mêmes", "ta fête" [que foi hino da seleção belga na copa de 2014], "ave cesaria" e "carmen" [que é uma animação de sylvain chomet, de as bicicletas de belleville]. 













atualização em 14.09.15 - saiu o sétimo clipe do segundo disco de stromae. agora é a vez da balada dramática "quando c'est" que ganhou um clipe tão bonito quanto sombrio.



atualização em 14.12.15 - stromae disponibilizou, na íntegra e em alta definição, um show que fez em montreal da sua turnê mais recente [no repertório, os dois discos]. é o mesmo show que saiu em dvd e blu-ray. que puta espetáculo foda, uma luz absurda de bonita e ágil, e um grande roteiro. sem falar que o sujeito é incansável e altamente cênico. dica: coloque em tela cheia e preste atenção do início ao fim [quase duras horas], pois vale muito a pena. 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

tu és muito mais bonita

um ano atrás, o(a) usuário(a) sobriquetism comentou em uma página do youtube que traz uma das versões de 'a jardineira'. queria saber se o soldado brasileiro que ensinou a marchinha para sua vó, em 1945, ainda estava vivo. dizia ainda que a vó sabia de cor a música até hoje. gravada originalmente por orlando silva em 1938 e um dos maiores sucesso do carnaval de 1939, 'a jardineira' é composição de humberto porto e benedito lacerda. 

bem, ninguém respondeu por lá e ele(a) acabou compartilhando sua dúvida no google plus. daí que não demorou muito e apareceu anderson monteiro com uma história interessantíssima sobre a marchinha e os pracinhas brasileiros. mas sobriquetism, que imaginei ser italiano(a) pois o brasil lutou apenas na itália, só viu isso em dezembro. no entanto, trouxe novas informações sobre os brasileiros - eram dois, não um. anderson pesquisou, etc.

enfim, sem querer adiantar mais nada, vejam aí os prints de uma bela-curiosa-divertida história de carnaval, brasil e itália de anos passados.