sábado, 30 de agosto de 2014

miniperfis feirantes

quatro feiras-livre, quatro regiões, quatro personagens, uma série de miniperfis que fiz pro feicebuque da prefeitura de são paulo. a ideia partiu da efeméride '100 anos da regularização das feiras na cidade' e, como escrevi pouco esse ano, foi bacana ir pra rua com esse objetivo: falar com pessoas, escrever sobre elas. renata assumpção, que me ajudou a definir as feiras, me acompanhou nas manhãs semi-frias desse final de agosto e talvez pinte um vídeo. beijão pra ela e pra valorosa e divertida equipe das redes sociais da prefeitura de são paulo [no twitter é @prefsp] que traz ainda bia abramo, fábio vanzo, laíssa barros e ana clara ferrari. tá muito massa esse trabalho nosso.


Carminha
Praça Benedito Calixto 
Pinheiros, Zona Oeste

Maria do Carmo de Moura, a Carminha, não gosta muito de conversa. Diz que o trabalho não deixa “tempo pra essas coisas”. E, pensando na sua rotina, ela tem toda razão. Trabalha em cinco feiras por semana há pouco mais de 40 dos seus 74 anos, e acorda todo dia às 3 e meia da manhã em Ermelino Matarazzo, zona leste, para conseguir chegar às 5 e montar sua barraca com ervas, temperos, batatas, cebolas, alhos, palmitos enlatados, tapioca, e assim por diante.

Às terças está com uma filha ou um sobrinho na Praça Benedito Calixto, em Pinheiros, zona oeste, logo em frente ao caminhão de peixes. “Antes de me casar eu trabalhava em casa de família, mas nunca gostei de receber uma vez por mês. Na feira é bom porque mesmo com pouco movimento todo dia tem algum dinheiro”, diz enquanto atende uma cliente que leva quatro cabeças de alho por 5 reais. 

Foi seu marido que a levou por esse caminho de cheiros, barulhos e cores das feiras livres. Por mais de quatro décadas estiveram juntos na lida, mas oito meses atrás ele morreu. “Ele me disse, pouco antes de morrer, que eu não podia ficar parada, nem ficar triste, e que tinha que seguir com a barraca. Foi essa profissão que ele me deixou, né? A gente não pode desistir”, e dá uma limpadinha na mesa onde rala côco, um gesto que parece dizer que o tempo de conversa fiada já deu. 


Adriano
Rua Dr. Gabriel Piza
Santana, Zona Norte

Nascido em Pesqueira, interior de Pernambuco, Adriano mora em São Paulo desde 1989. Veio com a família ainda pequeno e foi conhecendo a cidade pelas feiras livres. Hoje, aos 38 anos, afirma orgulhoso que trabalha como feirante há 20 anos e fez sua vida ao redor das frutas que vende [recentemente comprou, na planta, um apartamento próprio em São Mateus]. Mas sua vida profissional teve início com limões ao lado do pai no Parque Dom Pedro II. Depois passou a trabalhar sozinho e em outras bancas. 

Montou sua própria banca há seis anos e nela vende laranja, morango, caju, pera, manga, maçã e kiwi. “Tudo é interessante na feira. As pessoas, as conversas, um dia é diferente do outro. O ruim é acordar cedo”, e então começa a relatar seu cotidiano que tem início à meia-noite. Como trabalha com frutas frescas precisa acordar essa hora para se abastecer no Mercadão e lá pelas quatro da manhã chegar a uma das cinco feiras que faz semanalmente. 

Geralmente tem ao seu lado sua mulher e um amigo vizinho, mas em feiras livres maiores chama outros ajudantes e também muda as frutas que leva. Adriano entendeu rapidamente as particularidades de algumas regiões da cidade e, por exemplo, na feira que trabalha no Jardim América ele leva mais frutas importadas. “Tem outra diferença... esse pessoal com maior poder aquisitivo é meio cismado e não conversa muito. Às vezes só deixam uma lista e pedem para entregar em casa”, diz enquanto olha para os dois lados da feira em busca de algum possível cliente. “Daqui umas duas horas isso aqui está cheio e aí só gritando mesmo para ser visto. É a disputa da feira, né?”.


Nilton
Rua Irmã Carolina
Belém, Zona Leste

“De pai para filho desde 1950” é o que está escrito nas costas do uniforme de Nilton Rutkowski, 59 anos. Neto de poloneses e morador da Penha, ele foi o único que herdou do pai bucheiro o gosto pela feira livre e pelas carnes vermelhas, frangos e miúdos. Mas além de ser o único, ele também sabe que será o último, pois a filha e o filho, formados e com suas próprias famílias, não manifestaram nenhum interesse pela labuta feirante. 

De uma forma ou de outra, Nilton já está planejando sua aposentadoria pra daqui uns cinco anos. Afinal, montou sua banca própria em 1978 e desde então segue na firme rotina de cinco feiras por semana, todas na zona leste, com o dia começando às 3 da manhã. “No começo a gente trabalhava tanto que não tinha tempo pra pensar, mas hoje a feira está tranquila porque existem mais mercados e as pessoas tem mais acesso a alimentação, então já dá pra descansar”.

Teve uma época, uns dez anos atrás, que tentou sair da feira e virou fornecedor de carnes para feirantes. “Sei vender, não sei cobrar. Aí já viu, né? Não deu certo”, e interrompe uma história que lhe deu dores de cabeça e dívidas para mostrar ao longe uma cliente que vem na sua banca desde os tempos de seu pai. “Eu amo a feira por causa da freguesia. É uma coisa saborosa o contato que a gente tem, as conversas, os amigos”. 


Alexandre
Rua Conceição Veloso
Vila Mariana, Zona Sul

É uma das muitas tradições da centenária feira livre paulistana: onde queres legumes e verduras, tens japonês. É que desde sua chegada ao Brasil, a colônia japonesa criou sua própria rede de circulação de produtos, do cultivo a venda. Alexandre Nakamassu não fugiu a essa regra. Sua família trabalha no ramo há cerca de 50 anos e sempre com vistas a rabanetes, cenouras, nabos, alfaces, rúculas e quetais. Mas nos últimos tempos a responsabilidade ficou com Alexandre, que acorda às 3 da manhã e se manda para bairros como Vila Mariana e Ipiranga [ele faz quatro feiras por semana, todas na Zona Sul]. E depois ainda pega estrada até Suzano para comprar produtos frescos para o dia seguinte. 

“Não gosto de trabalhar [em lugar] fechado. Nunca gostei. Então vou seguir nas feiras até aguentar, afinal sempre trabalhei com isso, com esse contato direto, cada dia diferente do outro”, mas faz questão de deixar claro que sua filha, ainda criança, não seguirá os passos do pai. “Quero que ela estude pra ter uma vida mais tranquila”.

Esse desejo “por uma vida melhor” para a filha também está relacionado com o que vê todos os dias nos seus lugares de trabalho. Aliás, todos os feirantes sabem disso muito bem, pois o movimento nas feiras livres realmente vem caindo nos últimos anos por causa, principalmente, dos supermercados. Mas mesmo assim Alexandre tem certeza que as feiras nunca acabarão. “O atendimento é o diferencial, é personalizado, né? Em um supermercado não tem isso, não tem com que reclamar se a mercadoria não tiver boa. Feira é olho no olho”.

sábado, 2 de agosto de 2014

indiscotíveis: 'sobrevivendo no inferno'

uma dessas surpresas sensacionais da vida. itaici brunetti, colega jornalista com quem trabalhei na revista monet, me convidou em maio do ano passado para fazer parte de um livro ainda sem título sobre grandes discos da música brasileira a ser lançado pela jovem e independente editora lote 42. eu disse que sim claro com certeza. ele me passou uma lista gigante de discos e de cara escolhi sobrevivendo no inferno do racionais mcs. há tempos queria escrever sobre o disco, sobre os shows que vi do grupo na virada cultural, sobre rap, etc. mandei o texto no início de setembro e a vida seguiu.

achei desde o início que seria um livro bacana, mas quando vi indiscotíveis, o prazer foi maior porque ficou muito mais interessante e bonito do que esperava: o projeto gráfico de luciana martins, a ilustração de luciano salles para sobrevivendo, os textos de emicida, rael, arthur de faria, tatá aeroplano, marcelo costa, etc.

indiscotíveis foi lançado no início de julho e teve uma excelente cobertura da imprensa [até dei entrevista ao vivo pra rádio estadão] e ótimas resenhas, o que me deixou ainda mais orgulhoso de fazer parte do projeto.

além de itaici, meus sinceros agradecimentos a joão varella e cecília arbolave da lote 42, e a bia abramo, que leu o texto quando este ainda estava no berço. provavelmente a versão que segue aqui está um pouquinho diferente da impressa, já nem lembro mais. o que importa mesmo é que tem texto aqui e também no livro, que está a venda na loja virtual da lote 42. leia aqui, compre lá e divirta-se.



SOBREVINDO NO INFERNO, 1997
Racionais MCs

Ogunhê! Jorge sentou praça na Cavalaria... Deus fez o mar, as árvore, as criança, o amor; o Homem me deu as favelas, o crack, a trairagem, as arma, as bebida, as puta... Minha intenção é ruim, esvazia o lugar... Tô ouvindo alguém gritar meu nome... Parece que alguém está me carregando perto do chão... Aqui estou, mais um dia, sob o olhar sanguinário do vigia... Este lugar é um pesadelo periférico... Eu me formei suspeito profissional, Bacharel pós-graduado em tomar geral... Aquele moleque sobrevive como manda o dia-a-dia; tá na correria, como vive a maioria... Essa porra é um campo minado; quantas vezes eu pensei em me jogar daqui... As grades nunca vão prender nosso pensamento.



Não lembro onde, nem como, nem quando escutei Sobrevivendo no Inferno pela primeira vez. Sei que foi no comecinho de 1998 – o lançamento oficial aconteceu no final de 1997 -, e que passei semanas e semanas ouvindo o disco de todas as formas possíveis: na ordem original das faixas, aleatoriamente, umas ou outras no repeat, só trechos, etc. Já gostava do Racionais na época, mas os conhecia superficialmente [as básicas “Fim de semana no parque”, “Pânico na Zona Sul” e “Homem na estrada”], bem como o resto do rap brasileiro até então, quase exclusivamente paulistano. 

Quer dizer, Racionais não era novidade [musical] pra mim e eu já conhecia um pouco de São Paulo e da história do rap na cidade, mas nada disso tinha me preparado para Sobrevivendo. Claro, burrice minha, coisa de moleque achar que sabe mais do que realmente sabe.

Uma coisa era o impacto sonoro promovido por KL Jay, outra eram as vozes ásperas de Mano Brown, Ice Blue e Edi Rock, mas foi o discurso desses rapazes latino-americanos apoiados por mais de 50 mil manos que me derrubou. Nunca tinha ouvido, e poucas vezes ouvi posteriormente, tanta raiva na música popular brasileira [que me desculpem os punks] e um olhar tão aguçado e complexo – mesmo que ocasionalmente moralista, sexista e autoritário – diante das raízes e problemas das periferias brasileiras, da nossa eterna casa grande & senzala, da luta diária na periferia. Por causa de tudo disso lembro muito bem da sensação de medo e euforia que tive após as primeiras audições do disco.

Medo do tipo “a casa caiu!”. Essa “mistura de ódio, frustração e dor” por séculos de opressão e violência um dia iria transbordar e chegar às ruas. Aí quero ver branquinho aplaudir. 

Euforia do tipo “que foda!”. A democracia racial e cordial brasileira é uma farsa igualmente secular e somente a raiva e o embate, coisas raras no país, podem desmascará-la. Franco atirador se for necessário.

Orgulho e humilhação, amor e morte, soco na cara. Tudo junto.

Só que raiva pela raiva pode até gerar fagulhas, mas não necessariamente uma explosão. Daí que o mais impressionante no discurso do quarteto é, na verdade, essa energia aliada a uma gigantesca quantidade de imagens criadas em suas rimas, a sofisticação na construção das cenas, as mudanças ágeis e não lineares entre passado, presente e futuro. Cada música de Sobrevivendo no Inferno podia ser um conto ou um filme. O disco todo é um épico das quebradas, um tanto de Shaft, outro tanto de Ben Hur. Mas eu ainda precisava ouvir aquilo tudo ao vivo.


ilustração de luciano salles para sobrevivendo no inferno

Isso só foi acontecer uns nove anos depois, em 6 de maio de 2007, um domingo, 4 e meia da manhã. Nesse meio tempo, o grupo lançou mais um disco, o duplo Nada Como um Dia Após o Outro Dia [2002], e o DVD Mil Tretas, Mil Trutas [2006]. E músicas do Sobrevivendo, tais como “Capítulo 4, Versículo 3” e “Diário de um detento”, já tinham se tornado hinos populares. Tudo parecia pronto para uma noite histórica na Praça da Sé como parte da programação da Virada Cultural, mas não foi bem o que aconteceu.

Era meu primeiro show do Racionais e quando cheguei na Praça da Sé não demorou muito para sentir que algo ruim aconteceria. De um lado, um bando de moleques nervosos, ansiosos e acordados à base de álcool. Do outro, a boa, velha, violenta e despreparada Polícia Militar do Estado de São Paulo. No meio, um show com uma hora e meia de atraso.

Praça enchendo, enchendo, e eu ali na esquina com a Rua Benjamin Constant, o mais perto que consegui ficar do palco. Então uns moleques sobem na banca de jornal na esquina de cima para verem melhor o show que tinha acabado de começar. Dois, três, sete, dez sobem, e mais querem subir. Alguns decidem pular para a sacada de um prédio comercial e abrem portas e se acotovelam por espaço. Nesse momento um grupo de policiais sai de uma base móvel, passam por mim e se dirigem a banca/prédio para acabar com aquela bagunça. Uns dez, talvez.

Poucos minutos depois o grupo volta carregando um deles aparentemente ferido, atingido por uma pedra ou algo semelhante. Era o sinal que o Choque esperava [queria?] para entrar em ação. Formam então uma parede de escudos e cassetetes batendo, batendo, tum, tum, tum, tum, como a base fatídica de “Tô ouvindo alguém me chamar”. Logo atrás dos escudos alguns policiais começam a atirar bombas de gás e tiros de borracha. Enquanto sobem pela rua do lado da Praça da Sé são recebidos com garrafas de vinho barato voando por todos os lados. 

Paralisei no meio do fogo cruzado e fiquei tentando entender o que acontecia enquanto, atrás de uma árvore, desviava de projéteis de ambos os lados. Lá no palco, show interrompido após 20 minutos, Mano Brown buscava acalmar os ânimos. “Todo mundo tem revolta, eu também tenho. Mas temos que pensar com inteligência”. De nada adiantou e o grupo decidiu encerrar o show de vez, o que acabou deixando o campo ainda mais aberto para confrontos, quebra quebra, carro queimado, gente presa, machucados e gás lacrimogêneo tomando tudo, chegando até as profundezas do metrô.

A profecia se fez como previsto? 

Não. Sempre achei, continuo achando, que as questões religiosas, as citações bíblicas, de Sobrevivendo no Inferno são lidas de forma muito literal. Deus não serve de conforto para quem sabe que Ele tem déficit de atenção seletivo e que a periferia não está entre suas prioridades. Não, não vai rolar Mundo Mágico de Oz e ninguém virá ajudar. 

Mas na periferia a Bíblia é um dos principais e mais acessíveis fornecedores de metáforas, lições, moralidades e imagens. E tem a palavra que, através do coração pragmático do rapper, se transforma em rima. É um jeito diferente de cantar sua própria honra e de colocar em versos que Deus pode até ser a vida, mas o resto é com a gente. Não é fácil, mas é o que é. Pro mal e pro bem.

O show de 2007 não foi o Apocalipse, mas certamente foi o auge da tensão entre, de um lado, a Polícia Militar e o Estado branco que ela defende, e do outro, o Racionais e os muito, muito, muito mais de 50 mil manos e minas. Uma luta que já estava toda dissecada em Sobrevivendo no Inferno.

Resultado prático? Todo mundo seguiu suas vidas, mas o Racionais ficou de fora da Virada Cultura por anos e o rap foi jogado para escanteio na programação.


Mano Brown, 2012

Salto no tempo para outro domingo, meu segundo show do Racionais. Em 19 de maio de 2013, precisamente às 14h40 [20 minutos antes do horário oficial], o quarteto encheu o palco da Júlio Prestes com um bando de parceiros, crianças e o diabo a quatro. Em tudo, por todos os cantos, o clima estava muito diferente daquele show de 6 anos atrás, e olha que a praça estava lotada, 100 mil pessoas, com gente subindo em postes e árvores, janelas de prédios como camarotes. É que a Polícia Militar não estava lá para estragar a festa.

Maduros e relaxados, mas sem ter perdido um miligrama de força no processo, Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay fizeram um show poderoso e conciso [40 minutos, tinha jogo do Santos às 16h, final do Paulistão]. Algumas músicas do Sobrevivendo no Inferno estavam lá com novos clássicos já consolidados no imaginário periférico [“Negro drama” e as duas partes de “Vida loka”) e a composições recentes como “Mil faces de um homem leal [Marighella]”. Tudo cantado a plenos pulmões por uma multidão de punhos cerrados e orgulhosa de se ver cantada de forma tão real. 

Sempre atento, Mano Brown arrumou um tempo para dizer o seguinte: “Todo mundo fala da polícia, do sistema, mas vi vários manos se desrespeitando, se roubando, se saqueando […] O rap precisa de gente de caráter, não de malandragem”. Respeito é pra quem tem, como diria o saudoso Sabotage, e é a palavra, a palavra certa, direta e reta que diferencia os homens dos meninos. 


ao longe, Racionais na Virada de 2013

A fúria negra de Sobrevivendo no Inferno continua tão intensa e necessária quanto antes, e parte dela ainda não se resolveu. Mas esse show da Júlio Prestes foi um sinal cristalino de que aquela raiva de tempos atrás não sumiu e nem pode sumir – afinal, tem muita desigualdade por aí e muita gente que lucra com essa desigualdade –, mas que agora ela convive com a leveza da sabedoria. 

É que a criação desse quarteto paulistano se entranhou profundamente no imaginário/vocabulário de grande parte dos brasileiros, e hoje em dia é tão domínio popular quanto Adoniran Barbosa, Roberto Carlos, Dorival Caymmi e assim por diante. Por outro lado, a violenta grandeza da dobradinha Sobrevivendo no Inferno e Nada Como um Dia Após o Outro Dia na virada do século fez uma sombra muito grande sobre muita gente. Foi preciso tempo e novos MCs e DJs, manos e minas, e de todos os lugares do país, para dissipar tamanha angústia da influência.

Nos últimos anos, por causa desse desprendimento estético e do crescimento econômico, o rap ganhou por aqui mais qualidade, quantidade e variedade [de temas, batidas, tudo]. Ganhou também mais mercado e é, hoje em dia, o gênero musical que dialoga com ferocidade e balanço com o maior número de pessoas dos mais diferentes estratos sócio-econômicos. 

Nesse novo cenário, Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay são os pioneiros, os irmãos mais velhos, os caras mais fodas da música popular brasileira [negra, branca, índia, etc.]. São fundadores, porta vozes, inventores e estão absolutamente tranquilos quanto ao próprio legado e a força que ainda possuem. E mesmo que saibam que o rap brasileiro está amadurecendo em ótimas mãos, eles tem uma missão. Não vão parar. 

Já eu... bem, não faço ideia do tanto que já ouvi Sobrevivendo no Inferno e também perdi a conta de quantas novas audições acompanharam este texto. Mas em todas aprendi mais sobre São Paulo e o Brasil do que jamais pude imaginar. E toda vez que Mano Brown se despede...

Aí ladrão, tô saindo fora. Paz.

... eu respondo: ‘té a próxima!



EPÍLOGO FICCIONAL 

Entre 2003 e 2005 tive uma coluna no Gafieiras chamada “Disco do mês de sempre”, no qual escrevi ficções inspiradas em alguns dos meus discos preferidos; Sobrevivendo no Inferno foi o décimo de um total de quinze e foi publicado originalmente em algum lugar de 2004.

O carro vai rápido pela Marginal e não pára de balançar. Nunca vi um asfalto tão ruim, tanto remendos. Mas agora é noite e o carro voa, o som no talo. Passo por uma ponte. Tem alguém lá em cima segurando uma lança e acho que está de armadura. Brilha de tão prateada. Quase fico cego. Foi rápido, passei, mas ele estava olhando para mim, certeza, de roupas e armas. Queria me acertar, o Jorge... nada vai me fazer parar, nem ele, ninguém. 

Passa outra ponte, ali a última saída, e lá no alto um avião fazendo barulho. Tá descendo. Retorno proibido. Tudo em obras. Perto daqui tinham uns prédios cinzas, janelas pequenas, e muitos homens dentro. Mataram 111. Explodiram os prédios. O rio não quer nem saber, tá morto também, esticado. De vez em quando incha e transborda, mas não é vida, é espasmo.

Aumento o som, queria fugir, só que o piano entra cortando, muito sangue. Uma faca. Queria esquecer. Peguei a Marginal pra isso. Eu sou bem pior do que você tá lendo... todo mundo pro chão, pro chão, tira a mão daí, vai filha da puta, pega o malote, filha da puta, solta, o seguro vai cobrir, solta... se eu sair daqui eu vou mudar. Tô ouvindo alguém me chamar. Era outro carro? Uma moto? Só ouvi o meu nome. Corro demais.

Chega desse rio parado, essa piscina de sangue. Quero a estrada, uma voz de mulher, eu quero mudar, vento na cara, então piso fundo e deixo a última ponte para trás. Mas não resisto e olho pelo retrovisor. Ah, tá lá de novo, o cara da armadura. Seguro a cruz em meu peito e começo a gritar... foda-se seu filha da puta, vem com a lança, vem, eu tenho coração, isso é meu, ninguém tira... ele fica lá, paradão como o rio, e cada vez menor. Estou vivo.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

itaquerão, ida e volta

no emaranhado de conexões e escadas rolantes da luz uma série de placas coloridas mostra o caminho para a arena corinthians, palco de brasil x croácia, o primeiro jogo da copa do mundo de 2014. esse é um dos possíveis caminhos para o estádio e, provavelmente, o melhor. nada de ir de carro e se perder ou pagar os olhos da cara em algum estacionamento distante. nada de pegar a linha vermelha do metrô, a leste-oeste, porque são muitas paradas até chegar à estação corinthians-itaquera. o lance é o expresso leste [linha 11/coral da cptm] que, nos seis dias de jogos em são paulo, fará luz-itaquera sem parar e em apenas 20 minutos.


cheguei fácil à plataforma 4 e nem deu tempo de contemplar a centenária estação da luz porque, em poucos minutos, lá veio o trem. fiz esse caminho de ida e volta ao itaquerão um dia antes da bola começar a rolar e, como era uma quarta-feira como outra qualquer, as paradas no brás e no tatuapé estavam mantidas, o que aumentou a duração do trajeto em uns dez minutos.

tempo mais que o suficiente para acompanhar um casal de cantores evangélicos vendendo e cantando suas músicas [eram 11 e meia da manhã e o vagão tinha poucas pessoas]. o homem, cego, andava de um lado para o outro do vagão com uma pequena caixa de som pendurada no pescoço. a mulher, serelepe, mostrava os cds, vendia e de vez em quando se aproximava de seu marido para cantar partes da música, tais como “disseram pra você: não vai dar certo / passam perto de você e falam: é só mais um / mais um sonhador pelo caminho”. dois passageiros compraram discos.

o casal saiu no brás e foi substituído no vagão por um vendedor de chocolates com camiseta do bayern de munique. “é delícia, é qualidade, é o mais puro chocolate ao leite”, dizia pausadamente com voz de locutor de rádio. dois americanos, que estavam indo para o itaquerão e conversavam sobre assuntos familiares, recusaram. uma menina, jogando animadamente no celular, também. e o vendedor desceu no tatuapé com o saldo de quatro chocolates vendidos.


do tatuapé até itaquera é o trecho mais longo e assim é possível acompanhar mais atentamente o entorno das linhas de trem e metrô. do lado direito, a radial leste e outras avenidas grandes numa curiosa e caótica relação com viadutos que serpenteiam sobre tudo. na parte esquerda, áreas mais residenciais, ruazinhas, muitas com bandeiras do brasil e pinturas no asfalto. faz sentido, porque é da mistura esparramada desses dois lados [e de outros feios e bonitos] que são paulo é feita. então passa carrão, penha, vila esperança e por aí vai.

quando o trem se aproxima de arthur alvim a coisa começa a mudar de figura e do lado direito, em cima de um morro, surge uma série de prédios iguaizinhos e bem pintados, alguns com grafites. é um pedaço do gigantesco conjunto habitacional padre manoel da nóbrega. e tome mais avenidas e viadutos, tudo parecendo recente. então, do nada, aparece a arena corinthians. é o fim da linha para quem for ao estádio [a linha 11/coral segue até mogi das cruzes].


um dia antes do primeiro jogo da copa a estação está eufórica e fervilhando. de um lado, os últimos retoques de tinta [amarela] na passarela que vai até o estádio. do outro, o cotidiano no shopping metrô tatuapé e do poupatempo. no centro de tudo, uma bola de futebol gigante como cenário para dezenas de fotos de brasileiros, hondurenhos, japoneses, equatorianos, americanos e bolivianos [com camisetas do brasil].


mas o que interessa mesmo [nessa grande balada futebolística mundial] está no outro lado da passarela e é para lá que segue o fluxo. e então fotos e mais fotos, principalmente quando parte do estádio aparece no canto direito. uma senhora puxa conversa: “eu vim de francisco morato [a 70 km dali] só pra ver o estádio. não podia passar a copa sem vir aqui, ainda mais que um cunhado meu trabalhou aí. que coisa linda, né? quero vir outras vezes, em todo jogo se possível. trabalho ali na penha, mas quero depois dar uma passadinha aqui”.


é isso, a copa tá [literalmente] logo ali. é no brasil, é em itaquera. não custa dar uma passadinha pra curtir, entender, criticar, conhecer pessoas etc. não é todo dia que oportunidades assim acontecem. a festa e a responsabilidade são nossas. se der tudo certo, a taça também. agora é deixar a bola rolar.

terça-feira, 10 de junho de 2014

o rap, o brasil e vice-verso

esse convite foi uma baita surpresa: colunista convidado da revista da [livraria] cultura, uma publicação que ainda não tinha colaborado. tema livre, mas brasileiro. a minha cara, enfim, rsrsrs. e daí escolhi o rap porque é um dos assuntos que mais me interessa e ainda estava sob o efeito/impacto do show do emicida, thiago frança e rodrigo campos na casa de francisca. o texto também está no site da revista da cultura, mas aqui sempre tem um material extra.



O BRASIL É UM RAP

“Já que o povo gosta de rap / Então o rap é mpb também / Música periférica brasileira tornou-se popular / Deixa o som rolar”. Esses versos lançados um ano atrás pelo paulistano Sombra, numa parceria com o curitibano Projetonave, dizem muito sobre o atual momento do ritmo e poesia brasileiro. Não significa que o rap esteja tocando em rádios ou em programas de auditórios – afinal, isso nem tem mais relação com “sucesso” –, e sim que o gênero saiu da periferia e ganhou de vez o asfalto e baladas de todos os estratos sociais. Mas tem algo maior que isso. 



É que o rap é o gênero musical que melhor tem comentado e explicado as grandes transformações sociais das últimas três décadas no país. Nos anos 1980 e 90 serviu como retrato da profunda desigualdade nacional e consequente violência contra a periferia [e, dessa geração, ninguém melhor, mais afiado e atual que o Racionais MCs].

A partir dos anos 2000, com ascensão econômica de classes mais baixas e mais acesso a educação e informação via internet, novas gerações entraram nas rimas – e dá-lhe Emicida, Criolo, Don L, Amiri, Rincon Sapiência, OQuadro, ConeCrew, Flávio Renegado, Síntese e muitos outros – e outros assuntos foram surgindo. Afinal de contas, as periferias podem e tem mais o que falar: tem amor e bom humor, viagens e machismo, espiritualidade e comércio, política e poesia, festa e sexualidade, pais, mães, filhos e orgulho. 

O sotaque, que era e ainda é majoritariamente paulistano, ganhou outras cores em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Ceará, Pernambuco, Paraná, Brasília, Bahia, Goiás, Pará, Rio Grande do Norte, Paraíba e, claro, em outras cidades de São Paulo. A voz também é mais masculina, porém mulheres como Lurdez da Luz, Negra Li, Karol Conká, Flora Matos e Lívia Cruz vem abrindo caminhos para novos protagonismos.

É muita novidade, e em alta velocidade, e só o rap tem conseguido acompanhar tudo isso, além de ser o mais aberto a se misturar com outros ritmos, gêneros e sonoridades. Bem fácil encontrar no rap brasileiro sons como jazz, samba, funk, soul, forró, repente, reggae, bossa nova, brega e música eletrônica. 

Talvez umas das explicações para esse dinamismo do rap seja sua raiz democrática, pois para ele acontecer basta apenas um sujeito rimando sobre uma base rítmica. Com a internet e a proliferação de instrumentos eletrônicos e novos programas de edição, tudo isso ficou ainda mais acessível. 

Aliado a isso existe uma vontade intensa por comunicação e interação entre o artista e seu público, coisa que outros gêneros musicais foram perdendo por uma razão ou outra: o rock envelheceu mal e virou um ninho conservador, a mpb se fechou no seu castelo de iluminados e o samba, uma das maiores influências ainda hoje para o rap e tudo o mais que for brasileiro, passou a repercutir preconceitos contra outras músicas periféricas (esquecendo o tanto que foi perseguido em seus anos de formação).

Crônica do seu tempo e lugar, o rap “Já salvou muito mais / que várias ONGs banais / Dialogou muito mais / que professores e pais / Projetos sociais / Não seduz marginais / Mas põe um rap pra ouvir / A diferença que faz / Eu sei que é foda / E que tá na moda / Mas quando é pesado e verdadeiro te incomoda” [versos de “O Hip Hop é Foda”, de Rael]. 

A verdade é que tudo se encaixa na nossa rima, principalmente a realidade.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

rap esquema novo

sem medo de adjetivos e afirmações categóricas: emicida, thiago frança e rodrigo campos criaram na casa de francisca um dos melhores, mais intensos, surpreendentes e divertidos shows do brasil, quiçá do mundo. é algo entre gil scott-heron e adoniran barbosa. é o experimentalismo do sax, flauta e pocket piano de thiago com o da guitarra, violão e cavaquinho de rodrigo fazendo cama para a velocidade urgente das rimas de emicida [e que com esse acompanhamento acabaram ganhando novas e surpreendentes densidades junto a um flow mais relaxado]. 


quase no final, antes de um engraçadíssimo momento freestyle que uniu emicida a grupo raça, padeirinho, bezerra da silva e paulinho da viola, thiago frança disse o seguinte: "ó, todo mundo aqui é sambista, viu?". e é a mais pura verdade porque o rap é também uma outra forma de sambar. só que o que aqueles três fizeram na pequenina casa de francisca já está além. tem algo muito novo surgindo desse encontro [idealizado por thiago]. que sorte a nossa.

setlist do show


- “ngoloxi” [thiago frança] / “ubunti fristili” [emicida]
- “crisântemo” [emicida]
- “outras palavras” [emicida]
- “sol de giz de cera” [emicida]
- “ela diz” [emicida]
- “rua augusta” [emicida]
- “fim da cidade” [rodrigo campos]
- “beco” [rodrigo campos]
- “saudosa maloca” e “despejo na favela” [adoniran barbosa]
- “hino vira-lata” [emicida]
- momento freestyle que teve “favela” [padeirinho], “eu sou favela” [noca da portela e sérgio mosca], “eu e ela” [grupo raça], “meu mundo é hoje” [wilson batista e josé batista] e “timoneiro” [paulinho da viola e hermínio bello de carvalho]
- “triunfo” [emicida]

atualização: o programa manos e minas [tv cultura] fez uma matéria sobre o show e a gravação foi justamente nesse dia que fui. 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

sentimentos, naturalmente

fiz o segundo perfil pra revista de bordo da azul numa rara brecha no trabalho na prefeitura. o retratado da vez foi daniel ribeiro, jovem cineasta paulistano que acabou de estrear em longas com o premiado e elogiado hoje eu quero voltar sozinho. ainda não assisti o filme, mas seus dois curtas mostram um diretor-roteirista muito seguro de si e extremamente delicado com seus personagens.


UM CINEMA DE PAIXÕES NATURAIS

Ele não pensava em fazer cinema. Não era bem por aí que imaginava seu futuro. Queria fazer Comunicação, isso sim, e eventualmente trabalhar na TV, “porque [nela] era possível se comunicar mais facilmente com mais gente”. Mas agora, com 2 curtas e 1 longa no currículo, Daniel Ribeiro já pode assumir sem medo que é cineasta.

Uma das provas disso é que as estantes da sala de seu apartamento-escritório perto da Avenida Paulista estão lotadas de prêmios, incluindo os três que recebeu no Festival de Cinema de Berlim: um por seu curta de estreia [Café com Leite, 2007] e dois pelo longa Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014), que estreia neste mês em circuito comercial em 19 cidades brasileiras.


“Sempre achei que esse projeto deveria ser um longa, mas como só tinha um curta no currículo vi que seria impossível conseguir dinheiro pra fazê-lo. Então dirigi um outro curta [Eu Não Quero Voltar Sozinho, 2010] como piloto para conseguir financiamento para este longa”, explicou o paulistano de 32 anos, nascido no Tatuapé, zona leste de São Paulo.

A história de seu segundo curta é a mesma do primeiro longa e gira em torno de Leonardo, um adolescente cego em busca por um lugar no mundo e suas relações de afeto com a melhor amiga (Giovana) e um novo aluno na escola (Gabriel). “No longa não uso a palavra ‘gay’. Ele não se declara ‘gay’ em nenhum momento.  Essa não é a questão. É um filme sobre um garoto se apaixonando pela primeira vez. Se ele fosse hétero o filme não ia ter tanta diferença, mas é claro que o fato dele se apaixonar por outro homem dá outras camadas pro filme”.

Com delicadeza, naturalidade e muito carinho por seus personagens, Daniel Ribeiro coloca uma questão importante no filme: a sexualidade vem de dentro ou de fora? “Tive essa ideia de um protagonista cego porque pensei o seguinte - como acontece o desejo numa pessoa que nunca viu um homem nem uma mulher? Afinal de contas, a sexualidade, bem como o preconceito, estão muito ligados a imagem, né?”

Os questionamentos levantados por Hoje Eu Quero Voltar Sozinho não tem apenas uma resposta. Cada um pode e deve descobrir a sua, mas que o importante mesmo é o respeito por essas diferenças de trajetórias e preferências. É assim que a vida acontece e tem que acontecer. “Quando eu era adolescente, nos anos 1990, parecia que o único gay era eu. Você não via praticamente ninguém no cinema ou na televisão. E os poucos exemplos não eram muito positivos. Eu queria me ver. E percebi que fazer cinema ou televisão era uma forma de criar personagens para adolescentes que, como eu, queriam se ver também”.

Preconceitos, infelizmente, ainda correm soltos por aí, mas a internet e as redes sociais conectaram muitas pessoas e hoje em dia adolescentes gays não se sentem mais isolados. Tanto é verdade que a página do filme no Facebook foi curtida por mais de 160 mil pessoas que interagem muito, contam histórias pessoais, agradecem e torcem por Hoje Eu Quero Voltar Sozinho. “Até poucos meses atrás era eu mesmo que administrava a página, postava fotos do meu celular e tudo. Hoje não dá mais. Pra você ter uma ideia, quando publicamos o cartaz do filme, a imagem teve mais de 5 mil compartilhamentos e alcançou cerca de 1 milhão de pessoas. Mas é tudo muito genuíno por lá, principalmente a vontade de cultivar o diálogo com as pessoas”.

Além do lançamento em circuito comercial no país, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho vai passar o ano viajando por outros festivais de cinema e, por enquanto, Daniel Ribeiro só quer saber de alcançar o maior número de pessoas. “Tenho algumas ideias de projetos futuros, mas a única certeza que tenho é que quero sempre ter personagens gays nos meus filmes, não necessariamente protagonistas. Na verdade, tudo tem que vir de forma natural. É da minha vivência essa naturalidade”. O cinema de Daniel Ribeiro é, acima de tudo, um cinema de sentimentos.


SAIBA MAIS

Cinéfilo desde a adolescência, Daniel Ribeiro gosta especialmente de Woody Allen, François Truffaut, Miranda July, Wong-Kar Wai e Gus Van Sant.

Fã de séries televisivas, o cineasta tem assistido com entusiasmo títulos recentes como House of Cards e Sherlock, mas cita também entre suas preferidas Mad Men, Orange is the New Black, Curb Your Enthusiasm e Seinfeld. Detalhe: foi editor de Tudo o que é Sólido Pode Derreter, série dirigida por Esmir Filho e Rafael Gomes e exibida pela TV Cultura em 2009.

A trilha sonora de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho traz músicas de Belle & Sebastian, Marcelo Camelo, David Bowie, Marvin Gaye, Cícero, The National, Arvo Part e Franz Schubert.

p.s.: e aqui abaixo, o curta 'não quero voltar sozinho' que deu origem ao longa 'hoje eu quero voltar sozinho'.

terça-feira, 8 de abril de 2014

buster keaton em gifs

buster é um dos heróis aqui do esforçado. já apareceu por aqui de diversas formas e até mesmo em gifs [para ilustrar textos do yahoo], mas nunca numa coleção assim especial. é que tava navegando pelo gif movie e achei uns, depois outros no fuck yeah buster keaton e mais outros na própria busca do tumblr. daí juntei nessa historinha aí que tem cenas do curta one week (1920) e dos longas the general (1926) e steamboat bill jr. (1928).



Buster Keaton’s One Week (1920) for orange-ette



Chimney construction with Buster Keaton







domingo, 30 de março de 2014

coleção grandes cagadas da folha

a tal marcha da família 2 que falhou miseravelmente (ufa) na semana passada  - e que descrevi no texto "menor que um rolezinho" - é um dos acontecimentos ligados a efeméride dos 50 anos do GOLPE MILITAR DE 1964. é o importante assunto do momento, com direito a alguns avanços significativos da comissão da verdade, e muitas matérias, reportagens, e novas luzes sobre esse triste (e ainda presente no nosso dia-a-dia) momento da história brasileira (vale muito ver o especial feito no site da ebc). na edição deste domingo da folha rolou um editorial sobre 1964 e... bem... o texto é tão absurdo (política, histórica e moralmente) e tão mal escrito que resolvi comentâ-lo em voz alta. 


ontem e hoje, o pensamento vivo da folha

"O regime militar (1964-1985) tem sido alvo de merecido e generalizado repúdio. A consolidação da democracia, nas últimas três décadas, torna ainda mais notória a violência que a ditadura representou [OLHA SÓ QUE LEGAL].

Violência contra a população, privada do direito elementar ao autogoverno. E violência contra os opositores, perseguidos por mero delito de opinião, quando não presos ilegalmente e torturados, sobretudo no período de combate à guerrilha, entre 1969 e 1974 [É ISSO AÍ, FOLHA. PARABÉNS POR TER CHEGADO A ESSA CONCLUSÃO EM 2014. ANTES TARDE DO QUE NUNCA, NÉ].

Aquela foi uma era de feroz confronto entre dois modelos de sociedade --o socialismo revolucionário e a economia de mercado [SÓ TINHAM DOIS?]. Polarizadas, as forças engajadas em cada lado sabotavam as fórmulas intermediárias e a própria confiança na solução pacífica das divergências, essencial à democracia representativa [NÃO SEI VOCÊS, MAS JUSCELINO E JANGO NÃO ME PARECIAM, E NEM TINHAM INTERESSE, EM POLARIZAÇÃO E NEM DITADURA COMUNISTA. MAS PODE SER IMPRESSÃO MINHA, NÉ?].

A direita e parte dos liberais violaram a ordem constitucional em 1964 e impuseram um governo ilegítimo [MUITO BEM, QUASE UM NOME AOS BOIS, QUE MADURO]. Alegavam fazer uma contrarrevolução, destinada a impedir seus adversários de implantar ditadura ainda pior [“AINDA PIOR”, E A FOLHA COMPROU ISSO, COMPRA ATÉ HOJE PELO JEITO], mas com isso detiveram todo um impulso de mudança e participação social.

Parte da esquerda forçou os limites da legalidade na urgência de realizar, no começo dos anos 60, reformas que tinham muito de demagógico [AO OLHOS DE QUEM CARA PÁLIDA?]. Logo após 1964, quando a ditadura ainda se continha em certas balizas [OLHA A DITABRANDA AÍ, MINHA GENTE, ELA APARECEU], grupos militarizados desencadearam uma luta armada dedicada a instalar, precisamente como eram acusados pelos adversários, uma ditadura comunista no país [É COMPREENSÍVEL QUE OS LIBERAIS DA ÉPOCA TIVESSEM ESSE MEDINHO, MAS HOJE EM DIA ACHAR QUE IRIA ROLAR UMA DITADURA COMUNISTA OU SE É BURRO OU MAL INTENCIONADO].

As responsabilidades pela espiral de violência se distribuem, assim, pelos dois extremos, mas não igualmente: a maior parcela de culpa cabe ao lado que impôs a lei do mais forte, e o pior crime foi cometido por aqueles que fizeram da tortura uma política clandestina de Estado [AH JURA?].

Isso não significa que todas as críticas à ditadura tenham fundamento [AÊ, A DITADURA TEVE UM LADO BOM, SENÃO VEJAMOS...]. Realizações de cunho econômico e estrutural desmentem a noção de um período de estagnação ou retrocesso.

Em 20 anos, a economia cresceu três vezes e meia. O produto nacional per capita mais que dobrou. A infraestrutura de transportes e comunicações se ampliou e se modernizou. A inflação, na maior parte do tempo, manteve-se baixa [O LADO POSITIVO QUE A FOLHA VÊ NA DITADURA FOI UM CRESCIMENTO ECONÔMICO QUE PODERIA TER SIDO MAIOR OU MELHOR DISTRIBUÍDO NUM GOVERNO DEMOCRÁTICO E QUE DO JEITO QUE ACONTECEU, CHEIO DE MAQUIAGENS, SÓ SERVIU PARA ENDIVIDAR O BRASIL POR DÉCADAS. ENTENDI.].

Todas as camadas sociais progrediram, embora de forma desigual, o que acentuou a iniquidade [OPA, NÃO SERÁ PORQUE ESSE CRESCIMENTO ECONÔMICO FOI PARA POUCOS?]. Mesmo assim, um dado social revelador como a taxa de mortalidade infantil a cada mil nascimentos, que era 116 em 1965, caiu a 63 em 1985 (e melhorou cada vez mais até chegar a 15,3 em 2011).

No atendimento às demandas de saúde e educação, contudo, a ditadura ficou aquém de seu desempenho econômico [AH PUXA VIDA, VACILARAM NISSO, FOI? PORQUE SERÁ?].

Sob um aspecto importante, 1964 não marca uma ruptura, mas o prosseguimento de um rumo anterior. Os governos militares consolidaram a política de substituição de importações, via proteção tarifária, que vinha sendo a principal alavanca da industrialização induzida pelo Estado e que permitiu, nos anos 70, instalar a indústria pesada no país [PERAÍ, ENTÃO A FOLHA TÁ COLOCANDO NA CONTA POSITIVA DA DITADURA ALGO QUE JÁ ESTAVA ROLANDO DESDE, POR EXEMPLO, GETÚLIO E JUSCELINO?].

A economia se diversificou e a sociedade não apenas se urbanizou (metade dos brasileiros vivia em cidades em 1964; duas décadas depois, eram mais de 70%) mas também se tornou mais dinâmica e complexa [SEI NÃO, MAS PARECE QUE A FOLHA TÁ QUERENDO DIZER QUE FOI A DITADURA, E SÓ A DITADURA, QUE O FEZ O BRASIL SE URBANIZAR] . Metrópoles cresceram de modo desordenado, ensejando problemas agudos de circulação e segurança.

O regime passou por fases diferentes, desde o surto repressivo do primeiro ano e o interregno moderado [OLHA DITABRANDA, OBA!] que precedeu a ditadura desabrida, brutal, da passagem da década, até uma demorada abertura política, iniciada dez anos antes de sua extinção formal, em 1985.

As crises do petróleo e da dívida externa desencadearam desarranjos na economia, logo traduzidos em perda de apoio, inclusive eleitoral [DÍVIDA EXTERNA? MAS A ECONOMIA NÃO TAVA MÓ BOA? E COMO ASSIM EM PERDA DE APOIO ELEITORAL?! QUE ELEIÇÃO?]. O regime se tornara estreito para uma sociedade que não cabia mais em seus limites [FILHINHO, TODA SOCIEDADE, EM QUALQUER MOMENTO HISTÓRICO, É MAIOR QUE UMA DITADURA. SÓ EM REGIMES DEMOCRÁTICOS SE PODE CHEGAR MAIS OU MENOS PRÓXIMO À COMPLEXIDADE DE UMA SOCIEDADE, AFINAL SOMENTE NUMA DEMOCRACIA TODOS PODEM SER ATORES POLÍTICOS]. Dissolveu-se numa transição negociada da qual a anistia recíproca foi o alicerce [NEGOCIADA ENTRE AS PARTES QUE TINHAM INTERESSE EM QUE NADA FOSSE JULGADO, CLARO ESTEJA].

Às vezes se cobra, desta Folha, ter apoiado a ditadura durante a primeira metade de sua vigência, tornando-se um dos veículos mais críticos na metade seguinte. Não há dúvida de que, aos olhos de hoje, aquele apoio foi um erro [PERAÍ, VAI ROLAR A DESCULPA AGORA, ME ABRAÇA].

Este jornal deveria ter rechaçado toda violência, de ambos os lados, mantendo-se um defensor intransigente da democracia e das liberdades individuais [ISSO, É ISSO AÍ!].

É fácil [OI?], até pusilânime [AH NÃO, LÁ SE FOI A DESCULPA MORRO ABAIXO], porém, condenar agora os responsáveis pelas opções daqueles tempos, exercidas em condições tão mais adversas e angustiosas que as atuais [TAVA PUXADO PRO SEU FRIAS, NÉ?]. Agiram como lhes pareceu melhor ou inevitável naquelas circunstâncias [ACHO QUE O MAIS FÁCIL É FALAR QUE O PESSOAL AGIU DO JEITO QUE DEU PRO MOMENTO. PENSANDO BEM FOLHA, ASSIM DÁ PRA DESCULPAR O NAZISMO, A GUERRA DO VIETNÃ, O KHMER VERMELHO, AS LOUCURAS ASSASSINAS DE STALIN E MAO TESÉ TUNG, ETC.]

Visto em perspectiva, o período foi um longo e doloroso aprendizado para todos os que atuam no espaço público, até atingirem a atual maturidade no respeito comum às regras e na renúncia à violência como forma de lutar por ideias [MAS PERAÍ, SE NÃO ME FALHA A MEMÓRIA NO ANO PASSADO A FOLHA, ESTADÃO, E OUTROS ORGÃOS DE IMPRENSA, DEFENDERAM REPRESSÃO DO GOVERNO – ATRAVÉS DA PM – ÀS MANIFESTAÇÕES DE JUNHO. SERÁ QUE APRENDERAM? SERÁ QUE APRENDEMOS?]. Que continue sendo assim."

aiaiai

quarta-feira, 26 de março de 2014

reiOpixo, o fim

tinha separado mais alguns versos de músicas do roberto carlos e o #reiOpixo poderia seguir tranquilamente por mais umas 20 ou 30 intervenções, mas a verdade é perdi o pique. deu o tempo. e, pensei, poderia muito bem finalizar no 100. mas qual música? tinha que ser alguma muito relevante, sei lá. então passei quase dois meses para achar a resposta – os #reiOpixo 98 e 99 foram feitos em 26 de janeiro, um domingo –, e nem lembro como a ideia surgiu. mas era isso, o que tinha de mais atual relacionado ao roberto era a patacoada da publicidade da friboi que ele protagonizou com a história de voltar a comer carne [e dá-lhe a escolha óbvia, e já utilizada em outras propagandas, de “o portão”]. taí ó...


o #reiOpixo acabou e foi muito bom enquanto durou [sete meses, por aí, com direito a matérias na folha de s. paulo e na revista vida simples]. foi bem divertido escrever na rua, conseguir criar novos diálogos do texto com o espaço, isso sem se repetir nem uma vez [e ainda finalizar na zuera com o grande, falho e sinceramente amado ídolo]. mas os rolezinhos não param... faltam mais alguns vocêpraça [22, para ser mais exato], posso voltar com o “menos mimimi, mais cariri” e o existencialismo leminski, e comecei o “menos mais, mais menos”. e o que mais vier. cidade também serve pra isso.


p.s. 1: muitas pessoas me ajudaram nesse projeto, principalmente dando sugestões de músicas [algumas que não conhecia], e estão devidamente creditadas nas respectivas canções-intervenções lá no tumblr. a todas e todos, agradeço mais uma vez. foram muitas emoções. 

p.s. 2: dois dias depois passei lá novamente [faria lima com pedroso de moraes] e deu uma vontade de "assinar". então tasquei um #reiOpixo. ficou assim.


sexta-feira, 21 de março de 2014

raps, pontes e overdrives

as amigas e colegas de trabalho laíssa barros e renata assumpção tem um site chamado 'era segunda e não tinha sorvete' e pouco tempo atrás me chamaram pra colaborar com uma seleção musical. acabei fazendo uma seleta de raps contemporâneos, de clipes de rap pra ser mais exato, que segue agora também aqui no esforçado.


lurdez da luz em show na casa do mancha

raps, pontes e overdrives

não é de hoje e não é novidade, mas também não custa repetir: o rap é a música mais forte, política, variada, pulsante, inclusiva e com mais cores de todos os gêneros dos últimos tempos (no brasil e no mundo). aqui vai uma uma amostra grátis exclusivamente brasileira – tem gente de são paulo, claro, mas também de fortaleza, rio de janeiro e são josé dos campos – e muito atual.

“doce dose”, don l & leo grijó
“equação”, síntese
“ela é favela”, aláfia & lurdez da luz
“beijo de judas”, kayuá
“caminho”, rael
“quartinho obscuro”, flow mc

quinta-feira, 6 de março de 2014

pra vó dedé,

semana passada, na manhã de 26 de fevereiro, partiu minha querida, muito querida, vó dedé, mãe de meu pai. em 2008 foi a vez de seu marido, o vô zé júlio. entre um e outro partiram meus avós maternos, josias e neném. sem mais avós e avôs, portanto. numa troca de emails entre toda a família muitas de suas histórias e falas impagáveis foram sendo relembradas pra produção de uma espécie de libreto a ser lido e distribuído na missa de sétimo dia. minha contribuição foi o texto que segue abaixo.


tem umas coisas especiais que acontecem na vida da gente. dona dedé aconteceu na minha. que delícia de pessoa, que figura, que coisinha linda. discreta e ácida, carinhosa e determinada, bem humorada e direta, religiosa e nada besta. pequenina também. e minha avó, que baita sorte da porra! [ai, desculpa o palavrão, vó, foi uma ênfase necessária pro tanto de amor].

a vó que planejou me sequestrar pr'eu ser batizado, mas preferiu entregar o pagãozinho pra deus. acho que porque a fazia rir com meus mungangos [caretas]. a vó que me fazia rir e lamber os beiços com uma galinha a cabindela [molho pardo] inesquecível. a vó e seu quintal, o quintal de toda minha infância com suas mangas, goiabas, abacates, brincadeiras, siriguelas, flores de jambo cobrindo o chão, frutas do conde, romãs, limões, cocos ralados, etc.

a vó que me dava capitão que, segundo o dicionário aurélio, é um "bocado de comida que tenha molho [feijão, por exemplo], amassado com farinha, entre os dedos, à moda de bolo, e levado com a mão até a boca". segundo eu mesmo, era o momento sensacional & índio & passarinho no qual ficava em um círculo [junto com prima(os), irmã e irmão] sendo alimentado assim, aos ótimos bocados.

minha vó, coisinha mais linda.

não faz muito tempo percebi que tinha sido ela que, silenciosamente, moldou o humor de toda a família que gerou [6 filhos, 11 netos, 6 bisnetos]. já sabia disso inconscientemente porque tinha certeza que aquela coisinha pequena tava dentro de mim, mas foi ao vê-la já doente, lutando pra manter seu afiado senso de vida e ao mesmo tempo cansada dos 6 anos de viuvez [ô seu zé júlio, saudades viu] e dos muito bem vividos 88 anos, que percebi como uma parte do melhor da gente veio dela.

claro que vai fazer falta. muita. mas ela fez tanta tanta diferença por onde passou, nas pessoas que a conheceram, que não tem essa coisa de fim pra dona maria, dona dedé, dona maria de dedé. ela é pra sempre, né?