sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

50 discos gringos de 2014 [e algo mais]

já rolaram as listas de músicas e discos brasileiros do ano e agora, com alguma demora, segue a de discos gringos. são 50 também e, como sempre, a variedade é grande. tem umas moça daora na lista. veteranas como sharon jones, que acompanhada de sua banda fiel the dap-kings, lançou um disco com altos níveis de balanço e sentimento [give people what they want], e neneh cherry que, sob produção do four tet, retornou solo com blank project, ótimo disco, ao mesmo tempo pop, eletrônico e experimental. e tem novinhas como azealia banks, rapper veloz, elétrica e cheia de saber o que quer, e seu ótimo broke with expensive taste. ainda no rap, vieram ainda excelentes discos novos da chilena ana tijoux [vengo] e da portuguesa capicua [sereia louca], que seguem ampliando o vocabulário do rap, tanto pela língua que versam quanto pelo jeito de ver e pensar sobre as coisas do mundo.

tem instrumentais bacaníssimos. mais jazzísticos como o da molecada do badbadnotgood [III] e o novo encontro do trio medeski, martin & wood com o guitarrista john scofield [juice] ou de sonoridades africanas de várias partes do mundo como a dos holandeses do jungle by night [the hunt], dos alemães do karl hector & the malcouns [unstraight ahead] e do woima collective [frou frou rokko], dos americanos  da budos band [burnt offering], dos ingleses do red snapper [hyena] e do heliocentrics [que acompanham o mestre nigeriano orlando julius no excelente jaiyede afro].

funk afrobeat do togo. não tem como dar errado.

falando em áfrica, o continente que é início, meio e fim do melhor da música mundial, temos na lista também o rapper ganês blitz the ambassador [afropolitan dreams], o sudanês-anglo americano sinkane [e seu belo disco mean love], o blues rock tuareg malinês do tinariwen [emmaar], o gênio nigeriano, e baterista fundamental da banda de fela kuti, tony allen [film of life] e um dos filhos do fela, sean kuti [a long way to the beginning]. outro som da pesada veio da big band congolesa kasai allstars e a mistura de experimentalismos e tradições do disco beware of fetish. fechando o continente, o grupo vaudou game, formado na frança e liderado pelo togonês peter solo, e o sensacional disco apiafo, certamente um dos que mais ouvi esse ano.

capa de ... and then you shoot your cousin
the roots sempre fino. certeza de sons fora de série.

como disse na lista brasileira, o rap tá cada vez mais presente nas minhas audições e é porque é o gênero mais inquieto musicalmente e o mais radicalmente ligado à realidade. já apareceram aqui ana tijoux, capicua e blitz the ambassador, mas o grande manancial continua sendo os estados unidos. tem azealia banks, já mencionada, mas também a ótima dupla atmosphere [que acertaram mais uma vez grandão em southsiders], a dobradinha freddie gibbs & madlib [piñata], o malucão, e um dos integrantes do das racist, kool a.d. [word ok], o supergrupo the roots [...and then you shoot your cousin], os sempre poderosos wu-tang clam [a better tomorrow], o veterano snoop dogg, que não para de produzir e está cada vez melhor [that's my work 5 é seu novo trabalho com tha dogg pound gang], o jovem j. cole [e o surpreendente 2014 forest hills drive], o projeto hail mary mallon, que tem aesop rock como integrante [o sensacional beastiary é o segundo disco deles], a homenagem do produtor shawn lee ao hip hop [golden age against the machine], as rimas muito políticas de bambu [party worker] e, correndo por fora, o ótimo reks [eyes watching god]. enquanto isso, lá do velho mundo, vieram o produtor francês guts [hip hop after all] e o trio escocês-africano young fathers [dead].

leonard cohen. MESTRE.

alguns medalhões também apareceram muito bem em 2014. destaque para o grande leonard cohen e seu lindão popular problems, prince e o balanço de art oficial age, lee ‘scratch’ perry e a renovada magia do dub em back on the controls, o soul que não envelhece de lee fields em emma jean, beck e seu delicado morning phase. um semi medalhão é damon albarn que finalmente, após tantos projetos excelentes pós-blur, assinou pela primeira vez um disco com seu próprio nome [o resultado foi o bonito everyday robots]. 

capa linda de salvadora robot, trabalho mais recente 
dos colombianos do meridian brothers

pra finalizar esses longos [porém breves] comentários sobre os 50 discos escolhidos pela gerência, uma miscelânea de gêneros e lugares. tem a cumbia digital, fascinante e perturbadora, dos colombianos do meridian brothers [salvadora robot], o soul francês, jovem e elegante, de ben l'oncle soul [a coup de reves], o folk eletrônico do australiano chet faker [built on glass], a bossa pop francesa de sébastien tellier [l'aventura], o pop assumido e muito bem feito de pharrell williams [g i r l], o funk global, mas principalmente latino, do produtor norte-americano captain planet [esperanto slang], e uma jovem revelação do soul, o americano curtis harding [soul power]. sem falar em bandas de rock bem estabelecidas e que mantiveram o alto nível, mesmo que o tv on the radio tenha se saído melhor com seeds que o the black keys com turn blue. opa, opa, já ia esquecendo: o retorno triunfal do soulman e ex sex-symbol problemático d’angelo e seu altamente politizado black messiah. é muita coisa boa, minha gente. segue então a lista em ordem alfabética e com links para encontrar os discos.

ana tijoux - vengo
atmosphere - southsiders
azealia banks - broke with expensive taste
bambu - party worker
beck - morning phase
ben l'oncle soul - a coup de reves
blitz the ambassador - afropolitan dreams
capicua - sereia louca
captain planet - esperanto slang
chet faker - built on glass
curtis harding - soul power
d’angelo & the vanguard - black messiah
damon albarn - everyday robots
guts - hip hop after all
hail mary mallon - beastiary
j. cole - 2014 forest hills drive
jungle by night - the hunt
karl hector & the malcouns - unstraight ahead
kasai allstars - beware of fetish 
kool a.d. - word ok
lee ‘scratch’ perry - back on the controls
leonard cohen - popular problems
meridian brothers - salvadora robot
neneh cherry - blank project
pharrell williams - g i r l
prince - art official age
red snapper - hyena
reks - eyes watching god
sébastien tellier - l'aventura
seun kuti & egypt 80 - a long way to the beginning
sharon jones & the dap-kings - give people what they want
shawn lee - golden age against the machine
sinkane - mean love
the black keys - turn blue
the budos band - burnt offering
the roots - ...and then you shoot your cousin
tinariwen - emmaar
tony allen - film of life
vaudou game - apiafo
woima collective - frou frou rokko
wu-tang clama better tomorrow

e quer saber de uma coisa?! tome mais 45! mas agora vão sem links porque daí acaba o ano e eu não publico esse lance, desculpaê rsrs [nossa, ainda falta a lista de músicas gringas! xô correr].

afro latin vintage orchestra - pulsion
big baby gandhi - nhjic
black milk - if there's hell below
blueprint - respect the architect
brian eno & karl hyde - someday world
de la soul - smell the da.i.s.y.
dub colossus - addis to omega
fantasma - eye of the sun EP
fatima - yellow memories
flying lotus - you're dead!
frikstailers - crop circles EP
fujiya and miyagi - artificial sweeteners
ghostface killah - 36 seasons
ginger baker - why
hollie cook - twice
homeboy sandman - hallways
ikebe shakedown - stone by stone
jack white - lazaretto
khun narin - khun narin's electric phin band
king fantastic - the great man theory
le1f - hey
lily allen - sheezus
little dragon - nabuma rubberband
lykke li - i never learn
matisyahu - akeda
melvin van peebles & the heliocentrics - the last transmission
naomi wachira - naomi wachira
people under the stairs - 12 step program
pharoah & the underground - spiral mercury
pharoahe monch - ptsd [post traumatic stress disorder]
rafter - it's reggae
rick ross - mastermind 
run the jewels - run the jewels 2
sbtrkt - wonder where we land
schoolboy q - oxymoron
shabazz palaces - lese majesty
st. vincent - st. vincent
the bad plus - the rite of spring
the cambodian space project - whisky cambodia
the skints - short change EP
the souljazz orchestra - inner fire
thom yorke - tomorrow's modern boxes
tune-yards - nikki nack
we are shining - kara
wiz khalifa - 28 grams

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

pelas marginais os pretos agem como reis

doze anos separam o atual cores e valores do anterior disco de inéditas do racionais mcs, nada como um dia após o outro dia. o que era caudaloso e prolixo no início dos anos 2000, tornou-se sintético, curto e direto nos impressionantes 32 minutos de duração neste trabalho de agora. densos e afiados eles permanecem.

fui ao show de lançamento, neste sábado 20 de dezembro, do cores e valores no grande, feio e com som péssimo espaço das américas. e foi bem interessante ver e ouvir pela primeira vez esses tempos e músicas diferentes do racionais em uma mesma noite. 


mas antes, um flashback rápido... quando li o texto do andré caramante, o primeiro a sair com mais informações sobre o novo disco, pouco antes de seu lançamento oficial em 25 de novembro, bateu uma frustração. pouco mais de meia hora? faixas de dois minutos ou menos? tanto tempo pra tão pouco? e músicas sensacionais como “mulher elétrica” não ganharão registro oficial?

então, na madrugada deste 25 de novembro, enquanto os estados unidos ferviam em chamas por mais um policial branco sendo inocentado pelo assassinato de um negro [sim, ferguson], veio cores e valores. uma, duas audições depois, a frustração virou euforia [quer dizer, ainda sobrou um pouco de frustração, pois quero mais racionais, mais e mais, e não só eu; por sorte teve disco solo do edi rock no ano passado e ano que vem tem solo de mano brown e outro com ice blue e helião; os caras estão produzindo bastante].

euforia porque é um disco poderoso - mesmo que não tenha canções épicas como “negro drama”, “vida loka”, “homem na estrada” e “capítulo 4, versículo 3”- e acredito que vai melhorar com o tempo. principalmente se for o primeiro capítulo de uma série, ou uma nova fase, como disse mano brown em entrevista a rolling stone [“o álbum não acaba ali. ele só pavimenta o caminho para uma nova estrada”]. é também uma mistura veloz de memórias [de mano brown e edi rock, basicamente], ficções [o lado gangsta dos ladrões de banco da capa/contracapa do disco] e crônicas das mudanças sociais e desigualdades permanentes na periferia paulistana da última década.


então, quase um mês após o lançamento, cores e valores chegou pela primeira vez ao palco. apesar do, repito, som péssimo [acústica idem] do espaço das américas, que prejudicou alguns momentos do show [não dava pra entender algumas partes de edi rock], taí um disco que faz muito mais sentido ao vivo, principalmente pela força cênica do racionais.  estavam lá uma fachada de caixa forte de banco como cenário principal, com direito a torres de vigilância e kl jay e outros dois djs [cia e ajamu] no alto da muralha, motos atravessando o palco, uma caçamba, helião, lino crizz, b-boys mascarados e mano brown, ice blue e edi rock, ríspidos e atentos, sempre com muito o que dizer.

toda a primeira parte do show foi de cores e valores - mas acho que não na ordem do disco - e ao vivo as rimas ganham sempre novas camadas. porque racionais mcs é muita informação reunida, muitas imagens criadas, muitos corações machucados por metro quadrado, e os 32 minutos desse disco costuram isso tudo em um roteiro intricado e moderno. ao vivo ganha suor e dramaticidade.


parte considerável do público - estimativa de umas 7 mil pessoas - já sabia algumas letras de cor: “preto zica”, “finado neguim” [tem vídeo logo abaixo], “você me deve” e “quanto vale o show?”, pelo que me lembro. primeira parte foi intensa com aquele ar de expectativa por testemunhar a primeira apresentação de um trabalho novo de um dos maiores grupos da história musical brasileira.

a segunda parte foi de relaxamento, pois vieram os hits e o bicho pegou de vez. “negro drama”, “homem na estrada”, “eu sou 157” e “vida loka [partes 1 e 2]”, por exemplo, colocam todas e todos para cantar junto, alto, e gesticular muito. gente de tudo que é tipo, certamente o público mais variado que vi nos últimos anos em são paulo. claro que tinha quem estava lá pela “balada” ou que se preocupava mais em filmar e se filmar do que assistir ao show, mas no geral rolou uma entrega coletiva.

e olha que, como quase sempre, eles não facilitaram: o show, que foi precedido por pequenas apresentações do obstinados [grupo da zona sul e não de osasco como escrevi antes; valeu cleiton magnum, nos comentários], dexter e negra li, só foi começar depois de 1 da manhã e acabou lá pelas 3, sem mais ônibus, metrô ou trem. também não teve discurso, nada de mano brown, e tirando ice blue que se jogou pra galera no final, não houveram afagos para o público. não importa. eles são como aqueles mestres orientais, rigorosos e poéticos, e podem muito bem dar uma cajadada em nossas cabeças porque certamente sabem de algo que a gente nem desconfia [e talvez nem eles saibam conscientemente]. somos o que somos.


p.s.: ano passado vi racionais na virada cultural e escrevi um texto sobre o classicão sobrevivendo no inferno para o livro indiscotíveis [lote 42], que foi lançado este ano, que acabou com show do disco novo cores e valores e marcou os 25 anos de carreira do grupo. tá pouco de racionais, manda mais.

sábado, 13 de dezembro de 2014

disney batido no açaí

tão mas tão divertido esse curta ‘encantada do brega’, que nada mais é que uma fábula escrachada e musical ambientada no infinito mundo das quebradas e aparelhagens de belém. a princesa é batedora de açaí, o príncipe é dj e por aí vai. e ainda tem participações de keila gentil e will love, da gang do eletro, gaby amarantos e paulo colucci [a aleijada hipócrita da saga de leona vingativa, igualmente paraense e debochada – leona, aliás, aparece rapidamente ao lado de gaby]. vários momentos impagáveis de zuera tipicamente paraense; escolha o seu preferido.


o curta tem página no facebook. curte lá pra saber mais.

atualização: pouco mais de um dia depois que postei o curta, o pessoal da produção disponibilizou a trilha para streaming e download. saca só.



sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

50 discos brasileiros de 2014 [e mais 25]

estamos aí no segundo capítulo da retrospectiva musical deste ano. já publiquei aqui a lista com 50 músicas brasileiras e agora é a vez dos discos. são 50 com uma lista bônus de outros 25. coisa pra diabo, eu sei, mas é só um pedacinho dos sons que chegaram a mim. dessa ruma alguns merecem destaque, pois me pegaram mais de um jeito ou outro. é mais ou menos assim...


pedra de sal - EP que é o primeiro de uma trilogia  - chegou agora no final e me derrubou rapidamente. é trabalho de várias belezas e muitas inquietações, alguma dramáticas, e mais um encontro forte de pernambuco [alessandra leão e rodrigo caçapa] e são paulo [kiko dinucci e guilherme kastrup]. e alessandra detona muito [“pedra de sal”, porra, o que é “pedra de sal”?!]. já o que vim fazer aqui é disco novo da alzira, o que me ganha de cara porque ela é uma das minhas cantoras/intérpretes/autoras preferidas de todos os tempos. daí que nesse disco ela canta só itamar assumpção, algumas inéditas, e com uma banda ótima. não é só impossível dar errado como ainda por cima dá muito certo. falando em itamar, o segundo disco de sua filha anelis assumpção, anelis e os amigos imaginários, é diversão do começo ao fim, é adulto e pop, é urbano e leve. anelis tá fazendo um carreira muito massa.


convoque seu buda, o disco de criolo após nó na orelha, corria muitos riscos comparativos e saiu-se muito bem. não tem o ineditismo da reinvenção do rapper e do encontro com Daniel ganjaman, mas tem alguns novos caminhos próprios e justas coerências, além de várias grandes canções. ainda na seara do rap, cruz do elo da corrente é mais uma prova da maturidade do gênero. ousado musicalmente, brasileiro e paulistano na medula, extremamente bem produzido, cruz é uma bela duma pancada. igualmente impactante, goma-laca é o disco do projeto de biancamaria binazzi e ronaldo evangelista com músicas afro-brasileiras gravadas entre as décadas de 1920 e 1950 e rearranjadas por letieres leite. e tudo fica ainda melhor com a escolha acertadíssima dos(as) intérpretes que, não coincidentemente, estão nessa lista também com seus excelentes trabalhos solo [juçara marçal, russo passapusso e lucas santtana – e tem ainda karina buhr, mas que não lançou disco novo esse ano].


chegamos então a juçara marçal e seu encarnado. uma das mais discretas e poderosas cantoras brasileiras, juçara fez de sua estreia solo um aperfeiçoamento natural do trabalho quem tem feito no metá metá: tradições afro-brasileiras sendo rasgadas por guitarras, por uma interpretação segura e pelo presente musical brasileiro. disco impressionante de uma artista idem. coisa boa é também a estreia solo oficial de moreno veloso, após a trilogia que fez com os amigos domenico e kassin, e é seu trabalho mais doce, mais bonito. já o novo nação zumbi pode não ter a pancadaria de outrora, mas os pernambucanos seguem criando músicas ótimas, honrando e muito as duas décadas do mangue beat/bit.


e o racionais mcs? após mais de uma década sem um cd de inéditas, o quarteto lançou cores e valores, um disco-conceito lotado de referências e histórias, um tantinho frustrante pela curta duração, mas as vozes e posturas dos caras continua muito impressionante. com 25 anos de estrada, o racionais é, sem sombra de dúvida, uma das coisas mais importantes da história da música popular brasileira.


finalizando os destaques, dois baianos. russo passapusso, vocalista do baiana system, lançou seu primeiro solo, o lindo paraíso da miragem, que tem reggae, ragga, balanço e muito o que falar e mostrar. o veterano na inquietude tom zé veio com vira lata na via láctea, seu melhor disco em tempos, principalmente porque seus arranjos diferentes, formações instrumentais variadas , e muitas participações interessantes [de criolo a filarmônica de pasárgada, de milton nascimento a kiko dinucci, de caetano veloso a o terno]. e, claro, um leque e tanto de ótimas músicas.

peraí, peraí... últimos destaques. juro! como disse na lista de músicas, continua rolando muito rap bom pra cacete. racionais, criolo e elo da corrente não me deixam mentir. mas vale ressaltar que tem ainda, nessa lista de 50, amiri, rincon sapiência, lurdez da luz, haikaiss e zulumbi aqui de são paulo, o pessoal do r93 de volta redonda e os gaúchos tuty e orquestra celestial do livre arbítrio. 

bom também quando somos pegos no contrapé. foi muito bom ser surpreendido pelos excelentes discos de adriano cintra [animal], alice caymmi [rainha dos raios], celso sim [tremor essencial], ian ramil [ian] e márcia castro [das coisas que surgem], além da descoberta do niteroiense salgueirinho e seu animalia, um disco eletrônico-instrumental bacaníssimo.

segue então, finalmente, a lista com 50 discos brasileiros deste ano segundo o gosto da casa, tudo devidamente linkado para ouví-los na íntegra [e ocasionalmente baixá-los]:

adriano cintra - animal
alessandra leão - pedra de sal EP
alice caymmi - rainha dos raios
amiri - antes, depois
anelis assumpção - anelis e os amigos imaginários
banda do mar - banda do mar
barbara eugênia & chankas - aurora
celso sim - tremor essencial
china - telemática
elo da corrente - cruz
estrelinski e os paulera - leminskanções
fábio trummer - trummer super sub america
filarmônica de pasárgada - rádio lixão
fino coletivo - massagueira
gilberto gil - gilbertos samba
gustavo galo - asa
ian ramil - ian
isaar - todo calor
juçara marçal - encarnado
lucas santtana - sobre noites e dias
lurdez da luz - gana pelo bang
m.takara - puro osso
márcia castro - das coisas que surgem
maurício pereira - pra onde eu que tava indo
mombojó - alexandre
moreno veloso - coisa boa
nação zumbi - nação zumbi
nina becker - minha dolores
o terno - o terno
orquestra celestial do livre arbítrio - o.c.l.a.
racionais mcs - cores e valores
rincon sapiência - sp gueto br EP
romulo fróes - barulho feio
rubinho jacobina - andando no ar
russo passapusso - paraíso da miragem
sacassaia - boca da terra
salgueirinho - animalia
saulo duarte e a unidade - quente
silva - vista pro mar
superlage - superlage
tatá aeroplano - na loucura e na lucidez
zulumbi - zulumbi

e aqui uma lista bônus com outros 25 trabalhos bem bons e que também deixaram suas marcas por aqui:

a banda dos corações partidos - a banda dos corações partidos
a fase rosa - leveza
afroelectro - mocambo EP
ceumar - silencia
de leve - estalactite EP
esdras nogueira - capivara
giancarlo rufatto - cancioneiro
graveola - dois e meio
holger - holger
inquérito - corpo e alma
jaloo - insight EP
judas - nonada
lamber vision - lamber vision
léo cavalcanti - despertador
naná rizinni - lá na naná
nego e - autorretrato
os the darma lóvers - espaço
pipo pegoraro - mergulhar mergulhei
rashid & kamau - seis sons EP
tássia reis - tássia reis EP

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

50 músicas brasileiras de 2014

virou rotina pessoal reclamar de mim mesmo pela cada vez maior dificuldade de fechar listas certeiras com as melhores músicas [ou discos] do ano. uma das razões é que é, de longe, o “produto” que mais consumo em qualidade e quantidade, e como tem muita música boa sendo lançada, vou fazer o quê?! quero mais é mostrar a variedade do que é produzido e do que ouço. então, sem mais desculpas, começo a retrospectiva musical de 2014 com as 50 melhores músicas brasileiras conforme o gosto e os limites da casa [tem, por exemplo, discos que não emplacaram música e vice-versa].


nesse ano resolvi agrupar em “gêneros”, ou em blocos, como preferirem [e aí sim as músicas estarão em ordem alfabética]. e começo com o rap, que é o que mais tenho ouvido nos últimos anos e o que mais tem empurrado a música popular brasileira pra frente. neste bloco estão duas das melhores músicas do ano, “plano de vôo” e “sobre o infinito e outras coisas”.

mais atentos(as) notarão a ausência dos racionais mcs, mas é que, pra mim pelo menos, o poderoso disco deles é mais um conceito que um conjunto de canções [e, portanto, estará na lista dos melhores discos]. quase todo rap da lista é de são paulo, mas tem porto alegre ali, curitiba acolá, são josé dos campos também, e por aí vai. ah, os blocos estão agrupados em playlists e quando tiver link na música é porque não achei no youtube.

“a marvada”, tuty [com rodrigo ogi]
“antônimos e sinônimos”, rocha
“até o fim sampa”, projetonave [com emicida]
“beijinho”, lurdez da luz
“cypher”, amiri [com léo supremacya e napalm]
“desse jeito”, mercúrias
“essa é pra você”, zulumbi
“neguim di kebra parte 2”, rincon sapiência
“plano de vôo”, criolo [com síntese]
por onde a fonte brota”, orquestra celestial do livre arbítrio
“r & k”, rashid & kamau
“sobre o infinito e outras coisas”, elo da corrente


e tome mais periferia com pancadões e rasteirinhas. nada de funk ostentação, que isso é coisa do passado e tava na cara que o fôlego era curto. mas tem sacanagem e duplo sentido sim, e tem usos muito novos e divertidos da música eletrônica. “patrão”, “passinho do romano” e “perereca suicida” são os destaques.

“patrão”, omulu
“dom dom dom”, mc pedrinho & mc livinho
“na casa do seu zé”, mc britney
“nega bass”, joão brasil
“passinho do romano”, mc dadinho
“perereca suicida”, mc japa


e a mpb? o que fazer com a mpb? ela ainda existe? essa coisa faz sentido? os dois próximos blocos foram divididos por mera formalidade e não existem medalhões da “chamada mpb” em nenhum. quer dizer, nesse tem tom zé, mas tom zé é sempre inquieto e seu cânone é muito pessoal e sempre foge do esperado. seu disco, aliás, é um daqueles difíceis de escolher apenas uma música [mesmo caso de juçara marçal, russo passapusso, anelis assumpção e moreno veloso]. desse bloco, os destaques são “pedra de sal” e “queimando a língua”, coisas lindas e fortes. ah, essa lista mpbística acabou gerando uma mixtape a pedido do hominis canidae/altnewspaper.

“asa”, gustavo galo [com ava rocha]
“casa vazia”, isaar
“filho de santa maria”, estrelinski e os paulera
“inconcluso”, anelis assumpção
meio dia”, filarmônica de pasárgada
“na menina dos meus olhos”, márcia castro [com mayra andrade]
“não acorde o neném”, moreno veloso
“partículas de amor”, lucas santtana
pedra de sal”, alessandra leão
“queimando a língua”, juçara marçal
retrato na praça da sé”, tom zé [com kiko dinucci]
“rosália”, pipo pegoraro
“sem sol”, russo passapusso [com anelis assumpção]
“tupitech”, celso sim
“vozes invisíveis”, graveola


o último bloco é mais rock, mais pop, mais um lance mpb esquema novo, ou não, já que tem carlinhos brown, guilherme arantes, uma instrumental eletrônica e canção com letra em inglês... enfim, tudo uma grande e brasileiríssima confusão. destaques desse bloco vão para “não vai dominar”, “descompasso” e “mais ninguém”.

“bote ao contrário”, o terno
climb the stairs”, barbara eugênia & chankas
“como é que a gente se ajeita”, fino coletivo
“descompasso”, fábio trummer
feio”, naná rizinni
lobo”, salgueirinho
“mais ninguém”, banda do mar
“não vai dominar”, adriano cintra [com guilherme arantes]
“novas auroras”, nação zumbi
o teu calor”, superlage
“onde somos um”, tatá aeroplano [com barbara eugênia]
“padê digital”, sacassaia
trapaça”, holger
“vc, o amor e eu”, carlinhos brown [com quésia luz]
“vou vagar meu bem”, galego
“zonzon”, saulo duarte e a unidade

terça-feira, 4 de novembro de 2014

notas aleatórias sobre um grande show

foi uma grande e longa noite no teatro municipal. a terceira edição do 'casa de francisco em concerto' pareceu uma peça do teatro oficina: cinco horas, dois intervalos, um monte de artistas no palco; só faltou gente pelada.

dividido em 3 partes, o show começou com um bloco levado por benjamin taubkin. foi o mais longo e, pra mim, o único com momentos chatos. ótimas participações de felipe cordeiro com o pai manoel cordeiro, marcelo pretto, pau brasil e mani padmé trio. teve também renato braz, que é um sujeito que me dá vontade de morrer, e alaíde costa que fez uma versão muito falha e só no gogó de villa-lobos. 

o segundo bloco, capitaneado por arrigo barnabé, teve uma cara de vanguarda paulistana. rolaram grandes momentos com cida moreira, zé miguel wisnik, cacá machado, ná ozzetti, celso sim, isca de polícia e maurício pereira com daniel szafran [que lindo foi ouvir "um dia útil" no teatro municipal]. 

o terceiro, mais atual e interessante, veio com kiko dinucci. e lá vieram os amigos romulo froés, rodrigo campos e marcelo cabral [passo torto], thiago frança e juçara marçal [metá metá], a juçara detonando solo, etc. e ainda teve alessandra leão cantando a música mais bonita da noite ["pedra de sal"] junto com rodrigo caçapa e manu maltez. o encerramento épico veio com o trio emicida, rodrigo campos e thiago frança [do espetacular show que já falei aqui] e então o metá metá se juntou.


emicida + metá metá

lá pelo final, antes do metá metá se reunir a emicida, kiko dinucci fez um breve discurso pra casa de francisca e agradeceu a presença do prefeito fernando haddad, que foi muito ovacionado.

ao fim & ao cabo, a noite foi ótima, apesar do cansaço de cinco horas, da confusão de algumas passagens de um artista pro outro, do roteiro também ocasionalmente confuso e da falta de um mestre de cerimônias que apresentasse os músicos e preenchesse os vazios.


uma parte do elenco do show agradecendo ao final

de qualquer forma, vida longa a casa de francisca! que venham novos, grandes e pequenos shows.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

o fotógrafo esforçado

fui fotógrafo profissional por alguns anos e momentos ali pela primeira metade dos anos 2000. o jornalismo, que começou sem querer e ao mesmo tempo, emparelhou, depois tomou a dianteira e foi abrindo vantagem. corpos e corpos de vantagem. até chegar ao ponto d'eu praticamente parar de fotografar, mesmo sem ter mais compromisso algum. as câmeras analógicas quebraram, nenhuma digital apareceu. fiquei uns dois ou três anos assim, olhos embotados, nessa virada dos 2000 pros 2010.

daí algo aconteceu no início de 2012 e tenho que agradecer eternamente ao instagram e a celulares com câmeras melhores [samsungs, no meu caso]: foi uma combinação de plataforma nova e simples, com linguagem similar & quadrada à minha analógica mamiya, a uma boa qualidade de imagem digital [sem falar na rapidez/discrição do celular]. voltei a fotografar regularmente, voltei pra rua a olhar as pessoas e as coisas. um ano depois, com o vcpraça e o começo dos rolezinhos vândalos, o número de fotos aumentou e a relação com a cidade se estreitou ainda mais.



fotografia pra mim é encontro, é relação, e foi bacana, pessoalmente bacana, ver como as minhas fotos analógicas e digitais se falavam com vários anos de diferença. são fotos de cidades. e de pessoas, quase sempre em cidades. é isso que me interessa. mas... tô querendo me explicar demais, né?

tudo isso pra falar que estou abrindo uma lojinha virtual pra vender minhas fotos. acho que tem umas coisas bonitas, né por nada não. são registros de 2012 pra cá, quase sempre em são paulo. cada foto é numerada de 1 a 10, ampliações 25 x 25, assinadas e tal. 100 realetas cada [+ frete pra fora de são paulo]. quando acabar, acabou. quer dizer, depois virão novas fotos, outras séries. vida segue, as fotos também.



dividi as atuais 183 imagens em 9 álbuns no flickr: 'centro de são paulo', 'música', 'coisas', 'bilhete único', 'mais gente por aí', 'viagem', 'arte de rua', 'vandalismo pessoal' e 'tríptico playcenter' [ah, esse tem preço diferente, são ampliações 25 X 78, 300 realetas cada]. então é só dar uma passeada por lá e mandar um email pro dafnesampaio@gmail.com. 

sábado, 30 de agosto de 2014

miniperfis feirantes

quatro feiras-livre, quatro regiões, quatro personagens, uma série de miniperfis que fiz pro feicebuque da prefeitura de são paulo. a ideia partiu da efeméride '100 anos da regularização das feiras na cidade' e, como escrevi pouco esse ano, foi bacana ir pra rua com esse objetivo: falar com pessoas, escrever sobre elas. renata assumpção, que me ajudou a definir as feiras, me acompanhou nas manhãs semi-frias desse final de agosto e talvez pinte um vídeo. beijão pra ela e pra valorosa e divertida equipe das redes sociais da prefeitura de são paulo [no twitter é @prefsp] que traz ainda bia abramo, fábio vanzo, laíssa barros e ana clara ferrari. tá muito massa esse trabalho nosso.


Carminha
Praça Benedito Calixto 
Pinheiros, Zona Oeste

Maria do Carmo de Moura, a Carminha, não gosta muito de conversa. Diz que o trabalho não deixa “tempo pra essas coisas”. E, pensando na sua rotina, ela tem toda razão. Trabalha em cinco feiras por semana há pouco mais de 40 dos seus 74 anos, e acorda todo dia às 3 e meia da manhã em Ermelino Matarazzo, zona leste, para conseguir chegar às 5 e montar sua barraca com ervas, temperos, batatas, cebolas, alhos, palmitos enlatados, tapioca, e assim por diante.

Às terças está com uma filha ou um sobrinho na Praça Benedito Calixto, em Pinheiros, zona oeste, logo em frente ao caminhão de peixes. “Antes de me casar eu trabalhava em casa de família, mas nunca gostei de receber uma vez por mês. Na feira é bom porque mesmo com pouco movimento todo dia tem algum dinheiro”, diz enquanto atende uma cliente que leva quatro cabeças de alho por 5 reais. 

Foi seu marido que a levou por esse caminho de cheiros, barulhos e cores das feiras livres. Por mais de quatro décadas estiveram juntos na lida, mas oito meses atrás ele morreu. “Ele me disse, pouco antes de morrer, que eu não podia ficar parada, nem ficar triste, e que tinha que seguir com a barraca. Foi essa profissão que ele me deixou, né? A gente não pode desistir”, e dá uma limpadinha na mesa onde rala côco, um gesto que parece dizer que o tempo de conversa fiada já deu. 


Adriano
Rua Dr. Gabriel Piza
Santana, Zona Norte

Nascido em Pesqueira, interior de Pernambuco, Adriano mora em São Paulo desde 1989. Veio com a família ainda pequeno e foi conhecendo a cidade pelas feiras livres. Hoje, aos 38 anos, afirma orgulhoso que trabalha como feirante há 20 anos e fez sua vida ao redor das frutas que vende [recentemente comprou, na planta, um apartamento próprio em São Mateus]. Mas sua vida profissional teve início com limões ao lado do pai no Parque Dom Pedro II. Depois passou a trabalhar sozinho e em outras bancas. 

Montou sua própria banca há seis anos e nela vende laranja, morango, caju, pera, manga, maçã e kiwi. “Tudo é interessante na feira. As pessoas, as conversas, um dia é diferente do outro. O ruim é acordar cedo”, e então começa a relatar seu cotidiano que tem início à meia-noite. Como trabalha com frutas frescas precisa acordar essa hora para se abastecer no Mercadão e lá pelas quatro da manhã chegar a uma das cinco feiras que faz semanalmente. 

Geralmente tem ao seu lado sua mulher e um amigo vizinho, mas em feiras livres maiores chama outros ajudantes e também muda as frutas que leva. Adriano entendeu rapidamente as particularidades de algumas regiões da cidade e, por exemplo, na feira que trabalha no Jardim América ele leva mais frutas importadas. “Tem outra diferença... esse pessoal com maior poder aquisitivo é meio cismado e não conversa muito. Às vezes só deixam uma lista e pedem para entregar em casa”, diz enquanto olha para os dois lados da feira em busca de algum possível cliente. “Daqui umas duas horas isso aqui está cheio e aí só gritando mesmo para ser visto. É a disputa da feira, né?”.


Nilton
Rua Irmã Carolina
Belém, Zona Leste

“De pai para filho desde 1950” é o que está escrito nas costas do uniforme de Nilton Rutkowski, 59 anos. Neto de poloneses e morador da Penha, ele foi o único que herdou do pai bucheiro o gosto pela feira livre e pelas carnes vermelhas, frangos e miúdos. Mas além de ser o único, ele também sabe que será o último, pois a filha e o filho, formados e com suas próprias famílias, não manifestaram nenhum interesse pela labuta feirante. 

De uma forma ou de outra, Nilton já está planejando sua aposentadoria pra daqui uns cinco anos. Afinal, montou sua banca própria em 1978 e desde então segue na firme rotina de cinco feiras por semana, todas na zona leste, com o dia começando às 3 da manhã. “No começo a gente trabalhava tanto que não tinha tempo pra pensar, mas hoje a feira está tranquila porque existem mais mercados e as pessoas tem mais acesso a alimentação, então já dá pra descansar”.

Teve uma época, uns dez anos atrás, que tentou sair da feira e virou fornecedor de carnes para feirantes. “Sei vender, não sei cobrar. Aí já viu, né? Não deu certo”, e interrompe uma história que lhe deu dores de cabeça e dívidas para mostrar ao longe uma cliente que vem na sua banca desde os tempos de seu pai. “Eu amo a feira por causa da freguesia. É uma coisa saborosa o contato que a gente tem, as conversas, os amigos”. 


Alexandre
Rua Conceição Veloso
Vila Mariana, Zona Sul

É uma das muitas tradições da centenária feira livre paulistana: onde queres legumes e verduras, tens japonês. É que desde sua chegada ao Brasil, a colônia japonesa criou sua própria rede de circulação de produtos, do cultivo a venda. Alexandre Nakamassu não fugiu a essa regra. Sua família trabalha no ramo há cerca de 50 anos e sempre com vistas a rabanetes, cenouras, nabos, alfaces, rúculas e quetais. Mas nos últimos tempos a responsabilidade ficou com Alexandre, que acorda às 3 da manhã e se manda para bairros como Vila Mariana e Ipiranga [ele faz quatro feiras por semana, todas na Zona Sul]. E depois ainda pega estrada até Suzano para comprar produtos frescos para o dia seguinte. 

“Não gosto de trabalhar [em lugar] fechado. Nunca gostei. Então vou seguir nas feiras até aguentar, afinal sempre trabalhei com isso, com esse contato direto, cada dia diferente do outro”, mas faz questão de deixar claro que sua filha, ainda criança, não seguirá os passos do pai. “Quero que ela estude pra ter uma vida mais tranquila”.

Esse desejo “por uma vida melhor” para a filha também está relacionado com o que vê todos os dias nos seus lugares de trabalho. Aliás, todos os feirantes sabem disso muito bem, pois o movimento nas feiras livres realmente vem caindo nos últimos anos por causa, principalmente, dos supermercados. Mas mesmo assim Alexandre tem certeza que as feiras nunca acabarão. “O atendimento é o diferencial, é personalizado, né? Em um supermercado não tem isso, não tem com que reclamar se a mercadoria não tiver boa. Feira é olho no olho”.

sábado, 2 de agosto de 2014

indiscotíveis: 'sobrevivendo no inferno'

uma dessas surpresas sensacionais da vida. itaici brunetti, colega jornalista com quem trabalhei na revista monet, me convidou em maio do ano passado para fazer parte de um livro ainda sem título sobre grandes discos da música brasileira a ser lançado pela jovem e independente editora lote 42. eu disse que sim claro com certeza. ele me passou uma lista gigante de discos e de cara escolhi sobrevivendo no inferno do racionais mcs. há tempos queria escrever sobre o disco, sobre os shows que vi do grupo na virada cultural, sobre rap, etc. mandei o texto no início de setembro e a vida seguiu.

achei desde o início que seria um livro bacana, mas quando vi indiscotíveis, o prazer foi maior porque ficou muito mais interessante e bonito do que esperava: o projeto gráfico de luciana martins, a ilustração de luciano salles para sobrevivendo, os textos de emicida, rael, arthur de faria, tatá aeroplano, marcelo costa, etc.

indiscotíveis foi lançado no início de julho e teve uma excelente cobertura da imprensa [até dei entrevista ao vivo pra rádio estadão] e ótimas resenhas, o que me deixou ainda mais orgulhoso de fazer parte do projeto.

além de itaici, meus sinceros agradecimentos a joão varella e cecília arbolave da lote 42, e a bia abramo, que leu o texto quando este ainda estava no berço. provavelmente a versão que segue aqui está um pouquinho diferente da impressa, já nem lembro mais. o que importa mesmo é que tem texto aqui e também no livro, que está a venda na loja virtual da lote 42. leia aqui, compre lá e divirta-se.



SOBREVINDO NO INFERNO, 1997
Racionais MCs

Ogunhê! Jorge sentou praça na Cavalaria... Deus fez o mar, as árvore, as criança, o amor; o Homem me deu as favelas, o crack, a trairagem, as arma, as bebida, as puta... Minha intenção é ruim, esvazia o lugar... Tô ouvindo alguém gritar meu nome... Parece que alguém está me carregando perto do chão... Aqui estou, mais um dia, sob o olhar sanguinário do vigia... Este lugar é um pesadelo periférico... Eu me formei suspeito profissional, Bacharel pós-graduado em tomar geral... Aquele moleque sobrevive como manda o dia-a-dia; tá na correria, como vive a maioria... Essa porra é um campo minado; quantas vezes eu pensei em me jogar daqui... As grades nunca vão prender nosso pensamento.



Não lembro onde, nem como, nem quando escutei Sobrevivendo no Inferno pela primeira vez. Sei que foi no comecinho de 1998 – o lançamento oficial aconteceu no final de 1997 -, e que passei semanas e semanas ouvindo o disco de todas as formas possíveis: na ordem original das faixas, aleatoriamente, umas ou outras no repeat, só trechos, etc. Já gostava do Racionais na época, mas os conhecia superficialmente [as básicas “Fim de semana no parque”, “Pânico na Zona Sul” e “Homem na estrada”], bem como o resto do rap brasileiro até então, quase exclusivamente paulistano. 

Quer dizer, Racionais não era novidade [musical] pra mim e eu já conhecia um pouco de São Paulo e da história do rap na cidade, mas nada disso tinha me preparado para Sobrevivendo. Claro, burrice minha, coisa de moleque achar que sabe mais do que realmente sabe.

Uma coisa era o impacto sonoro promovido por KL Jay, outra eram as vozes ásperas de Mano Brown, Ice Blue e Edi Rock, mas foi o discurso desses rapazes latino-americanos apoiados por mais de 50 mil manos que me derrubou. Nunca tinha ouvido, e poucas vezes ouvi posteriormente, tanta raiva na música popular brasileira [que me desculpem os punks] e um olhar tão aguçado e complexo – mesmo que ocasionalmente moralista, sexista e autoritário – diante das raízes e problemas das periferias brasileiras, da nossa eterna casa grande & senzala, da luta diária na periferia. Por causa de tudo disso lembro muito bem da sensação de medo e euforia que tive após as primeiras audições do disco.

Medo do tipo “a casa caiu!”. Essa “mistura de ódio, frustração e dor” por séculos de opressão e violência um dia iria transbordar e chegar às ruas. Aí quero ver branquinho aplaudir. 

Euforia do tipo “que foda!”. A democracia racial e cordial brasileira é uma farsa igualmente secular e somente a raiva e o embate, coisas raras no país, podem desmascará-la. Franco atirador se for necessário.

Orgulho e humilhação, amor e morte, soco na cara. Tudo junto.

Só que raiva pela raiva pode até gerar fagulhas, mas não necessariamente uma explosão. Daí que o mais impressionante no discurso do quarteto é, na verdade, essa energia aliada a uma gigantesca quantidade de imagens criadas em suas rimas, a sofisticação na construção das cenas, as mudanças ágeis e não lineares entre passado, presente e futuro. Cada música de Sobrevivendo no Inferno podia ser um conto ou um filme. O disco todo é um épico das quebradas, um tanto de Shaft, outro tanto de Ben Hur. Mas eu ainda precisava ouvir aquilo tudo ao vivo.


ilustração de luciano salles para sobrevivendo no inferno

Isso só foi acontecer uns nove anos depois, em 6 de maio de 2007, um domingo, 4 e meia da manhã. Nesse meio tempo, o grupo lançou mais um disco, o duplo Nada Como um Dia Após o Outro Dia [2002], e o DVD Mil Tretas, Mil Trutas [2006]. E músicas do Sobrevivendo, tais como “Capítulo 4, Versículo 3” e “Diário de um detento”, já tinham se tornado hinos populares. Tudo parecia pronto para uma noite histórica na Praça da Sé como parte da programação da Virada Cultural, mas não foi bem o que aconteceu.

Era meu primeiro show do Racionais e quando cheguei na Praça da Sé não demorou muito para sentir que algo ruim aconteceria. De um lado, um bando de moleques nervosos, ansiosos e acordados à base de álcool. Do outro, a boa, velha, violenta e despreparada Polícia Militar do Estado de São Paulo. No meio, um show com uma hora e meia de atraso.

Praça enchendo, enchendo, e eu ali na esquina com a Rua Benjamin Constant, o mais perto que consegui ficar do palco. Então uns moleques sobem na banca de jornal na esquina de cima para verem melhor o show que tinha acabado de começar. Dois, três, sete, dez sobem, e mais querem subir. Alguns decidem pular para a sacada de um prédio comercial e abrem portas e se acotovelam por espaço. Nesse momento um grupo de policiais sai de uma base móvel, passam por mim e se dirigem a banca/prédio para acabar com aquela bagunça. Uns dez, talvez.

Poucos minutos depois o grupo volta carregando um deles aparentemente ferido, atingido por uma pedra ou algo semelhante. Era o sinal que o Choque esperava [queria?] para entrar em ação. Formam então uma parede de escudos e cassetetes batendo, batendo, tum, tum, tum, tum, como a base fatídica de “Tô ouvindo alguém me chamar”. Logo atrás dos escudos alguns policiais começam a atirar bombas de gás e tiros de borracha. Enquanto sobem pela rua do lado da Praça da Sé são recebidos com garrafas de vinho barato voando por todos os lados. 

Paralisei no meio do fogo cruzado e fiquei tentando entender o que acontecia enquanto, atrás de uma árvore, desviava de projéteis de ambos os lados. Lá no palco, show interrompido após 20 minutos, Mano Brown buscava acalmar os ânimos. “Todo mundo tem revolta, eu também tenho. Mas temos que pensar com inteligência”. De nada adiantou e o grupo decidiu encerrar o show de vez, o que acabou deixando o campo ainda mais aberto para confrontos, quebra quebra, carro queimado, gente presa, machucados e gás lacrimogêneo tomando tudo, chegando até as profundezas do metrô.

A profecia se fez como previsto? 

Não. Sempre achei, continuo achando, que as questões religiosas, as citações bíblicas, de Sobrevivendo no Inferno são lidas de forma muito literal. Deus não serve de conforto para quem sabe que Ele tem déficit de atenção seletivo e que a periferia não está entre suas prioridades. Não, não vai rolar Mundo Mágico de Oz e ninguém virá ajudar. 

Mas na periferia a Bíblia é um dos principais e mais acessíveis fornecedores de metáforas, lições, moralidades e imagens. E tem a palavra que, através do coração pragmático do rapper, se transforma em rima. É um jeito diferente de cantar sua própria honra e de colocar em versos que Deus pode até ser a vida, mas o resto é com a gente. Não é fácil, mas é o que é. Pro mal e pro bem.

O show de 2007 não foi o Apocalipse, mas certamente foi o auge da tensão entre, de um lado, a Polícia Militar e o Estado branco que ela defende, e do outro, o Racionais e os muito, muito, muito mais de 50 mil manos e minas. Uma luta que já estava toda dissecada em Sobrevivendo no Inferno.

Resultado prático? Todo mundo seguiu suas vidas, mas o Racionais ficou de fora da Virada Cultura por anos e o rap foi jogado para escanteio na programação.


Mano Brown, 2012

Salto no tempo para outro domingo, meu segundo show do Racionais. Em 19 de maio de 2013, precisamente às 14h40 [20 minutos antes do horário oficial], o quarteto encheu o palco da Júlio Prestes com um bando de parceiros, crianças e o diabo a quatro. Em tudo, por todos os cantos, o clima estava muito diferente daquele show de 6 anos atrás, e olha que a praça estava lotada, 100 mil pessoas, com gente subindo em postes e árvores, janelas de prédios como camarotes. É que a Polícia Militar não estava lá para estragar a festa.

Maduros e relaxados, mas sem ter perdido um miligrama de força no processo, Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay fizeram um show poderoso e conciso [40 minutos, tinha jogo do Santos às 16h, final do Paulistão]. Algumas músicas do Sobrevivendo no Inferno estavam lá com novos clássicos já consolidados no imaginário periférico [“Negro drama” e as duas partes de “Vida loka”) e a composições recentes como “Mil faces de um homem leal [Marighella]”. Tudo cantado a plenos pulmões por uma multidão de punhos cerrados e orgulhosa de se ver cantada de forma tão real. 

Sempre atento, Mano Brown arrumou um tempo para dizer o seguinte: “Todo mundo fala da polícia, do sistema, mas vi vários manos se desrespeitando, se roubando, se saqueando […] O rap precisa de gente de caráter, não de malandragem”. Respeito é pra quem tem, como diria o saudoso Sabotage, e é a palavra, a palavra certa, direta e reta que diferencia os homens dos meninos. 


ao longe, Racionais na Virada de 2013

A fúria negra de Sobrevivendo no Inferno continua tão intensa e necessária quanto antes, e parte dela ainda não se resolveu. Mas esse show da Júlio Prestes foi um sinal cristalino de que aquela raiva de tempos atrás não sumiu e nem pode sumir – afinal, tem muita desigualdade por aí e muita gente que lucra com essa desigualdade –, mas que agora ela convive com a leveza da sabedoria. 

É que a criação desse quarteto paulistano se entranhou profundamente no imaginário/vocabulário de grande parte dos brasileiros, e hoje em dia é tão domínio popular quanto Adoniran Barbosa, Roberto Carlos, Dorival Caymmi e assim por diante. Por outro lado, a violenta grandeza da dobradinha Sobrevivendo no Inferno e Nada Como um Dia Após o Outro Dia na virada do século fez uma sombra muito grande sobre muita gente. Foi preciso tempo e novos MCs e DJs, manos e minas, e de todos os lugares do país, para dissipar tamanha angústia da influência.

Nos últimos anos, por causa desse desprendimento estético e do crescimento econômico, o rap ganhou por aqui mais qualidade, quantidade e variedade [de temas, batidas, tudo]. Ganhou também mais mercado e é, hoje em dia, o gênero musical que dialoga com ferocidade e balanço com o maior número de pessoas dos mais diferentes estratos sócio-econômicos. 

Nesse novo cenário, Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay são os pioneiros, os irmãos mais velhos, os caras mais fodas da música popular brasileira [negra, branca, índia, etc.]. São fundadores, porta vozes, inventores e estão absolutamente tranquilos quanto ao próprio legado e a força que ainda possuem. E mesmo que saibam que o rap brasileiro está amadurecendo em ótimas mãos, eles tem uma missão. Não vão parar. 

Já eu... bem, não faço ideia do tanto que já ouvi Sobrevivendo no Inferno e também perdi a conta de quantas novas audições acompanharam este texto. Mas em todas aprendi mais sobre São Paulo e o Brasil do que jamais pude imaginar. E toda vez que Mano Brown se despede...

Aí ladrão, tô saindo fora. Paz.

... eu respondo: ‘té a próxima!



EPÍLOGO FICCIONAL 

Entre 2003 e 2005 tive uma coluna no Gafieiras chamada “Disco do mês de sempre”, no qual escrevi ficções inspiradas em alguns dos meus discos preferidos; Sobrevivendo no Inferno foi o décimo de um total de quinze e foi publicado originalmente em algum lugar de 2004.

O carro vai rápido pela Marginal e não pára de balançar. Nunca vi um asfalto tão ruim, tanto remendos. Mas agora é noite e o carro voa, o som no talo. Passo por uma ponte. Tem alguém lá em cima segurando uma lança e acho que está de armadura. Brilha de tão prateada. Quase fico cego. Foi rápido, passei, mas ele estava olhando para mim, certeza, de roupas e armas. Queria me acertar, o Jorge... nada vai me fazer parar, nem ele, ninguém. 

Passa outra ponte, ali a última saída, e lá no alto um avião fazendo barulho. Tá descendo. Retorno proibido. Tudo em obras. Perto daqui tinham uns prédios cinzas, janelas pequenas, e muitos homens dentro. Mataram 111. Explodiram os prédios. O rio não quer nem saber, tá morto também, esticado. De vez em quando incha e transborda, mas não é vida, é espasmo.

Aumento o som, queria fugir, só que o piano entra cortando, muito sangue. Uma faca. Queria esquecer. Peguei a Marginal pra isso. Eu sou bem pior do que você tá lendo... todo mundo pro chão, pro chão, tira a mão daí, vai filha da puta, pega o malote, filha da puta, solta, o seguro vai cobrir, solta... se eu sair daqui eu vou mudar. Tô ouvindo alguém me chamar. Era outro carro? Uma moto? Só ouvi o meu nome. Corro demais.

Chega desse rio parado, essa piscina de sangue. Quero a estrada, uma voz de mulher, eu quero mudar, vento na cara, então piso fundo e deixo a última ponte para trás. Mas não resisto e olho pelo retrovisor. Ah, tá lá de novo, o cara da armadura. Seguro a cruz em meu peito e começo a gritar... foda-se seu filha da puta, vem com a lança, vem, eu tenho coração, isso é meu, ninguém tira... ele fica lá, paradão como o rio, e cada vez menor. Estou vivo.