sábado, 29 de dezembro de 2018

60 discos brasileiros de 2018

após os discos gringos é a vez do produto interno bruto e esse ano a nacional também está um pouco menor. como sempre destacarei, em blocos, os preferidos pessoais dentre a lista maior de 60 lançamentos.

a criação de canções, essa instituição brasileira, continua muito bem obrigado. de São Paulo vieram Anelis Assumpção com seu Taurina e Maurício Pereira e o Outono no Sudeste. Anelis vem criando com muito tato e discrição uma belíssima carreira, autoral e pop, e Taurina talvez seja o melhor retrato (até agora) do muito que é capaz (o pai Itamar deve estar tão orgulhoso). enquanto isso, Pereira, velho conhecido da casa, segue mestre total da crônica urbana paulistana e de suas cruas delicadezas.



nesse bloco de canções as surpresas vieram do capixaba Juliano Gauche e do pernambucano Mestre Anderson Miguel. Gauche é artista que acompanho faz um tempinho e até já apareceu em listas passadas, mas nunca me pegou de jeito, faltava alguma coisa. Afastamento, que produziu em parceria com Fernando Catatau, é um disco poderoso, romântico, pop e psicodélico. Anderson Miguel, por outro lado, está no registro da música popular tradicional da Zona da Mata pernambucana, mas a produção de Siba, as participações de Juçara Marçal, Beto Villares e Jorge Du Peixe e sua própria juventude (o mestre tem apenas 22 anos!) fazem de Sonorosa uma moderna revisão das próprias raízes.

então vem o rap, o gênero mais inquieto, inclusivo, diverso e punk de todos (tanto aqui quanto no resto do mundo). nessa seara o baiano Baco Exu do Blues está dominando os holofotes e listas do ano com seu Bluesman, disco mais complexo em sonoridades que sua estreia em Esú, mas também com mais autoreferências, o que pode ser um problema no futuro (até quando se sustenta um universo umbigo?). vale também destacar a malandragem mineira de Djonga em O Menino que Queria Ser Deus, a psicodelia futurista de Edgar em Ultrassom (produzido por Pupillo), as jovens misturas do grupo capixaba Solveris em Vida Clássica e a ousadia conceitual e produção esmerada do veterano Marcelo D2 em Amar é Para os Fortes.


foto de João Wainer na capa de Bluesman de Baco Exu do Blues

e tem medalhões também. Caetano convocou os filhos Moreno, Zeca e Tom Veloso para uma série de shows e daí surgiu o belíssimo Ofertório, cujo repertório costura habilmente produções dos filhos com alguns clássicos do pai. tal qual Caetano, Elza Soares continua cercada de outras gerações (mais novas, claro) e interesse afiado no presente, daí que seu mais recente Deus é Mulher pode não ter o peso e a surpresa do antecessor A Mulher do Fim do Mundo, mas Elza tem o que dizer e cantar e muita força em tudo que faz. e não é que Erasmo Carlos fez praticamente o mesmo no belo Amor é Isso. sob produção de Pupillo, o Tremendão se reuniu a outras gerações tanto nas composições quanto em participações [Emicida, Marcelo Camelo, Nando Reis, Marisa Monte, etc], mas todos e todas lidando com o romantismo gigante gentil que é a sua marca. nesse bloco, menção honrosa para o excelente Jah-Van - Djavan Goes Jamaica, produção de BiD e Fernando Nunes que pegou parte do cancioneiro de Djavan e injetou reggaes, skas e dubs com auxílio de figuras como Criolo, Fernanda Abreu, Arnaldo Antunes, Rincon Sapiência, Zeca Baleiro, Black Alien, Ivete Sangalo e Seu Jorge.



da música popular brasileira ao pop propriamente dito é um pulo e aqui vale destacar o finíssimo pagodão eletrônico soul do baiano ÀTTØØXXÁ em Luvbox, o pancadão veloz do Heavy Baile em Carne de Pescoço e as diversas faces do pop brasileiro de Iza em Dona de Mim e Pabblo Vittar em Não Para Não (que mesmo mais estudado e menos espontâneo que o anterior, Vai Passar Mal, é bem acima da média).



chegando ao fim dos destaques, é a hora dos instrumentais. 2018 trouxe mais um disco potente do grupo paulistano Bixiga 70 em Quebra Cabeça, o retorno das experimentações dos pernambucanos d’A Banda de Joseph Tourton em A Banda de Joseph Tourton e a diversão multigênero do projeto The Universal Mauricio Orchestra, que reuniu pela primeira vez uma ruma de Mauricios (tem Mauricio Pereira e Mauricio Fleury, do Bixiga 70, e ainda Mauricio Badê, Mauricio Bussab, Mauricio Tagliari e Mauricio Takara).


fechando com chave de ouro os destaques da lista, dois discos “infantis” muito especiais: Guitarrada para Bebês, uma produção do guitarrista Félix Robatto (La Pupuña e Gaby Amarantos) que refaz hits paraenses em tom doce de caixa de música, e Iaiá e Os Erês, no qual Iara Rennó cria todo um mundo mágico com influências negras e indígenas, participações de Moreno Veloso, Andreia Dias e Luz Marina, e canções feitas em parcerias com crianças.



segue então a lista completa e em ordem alfabética com links para os discos inteiros no Spotify ou YouTube.

A Banda de Joseph Tourton - A Banda de Joseph Tourton
A Banda dos Corações Partidos - Desamor
Alice Caymmi - Alice
André Abujamra - Omindá
Anelis Assumpção - Taurina
Arnaldo Antunes - RSTUVXZ
ÀTTØØXXÁ - Luvbox
Baco Exu do Blues - Bluesman
Bixiga 70 - Quebra Cabeça
BK' - Gigantes
Cacá Machado - Sibilina
Caetano, Moreno, Zeca e Tom Veloso - Ofertório [Ao Vivo]
Café Preto - Oferenda
Carne Doce - Tônus
Cordel do Fogo Encantado - Viagem ao Coração do Sol
Daniel Groove - Levante
Diomedes Chinaski - Comunista Rico
Drik Barbosa - Espelho
Duda Beat - Sinto Muito
Edgar - Ultrassom
Elza Soares - Deus é Mulher
Erasmo Carlos - Amor é Isso
Félix Robatto - Guitarrada para Bebês
Gal Costa - A Pele do Futuro
Gilberto Gil - OKOKOK
Gui Amabis - Miopia
Heavy Baile - Carne de Pescoço
Iara Rennó - Iaiá e Os Erês
Illy - Vôo Longe
Inquérito - Tungstênio
Juliano Gauche - Afastamento
Karol Conká - Ambulante           
Kassin - Relax
Laura Lavieri - Desastre Solar
Luiza Lian - Azul Moderno
Mahmundi - Para Dias Ruins
Marcelo Cabral - Motor
Maria Beraldo - Cavala
Mauricio Pereira - Outono no Sudeste
Mestre Anderson Miguel - Sonorosa
Mundo Livre SA - Dança dos Não Famosos
Pabblo Vittar - Não Para Não
Quartabê - Lição #2: Dorival
Raphão Alaafin - A Gosto
Rodrigo Campos - 9 Sambas
Romulo Fróes - O Disco das Horas
Saulo Duarte - Avante Delírio
SDDS - SDDS
Silva - Brasileiro
Solveris - Vida Clássica
Tatá Aeroplano - Alma de Gato
The Universal Mauricio Orchestra - The Universal Mauricio Orchestra
Totonho e os Cabra - Samba Luzia Gorda
Verônica Ferriani - Aquário
Wado - Precariado

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

60 discos gringos de 2018

neste nono ano de blog e, consequentemente, de retrospectivas musicais, um fator mudou tudo: a chegada da minha filha Tereza. em termos práticos-ouvi muito menos música e demorei mais pra fechar as listas. o tempo agora é outro, afinal de contas. mas uma coisa não mudou. o mundo e o brasil continuam produzindo sons finíssimos, instigantes, inquietos e poderosos. e a retrospectiva musical do esforçado começa com a lista de discos gringos.

tanto lá quanto cá, o rap segue no comando. e assim vieram trabalhos recentes de alguns já conhecidos da casa, tais como Anderson Paak, Bishop Nehru, Vince Staples, Drake e Earl Sweatshirt; minas foda como Princess Nokia, Noname e Leikeli47; além de veteranos como Nas, Eminem, Pusha T, Common [no projeto 'August Greene'] e Kanye West [que no meio de suas loucuras pessoais e políticas, lançou um solo e uma parceria com Kid Cudi]. teve também o casal Beyoncé e Jay-Z assinando como The Carters o primeiro disco em parceria que, mesmo não chegando aos pés de seus recentes trabalhos solo, é recheado de sons interessantes. mas aqui o destaque vai para Dirty Computer de Janelle Monáe e KOD de J. Cole. Janelle criou seu mais sofisticado trabalho conceitual - tem filme, clipes que dialogam entre si e o escambau - e ainda por cima tratando de identidade, gênero, tecnologia e raça [sem falar na influência decisiva de Prince e nas participações de figuras como Brian Wilson e Pharrell]. por outro lado, J. Cole veio com mais um disco de rap pesado e cru, atual e memorialístico [é, digamos assim, o Damn de Kendrick Lamar do ano]. 


janelle monáe e j. cole

claro que tem também sons não ingleses que vão desde as misturas do congolês Baloji até a cumbia digital do argentino Chancha Via Circuito, passando pelo afrobeat via Togo e França do grupo Vaudou Game, o panafricanismo eletrônico do Batuk [que reúne o produtor sulafricano Spoek Mathambo à cantora moçambicana Carla "Manteiga" Fonseca] e a doçura dramática do cancioneiro latinoamericano visto mais uma vez pelos olhos de Natalia Lafourcade. o destaque aqui vai para um disco que certamente estará em todas as melhores listas por aí, El Mal Querer, da espanhola Rosália. com produção do excelente El Guincho, a jovem de Barcelona incorporou flamenco, eletrônica, religiosidade e juventude em fúria.



sempre tem sons instrumentais aqui na casa e este ano trouxe três discos maravilhosos: The Serpent's Mouth do grupo alemão Bacao Rhythm & Steel Band com versões funky tambor de aço para músicas de Mary J. Blige, Dr. Dre, Jackson 5, Mobb Deep e Gang Starr; e Your Queen is a Reptile dos ingleses Sons of Kemet [grupo liderado pelo saxofonista Shabaka Hatchings], um poderoso e nem todo instrumental tratado sobre a cultura feminina negra. mas valem também os discos novos de Kamasi Washington, Sonido Gallo Negro, Hailu Mergia e Idris Ackamoor & The Pyramids.



nesse último bloco os destaques vão para o grande David Byrne e seu American Utopia, disco cheio de camadas e achados; o soul psicodélico e dramático dos ingleses da Magnificent Tape Band e uma da grandes surpresas do ano, o discaço The Subtle Art of Distraction; e uma dose dupla de Damon Albarn, tanto em mais um disco do Gorillaz [The Now Now] quanto no retorno do excelente projeto The Good, The Bad & The Queen e um dos melhores discos de 2018, o dolorido Merrie Land. vale mencionar ainda os trabalhos novos de Sudan Archives e Santigold e o disco cheio do Everything is Recorded, projeto do produtor Richard Russel [e dono do selo XL Recordings] que reuniu gente da pesada como as irmãs Ibeyi, Sampha, Wiki e Kamasi Washington].



segue então a lista completa e em ordem alfabética com links para os discos inteiros no Spotify ou YouTube.

Akua Naru - The Blackest Joy
Ali Shaheed Muhammad & Adrian Younge - The Midnight Hour
AMMAR 808 - Maghreb United
Anderson Paak - Oxnard
August Greene - August Greene
Bacao Rhythm & Steel Band - The Serpent's Mouth
Batuk - Kasi Royalty
Beyoncé & Jay-Z - Everything Is Love
Bishop Nehru - Elevators: Act I & II
Brockhampton - Iridescence
Cat Power - Wanderer
Chancha Via Circuito - Bienaventuranza
Charles Bradley - Black Velvet
Chloe X Halle - The Kids Are Alright
David Byrne - American Utopia
DJ Vadim - Dubcatcher Vol. 3
Drake - Scorpion
Earl Sweatshirt - Some Rap Songs
Eminem - Kamikaze      
Gorillaz - The Now Now
Hailu Mergia - Lala Belu
Idris Ackamoor & The Pyramids - An Angel Fell
J. Cole - KOD
Jack White - Boarding House Reach
Janelle Monáe - Dirty Computer
Justin Timberlake - Man of the Woods
Kamasi Washington - Heaven and Earth
Kanye West - ye
Kanye West & Kid Cudi - Kids See Ghosts
Lee 'Scratch' Perry - The Black Album
Leikeli47 - Acrylic
Leon Bridges - Good Thing
Lily Allen - No Shame
Little Dragon - Lover Chanting EP
Lykke Li - so sad so sexy
Muzi - Afrovision
Nas - Nasir
Natalia Lafourcade - Musas Vol. 2
Neneh Cherry - Broken Politics
Noname - Room 25
Orquestra Akokán - Orquestra Akokán
Princess Nokia - A Girl Cried Red
Pusha T - Daytona
Rosalia - El Mal Querer
Sonido Gallo Negro - Mambo Cósmico
Sons of Kemet - Your Queen is a Reptile
Sudan Archives - Sink EP
The Good, The Bad & The Queen - Merrie Land
The Internet - Hive Mind
The Magnificent Tape Band - The Subtle Art of Distraction
The Mystery of the Bulgarian Voices - BooCheeMish
Thom Yorke - Suspiria
Vaudou Game - Otodi
Vince Staples - FM!
Young Fathers - Cocoa Sugar

sexta-feira, 27 de julho de 2018

ivam, o satyro

já tinha ouvido falar da revista helena, mas nunca tinha visto [fisicamente], muito menos lido e não sabia de onde era, quem fazia, etc. então, em fevereiro deste ano, um amigo virtual, o omar godoy, me chamou no inbox do facebook convidando pra colaborar pra revista [que então soube que era ligada à biblioteca do estado do paraná]. seria uma entrevista, depois virou um perfil, e vários nomes foram cogitados até ele sugerir o ivam cabral, ator, dramaturgo e co-fundador da companhia teatral os satyros.

daí fui, em 13 de março, entrevistar ivam em sua sala na sp escola de teatro e lá se foram bem duas horas de ótima conversa sobre assuntos dos mais variados, desde o nascimento no interior do paraná até os desafios de se fazer teatro autoral. tudo certo. mas não queria fazer um perfil normal e nem falar com outras pessoas para costurar uma reportagem. tempo passando, deadline esticando, rascunhos e rascunhos sendo jogados fora e nada daquele momento 'eureka' acontecer. já estava sem esperanças quando no final de março decidi acompanhar apresentação da peça mais recente do grupo, 'o incrível mundo dos baldios'. então fui lá pro espaço dos satyros na praça roosevelt, em são paulo, e em 1º de abril fui presenteado com um pequeno caos nos bastidores - uma atriz que, presa na estrada, não chegava à tempo da peça - que me deu todo o cenário para o perfil. coisas do acaso.

segue então o texto original - que tá bem próximo da versão que saiu na revista que, aliás, é muito bonita em formato e conteúdo - com algumas fotos minhas [na revista as fotos são do bróder rafael roncato].

ivam cabral no alto da sp escola de teatro, na praça roosevelt

O TEATRO QUE ABRE CAMINHOS

O Domingo de Páscoa parecia um domingo como outro qualquer para Ivam Cabral. O ator, diretor, dramaturgo, compositor, produtor e um dos fundadores do grupo teatral Os Satyros chegou, como de costume, uma hora e meia antes de entrar em cena no Espaço do Satyros Um, em São Paulo. Então, o paranaense da pequenina Ribeirão Claro, maquiou-se, colocou as calças e sapatos de seu figurino de andarilho e, de peito nu, bateu rapidamente o texto. Depois veio camisa, peruca, e estava pronto. Era só mais uma apresentação na temporada da mais nova peça de sua lavra, e 101ª da companhia, ‘O Incrível Mundo dos Baldios’.

Não demorou muito para um celular apitar aqui, outro vibrar acolá e uma preocupação palpável tomar conta do camarim a meia hora de começar a peça. “A Márcia está na altura de Jundiaí e está marcando aqui uma hora pra chegar”, diz uma das atrizes. Aos 55 de idade, Ivam sabe que pra tudo tem um jeito, mas não esconde a surpresa. “Isso nunca me aconteceu em 29 anos de Satyros. Já cancelamos peças por motivo de doença, afinal coisas acontecem, mas nunca porque um ator ou atriz não apareceu”, confidencia sem saber ou entender se o ônibus dela, a atriz Márcia Dailyn, quebrou vindo de Jales, ou se ela conseguiu ir até São José do Rio Preto e pegou carona de lá, ou se ela está vindo de táxi.

Por sorte, a atriz – que foi a primeira trans a se formar bailarina na Escola de Dança do Teatro Municipal de São Paulo – está na última das cinco pequenas histórias de ‘Baldios’, portanto é possível começar a peça e torcer pra que chegue a tempo. Ivam aproveita pra dar uma espiada na entrada do teatro e volta visivelmente frustrado: “Gente, uma catástrofe. Tem seis pessoas”. O final de um feriado prolongado e o tempo chuvoso explica facilmente a baixa presença, mas desde quando a peça estreou, em março, todas as sessões andavam lotadas [média de 70 pessoas por apresentação]. “Hoje é, realmente, um dia de exceções”, suspira.

Hora de uma reunião de emergência e ao redor de Ivam reúnem-se o pessoal da técnica, os outros doze atores e atrizes presentes e Rodolfo Garcia Vázquez, diretor, dramaturgo e co-fundador d’Os Satyros. “Sem a Márcia não tem essa cena final, e sem essa cena a peça não faz sentido”, diz Ivam já pensando em cancelar tudo, enquanto Rodolfo sugere atrasar a peça em meia hora e explicar a situação para o pessoal que já comprou ingresso. Se não quiserem esperar, o dinheiro será devolvido. A saída proposta por Rodolfo ganha e ele mesmo vai até a entrada do teatro fazer a proposta. Tudo certo. Não só topam como dizem que assim ganham mais tempo para outras cervejas e que talvez uns amigos consigam chegar. Mais meia hora, então. 

“O que a gente buscava e o que busca até hoje é fazer do Satyros um espaço libertário. Por exemplo, questões de gênero, imigrantes e refugiados, representatividade, periferia, transexuais, tudo isso a gente trabalha no Satyros desde sempre”.  E isso acontece desde que Ivam chegou a São Paulo, no início de 1989, e poucas semanas depois conheceu Rodolfo nos corredores da Escola de Comunicações e Artes, na USP. No 1º de abril daquele ano fundaram Os Satyros e no semestre seguinte estrearam a primeira peça do grupo.

Ivam trazia na bagagem uma infância repleta de literatura no seio familiar [cortesia da mãe, costureira e evangélica, que comprava romances e poesias de vendedoras ambulantes que passavam por Ribeirão Claro], uma adolescência com a descoberta da comunhão pública via música e teatro [cortesia da igreja que ficava a uma quadra da casa] e um início de vida adulta na corda bamba entre o pragmatismo [prestou Administração de Empresas e trabalhou no falecido Banestado] e o risco [largou Administração e foi para Artes Cênicas na PUC, em Curitiba]. 





“Não pensava em fazer teatro especificamente. Sabia que talvez pudesse circular entre música, teatro e literatura, mas sem ser uma coisa ou outra. Mais tarde, quando cheguei a São Paulo, meu sonho – e tenho depoimentos da época pra mostrar que não foi algo que falei depois – era ter um grupo de teatro que fosse importante, que contribuísse, que dialogasse com seu tempo e que indicasse novos caminhos. Nunca pensei em TV, em fama, em Globo”.  

De 1989 até agora, uma centena de peças depois, Ivam Cabral e Os Satyros receberam mais de 40 prêmios, participaram de inúmeros festivais nacionais e internacionais de teatro, criaram um festival próprio [Satyrianas], produziram um filme [‘A Filosofia na Alcova’] e encararam turnês por países como Alemanha, Estados Unidos, Inglaterra, Portugal, França, Espanha, Cuba e Ucrânia [foram a primeira companhia ocidental a se apresentarem no país após a queda do Muro de Berlim]. Também levaram aos palcos textos de Alfred Jarry, Heiner Muller, Gil Vicente, Goethe, Shakespeare, August Strindberg, Oscar Wilde, Nelson Rodrigues, Vange Leonel e, acima de tudo, Marquês de Sade. Mas desde que fincaram bandeira, em 2000, na lendária e paulistaníssima Praça Roosevelt, o grupo vem montado cada vez mais textos próprios, como é o caso de ‘O Incrível Mundo dos Baldios’.

“Somos uma espécie de Ogun, o cara que vai à frente, abrindo caminhos. Acho essa imagem do Ogum muito bonita. E acho que a função do artista é essa, né? Arte está aí pra causar estranhamento, pra fazer com que você não tenha certeza das coisas. Eu existo pra te confundir. Arte é isso”. Ivam olha o relógio e faltam quinze minutos para a peça começar, o que significa que é a hora da roda, aquele momento no qual toda trupe se energiza antes de entrar em cena.

Formam um círculo, dão-se as mãos e, antes de qualquer coisa, alguns recados são dados. Márcia ainda não chegou e pode ser que não consiga, prepararem-se portanto para algum improviso. Então, uma música começa a sair dos alto-falantes e parte do elenco começa a cantarolar baixinho, balançando o corpo de um lado para o outro. “Entra na minha casa / Entra na minha vida / Mexe com minha estrutura / Sara todas as feridas”, e cantam uma, duas vezes, cada vez mais alto, cada vez abrindo mais o sorriso. E a música acaba e todos gritam “Merda!”.



“Cada peça tem uma roda diferente. Por exemplo, essa música [‘Faz um milagre em mim’, pagode gospel de Regis Danese] aparece no final de ‘Baldios’, justamente na cena da Márcia. Ela é uma cantora que está prestes a fazer seu primeiro show com um cachê mais alto e erra o caminho, desce no ponto de ônibus numa quebrada, e encontra um casal de irmãos adventistas. Tudo isso em um 31 de dezembro. Aí, de uma forma bem natural, começamos a cantar essa música na roda”.

Todas as histórias de ‘Baldios’, todos os encontros de personagens, acontecem em um 31 de dezembro. E não é por acaso. “No final do ano passado fui pra Ushuaia, no fim do mundo. Era um lugar que eu queria conhecer. Pensei: é um lugar que me vai dar paz. É um dos lugares mais bonitos do mundo e eu não suportei. Não aguentei ficar lá. Claro que tinha a ver com meu irmão porque a gente viajava muito [um dos cinco irmãos de Ivam morreu em novembro do ano passado de câncer]. Enfim, foi horrível. Passei o dia 31 tentando sair de lá – vou ficar pagando cartão de crédito o resto da vida –, mas consegui e às 11 da noite estava chegando a Buenos Aires. Passei a meia noite em um hotel qualquer. Aí bateu aquela coisa, o mundo não tá nem aí pra mim. Quando você pensa que você é o centro, que a sua dor é o centro, quem é você, cara?! Que significa essa dor perto de tudo isso, dessa imensidão? Você não é nada.”


ivam e o fotógrafo rafael roncato


Essas questões existenciais de Ivam aliadas a uma permanente reflexão sobre espaços públicos como a vizinha Praça Roosevelt deram origem a ‘Baldios’. Afinal, como o próprio Ivam gosta de contar, a palavra ‘baldios’ tem dois significados muito distintos: no Brasil é algo inútil, sem proveito, abandonado; já em Portugal são terrenos comunitários, espaços de convívio, encontro. 

Quando Os Satyros chegaram à praça em 2000 encontraram abandono do poder público e antes mesmo de uma longa reforma mudar a cara do espaço, a trupe começou a acolher e dar trabalho a minorias que por ali vagavam, de ex-presidiários a adolescentes carentes da periferia, de travestis a traficantes. Esses encontros transformaram e enriqueceram a dramaturgia do grupo, enquanto os arredores da praça iam ganhando novas cores, bares e companhias teatrais como os Parlapatões. 

Todo esse renascimento da Roosevelt culminou na criação, em 2010, da SP Escola de Teatro. “É a maior escola de teatro da América Latina”, diz Ivam, sem esconder o orgulho de ser o responsável por reunir os colegas vizinhos em um projeto gratuito bancado pelo Governo do Estado de São Paulo que forma artistas em oito áreas [Atuação, Cenografia e Figurino, Direção, Dramaturgia, Humor, Iluminação, Sonoplastia e Técnicas de Palco]. “A criação dessa escola é a prova que nosso projeto de acolhimento deu certo e que dá pra sobreviver de teatro. Isso é possível aqui”.

Alguém avisa que Márcia já está na Marginal [Pinheiros ou Tietê, não sabem ao certo] e que, na verdade, está vindo de táxi do interior de São Paulo. Não tinha nada de ônibus quebrado. Ivam respira aliviado com a primeira notícia, ainda mais porque é chegada a hora de entrar em cena e o público pagante melhorou um pouquinho, de seis para treze. Mas essa história de vir de táxi do interior...

“Todos somos responsáveis por abrir, fechar ou indicar caminhos. Na poesia eu digo que não temos saída, que fracassamos enquanto humanidade, porque é preciso ter incertezas para se construir juntos. Mas sou otimista pra caramba, acredito muito no ser humano e nosso trabalho é um espelho disso também”. As cinco histórias/encontros de ‘Baldios’ são, efetivamente, um espelho dessa dialética d’Os Satyros, às vezes melancólica e noutras bem humorada.

Na costura humana de ‘O Incrível Mundo dos Baldios’, Ivam e Rodolfo reúnem um palhaço idoso e uma voluntária com seus próprios fantasmas, dois amigos buscando enriquecer rapidamente na quebrada, uma refugiada síria e um adolescente perdido, uma advogada em busca de uma morte digna acompanhada por seu melhor amigo e uma médica e, por fim, uma cantora e um casal de irmãos adventistas. Nessa hora, Márcia, que interpreta a cantora, entra em cena gritando –  “Tô chegando! Tô chegando!” – e toda a trupe ri, aliviada.


ivam e a torre da igreja da consolação, na praça roosevelt

Ivam, que interpreta um andarilho que “busca atender as promessas de pessoas que esperam por milagres para suas vidas” e costura todas as histórias, não perde a deixa e, em cena, manda um recado para sua atriz/personagem: “Ela vai ter que trabalhar muito para pagar os 1600 reais do taxista”. Gargalhada geral.

Tantos sustos depois, o Domingo de Páscoa de Ivam Cabral chega ao fim alimentado por aplausos de pé. “O que eu deixei de falar numa peça eu falo em outra. Esse processo de permanente construção que o teatro proporciona é o mais legal. E no Satyros eu posso tudo”.

domingo, 22 de abril de 2018

ao mestre, com carinho

quando fiquei sabendo da morte do grande nelson pereira do santos, aos bem vividos 89 anos, fui procurar o registro do meu único encontro com ele: uma entrevista para a revista monet em algum momento de 2007 com a deixa da estreia do bastante irregular brasília 18% no canal brasil. estranhamente ainda não tinha colocado aqui no blog, então agora segue o registro da minha conversa com essa pessoa simples, revolucionária, doce e atenta [e autor de clássicos como rio zona norte, rio 40 graus, vidas secas e boca de ouro].

brasília 18% acabaria sendo seu último filme ficcional e de lá pra cá dirigiu apenas três documentários: português, a língua do brasil [2009], a música segundo tom jobim [2012] e a luz do tom [2012], todos citados nessa entrevista.


nelson. pereira. dos santos.

MESTRE É MESTRE

Era um dia da semana como outro qualquer e o Centro do Rio de Janeiro fervilhava sob um céu azul de cartão postal. No labirinto de suas ruas estreitas um cineasta de espírito jovem, mas que no ano que vem completa 80 anos, trabalha sem parar. Nelson Pereira dos Santos é seu nome. Presente no cinema brasileiro desde o final da década de 1940, o paulistano de alma carioca traz em sua bagagem filmes inesquecíveis como Rio Zona Norte, Vidas Secas e Memórias do Cárcere, além de um olhar ao mesmo tempo doce e crítico em relação à realidade nacional. Em 2006, o diretor e roteirista lançou Brasília 18% nos cinemas após uma década produzindo exclusivamente documentários. Sua volta à ficção, uma das estreias do mês no Canal Brasil, é um misto de drama político e história de amor torta ambientada nos labirintos de Brasília com direito a congressistas envolvidos em tramóias, orgias e assassinatos. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência e o cineasta sabe disso há tempos. Leia a seguir a entrevista com Nelson Pereira dos Santos, que além de mestre da sétima arte é, desde 2006, um imortal da Academia Brasileira de Letras [ocupa a cadeira 7 que originalmente foi de um de seus maiores ídolos, Castro Alves].


Carlos Alberto Ricceli e Malu Mader em cena de Brasília 18%


O que é Brasília pra você? Você lembra da primeira vez que foi lá?
Lembro, claro. Eu trabalhava pro Jornal do Brasil na época e fui numa excursão com jornalistas. Vi Brasília, a Esplanada dos Ministérios, aquela terra vermelha e os edifícios todos ainda no esqueleto. Sempre fui fã de tudo que é novidade, então quando surgiu essa história de fazer uma nova capital achei ótimo. Era jovem e acreditei, como muita gente. Depois fui pra Brasília em 1965 trabalhar na UnB e ajudei a montar a primeira faculdade de cinema em uma universidade pública no Brasil. Mas essa história não durou muito e no mesmo ano alguns professores foram demitidos pelos militares e o restante pediu demissão em solidariedade, inclusive eu. Voltei à cidade em 1991 quando foi criado o Polo de Cinema de Brasília, eu era um dos conselheiros, e também por lá, mais ou menos na mesma época, filmei algumas partes de A Terceira Margem do Rio. Tenho uma relação com Brasília desde o começo.

Imagino então que você tenha acumulado um monte de histórias de bastidores da cidade durante todo esse tempo.
Pois é, quem conhece a vida política de Brasília vai lembrar de acontecimentos reais e que no filme parecem ficção. Mas tem outra coisa que é bom lembrar. Essa Brasília do filme é a Brasília da cúpula, do plano piloto, dos que têm acesso ao poder. Não é a Brasília do cidadão comum. É outra cultura.

Como surgiu a ideia de dar nomes de escritores aos personagens do filme?
Na hora de fazer o roteiro, de escrever a história, a gente precisa dar algum nome aos personagens. Aí eu coloco o que primeiro vier na cabeça, depois mudo. Ou então coloco o primeiro nome do ator. Na época, não sei por que, tinha um Olavo Bilac na minha escrivaninha. Depois veio o Gonçalves Dias. E assim foi. Quando acabei o roteiro mandei para alguns amigos. O que foi comum a todas as observações foi essa história dos nomes. Achavam que o público não ia entender. Mas tinha certeza que isso poderia ser interessante, afinal são nomes de pessoas que deram contribuições importantes no plano da arte, da literatura, e esses nomes estão agora em um terreno de absoluta decadência. São grandes nomes em pessoas mesquinhas.

Antes do Brasília 18% você ficou durante dez anos fazendo exclusivamente documentários. Foi uma opção tua? É mais tranquilo fazer documentários do que ficção?
Eu tinha um projeto de ficção muito ambicioso. Era uma reconstituição do Brasil Império e da vida do escritor Castro Alves. Comecei a captação, mas o projeto estava muito caro. Então fui convidado a fazer um documentário sobre o centenário do Gilberto Freyre e joguei tudo que tinha sido investido no Castro Alves para Casa Grande & Senzala, que acabou virando uma série em quatro episódios de uma hora cada. Trabalhei pra dedéu nisso entre 1999 e 2003. Depois apareceu o centenário do Sérgio Buarque de Hollanda [Raízes do Brasil, de 2004]. Mas esta sua observação é válida porque, realmente, em um documentário, você trabalha em cima de fatos históricos comprovados e com uma equipe menor. É mais íntimo e mais barato.

Mas você estava com saudades de fazer ficção?
Ah, sim. Mas houve estranhamentos. Que depois superei, claro. O número de técnicos na equipe aumentou [risos]. É uma subdivisão muito grande, um monte de assistentes. Facilita por um lado, ainda mais com a alta qualidade dos profissionais de hoje. É que não tinha ideia de como pilotar um bonde deste tamanho [risos]. Mas a gente vai aprendendo, né?

E como estão os novos projetos?
Acabei de fazer um filme na Academia Brasileira de Letras intitulado Português, a Língua do Brasil, no qual os acadêmicos falam sobre o português falado no Brasil. E já tenho esquematizada a produção de um documentário sobre o Tom Jobim que será feito no mesmo esquema do Sérgio Buarque de Hollanda. Um filme será um retrato afetivo e o outro será sobre a obra. Quero ver se consigo começar a filmar em setembro para lançar no ano que vem.

Algo mudou em teu prazer de filmar nestes mais de 50 anos de carreira?
Olha, sempre me sinto à vontade quando estou em um set e o momento de filmar é como estivesse de férias. Estou fazendo o que quero fazer. Por exemplo, esse filme que fiz na Academia Brasileira de Letras não tinha roteiro. Tive a ideia e fui filmando. Mas é uma sorte contar com um elenco como esse porque os acadêmicos falam super bem e as opiniões são brilhantes. Tem momentos maravilhosos. Olha aí eu vendendo o peixe de outro filme [risos]. Mas imagine o Sérgio Paulo Rouanet falando sobre o uso da língua ou então o Ariano Suassuna recitando um sermão do Padre Antônio Vieira. E o João Ubaldo Ribeiro, a Nelida Piñon... olha, não percam este filme [risos]! E tudo pelo prazer de filmar. Mas preciso começar a pensar na hora de me aposentar, principalmente agora que tenho um bom lugar para ficar que é a Academia. Tem muita coisa para fazer lá, muito livro para ler. E é preciso de saúde para fazer cinema. Mas também, pensando no Manoel de Oliveira que está com 98 anos e continua filmando, tenho ainda alguma esperança [risos].

domingo, 18 de fevereiro de 2018

tempestade, ímpeto e coceira no hímen

foi em outubro do ano passado que conversei durante pouco mais de duas horas com a poeta e tradutora angélica freitas. a entrevista está agora nas bancas na revista conhecimento prático - literatura, da editora escala, e tudo começou com um convite do lucas de sena lima que me chamou para tocar uma grande entrevista para essa edição - algo que daria umas seis páginas. fomos pensando em nomes atuais, e várias possibilidades interessantes surgiram, mas angélica freitas logo se destacou. lembro que alguns poucos anos atrás li um útero é do tamanho de um punho e fiquei muito impressionado com a força, a leveza e o humor dos versos da gaúcha. pessoalmente, angélica é mais séria e tímida. e a entrevista, que segue aqui na íntegra, caminha lindamente por esse dois polos.


VALE A PENA SER POETA

O que é poesia? Do que se alimenta? Como se reproduz? A premiada poeta Angélica Freitas respondeu essas e outras perguntas em uma conversa longa, sem rimas ou métrica
  
Um liquidificador fazendo sucos de laranja. Louças batendo umas nas outras empilhadas na pia e, posteriormente, sendo lavadas. Colherinhas mexendo cafés. Algumas notificações de celular. O plim plim da Sessão da Tarde a exibir, vejam só vocês, ‘O Diário da Princesa’. Esses foram alguns dos sons que acompanharam as duas horas de conversa com a poeta e tradutora Angélica Freitas em uma padaria perto de sua casa, no bairro paulistano da Água Branca.

Com apenas dois livros publicados – Rilke Shake é de 2007 e o premiado um útero é do tamanho de um punho é de 2013 e ganhou nova edição pela Cia. das Letras em 2017 –, a gaúcha de Pelotas é uma das mais festejadas autoras da atual safra literária nacional e já prepara seu terceiro livro de poesias. Tímida, 44 anos e fascinada por mecanismos de busca na internet, Angélica Freitas passou toda entrevista acompanhada de uma garrafa de água com gás e um café coado médio com um pouquinho de água que ela não tomou até o fim.


ilustração da capa da nova edição de 
um útero é do tamanho de um punho

Você fez e faz muita coisa. Poeta, tradutora, jornalista, dá oficinas... dessas coisas todas e de outras mais, o que você é agora?
Eu escrevo poesia, mas esse ato de escrever poesia não é uma coisa que me sustente economicamente. Antes estava em Pelotas, morava em um apartamento que é da minha família, então não tinha muitos gastos. Mas aqui em São Paulo desempenho algumas funções: dou oficinas de poesia, laboratórios na verdade, porque gosto da ideia de experimentação, e traduzo também, do inglês e do espanhol. Agora, por exemplo, estou em um projeto longo de tradução dos diários da Virginia Woolf pra Editora Rocco e vou começar um de quadrinhos pra Editora Todavia. Participo também de debates no Sesc, circuitos de literatura e encontros literários, e isso também é uma fonte de renda pra muita gente que escreve. Então tenho meu trabalho de criação em poesia e esses outros que me dão o ganha pão. Não vivo de poesia, mas vivo de literatura.

Como é dar oficinas de poesia? Você fala sobre como escrever poesia ou como traduzir o mundo em poesia? Qual é a tua abordagem?
Entendo poesia como uma forma de investigação. Também é possível fazer isso em prosa na forma de ensaio, investigando e aprofundando um assunto. Mas acho que a poesia te dá mais liberdade de experimentar a linguagem do que em um texto em prosa, que é mais pensada pra comunicar. Na poesia você ao mesmo tempo investiga o mundo e investiga a linguagem.

E o que é poesia?
É muito difícil definir poesia. O que a poesia tem? Poesia tem métrica. Mas também é possível escrever um texto em prosa metrificado. Poesia tem rima. Mas também posso escrever um texto em prosa rimado. O Marcelino Freire, por exemplo, faz muito isso. Acaba virando uma coisa meio tautológica: poesia é aquilo que funciona como poesia. Tem certo mistério nisso. Existem várias definições de poesia que podem ser válidas e que tu pode concordar com elas em um determinado período da tua vida. O [Paulo] Leminski, no primeiro poema do livro ‘La Vien em Close’, lista uma série de definições clássicas que vão desde Ezra Pound a Fernando Pessoa e encerra com uma dele próprio, “Poesia é a liberdade da minha linguagem”. Sempre gostei dessa ideia, mas recentemente me dei conta que essas definições são muito eurocêntricas e que não tem de nenhuma mulher. Então, quando a gente fala de poesia a gente tá falando de qual? Nos laboratórios que faço quero pegar leve. Não quero impor nenhuma ideia de poesia. Muito pelo contrário. Faço as pessoas verem que as pessoas tem que pensar nisso como uma prática de escrita. É como tocar um instrumento ou desenhar, tem que praticar. Minha função como pessoa que dá laboratórios é incentivar pessoas a escreverem pra tentar achar o seu caminho. É bem aberto, bem livre e bem horizontal.

E o que você aprendeu com essas oficinas?
É um frescor renovado porque tenho que ouvir os poemas e pensar poesia com eles, então é algo que me atualiza constantemente. É uma maneira de pensar o que faço, pensar os meus procedimentos e, de repente, ver algo que fazia e que agora não funciona mais, sabe?

Na escrita mesmo?
É. Ou que quero fazer outras coisas. Tenho uma maneira de escrever que me acompanha faz um tempo. Escrevo de manhã. Sou uma pessoa matutina. Quando acordo minha cabeça funciona melhor, então acordo, passo um café e começo a escrever. A quantidade de tempo que vou passar nisso, escrevendo, varia. Às vezes paro, pego um livro ou entro na internet, cada dia é uma coisa. O que não muda é que sempre escrevo em cadernos e que quanto mais escrevo poemas, mais eles saem. Entendo muito como um exercício porque não publico tudo que escrevo. Na realidade o que gosto de fazer mesmo é encher cadernos. Tenho uma grande satisfação em começar e terminar cadernos, então compro uns fininhos [risos]. Encho cadernos, guardo numa pilha e uns meses depois retomo alguns, leio e vejo o que posso mexer, o que está legal, o que passo a limpo pro computador. Mas também tenho cadernos que nunca passei nada a limpo. Tem coisas que não lembro que escrevi. Sabe quando tua mão adormece e tu pensa que é mão de outra pessoa? É uma vibe meio assim. Acho essa situação interessante.


Você tem dois livros publicados e está preparando um terceiro. Como é o seu processo para fechar um livro de poesia? Tem coisas em comum entre Rilke Shake, útero e esse terceiro? Ou cada um é uma história diferente?
É aquela história: quando tu não consegue mais olhar pr’aquele negócio é que ele tá pronto. Mas no Rilke Shake, como foi o primeiro, eu tinha bastante material, então juntei alguns poemas que achei que tinham alguma afinidade estética entre si. Foi um apanhado.

O Rilke Shake foi uma mixtape então?
Isso mesmo, bem pensado. Foi como uma mixtape que tu coloca uma música e depois outra que tem a ver, e vai pensando um encadeamento das coisas. Já o útero foi um projeto de escrita mesmo. Eu queria escrever sobre mulheres. Passei um ano e pouco só escrevendo esse livro. Foi todo um processo pra chegar aos poemas. Pesquisei muito, usei bastante a internet e o Google está no livro porque fiz alguns poemas usando pesquisas que fiz nele sobre mulheres. Foi uma investigação sobre os meus limites de expressão com a poesia. Foi diferente.

E esse terceiro, em termos de processo, ele está mais próximo de um ou de outro? Ou já é outra coisa?
Gosto de escrever séries de poemas e acho que meus poemas que tem mais força estão dentro de séries. Acho que eles ganham força pela repetição ou pela somatória. Então esse terceiro vai reunir algumas séries que fiz pra serem uma espécie de performance. Foram escritos pensando em serem falados. Alguns já até apresentei com minha namorada, que é musicista – o nome dela é Juliana Perdigão –, e ela fez a parte sonora, umas interferências, e musicou alguns poemas. E tem também uns poemas soltos que fui escrevendo ao longo do tempo. Então, o processo desse próximo livro é como se fosse uma mistura dos anteriores.

Você lembra as primeiras coisas que escreveu?
Eu era muito pequena. Quando tinha 9 anos ganhei uma enciclopédia de uma tia porque todo mundo da minha família sabia que eu gostava de ler. Acho que se chamava O Mundo da Criança. E ela tinha um tomo que era sobre poesia e eu li aquilo e achei os poemas tão legais, e eram engraçados e tinham jogos com palavras. Gostei tanto que comecei a escrever meus próprios poemas, foi meio natural. Não lembro qual foi a primeira coisa que escrevi, mas certamente tinha a ver com o âmbito doméstico, família.

E era poesia.
Versinhos, né. Tinha essa coisa de rimar, de fazer jogo com as palavras, e humor. Era uma coisa brincalhona. Acho que associei poesia com fazer rir. Foi assim que ela entrou no meu sistema porque vi que tinha esse poder, de ser divertida, de ser surpreendente.

O que é uma associação bem diferente do que se costuma fazer na adolescência, que é uma coisa mais auto centrada, sofrida, ninguém me entende...
Tem isso também. Passei por isso na adolescência. Adorava aquele movimento romântico alemão, o 'Tempestade e Ímpeto' [Goethe e Schiller são os principais nomes desse movimento]. Nooossa, é isso que eu quero! [risos] Mas lembro que também aos 15 eu li Ana Cristina César e foi como uma bomba porque não era nada daquilo. Era um registro muito estranho porque não parecia poesia, tinha aquele lance dos diários dela. Eu ficava lendo aquilo e não entendia, mas me fascinava. Tinha coisas como “Acordei com coceira no hímen” [risos]. Isso sim é Tempestade e Ímpeto, né? [risos]. Ou então “As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios”. Umas coisas loucas assim. Ana Cristina César foi uma coisa que entrou pra quebrar tudo mesmo e foi mudando o meu jeito de escrever. Mudou o registro totalmente. Aí comecei a procurar coisas parecidas.

Você foi procurando sua turma?
Sim, fui procurando pessoas que me dissessem coisas: Allen Ginsberg, Walt Whitman, William Carlos Williams, Gertrude Stein, Elizabeth Bishop, Ledusha, uma coisa levando a outra... fui procurando quem me provocasse.


Voltando pra sua biografia. Você saiu de Pelotas pra fazer faculdade?
É, saí de Pelotas pra ir pra Porto Alegre pra fazer faculdade de jornalismo. Tinha começado Letras em Pelotas, mas não gostei, achei muito chato. Também não dei muita chance. Foi um ano só. Mas como eu gostava de viajar e gostava de escrever achei que o caminho era jornalismo [risos]. Não pensei muito. Fiz jornalismo em Porto Alegre e depois de me formar, em 2000, entrei no curso de Jornalismo Aplicado no Estadão. Durante o curso fui pensando que talvez aquilo não fosse pra mim e que nunca conseguiria um emprego de jornalista, mas um amigo estava na Folha de S. Paulo e me falou desse curso. Não pensava em morar em São Paulo e não tinha como me manter, mas minha mãe me ajudou, fiz o curso e depois vim trabalhar no Estadão, que foi uma coisa que mudou minha vida. Porque eu era muito bicho do mato e no trabalho aprendi a fazer perguntas, perdi a vergonha de falar com as pessoas e tem essa coisa de ter que escrever. Não tem isso de vou deixar pra depois, não tem bloqueio. Chegou da rua, senta, escreve e entrega. Isso foi muito importante.

Quanto tempo você ficou no Estadão?
Quatro anos, de 2000 a 2004. Comecei na seção de cartas dos leitores, cobrindo férias, e naquela época ainda tinha carta. Tinha que organizar por temas e transcrever. Depois fui pra um caderno que não existe mais chamado ‘Seu Bairro’. Eu cobria Zona Leste. Saí de Pelotas pra Mooca [risos]. Foi muito divertido. Então fui convidada pra editoria de Política. Qualquer jornalista daria pulos de alegria, e isso foi em 2002, ano de eleições, e eu até aceitei, mas fui profundamente infeliz ali. Eu não era repórter e sim fechadora de textos e odiava muito aquilo. Depois consegui voltar pra reportagem em Cidades. Tinha uma adrenalina no trabalho do jornal que eu gostava e me ajudou a perder um pouco da timidez. Acabei saindo do Estadão porque apareceu uma vaga numa revista de telecomunicações e que tinha horários mais decentes, finais de semana, Natal, Reveillon. Mas eu queria mesmo era escrever poesia e chegou uma hora que precisei decidir, então caí fora do jornalismo em 2006.

A poesia foi te acompanhando no decorrer dessa experiência jornalística?
Sim. Eu sempre escrevi. Meu primeiro blog foi em 2001. Depois fechei esse e abri outro um ano depois. Esse segundo durou até 2010 ou 2011. Os blogs tinham uma linguagem, que era diferente da linguagem das redes sociais. Lembro do pessoal do Sul que fazia o Cardoso Online... a Clarah Averbuck, que acho que influenciou muita gente, o Daniel Galera, o Daniel Pellizzari. O meu jeito de escrever também mudou nessa época porque escrevia poemas direto no publicador do blog. Era essa coisa de publicar na hora e eu gostava disso. E tinha a prática. Pra mim, pra minha poesia, foi importante. Eu fazia poemas pra caberem na tela do computador, era uma coisa imediata e me botava em contato com outras pessoas que escreviam. Então tinha um retorno quase instantâneo e isso era uma coisa nova, né? Com os blogs a coisa ficou mais democrática, mais horizontal mesmo. Não tinha aquela pessoa que ficava no portão dizendo “Tu entra! Tu não!”.

Pelotas, Porto Alegre, São Paulo... em quantas cidades você já morou? E o que essas cidades te deixaram?
Que morei mesmo foi em Pelotas, Porto Alegre e São Paulo. Morei também dois anos na Argentina numa cidade chamada Bahía Blanca, que fica na província de Buenos Aires. Passei também umas temporadas na Holanda, na Escócia, mas nesses lugares eu sabia que ia embora. É difícil dizer o que elas me deixaram. São Paulo me deu mais velocidade, essa urgência de escrever, de publicar. É uma cidade que tem um ritmo que me levou a escrever mais. Porto Alegre me mostrou algumas leituras novas. Mas tem uma coisa: acho que não consigo morar muito tempo em um lugar porque quando dá uns 6 anos eu já fico querendo ir pra outro lugar. Mas gosto muito de São Paulo. Eu me sinto mais em casa aqui do que em Porto Alegre. Já Pelotas é a cidade que eu nasci, né? Saí dela pra fazer faculdade em 1994 e voltei em 2006. Depois teve essa fase na Argentina e voltei novamente em 2010, e fiquei lá até o início de 2017. É interessante voltar pra cidade que tu nasceu pra tentar se entender.

Como foram essas voltas?
Quando decidi largar o emprego de jornalista pra me dedicar à poesia eu voltei pra casa da minha família, voltei pra casa da minha mãe. Depois, na outra volta em 2010, também. Só que minha mãe morreu em 2015 e isso me soltou um pouco da cidade. Ela que me prendia a Pelotas. Tenho uma irmã que mora lá, mas minha ligação com a cidade era a minha mãe. Pelotas é a minha casa, mas é uma relação que tem algum conflito também. Mas foi importante ter voltado. Meu segundo livro, o útero, escrevi quase todo lá e quero acreditar que tem a ver com o lugar. Ter nascido no interior do Rio Grande do Sul me moldou linguística e afetivamente. A maneira como argumento as coisas, como construo as frases, tem a ver com essa coisa de ser do Sul, que é mais frio, mais fechado, mais melancólico.


acabei esquecendo de falar com angélica da experiência de escrever 
o roteiro pra hq guadalupe [quadrinhos na cia.], desenhada por odyr

Mudando um pouco de assunto. É muito comum ver em entrevistas com poetas mulheres ou escritoras perguntas como ‘Existe uma poesia feminina? Existe uma literatura feminina?’. E esse tipo de pergunta não é feita para homens. Isso te incomoda?
Por um lado, quando se põe um rótulo de literatura feminina em um livro parece que tu tá direcionando ele pra um público feminino e que não interessaria aos homens. Por outro lado, a gente precisa entender o que é a literatura feita por mulheres e quais são as coisas que são diferentes, entendeu? Porque ninguém sabe direito o que é o feminino. O feminino é todo um universo construído e se construindo. O útero, por exemplo, não poderia ter sido escrito por um cara. Seria outro livro. Um cara não ia falar do útero, seria meio forçado. Tem uma maneira de dizer as coisas que só uma mulher poderia ter feito. Enfim, escrevi um livro sobre mulheres, mas sou lida por homens também. Aliás, os primeiros leitores de útero foram homens.

Uma coisa é a produção, outra coisa é a recepção.
Isso, o rótulo pode ser prejudicial a partir do momento que você fala que é uma literatura de mulherzinha. Porque não existe uma literatura masculina, né? Tem autores que possuem um universo mais masculino, mas é tudo literatura. Por outro lado, não precisa ter muita pressa pra negar uma literatura feminina porque aí a gente não faz uma reflexão sobre o que as mulheres trazem pra literatura. São vivências diferentes. Acho que o jeito como me comunico, como articulo as frases, tem muito a ver com o fato de ter nascido no Rio Grande do Sul, com o fato de ter nascido na família que nasci – meu pai era muito rígido, tinha isso de impor respeito e aquela coisa de ‘adulto fala, criança cala’ –, então não tem como tudo isso não te moldar, entendeu? A maneira como eu tinha de me comunicar era escolhendo muito bem as palavras e da maneira mais eficaz possível. E também por eu ser lésbica e ter crescido no interior do Rio Grande do Sul nos anos 1980, o que não foi nada fácil, tinha essa coisa do não-dito, de não pode falar, isso também influenciou a minha maneira de escrever e a ser mais direta no que escrevo. Nos meus livros não tem muita palavra sobrando, tudo é mais compacto. Acho que tudo isso tem a ver com o fato de eu ser uma mulher, lésbica, gaúcha, que nasceu nos anos 1970. Uma pessoa assim que nasceu nos anos 1990 não tem essas mesmas questões. Mas a gente precisa sacar os elementos que as mulheres trazem. Será que é tudo igual mesmo?

No útero, a questão feminina, ser mulher, é a razão da existência dos poemas. Mas é algo que você pensa todo dia?
Olha, tu chega num nível de consciência que tu não tem volta. Não tem volta. Ser mulher... tu passa por uma série de situações... às vezes é muito difícil. Ter um corpo de mulher e sair na rua é uma experiência bem diferente de ser um homem. E os caras poderiam se dar conta, mas não se dão. Certos comportamentos muito arraigados...

Quem está em lugar de privilégio não pensa que está em um lugar de privilégio. Vê como certo, como um direito natural.
Verdade. E mesmo uma mulher... uma mulher branca está em um lugar de privilégio em relação a uma mulher negra. Ou uma mulher cis é privilegiada em relação a uma mulher trans. De qualquer forma, não é muito privilégio ser mulher. Por exemplo, numa discussão com um homem tem uma chance alta dele não te levar a sério, e te infantilizar. “Ah, ela tá bravinha”. Ter que ter muita paciência e ser bem didática.

E o ambiente literário? É conservador ou não?
Tem de tudo. Tem pessoas que são muito conservadoras, que se apegam a ideias de poesia, a determinadas características que definem o que e o que não é poesia. Mas também tem gente que está criando muito livremente e as pessoas entendem que cada pessoa tem o seu trabalho, suas questões, suas investigações. Nunca tive problemas. Ter resenha negativa, por exemplo, não considero um problema. Tem gente que acha que o que faço não é poesia, mas se você ver o que essas pessoas entendem por poesia, eu realmente não faço aquilo. Poesia pra mim é algo muito grande, e não me interessa de maneira nenhuma restringir. Se essa fronteira se expande, tanto melhor. Não tenho essa preocupação – que acho que é muito masculina – com o cânone. O que é cânone? É uma maneira de tu localizar as obras mais importantes do mundo que a gente vive. Harold Bloom põe o Shakespeare no centro e pra mim, ok. Só acho que poderiam ter outras coisas. Uma mulher no centro do cânone, ou um homem não branco...

Poderia ser um centro expandido, né?
Exato. Essa preocupação com o cânone, de pertencer a uma linhagem... eu pertenço a uma linhagem que vem de Safo de Lesbos [risos], passando por Angela Ro Ro, Cássia Eller [risos], essas minas todas, e aqui estou eu. Não é uma preocupação minha. Mulher sabe que o filho é dela, que saiu dela, não acho que essa história de linhagem seja uma preocupação de mulher. Talvez se a gente tivesse mais interesse por literaturas não ocidentais, como a nossa poesia poderia ser diferente, né? Acho que a gente precisa encontrar outras maneiras de se criar conhecimento, de ler, maneiras não tão masculinas de fazer as coisas. Acho que pode ser interessante.

p.s.: "Stradivarius", poema de Angélica publicado em seu primeiro livro [Rilke Shake] foi musicado pelo conterrâneo Vitor Ramil e lançado no disco Campos Neutrais.