sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

50 discos brasileiros de 2014 [e mais 25]

estamos aí no segundo capítulo da retrospectiva musical deste ano. já publiquei aqui a lista com 50 músicas brasileiras e agora é a vez dos discos. são 50 com uma lista bônus de outros 25. coisa pra diabo, eu sei, mas é só um pedacinho dos sons que chegaram a mim. dessa ruma alguns merecem destaque, pois me pegaram mais de um jeito ou outro. é mais ou menos assim...


pedra de sal - EP que é o primeiro de uma trilogia  - chegou agora no final e me derrubou rapidamente. é trabalho de várias belezas e muitas inquietações, alguma dramáticas, e mais um encontro forte de pernambuco [alessandra leão e rodrigo caçapa] e são paulo [kiko dinucci e guilherme kastrup]. e alessandra detona muito [“pedra de sal”, porra, o que é “pedra de sal”?!]. já o que vim fazer aqui é disco novo da alzira, o que me ganha de cara porque ela é uma das minhas cantoras/intérpretes/autoras preferidas de todos os tempos. daí que nesse disco ela canta só itamar assumpção, algumas inéditas, e com uma banda ótima. não é só impossível dar errado como ainda por cima dá muito certo. falando em itamar, o segundo disco de sua filha anelis assumpção, anelis e os amigos imaginários, é diversão do começo ao fim, é adulto e pop, é urbano e leve. anelis tá fazendo um carreira muito massa.


convoque seu buda, o disco de criolo após nó na orelha, corria muitos riscos comparativos e saiu-se muito bem. não tem o ineditismo da reinvenção do rapper e do encontro com Daniel ganjaman, mas tem alguns novos caminhos próprios e justas coerências, além de várias grandes canções. ainda na seara do rap, cruz do elo da corrente é mais uma prova da maturidade do gênero. ousado musicalmente, brasileiro e paulistano na medula, extremamente bem produzido, cruz é uma bela duma pancada. igualmente impactante, goma-laca é o disco do projeto de biancamaria binazzi e ronaldo evangelista com músicas afro-brasileiras gravadas entre as décadas de 1920 e 1950 e rearranjadas por letieres leite. e tudo fica ainda melhor com a escolha acertadíssima dos(as) intérpretes que, não coincidentemente, estão nessa lista também com seus excelentes trabalhos solo [juçara marçal, russo passapusso e lucas santtana – e tem ainda karina buhr, mas que não lançou disco novo esse ano].


chegamos então a juçara marçal e seu encarnado. uma das mais discretas e poderosas cantoras brasileiras, juçara fez de sua estreia solo um aperfeiçoamento natural do trabalho quem tem feito no metá metá: tradições afro-brasileiras sendo rasgadas por guitarras, por uma interpretação segura e pelo presente musical brasileiro. disco impressionante de uma artista idem. coisa boa é também a estreia solo oficial de moreno veloso, após a trilogia que fez com os amigos domenico e kassin, e é seu trabalho mais doce, mais bonito. já o novo nação zumbi pode não ter a pancadaria de outrora, mas os pernambucanos seguem criando músicas ótimas, honrando e muito as duas décadas do mangue beat/bit.


e o racionais mcs? após mais de uma década sem um cd de inéditas, o quarteto lançou cores e valores, um disco-conceito lotado de referências e histórias, um tantinho frustrante pela curta duração, mas as vozes e posturas dos caras continua muito impressionante. com 25 anos de estrada, o racionais é, sem sombra de dúvida, uma das coisas mais importantes da história da música popular brasileira.


finalizando os destaques, dois baianos. russo passapusso, vocalista do baiana system, lançou seu primeiro solo, o lindo paraíso da miragem, que tem reggae, ragga, balanço e muito o que falar e mostrar. o veterano na inquietude tom zé veio com vira lata na via láctea, seu melhor disco em tempos, principalmente porque seus arranjos diferentes, formações instrumentais variadas , e muitas participações interessantes [de criolo a filarmônica de pasárgada, de milton nascimento a kiko dinucci, de caetano veloso a o terno]. e, claro, um leque e tanto de ótimas músicas.

peraí, peraí... últimos destaques. juro! como disse na lista de músicas, continua rolando muito rap bom pra cacete. racionais, criolo e elo da corrente não me deixam mentir. mas vale ressaltar que tem ainda, nessa lista de 50, amiri, rincon sapiência, lurdez da luz, haikaiss e zulumbi aqui de são paulo, o pessoal do r93 de volta redonda e os gaúchos tuty e orquestra celestial do livre arbítrio. 

bom também quando somos pegos no contrapé. foi muito bom ser surpreendido pelos excelentes discos de adriano cintra [animal], alice caymmi [rainha dos raios], celso sim [tremor essencial], ian ramil [ian] e márcia castro [das coisas que surgem], além da descoberta do niteroiense salgueirinho e seu animalia, um disco eletrônico-instrumental bacaníssimo.

segue então, finalmente, a lista com 50 discos brasileiros deste ano segundo o gosto da casa, tudo devidamente linkado para ouví-los na íntegra [e ocasionalmente baixá-los]:

adriano cintra - animal
alessandra leão - pedra de sal EP
alice caymmi - rainha dos raios
amiri - antes, depois
anelis assumpção - anelis e os amigos imaginários
banda do mar - banda do mar
barbara eugênia & chankas - aurora
celso sim - tremor essencial
china - telemática
elo da corrente - cruz
estrelinski e os paulera - leminskanções
fábio trummer - trummer super sub america
filarmônica de pasárgada - rádio lixão
fino coletivo - massagueira
gilberto gil - gilbertos samba
gustavo galo - asa
ian ramil - ian
isaar - todo calor
juçara marçal - encarnado
lucas santtana - sobre noites e dias
lurdez da luz - gana pelo bang
m.takara - puro osso
márcia castro - das coisas que surgem
maurício pereira - pra onde eu que tava indo
mombojó - alexandre
moreno veloso - coisa boa
nação zumbi - nação zumbi
nina becker - minha dolores
o terno - o terno
orquestra celestial do livre arbítrio - o.c.l.a.
racionais mcs - cores e valores
rincon sapiência - sp gueto br EP
romulo fróes - barulho feio
rubinho jacobina - andando no ar
russo passapusso - paraíso da miragem
sacassaia - boca da terra
salgueirinho - animalia
saulo duarte e a unidade - quente
silva - vista pro mar
superlage - superlage
tatá aeroplano - na loucura e na lucidez
zulumbi - zulumbi

e aqui uma lista bônus com outros 25 trabalhos bem bons e que também deixaram suas marcas por aqui:

a banda dos corações partidos - a banda dos corações partidos
a fase rosa - leveza
afroelectro - mocambo EP
ceumar - silencia
de leve - estalactite EP
esdras nogueira - capivara
giancarlo rufatto - cancioneiro
graveola - dois e meio
holger - holger
inquérito - corpo e alma
jaloo - insight EP
judas - nonada
lamber vision - lamber vision
léo cavalcanti - despertador
naná rizinni - lá na naná
nego e - autorretrato
os the darma lóvers - espaço
pipo pegoraro - mergulhar mergulhei
rashid & kamau - seis sons EP
tássia reis - tássia reis EP

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

50 músicas brasileiras de 2014

virou rotina pessoal reclamar de mim mesmo pela cada vez maior dificuldade de fechar listas certeiras com as melhores músicas [ou discos] do ano. uma das razões é que é, de longe, o “produto” que mais consumo em qualidade e quantidade, e como tem muita música boa sendo lançada, vou fazer o quê?! quero mais é mostrar a variedade do que é produzido e do que ouço. então, sem mais desculpas, começo a retrospectiva musical de 2014 com as 50 melhores músicas brasileiras conforme o gosto e os limites da casa [tem, por exemplo, discos que não emplacaram música e vice-versa].


nesse ano resolvi agrupar em “gêneros”, ou em blocos, como preferirem [e aí sim as músicas estarão em ordem alfabética]. e começo com o rap, que é o que mais tenho ouvido nos últimos anos e o que mais tem empurrado a música popular brasileira pra frente. neste bloco estão duas das melhores músicas do ano, “plano de vôo” e “sobre o infinito e outras coisas”.

mais atentos(as) notarão a ausência dos racionais mcs, mas é que, pra mim pelo menos, o poderoso disco deles é mais um conceito que um conjunto de canções [e, portanto, estará na lista dos melhores discos]. quase todo rap da lista é de são paulo, mas tem porto alegre ali, curitiba acolá, são josé dos campos também, e por aí vai. ah, os blocos estão agrupados em playlists e quando tiver link na música é porque não achei no youtube.

“a marvada”, tuty [com rodrigo ogi]
“antônimos e sinônimos”, rocha
“até o fim sampa”, projetonave [com emicida]
“beijinho”, lurdez da luz
“cypher”, amiri [com léo supremacya e napalm]
“desse jeito”, mercúrias
“essa é pra você”, zulumbi
“neguim di kebra parte 2”, rincon sapiência
“plano de vôo”, criolo [com síntese]
por onde a fonte brota”, orquestra celestial do livre arbítrio
“r & k”, rashid & kamau
“sobre o infinito e outras coisas”, elo da corrente


e tome mais periferia com pancadões e rasteirinhas. nada de funk ostentação, que isso é coisa do passado e tava na cara que o fôlego era curto. mas tem sacanagem e duplo sentido sim, e tem usos muito novos e divertidos da música eletrônica. “patrão”, “passinho do romano” e “perereca suicida” são os destaques.

“patrão”, omulu
“dom dom dom”, mc pedrinho & mc livinho
“na casa do seu zé”, mc britney
“nega bass”, joão brasil
“passinho do romano”, mc dadinho
“perereca suicida”, mc japa


e a mpb? o que fazer com a mpb? ela ainda existe? essa coisa faz sentido? os dois próximos blocos foram divididos por mera formalidade e não existem medalhões da “chamada mpb” em nenhum. quer dizer, nesse tem tom zé, mas tom zé é sempre inquieto e seu cânone é muito pessoal e sempre foge do esperado. seu disco, aliás, é um daqueles difíceis de escolher apenas uma música [mesmo caso de juçara marçal, russo passapusso, anelis assumpção e moreno veloso]. desse bloco, os destaques são “pedra de sal” e “queimando a língua”, coisas lindas e fortes. ah, essa lista mpbística acabou gerando uma mixtape a pedido do hominis canidae/altnewspaper.

“asa”, gustavo galo [com ava rocha]
“casa vazia”, isaar
“filho de santa maria”, estrelinski e os paulera
“inconcluso”, anelis assumpção
meio dia”, filarmônica de pasárgada
“na menina dos meus olhos”, márcia castro [com mayra andrade]
“não acorde o neném”, moreno veloso
“partículas de amor”, lucas santtana
pedra de sal”, alessandra leão
“queimando a língua”, juçara marçal
retrato na praça da sé”, tom zé [com kiko dinucci]
“rosália”, pipo pegoraro
“sem sol”, russo passapusso [com anelis assumpção]
“tupitech”, celso sim
“vozes invisíveis”, graveola


o último bloco é mais rock, mais pop, mais um lance mpb esquema novo, ou não, já que tem carlinhos brown, guilherme arantes, uma instrumental eletrônica e canção com letra em inglês... enfim, tudo uma grande e brasileiríssima confusão. destaques desse bloco vão para “não vai dominar”, “descompasso” e “mais ninguém”.

“bote ao contrário”, o terno
climb the stairs”, barbara eugênia & chankas
“como é que a gente se ajeita”, fino coletivo
“descompasso”, fábio trummer
feio”, naná rizinni
lobo”, salgueirinho
“mais ninguém”, banda do mar
“não vai dominar”, adriano cintra [com guilherme arantes]
“novas auroras”, nação zumbi
o teu calor”, superlage
“onde somos um”, tatá aeroplano [com barbara eugênia]
“padê digital”, sacassaia
trapaça”, holger
“vc, o amor e eu”, carlinhos brown [com quésia luz]
“vou vagar meu bem”, galego
“zonzon”, saulo duarte e a unidade

terça-feira, 4 de novembro de 2014

notas aleatórias sobre um grande show

foi uma grande e longa noite no teatro municipal. a terceira edição do 'casa de francisco em concerto' pareceu uma peça do teatro oficina: cinco horas, dois intervalos, um monte de artistas no palco; só faltou gente pelada.

dividido em 3 partes, o show começou com um bloco levado por benjamin taubkin. foi o mais longo e, pra mim, o único com momentos chatos. ótimas participações de felipe cordeiro com o pai manoel cordeiro, marcelo pretto, pau brasil e mani padmé trio. teve também renato braz, que é um sujeito que me dá vontade de morrer, e alaíde costa que fez uma versão muito falha e só no gogó de villa-lobos. 

o segundo bloco, capitaneado por arrigo barnabé, teve uma cara de vanguarda paulistana. rolaram grandes momentos com cida moreira, zé miguel wisnik, cacá machado, ná ozzetti, celso sim, isca de polícia e maurício pereira com daniel szafran [que lindo foi ouvir "um dia útil" no teatro municipal]. 

o terceiro, mais atual e interessante, veio com kiko dinucci. e lá vieram os amigos romulo froés, rodrigo campos e marcelo cabral [passo torto], thiago frança e juçara marçal [metá metá], a juçara detonando solo, etc. e ainda teve alessandra leão cantando a música mais bonita da noite ["pedra de sal"] junto com rodrigo caçapa e manu maltez. o encerramento épico veio com o trio emicida, rodrigo campos e thiago frança [do espetacular show que já falei aqui] e então o metá metá se juntou.


emicida + metá metá

lá pelo final, antes do metá metá se reunir a emicida, kiko dinucci fez um breve discurso pra casa de francisca e agradeceu a presença do prefeito fernando haddad, que foi muito ovacionado.

ao fim & ao cabo, a noite foi ótima, apesar do cansaço de cinco horas, da confusão de algumas passagens de um artista pro outro, do roteiro também ocasionalmente confuso e da falta de um mestre de cerimônias que apresentasse os músicos e preenchesse os vazios.


uma parte do elenco do show agradecendo ao final

de qualquer forma, vida longa a casa de francisca! que venham novos, grandes e pequenos shows.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

o fotógrafo esforçado

fui fotógrafo profissional por alguns anos e momentos ali pela primeira metade dos anos 2000. o jornalismo, que começou sem querer e ao mesmo tempo, emparelhou, depois tomou a dianteira e foi abrindo vantagem. corpos e corpos de vantagem. até chegar ao ponto d'eu praticamente parar de fotografar, mesmo sem ter mais compromisso algum. as câmeras analógicas quebraram, nenhuma digital apareceu. fiquei uns dois ou três anos assim, olhos embotados, nessa virada dos 2000 pros 2010.

daí algo aconteceu no início de 2012 e tenho que agradecer eternamente ao instagram e a celulares com câmeras melhores [samsungs, no meu caso]: foi uma combinação de plataforma nova e simples, com linguagem similar & quadrada à minha analógica mamiya, a uma boa qualidade de imagem digital [sem falar na rapidez/discrição do celular]. voltei a fotografar regularmente, voltei pra rua a olhar as pessoas e as coisas. um ano depois, com o vcpraça e o começo dos rolezinhos vândalos, o número de fotos aumentou e a relação com a cidade se estreitou ainda mais.



fotografia pra mim é encontro, é relação, e foi bacana, pessoalmente bacana, ver como as minhas fotos analógicas e digitais se falavam com vários anos de diferença. são fotos de cidades. e de pessoas, quase sempre em cidades. é isso que me interessa. mas... tô querendo me explicar demais, né?

tudo isso pra falar que estou abrindo uma lojinha virtual pra vender minhas fotos. acho que tem umas coisas bonitas, né por nada não. são registros de 2012 pra cá, quase sempre em são paulo. cada foto é numerada de 1 a 10, ampliações 25 x 25, assinadas e tal. 100 realetas cada [+ frete pra fora de são paulo]. quando acabar, acabou. quer dizer, depois virão novas fotos, outras séries. vida segue, as fotos também.



dividi as atuais 183 imagens em 9 álbuns no flickr: 'centro de são paulo', 'música', 'coisas', 'bilhete único', 'mais gente por aí', 'viagem', 'arte de rua', 'vandalismo pessoal' e 'tríptico playcenter' [ah, esse tem preço diferente, são ampliações 25 X 78, 300 realetas cada]. então é só dar uma passeada por lá e mandar um email pro dafnesampaio@gmail.com. 

sábado, 30 de agosto de 2014

miniperfis feirantes

quatro feiras-livre, quatro regiões, quatro personagens, uma série de miniperfis que fiz pro feicebuque da prefeitura de são paulo. a ideia partiu da efeméride '100 anos da regularização das feiras na cidade' e, como escrevi pouco esse ano, foi bacana ir pra rua com esse objetivo: falar com pessoas, escrever sobre elas. renata assumpção, que me ajudou a definir as feiras, me acompanhou nas manhãs semi-frias desse final de agosto e talvez pinte um vídeo. beijão pra ela e pra valorosa e divertida equipe das redes sociais da prefeitura de são paulo [no twitter é @prefsp] que traz ainda bia abramo, fábio vanzo, laíssa barros e ana clara ferrari. tá muito massa esse trabalho nosso.


Carminha
Praça Benedito Calixto 
Pinheiros, Zona Oeste

Maria do Carmo de Moura, a Carminha, não gosta muito de conversa. Diz que o trabalho não deixa “tempo pra essas coisas”. E, pensando na sua rotina, ela tem toda razão. Trabalha em cinco feiras por semana há pouco mais de 40 dos seus 74 anos, e acorda todo dia às 3 e meia da manhã em Ermelino Matarazzo, zona leste, para conseguir chegar às 5 e montar sua barraca com ervas, temperos, batatas, cebolas, alhos, palmitos enlatados, tapioca, e assim por diante.

Às terças está com uma filha ou um sobrinho na Praça Benedito Calixto, em Pinheiros, zona oeste, logo em frente ao caminhão de peixes. “Antes de me casar eu trabalhava em casa de família, mas nunca gostei de receber uma vez por mês. Na feira é bom porque mesmo com pouco movimento todo dia tem algum dinheiro”, diz enquanto atende uma cliente que leva quatro cabeças de alho por 5 reais. 

Foi seu marido que a levou por esse caminho de cheiros, barulhos e cores das feiras livres. Por mais de quatro décadas estiveram juntos na lida, mas oito meses atrás ele morreu. “Ele me disse, pouco antes de morrer, que eu não podia ficar parada, nem ficar triste, e que tinha que seguir com a barraca. Foi essa profissão que ele me deixou, né? A gente não pode desistir”, e dá uma limpadinha na mesa onde rala côco, um gesto que parece dizer que o tempo de conversa fiada já deu. 


Adriano
Rua Dr. Gabriel Piza
Santana, Zona Norte

Nascido em Pesqueira, interior de Pernambuco, Adriano mora em São Paulo desde 1989. Veio com a família ainda pequeno e foi conhecendo a cidade pelas feiras livres. Hoje, aos 38 anos, afirma orgulhoso que trabalha como feirante há 20 anos e fez sua vida ao redor das frutas que vende [recentemente comprou, na planta, um apartamento próprio em São Mateus]. Mas sua vida profissional teve início com limões ao lado do pai no Parque Dom Pedro II. Depois passou a trabalhar sozinho e em outras bancas. 

Montou sua própria banca há seis anos e nela vende laranja, morango, caju, pera, manga, maçã e kiwi. “Tudo é interessante na feira. As pessoas, as conversas, um dia é diferente do outro. O ruim é acordar cedo”, e então começa a relatar seu cotidiano que tem início à meia-noite. Como trabalha com frutas frescas precisa acordar essa hora para se abastecer no Mercadão e lá pelas quatro da manhã chegar a uma das cinco feiras que faz semanalmente. 

Geralmente tem ao seu lado sua mulher e um amigo vizinho, mas em feiras livres maiores chama outros ajudantes e também muda as frutas que leva. Adriano entendeu rapidamente as particularidades de algumas regiões da cidade e, por exemplo, na feira que trabalha no Jardim América ele leva mais frutas importadas. “Tem outra diferença... esse pessoal com maior poder aquisitivo é meio cismado e não conversa muito. Às vezes só deixam uma lista e pedem para entregar em casa”, diz enquanto olha para os dois lados da feira em busca de algum possível cliente. “Daqui umas duas horas isso aqui está cheio e aí só gritando mesmo para ser visto. É a disputa da feira, né?”.


Nilton
Rua Irmã Carolina
Belém, Zona Leste

“De pai para filho desde 1950” é o que está escrito nas costas do uniforme de Nilton Rutkowski, 59 anos. Neto de poloneses e morador da Penha, ele foi o único que herdou do pai bucheiro o gosto pela feira livre e pelas carnes vermelhas, frangos e miúdos. Mas além de ser o único, ele também sabe que será o último, pois a filha e o filho, formados e com suas próprias famílias, não manifestaram nenhum interesse pela labuta feirante. 

De uma forma ou de outra, Nilton já está planejando sua aposentadoria pra daqui uns cinco anos. Afinal, montou sua banca própria em 1978 e desde então segue na firme rotina de cinco feiras por semana, todas na zona leste, com o dia começando às 3 da manhã. “No começo a gente trabalhava tanto que não tinha tempo pra pensar, mas hoje a feira está tranquila porque existem mais mercados e as pessoas tem mais acesso a alimentação, então já dá pra descansar”.

Teve uma época, uns dez anos atrás, que tentou sair da feira e virou fornecedor de carnes para feirantes. “Sei vender, não sei cobrar. Aí já viu, né? Não deu certo”, e interrompe uma história que lhe deu dores de cabeça e dívidas para mostrar ao longe uma cliente que vem na sua banca desde os tempos de seu pai. “Eu amo a feira por causa da freguesia. É uma coisa saborosa o contato que a gente tem, as conversas, os amigos”. 


Alexandre
Rua Conceição Veloso
Vila Mariana, Zona Sul

É uma das muitas tradições da centenária feira livre paulistana: onde queres legumes e verduras, tens japonês. É que desde sua chegada ao Brasil, a colônia japonesa criou sua própria rede de circulação de produtos, do cultivo a venda. Alexandre Nakamassu não fugiu a essa regra. Sua família trabalha no ramo há cerca de 50 anos e sempre com vistas a rabanetes, cenouras, nabos, alfaces, rúculas e quetais. Mas nos últimos tempos a responsabilidade ficou com Alexandre, que acorda às 3 da manhã e se manda para bairros como Vila Mariana e Ipiranga [ele faz quatro feiras por semana, todas na Zona Sul]. E depois ainda pega estrada até Suzano para comprar produtos frescos para o dia seguinte. 

“Não gosto de trabalhar [em lugar] fechado. Nunca gostei. Então vou seguir nas feiras até aguentar, afinal sempre trabalhei com isso, com esse contato direto, cada dia diferente do outro”, mas faz questão de deixar claro que sua filha, ainda criança, não seguirá os passos do pai. “Quero que ela estude pra ter uma vida mais tranquila”.

Esse desejo “por uma vida melhor” para a filha também está relacionado com o que vê todos os dias nos seus lugares de trabalho. Aliás, todos os feirantes sabem disso muito bem, pois o movimento nas feiras livres realmente vem caindo nos últimos anos por causa, principalmente, dos supermercados. Mas mesmo assim Alexandre tem certeza que as feiras nunca acabarão. “O atendimento é o diferencial, é personalizado, né? Em um supermercado não tem isso, não tem com que reclamar se a mercadoria não tiver boa. Feira é olho no olho”.

sábado, 2 de agosto de 2014

indiscotíveis: 'sobrevivendo no inferno'

uma dessas surpresas sensacionais da vida. itaici brunetti, colega jornalista com quem trabalhei na revista monet, me convidou em maio do ano passado para fazer parte de um livro ainda sem título sobre grandes discos da música brasileira a ser lançado pela jovem e independente editora lote 42. eu disse que sim claro com certeza. ele me passou uma lista gigante de discos e de cara escolhi sobrevivendo no inferno do racionais mcs. há tempos queria escrever sobre o disco, sobre os shows que vi do grupo na virada cultural, sobre rap, etc. mandei o texto no início de setembro e a vida seguiu.

achei desde o início que seria um livro bacana, mas quando vi indiscotíveis, o prazer foi maior porque ficou muito mais interessante e bonito do que esperava: o projeto gráfico de luciana martins, a ilustração de luciano salles para sobrevivendo, os textos de emicida, rael, arthur de faria, tatá aeroplano, marcelo costa, etc.

indiscotíveis foi lançado no início de julho e teve uma excelente cobertura da imprensa [até dei entrevista ao vivo pra rádio estadão] e ótimas resenhas, o que me deixou ainda mais orgulhoso de fazer parte do projeto.

além de itaici, meus sinceros agradecimentos a joão varella e cecília arbolave da lote 42, e a bia abramo, que leu o texto quando este ainda estava no berço. provavelmente a versão que segue aqui está um pouquinho diferente da impressa, já nem lembro mais. o que importa mesmo é que tem texto aqui e também no livro, que está a venda na loja virtual da lote 42. leia aqui, compre lá e divirta-se.



SOBREVINDO NO INFERNO, 1997
Racionais MCs

Ogunhê! Jorge sentou praça na Cavalaria... Deus fez o mar, as árvore, as criança, o amor; o Homem me deu as favelas, o crack, a trairagem, as arma, as bebida, as puta... Minha intenção é ruim, esvazia o lugar... Tô ouvindo alguém gritar meu nome... Parece que alguém está me carregando perto do chão... Aqui estou, mais um dia, sob o olhar sanguinário do vigia... Este lugar é um pesadelo periférico... Eu me formei suspeito profissional, Bacharel pós-graduado em tomar geral... Aquele moleque sobrevive como manda o dia-a-dia; tá na correria, como vive a maioria... Essa porra é um campo minado; quantas vezes eu pensei em me jogar daqui... As grades nunca vão prender nosso pensamento.



Não lembro onde, nem como, nem quando escutei Sobrevivendo no Inferno pela primeira vez. Sei que foi no comecinho de 1998 – o lançamento oficial aconteceu no final de 1997 -, e que passei semanas e semanas ouvindo o disco de todas as formas possíveis: na ordem original das faixas, aleatoriamente, umas ou outras no repeat, só trechos, etc. Já gostava do Racionais na época, mas os conhecia superficialmente [as básicas “Fim de semana no parque”, “Pânico na Zona Sul” e “Homem na estrada”], bem como o resto do rap brasileiro até então, quase exclusivamente paulistano. 

Quer dizer, Racionais não era novidade [musical] pra mim e eu já conhecia um pouco de São Paulo e da história do rap na cidade, mas nada disso tinha me preparado para Sobrevivendo. Claro, burrice minha, coisa de moleque achar que sabe mais do que realmente sabe.

Uma coisa era o impacto sonoro promovido por KL Jay, outra eram as vozes ásperas de Mano Brown, Ice Blue e Edi Rock, mas foi o discurso desses rapazes latino-americanos apoiados por mais de 50 mil manos que me derrubou. Nunca tinha ouvido, e poucas vezes ouvi posteriormente, tanta raiva na música popular brasileira [que me desculpem os punks] e um olhar tão aguçado e complexo – mesmo que ocasionalmente moralista, sexista e autoritário – diante das raízes e problemas das periferias brasileiras, da nossa eterna casa grande & senzala, da luta diária na periferia. Por causa de tudo disso lembro muito bem da sensação de medo e euforia que tive após as primeiras audições do disco.

Medo do tipo “a casa caiu!”. Essa “mistura de ódio, frustração e dor” por séculos de opressão e violência um dia iria transbordar e chegar às ruas. Aí quero ver branquinho aplaudir. 

Euforia do tipo “que foda!”. A democracia racial e cordial brasileira é uma farsa igualmente secular e somente a raiva e o embate, coisas raras no país, podem desmascará-la. Franco atirador se for necessário.

Orgulho e humilhação, amor e morte, soco na cara. Tudo junto.

Só que raiva pela raiva pode até gerar fagulhas, mas não necessariamente uma explosão. Daí que o mais impressionante no discurso do quarteto é, na verdade, essa energia aliada a uma gigantesca quantidade de imagens criadas em suas rimas, a sofisticação na construção das cenas, as mudanças ágeis e não lineares entre passado, presente e futuro. Cada música de Sobrevivendo no Inferno podia ser um conto ou um filme. O disco todo é um épico das quebradas, um tanto de Shaft, outro tanto de Ben Hur. Mas eu ainda precisava ouvir aquilo tudo ao vivo.


ilustração de luciano salles para sobrevivendo no inferno

Isso só foi acontecer uns nove anos depois, em 6 de maio de 2007, um domingo, 4 e meia da manhã. Nesse meio tempo, o grupo lançou mais um disco, o duplo Nada Como um Dia Após o Outro Dia [2002], e o DVD Mil Tretas, Mil Trutas [2006]. E músicas do Sobrevivendo, tais como “Capítulo 4, Versículo 3” e “Diário de um detento”, já tinham se tornado hinos populares. Tudo parecia pronto para uma noite histórica na Praça da Sé como parte da programação da Virada Cultural, mas não foi bem o que aconteceu.

Era meu primeiro show do Racionais e quando cheguei na Praça da Sé não demorou muito para sentir que algo ruim aconteceria. De um lado, um bando de moleques nervosos, ansiosos e acordados à base de álcool. Do outro, a boa, velha, violenta e despreparada Polícia Militar do Estado de São Paulo. No meio, um show com uma hora e meia de atraso.

Praça enchendo, enchendo, e eu ali na esquina com a Rua Benjamin Constant, o mais perto que consegui ficar do palco. Então uns moleques sobem na banca de jornal na esquina de cima para verem melhor o show que tinha acabado de começar. Dois, três, sete, dez sobem, e mais querem subir. Alguns decidem pular para a sacada de um prédio comercial e abrem portas e se acotovelam por espaço. Nesse momento um grupo de policiais sai de uma base móvel, passam por mim e se dirigem a banca/prédio para acabar com aquela bagunça. Uns dez, talvez.

Poucos minutos depois o grupo volta carregando um deles aparentemente ferido, atingido por uma pedra ou algo semelhante. Era o sinal que o Choque esperava [queria?] para entrar em ação. Formam então uma parede de escudos e cassetetes batendo, batendo, tum, tum, tum, tum, como a base fatídica de “Tô ouvindo alguém me chamar”. Logo atrás dos escudos alguns policiais começam a atirar bombas de gás e tiros de borracha. Enquanto sobem pela rua do lado da Praça da Sé são recebidos com garrafas de vinho barato voando por todos os lados. 

Paralisei no meio do fogo cruzado e fiquei tentando entender o que acontecia enquanto, atrás de uma árvore, desviava de projéteis de ambos os lados. Lá no palco, show interrompido após 20 minutos, Mano Brown buscava acalmar os ânimos. “Todo mundo tem revolta, eu também tenho. Mas temos que pensar com inteligência”. De nada adiantou e o grupo decidiu encerrar o show de vez, o que acabou deixando o campo ainda mais aberto para confrontos, quebra quebra, carro queimado, gente presa, machucados e gás lacrimogêneo tomando tudo, chegando até as profundezas do metrô.

A profecia se fez como previsto? 

Não. Sempre achei, continuo achando, que as questões religiosas, as citações bíblicas, de Sobrevivendo no Inferno são lidas de forma muito literal. Deus não serve de conforto para quem sabe que Ele tem déficit de atenção seletivo e que a periferia não está entre suas prioridades. Não, não vai rolar Mundo Mágico de Oz e ninguém virá ajudar. 

Mas na periferia a Bíblia é um dos principais e mais acessíveis fornecedores de metáforas, lições, moralidades e imagens. E tem a palavra que, através do coração pragmático do rapper, se transforma em rima. É um jeito diferente de cantar sua própria honra e de colocar em versos que Deus pode até ser a vida, mas o resto é com a gente. Não é fácil, mas é o que é. Pro mal e pro bem.

O show de 2007 não foi o Apocalipse, mas certamente foi o auge da tensão entre, de um lado, a Polícia Militar e o Estado branco que ela defende, e do outro, o Racionais e os muito, muito, muito mais de 50 mil manos e minas. Uma luta que já estava toda dissecada em Sobrevivendo no Inferno.

Resultado prático? Todo mundo seguiu suas vidas, mas o Racionais ficou de fora da Virada Cultura por anos e o rap foi jogado para escanteio na programação.


Mano Brown, 2012

Salto no tempo para outro domingo, meu segundo show do Racionais. Em 19 de maio de 2013, precisamente às 14h40 [20 minutos antes do horário oficial], o quarteto encheu o palco da Júlio Prestes com um bando de parceiros, crianças e o diabo a quatro. Em tudo, por todos os cantos, o clima estava muito diferente daquele show de 6 anos atrás, e olha que a praça estava lotada, 100 mil pessoas, com gente subindo em postes e árvores, janelas de prédios como camarotes. É que a Polícia Militar não estava lá para estragar a festa.

Maduros e relaxados, mas sem ter perdido um miligrama de força no processo, Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay fizeram um show poderoso e conciso [40 minutos, tinha jogo do Santos às 16h, final do Paulistão]. Algumas músicas do Sobrevivendo no Inferno estavam lá com novos clássicos já consolidados no imaginário periférico [“Negro drama” e as duas partes de “Vida loka”) e a composições recentes como “Mil faces de um homem leal [Marighella]”. Tudo cantado a plenos pulmões por uma multidão de punhos cerrados e orgulhosa de se ver cantada de forma tão real. 

Sempre atento, Mano Brown arrumou um tempo para dizer o seguinte: “Todo mundo fala da polícia, do sistema, mas vi vários manos se desrespeitando, se roubando, se saqueando […] O rap precisa de gente de caráter, não de malandragem”. Respeito é pra quem tem, como diria o saudoso Sabotage, e é a palavra, a palavra certa, direta e reta que diferencia os homens dos meninos. 


ao longe, Racionais na Virada de 2013

A fúria negra de Sobrevivendo no Inferno continua tão intensa e necessária quanto antes, e parte dela ainda não se resolveu. Mas esse show da Júlio Prestes foi um sinal cristalino de que aquela raiva de tempos atrás não sumiu e nem pode sumir – afinal, tem muita desigualdade por aí e muita gente que lucra com essa desigualdade –, mas que agora ela convive com a leveza da sabedoria. 

É que a criação desse quarteto paulistano se entranhou profundamente no imaginário/vocabulário de grande parte dos brasileiros, e hoje em dia é tão domínio popular quanto Adoniran Barbosa, Roberto Carlos, Dorival Caymmi e assim por diante. Por outro lado, a violenta grandeza da dobradinha Sobrevivendo no Inferno e Nada Como um Dia Após o Outro Dia na virada do século fez uma sombra muito grande sobre muita gente. Foi preciso tempo e novos MCs e DJs, manos e minas, e de todos os lugares do país, para dissipar tamanha angústia da influência.

Nos últimos anos, por causa desse desprendimento estético e do crescimento econômico, o rap ganhou por aqui mais qualidade, quantidade e variedade [de temas, batidas, tudo]. Ganhou também mais mercado e é, hoje em dia, o gênero musical que dialoga com ferocidade e balanço com o maior número de pessoas dos mais diferentes estratos sócio-econômicos. 

Nesse novo cenário, Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay são os pioneiros, os irmãos mais velhos, os caras mais fodas da música popular brasileira [negra, branca, índia, etc.]. São fundadores, porta vozes, inventores e estão absolutamente tranquilos quanto ao próprio legado e a força que ainda possuem. E mesmo que saibam que o rap brasileiro está amadurecendo em ótimas mãos, eles tem uma missão. Não vão parar. 

Já eu... bem, não faço ideia do tanto que já ouvi Sobrevivendo no Inferno e também perdi a conta de quantas novas audições acompanharam este texto. Mas em todas aprendi mais sobre São Paulo e o Brasil do que jamais pude imaginar. E toda vez que Mano Brown se despede...

Aí ladrão, tô saindo fora. Paz.

... eu respondo: ‘té a próxima!



EPÍLOGO FICCIONAL 

Entre 2003 e 2005 tive uma coluna no Gafieiras chamada “Disco do mês de sempre”, no qual escrevi ficções inspiradas em alguns dos meus discos preferidos; Sobrevivendo no Inferno foi o décimo de um total de quinze e foi publicado originalmente em algum lugar de 2004.

O carro vai rápido pela Marginal e não pára de balançar. Nunca vi um asfalto tão ruim, tanto remendos. Mas agora é noite e o carro voa, o som no talo. Passo por uma ponte. Tem alguém lá em cima segurando uma lança e acho que está de armadura. Brilha de tão prateada. Quase fico cego. Foi rápido, passei, mas ele estava olhando para mim, certeza, de roupas e armas. Queria me acertar, o Jorge... nada vai me fazer parar, nem ele, ninguém. 

Passa outra ponte, ali a última saída, e lá no alto um avião fazendo barulho. Tá descendo. Retorno proibido. Tudo em obras. Perto daqui tinham uns prédios cinzas, janelas pequenas, e muitos homens dentro. Mataram 111. Explodiram os prédios. O rio não quer nem saber, tá morto também, esticado. De vez em quando incha e transborda, mas não é vida, é espasmo.

Aumento o som, queria fugir, só que o piano entra cortando, muito sangue. Uma faca. Queria esquecer. Peguei a Marginal pra isso. Eu sou bem pior do que você tá lendo... todo mundo pro chão, pro chão, tira a mão daí, vai filha da puta, pega o malote, filha da puta, solta, o seguro vai cobrir, solta... se eu sair daqui eu vou mudar. Tô ouvindo alguém me chamar. Era outro carro? Uma moto? Só ouvi o meu nome. Corro demais.

Chega desse rio parado, essa piscina de sangue. Quero a estrada, uma voz de mulher, eu quero mudar, vento na cara, então piso fundo e deixo a última ponte para trás. Mas não resisto e olho pelo retrovisor. Ah, tá lá de novo, o cara da armadura. Seguro a cruz em meu peito e começo a gritar... foda-se seu filha da puta, vem com a lança, vem, eu tenho coração, isso é meu, ninguém tira... ele fica lá, paradão como o rio, e cada vez menor. Estou vivo.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

itaquerão, ida e volta

no emaranhado de conexões e escadas rolantes da luz uma série de placas coloridas mostra o caminho para a arena corinthians, palco de brasil x croácia, o primeiro jogo da copa do mundo de 2014. esse é um dos possíveis caminhos para o estádio e, provavelmente, o melhor. nada de ir de carro e se perder ou pagar os olhos da cara em algum estacionamento distante. nada de pegar a linha vermelha do metrô, a leste-oeste, porque são muitas paradas até chegar à estação corinthians-itaquera. o lance é o expresso leste [linha 11/coral da cptm] que, nos seis dias de jogos em são paulo, fará luz-itaquera sem parar e em apenas 20 minutos.


cheguei fácil à plataforma 4 e nem deu tempo de contemplar a centenária estação da luz porque, em poucos minutos, lá veio o trem. fiz esse caminho de ida e volta ao itaquerão um dia antes da bola começar a rolar e, como era uma quarta-feira como outra qualquer, as paradas no brás e no tatuapé estavam mantidas, o que aumentou a duração do trajeto em uns dez minutos.

tempo mais que o suficiente para acompanhar um casal de cantores evangélicos vendendo e cantando suas músicas [eram 11 e meia da manhã e o vagão tinha poucas pessoas]. o homem, cego, andava de um lado para o outro do vagão com uma pequena caixa de som pendurada no pescoço. a mulher, serelepe, mostrava os cds, vendia e de vez em quando se aproximava de seu marido para cantar partes da música, tais como “disseram pra você: não vai dar certo / passam perto de você e falam: é só mais um / mais um sonhador pelo caminho”. dois passageiros compraram discos.

o casal saiu no brás e foi substituído no vagão por um vendedor de chocolates com camiseta do bayern de munique. “é delícia, é qualidade, é o mais puro chocolate ao leite”, dizia pausadamente com voz de locutor de rádio. dois americanos, que estavam indo para o itaquerão e conversavam sobre assuntos familiares, recusaram. uma menina, jogando animadamente no celular, também. e o vendedor desceu no tatuapé com o saldo de quatro chocolates vendidos.


do tatuapé até itaquera é o trecho mais longo e assim é possível acompanhar mais atentamente o entorno das linhas de trem e metrô. do lado direito, a radial leste e outras avenidas grandes numa curiosa e caótica relação com viadutos que serpenteiam sobre tudo. na parte esquerda, áreas mais residenciais, ruazinhas, muitas com bandeiras do brasil e pinturas no asfalto. faz sentido, porque é da mistura esparramada desses dois lados [e de outros feios e bonitos] que são paulo é feita. então passa carrão, penha, vila esperança e por aí vai.

quando o trem se aproxima de arthur alvim a coisa começa a mudar de figura e do lado direito, em cima de um morro, surge uma série de prédios iguaizinhos e bem pintados, alguns com grafites. é um pedaço do gigantesco conjunto habitacional padre manoel da nóbrega. e tome mais avenidas e viadutos, tudo parecendo recente. então, do nada, aparece a arena corinthians. é o fim da linha para quem for ao estádio [a linha 11/coral segue até mogi das cruzes].


um dia antes do primeiro jogo da copa a estação está eufórica e fervilhando. de um lado, os últimos retoques de tinta [amarela] na passarela que vai até o estádio. do outro, o cotidiano no shopping metrô tatuapé e do poupatempo. no centro de tudo, uma bola de futebol gigante como cenário para dezenas de fotos de brasileiros, hondurenhos, japoneses, equatorianos, americanos e bolivianos [com camisetas do brasil].


mas o que interessa mesmo [nessa grande balada futebolística mundial] está no outro lado da passarela e é para lá que segue o fluxo. e então fotos e mais fotos, principalmente quando parte do estádio aparece no canto direito. uma senhora puxa conversa: “eu vim de francisco morato [a 70 km dali] só pra ver o estádio. não podia passar a copa sem vir aqui, ainda mais que um cunhado meu trabalhou aí. que coisa linda, né? quero vir outras vezes, em todo jogo se possível. trabalho ali na penha, mas quero depois dar uma passadinha aqui”.


é isso, a copa tá [literalmente] logo ali. é no brasil, é em itaquera. não custa dar uma passadinha pra curtir, entender, criticar, conhecer pessoas etc. não é todo dia que oportunidades assim acontecem. a festa e a responsabilidade são nossas. se der tudo certo, a taça também. agora é deixar a bola rolar.

terça-feira, 10 de junho de 2014

o rap, o brasil e vice-verso

esse convite foi uma baita surpresa: colunista convidado da revista da [livraria] cultura, uma publicação que ainda não tinha colaborado. tema livre, mas brasileiro. a minha cara, enfim, rsrsrs. e daí escolhi o rap porque é um dos assuntos que mais me interessa e ainda estava sob o efeito/impacto do show do emicida, thiago frança e rodrigo campos na casa de francisca. o texto também está no site da revista da cultura, mas aqui sempre tem um material extra.



O BRASIL É UM RAP

“Já que o povo gosta de rap / Então o rap é mpb também / Música periférica brasileira tornou-se popular / Deixa o som rolar”. Esses versos lançados um ano atrás pelo paulistano Sombra, numa parceria com o curitibano Projetonave, dizem muito sobre o atual momento do ritmo e poesia brasileiro. Não significa que o rap esteja tocando em rádios ou em programas de auditórios – afinal, isso nem tem mais relação com “sucesso” –, e sim que o gênero saiu da periferia e ganhou de vez o asfalto e baladas de todos os estratos sociais. Mas tem algo maior que isso. 



É que o rap é o gênero musical que melhor tem comentado e explicado as grandes transformações sociais das últimas três décadas no país. Nos anos 1980 e 90 serviu como retrato da profunda desigualdade nacional e consequente violência contra a periferia [e, dessa geração, ninguém melhor, mais afiado e atual que o Racionais MCs].

A partir dos anos 2000, com ascensão econômica de classes mais baixas e mais acesso a educação e informação via internet, novas gerações entraram nas rimas – e dá-lhe Emicida, Criolo, Don L, Amiri, Rincon Sapiência, OQuadro, ConeCrew, Flávio Renegado, Síntese e muitos outros – e outros assuntos foram surgindo. Afinal de contas, as periferias podem e tem mais o que falar: tem amor e bom humor, viagens e machismo, espiritualidade e comércio, política e poesia, festa e sexualidade, pais, mães, filhos e orgulho. 

O sotaque, que era e ainda é majoritariamente paulistano, ganhou outras cores em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Ceará, Pernambuco, Paraná, Brasília, Bahia, Goiás, Pará, Rio Grande do Norte, Paraíba e, claro, em outras cidades de São Paulo. A voz também é mais masculina, porém mulheres como Lurdez da Luz, Negra Li, Karol Conká, Flora Matos e Lívia Cruz vem abrindo caminhos para novos protagonismos.

É muita novidade, e em alta velocidade, e só o rap tem conseguido acompanhar tudo isso, além de ser o mais aberto a se misturar com outros ritmos, gêneros e sonoridades. Bem fácil encontrar no rap brasileiro sons como jazz, samba, funk, soul, forró, repente, reggae, bossa nova, brega e música eletrônica. 

Talvez umas das explicações para esse dinamismo do rap seja sua raiz democrática, pois para ele acontecer basta apenas um sujeito rimando sobre uma base rítmica. Com a internet e a proliferação de instrumentos eletrônicos e novos programas de edição, tudo isso ficou ainda mais acessível. 

Aliado a isso existe uma vontade intensa por comunicação e interação entre o artista e seu público, coisa que outros gêneros musicais foram perdendo por uma razão ou outra: o rock envelheceu mal e virou um ninho conservador, a mpb se fechou no seu castelo de iluminados e o samba, uma das maiores influências ainda hoje para o rap e tudo o mais que for brasileiro, passou a repercutir preconceitos contra outras músicas periféricas (esquecendo o tanto que foi perseguido em seus anos de formação).

Crônica do seu tempo e lugar, o rap “Já salvou muito mais / que várias ONGs banais / Dialogou muito mais / que professores e pais / Projetos sociais / Não seduz marginais / Mas põe um rap pra ouvir / A diferença que faz / Eu sei que é foda / E que tá na moda / Mas quando é pesado e verdadeiro te incomoda” [versos de “O Hip Hop é Foda”, de Rael]. 

A verdade é que tudo se encaixa na nossa rima, principalmente a realidade.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

rap esquema novo

sem medo de adjetivos e afirmações categóricas: emicida, thiago frança e rodrigo campos criaram na casa de francisca um dos melhores, mais intensos, surpreendentes e divertidos shows do brasil, quiçá do mundo. é algo entre gil scott-heron e adoniran barbosa. é o experimentalismo do sax, flauta e pocket piano de thiago com o da guitarra, violão e cavaquinho de rodrigo fazendo cama para a velocidade urgente das rimas de emicida [e que com esse acompanhamento acabaram ganhando novas e surpreendentes densidades junto a um flow mais relaxado]. 


quase no final, antes de um engraçadíssimo momento freestyle que uniu emicida a grupo raça, padeirinho, bezerra da silva e paulinho da viola, thiago frança disse o seguinte: "ó, todo mundo aqui é sambista, viu?". e é a mais pura verdade porque o rap é também uma outra forma de sambar. só que o que aqueles três fizeram na pequenina casa de francisca já está além. tem algo muito novo surgindo desse encontro [idealizado por thiago]. que sorte a nossa.

setlist do show


- “ngoloxi” [thiago frança] / “ubunti fristili” [emicida]
- “crisântemo” [emicida]
- “outras palavras” [emicida]
- “sol de giz de cera” [emicida]
- “ela diz” [emicida]
- “rua augusta” [emicida]
- “fim da cidade” [rodrigo campos]
- “beco” [rodrigo campos]
- “saudosa maloca” e “despejo na favela” [adoniran barbosa]
- “hino vira-lata” [emicida]
- momento freestyle que teve “favela” [padeirinho], “eu sou favela” [noca da portela e sérgio mosca], “eu e ela” [grupo raça], “meu mundo é hoje” [wilson batista e josé batista] e “timoneiro” [paulinho da viola e hermínio bello de carvalho]
- “triunfo” [emicida]

atualização: o programa manos e minas [tv cultura] fez uma matéria sobre o show e a gravação foi justamente nesse dia que fui.