quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

os 30 discos gringos de 2012 e algo mais

não é possível que esse sujeito tenha ouvido decentemente essa ruma de discos e músicas! tá querendo aparecer, só pode! pior (melhor?) que ouvi. trabalhando, no carro, conversando, fazendo nada, nos mais diversos jeitos do dia a dia. os que ouvi mais acabam entrando na lista principal, enquanto os que ouvi menos vão pras secundárias ou acabam emplacando uma música. e ainda tiveram outros sons que passaram por mim e nem entraram e, claro, não ouvi uma porrada de outros (nada de grizzly bear, the xx, bat for lashes, godspeed you! black emperor, dan deacon, liars, swan, ariel pink, essas coisas indie). mas nessas listas o que acho mais bacana é reunir informações e links em um só lugar, traçando panoramas pessoais sobre o que está sendo produzindo hoje, mais do que falar que uma coisa é melhor que outra.


como em 2010, quando saiu bad bad things, o francês blundetto é um dos meus destaques do ano. warm my soul é disco muito lindo porque traz um pouco de tudo que tem mais me interessado ouvir nos últimos tempos, e com balanço e doçura. nessa mesma onda, só que com vários discos lançados no ano, entram também o inglês quantic e o americano shawn lee, sendo que quantic é um dos responsáveis pela minha recente paixão por música colombiana. outra delícia é novamente ouvir trabalhos muito interessantes de veteranos como leonard cohen, lee scratch perry, iggy pop, jimmy cliff e patti smith. e por fim destaco na lista uma jovem turma inglesa que igualmente dominou meus ouvidos durante o ano: michael kiwanuka, the heavy e the skints. seguem.

akalé wubé (mata)
alabama shakes (boys & girls)
andrew bird (break it yourself)
blundetto (warm my soul)
bobby womack (the bravest man in the universe)
bomba estereo (elegancia tropical)
cat power (sun)
chicha libre (canibalismo)
frank ocean (channel orange)
iggy pop (après)
jack white (blunderbuss)
jimmy cliff (rebirth)
jungle by night (hidden)
kelan philip cohran & hypnotic brass ensemble (kelan philip cohran & hypnotic brass ensemble)
kendrick lamar (good kid, m.a.a.d city)
leonard cohen (old ideas)
menahan street band (the crossing)
michael kiwanuka (home again)
nneka (soul is heavy)
norah jones (little broken hearts)
patti smith (banga)
quantic & alice russell (look around the corner)
spoek mathambo (father creeper)
the heavy (the glorious dead)
the skints (part & parcel)

O MUNDO É GRANDE PRA CARAMBA – e muito outros sons rondaram por aí durante o ano. alguns dos discos citados abaixo só não entraram na lista acima por uma questão de centésimos de segundos. outros emplacaram na lista de músicas. mas uma coisa é certa: tudo vale ouvir (se puder ou tiver interesse, claro).

afro latin vintage orchestra (last odyssey), akua naru (live & aflame sessions), amadou & mariam (folila), andrew bird (hands of glory), antibalas (antibalas), ariya astrobeat arkestra (towards other worlds), azealia banks (1991 EP), bad bad not good (bbng2), big boi (vicious lies and dangerous rumors), bill fay (life is people), bob dylan (tempest), brother ali (mourning in america and dreaming in color), busdriver (arguments with dreams EP), chicago underground duo (age of energy), christian scott (christian atunde adjuah), cody chesnutt (landing on a hundred), david byrne & st.vincent (love this giant), debo band (debo band), dirty dozen brass band (twenty dozen), dub colossus (dub me tender), easy star all-stars (easy star's thrillah), ebo taylor (appia kwa bridge), egyptian hip hop (good don’t sleep), el-p (cancer for cure), flying lotus (until quiet comes), gangrene (vodka and ayahuasca), gonjasufi (mu.zz.le), homeboy sandman (first of a living breed), hot chip (in our heads), karriem riggins (alone together), kinny (can’t kill a dame with soul), lee fields & the expressions (faithful man), lianne la havas (is your love big enough?), neneh cherry and the thing (the cherry thing), quantic (los miticos del ritmo), rufus wainwright (out of the game), santigold (master of my make-believe), shawn lee (synthesizers in space), shawn lee's incredible tabla band (tabla rock), sierra leone's refugee all stars (radio salone), the bad plus (made possible), the shaolin afronauts (quest under capricorn), theesatisfaction (awe naturale), tony hymas & the bates brothers (blue door), toots & the maytals (unplugged on strawberry hill), vários artistas (django unchained: original motion picture soundtrack), vários artistas (rework: philip glass remixed) e wadada leo smith (ten freedom summers).


mais uma pedrada do selo analog africa

uma outra classe dessas coletâneas são as dedicadas exclusivamente a um artista ou um grupo e nesse balaio também rolaram este ano discos/caixas revisionistas de figuras como o can (the lost tapes), eddie holland (it moves me: the complete recordings 1958-64), fela kuti (live in detroit 1986), guelewar (touki ba banjul: acid trip from banjul to dakar), le super borgou de parakou (the bariba sound 1970-76), lee scratch perry & the upsetters  (high plains drifter: jamaican 45′s 1968-73), lou ragland (i travel alone), madness (forever young: the ska collection), rahsaan roland kirk (spirits up above: the atlantic years 1965-76), shorty long (here comes… shorty long: the complete motown stereo masters), sory kandia kouyaté (la voix de la révolution), the funkees (dancing time: the best of eastern nigeria’s afro rock exponents 1973-77), tunji oyelana (a nigerian retrospective 1966-79) e wendy rene (after laughter comes tears: complete stax & volt singles + rarities 1964-65).

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

yahoo #57

desdobramento estratégico da lista de melhores músicas brasileiras do ano publicada aqui, a coluna da semana passada no yahoo foi uma selecta de dez canções que imaginei serem interessantes para mostrar pro leitor de lá. qual não foi minha surpresa quando começaram a rolar vários comentários detonando o gosto dessa "estagiária ridícula"!? o yahoo é isso, um pescotapa no ego.



10 MÚSICAS QUE VOCÊ DEVERIA TER OUVIDO EM 2012

Fim de ano é tempo de listas, só que dessa vez resolvi fazer algo diferente. Separei 10 músicas brasileiras da lista de 50 que publiquei no meu blog pessoal, o Esforçado. Não porque sejam melhores que as outras 40, mas por serem ótimos exemplos para os comentaristas apocalípticos aqui do Yahoo! que a música brasileira anda muito bem, obrigado. Quem só consome música através de TV e rádio pode até achar que o país anda “perdido”, na mesma. Não existe muita oferta mesmo. É que as coisas do mundo estão na internet, minha nega. Basta ter um pouco de curiosidade. Escuta só.

Lado A – O coração

1) “Se assim quiser” (Mahmundi)


Mahmundi é pseudônimo do trio liderado pela cantora e compositora Marcela Vale, carioca de 25 anos. “Se assim quiser” está em seu trabalho de estreia, o EP Efeito das Cores. Tecladinhos saídos diretamente dos anos 1980 se juntam docemente com programações eletrônicas em clima de fim de tarde. E Marcela só cantando coisa boa de fazer. Autoajuda deveria ser assim.

2) “Alegria da gente” (Alvinho Lancellotti)


Filho do compositor Ivor Lancellotti, parceiro de bambas como João Nogueira, Paulo César Pinheiro e Leci Brandão, Alvinho começou a cantar e mostrar suas músicas no grupo Fino Coletivo e só agora estreou solo em O Tempo Faz a Gente Ter Esses Encantos. O título do disco, aliás, é um dos versos de “Alegria da gente”, sambinha espertíssimo, moderno e tradicional, que só poderia ter sido feito sob o efeito da alegria solar do Rio de Janeiro.

3) “Areia fina” (Letuce)


Em quase todas as músicas do Letuce quem canta lindamente é Letícia Novaes, mas esta, especialmente, traz os vocais do guitarrista Lucas Vasconcellos, parceiro de Letícia de música, vida e vice-versa. Música de Manja Perene, segundo disco do casal carioca, “Areia fina” é um rock cheio de climas sobre as descobertas, algumas doloridas, do amor.

4) “A carta de amor” (A Banda dos Corações Partidos)


Marchinha dramática sobre amores perdidos, “A carta de amor” é também uma ótima porta de entrada para o som desse grupo de Aracaju, Sergipe. Tem também brega na mistura, fator recorrente na nova música feita no Norte-Nordeste, e a ótima voz de Diane Velôso.

5) “Poder da sedução” (Dona Onete)


Do alto seus 73 anos, a cantora paraense costuma ser comparada a Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus e Omara Portuondo, mas em seu disco de estreia (Feitiço Caboclo) é possível ouvir todo seu brilho próprio. Dona Onete passeia por carimbós maliciosos como “Jamburana” e lindas baladas bregas como essa “Poder da sedução”, que é também tango com pitadas eletrônicas em meio a lamentos de cabaré amazônico.

Lado B – Os quadris

1) “Pode para” (Flow MC)


Uma das revelações do jovem rap paulistano, Flow MC é também um dos organizadores da tradicional Batalha de MCs do Santa Cruz e “Pode para” está em sua terceira mixtape, SensaFLOWnal. Os samples de “Abrigo de vagabundos” (Adoniran Barbosa), em gravação do Demônios da Garoa, são apenas o começo de um surpreendente e novo cruzamento de rap com samba (paulista). E o sujeito ainda possui humor e um fraseado afiadíssimo.

2) “O mundo (Panela de pressão)” (BNegão & Os Seletores de Frequência)



Nove anos separam a estreia solo de BNegão em Enxugando Gelo deste recente e igualmente ótimo disco Sintoniza Lá. Entre muitas canções cheias de suingue e politização destaque para “O mundo (Panela de pressão)”, uma mistura de funk, rap, rock e afoxé sobre as encruzilhadas desse mundão grande sem porteira.

3) “Afoxoque” (Curumin, com participação de Russo Passapusso)


Música de Arrocha, um dos melhores discos do ano e o terceiro trabalho solo do multiinstrumentista, cantor e compositor paulistano. Influências africanas misturadas com programações eletrônicas dão o tom de uma poética e poderosa canção de protesto feita em parceria com Russo Passapusso, vocalista do Baiana System.


4) “Exu parade” (Otto)


Otto talvez seja o mais conhecido dessa lista, afinal começou no Mundo Livre S/A nos anos 1990 e depois construiu sólida carreira solo (dois anos atrás emplacou “Crua” em trilha de novela global). “Exu parade” está em seu quinto disco, The Moon 1111, e é uma pedrada das mais dançantes do cancioneiro do pernambucano. Pop, batuque, música eletrônica e celebração em alta velocidade.

5) “Piloto de fuga” (Maga Bo, com participações de Funkero e BNegão)


Disco de estreia do produtor americano que vive desde 1999 no Rio de Janeiro, Quilombo do Futuro é uma impressionante mistura de ritmos nordestinos, música eletrônica, africanidades e pancadões. Entre as muitas e ótimas faixas destaque para “Piloto de fuga”, uma prova da relevância e do poder sonoro do funk carioca. Sem falar na vontade louca que dá de sair dirigindo pela cidade (qualquer cidade, estrada).

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

os 30 discos brasileiros de 2012 e algo mais

bem, a lista de melhores músicas brasileiras do ano já trazia indicações de quais discos ficariam entre os bonzões: as estreias de gaby amarantos, los sebosos postizos, maga bo, oquadro e alvinho lancelotti, e ainda curumin, tulipa ruiz, lucas santtana, letuce, gui amabis, siba e bnegão & os seletores de frequência. discos fortes, variados, alegres, melancólicos e, acima de tudo, repletos de ótimas músicas. mas acho que dois discos resumiriam o ano pra mim: arrocha, o terceiro do paulistano curumin, e treme, a estreia de gaby amarantos.


   
arrocha por seus cruzamentos surpreendentes e orgânicos do batuque afro-brasileiro com música eletrônica, e sem jamais esquecer a necessidade por canções, refrões, pegada, balanço, amor, experiências. e por músicas como “afoxoque”, “selvage”, “passarinho”, “treme terra”, “paris vila matilde”, “doce” e “pra nunca mais”, além da regravação linda de “vestida de prata” (paulinho boca de cantor, 1981) e da parceria com russo passapusso (baiana system).



treme por suas gigantescas possibilidades pop. gaby amarantos conseguiu um feito raro no brasil, pois é, ao mesmo tempo, hype e popularíssima (claro que isso não dura muito). seu disco de estreia, que começou a ser lançado no final de 2011 com o clipe de “xirley”, reúne fernanda takai e dona onete, thalma de freitas e zezé di camargo & luciano, zé cafofinho e veloso dias, kraftwerk e gang do eletro, todo um tsunami de altas e baixas culturas. ah, se um pedacinho da música pop mundial tivesse tanta informação como nas músicas cantadas por gaby... exemplos não faltam, vide “merengue latino”, “eira”, “gemendo”, “pimenta com sal”, “mestiça”, “coração está em pedaços”, “ex mai love”, “galera da laje” e “chuva”.

no mais, segue a lista completa:

alvinho lancelotti (o tempo faz a gente ter esses encantos)
caetano veloso (abraçaço)
café preto (café preto)
céu (caravana sereia bloom)
curumin (arrocha)
dona onete (feitiço caboclo)
dudu tsuda (le son par lui même)
gui amabis (trabalhos carnívoros)
hurtmold (mils crianças)
improvisado trio (interferências)
letuce (manja perene)
los sebosos postizos (interpretam jorge ben jor)
lucas santtana (o deus que devasta mas também cura)
maga bo (quilombo do futuro)
nina becker & marcelo callado (gambito budapeste)
oquadro (oquadro)
otto (the moon 1111)
paulo carvalho (o amor é uma religião)
rodrigo campos (bahia fantástica)
sambanzo (etiópia)
shaw (orquestra simbólica)
siba (avante)
silva (claridão)
síntese (sem cortesia)
thiago pethit (estrela decadente)
tom zé (tropicalismo lixo lógico)
tulipa ruiz (tudo tanto)

dessa lista gostaria de destacar ainda os excelentes e densos discos de rap do carioca-paulistano mc shaw (orquestra simbólica) e dos paulistas do síntese (sem cortesia, e ah, paulistas de são josé dos campos), bem como os novos trabalhos de uma turma muito produtiva de são paulo, bahia fantástica de rodrigo campos e metal metal, do trio juçara marçal, kiko dinucci e thiago frança. este último, saxofonista da banda do criolo, também lançou o belo instrumental etiópia sob o pseudônimo sambanzo (dinucci incluso). falando em instrumental, uma ótima surpresa foi interferências, disco de estreia do improvisado trio (marcelo castilha, meno del picchia e pedro ito). e pra finalizar, outras três estreias muito felizes, café preto (projeto adubado de cannibal do devotos do ódio), claridão (do capixaba indie silva) e le son par lui même (o multifacetado primeiro solo de dudu tsuda, que foi jumbo elektro, cérebro eletrônico, trash pour 4, etc). detalhe: os últimos discos a entrar na lista, tipo 43 do segundo tempo, foram abraçaço de caetano veloso e o extraordinário mils crianças do hurtmold.



MENÇÃO HONROSA - não tem como não falar de alguns ótimos tributos/coletâneas lançados no ano, destacando primeiro os que foram produzidos de forma independente, tais como o duplo re-trato los hermanos (com bárbara eugênia, cícero, dan nakagawa, hidrocor, lula queiroga, érika machado, nevilton, do amor, velhas virgens, tibério azul, banda gentileza, nervoso & os calmantes, etc.), o variadão brasileiros (com pélico cantando cartola, mahmundi de rita lee, bazar pamplona de dorival caymmi, etc.) e o muito excelente jeito felindie (tributo ao raça negra com lulina, amplexos, letuce, vivian benford, harmada, minha pequena soundsystem, etc.). menções honrosas também para o multinacional a tribute do caetano veloso (com beck, chrissie hynde, seu jorge, marcelo camelo, jorge drexler, céu, qinho, momo, tulipa ruiz, mariana aydar, etc.) e o projeto transglobal paraense terruá pará vols. 1 e 2 (com gang do eletro, gaby amarantos, mestres da guitarrada, lia sophia, dona onete, pio lobato, metaleiras da amazônia, etc.)

TEM MAIS SAMBA – nem preciso dizer que rolou muito mais coisa, portanto não custa nada mencionar outros discos interessantes/divertidos/desafiadores lançados neste ano e que passaram pelos ouvidos da casa. alguns emplacaram músicas entre as melhores do ano, mas acabaram não entrando na lista principal de discos. então, se não ouviu, ouça a banda dos corações partidos (a banda dos corações partidos EP), abayomy afrobeat orquestra (abayomy afrobeat orquestra), afroelectro (afroelectro), aíla (trelelê), amplexos (a música da alma), arnaldo antunes, edgard scandurra & toumani diabaté (a curva da cintura), banda uó (motel), beto mejía (abraço), bonde do rolê (tropical/bacanal), caio bosco (caio bosco), domenico & joão brasil (taksi EP), doo doo doo (casa das macacas), filarmônica de pasárgada (o hábito da força), flow mc (sensaflownal), fóssil (mocumentário), holger (ilhabela), jair naves (e você se sente numa cela escura…), kamau (... entre), laura wrona (r.h. volcano), madrid (madrid), mahmundi (efeito das cores EP), mão de oito (um dia que já vem), márcia castro (de pés no chão), marginals (marginals 2), marina de la riva (idílio), mr. catra (com todo respeito ao samba), o terno (66), orquestra contemporânea de olinda (pra ficar), orquestra imperial (fazendo as pazes com o swing), pentágono (manhã), psilosamples (mental surf), qinho (o tempo soa), rafael castro (lembra?), rogerman (o caminho do lobo), sasquat (alfazema), ska maria pastora (as margens do rio doce), sobre a máquina (sobre a máquina), sonic junior (inspire), strobo (quando se perde a inocência), tatá aeroplano (tatá aeroplano), trupe chá de boldo (nave manha), vítor araújo (a/b), volver (próxima estação) e zélia duncan (tudo esclarecido – músicas de itamar assumpção).

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

hypnotic em paraisópolis

fiquei sabendo na quarta, pelo tuiter @hypnoticbrass, que o grupo hypnotic brass ensemble estava em são paulo. má como assim? não tinha visto isso em lugar nenhum e os caras não deram mais informações. acabei achando essa nota que esclareceu o mistério e a surpresa: os manos de chicago, uma das bandas favoritas da casa, vieram participar de um pouquíssimo divulgado workshop/pocket show promovido pelo festival percpan em parceria com o estado de são paulo e a tim em paraisópolis (o projeto coisa fina também participou). foi nessa sexta, por volta do meio-dia.



acabei perdendo o comecinho da curta apresentação (meia hora talvez) porque segui a pessoa errada e depois me perdi um pouco na gigante paraisópolis (que já tinha recebido o percpan no ano passado). chegando lá, bem no meio do bairro-favela, o clima era ótimo. palco na rua, gente passando e parando, muitas crianças, comércio aberto, algumas meninas ainda com a roupa de balé da apresentação no ceu paraisópolis, pouco antes, e com a sorte da chuva ter dado uma brechinha. como visto no vídeo acima, a energia dos caras do hypnotic ganhou o reforço percussivo barulhêra do stomp. ah, desculpas pelos tremores camerísticos. minha onda é mais câmera parada mesmo. olha só.





p.s.: “cuernavaca”, uma das músicas do ultimo disco dos caras (em parceria com o pai de sete dos oito integrantes, kelan philip cohran), entrou na lista de melhores de 2012.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

as 30 + 20 músicas gringas de 2012

após as músicas brasileiras do ano, agora, na retrospectiva 2012, é a vez das melhores feitas pelo resto do mundo (ou numa parte dele). interessante notar uma razoável quantidade de artistas bem novos, tais como alabama shakes, frank ocean, kendrick lamar, la yegros, lianne la havas, michael kiwanuka, petite noir, tame impala e theesatisfaction. mas também veteranos como bobby womack, david byrne, getatchew mekuria, jimmy cliff, kelan philip cohran, leonard cohen, snoop lion e lee scratch perry.

quem passa por aqui sabe que a música negra e suas várias caras estão no topo das prioridades da casa, mas de alguns anos pra cá tenho conseguido mais acesso à música dos nossos hermanos da américa do sul, tanto pelos argentinos da zzk records quanto pelo trabalho colombiano do produtor inglês quantic, além de inúmeras coletâneas e artistas como o pessoal do bomba stereo.

alguns discos excepcionais – já já rola a lista dos melhores – dificultaram a escolha de apenas uma música. a saber: blundetto (warm my soul), leonard cohen (old ideas), quantic, alice russell & combo bárbaro (look around the corner), michael kiwanuka  (home again), menahan street band (the crossing) e the skints (part & parcel). então, saca só a lista com as 30 melhores músicas. claro que não esqueci da incontornável e realmente ótima gangman style”, o hit que dominou o mundo em 2012.

akua naru - “tales of (wo)men
alabama shakes - “hold on
andrew bird - “near death experience
blundetto & courtney john - “warm my soul
bobby womack - “the bravest man in the universe
cody chesnutt - “under the spell of the handout
david byrne & st.vincent - “i am an ape
frank ocean - “lost
getatchew mekuria & the ex  and the friends - “bati
iggy pop - “et si tu n'existais pas
jack white - “weep themselves to sleep
jimmy cliff - “bang
kelan philip cohran & hypnotic brass ensemble - “cuernavaca
kendrick lamar - “backseat freestyle
la yegros - “viene de mi
leonard cohen - “different sides
lianne la havas - “forget
m.i.a. - ”bad girls
menahan street band - “three faces
michael kiwanuka - “bones
nneka & black thought - “god knows why
norah jones - “all a dream
petite noir - “till we ghosts
psy - “gangman style
quantic, alice russell & combo bárbaro - “similau
snoop lion - “la la la
spoek mathambo - “let them talk
the heavy - “be mine
the skints - “can’t take no more
tony hymas & the bates brothers - “the way back home

mas como o mundo é grande (e meu coração e ouvidos também) segue uma lista complementar com outras 20 belezuras.

akalé wubé - “mata
antibalas - “sare kon kon
ariya astrobeat arkestra - “march of the idiots
bomba stereo - “el alma y el cuerpo
brother ali - “namesake
busdriver, open mike eagle & nocando - “werner herzog
cat power - “sun
easy star all-stars, mikey general & spragga benz - “thriller
gonjasufi - “nikels and dimes
jungle by night - “rangda
kinny - “upside/down
lee fields & the expressions - “you’re the right kind of girl
lee scratch perry & erm - “capricorn
los miticos del ritmo - “la libanesa
mexican institute of sound - “méxico
shawn lee's ping pong orchestra - “spy seduction
tame impala - “elephant
theesatisfaction - “queens
wrongtom & deemas j - “east london
y.n. rich kids - “hot cheetos and takis

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

yahoo #56

a política cultural voltou a ser tema lá no yahoo e a turma dos comentários obviamente surtou com o 'vale cultura' criado pelo governo federal. o texto da semana é "10 músicas que você deveria ter ouvido em 2012", um desdobramento da lista que coloquei aqui com as 30 + 20 melhores músicas brasileiras do ano.

Surprise !

VALE CULTURA OU É POR QUILO?

Lançado em julho de 2009 pelo então presidente Lula, o Vale Cultura passou por uma longa via crucis em Brasília até finalmente ser aprovado pela Câmara dos Deputados, em 21 de novembro último, e no Senado, ontem. O último passo agora, e o mais previsível deles, é a aprovação da presidenta Dilma Roussef. Os R$ 50 mensais servirão a trabalhadores em regime de CLT, e que ganhem até 5 salários mínimos, “para entrar em teatros, cinemas, comprar livros, CDs e consumir outros produtos culturais”. Segundo o Ministério da Cultura, o número de trabalhadores beneficiados pode chegar a 12 milhões.

Na época de seu lançamento , o projeto recebeu críticas reveladoras tanto da oposição, liderada pelo então senador & amigo de bicheiro Demóstenes Torres, quanto pela grande imprensa. Em editorial, o Estadão afirmou que o “mais grave é o risco de que grande parte do dinheiro, em vez de ajudar na formação dos trabalhadores de baixa renda, vá para produtos e eventos culturais de grande apelo popular, mas com escasso teor educativo, como shows de axé, livros de autoajuda e comédias de gosto duvidoso protagonizadas por atores de televisão”. Notem, por favor, os exemplos pinçados pelos senhores editorialistas (axé, autoajuda e comédias com atores de TV).

No mesmo dia, na Folha de S. Paulo, Gilberto Dimenstein afirmou algo parecido: “Não é elitismo querer que dinheiro público não patrocine espetáculos de shows de música funk, sertaneja ou pagode. Ou que vá para autores de livros de autoajuda ou filmes de violência. Assim como obviamente, não tem nada de errado que as pessoas se divirtam como quiserem”. Quer dizer, não tem nada de errado se a patuléia quiser o mesmo que você, né Sr. Dimenstein-Sabe-Tudo-do-Bom-e-do-Melhor?


Críticas assim, de um elitismo galopante e descarado, dizem mais sobre quem as faz do que sobre o que é criticado. Poderiam dizer que R$ 50 é muito pouco ou então que esse esquema de renúncia fiscal é passível de corrupção. Não, nada disso. A simples ideia de garantir acesso à cultura (qualquer cultura) aos mais pobres, mesmo que timidamente e com riscos de falta de adesão, parece uma ofensa na cabeça dessa gente fina, elegante e nada sincera que se acha melhor que os outros.

Não importa se a pessoa usar os R$ 50 para comprar um livro do Padre Marcelo Rossi, um DVD sertanejo, um ingresso para o filme novo do Bruno Mazzeo ou uma coletânea pirata de funk. Aí vai de cada um e é preciso respeitar (coisa rara nesse tempo de ditadores de regras). Cultura é movimento e produção, acesso e distribuição, variedade e necessidade, uma coisa puxando as outras. Se o Vale Cultura vai dar certo são outros quinhentos, mas é certo que pelo menos se procure uma ou mais iniciativas para diminuir a desigualdade de acesso a um dos bens mais importantes da vida humana, coisa que o Ministério da Cultura, na gestão Ana de Hollanda, não vinha fazendo (assunto tratado no texto “Estamos perdidos?”).

p.s.: e por falar em Vale Cultura, acho que o pessoal da redação da Veja está precisando do benefício. A mesma revista que definiu como “idiota moral” um dos maiores historiados do mundo, Eric Hobsbawn (1971-2012), disse ontem, por meio de seu principal articulista raivoso, que Oscar Niemeyer (1907-2012) era “metade idiota”. Quando dois gênios que contribuíram imensamente para a cultura mundial são chamados de idiotas por uma publicação acho que fica bem claro de que lado é melhor ficar.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

as 30 + 20 músicas brasileiras de 2012

começo a temporada de retrospectivas aqui no esforçado com as melhores músicas brasileiras do ano segundo a humilde opinião da casa. ainda rolarão por aqui os melhores discos e clipes nacionais, e discos e músicas da gringolândia (também conhecida como resto do mundo). a categoria ‘clipes nacionais’ é a novidade dessa retrospectiva porque achei um ano excepcional na produção audiovisual, muita coisa boa mesmo e nos gêneros mais variados. de resto, a única diferença é que aumentaram um pouco mais o tanto de escolhidos. na retrospectiva de 2009 foram 10, já em 2010 e 2011 o número aumentou para 25. agora são 30.

de alguns discos – que, não coincidentemente, estão entre os melhores do ano – foi particularmente difícil escolher apenas uma música. isso aconteceu nos discos de alvinho lancellotti (o tempo faz a gente ter esses encantos), bnegão & os seletores de frequência (sintoniza lá), céu (caravana sereia bloom), curumin (arrocha), gaby amarantos (treme), gui amabis (trabalhos carnívoros), letuce (manja perene), los sebosos postizos (interpretam jorge ben jor), lucas santtana (o deus que devasta mas também cura), maga bo (quilombo do futuro), oquadro (oquadro), siba (avante) e tulipa ruiz (tudo tanto). nessa horas a gente precisa ser forte, engole o choro moleque. afinal de contas, a vida é ‘escolhas’ e listas são fotografias de um instante. bola pra frente.

como é de praxe aqui não tem essa coisa de primeiro, segundo, terceiro lugar. assino embaixo do pessoal do hominis canidae que, em um email pedindo listas pessoais de seus colaboradores/amigos/colegas, afirmaram que eram “discipulos do satanique samba trio e achamos que ordenar é apenas mais uma pratica cristã ultrapassada”. segue a lista.

a banda dos corações partidos - “a carta de amor
afroelectro - “pra sonhar
alvinho lancellotti - “alegria da gente
beto mejia - “vermelho
bnegão & os seletores de frequência - “o mundo (panela de pressão)
caetano veloso - “um abraçaço
céu - “baile de ilusão
curumin & russo passapusso - “afoxoque
don l & flora matos - “enquanto acaba
dona onete - “poder da sedução
edi rock & seu jorge - “that’s my way
flow mc - “pode para
gaby amarantos - “merengue latino
gui amabis - “tiro
letuce - “areia fina
los sebosos postizos - “toda colorida
lucas santtana - “músico
maga bo, funkero & bnegão - “piloto de fuga
mahmundi - “se assim quiser
mão de oito & marcela bellas - “acorda
nina becker & marcelo callado - “armei a rede
oquadro - “balançuquadro
otto - “exu parade
paulo carvalho - “sóis
siba - “preparando o salto
silva - “a visita
tulipa ruiz - “cada voz
volver - “mangue beatle

mas tem muita coisa, muitos sons bons. e naquela linha inclusiva do blog fiz ainda um segunda lista com outras 20 músicas.

amplexos making love
banda uó & luiz caldas - “beija flor
bonde do rolê - “kilo
café preto - “nem se, nem dó
caio bosco - “mendigos de amor
doo doo doo - “carnaval no fogo
filarmônica de pasárgada - “o seu tipo
lurdez da luz - “levante
márcia castro - “de pés no chão
negro leo - “jovem tirano príncipe besta
o terno - “66
orquestra contemporânea de olinda - “mar azul
qinho - “o tempo soa
rafael castro & pélico - “marítima
roberta sá - “no arrebol
rodrigo campos & criolo - “ribeirão
sasquat - “homem guaracheiro
shaw - “coração
síntese - “se escute
tatá aeroplano - “par de tapas que doeu em mim” 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

yahoo #55

já vinha acompanhando o tal funk ostentação da baixada santista quando surgiu o documentário de konrad "kondzilla" dantas e renato barreiros. daí que juntou a fome com a vontade de comer típica pro yahoo. e por lá, aliás, é tempo de "vale cultura ou é por quilo?".


PODE OSTENTAR, PODE RIR DE MIM

A palavra “funk carioca” é xingamento dos mais graves para muitos brasileiros. O som então, nem se fala. Em um dos primeiros textos que fiz aqui no Yahoo! (“Não tem papo, não tem alô”) senti o ódio imenso desse povo que, se pudesse, sairia dando tiro em todo mundo que faz ou ouve funk. Na semana passada, em “O samba sem putaria de Mr. Catra”, apareceram alguns malucos que preferem excluir e xingar que entender e dialogar. Aí fiquei pensando o que essa turma acharia da onda do “funk ostentação”, no qual se fala de carros, motos, bebidas, relógios, roupas e baladas com área vip, e nada de crime ou sacanagem (quer dizer, sempre tem alguma, né?).

Criado na Baixada Santista no final dos anos 2000, o “funk ostentação”  tem muitas origens possíveis. Uma é econômica, pois uma grande parcela da população de baixa renda realmente melhorou de vida nos últimos dez anos (a tal “nova classe C”), o que fica claro em um dos versos de “Pode vim que tem” (MC Bruxo): “O que eu não tenho eu tô querendo”. Novas demandas geram novas rimas.

A outra é de sobrevivência. Nos últimos anos muitos funkeiros da Baixada Santista foram assassinados em uma batalha silenciosa e pouco investigada entre o PCC e a Polícia Militar (vejam reportagens no Farofafá e no Fantástico). O que eles faziam nesse fogo cruzado? Cantavam poder, roubos, diversão, mulheres e as coisas que o dinheiro pode comprar. Alguns deles estiveram no mundo do crime e foram salvos pelo funk, mas seguiam rimando a realidade de familiares, vizinhos, amigos. De uma forma ou de outra, morreram de morte matada MC Primo, MC Careca, Duda do Marapé, MC Felipe Boladão, DJ Felipe da Praia Grande e o empresário Japonês do Funk, entre outros.


Essa música em especial (“Espada no dragão”) fez a transição entre o gangsta e a ostentação, além de ter marcado a estreia de Konrad “Kondzilla” Dantas, o jovem e autodidata diretor de videoclipes que criou o universo de imagens do funk ostentação. Em dois anos Kondzilla virou os olhos de uma nova geração que pegou os proibidões da Baixada e tirou tudo que (aparentemente) tivesse relação com o crime. Era preciso saltar fora desse círculo vicioso de mortes e a saída foi uma equação universal a atemporal: dinheiro (de uma forma genérica, sem precisar revelar a fonte), poder de consumo, diversão e mulheres.

Surgiram assim artistas como MC Boy do Charmes (“Onde eu chego paro tudo”, o “Chega de saudade” do gênero), MC Guime, Rodolfinho, Menoh do Andaraí, Guto, Nego Blue, Léo da Baixada, Neguinho do Kxeta, Juninho e Dimenor DR, todos com clipes dirigidos por Kondzilla. Os milhões e milhões de visualizações desses vídeos no YouTube expandiram seu público para fora da Baixada Santista, o que trouxe muitos shows para todos (olha o dinheiro aí) e influência sob novos nomes da periferia de São Paulo e até – as voltas que o mundo dá – no Rio de Janeiro. Aliás, esse movimento é muito bem explicado no recente e ótimo documentário Funk Ostentação, o Filme (Konrad Dantas e Renato Barreiros, 2012).

Todas as músicas são parecidíssimas e os clipes idem, tudo um monótono desfile de marcas de roupas, bonés, carros, motos, relógios, perfumes, bebidas e o diabo a quatro. Não vai durar muito como toda moda que se preze. Mas esse consumismo funkeiro faz parte do mesmo “espírito de shopping” de quem acha que funk é tipo xingar a mãe. Como será que o ressentido que vive reclamando da “pouca vergonha” se vê nesse espelho que a periferia colocou diante de si?

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

olho pro alto e vejo...

acabei esquecendo de colocar aqui um dos frilas do primeiro semestre, um que fiz para a revista private brokers. como é de história/fotografia - sobre o livro tetos do brasil - não envelheceu nadica de nada .

foto: bruno veiga

O CÉU QUE NOS PROTEGE

Desde que o mundo é mundo, um teto é muito mais que a segurança de que o céu, o sol e a chuva não desabem sobre nossas cabeças. “A história da humanidade está relacionada ao uso dos tetos como suporte para o registro de hábitos, ideologia e crenças do homem ao longo da sua história. Ao estudar a intervenção humana nos tetos, a partir dos primeiros registros nas cavernas até o uso de tecnologia atuais, pode-se conhecer a maneira como vive ou vivia determinada civilização. Como pensavam, no que acreditavam, seus hábitos e seu cotidiano”, explicou Renata Lima, coordenadora editorial de Tetos do Brasil – Origem, História e Arte (Editora Babel).

Experiente produtora cultural que vem se dedicando ultimamente ao mercado editorial, Renata teve a ideia deste trabalho numa viagem a Lisboa, em 2010, quando pesquisava sobre calçadas portuguesas para o livro-ensaio Tapetes de Pedra (19 Design). “Quando pensei em fazer o livro dos tetos tinha certeza que, pelo que já tinha visto mundo afora, teríamos material suficiente para um livro de referência sobre assunto. É que nosso patrimônio é riquíssimo. Basta entrar em qualquer igreja em Salvador ou passear por Brasília, olhar para o alto e perceber que o Brasil vem contribuindo há séculos nessa fina arte”, disse.

Numa edição luxuosa com 240 páginas, o livro traz belos ensaios fotográficos assinados por Bruno Veiga (coloridas) e Cristiano Mascaro (preto & branco) com os mais importantes tetos preservados de edificações brasileiras, e ainda os relaciona, em textos escritos por especialistas, com o momento histórico e estético em que foram realizados. Sem esquecer, claro, das especificidades e misturas da nossa arquitetura tropical.

foto: bruno veiga

É que desde que os primeiros carpinteiros e pedreiros portugueses aportaram por essas bandas, quando o Brasil ainda nem era chamado assim, a influência da metrópole foi sendo revista pelo clima, topografia e materiais disponíveis na colônia. “A austera e sombria casa peninsular portuguesa perdeu sua discrição e aspereza no Brasil e o uso da varanda externa forneceu a necessária integração com o mundo exterior”, afirmou o arquiteto Altino Caldeira, professor da PUC-MG e um dos convidados a escrever em Tetos do Brasil.

O conhecimento técnico dos índios também não era nada desprezível, como muitos experts acharam por bastante tempo, e sua discreta sofisticação fica patente no depoimento que o arquiteto Paulo Mendes da Rocha deu ao livro. “Ele desenhou o teto de uma oca e comparou com o interior da catedral de Florença. Impressionante como a estrutura é similar. O que parece simples é na verdade de uma engenhosidade genial”, revelou Renata sobre uma das surpresas pessoais que teve durante a pesquisa.

foto: cristiano mascaro

De qualquer forma, igrejas e prédios públicos sempre foram os primeiros a ganharem construções mais esmeradas e seus tetos serviam como um fecho de ouro, ou uma carta de intenções, de tudo que estava relacionado à ostentação de seu próprio poder (religioso, político, financeiro, etc). Estão no livro exemplos muito bem preservados da arquitetura do Brasil Colonial em Salvador (Nossa Senhora da Conceição), Olinda (Mosteiro de São Bento) e Sabará (Nossa Senhora do Ó), por exemplo. Mas não há como negar que foram cidades mineiras como Ouro Preto, Diamantina, Tiradentes, Sabará e Congonhas, por causa do Ciclo do Ouro no século 18, que mais se beneficiaram de tanto esmero. “Igrejas e casario demonstram em suas particularidades os resultados de uma arte que unia sentimento, devotamento e grande qualidade expressiva”, resumiu Caldeira sobre o barroco mineiro e seus tetos recheados de anjos e eventos, religiosos ou mundanos.

No início do século 19, com a chegada da Família Real (1808) e a Independência do Brasil (1822), foi a vez da então capital Rio de Janeiro ganhar mais sofisticação em suas construções. E enquanto esse século chegava ao fim, outras cidades e regiões eram beneficiadas por novos ciclos e boom econômicos: São Paulo e o Vale do Paraíba com o café, Manaus e Belém com a borracha. “Dos últimos momentos do Império herdamos os tetos das fazendas do café, das Casas de Misericórdia e dos palácios, onde se concentraram as riquezas que sobreviveram ao tempo do Brasil Colônia”, relembrou Caldeira. No livro, essas heranças são exemplificadas nas fotos das casas de fazenda da região de Bananal (SP) e no impressionante Real Gabinete Português de Leitura no Rio de Janeiro.

Também no final do século 19 ocorreu a primeira grande leva de imigrantes não-ibéricos, o que estabeleceu outros contatos e influências do Brasil com o resto da Europa. De um lado veio o ecletismo, uma mistura de inúmeros estilos arquitetônicos de épocas diferentes, que já estava espalhado pelo Velho Mundo e virou moda nas grandes cidades brasileiras. Por outro, a chegada da luz elétrica e de novas tecnologias que conseguiam moldar mais facilmente ferro e vidro ampliaram os horizontes da então jovem arquitetura brasileira. E os tetos ganharam novos adereços. Assim nasceram o Teatro Amazonas em Manaus, o Teatro Municipal e a Confeitaria Colombo no Rio de Janeiro, e a Estação Júlio Prestes em São Paulo.

foto: cristiano mascaro

Mas foi no século 20, após o fim da Primeira Guerra Mundial, que as mudanças começaram a acontecer mais rapidamente na arquitetura. O que era rebuscado foi se tornando cada vez mais direto, minimalista e (enganosamente) simples, muito por causa do concreto. “Acrescentando um novo repertório aos tetos, que puderam ser simplificados ao extremo, a tônica dessa época foi a limpeza de ornamentos. O modernismo brasileiro enxugou nossa arquitetura das frivolidades e exageros do século 19, buscando novos significados para os espaços de convivência públicos e privados”, explicou Caldeira.

O modernismo de Oscar Niemeyer, cujo auge acontece entre a década de 1940 e a de 1960, aparece em diversas ocasiões no livro, além de alguns herdeiros como Décio Tozzi (Orquidário Ruth Cardoso) e Paulo Mendes da Rocha (Museu Brasileiro de Escultura). É que ninguém no mundo desenhou curvas e retas no concreto com tanta doçura e malemolência quanto o nosso modernismo; o que diz muito sobre quem o faz.