sexta-feira, 27 de março de 2009

mixtape #1 reggae

o reggae entrou na minha vida já tem uns dois anos. veio junto com o dub. acho que de uma hora pra outra comecei a ouvi-los em muitas músicas e nas entrevistas de um monte de gente (quase contemporâneos e também mais novos, muitos brasileiros, alguns gringos). era jamaica pra lá, kingston pra cá, e pensei, só pra citar um exemplo, “o nação zumbi não pode estar errado”. e fui ouvir.

logo descobri o you & me on a jamboree e passei a tomar repetidos tapas na cara – e nunca poderei agradecer o bastante aos caras que mantém o blog, principalmente ao greg, com quem conversei por e-mails para fazer uma matéria para o gafieiras. quanta coisa linda. quanta história. tanta gente. tanta música. minha cabeça deu um nó e, enquanto o nó se agravava, carolina passou a duvidar da minha sanidade e os amigos zombavam surpresos. e eu lá, embasbacado com a habilidade, o balanço e a alegria dos músicos/cantores(as) jamaicanos. outra periferia, mais áfrica.

do reggae conhecia, e detestava, apenas o que todos conhecem, principalmente bob marley. pra mim ele sempre foi (e ainda é) o renato russo do reggae, o raul seixas do reggae. o mártir, o poeta, o santo, e por aí vai. claro que todos são muito mais interessantes e geniais do que é urrado/louvado sobre eles, e isso é constante e humilde aprendizado, mas estou me perdendo e me complicando... porque só queria dizer que fiz uma mixtape, uma coletânea, um best of com algumas das músicas mais bonitas que ouvi nesses últimos anos, reggaes variados, de épocas variadas, homens e mulheres, instrumentais e cantados, mas muito pouquinho, é só um começo... bob marley entrou, claro, e essa, pelo menos, carolina ama.

baixem AQUI. comentem, se possível.

essa é a primeira mixtape do esforçado e outras virão, outros gêneros, outras paradinhas...

seguem as faixas (algumas destas datas são aproximações, afinal a indústria fonográfica jamaicana não era das mais rigorosas em termos de informações, principalmente na virada da década de 1960 para 70).


01 bob marley & the wailers - chances are (1960s)
02 dawn penn - no, no, no (1967)
03 ken boothe - everything i own (1974)
04 hortense ellis - wooden heart (1967)
05 johnny nash – cupid (1973)
06 susan cadogan – fever (1976)
07 jackie mittoo - drum song (1970)
08 freedom singers - come together (1969)
09 im & david - soul brother (1970)
10 barrington levy - englishman (1979)
11 augustus clarke - black foundation (1976)
12 horace andy - skylarking (1972)
13 johnny osbourne - truth and rights (1979)
14 george faith - i've got the groove (1976)
15 the drastics - bulletproof (2005)
16 lee perry - pussy man (2004)
17 sly dunbar - river niger (1980s)
18 the lions - sweet soul music (2008)
19 easy star all-stars & citizen cope - karma police (2006)
20 dj raiz (ministereopublico) - na baixa do sapateiro [bonus] (2009)

quinta-feira, 26 de março de 2009

mamma áfrica mia

não tem jeito, a áfrica é a mãe, o pai, os filhos, primos, tias e avós da melhor música que existe neste planeta. pode prestar atenção nas grandes nações musicais: brasil, estados unidos, jamaica e cuba. tudo é áfrica [pensei depois: claro que nessa tese ficaram de fora a genial tradição árabe e todas as variáveis da música cigana, que vão da índia até a espanha, passando pela explosiva música dos leste europeu; afinal, isso são outras histórias]. em tempos de p2p consegui ter acesso a um tanto bom de músicas novas e velhas do continente e... putz, é mundo grande demais que tem tanto fela kuti (e os filhos femi e seun) quanto el rego et ses commandos, e ainda amadou & mariam, tinariwen, sila & the afrofunk experience, k'naan, mulatu astatke, ignace de souza, king sunny adé, geraldo pino, todo o pessoal do kuduro de angola, etc. ah, e os blogs? dê um pulo e se perca em sítios como likembe, matsuli e awesome tapes from africa, além do blog/selo analog africa. aliás, foi por este que conheci muita coisa, principalmente do benin e de togo, países vizinhos da grande nigéria de fela kuti. um exemplo explosivo, diretamente retirado do disco african scream contest - raw & psychedelic afro sounds from benin & togo 70s (analog africa, 2008), é a orchestre poly-rythmo de cotonou.



baixei o african scream contest e chapei, claro. quando descobri que o o dono do selo é um tunisiano que mora na alemanha, e que ocasionalmente faz viagens de (boa) exploração musical por alguns países africanos, mandei um e-mail para um casal de amigos (daniela e davi), que passaram o ano de 2008 em berlim. a dani achou o disco, comprou e mandou. chorei. é um das coisas mais bonitas que tenho na minha cdteca (imagine, disco fodão mais libreto cheio de fotos e textos históricos e por um preço razoável, isso é coisa impossível de acontecer em terras brasilis). ah, dá pra comprar o disco na excelente loja virtual dusty groove.

quarta-feira, 25 de março de 2009

eles acreditam no semáforo

ok, acabou de acontecer o radiohead em são paulo e no rio, delírio geral, mas podem ter certeza que hoje à noite, mais precisamente no multishow (22h45), o vanguart apresentará um showzaço. acompanhei a gravação em dezembro de 2008 e fiz uma reportagem pra edição de março da monet. o especial, que também sai em cd e dvd, trouxe algumas inéditas, uma cover de dorival caymmi e as partipações de mallu magalhães, luiz carlini e arthur de faria. falei com este último pra matéria da monet, mas a conversa acabou não entrando na edição final (coloquei então a conversa no blog da monet e no gafieiras; versões ligeiramente diferentes conforme o veículo, claro).
então, som na caixa.


o quinteto em foto de marcos hermes

SOM DE GENTE GRANDE

Vanguart vem de vanguarda, mas também de um vídeo sobre o artista plástico Andy Warhol, o que na verdade dá no mesmo. Mas o Vanguart vem mesmo é de Cuiabá, Mato Grosso. Cinco sujeitos, um frontman decidido e, em comum, o rock, mais precisamente o folk rock. Pois então, este grupo é protagonista de uma boa história sobre novos tempos para a música nacional. Revelados por um intenso boca-a-boca na internet e sacramentados pelo sucesso no circuito de festivais independentes Brasil afora, e com apenas um disco cheio de canções em inglês no currículo, o quinteto passou por muita coisa até chegar a recente gravação do especial Multishow Registro – Vanguart. Hélio Flanders, garoto de fala fácil, bom humor e muitas canções pela cabeça, pode conta melhor.

“A gente já entrou no turbilhão quando veio para São Paulo em 2005. Mas até o final do ano passado tudo estava acontecendo em doses homeopáticas. Quer dizer, a gente ia gravar esse show de qualquer jeito, mas seria uma coisa de guerrilha, tanto por não ter condições financeiras, quanto por querer uma coisa mais louca.” Era uma quarta-feira qualquer de janeiro, três e pouco da tarde, e o show havia sido gravado pouco mais de um mês. “Em novembro recebemos o convite do Multishow e sabíamos que seria melhor ter uma ajuda nessa parte [o registro do show]
. A garçonete interrompe e Hélio, depois de pensar um pouco e ver a hora no relógio, solta: Olha, não vou beber cerveja não, vou de suco de pitanga.” O quinteto assinou contrato com a gravadora Universal e se enfurnou por quase 20 dias em estúdio para ensaios e outras milongas pantaneiras, incluindo aí a lapidação de algumas inéditas.

Alheio a modismos que fazem tanto o gosto de grandes gravadoras, o Vanguart ainda conseguiu o surpreendente feito de assumir a produção e direção musical do show, que será lançado em CD e DVD alguns dias após a exibição no Multishow. “A gente quis que o trabalho fosse feito do nosso jeito. Foi uma maneira de nos protegermos de qualquer problema. E não é que não queremos ouvir ninguém, ou que a gente toque pra c******, mas executamos nossa música de uma maneira que precisa ser ouvida com mais atenção. E isso fica mais evidente nesse show e a gente sabe isso melhor que ninguém. Dá pra perceber nuances que normalmente não se consegue ouvir numa casa noturna.”

O quinteto subiu ao palco do Avenida Club, em São Paulo, na úmida noite de 11 de dezembro e a platéia que o esperava era formada por fãs que estavam lá para jogar a favor. “A gente nunca foi inacessível com os fãs, e como não somos da moda, eles são para sempre. São fãs de guerrilha, de fazer boca a boca, de espalhar a banda. Mas acho que isso foi algo que a gente plantou, sabe? Respondemos e-mails, conversamos de igual para igual e recebemos no camarim numa boa. Antigamente você ligava numa rádio e tinha que ouvir o que estava tocando. Hoje na internet tem um milhão de coisas, então pra alguém ouvir a sua música é algo muito especial. Valorizo muito isso.” Ao fundo do palco, uma grande árvore estilizada e assinada pelo cenógrafo Zé Carratu aguardava entre luzes azuis o grupo, seus três convidados (Mallu Magalhães, Luiz Carlini e Arthur de Faria) e ainda um quarteto de cordas. “São pessoas sensacionais que não estão na grande mídia, com exceção da Mallu, e qualquer um que ouví-los vai perceber que são incríveis e deram um upgrade nas músicas.”

Totalmente à vontade no palco, Hélio Flanders brincou com a platéia (“Noite especial, minha gente, até fiz o cabelo! Mentira! Jamais!”) e comandou um show em alta rotagem, no qual alternou sucessos próprios como “Semáforo”, “Cachaça” e “He Yo Silver”, apenas um cover (“O Mar”, de Dorival Caymmi, em versão divertida e veloz) e quatro inéditas (“Entre Ele e Você” e “Promessas de Navegação”, entre elas). Cada vez mais cantando e compondo em português, Flanders assume as mudanças com naturalidade. “Mesmo que algumas pessoas possam achar que por causa disso estamos nos ‘dobrando ao mercado’ tenho absoluta certeza que qualquer compositor que faça músicas em inglês no Brasil se frustra cedo ou tarde. Senti a necessidade de criar canções que mexessem com as pessoas e que desse uma resposta imediata. Os compositores que mais admiro são aqueles que cutucam as pessoas - Lou Reed, John Lennon, Bob Dylan, Chico Buarque e Cartola, por exemplo - e de uma maneira bem modesta também queria fazer isso.”

Amparado pelos amigos Luiz Lazzaroto (teclados), David Dafré (guitarra, vocais), Reginaldo Lincoln (baixo, vocais) e Douglas Godoy (bateria), o decidido Flanders quer ampliar os horizontes do Vanguart e emplacar parcerias com outros músicos. “Um dia desses estava pensando assim: não é a gente que é bom, é o resto que é ruim. O rock brasileiro é muito tosco, em sua grande maioria. É tocado muito mal, gritado, não existe capricho no som. Mas aí, de uma hora pra outra, ouvi umas dez bandas muito boas. Aí pensei: f****!!! Vamos ter que sacudir, tocar muito bem, porque tem gente boa por aí. E o mais bacana é que nenhum deles vai parar de produzir porque não estourou.” Música também serve para isso, continuar vivendo.

sobre os convidados...

Mallu Magalhães
A sensação Mallu e Hélio Flanders namoraram por alguns poucos meses no ano passado e se tornaram bons amigos desde então (criaram um projeto paralelo chamado Overcoming Folk Trio). Ela canta e toca gaita em “The Last Time I Saw You”.

Luiz Carlini
Uma das lendas vivas da guitarra brasileira, Carlini é membro-fundador da Tutti-Frutti, banda que acompanhou Rita Lee entre os anos de 1973 e 78 (época dos discos Fruto Proibido e Babilônia). Tocou slide guitar na inédita “You Know Me So Well”.

Arthur de Faria
O gaúcho maluco e genial possui carreira sólida como instrumentista, compositor, arranjador e produtor, mas ainda é pouco conhecido para além dos Pampas. Toca acordeon em “Robert” e assina arranjos de cordas em três outras músicas.

duelo de titãs

"... a verdade é que aqui a gente fica grávido de gêmeos de adjetivos!"
amaury jr., sobre as belezas da casa de clodovil em ubatuba

"mas você tem uma xoxota velha trancada que não libera, heim, amaury!!!"
clodovil, aos risos, sobre um certo encabulamento de amaury jr.

e é tudo verdade.

terça-feira, 24 de março de 2009

caixa de entrada

essa veio do oga, que mandou: "melhor refrão do rap... rs". speed e tigrão, ponte musical entre niterói e são gonçalo, barbarizando a clássica "easy lover" de phil collins e philip bailey (não lembram? ah, olha só aqui). detalhe: speed é autor dos discos expresso (2001) e meu nome é velocidade (2008), parceiro de black alien e co-autor do hit "quem que caguetou?"; tigrão é integrante da dupla aliança 21, também formada por mahal (filho de luiz melodia), e que lançou o disco apocalipse (2007). aumente o volume!


segunda-feira, 23 de março de 2009

ary “dubhead” barroso

mais bahia. conheci lá no sombarato o coletivo ministereopúblico, um sistema de som baiano que acaba de disponibilizar gratuitamente algumas músicas em seu blog. reggae, dub, dancehall e, principalmente, ragga estão em um cardápio irregular, mas cheio de vontade (tem ainda "redoma" e "necessidade", boas demais). destaque para essa genial versão dub da clássica, e baianíssima, "na baixa do sapateiro" (feita pelo mineiro-carioca ary barroso e lançada originalmente em 1938 pela luso-carioca carmem miranda). escuta só.

ô betz

nunca entrevistei maria bethânia. é uma daquelas "coisas pra se fazer antes de morrer", principalmente se for pro gafieiras. então, quando estreou na tv o documentário música é perfume, do suiço georges gachot (janeiro de 2008), fiz uma matéria pra monet e como bethânia não me deu moral (não ela, claro, mas sua assessoria) pensei em falar com algumas cantoras e ver qual era a influência da grande dama em suas carreiras. as gentis (e talentosas) alzira e, rita maria e fabiana cozza me atenderam e o texto saiu assim. ah, lembrei de bethânia porque marcus preto escreveu ontem na folha sobre um blog que compartilha gravações ao vivo da cantora que nunca saíram em disco. é o maria bethânia re(verso). e esse post é dedicado às adoradoras de betz que conheço. minha amada carolina e as amigas daniela, adriana, gabriela, cris e ludmila (que fez aniversário ontem, parabéns). esqueci alguém?

PERFUME DE BETHÂNIA

Bendita entre as cantoras, Maria Bethânia vem conseguindo manter, há pouco mais de 40 anos, uma das carreiras mais originais, coerentes e comercialmente bem sucedidas da história da música popular brasileira. Protagonista do documentário Música é Perfume, uma das estréias do mês no Canal Brasil, a intérprete baiana é mostrada em toda sua paixão e meticulosidade, tanto em shows e ensaios quanto em sua intimidade, tudo sob o olhar atento do cineasta Georges Gachot. Especialista em música erudita, o suíço se encantou com a forte presença de palco de Bethânia em um show no célebre Festival de Montreux. Mas isso é coisa mais que sabida pelo público brasileiro e por inúmeras gerações de cantoras nacionais que a tomaram como referência (mesmo porque não existem “seguidoras de Maria Bethânia”).

Alzira E, Rita Maria e Fabiana Cozza, cantoras de trajetórias e gerações diferentes, já sentiram essa força estranha que tomou o gringo pelos olhos e ouvidos. Cada uma a sua maneira. Mato grossense radicada em São Paulo, Alzira E (E de Espíndola), 50 anos, tem sete discos no currículo e canções gravadas por figuras como Ney Matogrosso e Zélia Duncan, boa parte delas feita em parceria com Itamar Assumpção. “Conheci Bethânia no final dos anos 1960, cantando ‘Carcará’, e ela me passou uma força tão grande com aquela voz e aquele sotaque. Foi quando me interessei por toda uma cultura musical nordestina que até então era muito distante pra mim”. Desde então, as músicas cantadas por Bethânia entraram de vez no repertório da ouvinte e fã. “Ela no palco é tão intensa e real, mas do seu repertório o que mais me acompanhou foi do disco Drama – Anjo Exterminado (1972). Todas ali são muito especiais pra mim”. E ela tem algum defeito, algum ponto fraco? “Só se for o meu, quando escuto
Anjo Exterminado”, e dá uma risada.

Mais jovem e com apenas um disco lançado, Fora de Órbita (2005), a cantora e compositora Rita Maria, 33 anos, ouvia Bethânia em casa por influência dos pais. “Depois veio o programa Plunct Plact Zum, em 1984, com a canção
Brincar de Viver. Mas a primeira audição consciente foi por volta dos 15 anos quando descobri o vinil de Recital na Boite Barroco (1968)”. Pouco mais tarde, quando começou a cantar, a paulistana sentiu as diferenças. “Mesmo não tendo a voz grave ou buscando no meu gesto vocal toda a teatralidade que ela traz, usei isso, a força da interpretação do texto, como uma referência pessoal, inclusive na hora de compor. Vejo o trabalho dela ser construído com muita coerência, tudo o que ela canta vem com a assinatura da intérprete, traz uma marca, uma cara, e transita por muitos repertórios”.

Já Fabiana Cozza, 31 anos, uma das mais elogiadas intérpretes de samba da atualidade e com dois discos na bagagem (o mais recente, Quando o Céu Clarear, acabou de ser lançado) declarou que “ouço Bethânia desde muito pequena. As primeiras canções de que tenho recordação são
Explode Coração e Sangrando, ambas do Gonzaguinha”. Hoje em dia, Cozza se espelha em Bethânia nessa busca da intérprete. “Ela fez uma escolha pelo caminho da intérprete, o que amplia a visão da arte dela e nos presenteia com essa grandeza. Costumo dizer que você pode ser uma ótima cantora ou uma intérprete do canto, um ótimo ator ou um intérprete do teatro. Bethânia é essa voz que pode se desdobrar no que quiser sobre o tablado porque tem o palco como espaço do sagrado”. Palavras delas ao som da Abelha Rainha.

e agora, uma pequena entrevista que fiz por e-mail com o diretor georges gachot.

MONET - Quais foram suas primeiras impressões ao ouvir Maria Bethânia? E o que te levou a decidir fazer um filme sobre ela?
GEORGES GACHOT - A primeira vez que ouvi Maria Bethânia foi em Montreux. Acho que em 1996. Foi também meu primeiro contato com a música brasileira. Nesta noite descobri uma fantástica artista que sabe como dividir sentimentos musicais com seu público. Fiquei impressionado por sua musicalidade pura, pela escolha de repertório e pelo modo como passa de uma música para outra. O poder de sua voz pode ser comparado com a força de um planeta! Desde 1989, o sentido da minha vida é transpor sentimentos musicais para a tela. Por causa disso estou permanentemente em busca deste poder musical e de artistas que o carreguem. Não quis produzir uma biografia e sim fazer com que o poder de sua voz fosse visualmente acessível.

Quais foram as maiores surpresas que você teve ao pesquisar e, posteriormente, falar com e sobre ela?
A maior surpresa que tive veio em forma de música. Ainda estou sob o encanto de canções como
Motriz (Caetano Veloso), Luar do Sertão (Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco) e Negue (Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos). Bethânia também me fez descobrir Chico Buarque. Nossa visita a Santo Amaro da Purificação e o encontro com Dona Canô e Caetano Veloso nos deram um panorama maior de como encarar a arte de Bethânia. Também fiquei muito impressionado com suas convicções, concentração, profissionalismo e o jeito como constrói sua arte no trabalho diário. Por causa dela acabei fazendo de um dos versos da música Samba da Benção (Baden Powell e Vinicius de Moraes) - “É melhor ser alegre que ser triste” – a filosofia que tento seguir dia após dia.

Como está caminhando este seu novo documentário sobre a Nana Caymmi?
Bethânia me fez entrar no mundo da música brasileira e assim descobri Nana Caymmi. Queremos apresentar um lado de Nana Caymmi que o público brasileiro não conhece e ao mesmo tempo com um apelo diferente para o público internacional. Esperamos finalizar o documentário até o fim de 2009.

domingo, 22 de março de 2009

sexta-feira, 20 de março de 2009

do piano de rolo ao mp3

o pedro alexandre entrevistou o produtor pena schmidt sobre o compartilhamento de música na internet, o negócio da indústria, etc. imperdível. separei esse trecho.

pena schmidt - não sabem [a indústria fonográfica] fazer de outra maneira, e querem que o mundo todo pare para eles, para eles continuarem sem descer do mundo. não estão tendo capacidade a se adaptar a um novo meio de comunicação. estamos falando de uma indústria que sempre lidou com essa ambiguidade. a indústria, sempre, desde o seu princípio, deu para poder vender. no tempo que a música ainda era no piano de rolo, chiquinha gonzaga e zequinha de abreu eram demonstradores de loja. ficavam tocando piano para chamar atenção das pessoas. as primeiras vitrolas ficavam na calçada tocando música. quando começam a rádio nacional e as gravadoras, já era exatamente isso: toca no rádio para vender o disco, e de lá até 1990 e... quando mesmo fechou a última rádio de música [risos]? ainda tem uma ou outra, né? enfim, o caminho normal seria am, fm, mp3. os três significam a mesma coisa, veículos para divulgar. a indústria se recusou a entender a internet como isso. dá até para entender no primeiro momento, mas se recusou a se adaptar, pô, durante já 15 anos, dez no mínimo.

who watches the watchmen?

opa, opa & opa. vi lá no nassif que o gilmar mendes, o juiz menos ajuizado do brasil, solicitou censura às reexibições do programa comitê de imprensa (tv câmara) com os jornalistas leandro fortes (carta capital) e jailton de carvalho (o globo). assunto? "grampo do protógenes: como a mídia deve proceder nas escutas ilegais". discussão boa, franca, objetiva, nada partidária. felizmente já caiu na internet. seguem aqui parte 1, parte 2 e parte 3.

mais uma vez, sem provar nada, a veja saiu disparando para os lados de sempre (e desviando atenção dos assuntos-dantas de sempre). mais uma vez, o autoritário e falastrão gilmar mendes seguiu atrás (ele que, recentemente, no acre tentou intimidar o jornalista altino machado que o indagou, "ministro, o senhor tem se manifestado constantemente em defesa da propriedade, contra as invasões, mas em nenhum momento o senhor se manifestou contra dezenas, centenas de assassinatos de lideranças de trabalhadores rurais. isso decorre do fato de o senhor ser ministro ou pecuarista?").

leandro fortes publicou uma carta aberta aos jornalistas do brasil.

e o pau comendo no salgado!

o programa sem meias palavras já é um medalhão entre os clássicos brasileiros do youtube, mas fazia um tempo que não lembrava dele. hoje, coincidentemente, vi uma matéria nova sobre uma lésbica maconheira que foi presa sob a acusação de mandar um boa noite cinderela em um sujeito (olha aqui). aí rolou aquele momento flashback. transmitido pela tv jornal (sbt) lá de caruaru, pernambuco, o programa já mostrou ao mundo figuras como jeremias, o velho que comeu uma prostituta e não pagou, o leonaldo, e tantos(as) outros(as). mas ninguém bate (em) lucivânia, a valentona.

duas fotos

catedral, fortaleza, ceará

sobral, ceará

quinta-feira, 19 de março de 2009

o aldemir dos gatos

falando em cearense internacional acabei lembrando do aldemir martins (1922-2006). encontrei com o homem uma vez e da minha visita ao seu ateliê saiu esse texto que foi publicado na tam magazine de agosto de 2005. figura interessante e tão familiar com sua cara de índio cearense, e tão lúcido que lendo o texto hoje tenho a impressão que tirei menos do encontro que poderia. mas de qualquer forma teve um momento ótimo que foi o ritual do artista tirar uma falsificação de seu trabalho do mercado.

olha o aldemir aí

UM ARTISTA SEM VERGONHA

Ele desce do carro e segue a pé rumo ao ateliê que conserva há 25 anos no bairro de Sumaré, São Paulo. Passos curtos, cautelosos e decididos. Logo abre o portão e desaparece sob as muitas plantas de uma casa moderna, feita em concreto armado, assinada pelo arquiteto Carlos Lemos. Um dos mais importantes e conhecidos pintores brasileiros está feliz da vida. Prestes a completar 83 anos, o cearense Aldemir Martins ganha sua primeira retrospectiva que o flagra desde a juventude em 1945 até o presente ano de 2005. Intitulada Sete décadas de sucessos artísticos, a exposição segue no MASP até 28 de agosto e resume tão longa e premiada carreira em 192 obras (136 pinturas e 56 gravuras em papel).

“É uma loucura ver o quanto já trabalhei”, diverte-se Aldemir ao relembrar de um passeio recente pelos corredores do MASP durante a montagem da exposição. Agora, para botar essa loucura de pé, nas paredes, foi preciso o jornalista, médico e colecionador Benemar Guimarães dar início, há três anos, a uma pesquisa profunda sobre toda sua obra. O trabalho contou com a ajuda dos filhos do artista, Mariana e Pedro Martins, e Umberto Mateus, arquiteto e assistente administrativo de Aldemir. Tal pesquisa também se transformou no luxuoso livro Aldemir Martins por Aldemir Martins (BestPoint Editora), lançado simultaneamente à exposição, que traz pouco mais de 400 ilustrações, reportagens e depoimentos do artista e de seus familiares, além de um prefácio assinado por Emanoel Araújo.

MAS ANTES – Filho de um funcionário público ligado a rede ferroviária com uma índia bugre, Aldemir Martins é do dia 8 de novembro de 1922, do distrito de Ingazeiras, município de Aurora. Ceará. Um Ceará quase Paraíba. Começou a pintar quando prestou o Colégio Militar, já em Fortaleza, e tornou-se ‘cabo-pintor’ para aumentar o soldo. Após voltar à vida civil, e largar de mão dos tanques e caminhões que criava/reproduzia, Aldemir aprendeu mais sobre técnica com mestres pintores acadêmicos como Raimundo Cela (1890-1954). Mas não demorou muito para sentir os primeiros sopros de liberdade artística com o amigo Mário Barata (1915-1983). Incentivado pelo crítico de arte paulistano Paulo Emílio Salles Gomes, que o conheceu em Fortaleza, o cearense decidiu sair de sua terra e tentou o Rio de Janeiro, mas mudou o rumo para São Paulo, aonde chegou em 1946. “Fui um dos primeiros paus-de-arara a chegar aqui, mas não senti medo, porque nem fazia idéia do que era São Paulo”, relembra e logo completa “que o que mais me interessou em São Paulo foi o respeito, porque aqui as pessoas sabiam que eu era artista plástico e eu também sabia. Sempre houve respeito. Fora o fato de que casei aqui, tive meus filhos e fiz toda minha vida nessa cidade”.

E no que o Ceará contribui para a obra de Aldemir Martins? “O Ceará me deu tudo. Tudo o que fiz até hoje é para pagar o que o Ceará me deu e que ainda dá. Minha terra continua me alimentando com vontade de trabalhar, capacidade de fazer coisas bonitas e muito carinho pelo povo”, e o peito octogenário enche ao dizer isso.

DURANTE – A conversa é interrompida por dois donos de galeria que chegam ao ateliê com uma tela falsificada comprada em um leilão de artes no Rio de Janeiro. É o retrato de uma mulher. Quando encontram telas sem certificado, os donos de galeria mais responsáveis as levam para um especialista; é a prova dos nove, digamos assim. Aldemir sorri quando a vê. “Acho divertido ver falsificações do meu trabalho. Você vê que a pessoa tenta imitar e não consegue, e muitas das vezes nem se deu ao trabalho de estudar minha obra. Olha, nunca usei esse tipo de pincel, muito menos esse cor-de-rosa, e a tela que uso é feita artesanalmente”, explica pausadamente enquanto mergulha em um curioso ritual para tirar a tela falsa do mercado.

Tudo começa com a tela sendo fotografada. Depois é danificada pelo próprio Aldemir com um X pintado na frente e atrás para depois o assistente escrever ‘tela falsa’. Aldemir assina. Nova foto. Só então é feito um documento atestando a falsidade da obra que será levado à delegacia para abrir um boletim de ocorrência. Pronto, entrevista segue.

E DEPOIS - Aldemir não demorou a se integrar ao mundo artístico da metrópole e ganhou prêmios importantes nas três primeiras Bienais no início da década de 1950. Tipos nordestinos como cangaceiros e rendeiras pulavam de suas telas, ágeis e modernos, e logo alcançaram fama mundial depois da premiação como Melhor Desenhista Internacional na Bienal de Veneza em 1956. Viajou muito a partir daí. Esteve, e morou, na França, Inglaterra, China, Japão e Estados Unidos, entre outros países. Mas nenhum desses países deu motivos para suas pinturas: “Não sei fazer outra coisa que não seja Brasil”.

Mas mesmo com tantos prêmios e reconhecimento mundial, Aldemir Martins acabou se tornando popular por causa de um felino. Até os mais leigos em artes plásticos conhecem os gatos de Aldemir. A história de como tudo começou é, mais ou menos, a seguinte: “Foi uma encomenda de uma amiga, uma senhora alemã que morava no Rio de Janeiro. Ela queria um companheiro e me pediu para desenhar um gato. Faço gatos até hoje por causa dela e também porque o gato é um ser feminino, tem aqueles movimentos de se torcer e enroscar. Gosto dessa feminilidade do gato. Mas nesses anos todos acho que eles não mudaram nada... quer dizer, só engordaram”, e dá uma risada.

Os gatos o fizeram popular, mas é outro tema, também cheio de movimento, que atrai o artista desde a infância: o futebol. Corintiano devoto, Aldemir retratou Pelé, Rivelino e muitas e diversas jogadas. “É estranho. Aqui no Brasil as pessoas acham que o futebol é coisa de pobre. As pessoas têm vergonha de ser índio. Eu nunca tive vergonha de nada na minha vida e continuo interessado em tudo”, afirma categoricamente. Pausa. Aldemir abre seu livro em uma página qualquer e se perde em pensamentos. Na página, dois galos brigam, espalhando sangue.

p.s.: aqui embaixo uma entrevista que achei no youtube. a entrevistadora... sei não... mas é bom ouvir o aldemir, de qualquer jeito.

chamado da terrinha

acabei de conhecer lá no matias um blog que entrou diretamente na lista dos favoritos aí do lado.
é o cearenses internacionais.
onde mais saberia que tenho conterrâneos tão ilustres como franz kafka, quentin tarantino, mahmoud ahmadinejad, tom wolfe e donatella versace?

p.s.: e o bruno descobriu que é do mesmo autor do wagner & beethoven, o mauro. genial. e conseguiu entrevistar o sujeito aqui.

time dos sonhos

uuuuuuuhhhh.
public enemy + the roots + antibalas lá no late night do jimmy fallon.
pesquei do original pinheiros style.

update na vida

vi santiago do joão moreira salles. foda.



p.s. de alguns dias depois: de uns tempos pra cá venho achando bobo (pra não me alongar nesses assunto agora) fazer "crítica de cinema", ou "crítica de música", ou "crítica" de qualquer coisa. mas porque falei sobre os outros documentários e só tasquei um "foda" para santiago? um tanto pelo documentário ser muito, muito superior aos outros, e pela consequente enorme variedade de assuntos/camadas possíveis de reflexão. o tempo, a consciência, a memória, a criação e a tal luta de classes (lembram dela?), tem tudo isso no filme. tem mais. vou maturar ali e já volto...

quarta-feira, 18 de março de 2009

daniela mercury por tom zé

música novinha, fresquinha. homenagem divertida e sem cerimônias, bem ao jeito do baiano. (ou)vi lá no blog dele. a letra tá aqui, com algumas correções, mas só dá pra ouvir lá.

daniela ferrari (tom zé)

é mercury, muito bem,
e sendo mercury até que já tá bem.

porque quem tem 500 velas como ela
e na passarela aquele charme que chamusca
podia ser até um fusca.

é mercury, muito bem,
e sendo mercury até que já tá bem.

mas poderia ser toyota ou citroen
puma, honda até uma mercedes benz
na verdade ela tem um jeitinho de jaguar
mitsubishi, ferrari
rolls royce ia bem, pontiac, bugatti
oldsmobile... maserati
e para eternizar
uma motorizada conclusão
a doce daniela, até montada numa sela
vai passar de avião.

pois cantora que não roda meu acorde
vai acabar de romisetta, dkv, simca chambord
e se não levanta
a bandeira do tom zé
ela não vai dar
nem no banco de trás
de um chevrolet.

para ler e refletir...

a veja. isso mesmo, a veja. em um projeto ambicioso e totalmente livre, a revista disponibilizou na rede todas suas edições. são 40 anos de uma das revistas mais influentes da história do país. vale pra ler matérias históricas escritas em plena ditadura (ditabranda?) e vale ainda mais para entender como a atual direção da revista destruiu, aniquilou e/ou enlameou, em pouco mais de dez anos, toda a invejável reputação do semanário. vai lá no acervo digital. mas esqueça o passado recente. é melhor.

para ouvir...

o freestyle, amiguinhos e amiguinhas. criado por marcílio gabriel em abril de 2007, o freestyle é um excelente programa de rádio na internet totalmente dedicado ao hip hop alternativo. já passaram por lá dj kl jay & edi rock (racionais mc's), relatos da invasão, elo da corrente, mzuri sana, kamau, mamelo sound system, paulo napoli e contra fluxo, entre outros. a mais nova edição trouxe os chapas do projeto manada, sempre naquelas de bate-papo com boas indicações musicais. o marcílio, aliás, deu seus pitacos na coluna 5prauma do gafieiras.

para entender...

ontem foi lançado na internet um livro que pode e dever ser espalhado por aí. organizado por juliano spyer, do não zero, para entender a internet - noções, práticas e desafios da comunicação em rede reúne 38 autores que tratam de diversas facetas, usos e desafios da internet nos dias de hoje (estão presentes figuras como alexandre matias, soninha francine, sérgio amadeu, edney souza, cris dias, rodrigo savazoni e ronaldo lemos). é trabalho coletivo aberto a interferências via licença creative commons e com versão em pdf disponível gratuitamente aqui. ah, o projeto tem um blog próprio.

spyer, aliás, explica assim a proposta do livro: "muitas pessoas ainda sentem que a tal revolução trazida pela web é uma festa para a qual eles não foram convidados. muitos professores de escolas públicas e privadas, empreendedores, executivos, comunicadores, administradores públicos e uma boa parte da sociedade civil não entendem o motivo de tanta euforia em relação à internet. esse livro pretende ser um convite para que elas entrem e participem da festa".

terça-feira, 17 de março de 2009

e agora, joão?

nessa linha it's all true segue uma matéria que fiz pra monet de novembro de 2008. já tinha trocado alguns e-mails com joão moreira salles por causa da segunda reportagem que fiz pra piauí (a do cemitério de animais), então foi fácil chegar nele. o difícil foi marcar uma entrevista. por telefone, sem chance (também não queria). aí ele me disse que vinha pra são paulo participar de uma palestra na puc sobre os dois anos da revista. mesmo assim não ia dar tempo pr'uma entrevista nos conformes e o jeito foi acompanhar a palestra, mandar uma pergunta durante e ouvir/observar bastante. saiu o texto abaixo. agradecimento aos chapas da cia. de foto pelo retrato de joão. 


O QUE FAZ JOÃO FILMAR?

A mesa parece muito pequena ali no meio do palco, mesmo com a presença de garrafas d’água, copos, microfones e pingüins de geladeira. Pingüins? A simpática ave ganhou uma boina à la Che Guevara e virou símbolo da piauí, revista que momentaneamente tirou João Moreira Salles do circuito de documentários para lhe jogar no mercado editorial. Extremamente tímido em qualquer meio, o carioca de 26 anos precisará domar algumas vergonhas para ser o protagonista de uma noite no qual falará para alunos da PUC paulistana sobre os dois anos da revista, realidade e cinema, muito cinema. Mas ainda falta uma hora para o bate-papo começar. Calma.


Diretor de Entreatos (2004), uma das estréias do mês no Canal Brasil ao lado de Peões (2004) do ídolo e mestre Eduardo Coutinho, João Moreira Salles tem o mesmo nome do avô paterno e é seis anos mais novo que o irmão Walter Salles Jr. (Linha de Passe). Começou a trabalhar com documentários ao lado do irmão, no final da década de 1980, na extinta TV Manchete, mas só ficou mais conhecido em 1998 ao dirigir, em parceria com Arthur Fontes, a série Futebol, sobre a dura saga de garotos em busca do sonho boleiro. Coincidentemente, no mesmo ano que o irmão estourou mundialmente com Central do Brasil. Daí para frente, João Moreira foi mergulhando mais fundo na realidade brasileira e produzindo documentários, sempre documentários. Fundou, também com o irmão, a produtora Videofilmes.


Antes do bate-papo começar, o cineasta e um professor da universidade decidem arrastar a mesa um pouco para frente, mais próxima da platéia. Parece tudo certo agora e assim começa. “Sou um documentarista. Sempre tratei da não-ficção, do mundo - a ficção, na minha família, é outro quem faz [risos] -, e o que aprendi em dez, doze anos de trabalho com isso é que documentário não é necessariamente o tema. É mais como você fala, o jeito que você conta”. Um ano depois de Futebol, João Moreira reuniu-se com Kátia Lund e fizeram o explosivo Notícias de uma Guerra Particular, média-metragem sobre a escalada da violência urbana no Rio de Janeiro. Foi neste vídeo que surgiu Rodrigo Pimentel, então oficial do BOPE. Após duras críticas à política de combate ao tráfico, Pimentel saiu da instituição (mais tarde foi um dos roteiristas de Tropa de Elite). João Moreira também acabou saindo machucado dessa história ao ser acusado de favorecer o traficante Marcinho VP, patrão no Dona Marta, morro da Zona Sul carioca onde foi filmado Notícias.


“O que me faz filmar é o fato de acordar de manhã e ter que exercer uma profissão. Não existe uma grande missão. Ah, preciso filmar porque sou um artista... não sou um artista! Filmo porque foi a profissão que escolhi. Não tem nada de épico ou glorioso nisso. Pelo menos nunca teve pra mim. O que nós fazemos como documentaristas é dar forma ao mundo e organizar as informações para que façam sentido. Aí você joga sobre a realidade o manto da narrativa. (...) Claro que existem temas que me interessam, mas o mais importante é contar uma história de um jeito que ninguém contou”. Com este ímpeto saiu da violência dos morros cariocas para as salas de concerto européias ao filmar Nelson Freire (2003), seu primeiro longa feito para cinema.


Mas antes de lançar o filme sobre o famoso pianista clássico, João Moreira havia registrado, em outubro de 2002, a reta final da campanha presidencial de Luis Inácio Lula da Silva. O cineasta levou quase dois anos para reduzir as 220 horas captadas para uma duração factível. “Tempo é algo essencial. Tempo penetra no DNA do filme, ou da reportagem, e o transforma em outra coisa. É preciso de tempo para pensar, refletir e estabelecer as conexões”. Com o tempo ao seu lado também driblou possíveis usos políticos, afinal Entreatos poderia tanto ser usado pelo Governo quanto pela oposição. “Goste-se ou não do Lula, o fato dele se eleger em 2002, ou de ter tido a chance de se eleger, é um fato único na história do Brasil. Nunca ninguém com sua origem social e política teve uma chance real de se eleger Presidente da República. Aquilo era um fato único e para o documentário o que é único sempre interessa”.


Outro fato único foi a opção de não filmar nenhum ato público. Apenas os bastidores, ou “momentos fracos”, como classificou o próprio cineasta. “São aqueles momentos vividos relaxadamente. Momentos de espera, elevador, quarto de hotel ou traslado. Se perguntassem ao Lula, ali durante a campanha, quais foram os acontecimentos marcantes do dia anterior ele jamais lembraria esses momentos porque só existiram para preencher o espaço entre um e outro momento forte da campanha. Não teve importância nenhuma. Mas isso se torna importante no filme porque foi organizado para ser assim”. E os silêncios, olhares e papinhos acabam sendo mais reveladores que a euforia de 200 mil pessoas em um comício.


Em 2006, João Moreira, ávido leitor, deu uma tacada ousada ao lançar a piauí porque queria ler uma revista que não existia. As estimativas iniciais de pessoas ligadas ao mercado editorial chutavam de 5 a 12 mil leitores para uma revista com grandes reportagens, humor ferino e posição ideológica indefinida. Dois anos depois os números variam de 30 a 35 mil e o sucesso da empreitada fez o cineasta optar por se afastar das câmeras. Mas não da ilha de edição (lançou o íntimo Santiago em 2007) e nem da produção (Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, no mesmo ano). “Escrevi na piauí um texto sobre o Fernando Henrique Cardoso, fiz um documentário sobre o Lula e o procedimento foi rigorosamente o mesmo. A única coisa que mudou foram os instrumentos. Hoje estou na revista, mas amanhã posso voltar a fazer documentários, e mesmo assim não mudo de profissão porque continuo no campo da não-ficção”. E a não-ficção, na forma do apresentador do evento, irrompeu com o anúncio do fim da conversa. Realidade é assim. Quando menos se espera...

segunda-feira, 16 de março de 2009

sim, é tudo verdade

depois do maradona by kusturica entrei, mais uma vez, numas de documentário. não sei se existe isso de "morte da ficção", mas que pessoalmente tenho me interessado cada vez mais por não-ficção (também conhecida como realidade), isso é certo. tanto no cinema quanto na literatura. seguem abaixo 4 filmes que baixei (e vi) recentemente nos torrents da vida.

this film is not yet rated (2006), de kirby dick
- o melhor da leva. político, bem humorado, ousado e rápido no raciocínio. uma investigação sobre os mistérios, absurdos e ilegalidades do sistema de classificação para filmes nos "democráticos" estados unidos. tudo patrocinado pelo falecido e nada saudoso jack valenti e pela mpaa (motion picture association of america). o diretor kirby dick chega a contratar uma detetive particular para descobrir quem são as pessoas, cujas identidades são inexplicavelmente mantidas em sigilo pela mpaa, que... enfim, censuram os filmes nos eua em parceria com os grandes estúdios/corporações. o lance é tão profissionalmente mafioso que faz a censura brasileira dos tempos militares (ditabranda?) parecer coisa de coroinha. segue o trailer.



helvetica (2007), de gary hustwit - dirigido por uma das revelações do gênero este documentário trata exclusivamente da história, dos usos, da influência e das críticas sobre a invisível e onipresente fonte helvetica (criada no final da década de 1950). repleto de ótimas imagens da helvetica espalhada pelo mundo, nas mais diferentes funções, e de boas entrevistas com famosos tipógrafos e designers gráficos, inclusive com o inglês matthew carter que criou esta fonte que você lê agora (verdana), o filme não teme criticar seu próprio assunto, o que é bom para todos. aqui, o site oficial e abaixo, o trailer.



dear zachary: a letter to a son about his father (2008), de kurt kuenne - um chute na boca do estômago, ou na ponta do coração. documentarista e compositor, kuenne fica sabendo da morte de um de seus melhores amigos (adrian bagby), do outro lado dos eua, e começa a produzir um filme para homenageá-lo. nos seis anos que demorou para ser terminado, o filme sofreu radicais mudanças de rumo, principalmente quando se descobriu que a assassina de adrian, uma ex-namorada mais velha, estava grávida. os pais da vítima se mudam para o canadá pra lutar pela custódia da criança e para acelerar o processo de extradição, mas a inacreditável demora/irresponsabilidade da justiça canadense faz a vida de todos sofrer uma nova virada em um filme assumidamente emocional (impossível não sê-lo). aqui, o site oficial e abaixo, o trailer.



moog (2004), de hans fjellestad - nada de indignações ou choros compulsivos neste documentário. trabalho tranquilo sobre o robert moog, o criado do famoso sintetizador moog.
um tantão técnico, um tantinho filosófico (moog é um engenheiro boa praça que andou com muitos músicos malucões), o filme é ótimo passatempo, fica ali no raso, e foi produzido por gary hustwit (helvetica). participações de money mark, keith emerson, rick wakeman, etc.



se quiser saber mais sobre novidades no gênero, uma boa pedida é ir lá no bruno, que já fez documentários sobre chico buarque, maria bethânia e jota quest (além do pouco visto, aqui no brasil, dub echoes).

domingo, 15 de março de 2009

atualizando gafieiras

escrevi lá sobre o genial disco novo de maria alcina, confete e serpentina (outros discos), costurando com verônica ferriani (soul sity records), gostosa estréia da cantora de ribeirão preto.

tem também nova coluna 5prauma, desta vez com dicas do jornalista e fotógrafo otávio valle.

domingueira

então vamos dar aquela levantada no astral porque o sujeito solitário do post abaixo deu uma pesada. ô desgraceira. então, ouvindo recentemente uns remixes e mashups feitos pelo joão brasil lembrei da sua nova onda: misturar lambada e tamborzão com rock'n'roll (e outras coisas). uma das primeiras que ele fez foi pegar "left behind" do cansei de ser sexy e misturar com duas pedradas do kaoma, "dançando lambada" e "chorando se foi". pra melhorar ele também remixa o clipe. requebra, lovefoxxx!



e aqui, a versão original da música no genial clipe da renata abbade. "left behind" é música de donkey (trama, 2008), segundo disco do cansei (ou css, para os gringos). tenho certeza que foi um disco meio ignorado no brasil. dor de cotovelo, claro. escrevi no gafieiras um texto sobre o disco em julho do ano passado.

sábado, 14 de março de 2009

que solidão que nada



taí um homem sincero.
vi lá no matias e acabei conhecendo o dukaramba.
boa noite.

diálogo de dois

casa cláudia - quando são paulo lembra paris?
stéphane malysse (antropólogo usp) - quando saio do cinema reserva cultural, passo na fnac e tomo um café com brownie parece que estou mais perto de jeanne moreau.

hã?

quinta-feira, 12 de março de 2009

frase da noite

"errou? põe shoyu! continuo errado? joga queijo ralado"
olavo schmidt jr., o biah, em pleno fechamento

calado, cão, no chão

loucura total aqui na monet. fechamento da edição de abril com uma matéria de capa que tá dando um trabalho danado, mas tá ficando massa (os 50 melhores filmes do século 21, até agora - escolhidos por um júri composto por 250 personalidades daqui e da gringa). enquanto isso, mais pra dar um oi, dois clipes geniais de um artista idem: romulo froés. o paulistano está pra lançar seu terceiro disco, no chão sem o chão (previsto para abril pela yb discos), e tem outros dois no currículo, calado (bizarre music, 2004) e cão (yb discos, 2006), de onde saíram as músicas "suíte" e "sobre a gente", respectivamente.



quarta-feira, 11 de março de 2009

mano de dios

esporte não é o meu forte. é o meu fraco, aliás. futebol então... até já gostei de jogar, mas acho que nunca gostei de torcer. nem quando achava que torcia (flamengo). aí o futebol foi sumindo, virando piada, indignação, preguiça, sendo aquela emoção intensa apenas em nélson rodrigues, o ultraromântico da pequena área. quer dizer, procuro saber coisa ou outra pra ter assunto na segunda, chutar o vencedor, debochar de quem perdeu. e eu, tranquilão, só jogando amendoim. daí anteontem assisti maradona by kusturica... sou fã do sérvio de muito tempo (underground, pra mim, é um dos melhores de todos os tempos), mas convenhamos que ele não tem cancha de documentarista e fez um assumido filme de amigo-fã (ou vice-versa). tudo bem. assumiu? já ganha ponto. e kusturica procura entender muy sinceramente os problemas e vazios do amigo argentino dosando bom humor, sentimentos à flor da pele e muita música (sua banda, a no smoking orchestra aparece, bem como manu chao). do outro lado, o sempre sincero, articulado e passional maradona dá show. é personagem grande demais (no filme, ele afirmar ser um ator... de sua própria vida). índio, pobre, revolucionário, forte, fanfarrão, amoroso, fraco, gênio, louco, engajado, honesto, etc. & tal, dieguito é coisa rara. impossível não gostar e admirar um sujeito assim, impossível não entender sua paixão pelo futebol. olhaí o trailer do filme com legendas.



não, não acho que seja melhor que pelé. mas que é uma pessoa muito mais interessante, isso é. e outra... tive a impressão, e isso é apenas um chute, que os torcedores argentinos são mais apaixonados, sinceramente (e loucamente) apaixonados pelo esporte e por seus jogadores. enquanto no brasil, a relação é mais "oportunista".

p.s.: engraçado demais a existência da iglesia maradoniana. às vezes parece bom humor misturado com idolatria, mas na maioria das vezes é só coisa de sem noção mesmo. mas talvez pense assim porque sou brasileiro e não goste de futebol, vai saber...

segunda-feira, 9 de março de 2009

pioneiras

putz, e falando em mulher... o gafieiras reuniu um grupo de fotógrafos e estreou ontem o PIONEIRAS. é site, exposição fotográfica virtual e uma homenagem às mulheres na figuras das cantoras inezita barroso, alaíde costa, ademilde fonseca, dóris monteiro, as galvão, áurea martins, carmélia alves, claudette soares, claudia morena, dona inah, eudóxia de barros, márcia e maricenne costa. pelas próximas semanas o projeto estará no mundo real nas tvs de metrô e ônibus em são paulo, e em 150 bares de são paulo e rio de janeiro. né por nada não, mas o trabalho idealizado por ricardo tacioli e tocado com valentia por ele e por andreia do nascimento ficou simplesmente ducaralho (sem esquecer os fotógrafos, claro, gente boa como jefferson dias, joão correia filho, fernando ângulo, etc). um tanto pela ideia original, mas também pelo tipo de divulgação. segue abaixo duas fotos do projeto e um trecho do texto de apresentação.

ademilde fonseca, por jefferson dias

"A exposição fotográfica Pioneiras é uma homenagem à música brasileira e, claro, às mulheres. Focaliza 13 artistas de diferentes gêneros musicais que foram pioneiras em assumir o palco como meio de expressão pessoal e artística entre os anos 1940 e início dos 60. Mulheres que romperam as fronteiras firmadas pela sociedade da época, que as condenavam ao universo doméstico ou a determinadas atividades profissionais. Mulheres que materializaram o desejo de serem artistas num meio dominado pelos homens e pelo machismo. Mulheres que contribuíram para que as gerações seguintes enfrentassem menos trânsito para se expressarem sobre temas vistos da perspectiva feminina."

alaíde costa, por joão correia filho

domingo, 8 de março de 2009

feminina domingueira

não poderia ser outra. é dia internacional da mulher. e já que o itamar assumpção está nos rondando escolhi uma música dele em parceria com alice ruiz, uma das mais femininas já feitas em todos os tempos, em qualquer lugar: "milágrimas". curioso como não existem boas versões da música no youtube. nada com o itamar assumpção e apenas uma de longe com zélia duncan e anelis assumpção, além de uma quase boa com anelis e a banda orquídeas do brasil (a banda feminina que acompanhou itamar em meados da década de 1990, época do disco bicho de 7 cabeças).

mas achei esse video com as orquídeas tata fernandes, nina blauth e simone julian cantando "milágrimas" em algum sítio, em algum interior, em alguma manhã, com direito a cachorros, varanda, mesa de café e até um barrigão grávido (da simone). mais feminino, impossível.



esse video, essa edição domingueira, é uma homenagem a todas as mulheres que fazem parte da minha vida. mas em especial a carolina, o meu amor, a mulher de todos os meus dias e uma das maiores fãs dessa música; a minha irmã ariadne, jovem mãe das boas; e celinha, minha mãe, que fez aniversário agora no dia 5 de março.

sábado, 7 de março de 2009

o rap é o seu facão

o canal do gafieiras no youtube recebe uma nova e valiosa aquisição. video feito por max eluard sobre a entrevista do thaide para o gafieiras. tá massa real!

frase da madrugada

"o meu quarto é um cinema / vejo sempre a mesma cena"
pedro sol (?) na trilha de um show de verão (2004), o filme que deu início à parceria angélica & luciano huck-ceni

quinta-feira, 5 de março de 2009

duas fotos

o abud falou que esteve em juazeiro do norte em viagem a trabalho. aí lembrei que estive lá uma vez, e depois fui pro crato, poucos dias depois da morte do patativa do assaré (que hoje completaria 100 anos). coincidências.

as costas do padim ciço

o fio do pára-raio (será que é assim que agora se escreve?) nas
costas do padim ciço guarda um monte de fitinhas dos romeiros

o nosso espaço e o seu

taciba e daniel (mais alguém?) deram um gás e colocaram no ar o myspace do gafieiras. tá bonito, tá preto & branco & vermelho, tem trechos das conversas com thaide (o entrevistado da vez), clemente e hélio ziskind, e ainda fotos e videos como "o cofre", parte do projeto adoniran foi embora que o gafieiras produziu em 2003.

dê um pulo lá, ouça.

quarta-feira, 4 de março de 2009

fico louco, faço cara de mau

outro ídolo da casa é itamar assumpção. entrevistei uma vez, em 1998, e foi divertido e inusitado (e na casa da amiga alzira espíndola, mãe de iara rennó, que deve ter passado por ali em algum momento). vi um tantão de shows (inesquecível um de 1997 no café piu-piu). tenho todos os discos. paixão das fortes que começou em 1995 ou 96. mas um sacana de um cancêr levou o homem cedo demais. lá no gafieiras lhe prestamos uma homenagem particularmente sentida (não entrevistamos um de nossos heróis, afinal).

em setembro de 2006 saiu, na revista continente multicultural, um texto em que tentei dar conta do artista, mesmo que dando altas palas de fã-orfão.

MALDITO, UMA VÍRGULA!

Foi difícil de acreditar. Surpreendente também. Mas no final de 2005 uma música do compositor paulista Itamar Assumpção, o “maldito”, entrou com destaque na trilha sonora da novela Belíssima de Sílvio de Abreu, um dos maiores sucessos do horário nobre da TV Globo. “Dor elegante”, parceria com o poeta curitibano Paulo Leminski, surgiu para o grande público através da voz de Zélia Duncan, uma das mais ardentes divulgadoras da obra de Itamar, e certamente a com maior entrada no mundo das TVs e rádios. Só que, ironia do destino, Itamar não estava aqui para ver. Morto por um câncer em 2003, aos 53 anos, Itamar fez de sua vida música e também fez música em vida, música popular brasileira, mas não foi reconhecido como deveria.


No entanto, seu “rock de breque”, como gosta de definir o parceiro Luiz Tatit (ex-Rumo), ganhou o reforço de um livro em dois volumes intitulado Pretobrás – Por que eu não pensei nisso antes? O livro de canções e histórias de Itamar Assumpção (Ediouro, 2006). Organizado por Luiz Chagas, também guitarrista de Itamar em muitas ocasiões, e Mônica Tarantino como um misto de songbook, biografia, coleção de depoimentos e galeria de imagens, os dois livros põe os pingos nos ‘is’ de uma carreira dolorosamente independente e radicalmente brasileira, além de revelar um vasto cancioneiro que é muito maior que seus oito discos. O lançamento dos livros, em julho no Itaú Cultural de São Paulo, teve como apoio uma exposição de objetos, vídeos e músicas de Itamar, com destaque para uma letra inédita (“Maldito vírgula”).

Itamar Assumpção nasceu em 1949 na cidade paulista de Tietê e depois se mudou para as paranaenses Arapongas e Londrina, onde conheceu os irmãos Arrigo e Paulo Barnabé. A chegada em São Paulo, cidade que lhe deu régua e compasso, aconteceu em 1973, quando já tinha descartado as profissões de jogador de futebol e ator. A estréia em palcos paulistanos só foi acontecer em 1978 para, três anos depois, Itamar lançar seu primeiro disco, Beleléu, leléu, eu, onde despontaram as músicas “Fico louco” e “Nego Dito”. Neste seu primeiro trabalho Itamar já mostrou traços que carregaria e refinaria em todas suas composições posteriores: a expansão do “eu” dentro da canção, isto é, suas músicas comportam uma imensa variedade de falas, vozes e línguas, muitas vezes sobrepostas; uma inquietação constante com a música e a cultura brasileira; a ironia afiada como navalha; o lirismo pulsante e uma mistura pessoal do rock de Jimi Hendrix, do atonalismo de Arrigo Barnabé e da tradição musical popular negra de figuras como Ataulfo Alves (homenageado em Ataulfo Alves por Itamar Assumpção – Pra sempre agora, de 1995), Clementina de Jesus e Milton Nascimento.


Sempre com alguma dificuldade, os discos de Itamar foram se sucedendo. Vieram Às próprias custas S/A (1982), Sampa midnight – Isso não vai ficar assim (1985) e Intercontinental! Quem diria! Era só o que faltava!!! (1988), todos envoltos pela busca de uma moderna canção popular brasileira em faixas como “Batuque”, “Prezadíssimos ouvintes”, “Navalha na liga”, “Sutil”, “Maremoto” e “Zé Pelintra”. Na virada da década de 1980 para 90, Itamar deixou de lado sua fiel Banda Isca de Polícia para reunir - e tutelar, afinal era personalidade forte que exigia dedicação total de seus músicos à sua música - uma banda exclusivamente feminina, a Orquídeas do Brasil. Surgiu assim Bicho de 7 cabeças (1993) com 33 músicas em três LPs e, para muitos, o auge de seu refinamento como compositor, afinal foram nestes discos que surgiram canções como “Milágrimas”, “Noite torta”, “Vê se me esquece” e “Vou tirar você do dicionário”. Cinco anos depois apareceu um disco que seria o primeiro de uma nova trilogia, Pretobrás – Por que eu não pensei nisso antes..., e uma nova série de canções fortes como “Cultura Lira Paulistana”, “Vida de artista”, “Dor elegante” e “Abobrinhas não”. Mas em 2000 apareceu um câncer no intestino. Itamar seguiu fazendo shows, um sempre diferente do outro, as músicas sempre novas. Entrou ainda outra vez em estúdio, ao lado de Naná Vasconcelos, mas o disco Isso vai dar repercussão (2004) só saiu um ano após sua morte.

Itamar Assumpção foi ídolo de poucos. Um marginal sem opção de fuga. Quando aparecia em jornal tinha que carregar o fardo de ser “maldito”. O compositor de vez em quando tocava em rádios, invariavelmente por vozes femininas. Vozes de Ná Ozzetti, Ney Matogrosso, Cássia Eller, Mônica Salmaso, Ceumar, Rita Lee e Virginia Rosa, além de Zélia Duncan. Mas Itamar também foi cantado por Alzira Espíndola, Jards Macalé, Branca di Neve, Suzana Salles, a irmã Denise Assunção e muitos outros e outras. Seu legado musical também pode ser visto em ação no trabalho da banda paulistana DonaZica. Tendo como integrante sua filha mais nova, Anelis Assumpção, a banda jogou Itamar em mais um liquidificador de vozes, ritmos, poesias e referências das mais diversas. Estas e outras vozes continuarão perpetuando Itamar Assumpção rumo ao futuro. Talvez ele esteja lá esperando. Talvez já esteja noutra.

p.s.: a tv cultura exibiu um show do itamar lá pelos idos de 1983. já tinha visto umas três músicas soltas pelo youtube, mas não sabia que tinham colocado o especial inteiro (acho, tem pouco mais de 40 minutos). olha aí que eu vou ver também: parte 1, parte 2, parte 3, parte 4 e parte 5.

outro p.s.: depois de achar no youtube guigo & hani dublando "milágrimas" tive a certeza que itamar assumpção é sim popular (ou seria zélia duncan?).

segunda-feira, 2 de março de 2009

a ditabranda da folha repercute

o idelber dá mais detalhes sobre o ato público contra a folha de s. paulo marcado para o dia 7 de março, sábado próximo, às 10h. também fala um pouco sobre as repercussões internas, com direito ao ótimo colunista da folha, marcelo coelho, batendo cabeça aqui (como sempre, vale a pena dar uma lida nos comentários). falei do assunto em um post da semana passada. waaal, como diria o louco saudoso paulo francis.

cpc-umes

no tempo que fui fotógrafo "profissional" fiz alguns trabalhos pra gravadora cpc-umes. tudo começou ali no final de 2003 depois que conheci a guerreira mônica battello. o primeiro disco, ser tão paulista do vésper vocal, saiu em 2004 e de lá pra cá aconteceram outros nove CDs (gravadora independente, sacumé, a vida é dura). trabalho gostoso, leve e livre, apesar de sempre ter sentido falta de uma parceria mais próxima com a direção de arte. seguem algumas fotos dos ensaios que rolaram para os três primeiros discos.

ser tão paulista (2004), das meninas do vésper vocal

divino samba meu (2004), de dona inah

a chave do reino do vai-não-volta (2004), do grupo carioca gesta

domingo, 1 de março de 2009

domingueira

fui um dos vários que só conheceu mulatu astatke na trilha do filme flores partidas (2005), do jim jarmusch. a combinação matadora de jazz com música árabe-africana feita por esse músico etíope - que agora tem seus 65 anos - abriu meus ouvidos pr'um novo terreno de possibilidades musicais na áfrica. como se não bastasse todo o afrobeat, a juju music, o kuduro, etc., também existe um jazz muito diferente.

em 2008, mulatu se reuniu ao combo inglês the heliocentrics numa série de shows em londres (o áudio desse show tá disponível na rede), mas o encontro acabou dando tão certo que um disco de estúdio aconteceu. pode anotar aí que inspiration information (2009), da strut records, já garantiu seu lugar entre as melhores coisas do ano: moderno, tradicional, um tantinho eletrônico, orgânico todo, ocidental & oriental, viajandão, funkeado, e com 14 faixas! corra atrás porque esse disco não ganha edição nacional nem que chova canivete. enquanto isso, mulatu & heliocentrics e a clássica "yekermo sew" (que tá na trilha do flores) na apresentação londrina do ano passado.



aqui tem uma entrevista com os envolvidos.

frase da noite passada

"torrone é um suspiro que foi batido a uma exaustão e enduresceu."
um diretor de fotografia paulista & calibradão