quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

as 30 + 20 músicas gringas de 2012

após as músicas brasileiras do ano, agora, na retrospectiva 2012, é a vez das melhores feitas pelo resto do mundo (ou numa parte dele). interessante notar uma razoável quantidade de artistas bem novos, tais como alabama shakes, frank ocean, kendrick lamar, la yegros, lianne la havas, michael kiwanuka, petite noir, tame impala e theesatisfaction. mas também veteranos como bobby womack, david byrne, getatchew mekuria, jimmy cliff, kelan philip cohran, leonard cohen, snoop lion e lee scratch perry.

quem passa por aqui sabe que a música negra e suas várias caras estão no topo das prioridades da casa, mas de alguns anos pra cá tenho conseguido mais acesso à música dos nossos hermanos da américa do sul, tanto pelos argentinos da zzk records quanto pelo trabalho colombiano do produtor inglês quantic, além de inúmeras coletâneas e artistas como o pessoal do bomba stereo.

alguns discos excepcionais – já já rola a lista dos melhores – dificultaram a escolha de apenas uma música. a saber: blundetto (warm my soul), leonard cohen (old ideas), quantic, alice russell & combo bárbaro (look around the corner), michael kiwanuka  (home again), menahan street band (the crossing) e the skints (part & parcel). então, saca só a lista com as 30 melhores músicas. claro que não esqueci da incontornável e realmente ótima “gangman style”, o hit que dominou o mundo em 2012.

akua naru - “tales of (wo)men”
alabama shakes - “hold on”
andrew bird - “near death experience”
blundetto & courtney john - “warm my soul”
bobby womack - “the bravest man in the universe”
cody chesnutt - “under the spell of the handout”
david byrne & st.vincent - “i am an ape”
frank ocean - “lost”
getatchew mekuria & the ex  and the friends - “bati”
iggy pop - “et si tu n'existais pas”
jack white - “weep themselves to sleep”
jimmy cliff - “bang”
kelan philip cohran & hypnotic brass ensemble - “cuernavaca”
kendrick lamar - “backseat freestyle”
la yegros - “viene de mi”
leonard cohen - “different sides”
lianne la havas - “forget”
m.i.a. - ”bad girls”
menahan street band - “three faces”
michael kiwanuka - “bones”
nneka & black thought - “god knows why”
norah jones - “all a dream”
petite noir - “till we ghosts”
psy - “gangman style”
quantic, alice russell & combo bárbaro - “similau”
snoop lion - “la la la”
spoek mathambo - “let them talk”
the heavy - “be mine”
the skints - “can’t take no more”
tony hymas & the bates brothers - “the way back home”

mas como o mundo é grande (e meu coração e ouvidos também) segue uma lista complementar com outras 20 belezuras.

akalé wubé - “mata”
antibalas - “sare kon kon”
ariya astrobeat arkestra - “march of the idiots”
bomba stereo - “el alma y el cuerpo”
brother ali - “namesake”
busdriver, open mike eagle & nocando - “werner herzog”
cat power - “sun”
easy star all-stars, mikey general & spragga benz - “thriller”
gonjasufi - “nikels and dimes”
jungle by night - “rangda”
kinny - “upside/down”
lee fields & the expressions - “you’re the right kind of girl”
lee scratch perry & erm - “capricorn”
los miticos del ritmo - “la libanesa”
mexican institute of sound - “méxico”
shawn lee's ping pong orchestra - “spy seduction”
tame impala - “elephant”
theesatisfaction - “queens”
wrongtom & deemas j - “east london”
y.n. rich kids - “hot cheetos and takis”

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

yahoo #56

a política cultural voltou a ser tema lá no yahoo e a turma dos comentários obviamente surtou com o 'vale cultura' criado pelo governo federal. o texto da semana é "10 músicas que você deveria ter ouvido em 2012", um desdobramento da lista que coloquei aqui com as 30 + 20 melhores músicas brasileiras do ano.

Surprise !

VALE CULTURA OU É POR QUILO?

Lançado em julho de 2009 pelo então presidente Lula, o Vale Cultura passou por uma longa via crucis em Brasília até finalmente ser aprovado pela Câmara dos Deputados, em 21 de novembro último, e no Senado, ontem. O último passo agora, e o mais previsível deles, é a aprovação da presidenta Dilma Roussef. Os R$ 50 mensais servirão a trabalhadores em regime de CLT, e que ganhem até 5 salários mínimos, “para entrar em teatros, cinemas, comprar livros, CDs e consumir outros produtos culturais”. Segundo o Ministério da Cultura, o número de trabalhadores beneficiados pode chegar a 12 milhões.

Na época de seu lançamento , o projeto recebeu críticas reveladoras tanto da oposição, liderada pelo então senador & amigo de bicheiro Demóstenes Torres, quanto pela grande imprensa. Em editorial, o Estadão afirmou que o “mais grave é o risco de que grande parte do dinheiro, em vez de ajudar na formação dos trabalhadores de baixa renda, vá para produtos e eventos culturais de grande apelo popular, mas com escasso teor educativo, como shows de axé, livros de autoajuda e comédias de gosto duvidoso protagonizadas por atores de televisão”. Notem, por favor, os exemplos pinçados pelos senhores editorialistas (axé, autoajuda e comédias com atores de TV).

No mesmo dia, na Folha de S. Paulo, Gilberto Dimenstein afirmou algo parecido: “Não é elitismo querer que dinheiro público não patrocine espetáculos de shows de música funk, sertaneja ou pagode. Ou que vá para autores de livros de autoajuda ou filmes de violência. Assim como obviamente, não tem nada de errado que as pessoas se divirtam como quiserem”. Quer dizer, não tem nada de errado se a patuléia quiser o mesmo que você, né Sr. Dimenstein-Sabe-Tudo-do-Bom-e-do-Melhor?


Críticas assim, de um elitismo galopante e descarado, dizem mais sobre quem as faz do que sobre o que é criticado. Poderiam dizer que R$ 50 é muito pouco ou então que esse esquema de renúncia fiscal é passível de corrupção. Não, nada disso. A simples ideia de garantir acesso à cultura (qualquer cultura) aos mais pobres, mesmo que timidamente e com riscos de falta de adesão, parece uma ofensa na cabeça dessa gente fina, elegante e nada sincera que se acha melhor que os outros.

Não importa se a pessoa usar os R$ 50 para comprar um livro do Padre Marcelo Rossi, um DVD sertanejo, um ingresso para o filme novo do Bruno Mazzeo ou uma coletânea pirata de funk. Aí vai de cada um e é preciso respeitar (coisa rara nesse tempo de ditadores de regras). Cultura é movimento e produção, acesso e distribuição, variedade e necessidade, uma coisa puxando as outras. Se o Vale Cultura vai dar certo são outros quinhentos, mas é certo que pelo menos se procure uma ou mais iniciativas para diminuir a desigualdade de acesso a um dos bens mais importantes da vida humana, coisa que o Ministério da Cultura, na gestão Ana de Hollanda, não vinha fazendo (assunto tratado no texto “Estamos perdidos?”).

p.s.: e por falar em Vale Cultura, acho que o pessoal da redação da Veja está precisando do benefício. A mesma revista que definiu como “idiota moral” um dos maiores historiados do mundo, Eric Hobsbawn (1971-2012), disse ontem, por meio de seu principal articulista raivoso, que Oscar Niemeyer (1907-2012) era “metade idiota”. Quando dois gênios que contribuíram imensamente para a cultura mundial são chamados de idiotas por uma publicação acho que fica bem claro de que lado é melhor ficar.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

as 30 + 20 músicas brasileiras de 2012

começo a temporada de retrospectivas aqui no esforçado com as melhores músicas brasileiras do ano segundo a humilde opinião da casa. ainda rolarão por aqui os melhores discos e clipes nacionais, e discos e músicas da gringolândia (também conhecida como resto do mundo). a categoria ‘clipes nacionais’ é a novidade dessa retrospectiva porque achei um ano excepcional na produção audiovisual, muita coisa boa mesmo e nos gêneros mais variados. de resto, a única diferença é que aumentaram um pouco mais o tanto de escolhidos. na retrospectiva de 2009 foram 10, já em 2010 e 2011 o número aumentou para 25. agora são 30.

de alguns discos – que, não coincidentemente, estão entre os melhores do ano – foi particularmente difícil escolher apenas uma música. isso aconteceu nos discos de alvinho lancellotti (o tempo faz a gente ter esses encantos), bnegão & os seletores de frequência (sintoniza lá), céu (caravana sereia bloom), curumin (arrocha), gaby amarantos (treme), gui amabis (trabalhos carnívoros), letuce (manja perene), los sebosos postizos (interpretam jorge ben jor), lucas santtana (o deus que devasta mas também cura), maga bo (quilombo do futuro), oquadro (oquadro), siba (avante) e tulipa ruiz (tudo tanto). nessa horas a gente precisa ser forte, engole o choro moleque. afinal de contas, a vida é ‘escolhas’ e listas são fotografias de um instante. bola pra frente.

como é de praxe aqui não tem essa coisa de primeiro, segundo, terceiro lugar. assino embaixo do pessoal do hominis canidae que, em um email pedindo listas pessoais de seus colaboradores/amigos/colegas, afirmaram que eram “discipulos do satanique samba trio e achamos que ordenar é apenas mais uma pratica cristã ultrapassada”. segue a lista.

a banda dos corações partidos - “a carta de amor”
afroelectro - “pra sonhar”
alvinho lancellotti - “alegria da gente”
beto mejia - “vermelho”
bnegão & os seletores de frequência - “o mundo (panela de pressão)”
caetano veloso - “um abraçaço”
céu - “baile de ilusão”
curumin & russo passapusso - “afoxoque”
don l & flora matos - “enquanto acaba”
dona onete - “poder da sedução”
edi rock & seu jorge - “that’s my way”
flow mc - “pode para”
gaby amarantos - “merengue latino”
gui amabis - “tiro”
letuce - “areia fina”
los sebosos postizos - “toda colorida”
lucas santtana - “músico”
maga bo, funkero & bnegão - “piloto de fuga”
mahmundi - “se assim quiser”
mão de oito & marcela bellas - “acorda”
nina becker & marcelo callado - “armei a rede”
oquadro - “balançuquadro”
otto - “exu parade”
paulo carvalho - “sóis”
siba - “preparando o salto”
silva - “a visita”
tulipa ruiz - “cada voz”
volver - “mangue beatle”

mas tem muita coisa, muitos sons bons. e naquela linha inclusiva do blog fiz ainda um segunda lista com outras 20 músicas.

amplexos - “making love”
banda uó & luiz caldas - “beija flor”
bonde do rolê - “kilo”
café preto - “nem se, nem dó”
caio bosco - “mendigos de amor”
doo doo doo - “carnaval no fogo”
filarmônica de pasárgada - “o seu tipo”
lurdez da luz - “levante”
márcia castro - “de pés no chão”
negro leo - “jovem tirano príncipe besta”
o terno - “66”
orquestra contemporânea de olinda - “mar azul”
qinho - “o tempo soa”
rafael castro & pélico - “marítima”
roberta sá - “no arrebol”
rodrigo campos & criolo - “ribeirão”
sasquat - “homem guaracheiro”
shaw - “coração”
síntese - “se escute”
tatá aeroplano - “par de tapas que doeu em mim” 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

yahoo #55

já vinha acompanhando o tal funk ostentação da baixada santista quando surgiu o documentário de konrad "kondzilla" dantas e renato barreiros. daí que juntou a fome com a vontade de comer típica pro yahoo. e por lá, aliás, é tempo de "vale cultura ou é por quilo?".


PODE OSTENTAR, PODE RIR DE MIM

A palavra “funk carioca” é xingamento dos mais graves para muitos brasileiros. O som então, nem se fala. Em um dos primeiros textos que fiz aqui no Yahoo! (“Não tem papo, não tem alô”) senti o ódio imenso desse povo que, se pudesse, sairia dando tiro em todo mundo que faz ou ouve funk. Na semana passada, em “O samba sem putaria de Mr. Catra”, apareceram alguns malucos que preferem excluir e xingar que entender e dialogar. Aí fiquei pensando o que essa turma acharia da onda do “funk ostentação”, no qual se fala de carros, motos, bebidas, relógios, roupas e baladas com área vip, e nada de crime ou sacanagem (quer dizer, sempre tem alguma, né?).

Criado na Baixada Santista no final dos anos 2000, o “funk ostentação”  tem muitas origens possíveis. Uma é econômica, pois uma grande parcela da população de baixa renda realmente melhorou de vida nos últimos dez anos (a tal “nova classe C”), o que fica claro em um dos versos de “Pode vim que tem” (MC Bruxo): “O que eu não tenho eu tô querendo”. Novas demandas geram novas rimas.

A outra é de sobrevivência. Nos últimos anos muitos funkeiros da Baixada Santista foram assassinados em uma batalha silenciosa e pouco investigada entre o PCC e a Polícia Militar (vejam reportagens no Farofafá e no Fantástico). O que eles faziam nesse fogo cruzado? Cantavam poder, roubos, diversão, mulheres e as coisas que o dinheiro pode comprar. Alguns deles estiveram no mundo do crime e foram salvos pelo funk, mas seguiam rimando a realidade de familiares, vizinhos, amigos. De uma forma ou de outra, morreram de morte matada MC Primo, MC Careca, Duda do Marapé, MC Felipe Boladão, DJ Felipe da Praia Grande e o empresário Japonês do Funk, entre outros.


Essa música em especial (“Espada no dragão”) fez a transição entre o gangsta e a ostentação, além de ter marcado a estreia de Konrad “Kondzilla” Dantas, o jovem e autodidata diretor de videoclipes que criou o universo de imagens do funk ostentação. Em dois anos Kondzilla virou os olhos de uma nova geração que pegou os proibidões da Baixada e tirou tudo que (aparentemente) tivesse relação com o crime. Era preciso saltar fora desse círculo vicioso de mortes e a saída foi uma equação universal a atemporal: dinheiro (de uma forma genérica, sem precisar revelar a fonte), poder de consumo, diversão e mulheres.

Surgiram assim artistas como MC Boy do Charmes (“Onde eu chego paro tudo”, o “Chega de saudade” do gênero), MC Guime, Rodolfinho, Menoh do Andaraí, Guto, Nego Blue, Léo da Baixada, Neguinho do Kxeta, Juninho e Dimenor DR, todos com clipes dirigidos por Kondzilla. Os milhões e milhões de visualizações desses vídeos no YouTube expandiram seu público para fora da Baixada Santista, o que trouxe muitos shows para todos (olha o dinheiro aí) e influência sob novos nomes da periferia de São Paulo e até – as voltas que o mundo dá – no Rio de Janeiro. Aliás, esse movimento é muito bem explicado no recente e ótimo documentário Funk Ostentação, o Filme (Konrad Dantas e Renato Barreiros, 2012).

Todas as músicas são parecidíssimas e os clipes idem, tudo um monótono desfile de marcas de roupas, bonés, carros, motos, relógios, perfumes, bebidas e o diabo a quatro. Não vai durar muito como toda moda que se preze. Mas esse consumismo funkeiro faz parte do mesmo “espírito de shopping” de quem acha que funk é tipo xingar a mãe. Como será que o ressentido que vive reclamando da “pouca vergonha” se vê nesse espelho que a periferia colocou diante de si?

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

olho pro alto e vejo...

acabei esquecendo de colocar aqui um dos frilas do primeiro semestre, um que fiz para a revista private brokers. como é de história/fotografia - sobre o livro tetos do brasil - não envelheceu nadica de nada .

foto: bruno veiga

O CÉU QUE NOS PROTEGE

Desde que o mundo é mundo, um teto é muito mais que a segurança de que o céu, o sol e a chuva não desabem sobre nossas cabeças. “A história da humanidade está relacionada ao uso dos tetos como suporte para o registro de hábitos, ideologia e crenças do homem ao longo da sua história. Ao estudar a intervenção humana nos tetos, a partir dos primeiros registros nas cavernas até o uso de tecnologia atuais, pode-se conhecer a maneira como vive ou vivia determinada civilização. Como pensavam, no que acreditavam, seus hábitos e seu cotidiano”, explicou Renata Lima, coordenadora editorial de Tetos do Brasil – Origem, História e Arte (Editora Babel).

Experiente produtora cultural que vem se dedicando ultimamente ao mercado editorial, Renata teve a ideia deste trabalho numa viagem a Lisboa, em 2010, quando pesquisava sobre calçadas portuguesas para o livro-ensaio Tapetes de Pedra (19 Design). “Quando pensei em fazer o livro dos tetos tinha certeza que, pelo que já tinha visto mundo afora, teríamos material suficiente para um livro de referência sobre assunto. É que nosso patrimônio é riquíssimo. Basta entrar em qualquer igreja em Salvador ou passear por Brasília, olhar para o alto e perceber que o Brasil vem contribuindo há séculos nessa fina arte”, disse.

Numa edição luxuosa com 240 páginas, o livro traz belos ensaios fotográficos assinados por Bruno Veiga (coloridas) e Cristiano Mascaro (preto & branco) com os mais importantes tetos preservados de edificações brasileiras, e ainda os relaciona, em textos escritos por especialistas, com o momento histórico e estético em que foram realizados. Sem esquecer, claro, das especificidades e misturas da nossa arquitetura tropical.

foto: bruno veiga

É que desde que os primeiros carpinteiros e pedreiros portugueses aportaram por essas bandas, quando o Brasil ainda nem era chamado assim, a influência da metrópole foi sendo revista pelo clima, topografia e materiais disponíveis na colônia. “A austera e sombria casa peninsular portuguesa perdeu sua discrição e aspereza no Brasil e o uso da varanda externa forneceu a necessária integração com o mundo exterior”, afirmou o arquiteto Altino Caldeira, professor da PUC-MG e um dos convidados a escrever em Tetos do Brasil.

O conhecimento técnico dos índios também não era nada desprezível, como muitos experts acharam por bastante tempo, e sua discreta sofisticação fica patente no depoimento que o arquiteto Paulo Mendes da Rocha deu ao livro. “Ele desenhou o teto de uma oca e comparou com o interior da catedral de Florença. Impressionante como a estrutura é similar. O que parece simples é na verdade de uma engenhosidade genial”, revelou Renata sobre uma das surpresas pessoais que teve durante a pesquisa.

foto: cristiano mascaro

De qualquer forma, igrejas e prédios públicos sempre foram os primeiros a ganharem construções mais esmeradas e seus tetos serviam como um fecho de ouro, ou uma carta de intenções, de tudo que estava relacionado à ostentação de seu próprio poder (religioso, político, financeiro, etc). Estão no livro exemplos muito bem preservados da arquitetura do Brasil Colonial em Salvador (Nossa Senhora da Conceição), Olinda (Mosteiro de São Bento) e Sabará (Nossa Senhora do Ó), por exemplo. Mas não há como negar que foram cidades mineiras como Ouro Preto, Diamantina, Tiradentes, Sabará e Congonhas, por causa do Ciclo do Ouro no século 18, que mais se beneficiaram de tanto esmero. “Igrejas e casario demonstram em suas particularidades os resultados de uma arte que unia sentimento, devotamento e grande qualidade expressiva”, resumiu Caldeira sobre o barroco mineiro e seus tetos recheados de anjos e eventos, religiosos ou mundanos.

No início do século 19, com a chegada da Família Real (1808) e a Independência do Brasil (1822), foi a vez da então capital Rio de Janeiro ganhar mais sofisticação em suas construções. E enquanto esse século chegava ao fim, outras cidades e regiões eram beneficiadas por novos ciclos e boom econômicos: São Paulo e o Vale do Paraíba com o café, Manaus e Belém com a borracha. “Dos últimos momentos do Império herdamos os tetos das fazendas do café, das Casas de Misericórdia e dos palácios, onde se concentraram as riquezas que sobreviveram ao tempo do Brasil Colônia”, relembrou Caldeira. No livro, essas heranças são exemplificadas nas fotos das casas de fazenda da região de Bananal (SP) e no impressionante Real Gabinete Português de Leitura no Rio de Janeiro.

Também no final do século 19 ocorreu a primeira grande leva de imigrantes não-ibéricos, o que estabeleceu outros contatos e influências do Brasil com o resto da Europa. De um lado veio o ecletismo, uma mistura de inúmeros estilos arquitetônicos de épocas diferentes, que já estava espalhado pelo Velho Mundo e virou moda nas grandes cidades brasileiras. Por outro, a chegada da luz elétrica e de novas tecnologias que conseguiam moldar mais facilmente ferro e vidro ampliaram os horizontes da então jovem arquitetura brasileira. E os tetos ganharam novos adereços. Assim nasceram o Teatro Amazonas em Manaus, o Teatro Municipal e a Confeitaria Colombo no Rio de Janeiro, e a Estação Júlio Prestes em São Paulo.

foto: cristiano mascaro

Mas foi no século 20, após o fim da Primeira Guerra Mundial, que as mudanças começaram a acontecer mais rapidamente na arquitetura. O que era rebuscado foi se tornando cada vez mais direto, minimalista e (enganosamente) simples, muito por causa do concreto. “Acrescentando um novo repertório aos tetos, que puderam ser simplificados ao extremo, a tônica dessa época foi a limpeza de ornamentos. O modernismo brasileiro enxugou nossa arquitetura das frivolidades e exageros do século 19, buscando novos significados para os espaços de convivência públicos e privados”, explicou Caldeira.

O modernismo de Oscar Niemeyer, cujo auge acontece entre a década de 1940 e a de 1960, aparece em diversas ocasiões no livro, além de alguns herdeiros como Décio Tozzi (Orquidário Ruth Cardoso) e Paulo Mendes da Rocha (Museu Brasileiro de Escultura). É que ninguém no mundo desenhou curvas e retas no concreto com tanta doçura e malemolência quanto o nosso modernismo; o que diz muito sobre quem o faz.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

3 do rio

2012 chegando ao fim, novas listas de melhores do ano sendo cozidas, mas enquanto o mundo não acabar os discos não param de sair. agorinha então vieram à luz três novidades vindas do rio de janeiro, duas da cidade e uma do interior de aço (volta redonda). 


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começamos então com o afrobeat carioca da abayomy afrobeat orquestra e o disco de estreia que leva seu próprio nome. a produção é de andré abujamra e a homenagem ao ritmo criado pelo mestre fela kuti é muito mais respeitosa e fiel que a do bixiga 70 (no entanto, os paulistanos ganham em originalidade no diálogo áfrica X brasil). disco bom, dançante, afro-brasileiro na veia, e ainda traz um cover da potente e felakutiana “no shit”.


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a estreia solo de alvinho lancellotti, filho do compositor ivor lancellotti e irmão de domenico, veio no tempo certo, devidamente maturada após as ótimas experiências na banda fino coletivo (dos discos fino coletivo, de 2007, e copacabana, de 2010). o tempo faz a gente ter esses encantos, em dowload gratuito, é daqueles discos que mostram como é bonito ouvir um samba atual, respeitoso no pé na porta das tradições. o samba precisa muito desses movimentos para levar em frente o estandarte do gênero que fundou o brasil. e na estreia de alvinho, bom cantor e compositor de tudo, tem delícias absolutas como “alegria da gente”, “são tomé”, “vidigal”, “autoajuda” e “é de mamãe”, além das belezas de “meu bloco do amor” e “vazio”.


...

fechando esta seleção, o pessoal do amplexos, que acabou de lançar seu segundo disco, a música da alma. esse sexteto de volta redonda assume logo que a influência principal é a música negra,  “aquela que vem dos guetos e periferias do mundo” (leia-se afrobeat, ska, dub, funk, reggae), mas tem um tanto de rocks e psicodelias no caldeirão das dez faixas do disco (e, olha, senti um lance picassosfalsos em algumas... pode ser viagem). de qualquer forma, em qualquer som, desejam ainda tratar nas músicas de grandes e pequenos temas e a sinceridade desse engajamento tanto faz parte do projeto quanto tocar muito bem e com balanço. nasceram assim – tudo da cabeça de eduardo “guga” valiante, também cantor e um dos guitarristas – músicas ótimas como “sim”, “falsa salsa”, “mistério”, “o homem”, “boladão”, “leão” e “making love”.


p.s.: ah, o amplexos lançou um minidoc com os bastidores da produção do disco, que, aliás, tem produção de buguinha dub e está disponível para download gratuito. e foi um dos participantes do tributo ao raça negra (jeito felindie) com uma ótima versão de “quando te encontrei”.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

yahoo #54

acho que foi em agosto que o muy aguardado disco de samba de mr. catra caiu na rede e a expectativa era alta para quem acompanha a carreira do sujeito. eu, que sempre esperei um disco bem produzido de catra, também me frustrei um pouco. não foi dessa vez. fora as razões musicais que aponto no texto pro yahoo, tenho a impressão que ele não liga muito pra esse lance de discos, nunca ligou. ele só quer as músicas para os shows e tá bom demais. catra, afinal, só faz o que lhe der na telha.




O SAMBA SEM PUTARIA DE MR. CATRA

Ele gosta de ser chamado de “Operário do funk”, o que diz muito sobre como encara seu ofício: música é trabalho (está no batente há quase 20 anos), entretenimento é trabalho (aos 44 anos segue fazendo shows todos os dias). Pra falar a verdade, sua vida toda é trabalho, afinal possui entre 20 e 24 filhos, sempre mais de uma esposa e muitas ex-mulheres.

Figura das mais singulares da música popular brasileira, Mr. Catra é tudo isso, mas é também um sujeito espiritualizado, autoproclamado “judeu salomônico”. Esse lado religioso, despertado por uma viagem a Jerusalém em 1999, acabou entrando no seu conhecido repertório de funks hipersexualizados, proibidões ou de crítica social. Mas ele também é machista, sexista e homofóbico. E bem humorado e a favor da legalização das drogas para acabar com o tráfico. O Isaac Hayes da Tijuca é um liquidificador de mil loucuras e sanidades.

Como se tudo isso fosse pouco, Catra encarou recentemente um disco de sambas, heresia total para alguém que começou no rock, passou pelo rap e ganhou notoriedade no funk. Na humildade lhe deu o título de Com Todo Respeito ao Samba. Mas talvez, talvez não, com certeza, humildade e respeito acabaram atrapalhando seu acerto de contas com a tradição de sua cidade. Claro que tem coisa boa – além dessa “Eu só quero paz” salvam-se as ótimas “Triste fim da mina”, “Sua foto” e “Mangueira é uma mãe” –, mas faltou mais Catra nesse samba (o pessoal do Fita Bruta, um dos poucos veículos que resenhou o disco, ficou ainda mais frustrado que eu).


O resultado abaixo das expectativas não tem nada a ver com sua interpretação, segura, rascante, dolorida como sempre. A voz de Catra é uma das mais fortes e cheias de balanço dos últimos tempos, mas a produção musical nunca ajuda. Nos funks geralmente é pobre e nesses sambalanços ficou quadrada, achatada. Todos os arranjos tem aquele peso de teclados e batuque careta, confirmando que o samba pop carioca foi definitivamente ganho por diluições da turma de Cacique de Ramos (Arlindo Cruz, Jorge Aragão, Zeca Pagodinho, etc.), produção do Rildo Hora, aquela coisa toda. Rolam até uns saxofones oitentistas estragando “Happy end” e “Tão lindo”, faixas que poderiam ser boas baladas soul.

Tudo é limpinho demais, redondinho demais, o que é exatamente o oposto do que Catra sempre fez. Um cara que cantou pedradas como “Júri popular” (player abaixo) agora vai de beatices constrangedoras como “Minha vida é um milagre de Deus” e “Evolução”.


Agora é torcer para Catra voltar logo aos bons tempos de molecagem. O funk e o samba carioca, atualmente tão carentes de novidades e vozes poderosas, agradeceriam. Porque, da minha parte, sempre vou achar mais legal um cara que fala “Putaria é sexo com alegria, putaria é quase amor” – frase já clássica registrada no documentário 90 Dias com Catra (direção de Rafael Mellin, 2010) – do que o que diz “Muito obrigado Senhor por esse mundo de maravilhas”. Mas aí vai de cada um.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

o funk dos patrão'

certamente foi o farofafá o primeiro veículo de imprensa a falar com mais profundidade sobre um dos fenômenos musicais populares mais impressionantes dos últimos anos: o funk ostentação (majoritariamente da baixada santista). teve uma ótima reportagem de renato barreiros sobre konrad "kondzilla" dantas, o diretor de videoclipes que deu o acabamento visual para o ritmo, e depois uma entrevista que eduardo nunomura fez com barreiros sobre "funk ostentação", um excelente documentário curta sobre o fenômeno produzido em parceria com kondzilla. saca só.



impressionante ver esses movimentos sociais-econômicos-culturais brasileiros. a chegada e ascensão do funk ostentação tem tanto a ver com a emergência recente das classes D e E quanto uma saída para o funk gangsta que vitimou inúmeros artistas populares da baixada santista (mc primo, duda do marapé, etc). e como isso fez a volta e agora está influenciando até o próprio funk carioca e alguns jovens artistas de rap.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

yahoo #53

por anos a fio pensei em fazer algo com as "versões místicas" de grandes sucessos pop (majoritariamente internacionais) feitas para louvar o figuraça inri cristo. nunca me importei se ele e as inrizetes acreditavam realmente no que pregavam, ou se eram um bando de malucos, ou malandros... deixem eles lá, não tão fazendo mal a ninguém... mas os vídeos são impagáveis, quase todos boas obras de humor (intencional ou não). pensei até em fazer aqui pro esforçado uma detalhada análise vídeo por vídeo, mas preferi fazer um apanhadão pro yahoo, o que fez mais sentido.


PAI Ó PAI

Já são quatro anos e meio de produção e pouco mais de 30 vídeos. Então, a essa altura do campeonato, podemos afirmar que Inri Cristo possui uma considerável obra audiovisual digna de análise. Aquelas “versões místicas”, sabe? Paródias de grandes sucessos do pop rock nacional e internacional com letras de louvor ao “emissário do Pai” em clipes surreais e primitivos da cabeça aos pés.

Provavelmente a primeira que vi foi a de “Umbrella” (Rihanna) e tudo já estava ali: a jovem Alara apresentando a mensagem do vídeo com algum elemento cênico; o vocal sempre desencontrado das cantoras Asusana e Alíbera (sempre nos cantos esquerdo e direito do vídeo, respectivamente); a filmagem caseira pelas árvores do terreno da Suprema Ordem Universal da Santíssima Trindade; cenas roubadas de bancos de imagens; fotos de arquivo de Inri e algumas silenciosas e impagáveis aparições. Enfim, diversão nonsense garantida.

Vieram loucuras como o espírito boxeador de “Eye of the tiger” (Survivor), uma corajosa versão a capela de “What a feeling” (Irene Cara), o êxtase sacolejante em “Single ladies” (Beyonce), a doçura épica de “We are the world” (Michael Jackson e Quincy Jones), a transformação de “Take you there” (Sean Kingston) em um quase rap e os surtos eletrônicos de “Hot n’ cold” (Katy Perry) e “Just dance” (Lady Gaga). O sagrado balaio de gato de Asusana e Alíbera também vitimou “Hotel California” (Eagles), “Living on a prayer” (Bon Jovi), “Wind of change” (Scorpions), “Crusader” (Saxon) e “Rehab” (Amy Winehouse). Mas nessa primeira fase nada supera o “plágio divino” de “Toxic” (Britney Spears). Saca só o grau de genialidade tosca.


Deu um vazio no coração quando notei, em meados de 2010, que Alíbera, minha preferida, tinha sumido das “versões místicas”. Será que ela largou de vez esse lance de Inri? Nunca soube. Revelador que o último vídeo que gravou foi uma cover do bolerão “Contigo aprendi” (Armando Manzanero) em algum lugar na Cordilheira dos Andes (?!). Uma nova fase (para todos) começava.

Com a saída de Alíbera, Assinoê tornou-se protagonista. Ela, que já havia feito uma participação davidlynchiana em “Sorry” (Madonna), passou a cantar com seus dramáticos olhos malucos e voz grave coisas tão diversas como “Breaking the law” (Judas Priest), “Judas” (Lady Gaga), “Imagine” (John Lennon), “Rolling in the deep” (Adele), “Ai se eu te pego” (Michel Teló), “Warriors of the world united” (Manowar) e “Ciúme” (Ultraje a Rigor). Nessa segunda fase, os vídeos passaram a ganhar outros cenários, desde novas partes da Terra de Inri até as margens do Lago Paranoá (Brasília), e recursos visuais mais, digamos assim, sofisticados.

A fiel e animada Alara também foi promovida e contribuiu com uma atuação mais moleca-romântica, o que ajudou muito em “I want to know what love is” (Foreigner), “Baby” (Justin Bieber), “Did it again” (Shakira) e “Friday” (Rebecca Black), sempre em dupla com Asusana. Só que, ambiciosa, encarou sozinha “A banda” (Chico Buarque), uma das músicas preferidas de Inri.

De um ano para cá, novas “inrizetes” vem sendo testadas, o que acabou jogando Asusana para escanteio. A mais promissora é a bela e expressiva Adeí que apareceu dividindo microfone com Alara em “We r who we r” (Ke$ha), mas já encarou o desafio solo na complexa e dolorida “Conquest of Paradise” (Vangelis). A outra é Alysluz, que ainda precisa se soltar um tantão, mas não se preocupem porque Alara há de ensinar. Só que em tão pouco tempo, Alysluz teve a sorte de participar de dois dos melhores vídeos da carreira das “versões místicas”: a superprodução “Gangnam Style” (Psy) e “Wannabe” (Spice Girls).

O que acho mais lindo nisso tudo é o desprendimento, o auto deboche. Nesse fantástico mundo maluco da internet vídeos assim viram piada instantaneamente – e lá se vai a “mensagem” de Inri Cristo pelo ralo – e a turma continua produzindo, ano após ano. Sabem talvez que falem bem, falem mal, mas falem de mim (quer dizer, Dele). De qualquer forma todos os envolvidos devem se divertir bastante, e os de fora que tem bom humor também. Isso é o que importa, ó Pai, ó.

Até sempre, pessoal. Com ou sem pimentões.


p.s.:  E se você quiser saber um pouco mais sobre Inri Cristo tome um chopinho com ele em companhia de Michel Blanco.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

esforçando o instagram #13

foi em julho, 29 de julho, que o playcenter abriu pela última vez. já tinha colocado aqui umas fotos da primeira vez que fui lá - pouco mais de um mês antes de seu fechamento! -, mas não das que tirei no seu derradeiro dia de funcionamento. na verdade queria ter escrito algo, mas acabei não encontrando um caminho narrativo. paciência, ficaram as fotos.













+ foto bônus

p.s.: já que essa seção é de fotos "instagramadas" nada melhor que finalizar com mais uma paródia afiadíssima de marcelo adnet sobre a ferramenta tendo como base "tarde em itapoã" (toquinho e vinicius de moraes). via trabalho sujo.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

yahoo #52

nem vou repetir o quanto sou fã de laerte, afinal ele tem aqui até uma seção própria ("laerte da semana"). mas resolvi escrever sobre ele no yahoo porque além de todo seu gênio no ofício este seu processo de feminização (essa palavra existe?) é uma das coisas mais interessantes e enriquecedoras no atual debate sobre direitos para homossexuais e transgêneros. e é preciso usar espaços populares-malucos como o yahoo para colocar essas questões (os comentários por lá são, como era de se esperar, repletos de preconceitos variados).



LAERTE, MAIS QUE UM ROSTINHO BONITO

Cerca de três anos atrás o cartunista Laerte Coutinho, um dos artistas mais importantes das artes visuais brasileiras, passou a dar mergulhos profundos e públicos na própria sexualidade. Quem acompanha suas tirinhas diárias no jornal Folha de S. Paulo já poderia prever que algo estava para acontecer, pois desde 2004/05 elas estavam mais existenciais, filosóficas. Mas então, em 2009, o paulistano começou a virar mulher. Quer dizer, mulher não.

Era o mesmo Laerte de sempre só que com roupas femininas, maquiagem, acessórios, depilação, assumidamente bissexual, e querendo seriamente experimentar um possível “ser mulher” sendo homem (nunca teve intenção de fazer cirurgia de troca de sexo, por exemplo, mas vem pensando em próteses de silicone). Tudo isso foi uma surpresa para os filhos, namorada, amigos e fãs. Mas quem está vivendo na pele, dia após dia, essa surpresa e essa batalha é o próprio Laerte.


  
“Gênero é uma construção social que faz parte da cultura e não da biologia. As possibilidades são inúmeras”, afirmou em recente entrevista à revista Continuum (Itaú Cultural). Homem, mulher, roupa de homem, roupa de mulher, nada disso importa. O que importa mesmo é ser livre e respeitado. O resto vai de cada um.

Agora, o fato de ser muito querido como artista/profissional ajudou um bocado na boa aceitação social de sua nova vida. Com pouco mais de 40 anos de carreira e um curriculum invejável de personagens (Piratas do Tietê, Overman, Palhaços Mudos, Deus, etc.) e obras (Laertevisão, Los Tres Amigos, Muchacha, etc.), Laerte é um privilegiado. Ele sabe disso.



Por isso vem usando suas entrevistas em revistas e TVs (“De frente com Gabi” e “Roda Viva”, por exemplo) como uma forma leve e didática de registrar sua busca pessoal e, ao mesmo tempo, quebrar tabus. Em um mundo que não oferece alguns dos direitos civis mais básicos a homossexuais e transgêneros, a discussão proposta por Laerte parece muito avançada. E é mesmo.

Basta ver a disposição de deputados federais irresponsáveis como o trio João Campos (PSDB-GO), Pastor Eurico (PSB-PE) e Pastor Marco Feliciano (PSC-SP) que vem tentando revogar a resolução do Conselho Federal de Psicologia que proíbe profissionais da área de oferecerem tratamento para “curar” homossexuais. Coisa mais óbvia do mundo, afinal homossexualidade não é doença. Intolerância sim é uma doença e, felizmente, tem cura: educação.



Em reportagem da Exame, Marco Feliciano chega ao absurdo de afirmar que “Não é que nem negro que nasce negro e não tem como mudar. ‘Homossexualismo’ pode ser mudado”. Provavelmente se existisse uma cura para negritude esse homem de Deus lutaria por um tratamento voluntário. De um sujeito que já disse que a AIDS e a fome surgiram na África por causa da “maldição do paganismo, ocultismo” é possível se esperar qualquer coisa.

Mas é isso. As coisas do mundo não caminham em linha reta. São camadas variadas, níveis diversos, ocasionalmente fazendo curvas bruscas à direita ou esquerda, passando por solavancos, dando cavalos de pau. No entanto, alguém ter que se linha de frente, dar a cara pra bater. Sessentona enxuta, Laerte é a cara mais lindamente maquiada de quem respeita a diferença, luta pelo amor e recusa o ódio.


p.s. esforçado: depois lembrei de um vídeo muito divertido feito pelo comediante carioca rafucko que trata justamente de um dos "argumentos" mais recorrentes dos intolerantes dos tempos de hoje, a tal da "ditadura gay". as coisas que a gente tem que ouvir nessa vida...

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

a resposta é...

não sou de poesia, nunca fui. tentei durante um tempo e gostei de alguns caras batutas como t.s. eliot e e.e. cummings. até cheguei a escrever algumas ali pelo final da década de 1990, mas vi que não era a minha, não dava conta. só que uma poesia em particular nunca me saiu da cabeça desde que conheci sua autora na biblioteca do meu pai (seção 'leste europeu/rússia') muitos anos atrás. "versos à tchecoslováquia" foi escrito em 1939 pela russa marina tsvetaeva (1892-1941) por conta da invasão nazista ao país vizinho e é uma das mais fortes odes à liberdade e ao espírito (político) livre. só que marina não se dobrou também aos seus próprios conterrâneos que transformaram a revolução popular de 1917 em um absurdo banho de sangue interno. e pagou caro por isso: viveu na pobreza, perdeu uma filha para a fome, outra filha foi presa, o marido executado acusado de espionagem e, finalmente, o seu suicídio aos 48 anos (quinze dias após a morte do marido, sergei efron). "versos à tchecoslováquia" continua tremendamente atual e serve como alerta constante contra novos e velhos obscurantismos, a violência de sempre.


Versos à Tchecoslováquia
tradução de Augusto de Campos

Lágrimas de ira e de amor!
Olhos molhados, quanto!
Espanha em sangue!
Tchecoslováquia em pranto!

Montanha negra -
Toda a luz amputada!
É tempo - tempo - tempo
De devolver a Deus a entrada!

Eu me recuso a ser.
No asilo da não-gente
Me recuso a viver.
Com o lobo regente

Me recuso a uivar.
Com os tubarões do prado
Me recuso a nadar,
Dorso quebrado.

Ouvidos? Eu desprezo.
Meus olhos não têm uso.
Ao teu mundo sem senso
A resposta é - recuso.

sábado, 3 de novembro de 2012

yahoo #51

nesse primeiro texto yahoozístico pós-campanha escolhi um assunto que queria tratar há tempos: quadrinhos. os últimos anos tem sido sensacionais em termos de lançamentos aqui no brasil e posso falar com conhecimento de causa porque compro e leio quadrinhos nacionais e internacionais desde meados dos anos 1980. na primeira parte, o texto é um apanhado pessoal, enquanto na segunda é um vôo panorâmico sobre os livros em quadrinhos (as tais 'graphic novels') de 2012. quem conhece quadrinhos tá careca de saber de tudo isso, mas é que foi feito como uma apresentação desse mundo pros leitores do yahoo.




CADA UM NO SEU QUADRINHO

Tem gente que até hoje acha que quadrinho é coisa de moleque, criança ou adolescente. Eu descobri criança, ali em meados dos anos 1980, que o buraco era mais embaixo, ou ainda, que os melhores quadrinhos eram aqueles que usavam essa linguagem tão popular para tratar de temas tremendamente adultos. E eles existiam aos montes! Na verdade desde sua origem, na virada do século 19 para o 20, com o extraordinário Little Nemo (1905-14/1924-27), de Winsor McCay. Claro que só fui saber disso muito depois.

No começo eram os super-heróis: Batman, X-Men, Homem Aranha, Hulk, DC Comics e Marvel, aquela coisa toda. Mas aí dentro desse universo comecei a ver coisas diferentes, densas, como Batman – O Cavaleiro das Trevas (Frank Miller, 1986), Elektra Assassina (Miller e Bill Sienkiewicz, 1986-87), Batman: Ano Um (Miller e David Mazzucchelli, 1987), Batman – A Piada Mortal (Alan Moore e Brian Bolland, 1988), Asilo Arkham (Grant Morrison e Dave McKean, 1989) e o Monstro do Pântano de Alan Moore.

E as portas definitivamente se abriram com V de Vingança (Alan Moore e David Lloyd, 1982-85), Watchmen (Alan Moore e Dave Gibbons, 1986-87), Maus (Art Spiegelman, 1986/91), a Mafalda do argentino Quino, a Valentina do italiano Guido Crepax, as moças do também italiano Milo Manara, as aventuras do francês Moebius e o pioneirismo de Will Eisner. No Brasil eram os tempos de Chiclete com Banana (Angeli), dos Piratas do Tietê (Laerte), da revista Circo (editada por Luiz Gê e Laerte) e da saudosa Animal, revista que me fez conhecer um mundo inteiro de artistas de primeira como Tanino Liberatore, Daniel Torres, Fábio Zimbres, Andrea Sapienza, os irmãos Jaime e Gilbert Hernandez, e Lourenço Mutarelli.

Tudo isso que foi citado tinha (e tem) uma coisa em comum: linguagem pop, impacto visual e dedo na ferida (nas mais diversas feridas).


Acredito que nos últimos anos os quadrinhos se cristalizaram como uma das mais relevantes artes populares. E que o mercado editorial brasileiro vem conseguindo dar conta de lançar grandes álbuns estrangeiros e estimular a produção nacional (graças às editoras guerreiras Conrad, Devir e Zarabatana Books, e ao atual poderio da Quadrinhos na Cia.). Não é o ideal, poder ser mais, e ainda é um pouco caro, mas estamos muito melhores do que já estivemos. Basta dar uma olhada nos lançamentos deste ano para se ter pistas disso.

Entre os gringos é possível entender um pouco sobre as relações entre o Oriente Médio e os Estados Unidos em Os Melhores Inimigos (Jean-Pierre Filiu e David B.) ou da história chinesa em Adeus Tristeza – A História dos Meus Ancestrais (Belle Yang). Acompanhar leituras particulares das vidas de grandes personalidades como J. Edgar Hoover (Rick Geary) e Freud (Anne Simon e Corinne Maier) ou de zés-ninguéns como Wilson (Daniel Clowes). E o subgênero ‘confessional’? Está lá em Pagando por Sexo (Chester Brown). Porém, nada melhor que fábulas barra pesada como Pinóquio (Vincent ‘Winshluss’ Paronnaud) e Habibi (Craig Thompson).

Já no Brasil tem o confessionalismo moleque de Momentos Brilhantes da Minha Vida Ridícula (Adão Iturrusgarai), a fantasia Monstros! (Gustavo Duarte), a crônica sexual-racial de Deus Essa Gostosa (Rafael Campos Rocha) e a deliciosa aventura de A Máquina de Goldberg (Vanessa Barbara e Fido Nesti). Destaque especial para os relançamentos luxuosos de Avenida Paulista (Luiz Gê), Diomedes (Lourenço Mutarelli) e Toda Rê Bordosa (Angeli).

Histórias diversas, traços ainda mais, tudo unido em nome de obras que se mostram atualmente mais adultas que o cinema, mais impactantes que a literatura e mais humanas que o noticiário.

p.s.: Até o final do ano deve sair Crônicas de Jerusalém, do sempre excelente Guy Delisle, enquanto não chegam por essas bandas Building Stories (Chris Ware, o mesmo de Jimmy Corrigan) e Journalism (Joe Sacco, de Notícias de Gaza). Sem falar em mais Rafael Coutinho, Rafael Grampá, Dash Shaw, Charles Burns, Marjane Satrapi, Caeto Melo, Alison Bechdel, muita gente boa pra dedéu...