quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

o mundo é um bordel

mais três textos pra edição de fevereiro da Revista Monet. os que fiz sobre Amanda Seyfried e Sydney Sweeney, a dupla protagonista do thriller A Empregada, mas acho que não vou colocar por aqui não. prefiro o que fiz pra Dona Beja, nova novela brasileira da HBO, que tem entrevistas com um dos roteiristas (António Barreira) e um dos amores de Beja (David Júnior). não consegui falar com Grazi Massafera porque ela está trabalhando sem parar na novela global das 9 que está no ar agora (As Três Graças).

SENHORA DE TANTOS AMORES

Grazi Massafera é a nova encarnação da sensualidade e dos dramas de Dona Beja, figura lendária e real do Brasil Império, em novela na HBO Max

Ana Jacinta de São José não veio ao mundo a passeio. Ela amou e foi desprezada, enriqueceu e sofreu abusos de todo tipo, foi temida e desejada, criou uma família aos trancos e barrancos e comandou a política de sua cidade diretamente de um bordel. Tudo isso nas Minas Gerais do Brasil Império. Ana Jacinta, mais conhecida como Dona Beja (1800-1873), é até hoje uma lenda muito viva em Araxá (MG). Então, quarenta anos após sua primeira encarnação na TV, interpretada por Maitê Proença na extinta TV Manchete, Dona Beja renasce e ganha novo corpo em Grazi Massafera na segunda novela brasileira da HBO Max. 

Escrita por Daniel Berlinsky e António Barreira, Dona Beja terá 40 capítulos e tem como base os livros Dona Beja: A Feiticeira do Araxá de Thomas Othon Leonardos e A Vida em Flor de Dona Beja de Agripa Vasconcelos. Além, claro, da novela Dona Beija, um grande sucesso em 1986 que transformou Maitê Proença em sex symbol nacional. A atriz, aliás, foi uma das que melhor definiu a trajetória da personagem que interpretou. 

“Antes de completar 15 anos, Beja já era vista como uma ameaça para as damas da sociedade por conta da beleza extraordinária. Não conseguiram enxergar a menina, mas sim uma mulher feita e perigosa. O ouvidor do rei, Dom Joaquim Inácio, ‘apaixonado’, a sequestra e a mantém como sua amante por dois anos. A família, humilde, se viu impotente para recuperá-la das garras de um homem tão poderoso. E ela só volta para casa quando o ouvidor retorna a Portugal. Em Araxá, em vez de vítima, a menina foi tratada como uma sedutora, depravada. Machucada, a Beja vira a mesa e passa a dormir cada noite com o homem de sua escolha. Toma-lhes joias e muito dinheiro, tem filhos com eles. E assim, graças à inveja e ao desejo dos tortos, ela constrói fama, família e fortuna. Tanto fizeram que ela virou mulher rapidinho e soube se vingar”, disse Proença em vídeo de uma série chamada ‘Mulher de Fibra’ que fez para suas redes sociais alguns anos atrás. 

POR ELA SONHAM OS HOMENS

Barreira, um dos roteiristas da nova Dona Beja, é português e destrinchar a história brasileira, e suas relações íntimas e conflitantes com Portugal, foi um desafio à parte. “Isso me obrigou a realizar a maior imersão cultural da minha vida. Precisei entender profundamente o Brasil contemporâneo para, então, compreender o Brasil de duzentos anos atrás. E não apenas a história ensinada oficialmente nas escolas, mas também em narrativas menos difundidas, documentadas, que oferecem outras perspectivas sobre o mesmo período histórico. Esse mergulho cultural me transformou profundamente”, explicou. 

Mas a princípio, o maior desafio dos roteiristas era o de colocar uma história ambientada no século 19 em diálogo com a sociedade contemporânea deste século 21. Barreira viu que, infelizmente, essa expressiva distância temporal não era um abismo tão grande assim, afinal de contas, “ao olhar para o passado, percebemos que muitos conflitos permanecem presentes no cotidiano atual. Bastou, portanto, enfatizar determinados elementos já existentes na trama original para que ganhassem contemporaneidade. Por exemplo, Dona Beja apresenta uma forte jornada de empoderamento feminino. Em uma sociedade que ainda carrega traços machistas e patriarcais, Beja pode ser vista por muitos como uma transgressora. No entanto, ela é, sobretudo, uma mulher que se tornou dona de si, que seguiu seus desejos e não se curvou às imposições masculinas. Sua história revela a hipocrisia da sociedade em que estava inserida — uma hipocrisia que, em muitos aspectos, ainda persiste. O passado, portanto, segue presente”.


QUEM A BEJA, BEIJARÁ?

Os principais interesses românticos da personagem de Grazi Massafera em Dona Beja são Antônio Sampaio e João Carneiro de Mendonça. Interpretados por Gracindo Júnior e Marcelo Picchi na novela dos anos 1980, agora estão sob a responsabilidade de David Júnior e André Luiz Miranda, respectivamente. Mas o fato de ambos serem negros e não escravizados, e isso muito antes da abolição da escravatura em 1888, gerou uma série de questionamentos na época do lançamento do primeiro teaser da novela. 

Já preparado para tais perguntas, Barreira tem a resposta na ponta da língua. “É que grande parte dos brasileiros aprende que a liberdade dos negros só se deu com a Lei Áurea. No entanto, obras como Escritos de Liberdade, da historiadora Ana Flávia Magalhães Pinto, revelam a presença significativa de homens negros livres e influentes na sociedade brasileira da primeira metade do século 19. Censos da época também apontam uma estrutura social diversa em Minas Gerais, onde se passa a novela, com negros livres atuando como advogados, comerciantes, intelectuais e líderes comunitários”, afirma o roteirista. 

Essa particularidade de Minas Gerais pode ser explicada pela exploração do ouro, pois foi desta forma que muitos negros conseguiram comprar sua própria alforria e a de outros, estabelecendo assim comunidades negras livres ainda no Brasil Império. Dona Beja quer, segundo seus autores, convidar o público a ampliar seu olhar sobre o passado só que com fundamento histórico. “Mas a novela também aborda o racismo dentro das próprias famílias, as hierarquias sociais e as violências sutis sofridas por negros livres que ousavam ocupar espaços reservados à elite branca”, diz Barreira.

Com essa premissa instigante, David Júnior, que interpreta Antônio Sampaio, ficou entre o surpreso e o empolgado com o convite. “Dar vida a um corpo preto numa novela de época, montando a cavalo ao invés de puxá-lo, e ocupando lugares de poder, o que nas novelas dos anos 1980 só eram lugares de subserviência, alimentou minha paixão pelo nosso ofício de uma maneira única”, relembrou Júnior. 

Detalhe: o ator, que foi par romântico de Grazi Massafera na novela Bom Sucesso (2019), já filmou cenas tórridas com Maitê Proença na novela Liberdade, Liberdade (2016). Dizem que de Dona Beja ele entende. Quem há de discordar?