quinta-feira, 6 de junho de 2013

marcelo D2, o imparável

mais um perfil grande e bacana pra revista da gol, e dessa vez com marcelo D2, sujeito rapper que eu ainda não tinha entrevistado. conversamos por cerca de uma hora na loja temporária que abriu na galeria ouro fino, nos jardins, após as fotos tiradas por alex batista que ilustram o perfil. como todo bom carioca, D2 fala com desenvoltura, franqueza e humor, e fala de tudo. o resultado foge do papo manjado para lançar trabalho novo (no caso, o bom nada pode me parar) e tem uma parte que me interessou pessoalmente que é a sua visão sobre o passado, o presente e o futuro do rap brasileiro (e da sua contribuição nele). e aqui no esforçado, como sempre, uma versão um pouco maior da que foi impressa e com fotos que tirei durante o encontro.



LIBERDADE É PRA QUEM TEM

Comemorando 20 anos de carreira, e 15 do primeiro trabalho solo, Marcelo D2 lança Nada Pode Me Parar e em entrevista exclusiva fala sobre família, a volta do Planet Hemp e a boa fase do rap brasileiro

Rua Augusta, São Paulo, 4h20 da tarde. Marcelo D2 arruma o boné para cobrir o cabelo que está crescendo absolutamente fora de controle e já com vários fios brancos. Não aparenta 45 anos, principalmente vestido assim de bermuda e tênis, mas basta o fotógrafo pedir que se agache diante de um mural desenhado pelo amigo Flip para seus ossos reclamarem. Nessa hora o título do novo disco do rapper, Nada Pode Me Parar, faz um sentido todo especial e ele ri da situação.

De tempos em tempos a sessão de fotos é interrompida por fãs querendo levar uma lembrança, dar um abraço, fazer alguma piada, e D2 atende a todas e todos. Os tipos que o abordam são os mais diversos: de uma grávida a um jovem engravatado, passando por seguranças dentro de um carro-forte e um bêbado carregando um velocípede. Alguns o conhecem desde os tempos do Planet Hemp, mas uma boa parte já o acompanha na sua procura pela batida perfeita na mistura de rap com samba.

“Já vi que vai ter um monte de gente falando que o Nada Pode Me Parar é a minha volta ao rap, muito por causa do disco cantando Bezerra da Silva [lançado em 2010], mas eu nunca saí do rap! É engraçado isso porque pro rap eu sou do samba e pro samba eu sou do rap [risos]. A verdade é que o disco do Bezerra me deu confiança pra cantar e acabei me aprofundando bastante no samba, quero ir mais fundo até, mas sou do rap e queria que esse fosse um disco de rap”, diz sobre seu sexto trabalho com inéditas exatos 15 anos após sua estreia solo em Eu Tiro é Onda.

D2 está em São Paulo para lançar uma loja temporária com roupas de sua marca Manifesto 33 1/3 (até então vendida apenas em estabelecimentos multimarcas), shapes de skate, isqueiros, copos americanos, fones de ouvido, bonés e outros produtos relacionados ao seu novo disco (sua ideia é levar a loja junto com a turnê no segundo semestre). A abertura acontecerá em dois dias e já está quase tudo pronto, com direito a neon na parede (“Cara, acho que só montei essa loja por causa do neon! Sempre quis ter um neon!”, confessa e gargalha). Após a segunda e última rodada de fotos para ilustrar esta reportagem ele pode então se esparramar no sofá, abrir uma cerveja e falar tranquilamente.


“O título do disco veio de uma lembrança de quando morava numa kitchenette no Catete com o Skunk [um dos fundadores do Planet Hemp, morto precocemente em 1994]. Tinha uma frase pixada no quarto... ‘Eu já caí no chão só que me levantei / Eu faço meu sistema, / Eu dito a minha lei! / Nada pode me parar’, que é um dos versos de um rap do Thaíde & DJ Hum. Era um hino pra gente. Algumas pessoas ficaram incomodadas com o título, mas eu adoro porque acho que tem aquela arrogância boa do rap”, e de vez em quando D2 olha para a TV da loja, no qual são exibidos os clipes que a cineasta Gandja Monteiro fez para todas as 15 faixas do disco.

No telão aparecem cenas de D2 em Nova York, Amsterdam, Los Angeles, Rio de Janeiro, Recife e Luanda, um pouco da grande jornada global que foi a gravação de Nada Pode Me Parar. “Foi com certeza o disco mais longo da minha carreira. Comecei no carnaval de 2011 em Florianópolis e o processo todo levou um ano e pouquinho. Ser um disco assim road movie aconteceu naturalmente porque fui gravando em lugares onde estava indo ou que achava interessante fazer algo”.

Entre escolhas e oportunidades internacionais, o carioca gravou “Na Veia” com banda completa no lendário estúdio Electric Lady criado por Jimi Hendrix em Nova York, convidou os espanhóis do Cooking Soul (que já trabalharam com Jay-Z e Kanye West) para produzir “MD2”, conheceu o cantor Aloe Blacc que acabou participando de “Danger Zone”, e registrou “Vou Por Aí” com o amigo Mário Caldato Jr. (Beastie Boys) em Los Angeles por causa do livro On The Road de Jack Kerouac. Ainda contou com as presenças do trio californiano Pac Div e da cantora nova-iorquina Joya Bravo.

No Brasil, com exceção do amigo de longa data DJ Nuts, o rapper acabou se cercando mais uma vez de uma nova geração: Nave, Renan Saman e os conterrâneos Papatinho e Batoré (ConeCrew), Akira Presidente e Hélio Bentes (Ponto de Equilíbrio). E, claro, o filho mais velho Stephan, cada vez mais atuante. “Me sinto renovado trabalhando com eles, parece que sou eu dez anos atrás. Eles tem o gás que acho necessário e importante pro disco e pra mim”.

O exemplo de Nave é revelador desse bom trânsito que D2 tem entre gerações. O curitibano tinha 22 anos em 2005 e estava começando a produzir bases quando recebeu a ligação do já popstar rapper carioca. “Não acreditei na hora, achei que era trote, mas era ele mesmo e foi louco porque ele e o Planet Hemp foram a minha maior influência em termos de rap brasileiro”, relembra Nave. Hoje, três discos e 11 parcerias depois [quatro neste Nada Pode Me Parar], diz que D2 “alcançou um nível de amadurecimento artístico, um equilíbrio entre simplicidade e sofisticação, que qualquer um reconhece e sabe o que ele está fazendo, desde a minha tia até um criança de 7 anos”.


Voltando ao Nada Pode Me Parar, se o processo de gravação foi repleto de milhagens, novos e velhos amigos, a pós-produção reservou algumas surpresas. “Pra lançar o disco acabou demorando mais um ano porque tive problemas com samples [trechos de músicas]. Acabei tirando muita coisa porque não consegui autorização. Esse foi o lado ruim. O bom da demora foram os shows do Planet Hemp”, e lembra que a banda, celebrando duas décadas de seu surgimento, ainda fará dois ou três shows esse ano. De certo mesmo um no Central Park, em Nova York, e outro no Festival Lollapalooza, em Chicago.

“Posso te listar umas dez coisas legais dessa volta, mas o mais legal mesmo foi a gente voltar a se falar. Colocou as coisas em seus devidos lugares. Sei agora o que é do Planet Hemp e o que é do meu trabalho solo. As coisas ficaram mais claras pra mim. E foi revigorante tocar Planet depois de dez anos parado, foi f***, foi demais!”, e mata, em um gole só, o resto da cerveja e pede licença. “Cara, preciso ir ali no banheiro se não vou começar a responder rapidão tipo ‘sim’, ‘não’, ‘pode ser’, ‘com certeza’ [risos]”.


Volta então aliviado e propõe mais uma rodada de saideira. “Aproveito mais hoje em dia que antigamente. Tenho mais de 40 anos, quatro filhos – Stephan (21), Lourdes (13), Luca (11) e Maria Joana (8) – , estou casado há 13 anos, não dá mais pra ser aquela coisa doidona do tempo do Planet Hemp. A família me ajudou nisso também. Sempre fui um pai carinhoso, mas não era presente. Nunca fiz com o Stephan o que faço com os mais novos de acordar zumbi às 6 da manhã pra levar na escola. Nos últimos anos, finalmente, me tornei um pai de verdade”.

Para melhorar ainda mais o humor de D2, o ótimo momento pessoal vive em harmonia com a cidade que tanto ama e que é cantada em rimas e beats em “Rio”, uma das faixas de Nada Pode Me Parar. “Sem hipocrisia nenhuma... hoje tenho dinheiro, moro bem, então a cidade está boa pra mim [risos], mas percebi que o carioca voltou a gostar muito da cidade. Não gosto de elogiar ninguém, sou contra tudo e contra todos, mas acho que a política de segurança tem sido feita de uma forma interessante... porra, o Rio voltou a ter carnaval de rua, que é demais, um monte de gente bonita na rua e não precisa comprar abadá pra participar... tenho gostado da cidade, mas é também outro momento meu nela”.


Positivo e operante na cultura hip hop há 20 anos, D2 tem ainda acompanhado com curiosidade e interesse a renovação do rap nacional, além de ter ideias bem claras de alguém quem está por dentro dessa história toda. “Acho que o rap demorou pra se renovar no Brasil. Teve uma década ou até mais que todo mundo só queria ser Racionais, sem ser culpa deles, lógico. Racionais é Racionais, é bom pra c******, mas eles são eles. Nessa época estava fazendo outra coisa, mas aquilo me incomodava pra caramba, parecia uma igreja”.

O que D2 está falando, entre um gole e outro, é da liberdade que o hip hop, e consequentemente o rap, contém em sua essência e que não pode e nem deve ser parada por nada neste mundo. “O rap é uma música urbana que se apropria das outras, não pode ser puro, não pode ter uma cara só, e esses moleques novos tem essa liberdade de fazer a sua parada, cada um no seu papel. Tem a loucura da ConeCrew, a sabedoria do Emicida, a vontade de experimentar do Criolo, e por aí vai”. Mas, modéstia às favas, sabe que contribuiu e muito para esse estado das coisas.

“Hoje em dia essa mistura de rap com samba tá mais atual que na época que comecei a fazer, quinze anos atrás. Sinceramente não vejo como o rap brasileiro possa ser uma música respeitada sem usar elementos brasileiros. Isso é uma coisa. Só que acho que o rap ainda é turminha... gostaria muito ver minha tia ouvindo rap, por exemplo... quer dizer, ainda tem um caminho longo para o rap ser popular como um Zeca Pagodinho, mas hoje vejo o caminho mais aberto”, e mata a terceira cerveja, hora de ir embora. Em entrevista por telefone, Pagodinho retribui a gentileza: “Temos a mesma levada de partideiro, essa coisa da rima e do improviso. Ele tem carisma, é inteligente, e fala a nossa língua, fala da nossa realidade e denuncia através das músicas dele coisas que muita gente não sabe”.

O dia seguinte reserva ao rapper-partideiro alguns móveis para arrastar, quadros para pregar e, talvez, uma festa. Sorri com a lembrança dessa agenda. “Quando ficar maduro a gente volta a falar sobre essa parada da maturidade”.





BOX - D2, um bom driblador

Apaixonado por futebol e flamenguista doente, Marcelo D2 já fez até rap homenageando o ex-jogador Ronaldo Fenômeno (“Sou Ronaldo”), atual membro do comitê organizador da Copa do Mundo FIFA de 2014. Sobre o evento e a Copa das Confederações, que começa agora em junho, tem uma posição bastante clara e realista. “O que você prefere? 100 % de nada ou 50 % de alguma coisa? A Copa é meio isso. Acho que vai ser uma coisa importante pra caramba pro brasileiro e o brasileiro gosta de se sentir importante. A gente tá num momento f***, todo mundo viajando, o dinheiro tá forte, a autoestima tá boa, e acho que a Copa veio num momento perfeito com o Brasil tentado se arrumar. E cada um que se vire com isso. Quer fingir que não tá sendo enganado e continuar ficar assistindo sua TV de plasma? Fica aí. Quer fazer disso uma oportunidade e crescer realmente? Taí também. Acho que a gente vive um bom momento. Tem coisa pra consertar? Pra c******! Por isso que digo que o Brasil é um país ótimo pra fazer rap. Quer mais assunto pra rapper do que aqui?”, afirma.

terça-feira, 28 de maio de 2013

"black is not a color; it's an attitude"

blank on blank é uma série de documentários curtos, quase todos em animação, a partir de entrevistas perdidas. simplesmente uma puta ideia genial que conheci através do tumblr da npr music. o video mais recente é uma conversa com james brown, em 1984, na qual "o poderoso chefão do soul" fala de raça, de como o pai pagou para ser ignorante, de estilo e religião, e ainda elogia ronald reagan. saca só.



e a série, que tem cerca de um ano de vida, trouxe ainda muhammad ali, beastie boys, dave brubeck, david foster wallace, jim morrison, bono, kelly slater, larry king e wilt chamberlain.

mexidão #10 e #12

vivo cada vez mais distante do futebol, das torcidas, dos campeonatos, de tudo que gira ao redor da bola. mas a copa do mundo que acontecerá aqui no ano que vem tem sido uma cascata inesgotável de assuntos para quem gosta de pensar o país. acabei então, por força do noticiário, falando da copa em dois textos do mexidão. o primeiro foi sobre o autoritarismo interventor da fifa e o segundo sobre a polêmica caxirola "criada" por carlinhos brown como instrumento-símbolo da copa do mundo do brasil (e ontem o instrumento foi banido da copa das confederações, que começa agora em junho, por causa do incidente em salvador descrito no texto).



AH, QUE É ISSO? A FIFA ESTÁ DESCONTROLADA

Tem algo de muito errado no mundo quando um sujeito solta, tranquilão, a seguinte frase: “Vou dizer algo que é maluco, mas menos democracia às vezes é melhor para se organizar uma Copa do Mundo. Quando você tem um chefe de estado forte, que pode decidir, assim como Putin poderá ser em 2018, é mais fácil para nós organizadores do que um país como a Alemanha, onde você precisa negociar em diferentes níveis”. O tal sujeito é Jérôme Valcke, secretário-geral da Fifa, e essa asneira foi dita durante um simpósio ontem, 24 de abril, em Zurique, sede da organização que organiza a Copa do Mundo.

Lida sobre outro prisma, a asneira de Valcke é um elogio ao Brasil. Durante o mesmo evento ele falou sobre o país nos seguintes termos: “A principal dificuldade que temos é quando entramos em um país onde a estrutura política é dividida, como no Brasil, em três níveis: federal, estadual e municipal. São pessoas diferentes, movimentos diferentes, interesses diferentes e é difícil organizar uma Copa nessas condições”. Pois é, meu caro francês maluco, democracias são assim, um acordo entre diferentes, e é bom que assim sejam.

Mas pelo jeito, o pessoal da Fifa não está se contentando apenas com elogios a países ou líderes autoritários, eles querem mesmo se tornar um. É que hoje apareceu uma notícia tão absurda no site do jornal Tribuna da Bahia que por algum tempo achei que fosse uma piada do satírico Piauí Herald. A manchete grita que a “Fifa proíbe São João em Salvador”. Acuma? Isso mesmo, segundo a reportagem a prefeitura da cidade recebeu ordens da Fifa para não liberar alvarás para festas de rua durante o mês de junho deste ano, época que Salvador será uma das sedes da Copa das Confederações. E antes tinham tentado impedir (sem sucesso, felizmente) a venda de acarajé no entorno do estádio para não ferir os sentimentos do McDonald’s.

Nunca fui do time anti-Copa. Claro que o Brasil está pronto (ou está ficando) e um evento como a Copa injeta muito dinheiro na economia do país, mesmo que, como sempre, seja mal distribuído ou desviado. Porém, desde a violência que aconteceu na Aldeia Maracanã, no Rio de Janeiro, comecei a ter certeza que a coisa está fora do controle. Na certeira definição de @viniciusduarte, “sediar Copa do Mundo é um cavalo de Tróia”, é colocar o inimigo para dentro.

A Fifa é como a enigmática e fechada Coreia do Norte, só que transglobal, cheia de grana e muito influente. Com a promessa de carradas de dinheiro e visibilidade, a organização entra nos países e vai corroendo durante um tempo suas soberanias, violando direitos sociais, pintando o sete geral a seu bel prazer (com o conluio do governo federal, Estados e municípios, todos embevecidos pelo canto da sereia da bola redonda). Mas a Copa vai acontecer, de um jeito ou de outro, e o que dá para fazer agora é ficar atento a tudo porque já deu essa história do dinheiro passar por cima das pessoas. Perdemos Aldeia Maracanã, vencemos a Batalha do Acarajé, e isso é só o começo.


MAIS CAXIXI, MENOS CAXIROLA

Não pensei que iria voltar a tratar da Copa tão cedo. Sinceramente. Só que poucos dias após ter publicado “Ah, que é isso? A FIFA está descontrolada” aconteceu a Revolta das Caxirolas e uma coisa assim não pode passar em brancas nuvens pelo Mexidão. Bem, a essa altura do campeonato quase todo mundo já está nervoso de saber o que é a caxirola, mas não custa fazer um flashback rápido...

Do nada, a FIFA e o Ministério dos Esportes vieram a público apresentar o instrumento musical símbolo da Copa das Confederações e da Copa do Mundo no Brasil. Criação do multi-instrumentista Carlinhos Brown, a caxirola é um chocalho de plástico feito a base de cana-de-açúcar produzida pela Brasken. O músico baiano registrou sua nova obra – contratada não sabe-se como e em quais termos pelo governo – e vendeu os direitos de fabricação e distribuição para a multinacional The Marketing Store. Os valores dessa gigantesca transação não são revelados (o valor de R$ 1,5 bilhão foi estimado aqui e ali), mas o preço sugerido ao torcedor é R$ 29,90.

Daí que logo na estreia oficial do instrumento, domingo passado, 28 de abril, o reformulado Estádio da Fonte Nova viu uma revoada de caxirolas rumo ao gramado. Eram torcedores revoltados do Bahia protestando contra seus dirigentes, enquanto o time perdia para o rival Vitória por 2 a 1. Foi o bastante para o pessoal da grana ficar de orelhas em pé prevendo novas manifestações não-musicais já agora na Copa das Confederações. Bateu um medinho e estão pensando em colocar uma bula para ensinar ao brasileiro como usar o instrumento com responsabilidade.

É isso que dá pensar só em dinheiro e não nas pessoas que fazem e sustentam o espetáculo. Porque, será mesmo que eles acham que ninguém perceberia que a caxirola não passa de um caxixi de plástico? E que é um completo absurdo privatizar um bem cultural tradicional? Ou então que a caxirola não tem relação alguma com o futebol brasileiro? Só mesmo Galvão Bueno e Tadeu Schmidt, os porta-vozes futebolísticos da Globo, para defenderem tal disparate.

Direto ao ponto, o jornalista José Trajano afirmou durante o programa Linha de Passe (ESPN) que o torcedor tem o direito de jogar a caxirola onde bem entender. Na Copa da África do Sul as vuvuzelas podiam ser (e eram) um inferno para os ouvidos estrangeiros, mas eram genuínas integrantes da cultura do futebol no país. E a caxirola? Até quinze dias atrás ela nem existia! Porque diabos deveríamos aceitar algo imposto por essa dobradinha poder público/iniciativa privada e que provavelmente foi gestado em algum reunião de brainstorm com publicitários de sapatênis?

Mas nada disso me surpreende, na verdade. Agora, o papel de Carlinhos Brown nessa tragicomédia... como é que pode um sujeito assumidamente ligado à cultura popular pegar um instrumento tradicional (alô pessoal da capoeira!), dar um tapinha e registrar como criação sua?! Sou fã de Brown e o defendi em março do ano passado no texto “Quem tem medo de Carlinhos Brown?”, mas prevejo que a chuva de garrafas que tomou na cabeça durante o Rock in Rio em 2001 vai ser pinto perto do tsunami de caxirolas que se avizinha por aí. Olha, a Revolta da Caxirola virou até cordel.

Essa apropriação privada de um instrumento popular é o mais grave desse caso, mais até do que a imposição de um símbolo (o pessoal da grana que se vire com o encalhe das caxirolas). Em texto contundente, o antropólogo Henrique Parra tem uma sugestão para minimizar o absurdo dessa situação: “Se o governo está interessado em criar um símbolo, bem poderia indicá-lo e deixá-lo livre, como são os símbolos, ao invés de transformá-lo em propriedade privada. (...) Diversas fabricantes nacionais poderiam produzi-lo, diversos comerciantes locais poderiam distribuí-lo e aquelas corporações interessadas em fazer o produto circular em “outras esferas” (produtos especializados para consumidores endinheirados) poderiam recolher uma taxa específica cujos recursos poderiam ser destinados ao apoio de milhares de escolas de capoeira e grupos culturais espalhados pelo País”. Isso sim é um Brasil de todos.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

letra/música #27 e transversão #42

foi no blog do blundetto que fiquei sabendo do tributo brassens - echos d'aujourd'hui (fanon records), uma homenagem transglobal ao poeta, cantor e compositor anarquista francês georges brassens. nunca tinha ouvido falar dele, confesso, mas semana passada finalmente achei link para download do disco (aqui ou aqui) e é uma coisa linda. e também surpreendente porque foram reunidos artistas de várias partes do planeta cantando brassens em suas línguas nativas, o que acaba abrindo inúmeras portas para se procurar as versões originais e compará-las, colidí-las, etc. nas 16 faixas aparecem figuras como shawn lee (estados unidos), lianne la havas (inglaterra), grupo canalon de timbiqui (colômbia), las hermanas caronni (argentina), enkhjargal (mongólia), anthony joseph (trinidad), yael naim (israel) e, claro, blundetto (frança). mas então aparece rodrigo amarante cantando "o não-pedido de casamento" e... puxa... que versão, que música espantosamente linda e rebuscada. escuta só.




o não-pedido de casamento
(georges brassens, tradução e adaptação de rodrigo amarante e stephane san juan)

meu bem, por deus, tenho um pedido
não apontemos pro cupido
sua própria flecha
tantos amantes se arriscaram
com seu gozo eles pagaram
tal sacrilégio

uma aliança em cada mão
a jurar ordem de prisão
em domicílio
pro inferno, amélias secas amas
que deixam frias suas camas
pra pilar milho

eu tenho a honra de não te pedir a mão
pra quê firmar no pergaminho essa união?

vênus presa perde o viço
e com o choriço frita o juízo
cai na comida
por nada neste mundo eu vou
despetalar sobre o escargot
a margarida

cai o véu, com ele o encanto
o segredo da sereia, o canto
de Melusine
o batom nas cartas perde a cor
entre uma e outra página do
Nouvelle Cuisine

eu tenho a honra de não te pedir a mão
pra quê firmar no pergaminho essa união?
eu tenho a honra de não te pedir a mão
pra quê firmar no pergaminho essa união?

é muito fácil a gente pensa
largar no fundo da despensa
numa conserva
o belo fruto proibido
perdeu o gosto, foi cozido
não se preserva

de uma empregada eu não preciso
tratado a pão de ló, aviso
não quero nunca ser
como uma noiva eterna intento
a dona dos meus pensamentos
eu sempre ver

eu tenho a honra de não te pedir a mão
pra quê firmar no pergaminho essa união?
eu tenho a honra de não te pedir a mão
pra quê firmar no pergaminho essa união?
eu tenho a honra de não te pedir a mão
pra quê firmar no pergaminho essa união?

amarante, que está para lançar seu primeiro disco solo (cavalo), canta e toca violão acompanhado de berna ceppas (sintetizador), moreno veloso (cello), alberto continentino (baixo) e stephane san juan (percussão). agora veja e escute brassens direto de algum lugar dos anos 1960...



nas buscas por saber e ouvir mais dessa música encontrei ainda uma versão instrumental comandada por eddie "lockjaw" davis (sax tenor) e harry "sweets" edison (trompete) e lançada em 1979.



p.s.: agradecimentos a bebel prates que conseguiu essas informações (banda, tradução e revisão da letra que transcrevi) com o próprio amarante.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

mexidão #11

pouco depois que escrevi esse texto no mexidão, a garota de programa (e escritora) lola benvenutti se mudou de são carlos para são paulo e já está aprontando mil e umas. acho que esse foi um dos textos que mais gostei de escrever nessa primeira fase do novo blog no yahoo - e quem me sugeriu a lola foi o infalível michel blanco - e ainda contou com a participação especial da colega carol patrocínio. pedi algumas palavras dela sobre lola e recebi um belo texto. no yahoo tive que editar, mas aqui ele vai na íntegra.


SEXO É ISSO, AQUILO E VICE-VERSA

Dia desses imaginei o seguinte cenário: se pelo menos um terço (número totalmente hipotético) dos fiscais do gozo alheio curtissem os próprios prazeres, que maravilha seria viver. Lola Benvenutti concorda comigo. Ou eu concordo com ela, tanto faz. Só que Lola vai além, pois faz de seu próprio corpo um campo de batalha, no qual sexo é orgulho e dinheiro não é vergonha.

Nascida Gabriela Natália da Silva há 21 anos em Pirassununga, Lola começou a fazer programas quando se mudou para São Carlos. Até o último ano do curso de Letras na UFSCar manteve Gabriela e Lola em mundos distintos, pois temia represálias e inquisições, mas em março do ano passado abriu seu blog para contar suas experiências e os programas que faz pelo interior de São Paulo (o que faz lembrar imediatamente de Bruna Surfistinha, só que Lola é mais bem humorada e escreve melhor).

Sua história apareceu numa entrevista para o site São Carlos em Rede, depois numa longa matéria no G1 e mais recentemente no site da Folha de S. Paulo. Felizmente todas as reportagens conseguiram dar conta da postura orgulhosa e tranquila de Lola. O moralismo galopante só apareceu nos comentários.

Fugindo de todos os clichês da profissão, Lola nasceu em uma família feliz de classe média (pai militar da reserva, mãe enfermeira), não tem histórico de abuso, não começou a fazer programas para pagar a faculdade, nada disso. Lola faz programas porque gosta de sexo e dinheiro, simples assim. Ela mesma falou assim para o São Carlos em Rede: “Acho curioso o fato de as pessoas tentarem imaginar qual acontecimento familiar macabro me levou a este caminho. Lamento desapontá-los, mas a verdade é que tive ótima educação. Fui criada no sítio, com os melhores valores que alguém pode aprender. A questão é que eu amo sexo! (...) Tornar-me acompanhante foi apenas uma maneira de unir dois gostos: sexo e dinheiro”.

"Sou a Lola. Uma garota simpática, bela e que adora sexo! Intenso, forte, com desejo. É assim que tem que ser", diz na bio em seu blog

O raciocínio de Lola é tão cristalino que dá até um pouco de vergonha dessa questão ainda ser considerado “polêmica” nos dias de hoje. Mas ela, como já disse, vai além. “Meu modo de escrever é reflexo não apenas desse desejo de conferir glamour a este magnífico universo, mas também uma forma de valorizar meu intelecto. Sou garota de programa e sou inteligente, estudada, culta. Reconheço meu poder e quero que os outros também reconheçam”, disse a jovem que ostenta, igualmente orgulhosa, tatuagens com frases de Manuel Bandeira e Guimarães Rosa e faz strip-tease ao som de Etta James.

Já no G1 ela colocou o dedo diretamente na ferida ao afirmar que “as pessoas são hipócritas, vivem de sexo, veem vídeo pornográfico, mas não falam porque têm vergonha. Um monte de mulher entra no blog e fala que adoraria fazer o que eu faço, mas não tem coragem; e dos homens escuto as confissões mais loucas e cada vez mais esse tabu do sexo é uma coisa besta”.

Poderia falar por horas que falar e fazer sexo sem tabu faz um bem danado para a cabeça, mas preferi perguntar para Carol Patrocínio, jornalista, colega de Yahoo! e autora do blog Preliminares, o que ela acha dessa história. Com vocês, Carol...

“Acho inspirador ver mulheres como a Lola assumindo seu desejo sexual e sua busca por independência financeira da maneira que acreditam ser a melhor para si. O corpo da mulher é da mulher, assim como suas decisões.

É importante que a mulher tenha essa liberdade, que possa dizer com todas as letras que gosta de sexo e que o faz com quem quer, cobrando ou não. Não dá mais pra gente ficar tentando regrar a vida alheia, muito menos em uma questão tão íntima quanto o prazer. Ela tem prazer em vender sexo, qual o problema nisso? O que isso muda na sua vida? Se a cada julgamento que fizermos nos fizermos esse último questionamento veremos que dá para viver de maneira muito mais leve.

O feminismo, pelo que eu entendo, luta por igualdade, liberdade e respeito. Nada mais certo do que respeitar escolhas sem que a “moral e os bons costumes” ganhem espaço no mundo libertário que tentamos criar diariamente com nossos trabalhos de conscientização e informação. Ainda há um ranço religioso e cultural muito forte entre as pessoas, o que contamina as opiniões e faz com que o uso do corpo soe como algo imoral. O corpo é lindo, o sexo é parte da vida e a maneira que cada um se relaciona com o seu prazer é única. Não existe certo ou errado quando tudo que é feito é consensual. Lola teve coragem de assumir o que muitas mulheres adorariam e não têm coragem. Prostituição é, sim, uma escolha. E não há nada de vitimizador, vergonhoso ou errado nisso”.

Lola e eu assinamos embaixo. E vice-versa.

domingo, 19 de maio de 2013

virada cultural 2013, breve saldo pessoal

como sempre acontece em termos de virada cultural, a teoria é uma coisa e a prática é outra. fiz um roteiro com nove shows e vi, inteiros, quatro. a história desse ano foi mais ou menos a seguinte: finalzinho do lucas santtana (delícia), metá metá (absolutamente poderoso, e com muita gente cantando todas as letras - só lamentei não ter rolado “cobra rasteira”), black star (muito e muito bom), um pedacinho bem divertido de rappin hood, racionais (show foda, histórico, catártico, pra cima - mas vou depois escrever mais sobre esse comparando com o da virada de 2007) e baiana system (outra delícia total).

acompanhei e fiquei sabendo de algumas brigas/arrastões, mas não acho que a segurança (ou falta de) seja um problema maior que a limpeza, por exemplo. a sujeira na madrugada e início da manhã sempre foi e continua sendo pra mim o grande problema estrutural da virada, tanto por culpa da(s) prefeitura(s) quanto pelo público. mas voltando ao tema ‘violência’, também não acho que foi maior esse ano que nos outros e olha que já tenho uns seis ou sete de virada (e dois anos atrás fui assaltado). na madrugada desse domingo, por exemplo, atravessei em dois momentos a parte clássica da crackolândia (rua do triunfo, rua dos gusmões) e os nóias tavam lá no seu próprio mundo sem mexer com ninguém. a violência ali era só da tristeza e do abandono.

mas é claro que a combinação de muita gente com álcool durante muitas horas é potencialmente explosiva em qualquer lugar (principalmente na madrugada) e realmente não sei o que pode ser feito pra resolver esse dilema do evento. acho que tá mais que na hora de se pensar – e isso é apenas um exemplo – em mini viradas espalhadas pela cidade e trimestrais ou semestrais. talvez uma pulverização do público pela cidade resolvesse alguns desses problemas (do mesmo jeito que proibir bebida certamente não é uma das soluções).

vi muitos policiais na rua, mas achei que eles pareciam estar numa onda liberal, saca? num laissez fair/laissez passer de corpo presente e braços cruzados. impossível não cogitar a hipótese conspiratória que a pm, do governador alckmin (psdb), tenha recebido alguma ordem para ficar numa relax, numa tranquila, numa boa, afinal foi a primeira virada da administração haddad (pt). enquanto isso, no twitter, o cada vez mais infantil serra (psdb) se mostrou preocupado que o evento esteja sendo usado para “aparelhamento político-partidário” (zzzzzz).

de resto, uma programação bem boa e variada (como sempre tem que ser), e muita gente se divertindo numa cidade que precisa justamente disso (e cada vez mais).

p.s.: tava tão afim de curtir o que conseguisse na virada (e as pessoas que porventura encontrasse, premeditadamente ou não) que mal entrei na internet & redes sociais e só tirei uma foto (e ruim) do show do racionais. essa aqui ó...

segunda-feira, 13 de maio de 2013

transversão #41

não lembro quando ouvi “marcianita” pela primeira vez. acho que ela tá naquele rol de músicas que sempre existiram, sempre tocaram, e não se sabe direito como surgiram (nem no mundo, muito menos pra si). mas sei muito bem quando ela definitivamente entrou na minha lista de preferidas: durante os shows que o mauricio pereira fez no início dos anos 2000 e que resultaram no disco as canções que você já assobiou (2003). foi então que descobri a gravação do sérgio murilo (1960), a do caetano com os mutantes (1968), uma do raul seixas (1973), outra da gal costa (2002) e recuperei a memória de uma do grupo rumo (1992).

recentemente, e com certo atraso, ouvi a que jussara silveira gravou no disco ame ou se mande (2011) e chapei novamente. que versão linda e divertida! fui então pesquisar a origem da música e me surpreendi com as poucas informações. consegui descobrir que “marcianita” é uma composição de josé imperatore marcone e galvarino villota alderete, chilenos até onde sei, e foi lançada em 1959 (até poucos dias atrás nunca tinha ouvido nenhuma interpretação em espanhol). de bate pronto fez muito sucesso na argentina na voz de billy cafaro e no ano seguinte ganhou uma versão em português assinada por fernando césar que estourou com sérgio murilo. a partir daí ganhou inúmeras versões por aqui (e também em portugal com daniel bacelar, por exemplo).

nessa volta a seção transversão após tantos meses de silêncio (a última foi em julho do ano passado com “maria bethânia” de caetano) separei algumas das minhas versões preferidas dessa lindeza que é “marcianita”. começando com o argentino billy cafaro e os chilenos do grupo los flamingos, ambos em 1959.



então chegamos ao brasil e logo de cara sérgio murilo quebra tudo numa versão cool, sofisticadíssima, pré-jovem guarda.


queria colocar a do caetano com os mutantes, mas não achei nenhuma opção para incorporar. tristeza, viu? então agora é a vez das totalmente excelentes (e paulistanas) gravações do grupo rumo e de maurício pereira.




e, finalmente, jussara silveira em sua interpretação cristalina e deliciosa, acompanhada por sacha amback e marco costa.


pra encerrar essa postagem uma gravação que achei nessas buscas e que me impressionou bastante. gravada em 2012, essa “marcianita” traz ana clara cantando acompanhada pelo trio molho negro e por felipe cordeiro, todos paraenses. baita versão, mais pesada e pop, e com uma parte em espanhol levada no tecnobrega.



p.s.: e ainda tem os trapalhões (sim, isso mesmo, os trapalhões numa versão absolutamente fuleira), bobby di carloalípio martins, léo jaime, o “marcianito” de sueli, e uma recentíssima do felipe cordeiro, etc. 

domingo, 12 de maio de 2013

mexidão #09

uma coisa certa nessa vida: tom zé é foda. hoje com 76 anos, o artista segue produzindo a mil por hora, experimentando, olhando e pensando sobre o presente e o futuro da cultura e da música popular, e com bom humor, sem parar, sem parar. as críticas que surgiram com sua participação em uma propaganda da coca-cola o fizeram criar um de seus trabalhos mais interessantes e divertidos dos últimos anos, o EP tribunal do feicebuqui. lá no yahoo falei dessa resposta-musical que ainda contou com a participação de uma boa turma de jovens músicos paulistanos - o terno, emicida, tatá aeroplano, trupe chá de boldo e filarmônica da pasárgada - sob curadoria do jornalista marcus preto. de seus discos dos anos 2000 gosto muito de estudando o pagode e jogos de armar, gosto de estudando a bossa, imprensa cantada e pirulito da ciência, achei danç-êh-sá muito chato e ainda não entendi direito o tropicalismo lixo lógico. só a partir dessa listinha é possível ver o muito que o baiano produziu nos últimos anos e sempre muito intensamente. quer dizer, você pode não entender, pode até não gostar, mas é impossível não respeitar um cara apaixonado como ele e que ainda faz tanto pela música e pelo brasil... após ter lançado tribunal do feicebuqui deu ótima entrevista no programa roda viva e pagou um esporro federal durante show no circo voador (porque alguém jogou um copo de cerveja no palco).


O ARROTO GOSTOSO DE TOM ZÉ

Foi no início de março deste ano que apareceu na TV e na internet uma propaganda da Coca-Cola narrada por Tom Zé. Rapidamente, como sempre nos tempos de hoje, apareceram um tanto de comentários críticos à participação do artista na publicidade do refrigerante. “Tom Zé, seu vendido” foi o mantra repetido ad nauseam nas redes sociais.

O baiano de Irará, 76 anos, é um dos maiores artistas da música brasileira (e, consequentemente, do mundo). Também é um dos mais irrequietos, originais e coerentes. Por tudo isso ele já merecia um pouco de mais maturidade nas críticas, mas Tom Zé nunca fez sucesso (em sucesso leia-se, no caso, dinheiro) na vida, apesar de ser referência para centenas de artistas brasileiros e internacionais. E durante cerca de 15 anos, do final da década de 1970 ao inícios dos anos 1990, passou por profundas dificuldades financeiras que quase o fizeram desistir da carreira.

Mas os mimados da internet se acham no direito de julgar e apontar o dedo – quem destes comprou um disco dele ou foi em shows? – e tanto fizeram que Tom Zé publicou um texto em seu blog. Genuinamente preocupado, afirmou o seguinte: “É curioso que quando fui consultado sobre o anúncio nem pensei nessa probabilidade [das críticas negativas]. No ano passado meu disco [Tropicália Lixo Lógico] fora patrocinado pela Natura e como eu nunca tinha recebido patrocínio desse tipo – nem de nenhum outro – , cara, eu me senti como um artista levado em conta!”.


Não tem nada de errado na propaganda da Coca narrada por Tom Zé. Tem uma graça e um otimismo pelo Brasil que são típicos dele. Mas certos fãs que ainda acreditam que o refrigerante é o “líquido negro do capitalismo” ou algo parecido não lhe perdoaram (e, veja bem, a Natura, que é bem brasileira, não é nada santa). E não adiantou o compositor de clássicos como “Angélica, Augusta, Consolação” falar que o dinheiro ganho será reinvestido em sua própria música (nada de carrões, iate, cobertura de luxo, etc).

“Atualmente sinto paixão pela retomada do projeto dos instrumentos experimentais de 1972. Com a eficiente colaboração do engenheiro Marcelo Blanck, começamos a desenvolver alguma tecnologia, mas com recursos parcos, insuficientes. (...) Aí entrou o anúncio da Coca-Cola que, mesmo sem ela saber, patrocinaria boa parte da pesquisa”, disse no blog. Humildemente ainda perguntou: “Será que o uso dos recursos obtidos com o anúncio muda a avaliação de vocês?”. Olha o tamanho da fofurice e da atenção do sujeito! Eu já teria mandado todo mundo catar coquinho na ladeira.

Só que Tom Zé é mais, muito mais. Nesse meio tempo ele se reuniu com um grupo de jovens artistas de São Paulo (Emicida, O Terno, Tatá Aeroplano, Filamônica de Pasargada e Trupe Chá de Boldo), gravou e acabou de lançar o EP Tribunal do Feicebuqui para dowload gratuito em seu site oficial.

Nas cinco faixas do disco, Tom Zé dá um tapa com luva de pelica nos patrulheiros da vida alheia. Estão lá versos irônicos como “Que é que custava morrer de fome só pra fazer música?” (em “Tom Zé Mané”) ou “O povo, querida, com pedras na mão voltadas contra o imperialismo pagão / E na cerimônia do beija-pé / Papa Francisco perdoa Tom Zé / No Feicebuqui da Santa Sé / Papa Francisco perdoa Tom Zé” (em “Francisco perdoa Tom Zé). É isso, meu caro Tom Zé, arrota melhor quem arrota melhor.


p.s.: seguem abaixo as cinco músicas do tribunal do feicebuqui.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

mexidão #08

li muita coisa sobre a redução da maioridade penal antes e depois de escrever esse texto para o mexidão. simplesmente não consigo entender como até algumas pessoas inteligentes levaram a sério uma questão que pra mim é uma das mais cretinas e danosas da atualidade. pensar num aumento da reclusão para menores que cometeram crimes violentos (latrocínio, estupro, etc.) é uma coisa, mas generalizar em forma de lei é de uma cegueira absurda. é a boa e velha tática conservadora de atacar os fins e não os meios.


se o juizado de menores vier,
melhor que venha armado...


REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL: 
O OPORTUNISMO DE SEMPRE

Dez dias atrás, o estudante Victor Hugo Deppman, 19 anos, foi assassinado com um tiro na cabeça em frente ao prédio que morava com a família no Belém, bairro da Zona Leste de São Paulo. Victor não reagiu e mesmo assim o assaltante de 17 anos atirou à queima roupa. Mais uma tragédia com armas de fogo, mais uma família em luto pra vida toda.

Só que, mais uma vez, uma parte da opinião pública e a grande imprensa transformaram a dor em gritaria pela redução da maioridade penal (de 18 para 16 anos) como se uma tragédia isolada fosse um problema crônico. Nos últimos anos houve um aumento de crimes juvenis? Não, não houve. Em nota técnica contrária à redução da maioridade penal, a Fundação Abrinq afirmou, via Levantamento Nacional de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente em Conflito com a Lei (2011), “que de 2002 para 2011 houve uma redução percentual de atos graves contra pessoa e o homicídio apresentou redução de 14,9% para 8,4%; a prática de latrocínio reduziu de 5,5% para 1,9%; o estupro de 3,3% para 1,0% e lesão corporal de 2,2% para 1,3%”.

Enquanto o espírito linchador insistir que é preciso prender mais e por mais tempo nada disso vai mudar, muito menos melhorar. Não adianta atacar, como é costume de políticos oportunistas como o Governador Geraldo Alckmin (SP), os fins e não as causas da violência. E, acima de tudo, não é possível legislar ou mudar leis com base na emoção. Estimular e melhorar a infraestrutura de medidas sócio-educativas é o melhor caminho para tirar os jovens do mundo do crime.


Em ótimo texto sobre o assunto, Vinícius Boncato, aluno de Jornalismo na mesma Casper Líbero no qual Victor Deppman estudava Rádio e TV, faz uma pergunta muito importante: a questão é tentar reduzir a violência ou atender a um desejo coletivo de vingança? É vingança, claro, como diz o jornalista Leonardo Sakamoto em “Jovem rico erra. 'Menor' pobre comete crime” (também de sua pena é o texto provocativo “Maioridade penal aos seis. Afinal, nessa idade, eles já se vestem sozinhos”).

De volta à nota da Abrinq é bom que se entenda que “antes de criminalizarmos a adolescência, é preciso que os direitos sociais, tais como, educação, saúde, moradia, lazer, segurança, entre outros, estejam assegurados para cada adolescente brasileiro. Somente assim poderemos ser de fato um país democrático, rico e com justiça social”. É por isso que a gente tem que lutar.

p.s.: Vale assistir um documentário curto sobre os benefícios da prática de yoga para detentos da Fundação Casa e também as ponderações do antropólogo Paulo Malvasi no programa Encontros com Fátima Bernardes. São dois vídeos: “Medidas sócio-educativas são a melhor opção para recuperar menores” e “Redução da maioridade é atitude paliativa”.

domingo, 5 de maio de 2013

elas cantam ele, eles cantam ela

neste ano, o selo jóia moderna lançou dois excelentes tributos. não foram os primeiros da curta vida do selo criado pelo dj zé pedro – antes aconteceram literalmente loucas - as canções de marina lima (2011) e a voz da mulher na obra de guilherme arantes (2012) –, mas certamente são os melhores até agora (achei o da marina bom e o do guilherme arantes muito fraco). mulheres de péricles (2013) traz um punhado de cantoras da nova geração ao redor do compositor péricles cavalcanti, enquanto coitadinha bem feito (2013) faz o mesmo com jovens cantores e as músicas de ângela ro ro. ah, como se não bastassem trazer interpretações surpreendentes para algumas canções bem conhecidas, os dois tributos também estão disponíveis para download gratuito.


mulheres de péricles - péricles cavalcanti é um ilustre desconhecido. todos sabem cantar pelo menos uma de suas composições, mas poucos conhecem seus discos solos (são 5) ou associam seu nome a canções gravadas por gal (“negro amor”), caetano (“elegia”), arnaldo antunes (“eva e eu”) e adriana calcanhotto (“medo de amar nº3”). não que isso seja um problema ou motivo de ressentimento para ele (não parece), mas de qualquer forma esse disco é uma oportunidade e tanto para colocar alguns pingos nos is, principalmente sobre a poesia sofisticada e popular de suas letras. por outro lado, a escolha dessas jovens vozes femininas confere diversos tons de delicadeza (sexual, rascante, derramada, etc.) e experimentações musicais das mais variadas a canções feitas no decorrer das últimas quatro décadas. todas soam igualmente fresquinhas, urgentes. cada ouvinte terá suas preferidas e as minhas são “clariô” (marietta vital e mairah rocha), “blues” (céu), “porto alegre” (tulipa ruiz), “elegia” (mallu magalhães), “quem nasceu?” (laura lavieri) e “ode primitiva” (bárbara eugênia). detalhe: os anos indicados após as músicas (o mesmo vale para o próximo tributo) são das gravações originais.


1. céu – “blues” (péricles cavalcanti, 1981)
2. nina becker – “o céu e o som” (péricles cavalcanti, 1974)
3. blubell – “bossa nova” (péricles cavalcanti, 2004)
4. mallu magalhães – “elegia” (péricles cavalcanti & augusto de campos, 1979)
5. bárbara eugênia – “ode primitiva” (péricles cavalcanti & haroldo de campos, 1991)
6. marietta vital & mairah rocha – “clariô” (péricles cavalcanti, 1977)
7. tulipa ruiz – “porto alegre” (péricles cavalcanti, 2007)
8. iara rennó – “nossa bagdá” (péricles cavalcanti, 2004)
9. anelis & serena assumpção – “eva e eu” (péricles cavalcanti & arnaldo antunes, 1996)
10. laura lavieri – “quem nasceu?” (péricles cavalcanti, 1974)
11. karina buhr – “negro amor” (péricles cavalcanti & caetano veloso, 1977)
12. juliana kehl – “será o amor?” (péricles cavalcanti, 2004)
13. ava rocha – “musical” (péricles cavalcanti, 1983)
14. tiê – “medo de amar nº3” (péricles cavalcanti, 2000)
15. juliana perdigão – “canto maneiro” (péricles cavalcanti, 1991)




coitadinha bem feito - felizmente ângela ro ro se tornou objeto de culto ainda em vida, e a partir dos anos 2000 voltou a fazer shows, a gravar e até emplacou um programa de televisão. coitadinha bem feito é um coroamento desse movimento e uma bela homenagem a uma das compositoras mais fortes da música popular brasileira. a costura do repertório é menos original que a do mulheres de péricles – tanto que metade do tributo veio diretamente do disco de estreia de ângela, de 1979 –, mas a escolha por (e dos) intérpretes masculinos é um belo contraponto ao estilo da carioca. suas ironias mudam de lugar, seu romantismo rasgado ganha distância, seu blues ganha novas cores. as preferidas da casa são (sem nenhuma ordem, sempre) “balada da arrasada” (tatá aeroplano), “perdoai-os pai” (rael), “coitadinha bem feito” (otto), “não há cabeça” (pélico), “me acalmo danando” (hélio flanders), “came e case” (léo cavalcanti), “abre o coração” (gui amabis) e “fogueira” (rodrigo campos). baixe aí e veja quais são suas preferidas porque música boa é que não falta.

1. lucas santtana – “amor meu grande amor” (ângela ro ro & ana terra, 1979)
2. lira – “renúncia” (ângela ro ro, 1980)
3. leo cavalcanti – “came e case” (sérgio bandeira & ângela ro ro, 1981)
4. rómulo froés – “só nos resta viver” (ângela ro ro, 1980)
5. thiago pethit – “mares da espanha” (ângela ro ro, 1979)
6. tatá aeroplano – “balada da arrasada” (ângela ro ro, 1979)
7. otto – “coitadinha bem feito” (sérgio bandeira & ângela ro ro, 1981)
8. gui amabis – “abre o coração” (ângela ro ro, 1979)
9. adriano cintra – “gota de sangue” (ângela ro ro, 1979)
10. pélico – “não há cabeça” (ângela ro ro, 1979)
11. rodrigo campos – “fogueira” (ângela ro ro, 1984)
12. kiko dinucci – “tango da bronquite” (ângela ro ro, 1980)
13. rael – “perdoai-os pai” (sérgio bandeira & ângela ro ro, 1981)
14. gustavo galo – “fraca e abusada” (ângela ro ro, 1981)
15. dani black – “tola foi você” (ângela ro ro, 1979)
16. juliano gauche – “a mim e a mais ninguém” (ângela ro ro, 1979)
17. helio flanders – “me acalmo danando” (ângela ro ro, 1979)

quarta-feira, 1 de maio de 2013

mexidão #07

fui percebendo com o tempo que a mistura de cultura e política se tornou um dos principais tópicos da minha vida profissional. mais ou menos evidente em tudo que escrevo, mas principalmente no yahoo. então, por exemplo, dei um tempo das polêmicas quentes do cotidiano lá no mexidão para falar do cantor e compositor rodriguez e da sua história contada magnificamente pelo documentário searching for sugar man. obviamente a política acabou se metendo lá pelas tantas... coisas da minha vida, minha nega, e de mais um monte gente.


O CULTUADO ANONIMATO DE RODRIGUEZ

Conheci a música de Rodriguez – ou Sixto Rodriguez ou Jesus Rodriguez – uns três anos atrás por causa de um relançamento de seu primeiro disco, Cold Fact (1970). Não sou fã de folk music, gosto de uma coisa aqui e outra ali, mas tinha algo de muito urgente em suas crônicas urbanas sobre despossuídos como ele (viciados, moradores de rua, trabalhadores braçais, etc.). Sem falar que canções como “Sugar Man”, “Inner City Blues”, “Crucify Your Mind” e “Rich Folks Hoax” ganharam arranjos inspiradíssimos criados pelos produtores-músicos Dennis Coffey e Mike Theodore.

Mas não sabia nada sobre sua vida e de sua carreira só tinha conhecimento que havia lançado outro disco, Coming from Reality (1971), e depois que este também não fez sucesso nos Estados Unidos ele sumiu do mapa. Então surgiu o longa Searching for the Sugar Man (2012), do diretor sueco Malik Bendjelloul, com uma história tão absurdamente fantástica que nenhum ficcionista poderia ter imaginado. O filme acabou ganhando, este ano, o Oscar de Melhor Documentário.


É que enquanto sua terra natal o ignorava solenemente – e ele voltava a trabalhar, sem crise, na construção civil de Detroit –, Rodriguez se tornou objeto de culto na distante África do Sul. Segundo a lenda, uma americana levou o disco para o país nos anos 1970 e jovens brancos (os afrikaners descendentes de holandeses) começaram a fazer cópias e cópias em fitas K-7. Foi a época mais violenta do apartheid e toda a comunicação era controlada por um dos mais autoritários e segregacionistas Estados do século 20. A crítica social nas letras de Rodriguez caiu como uma luva nos corações daqueles que viam o absurdo de ver a grande maioria negra e nativa ser perseguida, brutalizada, sem nenhum direito.

Só que Rodriguez não sabia de sua fama na África do Sul, do quanto influenciou a juventude e de que possivelmente seu disco Cold Fact vendeu cerca de 500 mil cópias por lá. Também  não sabia que outra lenda afirmava que ele tinha suicidado em pleno palco e as versões variavam entre um tiro na cabeça e o ateamento de fogo em seu próprio corpo. Esse desconhecimento mútuo durou até 1997 quando um fã sul-africano criou uma página na internet para tentar descobrir o paradeiro do ídolo (já sabendo que ele estava vivinho da silva). Não demorou muito para que uma das três filhas do compositor de origem hispânico-indígena entrasse em contato girando a roda viva de um emocionante reconhecimento tardio. Flores em vida, diria Nelson Cavaquinho.


De lá para cá, Rodriguez voltou a fazer shows e ganhou reconhecimento em seu país, sem nunca deixar de ser um cara que canta a dor das ruas, um trabalhador-artista meio louco e muito lúcido. Ouvindo Rodriguez e sua história tão bem contada em Searching for Sugar Man acabei lembrando uma passagem de A Lebre da Patagônia, livro de memórias do cineasta e escritor Claude Lanzmann: “(...) os humanos só são humanos porquê tem a capacidade de transformar num valor aquilo que os oprime e sacrificar-se por ele. Isso é a humanidade em si, mas também pode ser chamado de tradição, como vimos, e mais ainda, de cultura” (pág. 272). Podiscrê.

laerte da semana #45

laerte e a incrível semelhança com os humanos...

quinta-feira, 25 de abril de 2013

mexidão #06

fiquei na dúvida se colocava ou não a imagem que deu origem a prisão do "nazista de BH", no qual antônio donato baudson peret enforca um sem teto no centro de belo horizonte. não o fiz no yahoo porque tem uns malucos bem malucos por lá, mas aqui serve como lembrança que a intolerância segue firme, forte e em plena luz do dia (olha lá no fundo da foto, canto direito, um tiozão fotografando ou filmando sem tirar a bunda da cadeira).



O PRECONCEITO IMPUNE DE CADA DIA

Desde que comecei a escrever aqui no Yahoo! – pouco mais de dois anos atrás – sempre tentei acompanhar o máximo possível o que acontece na caixa de comentários. É uma loucura, uma babel de opiniões, alguns elogios e muitos xingamentos. Boa parte das pessoas que comentam nem se dá ao trabalhar de ler o texto e já disparam a lançar pedras contra o colunista. Mas esse é o jogo e, no fundo, gosto também de procurar entender como se manifestam certos ódios. Por exemplo, em um dos textos recentes aqui do Mexidão (“Joelma calada é uma poeta”), o que mais li foi gente reclamando que agora não se podia falar mais nada sobre homossexuais que se corria o risco de ser preso. Nada mais longe da verdade.

Antes de tudo, não é que agora não se pode falar mais de homossexuais (e “falar” aqui é xingar). Nunca pode. Quem falava de “boiolas” e “sapatas” (ou de negros e nordestinos) em tom violentamente pejorativo sempre esteve errado. Não é assim que se trata pessoas, independente de quem sejam, do que façam e de ontem tenham nascido. O que agora está acontecendo é uma maior consciência de todas as partes envolvidas (menos dos preconceituosos, claro) e uma luta por direitos para todos.

Mas voltando ao assunto de ser preso por preconceito. Ontem, 14 de abril, Antônio Donato Baudson Peret, 24 anos, foi preso na rodoviária de Americana (SP). Ele é o tal skinhead mineiro que poucas semanas atrás postou no Facebook uma foto no qual aparecia enforcando um morador de rua negro. A Delegacia Especializada de Investigações de Crimes Cibernéticos (DEICC) de Belo Horizonte em ação conjunta com a Guarda Municipal de Americana (GAMA) monitorou os passou de Antônio Donato até encontrá-lo visitando uma namorada que conheceu na internet e o prendeu ainda dentro do ônibus. Estavam cumprindo um mandato de prisão por apologia ao crime, racismo, nazismo e formação de quadrilha. Com ele foi encontrado um soco inglês, uma faca e um facão.


O sujeito cumprirá 30 dias de prisão preventiva enquanto as investigações prosseguem, mas o que chama atenção é o histórico de crimes impunes de Antônio Donato. Em janeiro de 2009 ele espancou um jovem homossexual de 19 anos. Em setembro de 2011 foi a vez de um casal gay. Nenhum dos dois casos chegou à Justiça. Em abril de 2011, um morador de rua menor de idade foi vítima de sua brutalidade e o caso chegou a ter duas audiências, mas Antônio Donato não apareceu. Na verdade, seu “grande erro” foi ter postado a foto no Facebook, o que lhe garantiu visibilidade na rede e, finalmente, um rosto a ser procurado. Se não fosse por isso ele ainda estaria por aí agredindo com a certeza da impunidade como todos os inúmeros casos Brasil afora (afinal, em 2012, o Disque 100 registrou uma média de 8 casos de violência por dia contra a população LGBT; número que deve ser muito maior)

Em um comentário que postou junto com a foto (ele tentou apagar depois, mas a imagem jpa tinha se espalhado) criticou governo e sociedade na seguinte forma: “Falsos democratas, sociedade libertina, policiais corruptos, direitos humanos e por aí vai... O velho pão e circo para o povo humanista”. É a mesma balela que se espalha como fogo de palha pelos comentários de anônimos e nos discursos de oportunistas como Marco Feliciano, Jair Bolsonaro e Silas Malafaia. Gente que se acha melhor que os outros, donos da verdade, gente que não respeita a diferença, gente autoritária da pior qualidade. Enquanto a homofobia não for considerada crime essa gente selvagem estará solta por aí agredindo inocentes que só querem viver tranquilos. Deu pra entender?

quarta-feira, 24 de abril de 2013

#vocêpraça no peito

é com muito prazer que venho aqui anunciar a chegada das camisetas do #vocêpraça. tinha imaginado isso no início, mas de uma forma amadora, caseira. daí surgiram os camaradas da greentee com a proposta de fazer uma série e achei bacana e surpreendente porque não conhecia ninguém lá. foi uma coisa totalmente espontânea de interesse e identificação. pra fechar o projeto eles fizeram um vídeo de divulgação, como sempre fazem quando rola um lançamento de uma nova série de camisetas, e cá estou eu falando uma coisa ou outra, coçando a barba, e fazendo uns grafites na rua natingui (que foram apagados no dia seguinte). ah, a camiseta custa singelos 58 reais e pode ser comprada aqui.

Greentee + Esforçado from greentee on Vimeo

terça-feira, 23 de abril de 2013

viagem de momo

só de voz e violão esse quarto disco de marcelo frota, o momo, e a melancolia segue firme, forte e envolvente (tem quem ache demais, eu mergulho fundo). sinceridade dolorida e beleza também estão nas nove faixas de cadafalso, disco sucinto e direto em seus 25 minutos (e que está para download gratuito no site oficial de marcelo). acho seu trabalho anterior (serenade of a sailor, 2011) um dos grandes desse início dos anos 2010, mas cadafalso tem uma falsa simplicidade arrebatadora, uma regravação de humberto teixeira ("eu vou pro ceará", lançada originalmente em 1953 por marlene) e três parcerias com wado ("sozinho", "cadafalso" e "copacabana"). wado, aliás, escreveu o release do disco - "a coragem para mirar o abismo", e lembrei de lhasa de sela e seu verso "con el abismo yo me enamoré", mas isso é outra história -, e nele traçou uma rota por cadafalso: "a terra natal é minas, o pai é cearense, a vida é vivida no rio de janeiro. e é sobre este chão flutuante que meu talentoso amigo, o compositor marcelo frota, nos apresenta mais um punhado de pérolas em seu disco solo mais brasileiro". as minhas preferidas são "uu" e "recomeço".

mexidão #05

acelerei o passo lá no mexidão, peguei o ritmo, mas como são três postagens semanais não posso colocar aqui na mesma velocidade. o esforçado viraria um simples espelho do mexidão e aí seria mals. preciso colocar pelo menos uma postagem exclusiva entre uma coluna e outra. vamos ver como vai funcionar. bem, depois que escrevi o texto, rafael castro entrou em contato comigo pelo facebook e muito educadamente se colocou a disposição para falar mais do assunto, explicar seu lado, seu ponto de vista sobre a música e os eventos que se seguiram. a longa entrevista que ele me deu foi publicada com aqui no esforçado com o título "rafael castro, advogado do diabo de si mesmo". ah, as fotos abaixo são todas da marcha das vadias/2012.


MÚSICA POPULAR DE ESTUPRO

O que Henrique Costa, cantor sertanejo de Nobres (MT), tem em comum com Rafael Castro, natural de Lençóis Paulistas (SP) e uma das revelações da nova música independente paulistana? Músicas, digamos assim, polêmicas. Uma de cada, na verdade (o assunto aqui, portanto, não são os artistas e sim essas músicas e o que elas representam). Vamos às provas...

PROVA 1 - “A noite tudo pode acontecer / Traz a tequila pra ela enlouquecer / Um black, um red, um blue e fica no grau / Se bebe tudo elas liberam geral” (“Então se Joga”, Henrique Costa). Adaptação livre de “Psycho Killer” do Talking Heads, a música “Então se Joga” ficou mais conhecida em fevereiro deste ano após o lançamento de seu clipe. Mas, curiosamente, boa parte das críticas negativas acusou o jovem de 18 anos de estragar o clássico do Talking Heads (Como se uma música tomasse lugar da outra, baita bobagem).

PROVA 2 - “Se você bobear eu vou te encher / de birinight / até você me achar jóia e a gente sair daqui / (...) Depois eu tiro sua roupa, / te amo sem você ver. / Você é tão quente quietinha, / me faz derreter...” (“Vou te Encher de Birinight”, Rafael Castro). Essa música de Rafael não é de agora, mas acabou voltando aos holofotes após um show que fez para a Calourada da USP deste ano, o que motivou uma estranha nota do Diretório Central dos Estudantes (a tal “Moção de repúdio às músicas opressoras de Rafael Castro” foi divulgada mais de um mês após o show).


Nos dois casos, a ideia central é bastante clara: embebedar garotas para conseguir sexo. Em entrevista ao site do jornal O Globo, Henrique Costa pediu “desculpas se alguém entendeu errado, mas eu quis mostrar alegria e festa, só isso”. Já Rafael Castro publicou em sua página no Facebook a sua própria (e longa) interpretação da letra, no qual enumera “repressão sexual, julgamento de valores, depressão, baixa auto-estima e alcoolismo se degladiando numa aproximação entre um casal que deveria ser muito mais simples que isso. Nesse caso há uma crítica social implícita e é ela quem vai conduzir nossa tragédia”.

E é disso mesmo que estamos falando, da tragédia que é a violência (física, sexual, psicológica, etc) contra a mulher no Brasil. Não adianta falar que “a música estimula apenas a diversão” ou que é uma “crítica social” quando isso não está claro na letra. A jornalista Kátia Abreu foi justamente nesse nó interpretativo em seu texto “Amigos, amigos; cretinices à parte”: “O argumento mais comum é o de uma suposta ironia na canção [de Rafael Castro]. Ora, se a intenção de uma obra não é compreendida pelo público há de se pensar que o problema está no emissor e não nos receptores da mensagem. Alegar ‘não entenderam a piada’ é se igualar ao discurso de caras como Rafinha Bastos e Danilo Gentili, quase unanimemente criticados por aí”.


Meus caros, se vocês deixaram brecha para interpretarem suas músicas como “apologia ao estupro” é porque algo vocês fizeram errado na composição (em tempo, “Então se Joga” é do mineiro Gui Bittencourt, Henrique Costa é apenas o intérprete). E não é possível deixar brechas quando o assunto é estupro (aqui ou em qualquer outro lugar). Segundo o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2010), foram registrados – repito, registrados, o que significa que o número é maior –15704 casos de estupro em 2008. O número saltou, em 2009, para 22477. Isso sem contar tentativa de estupro e atentado violento ao pudor. É coisa séria, nada pop. Então, fica a dica de Alex Castro no indispensável “Feminismo para homens, um curso rápido”: “Para um homem, simplesmente ouvir as mulheres, sem interpelar grosseiramente nem minimizar as agressões sofridas, já é grande parte do processo”.