quinta-feira, 28 de março de 2013

yahoo #66

já comecei meu blog solo no yahoo, o mexidão, e a ideia é que passe a tocar apenas ele com umas três atualizações semanais. portanto, este texto sobre o fenômeno "harlem shake" talvez seja meu último no ultrapop (tamos aí nas costuras, no que for melhor para ambas as partes, como diria aquele sujeitinho). os cães rodam e a caravana ruge.



O PRINCÍPIO, O MEIO E O FIM DE "HARLEM SHAKE"

Faz pouco mais de um mês que o mundo foi inundado por um novo e, como tudo na internet, inescapável meme. Impossível que você, caro(a) leitor(a), não tenha visto alguma versão do “Harlem Shake”, mesmo que depois tenha pensado cá com seus botões porque as pessoas estavam fazendo esse fuzuê todo.

A história começou mais ou menos assim. Baauer, um jovem DJ norte-americano nascido Harry Rodrigues, lançou em maio do ano passado a música “Harlem Shake”, mas ninguém deu a mínima pelota para esse batidão eletrônico que não tinha nenhuma relação com a dança de mesmo nome surgida no início dos anos 1980. Daí que o tempo passou e no final de janeiro deste ano, o comediante Filthy Frank pegou um trecho de quase 20 segundos da música, fez uma coreografia maluca com amigos e colocou como o início da compilação “Filthy Compilation #6 – Smell my fingers”. O viral estava quase pronto.

Três dias depois, apenas três dias depois, cinco moleques australianos autoproclamados The Sunny Coast Skate chegaram lá e definiram o formato que se espalharia pelo mundo com a mesma velocidade fatal da gripe espanhola. O vídeo tem apenas 30 segundos. Na primeira metade apenas um integrante do grupo dança ao som de “Harlem Shake”, e este usa um capacete, então acontece um breque na música, um corte seco no vídeo, e de repente todos começam a dançar dos jeitos mais nonsense possíveis. Pronto, o estrago estava feito.

No texto “Um artista desconhecido no topo da parada da Billboard”, o jornalista Alexandre Matias afirma que o vídeo “virou uma pérola de humor nonsense da internet. Justamente por isso pegou. E, como outros, começou a ser citado, referido, misturado. E o ‘do the harlem shake’ convidou as pessoas a fazerem seu próprio ‘Harlem Shake’. O resto é história”.

Essa combinação explosiva de dança, humor, simplicidade e tudo isso em apenas 30 segundos fez nascer versões como a do exército norueguês, os jogadores de basquete do Miami Heat e os mergulhadores da equipe da Universidade da Georgia, além de incontáveis compilações. O Brasil, claro, também deu sua contribuição e teve desde o Programa do Ratinho e o Programa da Eliana, passando por manifestações em Indaiatuba e na Avenida Paulista, até montagens com clipe de “66” da banda O Terno, o caos do transporte público em São Paulo e evangélicos rodopiando. E também compilações nacionais e até uma versão com letra em português (“Harlem Tcheka”) feita pelo Bonde do Rolê. Mas nada, em nenhum lugar, chega próximo da habitual genialidade d’Os Simpsons.


Claro que os mal humorados de plantão acham que por causa dessa febre o mundo vai acabar (mais uma vez). Não conseguem enxergar como um vídeo desses amplia o vocabulário de imagens e referências da cultura pop mundial. É uma Luisa Marilac, um “Gangman Style”, um “David after dentist”, coisas que passam, mas também deixam seus rastros.

De uma forma ou de outra, o sonho “Harlem Shake” está prestes a acabar, tanto que Rubinho Barrichello fez o seu no casamento de Tony Kanaan, mineiros australianos foram demitidos após colocarem sua versão no YouTube e russos foram presos após dançarem em um Memorial da Segunda Guerra. Por outro lado, Baauer está sendo processado por Hector Delgado e Jayson Musson por terem sampleado suas vozes (“Com los terroristas” e “Do the Harlem Shaker”, respectivamente) e ainda cometeu a burrada de brigar com uma estrela em ascensão, a rapper Azealia Banks, por causa de seu remix da música, quando deveria se sentir prestigiado. Escuta (e vê) só.


Já surge uma nova onda, um novo viral, porque a vida também é feita dessas coisas efêmeras e tem maluco pra tudo nesse mundo.

laerte da semana #44

laerte, na mosca do pastor

sábado, 23 de março de 2013

deusa e diaba na terra da chuva

dois anos atrás, quando foi gravado live in jurunas, gaby amarantos ainda estava se preparando para gravar seu cd de estreia (treme, 2012). muita coisa aconteceu com a paraense de lá pra cá, desde seu disco entrar em boa parte das listas de melhores do ano (também aqui no esforçado) até centenas de shows, participações, aparições em tv, editoriais de moda e o escambau, sempre trafegando muito fácil e confortavelmente entre os mundos popular e cult. 


mas este live in jurunas, lançado hoje, é particularmente revelador da energia da intérprete no palco e da sua forte ligação com seu bairro de nascimento e criação (coisas que, obviamente, não aparecem no disco). e tudo filmado de forma crua, documental, suada e apaixonada por priscilla brasil (que depois dirigiria o clipe de "xirley") e vincent moon. clique aí e se divirta com os muitos detalhes, sonoros e visuais, desse grande show que é gaby amarantos.

sexta-feira, 15 de março de 2013

yahoo #65

não resisti e aproveitei a chance de colocar o "você praça" lá no yahoo, um tanto para divulgar mais, mas também para ver a reação dos comentaristas malucos, e escolhi um recorte bem definido: a reação das pessoas na rua justamente na hora que estou aplicando o stencil. experiência interessante mesmo com poucos comentários postados. enquanto isso, lá no ultrapop, o texto "o princípio, o meio e o fim de harlem shake".



POR UMA CIDADE CHEIA DE GRAÇA

Deixa pedir licença para falar de um projeto pessoal. Quer dizer, pessoal, mas que também tem muito a ver com um dos temas recorrentes aqui nas minhas colunas no Ultrapop: a retomada de uma cidade mais humana a partir do diálogo, do comprometimento, da ação. Faz pouco menos de um mês que venho espalhando uma quadrinha, em formato estêncil, pelas ruas de São Paulo. Escrevi sobre a origem do “Você praça acho graça / Você prédio acho tédio” lá no Esforçado e aqui gostaria de tratar das reações que tenho percebido no momento que estou grafitando.

Antes de tudo é bom dizer que até agora não tive nenhuma experiência de repressão, nem da polícia e nem de seguranças particulares, e olha que tenho feito tudo às claras, sol a pino (e já fiz com dois amigos e duas amigas, sendo que uma delas com seu filho de 9 anos). Tenho duas explicações possíveis para essa calmaria: a quadrinha é doce, não dá para ver nada de ofensivo nela, e o objetivo não é vandalizar nada, justamente pela quadrinha ser doce. Existe uma transgressão, obviamente, mas é uma transgressão moleque, meio hippie, e feita por um sujeito de cabelos e barba grisalhos, óculos. Enfim, eles nem ligam. Melhor pra mim.


E lá vou eu com algumas opções de sprays na mochila (preto, vermelho, cinza, amarelo e azul safira) à procura de tapumes de obras, muros de terrenos baldios, estacionamentos, coisas assim. Logo no primeiro, na Rua Amaro Cavalheiro, um pai parou seu filho de 7 anos. “Olha o que o moço tá fazendo”, disse, e o moleque rapidamente foi hipnotizado pelos movimentos do spray. Não disse nada, mas saiu a contragosto para almoçar em casa. Logo depois, na Rua Fradique Coutinho, o primeiro sorriso.

Sorrisos silenciosos, e invariavelmente femininos, foram se repetindo nos dias seguintes: um grupo de evangélicas perto do Largo da Batata, uma família na Rua Heitor Penteado, um grupo de crianças na Rua Paris, duas amigas em um ponto de ônibus da Av. Corifeu de Azevedo Marques e metade de um outro ponto na Av. Paulista. Mas também um chinês que parou na Rua Girassol, leu o texto com certa dificuldade em voz alta e me deu tapinhas nas costas repetindo “Muito bom, muito bom”. Ou um garoto que passou com a mãe por um dos últimos casarões na Paulista, deu meia volta e tirou uma foto do estêncil fresquinho dizendo que ia colocar “no Face”.

“Você nunca tinha visto alguém fazendo arte na rua, então... e olha, é poesia também”, disse uma mãe para sua filha na Rua Pedroso de Moraes. Já em tapume na Travessa Pátio do Colégio uma garota olha para o namorado e dispara “Vi um desses na Cardeal”, enquanto na escondida Rua das Flores, perto do Poupatempo da Sé, um grupo de amigos lê o texto da quadrinha e ao fim um deles diz simplesmente um “Ó!”. Sem falar em um senhor que deu um tempo de sua cervejinha dominical para acompanhar o grafite sendo feito na Rua Aurélia e seguranças que depois foram bisbilhotar na Rua João Moura e na Av. Brigadeiro Luis Antônio (até agora fiz grafites em 91 pontos de São Paulo e Fortaleza, tudo devidamente registrado no Google Maps e em um tumblr). A listagem de reações não é para encher a bola deste que voz escreve e sim para mostrar como é possível, e fácil, fazer sorrir em uma cidade que aparentemente distancia as pessoas. Basta ser carinhoso.


Por fim, esse grafite, como toda arte urbana, tem a consciência do efêmero. O local pode ser demolido, alguém pode pintar por cima, outro grafite pode ser feito por cima, tudo pode acontecer, menos a eternidade. E tudo bem. O que importa é a ação e as reflexões/emoções conseguidas através dela. Por essas e outras disponibilizei o PDF da quadrinha-estêncil para download. Para que essa ação possa ser feita em outras cidades, por outras pessoas, ou seja inspiradora, vai saber. Cidade boa é aquela que sorri junto com a gente.

p.s.: Dos mais de 60 textos que já fiz para o Yahoo! estes são os outros em que tratei da cidade. “Quando o Minhocão balançou de alegria”, “Saudade de cinema de rua”, “Nem todos estão surdos”, “Um centro vivo e no virote”, “Arte que desmancha no ar”, “São Paulo, velha e louca” e “Pra cima, com raiva”. E para finalizar o texto, “Cola de Farinha”, ótimo documentário sobre um grupo que vem trabalhando em São Paulo com stickers, uma variação do bom e velho lambe-lambe, e suas inspirações.

segunda-feira, 11 de março de 2013

gal costa, muito ao viva

lançado no finalzinho de 2011, recanto foi uma linda volta aos braços de gal costa (doce, rascante, a baita intérprete de sempre, uma das maiores do mundo). o mano caetano, vindo de sua fase roqueira, e moreno veloso deixaram tudo mínimo, poderoso e levemente eletrônico na produção deste ousado disco de inéditas, e gal deu a volta nas mudanças naturais de sua voz. não é nada fácil criar clássicos instantâneos neste engarrafado século 21 e recanto veio com duas de uma vez só: "recanto escuro" e "neguinho". tudo lindo, tudo certo, e em outubro do ano passado foi gravado no teatro tereza rachel, no rio de janeiro, um registro da turnê. agora, junto com o lançamento do dvd recanto ao vivo (e de um consequente cd duplo), o canal do youtube da cantora disponibilizou (por enquanto) 10 das 23 músicas do show. escolhi 6 para colocar aqui, começando com "recanto escuro", "neguinho" e "miami maculelê", todas de recanto.







o show também foi dirigido por caetano veloso e a banda é formada por pedro baby (guitarras), bruno di lullo (baixo) e domenico lancellotti (bateria e mpc). o roteiro alterna inéditas e alguns clássicos do repertório de gal, todos com arranjos novos e cheios de surpresas, tais como "da maior importância", "barato total" e "vapor barato" (numa versão particularmente emocionante com a cantora chorando ao introduzir o solo de guitarra de pedro baby).







naldo ou naldo benny, pra mim tanto faz

após uma entrevista com lia sophia e uma breve reportagem sobre a série "cidades ilustradas" na edição de fevereiro da revista da gol, fiz agora pra de março um longo perfil do cantor naldo (naldo benny). a entrevista aconteceu na tarde da sexta de carnaval lá na fundição progresso, no rio de janeiro, e a noite fui ver um show seu no clube monte líbano, na lagoa rodrigo de freitas. pessoalmente não gosto do som dele, acho que falta uma sujeira aqui e ali, mas é impressionante ver o tanto que o cara deu duro, além de ser trabalhador, obstinado e sério, até colher os frutos, os muitos frutos, nesse seu momento de sucesso (e ainda é gente boa). como sempre, a versão no esforçado é maior que a publicada, mas tenho que agradecer a thiago lotufo, que tanto me chamou pra fazer o perfil como fez uma ótima edição. ah, e as fotos que tirei foram feitas durante o trabalho do marcelo corrêa, autor dos retratos do cantor que estampam a revista.



E ELE QUER MAIS

Sucesso absoluto do verão com músicas como “Amor de Chocolate”, o carioca Naldo, agora Naldo Benny, prepara-se para dominar o mundo com sua mistura de funk, pop e calor da noite

O sorriso de Naldo chega antes de seu próprio dono e motivos não lhe faltam. É o seu cartão de visitas, sua bandeira, a música que faz e, de um ano para cá, seu estrondoso sucesso. Neste verão foi simplesmente impossível andar em qualquer cidade brasileira sem ouvi-lo cantar “uísque ou água de coco, pra mim tanto faz”. De postos de gasolina a coberturas, de bailes de debutantes no interior a barracas de praia, tanto faz. E o carioca diz que isso é só começo, que tem muito chão pela frente e muita coisa para acontecer.

Quando a reportagem da Gol encontrou com o cantor, na tarde da sexta-feira de carnaval, ele estava voltando de Salvador e nos dias seguintes iria encarar um novo batidão de shows (de 2 a 4 por noite e às vezes em cidades e estados diferentes), encontrar com Will Smith e Kanye West no Rio de Janeiro, e participar de um arrastão com Ivete Sangalo e Gaby Amarantos, novamente em Salvador. E o sorrisão lá, fácil, grande, querendo mais.

Mas antes da conversa, a sessão de fotos. O palco da vez é a Fundição Progresso, lugar que frequentou quando fez aulas de movimentos de solo no espaço da Intrépida Trupe. Cuidadoso com a aparência e muito consciente de seus movimentos, o garoto que nasceu em Bonsucesso e cresceu no Complexo da Maré sabe como e de que jeito quer aparecer. Adora usar tênis, por exemplo. É seu objeto de consumo preferido e contabiliza cerca de 350 pares em casa, todos impecáveis. “Uso, chego em casa, limpo e guardo”, diz enquanto pega emprestado o tênis de seu produtor, Thiago Rodrigues, pois justamente naquele dia calçava uma sapatilha. No entanto, antes de colocar no pé não resiste e acaba dando uma esfregadinha. “Eu já gosto de tênis marcado”, diz o produtor se divertindo com a mania de Naldo.



Enquanto as fotos são feitas nos inúmeros cenários possíveis da Fundição chega Rique Silva, produtor geral e irmão do cantor, com mais alguns acessórios. Quatro anos mais novo, Rique começou a trabalhar ainda no tempo de Naldo & Lula, e a dupla já fazia algum sucesso no Rio de Janeiro quando, em 2008, Lula foi assassinado. Nascido Jorge Luiz da Silva, Lula era dois anos mais novo que Naldo e outros dois mais velho que Rique, bem irmão do meio mesmo, e sempre foi considerado o mais brincalhão da família. 

Os dois cantavam juntos desde os 15 anos e ambos começaram, ainda crianças, na Assembleia de Deus que os pais sempre frequentaram. O gosto por black music e os ídolos eternos Stevie Wonder e Michael Jackson também os uniam, mas foi pelo funk carioca, ritmo mais próximo e acessível, que entraram na música. Só que não queriam cantar “proibidões” (funks feitos para facções criminosas) e sabiam que podiam colocar sensualidade em suas letras sem apelar para vulgaridade. Restava procurar qual caminho e trabalhar duro em busca de uma carreira e não apenas uma música de sucesso.

A sorte dos irmãos mudou quando em 2005 a música “Tá Surdo” entrou numa das disputadas coletâneas do veterano DJ Marlboro. Daí surgiram convites para TV, elogios de Ivete Sangalo, clipes e shows, muitos shows, principalmente no Rio de Janeiro. Naldo, que quase desistiu da carreira após a tragédia, chama hoje o irmão de “meu anjo bom”.

“A gente tem uma base familiar muito forte, nossos pais sempre nos mantiveram unidos, e tem a nossa fé também. Acho que essas são algumas razões do sucesso do Naldo. E tem essa roupagem nova que ele deu ao funk, mais puxada para o pop. Quer dizer, nós sempre buscamos o sucesso, mas nunca imaginei que fosse acontecer desse jeito. Assusta um pouco”, explica Rique. 



A tal roupagem nova a que se refere o irmão-produtor ganhou contornos mais claros quando Na Veia, a estreia solo de Naldo, foi lançado de forma independente em 2009 como uma espécie de homenagem ao irmão. O disco trouxe material que vinha sendo trabalhado desde os tempos da dupla, mas de um jeito mais eletrônico e festeiro. E quando começaram os shows houve bastante investimento na dança e em coreografias, uma sugestão de Lula para incrementar o espetáculo. “O gancho dele é o de ser um romântico tipo Buchecha, machão tipo MC Leozinho, e meio ostentador estilo gangsta rap. Nessa pegada do romantismo acho que ele acaba fazendo uma mistura com o pagode mais romântico e o sertanejo. Ou seja, joga num campo que tem muitos admiradores”, explica o jornalista Pedro Alexandre Sanches sobre as variadas misturas do cantor.

As fotos acabam e é hora de Naldo falar. Sempre acompanhado da namorada Ellen Cardoso, a Mulher Moranguinho, ele não aparenta nenhum sinal de cansaço. “Sempre tive certeza que quando meu trabalho conseguisse chegar até o povo, o sucesso aconteceria. Sempre fui muito dedicado, trabalhei muito e sou completamente alucinado pelo palco e pela música. Acho que isso é que não me faz me deslumbrar. Estou sempre pensando no trabalho e em como melhorá-lo”, diz o novo popstar brasileiro que já foi ajudante de feirante, engraxate e segurança de supermercado.

Como disse o irmão Rique logo acima, a coesão familiar teve um papel fundamental nessa perseguição determinada de Naldo pelo sonho de uma carreira musical. A mãe Ivonete vendia produtos cosméticos pra ajudar a pagar seus estudos de canto, as irmãs tomavam conta de Pablo, o filho de 15 anos do cantor resultado de um namorico adolescente, e o pai Manoel, soldador elétrico, lhe dava conselhos que traz até hoje no coração. 

“Ele me disse uma vez que ‘em pelo menos uma coisa na vida se você não for o melhor tem que tentar ser’. Já dá minha mãe trouxe a fé em Deus para o meu dia-a-dia. E dos dois, o respeito e o carinho pelo próximo. Independente do sucesso, carrego dentro de mim esse respeito pelo ser humano”, e nessa hora Naldo lembra quando ganhou o DVD de Ouro (25 mil cópias) pelo Na Veia Tour em janeiro deste ano. Antes de entrar no palco do Citibank Hall, no Rio de Janeiro, sua mãe lhe puxou de canto e disse, com os olhos cheios de lágrimas, que sempre acreditou nele. Pausa para recuperar o fôlego.

“Ah, tenho orgulho mesmo”, diz Dona Ivonete ao telefone. “Ele sempre foi muito honesto, muito trabalhador, e sempre buscou esse sonho com aquele sorrisão bonito. Agorinha mesmo estava fazendo unha na varanda e começou a tocar na vizinha uma música do Naldo & Lula... [e começa a cantarolar] ‘Não sei se sou / O cara que você sonhou / Você precisa acreditar / Não gosto de te ver chorar’... fiquei emocionada. Gosto das músicas também, viu? Só tem umas letras que eu mudaria um pouquinho”, e ri timidamente. Está falando de “Exagerado”, mais especificamente do verso “Falar besteiras no ouvido até você gozar”. Ela trocaria facilmente a última palavra por “pirar” e quando Naldo canta a música na TV ele faz o mesmo.



“Pra minha família nunca houve problema entre as letras mais quentes e a religião. Eles sempre entenderam isso. Sabe que até mostrei minhas músicas para um pastor da minha igreja? Ele disse que não tinha nada de mais, que amor é coisa de Deus”, explica Naldo. Entre as músicas mais “quentes” de seu repertório estão “Exagerado”, “Amor de Chocolate”, “Chantilly” e “Sem Sutiã”, mas também existe espaço para o romantismo de “Meu Corpo Quer Você” (música que, em dueto com Preta Gil, entrou na trilha da novela Salve Jorge).

Só que entre esses dois pólos, a dança acaba aumentando ainda mais o calor das letras (inclusive das românticas). “Quero falar de amor sim, mas também de coisas que rolam na noite e entre quatro paredes. Hoje tenho mais liberdade e quero colocar músicas mais românticas no CD e DVD que lançarei no meio do ano. Mas pra pista não tem jeito, tem que fazer algo mais quente, mais pesado”, confessa. 

Seu próximo trabalho se chamará Benny e será o primeiro assinado por Naldo Benny, seu novo nome artístico pensado para o mercado internacional. Nesse caminho já deu outros dois passos: uma versão em espanhol de “Exagerado” e a participação do rapper norte-americano Fat Joe em “Se Joga”. “Hoje consigo brincar com os universos do funk e do pop. E isso é um som para o mundo. Li que ‘Benny’ em hebraico quer dizer justo, bendito, abençoado, e achei que tinha tudo a ver com essa história mais moderna”, e os olhos brilham ao falar que se programou este ano para três viagens aos Estados Unidos. Em duas se apresentará e em outra conhecerá, via o novo amigo Fat Joe, Chris Brown e Snoop Dogg. O sonho de parcerias com alguns de seus maiores ídolos está cada vez mais próximo.

Logo ali ao lado, por toda Lapa e Rio de Janeiro, o carnaval pega fogo e Naldo tem dois shows à noite. O segundo, com banda e dançarinos, é em um clube tradicional na Lagoa Rodrigo de Freitas, o público previsto é de 4 mil pessoas e os ingressos estão esgotados. “Nunca tive medo de nada. Eu quero o Grammy, a carreira internacional, e vou conseguir. Sei que vai ser trabalhoso e exigir muito de mim. Mas não tenho medo não.” Will Smith que o diga, afinal, dias depois, presenciou Naldo ser adorado e cantado histericamente por centenas de fãs que nem deram bola para o astro norte-americano.

Agora, se Naldo não tem medo de tamanha ousadia internacional obviamente não temeria esse seu público novo de classe média alta e seus cercadinhos VIP. Então, quando sobe ao palco, trata logo de hipnotizar a todos com sua eletricidade e uma saraivada de hits. Mas também faz questão de bater no peito suas origens e canta alto um hino para muitos brasileiros como ele: “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci”. Em seu caso, com um Grammy à tiracolo.



p.s.: abaixo, o texto nas sete páginas da revista.





quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

12 dias SP, uma introdução

cerca de um ano atrás, não sei ao certo, pensei numa série de 12 reportagens. a ideia original era passar um dia por mês rodando por alguma região de são paulo, mas ainda estava meio vago. precisava de um recorte mais definido. no início desse ano pensei em fazer todo dia 25, começando no aniversário da cidade em 25 de janeiro e terminando em 25 de dezembro. não consegui iniciar em janeiro, cabeça a mil, e pra driblar as limitações dessa produção independente pensei numa saída: escolher 12 lugares de são paulo que fossem uma mistura de lazer, trabalho e passagem, e que tivessem horário para fechar e abrir (claro que sempre rolam umas liberdades, nada é tão engessado assim). e eu ficaria pra cima e pra baixo observando, falando com pessoas e tirando fotos. fazendo um registro-instantâneo de um espaço paulistano e de suas gentes em um dia específico. só uma coisa não mudou do ano pra cá, o nome do projeto ("12 dias SP", pois as noites ficam pruma próxima), além dessa vontade de estar na rua, em movimento. o "você praça acho graça" faz parte disso também.

bem, tinha pensando em alguns pontos, mas decidi abrir no facebook essa história. um tanto pra sentir a recepção, mas também esperando sugestões. nos dois casos, o retorno foi surpreendentemente bom e me deu outras muitas outras ideias (não tenho nem como agradecer todas as dicas, foram muitas e de muitas pessoas). acabei fechando nos seguintes 12 pontos: grandes galerias, terminal da praça da bandeira, praça da sé, luz, centro de tradições nordestinas, parque ecológico do tietê, rua javari em dia de jogo, mercado da lapa, shopping cidade jardim, cemitério jardim são luís, zoológico e represa de guarapiranga. a estreia será em março nas grandes galerias.



p.s.: acabei, meio que de sopetão, fazendo um texto de aquecimento, um exercício, para o "12 dias SP" a partir de um passeio noturno na paulista. saiu "o início da avenida paulista também é seu fim".

atualização: escrevo agora do início de junho e ainda não comecei. que beleza... mas vai rolar, vai rolar...

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

yahoo #64

em março rolarão novidades no yahoo e por causa disso a minha coluna no ultrapop voltou a ser quinzenal. essa aqui saiu na quarta-feira de cinzas e tratou, obviamente, de carnaval, mas de carnaval em são paulo, mais precisamente em cima do minhocão. posso dizer, sem medo de exagerar, que foi um daqueles dias que vou me lembrar pra sempre. alegria, sintonia, amor, suor e festa, muita festa, numa cidade que precisa muito voltar a se divertir. sem falar em um lindo batman mirim em seu primeiro carnaval de rua.



QUANDO O MINHOCÃO BALANÇOU DE ALEGRIA

Existem os carnavais de rua profissionais do Rio de Janeiro, Salvador e Recife/Olinda e existe o de São Paulo, franzino, tímido e motivo de deboche nacional. Por enquanto. É que ninguém fica na cidade. É que São Paulo não gosta de folia. É que sempre chove no carnaval. Nada disso é desculpa, muito menos verdade, e a festa pagã deste ano pode ser um momento de virada nessa história. Não é à toa que é o primeiro carnaval após os oito anos restritivos, burocráticos e caretas da gestão Serra-Kassab. Deu pra sentir nas ruas um eufórico espírito de retomada, mesmo que ainda um tanto caótica, afinal a cidade não está acostumada a ser feliz.

No final do ano passado foi criado o Manifesto Carnavalista, uma reunião de blocos e cordões independentes com interessantes reinvindicações: direito à alegria; direito à folia; valorização e afirmação da tradição cultural paulistana; ocupação do espaço público como exercício da cidadania; e identificação do potencial econômico do carnaval de rua. Daí que a nova gestão da Prefeitura de São Paulo, na figura do Secretário de Cultura Juca Ferreira, estabeleceu um diálogo com os blocos e foi assim que a história da folia paulistana ganhou novas caras e um novo futuro.

E as ruas foram tomadas tanto pelos tradicionais Bloco dos Esfarrapados (66 anos) e Vai Quem Quer (33 anos) quanto por blocos jovens ou estreantes como Bloco Afro Ilú Obá de Min, Cordão Kolombolo Diá Piratininga, Acadêmicos do Baixo Augusta, Ó do Borogodó, Nois Trupica Mais Não Cai, Bloco Soviético, Confraria do Pasmado, Cordão Cecília, Jegue Elétrico, Pimentas do Reino, João Capota na Alves, Zé e Maria, Vaca das Galáxias e Bando dos 7.


Mas o caso do Agora Vai, que saiu no final da tarde de ontem (terça gorda), é bastante revelador desse novo espírito. Fundado em 2005 na Barra Funda, o bloco sai do Largo Padre Péricles e anda um tanto bom pelo Minhocão até voltar ao largo, com direito a hino próprio, marchinha inédita todo ano, duas vocalistas em um carrinho de som improvisado, estandarte e uma pequena e aplicada bateria que faz até breques de funk.

E tinha de tudo por lá, casais e solteiros(as), homos e heteros, crianças e velhos, gente fantasiada e malucos à paisana, todos cantando e dançando por uma cidade que seja boa para quem a faz. Perto da concentração aconteceram ainda divertidas intervenções em placas e, de uma hora pra outra, a feia Marginal Tietê se transformou numa esfuziante Marginal Paetê.

Mas o auge do bloco aconteceu quando as cerca de 3 mil pessoas presentes começaram a pular e fazer o Minhocão balançar. Construído por Paulo Maluf e com nome de ditador militar (Costa e Silva), o Elevado felizmente já é usado para fins recreativos nos finais de semana, mas nesse Carnaval ele virou uma grande passarela para alegrias das mais diversas. Desde um cadeirante com cabelos lotados de confete até um menino de 4 anos vestido de Batman que abriu os braços e sorriu ao ter seu nome de herói gritado por centenas de pessoas. Esse é o tecido de que são feitos os sonhos carnavalescos de uma cidade.

p.s.: falando em Carnaval de São Paulo, nada melhor que encerrar esse post ao som d’A Espetacular Charanga do França.

o início da avenida paulista também é seu fim

Pois é, logradouros de mão dupla tem dessas coisas. Só que ali em seu início oficial, na Praça Oswaldo Cruz (antigo Largo do Paraíso), na noite de 19 de fevereiro, um casal tinha questões mais urgentes para se preocupar. O relógio marcava 21h35 e ele negro, ela branca, ambos magros com cerca de 20 anos, se equilibravam precariamente em um dos bancos ondulados anti-mendigos. A luta contra o concreto é sempre árdua e a praça ainda por cima estava mergulhada em sombras e com centenas de galhos espalhados pelo chão – resultado da grande chuva de algumas horas antes –, mas os dois deram um jeito de se encaixar, coxa sobre coxa, beijo sobre beijo, abraçados infinitamente até a inevitável hora de irem para a casa dos pais.

Do outro lado da praça, o Índio Pescador, estátua de Francisco Leopoldo Silva, olha para o lago seco congelado no tempo. Os peixes há muito se foram, bem como sua lança, e mesmo assim ele espera. E se ele um dia saísse pela avenida descontando os anos de maus tratos e indiferença? Não, nem em sonho. O bom selvagem de cobre continuará por ali esperando qualquer coisa. Hipnotizado pelo vazio.


A ida é pelo lado par, a volta pelo ímpar, e nas duas calçadas da avenida passam pessoas com malas, chegando ou partindo da cidade, e muitas outras saindo das inúmeras faculdades da região. A fauna noturna também é composta por sem tetos que se abrigam do jeito que conseguem e o primeiro a ser encontrado aparece logo após a entrada do Hospital Santa Catarina: rosto coberto e corpo em posição fetal para não sentir o vento frio da noite fresca. Logo acima de sua cabeça uma série de esculturas em baixo relevo com corações, pulmões, células, ossos e outros pedaços humanos. E ele ali, inteiro.

No decorrer da caminhada aparecerão outros 17, todos homens, e a maioria optando pela segurança dos caixas eletrônicos. Ah, e não possuem preconceito contra nenhum banco. Estão no Safra e na Caixa, no Santander e no Itaú, no Bradesco e no Banco do Brasil. E invisíveis em todos os lugares pelas ondas humanas que os cercam.


O frenesi de gente querendo chegar logo em casa, já tá tarde, mais de 10 da noite putaquepariu, congestiona vários trechos dessa senhora avenida de 122 anos. Um dos pontos de maior movimento é o prédio da Gazeta, onde também funciona o cinema Reserva Cultural, a UNIP, a Casper Líbero e o Objetivo. No entanto, sua longa e ampla escadaria acaba sendo usada também como arquibancada para o teatro da calçada e nessa noite um grupo de amigos é responsável pelo som ao vivo. A formação é curiosa – flugelhorn, trompete, violão, cavaquinho e percussão (cajón) – e o ponto alto é uma versão de “Liberdade pra dentro da cabeça” (Natiruts).

O pessoal no ponto de ônibus dá umas olhadas, uns até sorriem, mas quem mais aprecia é um velho bêbado que resolve se deitar para melhor desfrutar a serenata. A música acaba e o sujeito que toca flugelhorn sai da formação, senta em um degrau e sai disparando trechos de “Berimbau” (Baden Powell e Vinicius de Moraes), “I say a little prayer for you” (Burt Bacharach), Los Hermanos e Beirut. O fluxo de gente não para, nem as obras, nem um carro de polícia com sirene ligada, nem um silencioso caminhão de bombeiro.


Um pouco depois é a vez do prédio da FIESP dominar o cenário com suas luzes noturnas. A construção do final da década de 1970, assinada pelo escritório de Rino Levi, foi reformada vinte anos depois por Paulo Mendes da Rocha e agora está tomada por animações um pouco falhas com espirais, mapas estilizados de São Paulo e gotas eletrônicas escorrendo pela fachada do prédio. Um policial saca o celular, tira uma foto, mostra pra companheira PM, ela diz que ficou ótima e os dois se dirigem ao MASP. Missão dada é missão cumprida, dizem por aí.


O vão livre do museu projetado por Lina Bo Bardi é outro que serve de abrigo noturno para sem tetos, geralmente perto da bilheteria, e é uma moldura e tanto para os cada vez mais corriqueiros passeios noturnos de bicicleta. Passam um, dois, três, quatro grupos em menos de uma hora, com números de integrantes variando entre 6 e 20. Passa também um jovem de óculos escuros tocando um violão porcamente pintado e usando um chapéu de palhaço que poderia ter sido roubado do Patati ou do Patatá. E nenhuma alma viva no antigo Belvedere do Trianon, ninguém olhando a Av. 9 de Julho serpentear rumo ao Centro.

O movimento de carros vai diminuindo pouco a pouco, bem pouco, mas o bastante para ouvir o grito das rodinhas de skate rasgando o chão perto do prédio da Caixa Econômica. Pouco depois já dá pra ver um garoto de camisa de flanela e boné rolando e seu skate indo para o lado oposto. Levanta rápido, cê nem viu mano. Pouco adiante um outro garoto consegue convencer a amiga a andar em sua prancha com rodinhas. Ela nunca teve coragem, mas ele tanto insistiu que... então, gentilmente, ele segura a mão dela, que sobe e fica em pé, parada, já esperando o tombo. Mas lentamente ele a traz pela mão e o skate vai andando, andando, e ela junto rindo nervosa. Depois gostando. E lá se vão os dois.


Então é a hora do fim da Paulista, ou do início, aí depende. Lá pela altura do 2400, a avenida é brutalmente cortada pela Rua da Consolação, o que não deixa de ser irônico, e só um restinho seu fica do outro lado. Nesse trecho, que muita gente não acredita fazer parte da Paulista, cabem um grande prédio residencial, um comercial, um estacionamento, uma boate que já teve dias melhores e a Praça Marechal Cordeiro de Farias, ou Praça dos Arcos.

Essa praça, como muitas outras na cidade, não é um lugar de lazer ou descanso e sim de passagem. As praças em São Paulo também não podem parar, talvez por isso não possuam bancos nem nada parecido. Quer dizer, tem uma mureta em forma de arco (claro), no qual três sujeitos se escoram pra beber a última da noite. O relógio acabou de passar das 23h e a poucos metros dos caras aparecem duas amigas sendo levadas por seus cachorros. Falam sobre comida, restaurantes e cardápios enquanto seus bichos de estimação cheiram os arcos metálicos coloridos projetados por Lilian Amaral e Jorge Bassani. A grama está alta.


Enquanto as amigas, e seus cachorros, descem rumo a Av. Angélica, carros passam zunindo tanto no sentido Av. Rebouças quanto no da Av. Dr. Arnaldo. E a Paulista lá, toda iluminada em seus quase 3 km de extensão, parecendo assombrar uma dupla de chineses. Após cerca de cinco minutos de um silêncio contemplativo, um vira para o outro e diz algo que gera risadas altas, então o outro dá um tapinha nas costas do um e ambos voltam para o seu hotel logo ali na Consolação.

O metrô está quase para fechar e mesmo assim teima em soltar seus guinchos através dos respiradouros que dão pra avenida. Luz verde, depois vermelha, depois verde, vermelha, e umas amarelas no meio do caminho, enquanto um casal de franceses conversa animadamente em frente ao Conjunto Nacional.  Cada vez menos gente nos pontos de ônibus e até os policiais parece que sumiram.


Então, em frente ao Parque do Trianon, o mistério do sumiço dos PMs se esclarece. É hora da troca de guarda e cerca de 40 soldados homens e mulheres fazem ‘sentido’ para os comandos genéricos do oficial superior. Dispensados, grita, e os policiais rapidamente vão para todos os lados da avenida em grupos de dois ou quatro. A fachada da FIESP continua piscando e escorrendo em luzinhas, um tanto mais tímidas é verdade, e ainda é possível ouvir skatistas acertando e errando manobras ao longe.

Em um bar logo após a Av. Brigadeiro Luis Antônio, um bêbado procura por cigarro enquanto os garçons recolhem cadeiras, mesas e sujeiras. Algumas poucas horas antes toda a calçada estava lotada de calouros de alguma universidade por ali, gente bebendo com coisas escritas com batom na testa. RP, Administração, Publicidade, futuros profissionais, a nova geração ao som de um grupo de samba que tocava de Adoniran Barbosa a Fundo de Quintal. Agora, naquela hora, não havia sobrado nem matrícula para contar a história.


De volta à Praça Oswaldo Cruz, um motoboy pede orientações a dois garis, que tem dificuldade para ouvir por causa do barulho de um esmeril em um prédio comercial que deveria estar vazio. Acabou de bater meia-noite e nem sinal do casal que lutou bravamente contra o banco anti-mendigos. Mas o índio pescador continua lá, mãos vazias, esperando. Ele tem certeza que sua hora chegará.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

cheiro de floresta, luz de cidade

taí minha outra contribuição pra edição de fevereiro da revista da gol, uma entrevista com a cantora lia sophia. só lamentei que o chamado para a matéria tenha surgido poucos dias depois d'eu ter voltado de belém. teria sido ótimo entrevistá-la em casa (como sempre, o batepapo aqui tá maior do que o da revista). de resto, conversa ótima, divertida, super franca. lembro bem da minha primeira impressão quando ouvi lia cantando "ai, menina" no terruá pará: "se os mariozinhos rochas da globo fossem espertos de verdade pegavam essa música correndo pra colocar em trilha de novela". cerca de um ano depois lá estava lia embalando personagens globais. novos ventos talvez.


foto de luiz braga

A MENINA QUER CANTAR

Uma das revelações da nova música paraense, Lia Sophia emplacou música em novela e agora quer mostrar mais de sua mistura sonora de floresta e cidade

Ela surgiu no canto esquerdo do palco, girando e girando, toda de branco. Estava de saia rodada, claro, e todo o Auditório Ibirapuera, em São Paulo, parou para ouví-la cantar. Foi ali, na segunda edição do festival Terruá Pará, em junho de 2011, que uma das cantoras paraenses mais interessantes da atualidade foi apresentada ao eixo Rio-SP. Mas Lia Sophia não era uma estreante, longe disso.

Nascida na Guiana Francesa, criada em Macapá e formada e radicada em Belém, Lia Sophia já possuía três discos na bagagem – Livre (2005), Castelo de Luz (2008) e Amor Amor (2009) – quando decidiu explorar outros mares. E tudo deu muito certo, desde uma música em trilha de novela (“Ai, Menina” em Amor Eterno Amor), com direito a participação em um dos capítulos, muitos shows e chuvas de elogios da crítica especializada.

Essa música, aliás, será o carro-chefe de seu quarto álbum solo, que sairá ainda neste primeiro semestre com patrocínio da Natura Musical e produção de Félix Robatto (La Pupuña e Gaby Amarantos) em parceria com a própria cantora. “O disco tá ficando com um cheiro de floresta e com a luminosidade da cidade”, afirma Lia, que também compõe e toca violão desde os 9 anos de idade. Quem já conhece sua mistura de pop, mpb, música caribenha, carimbó, brega e guitarrada sabe que um dos discos do ano está prestes a nascer.



Você é de uma família de músicos, sua mãe foi cantora de rádio, e mesmo assim ganhar a vida com música não era visto com bons olhos em sua casa. Ao mesmo tempo você cantava em igreja e aprendeu a tocar violão. Qual era o receio deles?  Naquela época, o que era música pra você?
Na minha casa a música sempre esteve presente, com duas funções bem distintas, uma era a de louvar a Deus – caminho por onde eu e meus irmãos seguimos, na infância e adolescência, na igreja – e a outra era a de alegrar as festas que meus pais faziam em casa, e eram muitas [risos]. Não se ouvia música que não fosse pra dançar. Chico Buarque, Caetano Veloso, João Gilberto e Maria Bethânia, nem pensar! Até os meus 17 anos de idade, eu não conhecia esses artistas, até já tinha ouvido alguma coisa, mas muito pouco mesmo. Boleros, bregas, zouks, carimbós, merengues, era isso que rolava. Meus pais não viam na música uma profissão segura, rentável, temiam que eu ou meus irmãos nos perdêssemos nos bares da vida, sem ter uma segurança financeira. Ironicamente, comecei a aprender violão por imposição de minha mãe, que sempre quis tocar e nunca teve a chance de estudar. Eu não queria tocar violão, machucava os meus dedos, e tinha apenas 9, queria fazer outras coisas. Mas quando toquei a primeira música que aprendi ao violão (“Pobre Menina”, Leno e Lílian) recebi muitos elogios, aplausos, foi um momento mágico, me apaixonei. Daí por diante passei a dormir abraçada com o violão ouvindo a rádio e tentando tocar tudo o que ouvia. Nessa época, e ainda hoje, a música é pra mim, uma forma de me aproximar de Deus. Me faz estar próximo do que é divino. Tocar um instrumento, compor uma canção, cantá-la, me faz sentir divina, criando algo novo e único. 

Imagino que sua mudança pra Belém para fazer faculdade tenha sido libertadora. Como a música foi entrando na sua vida nessa época? Teve algo de revolta com a família ou foi mais tranquilo? O que fazia teus ouvidos na época?
A mudança pra Belém era uma necessidade, pois em Macapá os cursos universitários eram muito limitados, não havia muita opção.  Nesse momento não foi nada libertador pra mim. Belém era a cidade grande, onde eu não conhecia ninguém, teria que aprender a andar de ônibus, fazer minha própria comida, cuidar de mim e ainda provar que era capaz de passar em uma prova de vestibular onde a concorrência era de 25 pra 1! Foi na verdade apavorante! [risos] Só hoje eu consigo ver como foi libertador! Me formei em Psicologia pela UFPA [Universidade Federal do Pará] mas nunca atuei na área. É que a música sempre esteve na minha vida e a necessidade de independência acabou me levando pra esse caminho. Comecei tocando em bares, depois fui para dentro dos teatros, os discos vieram, os shows foram aumentando, essa paixão toda me dominando [risos]… e a música se tornou a minha profissão. Com a qual conquistei respeito, construí a minha vida, com a qual me mantenho, enfim ultrapassando os limites e quebrando todos os preconceitos que a mim foram impostos e ensinados. É claro que nesse novo caminho escolhido, logo no início, tive sim alguns estranhamentos com meus pais, eles não botavam fé, mas foram mudando de opinião com as minhas vitórias. Nessa época ouvia muito Chico Buarque, João Gilberto, Marisa Monte, Gal Costa, Caetano Veloso… isso tudo me ajudou a começar a compor minhas primeiras canções.   

Como você vê hoje, com cerca de 10 anos de carreira, esse seu começo? Foi fácil ou difícil, e como foi, construir sua própria personalidade musical? E o lado compositora?
Esse começo foi difícil. Tocar em bar não é fácil, embora seja uma super escola para um artista, os cachês são muito baixos, as condições de equipamentos de som são péssimas, o repertório tem que ser bastante eclético para agradar ao público, nem sempre se toca só o que se gosta… e tudo bem, aprendi muito nessa época. Aprendi a cantar com muita alegria e prazer, sempre, mesmo em condições adversas, aprendi a respeitar e a valorizar o público que me assiste, aprendi a ser profissional. A minha personalidade musical foi se construindo nesse caminho, as minhas influências musicais da infância foram se misturando as novas descobertas, e as minhas composições deixam bem claro isso. Hoje acho que estou vivendo um momento de maturidade musical. Sei muito bem o que quero compor, cantar, como quero que soe e me envolvo na produção do meu trabalho em todas as etapas. A composição é um trabalho diário, com o qual eu tendo ser bem disciplinada, tiro sempre 2 a 3 horas diárias para trabalhar compondo, não costumo viver dos momentos de inspiração, quando eles acontecem, ótimo, senão acontecem, trabalho do mesmo jeito.


lia no show coletivo "terruá pará"

Nos últimos anos, a música paraense se tornou a bola da vez em termos de sucesso e encantamento nacional. Como você acha que isso aconteceu? O que tem a música paraense de mais interessante? O que você mais gosta pessoalmente nela?
Uma série de fatores favoreceu a música paraense, entre eles, as leis de incentivo estadual e municipal, palcos de diversos festivais de música produzidos aqui e pelo Brasil onde esses artistas puderam expandir seus públicos, a autopropaganda na internet e suas redes sociais, etc. Mas acho que essa é uma construção de muitos anos, e fazem parte dela, artistas que mesmo não inseridos diretamente neste momento, ajudaram para que isso seja possível agora. Artistas como Pinduca, Fafá de Belém, Nilson Chaves, Banda Calypso, e muitos compositores de Brega dos anos 1980 e 90, que a muito custo e sem esses fatores acima citados conseguiram levar para o Brasil um pouco da diversidade da música paraense. O que tem de mais interessante na música produzida aqui é a diversidade. Diversidade de influências, de sonoridades, de ritmos. Somos influenciados pela música do Caribe, que desde os anos 50 chegava por aqui pelas ondas do rádio, como o merengue, o calypso, o zouk, pela música africana dos quilombolas como o lundu e o carimbo, pela música indígena, e mais recentemente a música eletrônica. O que mais gosto na música produzida no Pará é a possibilidade de subverter os conceitos e poder fazer música com liberdade. É possível misturar música clássica com carimbó, ou rock com brega, merengue com jazz, e tudo bem, a música feita aqui tem uma identidade única. 


lia e a conterrânea gaby amarantos

E como você vê essa geração que você faz parte e que tem tanto o pessoal que pode ser rotulado como MPB (você, Luê, Felipe Cordeiro, etc.), gente que veio das aparelhagens (Gaby Amarantos, Gang do Eletro) e gente da velha guarda (carimbó, guitarrada, Dona Onete)?
É difícil rotular a música produzida no Pará. É possível perceber um pouco da música de cada um misturada a música do outro, mesmo assim são trabalhos muito diferentes. O carimbó que eu faço é diferente do carimbó que a Dona Onete faz, assim como o tecnobrega da Gaby é diferente do que faz a Gang. 

Emplacar música em trilha sonora de novela da Globo muda a vida do artista? Como foi essa experiência?
Muda um pouco sim. É claro que toda a visibilidade que a novela traz dá muitas possibilidades para o artista divulgar o seu trabalho ainda melhor. Mas é claro que isso depende muita coisa. Se a música foi bem tocada na novela, se o artista está preparado, bem assessorado para aproveitar esse momento, se tem um trabalho sólido para mostrar a partir daí, se esse artista tem um público que mantenha os seus shows e a sua agenda, enfim, a novela é apenas mais um passo na carreira de qualquer artista. Para mim foi uma surpresa muito feliz ter uma música em uma novela. Segundo o diretor, minha música foi descoberta em uma rede social na internet, através da produção que fazia pesquisas para compor a trilha musical. Eu havia gravado a música “Ai, Menina” em um disco promocional que enviei para várias rádios públicas, jornalistas, produtores, festivais, além de colocar para download na internet. Acabei colhendo frutos incríveis! A música foi parar na novela e eu, em uma cena da novela cantando o carimbó que virou hit. A música está sendo tocando em diversas rádios do país, cantada pela Timbalada, Preta Gil, Gaby Amarantos, foi a música mais executada na quadra junina no Pará, enfim, uma benção pra mim. A propósito, tenho feito isso há anos. Envio pelos Correios os meus discos para um mailing de contatos que consegui juntar em todos esses anos de carreira, que vão desde jornalistas, produtores, revistas, rádios. Já cheguei a gastar quase 3 mil reais com postagem de correios de uma só vez, acreditando que essa semente frutificaria. E frutificou! Meus discos tocam em lugares pra onde nunca fui. Ainda. 



Como estão os preparativos de próximo disco solo? Quais as novidades e diferenças deste trabalho para os anteriores?
Esse será o quarto álbum, e está sendo produzido por Félix Robatto e co-produzido por mim. Deverá ser lançado até abril deste ano. Já estamos no processo final das gravações e depois partiremos para a mixagem e finalização. Esse disco vem com uma linguagem contemporânea que traz as raízes da música paraense em muitas de suas vertentes. A ideia é mostrar toda a latinidade amazônica de maneira moderna misturando várias influências rítmicas do carimbó, da guitarrada, do zouk, o marabaixo com pitadas de elementos eletrônicos. O álbum traz uma brasilidade própria da região norte e nova para o Brasil. O repertório é composto em 70% de composições minhas em parceria com outros artistas, mas terá também regravações nacionais e locais. O disco tá ficando com um cheiro de floresta e com a luminosidade da cidade.

p.s.: depois vi que lia reviveu seus tempos de barzinho em sua participação no programa som brasil (tv globo). o repertório? "a lua e eu" (cassiano), "noite do prazer" (brylho, com participação de cláudio zolli) e "bye bye tristeza" (sandra de sá).