terça-feira, 27 de janeiro de 2026

cynthia e ariana, erivo e grande

na edição de janeiro da Revista Monet escrevi os perfis de Cynthia Erivo e Ariana Grande por causa da estreia de Wicked: Parte Dois nos streamings da vida. resolvi colocar os dois textos juntos aqui no blog porque faz sentido pela amizade e respeito profundos que as duas construíram durantes as filmagens da saga Wicked.

O PODER DE CYNTHIA ERIVO

“Não é uma maravilha isso?! Estar nessa posição, neste momento da minha carreira, é, primeiro, um privilégio; e, segundo, uma enorme surpresa. Ser uma dessas pessoas que está prestes a alcançar isso é simplesmente incrível”, disse Erivo sobre sua quase conquista do EGOT (Emmy, Grammy, Oscar e Tony Awards) para a Billboard em junho do ano passado. A inglesa já bateu na trave duas vezes ao não levar por suas atuações em Harriet e na primeira parte de Wicked. A Academia não indicaria Erivo novamente pelo mesmo papel, como efetivamente aconteceu, e sua Elphaba em Wicked: Parte Dois nem foi indicada. 

Mas o adiamento dessa merecida conquista não tira o sono de Cynthia Chinasaokwu Onyedinmanasu Amarachukwu Owezuke Echimino Erivo, afinal ela sabe que estará na companhia de artistas como Barbra Streisand, Liza Minnelli, Audrey Hepburn, Whoopi Goldberg e Viola Davis (são 21 EGOTs ao total). Então, nada é mais justo que consagrar essa filha de refugiados nigerianos que em apenas dez anos se tornou unanimidade mundial em termos de voz, força e presença. 

Cynthia Erivo já era conhecida por seu canto e intensidade nos palcos londrinos no início dos anos 2010 quando deu um grande salto ao estrear na Broadway, em 2015, no musical A Cor Púrpura (que ela já tinha feito em Londres). O sucesso de sua interpretação de Celie foi imediato – no filme de Steven Spielberg, a personagem foi interpretada por Whoopi Goldberg –, os primeiros prêmios vieram e seu nome passou a ser cobiçado pelo cinema. 

Mas Erivo, muito sabiamente, disse sim para dois filmes nada musicais: As Viúvas (com Viola Davis, Liam Neeson e Colin Farrell) e Maus Momentos no Hotel Royale (com Jeff Bridges, Dakota Johnson, Jon Hamm e Chris Hemsworth), ambos de 2018. Queria mostrar, acima de tudo, que não deixaria ser rotulada por um gênero ou outro. 

Então, já em seu terceiro filme, conseguiu unir atuação dramática e música. Em Harriet (2019), Erivo interpretou a abolicionista Harriet Tubman (1822-1913) na sua luta contra a escravidão nos Estados Unidos. Sua atuação recebeu novos e maiores elogios, foi indicada ao Oscar e co-escreveu e cantou, na trilha sonora do filme, a música “Stand Up” (também indicada ao Oscar). 

“Escrever, cantar e atuar se alimentam mutuamente. Quando canto, me sinto livre e aberta, o que significa que, quando vou atuar - porque já me proporcionei essa experiência -, a vontade de me fechar novamente meio que desaparece. Então, quando estou em um set de filmagem, estou tão aberta quanto quando estou cantando. Estou à espera de receber o que quer que esteja sendo transmitido pelo meu parceiro ou por quem estiver contracenando comigo, para que eu possa realmente ouvir. Porque o ato de escrever e cantar é, na verdade, também o ato de ouvir”, disse em entrevista para a Associated Press. 

Entre palcos e sets, Erivo foi construindo uma carreira diversa e surpreendente. Após a pandemia, a atriz encarnou, por exemplo, tanto a lendária cantora Aretha Franklin na minissérie Genius (2021) quanto uma fada em Pinóquio (2022) ou uma refugiada perdida em uma ilha grega em Drift (2023), e emprestou sua voz para muitas animações, tais como Star Wars: Visions, Garota da Lua e o Dinossauro Demônio e Big Mouth. 

Em meio a tudo isso, lançou seu primeiro disco solo (Ch. 1 Vs. 1, 2021) que foi bem recebido, mas que ela, olhando em retrospecto, acha que tem alguns problemas. Talvez tenha sido o momento atribulado, pois foi bem entre os anos 2021 e 2022 que Erivo assumiu publicamente sua homossexualidade, algo que já sabia e se sentia segura e acolhida por familiares e amigos desde antes da estreia de A Cor Púrpura em Londres. 

“Mas antes eu nunca tinha realmente explorado [minha sexualidade queer], eu nunca tinha realmente descoberto, entendido ou aprendido sobre isso. Foi então que pensei: ‘Nossa, vou interpretar essa mulher que está explorando e aprendendo sobre sua própria sexualidade queer ao mesmo tempo em que tenta descobrir o que é o amor.’ E algo maravilhoso aconteceu ao mesmo tempo - eu pude fazer o mesmo por mim mesma”, disse em entrevista para Billboard. 

Quando entendeu a personagem e, depois, quando assumiu publicamente sua orientação sexual, Erivo sentiu um alívio que não sabia nem descrever. “É como se meus pés finalmente tocassem o chão. Até mesmo o trabalho que comecei a fazer a partir dali, seja em um set de filmagem ou em um estúdio, passei a fazer muito mais relaxada”. 

E então, para coroar esse momento, surgiu Elphaba em sua vida. Elphaba, a Bruxa Má do Oeste de O Mágico de Oz (1939). Elphaba, a coprotagonista do musical Wicked (2003, e ainda em cartaz). Erivo amava o musical e tinha certeza que ela era, sem sombra de dúvida, Elphaba. Durante três horas de audição, e com febre alta, a inglesa colocou todas suas energias restantes diante do diretor Jon M. Chu, do produtor Marc Platt e dos diretores de elenco. 

Chu ficou muito impressionado. “Acho que escalar Cynthia foi provavelmente a coisa mais inteligente que já fiz na vida. É porque ela encarou isso como uma história muito pessoal e trouxe à tona essas questões sobre o que é se sentir diferente, o que é ter pessoas constantemente dizendo que você precisa agir de uma forma ou de outra para ser aceito, que você precisa provar seu valor para alguém”, disse em entrevista para o site Deadline. 

Wicked, o musical, tem dois atos. Wicked, o filme, também. E as duas partes foram filmadas juntas entre dezembro de 2022 e janeiro de 2023 (com quatro meses de ensaios antes das filmagens). Todo este longo processo uniu muito todo o elenco – composto ainda por Jonathan Bailey, Bowen Yang, Jeff Goldblum e Michelle Yeoh –, mas principalmente as protagonistas Cynthia Erivo e Ariana Grande. A união, o bom humor, o carinho e o respeito de uma com a outra renderam memes e cortes impagáveis, tanto na mais longa turnê de divulgação de Wicked quanto na menor e mais tumultuada turnê de Wicked: Parte Dois. 

Erivo confessou ao LA Times, em meados de 2024, que ela e Grande “ficaram meio surpresas com o fascínio das pessoas por nós como dupla. Porque estávamos apenas fazendo o que vínhamos fazendo enquanto filmávamos. Quer dizer, passamos muito tempo juntas. Quando você passa tanto tempo com uma pessoa, você acaba ou amando ou odiando. E nós acabamos nos amando”. É química que chama.

ESSA MOÇA TÁ DIFERENTE

Pouco mais de um ano atrás, quando estava divulgando a primeira parte de Wicked, Ariana Grande foi ao cultuado podcast Las Culturistas de Bowen Yang e Matt Rogers e soltou uma bomba. “Vou dizer algo tão assustador – vai deixar meus fãs apavorados, mas eu os amo, eles vão lidar com isso e estaremos aqui para sempre... sempre farei música, sempre subirei ao palco, sempre farei coisas pop, promessa de dedinho. Mas não acho que continuar fazendo o que fiz no ritmo dos últimos 10 anos seja o que vejo para meus próximos 10 anos”, confessou. 

Então, entre risadas emocionadas, a cantora e atriz completou que “estou querendo me reconectar com essa parte de mim que começou no teatro musical e que ama comédia. Estou buscando papéis para usar essas partes de mim, qualquer coisa que faça sentido, ou qualquer papel seja adequado, ou onde possa realmente fazer um bom trabalho ou honrar o material. Acho que esse é um cenário muito melhor para mim.” 

Do alto de seus 32 anos, Ariana Grande-Butera construiu, de 2013 em diante, um reinado pop a partir de 7 álbuns e 90 milhões de discos vendidos. O mais recente, Eternal Sunshine, é de 2024 e, passados os lançamentos dos dois Wicked, Grande prometeu aos fãs que faria uma série de shows, o que não fazia desde 2019. O resultado é que, de junho a setembro, a artista fará 41 shows e pronto. Mas não necessariamente um ponto final. 

Recentemente, durante o lançamento de Wicked: Parte 2, Grande foi a outro podcast – o premiado ‘Good Hang’ da atriz Amy Poehler – e voltou a ser muito sincera sobre o futuro próximo. “Estou muito animada para fazer essa pequena turnê, mas acho que isso pode não acontecer de novo por muito, muito, muito, muito tempo”, disse ela. “Então vou dar tudo de mim e vai ser lindo, e acho que é por isso que estou fazendo isso, porque é como um último suspiro.” 

Antes dos filmes Wicked, Grande trazia consigo experiências de atriz nas sitcons que fez quando adolescente/jovem adulta (Brilhante Victória e Sam & Cat) e um papel pequeno e impagável na comédia Não Olhe Pra Cima (2021), contracenando com Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence. Mas o reconhecimento por sua atuação como Glinda em Wicked com uma indicação a um Oscar (de Atriz Coadjuvante) deu um gás em sua mudança de trajetória, e Grande já está comprometida com uma comédia com Ben Stiller (Focker-in-Law), uma série de Ryan Murphy (nova temporada de American Horror Story) e uma animação (Oh, the Places You'll Go!). 

Coincidência ou não, Ariana Grande é mais uma estrela pop da atualidade que parece estar se mudando para o cinema e streamings. Selena Gomez, que também começou cedo em sitcons infanto-juvenis e também possui um império de cosméticos como Grande, vem colhendo o sucesso por suas performances na série Only Murders in the Building e no filme Emilia Perez e não pensa em outra coisa. Bem como Charli XCX, que mesmo com o sucesso estrondoso de seu último disco (Brat), afirmou que seus interesses artísticos agora são atuar e compor para cinema. E tudo certo. O lugar delas é onde elas quiserem.

Ariana e Cynthia entrevistadas por Gloria Groove durante passagem pelo Brasil

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